Minha Versão de Você

Christina Lauren · Capítulo 23 de 25

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Minha Versão de Você

Sebastian

– Ah, meu Deus, me desculpa. – Tanner fala baixinho. – Eu não devia ter vindo.

– Você gosta do gênero fantasia? – A voz de Sebastian continua forçosamente clara.

E seus olhos se arregalam em um esforço para engolir as lágrimas.

Os dois saem feridos e, agora, Tanner se sente um monstro.

– Espero que a turnê do livro seja maravilhosa. – Diz, sem se importar em responder à pergunta falsa e insignificante lançada por Sebastian. – Espero que a missão também seja. Vou para Los Angeles em agosto, mas me ligue quando quiser. – Lança um último olhar. – Quando quiser.

Pega o livro da mão de Sebastian sem sequer olhar para o autógrafo e dá meia-volta, deixando Autumn lá dentro para pagar. Depois de atravessar a multidão, Tanner se vê outra vez na rua, onde há oxigênio, espaço e uma completa ausência de olhares apontados para ele.

 

Estar na turnê de divulgação do livro é como ser capaz de respirar outra vez.

Não há acompanhantes, nem pais. Não há igreja.

Não que a mãe dele não tivesse sentido vontade de acompanhá-lo. Sebastian jamais soube se a tentativa dela foi impulsionada ao ver Tanner na livraria ou se foi apenas um desses ataques de tensão de último minuto que as mães, às vezes, têm. De todo modo, ela enviou um e-mail ao relações-públicas dois dias antes de Sebastian partir. Por sorte, o relações-públicas explicou que os voos e as acomodações já haviam sido reservados e, a não ser que ela estivesse disposta a pagar do próprio bolso voos e hotéis em treze cidades por todo o país, agora não havia tempo para acomodá-la nos planos.

Sebastian já havia viajado para fora de Utah em excursões escolares e férias familiares, mas nunca desse jeito. Sua editora providenciou um carro e um motorista para buscá-lo no aeroporto e deixá-lo no hotel, e ele pôde contar com um funcionário durante os eventos, mas o restante do tempo foi só seu.

A próxima sessão de autógrafos é em Denver e, embora obviamente não se possa esperar que seja tão grande quanto a de Provo, sua cidade natal, ainda está bem lotada. Sebastian responde a perguntas em uma sala com pouquíssimas cadeiras vazias. É surreal se dar conta disso. Perceber que todas essas pessoas conhecem seu trabalho é tão gostoso quanto o cheiro de um prato delicioso se espalhando pelo ar.

A fila é formada predominantemente por meninas, mas também há alguns garotos. Sebastian sabe que Tanner não vem, mas sua caneta quase escorrega para fora da página quando ele ouve uma voz grossa mais para o fim da fila, e seus olhos apontam automaticamente naquela direção, na esperança de que uma cabeça cheia de cabelos escuros surja na multidão.

Às vezes, não consegue acreditar que Tanner realmente foi ao lançamento.

Seus pais certamente não quiseram reconhecer a presença do garoto. Depois que Autumn e Tanner se foram, não havia ninguém a quem Sebastian pudesse perguntar: “Aquele era mesmo o Tanner, não era?”.

Sebastian queria expressar o quanto adorou o livro, como ler aquelas palavras tinha transformado alguma coisa dentro dele, que imprimiu uma cópia na manhã seguinte para levar consigo na turnê. Mas não pôde falar isso, não ali. Não queria que Tanner fosse embora, mas, ao mesmo tempo, não conseguiu se articular, porque as palavras “eu estava com saudade” invadiram sua cabeça,

turbulentas e estridentes.

 

É essa saudade que o mantém acordado à noite – em Denver, em Austin, em Cleveland – e é sempre nesses momentos que ele busca o livro de Tanner na mala. Sebastian pode abrir em qualquer página – vinte, oitenta etc –, porque em todas elas encontra uma história de amor que ilumina os cantos escuros da aversão que sente de si próprio, porque todas elas o lembram de que alguma coisa aconteceu, que foi real. E que foi certo.

Às vezes, pensa no que escreveu naquela cópia de Tempestade de Fogo e se pergunta se Tanner chegou a abri-la para ver.

Sempre seu, Sebastian Brother

Sebastian é atingido por uma muralha de calor assim que sai do Aeroporto Internacional de Salt Lake City e, imediatamente, se arrepende de não ter tirado a camisa e a gravata, antes de embarcar no JFK.

– Não acredito que você está vindo de Nova York! – Lizzy exclama, segurando uma pequena Estátua de Liberdade perto do peito. Ela voltou a agir como antes de tudo acontecer, o que o leva a se perguntar se seria porque todo mundo espera que ele também tenha voltado a ser como antes. – Lá é tão legal quanto parece ser na TV?

– Ainda mais legal do que isso. – Ele a abraça e a puxa para perto, beijando seus cabelos. Foi bom ficar longe, mas Sebