Minha Versão de Você
Capítulo Dezesseis
– Você devia nos acompanhar no próximo fim de semana – ele fala baixinho.
E eu ouço em sua voz, ouço-o implorando para que isso seja resolvido de um jeito: eu entrar para a igreja. Percebo o jeito como levanta o canto do tapete e habilmente varre essa pilha de poeira inconveniente para ali debaixo. E continua:
– Temos uma atividade para os jovens e vai ser bem legal.
– Você quer levar o seu namorado para um evento da igreja?
Suas sobrancelhas se repuxam com essas palavras, antes de seu semblante voltar ao normal.
– Eu quero levar você.
Acho que, na verdade, Sebastian não esperava que eu aceitasse o convite. Até Autumn me olhou em choque quando comentei que participaria de uma atividade da igreja. E, de todo modo, cá estamos nós, Sebastian e Tanner, estacionando o carro ao lado do campo de futebol do bom e velho Fort Utah Park.
Saímos do carro e eu o sigo pela pequena colina até onde todos se reúnem em um círculo em volta de enormes caixas de papelão ainda fechadas. Para meados de abril, a paisagem está linda. Certamente significa que todo mundo vai ficar doente quando a temperatura voltar a ficar negativa, mas agora ela ultrapassa os 15ºC e ninguém com menos de 20 anos está de calça comprida. Vejo pernas brancas escapando de shorts por todos os cantos.
Mas sejamos sinceros: diferentemente dos shorts cortados, que mostram até as nádegas, que Hailey usa, as peças que essas pessoas usam são bem-comportadas.
Não é estranho ver tantos seres humanos usando roupas tão comportadas, mas isso me faz pensar brevemente em como é ser mórmon em cidades onde eles não são a maioria.
Meninas encaram e ficam agitadas conforme Sebastian vai se aproximando.
Percebo também alguns meninos olhando para ele um segundo além do normal.
Será que percebe o efeito que exerce nas pessoas? Nem é ele quem vai coordenar o evento, mas parece que todos estavam esperando sua chegada.
Algumas pessoas se aproximam e o cumprimentam com apertos de mão. Sou apresentado a um Jake, a um Kelln, a duas McKennas (nenhuma delas é a McKenna do colégio) e a um Luke, antes de parar de tentar decorar os nomes e simplesmente cumprimentar a todos com um sorriso e um aperto de mão sincero.
Um rapaz com mais ou menos a minha idade, talvez um pouco mais velho, vai à frente do grupo e se apresenta. Seu nome é Christian e ele está muito feliz por eu estar aqui para me unir ao grupo. Claramente, é ele quem vai coordenar o exercício.
Com isso, começamos.
– Vamos fazer um serviço hoje. – Christian explica, e ouço um silêncio se espalhar pela multidão. As seis enormes caixas se tornam o foco da atenção de todo mundo quando ele se apoia em uma delas. E prossegue: – As instalações deste parque estão ficando velhas e parece que chegou a hora de uma reforma. –
E bate na caixa ao seu lado. – Aqui dentro, meus amigos, está tudo o que vocês
precisam para construir uma mesa ou um banco. – Um sorriso brota em seu rosto. – O segredo é que não temos instruções nem ferramentas.
Olho para o grupo à minha volta. Ninguém parece nem de longe surpreso com essas regras. Sem instruções até que tudo bem, mas sem ferramentas?
Em pânico, minha mente grita: “Mas... e as farpas?!”
– Vamos nos dividir em seis equipes. – Quando Christian anuncia isso, sinto Sebastian casualmente se afastando de mim, e então, olho em sua direção, mas ele acena uma negação. – Primeiro, precisamos levar as mesas e bancos existentes aqui ao estacionamento, onde serão recolhidos pelo grupo do Irmão Atwell. Depois, começamos a construir. Mais tarde, teremos pizza. Bebam água sempre que precisarem. Lembrem-se, não se trata de uma competição. Levem o tempo necessário e façam as coisas do jeito certo. É assim que retribuímos. – Ele sorri e alguma coisa dentro de mim parece muito, muito fora de lugar quando acrescenta: – Agora, alguém se habilita a fazer uma oração?
Essa parte me pega de surpresa, e percebo o pedido de desculpas no olhar que Sebastian me lança, antes de baixar a cabeça.
Um adolescente dos mais velhos do outro lado do círculo dá um passo adiante:
– Pai, obrigado por nos unir neste belo dia da primavera. Obrigado por suas muitas bênçãos, pelos corpos fortalecidos que usaremos hoje. Abençoe-nos para que possamos nos lembrar das lições de hoje e aplicá-las em nosso dia a dia, para que possamos lembrar que somente pelo Senhor encontramos a salvação.
Por favor, guie os propósitos do Irmão Davis para que não tenhamos uma repetição da visita à emergência, como ocorreu na semana passada. – Uma onda de risadinhas se espalha pelo grupo, e o rapaz fazendo a oração engole seu sorriso antes de concluir: – Abençoe-nos para que cheguemos seguros em casa.
Pedimos isso em nome de Jesus Cristo. Amém.
Quando ele ergue a cabeça, a distância de Sebastian faz sentido, pois Christian começa a nos contar, de um a seis. Meu namorado acaba de trabalhar para que fiquemos na mesma equipe, para que sejamos vítimas das mesmas farpas.
Nós dois nos unimos a duas meninas sorridentes de treze anos, um aluno do primeiro ano chamado Toby e um mais novo chamado Greg. Toby, Greg, Sebastian e eu nos somamos às outras forças masculinas que tiram as antigas mesas de piquenique do lugar. As meninas esperam e assistem, e a maioria delas só tem olhos para Sebastian.
Tento imaginar Hailey nesta situação. Ela ficaria completamente louca se começássemos a fazer algum trabalho manual sem esperar sua ajuda.
Como esperava que esse exercício de construção fosse bastante simples, fico surpreso ao me deparar com aproximadamente setenta peças de madeira em uma
caixa e nenhuma indicação de onde cada uma delas se encaixa. É claro que Sebastian e Greg estão acostumados, fizeram isso a vida inteira. Rapidamente, começam a trabalhar separando as peças de acordo com tamanho e forma, enquanto Toby e eu agimos como força física, movimentando os componentes conforme as instruções deles.
Sebastian pede a Katie e Jennalee:
– Podem separar todas as peças deste tamanho? – E mostra um pino de madeira de aproximadamente 10 centímetros. Eles estão espalhados por toda a área do gramado onde viramos as caixas. – E certifiquem-se de que temos tantas cavilhas quanto forem os buracos, está bem?
Ele aponta para o lugar onde as cavilhas se encaixam nas placas de madeira.
As meninas imediatamente começam a trabalhar, felizes por, enfim, terem uma tarefa.
– Tann – ele chama, e a familiaridade de sua voz faz minha pele arrepiar –, venha aqui me ajudar a alinhar as peças.
Trabalhamos lado a lado, encaixando as tábuas que formam o tampo e as que formam as pernas. Concluímos que teremos de usar uma das tábuas menores e mais pesadas como marreta para encaixar as peças, e depois a bota de Greg para encaixar essa última tábua. Para ser sincero, pensar para solucionar problemas traz alegria, mas não chega nem perto do frio na barriga que sinto quando estou agachado ao lado de Sebastian, sentindo seu corpo se movimentar junto ao meu.
Sério, se ele queria que eu viesse aqui e encontrasse uma religião, missão cumprida.
Somos o primeiro grupo a terminar e nos dividimos para ajudar os que estão tendo dificuldades para transformar as várias partes da mesa em ferramentas. Eu estaria exagerando se dissesse se tratar de um trabalho exigente, mas tampouco é fácil, e, quando as pizzas chegam, fico feliz de ver aquelas caixas empilhadas.
Porque estou f-a-m-i-n-t-o.
Sebastian e eu soltamos o corpo contra o tronco de uma árvore, um pouco distantes do grupo. Com as pernas relaxadas, devoramos as fatias como se não comêssemos há semanas.
Adoro vê-lo comer – é tão fascinante ver seus bons modos –, mas hoje Sebastian parece um pedreiro bruto. Faz um rolo com a fatia de pizza e enfia a maior parte na boca em apenas uma mordida. Ainda assim, nada cai em seu queixo ou na camisa. Eu dou uma mordida e já estou com uma mancha de gordura de pepperoni na camiseta.
– Puta que pariu! – chio.
– Tann!
Olho para Sebastian, que sorri, mas logo inclina a cabeça para dizer “cuidado
com as palavras”.
Timidamente, arrisco:
– Desculpa.
– Eu não me importo – confessa baixinho –, mas grande parte daquele pessoal ali não ficaria nada feliz.
Estamos distantes o suficiente do grupo para eu ter essa sensação de privacidade, muito embora ela não seja totalmente real.
– Há quanto tempo você conhece todo mundo aqui?
– Alguns deles, a vida toda. – Conta, olhando para o grupo. – A família de Toby se mudou para cá há apenas dois anos. E parte do pessoal só se converteu recentemente. Por exemplo, acho que é a primeira atividade de Katie.
– Nem teria me passado pela cabeça – provoco.
– Qual é? Ela é boazinha.
– Ser boazinha não tem absolutamente nada a ver com ela ter precisado de 20
minutos para encontrar 40 cavilhas.
Ele dá uma risadinha discreta para concordar comigo.
– Desculpa pela oração mais cedo. Sempre esqueço.
Aceno para dizer que não tem problema e observo com novos olhos o gramado tomado por adolescentes.
– Você já ficou com alguém daqui?
Ele ergue o queixo, apontando para uma menina alta do outro lado do campo de futebol, comendo perto do gol.
– Manda.
Sei de quem está falando. Ela se formou na turma de Sebastian e foi parte do Conselho Estudantil. É bonita, inteligente e nunca ouvi qualquer fofoca dela.
Tenho certeza de que seria o par dos sonhos para ele.
– Quanto tempo? – pergunto.
Nossa, essa pergunta saiu com um tom endurecido. E ele também notou.
– Está com ciúmes?
– Um pouco.
Percebo que Sebastian gosta da minha reação. Suas bochechas ficam ruborizadas.
– Mais ou menos um ano. Entre o primeiro e o segundo ano do ensino médio..
Uau. Quero perguntar o que ele fez com ela, quantas vezes se beijaram, quão próximos ficaram... mas não pergunto. Em vez disso, falo:
– Mas mesmo nessa época você sabia...
Sebastian olha duramente para cima e em volta. Seus traços relaxam quando confirma que ninguém consegue ouvir.
– Sim, eu sabia. Mas pensei que, talvez, se experimentasse...
Sinto como se cem alfinetes se afundassem lentamente em minha pele. Um ano de relacionamento é tempo demais experimentando.
Eu não sou... isso.
– Mas você não dormiu com ela, dormiu?
Ele dá mais uma mordida na pizza, negando com a cabeça.
– Então, ainda acha que pode se casar com uma Manda um dia?
Percebo a exasperação em seu semblante quando ele olha para mim, enquanto ainda mastiga. Ao engolir, lança um olhar carregado de significado para tudo o que há em volta.
– Você acha que aqui é o melhor lugar para termos essa conversa?
– Podemos falar depois.
– Eu quero você. – Admite baixinho, preparando-se para morder mais um pedaço de pizza. Depois de engolir de novo, olha direto para a frente, mas acrescenta: – Não quero mais ninguém.
– Você acha que a igreja vai mudar de opinião sobre nós? – questiono. Aceno na direção de seus colegas no gramado. – Acha que em algum momento vão aceitar?
Sebastian encolhe os ombros.
– Não sei.
– Mas você se sente feliz comigo.
– O mais feliz que já estive em toda a vida.
– Então sabe que o que temos não é errado.
Seus olhos são transparentes quando ele olha para mim:
– É claro que sei.
As emoções fecham minha garganta. Quero beijá-lo. Seu olhar recai em minha boca e ele logo pisca, disfarçando, outra vez com o rosto vermelho.
– Você sabe no que estou pensando. – Falo. – No que estou sempre pensando.
Ele assente, inclinando o corpo para pegar sua garrafa de água.
– Sim. Eu também estou.
O sol está baixo no céu quando colocamos tudo de volta no lugar e testamos para ter certeza de que as mesas e bancos estão firmes e bem-montados. As pessoas riem, brincam, jogam Frisbee. É muito melhor do que as lutas e os insultos daquele passeio no lago alguns dias atrás. Existe uma camada inegável de respeito em tudo o que fazemos aqui. Respeito pela comunidade, uns pelos outros, por nós mesmos, pelo Deus deles.
Quase todo mundo entra em uma van enorme para voltarem ao
estacionamento da igreja, mas Sebastian e eu ficamos para trás e acenamos enquanto eles somem da vista.
Ele se vira para mim e um sorriso brota em seu rosto.
– E, aí, foi tão horrível assim?
– Acabei mesmo de pensar que não foi ruim. – Respondo, e ele ri das minhas palavras. – Para ser sincero, foi bem legal. Todo mundo é muito gentil.
– Gentil – ele repete, balançando levemente a cabeça.
– O que foi? Estou falando sério. É um grupo de pessoas gentis.
Gosto de estar com a comunidade dele não por achar que me encaixe ali, mas porque preciso abrir um pouco a cabeça. Preciso entender por que ele diz coisas como “senti o Espírito muito fortemente esse fim de semana”, preciso entender seu hábito de orar para encontrar respostas. A realidade é que essa foi a língua com a qual ele nasceu e a qual cresceu ouvindo. A Igreja Mórmon tem todo um vocabulário que ainda soa muito empolado para mim, mas que, simplesmente, sai da boca deles, e estou começando a entender que isso, essencialmente, significa apenas coisas como “estou tentando fazer a melhor escolha” e “preciso entender se o que estou sentindo é errado”.
Os únicos sons que ainda restam no parque são o canto dos pássaros nas árvores lá em cima e o barulho distante dos pneus no asfalto.
– O que você quer fazer? – pergunto.
– Não quero ir para casa ainda.
Todo o meu corpo vibra.
– Então vamos ficar aqui fora.
Entramos no meu carro com o peso do silêncio ansioso se espalhando em minha pele. Dou partida e dirijo. Apenas dirijo. Não sei aonde estamos indo ou o que faremos ao parar, mas, quando estamos a quilômetros de nossas casas, a mão de Sebastian encosta em meu joelho e lentamente sobe em minha coxa. As casas desaparecem e logo estamos em uma rodovia de pista simples. Por instinto, entro em uma estrada de terra que leva a um acesso restrito ao lago.
Sebastian olha enquanto passamos pelo portão aberto com uma placa de ACESSO PROIBIDO parcialmente obstruída por folhas que cresceram demais.
– Podemos mesmo entrar aí?
– Provavelmente não, mas parece que não faz muito tempo que esse portão foi aberto, então imagino que não seremos os primeiros a tentar.
Sebastian não responde, mas sinto sua incerteza na tensão de sua mão em minha perna, na rigidez de sua espinha. Tenho que acreditar que ele vai relaxar quando perceber como realmente estamos isolados aqui depois do escurecer.
A lama se torna mais densa e eu estaciono em uma área de grama firme.
Desligo os faróis e, por fim, o motor. Lá fora, tudo está quase completamente
escuro, exceto pelo reflexo da lua na superfície do lago. Meu pai sempre insiste que eu mantenha alguns itens de emergência no porta-malas, incluindo um cobertor pesado, e, embora esteja esfriando depois do pôr do sol, tenho uma ideia.
Abro a porta e olho para ele.
– Venha.
Relutante, ele me acompanha.
Puxo o cobertor do porta-malas e o abro no capô ainda quente do carro.
Usando algumas jaquetas e uma toalha de praia que encontro ali dentro, faço alguns travesseiros para nós e os coloco perto dos limpadores de para-brisa.
Assim, podemos nos deitar e olhar as estrelas.
Quando vê o que estou fazendo, Sebastian me ajuda a organizar tudo, e, aí, subimos no capô, onde nos deitamos e deixamos escapar, em uníssono, um gemido de satisfação.
Ele deixa escapar uma risada.
– Parecia tão confortável.
Aproximo-me um pouco mais e o capô protesta com um gemido metálico.
– Não é tão ruim assim, vai.
No céu, a lua se dependura baixa no horizonte e as estrelas parecem brilhar aos montes.
– Uma coisa que gosto desse lugar é que você pode ver as estrelas à noite. –
Conto. – Em Palo Alto, era impossível. Muita poluição.
– Uma coisa que você gosta neste lugar?
Viro-me para beijá-lo.
– Desculpa, duas.
– Não sei nada de estrelas. – Confessa quando olho outra vez para o céu. –
Sempre quis aprender, mas parece que nunca encontro tempo.
Aponto o dedo e explico:
– Ali está Virgem. Está vendo aquelas quatro que formam um tipo de trapézio assimétrico? Também tem as Gamma Virginis e Spica... Elas formam, tipo, uma linha de pipa abaixo.
Sebastian aperta os olhos, aproximando-se de mim para ver melhor a direção em que estou apontando.
– Aquela forma ali?
– Não, acho que você está olhando para Corvus. Virgem é... – Movimento a mão dele acima do meu peito. Meu coração vai se arrastar até a boca e sair do corpo. – bem ali.
– Sim, sim – sussurra, sorrindo.
– Aquele ponto mais forte é Vênus.
Animado, ele inspira.
– Certo, eu lembro...
– E logo ao lado, aquelas mais juntinhas? Plêiades. Elas estão cada vez mais próximas.
– Onde você aprendeu tudo isso? – pergunta.
Viro-me para olhar para ele.
Ele também está me estudando, tão próximo.
– Com meu pai. Não tem muita coisa para fazer depois de escurecer quando estamos acampando, então comemos, contamos histórias de terror e olhamos as constelações.
– Se eu ficar olhando sozinho para o céu, só consigo localizar o Carro de David.
Seus olhos deslizam na direção da minha boca.
– Eu não saberia nada disso se não fosse o meu pai.
Ele pisca, olha para cima.
– Seu pai parece ser legal.
– Ele é.
Sinto uma dor ganhando força em meu peito porque meu pai é o melhor do mundo, em parte porque me conhece e me ama integralmente. Por outro lado, tem todo esse lado de Sebastian que seu pai desconhece por completo. Eu posso ir para casa e contar ao meu velho tudo o que aconteceu hoje, posso contar que me deitei aqui, com Sebastian, no capô do antigo Camry de minha mãe, e isso não mudaria nada entre nós.
Parece que Sebastian está pensando na mesma coisa, porque quebra o silêncio e diz:
– Não paro de pensar no meu pai aquele dia, me abraçando com tanta força.
Juro que, em toda a minha vida, a única coisa que quis foi me esforçar para que ele se orgulhasse de mim. É tão esquisito dizer isso em voz alta, mas sinto que, se meu pai sentir orgulho de mim, será a confirmação de que Deus também tem orgulho de mim. – Não sei o que dizer. – Sequer consigo imaginar o que meu pai faria se soubesse onde estou. – Sebastian ri e desliza a mão em seu peito. – Em uma estrada de terra, com uma placa que diz que o acesso é proibido, deitado no carro com meu namorado... – A palavra faz um choque se espalhar por mim. –
Eu já orei muito para não sentir atração por meninos – admite.
Viro-me para ele, que nega com a cabeça antes de continuar:
– Sempre me sentia terrível depois, como se estivesse pedindo por algo tão pequeno enquanto outras pessoas enfrentam problemas tão maiores. Mas, aí, conheci você e...
Nós dois deixamos as palavras no ar. Escolho pensar que o fim da frase seria
algo como “e aí Deus me disse que você era a escolha certa para mim”.
– Entendo – digo.
– Então ninguém do colégio sabe que você gosta de meninos – ele fala.
Percebo que prefere mais uma vez evitar palavras como “gay”, “bi” ou
“queer”. Agora, seria o momento perfeito para falar sobre Autumn, Manny, Julie e McKenna, mas é tão fácil deixar isso de lado. Quero dizer, vai saber o que as meninas ouviram, Manny manteve a discrição até agora e Autumn prometeu, sob pena de morte, que jamais contaria nada a ninguém. Sebastian tem seus segredos, acho que eu também posso ter os meus.
– Não. Acho que, porque saí com meninas, a maioria supõe que eu seja hétero.
– Ainda não entendo por que não escolhe ter uma namorada, se tem essa opção.
– Eu me interesso pela pessoa, e não pelo que posso fazer com ele ou ela. –
Seguro sua mão, entrelaço nossos dedos. – Não é uma escolha minha. Assim como você também não escolhe.
Percebo que Sebastian não gostou do que acabei de dizer.
– Mas você acha que poderia contar a mais pessoas um dia? Tipo, se acabasse ficando com um cara, você se... assumiria?
– Todo mundo saberia se você fosse ao baile de formatura comigo.
Sebastian parece horrorizado.
– O quê?
Meu sorriso vacila. Eu não planejava dizer isso, mas também não planejava não dizer.
– O que você diria se eu o convidasse?
Percebo o conflito estampado em seu rosto.
– Quero dizer... eu... eu não poderia.
Uma pequena centelha de esperança se apaga em meu peito, mas não estou surpreso.
– Não tem problema. – Respondo. – Bem, é claro que eu o levaria, mas não esperava que você aceitasse. Nem sei se eu próprio me sinto cem por cento pronto para algo assim.
– Você vai ao baile?
Viro o rosto para o céu e respondo:
– Talvez com Autumn, se ela furar com Eric. Ainda falta alguém para completar o grupo, e ela quer que eu chame Sasha.
– Sasha?
Aceno com a mão para dizer que nem vale a pena explicar.
– Você já ficou com Autumn? – Ele quer saber.
– A gente deu uns amassos uma vez. Foi mágico.
– Para você ou para ela?
Sorrio e olho outra vez para ele.
– Para mim. Não sei se foi para ela.
Seu olhar desliza por meu rosto e pousa em meus lábios.
– Eu acho que ela é apaixonada por você.
Não quero falar de Autumn agora.
– E você, é?
Inicialmente, ele não entende o que quero dizer. Uma linha minúscula se forma entre suas sobrancelhas, maculando a paisagem lisa de sua testa.
Mas essa linha logo se desfaz. Seus olhos se arregalam.
Mais tarde, voltarei a esse assunto e me perguntarei se ele está me beijando agora porque não quer responder ou se a resposta era tão óbvia a ponto de ele só precisar me beijar. Mas, neste momento, quando ele traz o corpo na minha direção, quando vem em cima de mim, sua boca tão familiar e tão quente junto à minha, as emoções se tornam líquidas; um oceano enche o meu peito.
Deparo-me com uma verdadeira impossibilidade quando escrevo, quando penso outra vez nesse momento, quando ele está me tocando e suas palmas me marcam, as pontas de seus dedos deixando pequenas marcas de calor em minha pele. Quero capturar esse momento de alguma forma, não apenas para lembrar, mas para poder explicar. É quase impossível colocar em palavras essa transição frenética, o emaranhado que nos tornamos. Só consigo pensar em uma onda na praia e na força física incontrolável da água.
A única certeza que tenho no momento em que seu toque deixa de ser exploratório e se torna decidido e cheio de propósito e seus olhos estão fixos em meu rosto, cheios de desejo enquanto eu caio, é a de que nós dois agora estamos pensando em como isso é bom. Mas esse momento e os momentos de silêncio que vêm em seguida não podem ser editados. Não podem ser reescritos. Não podem ser apagados.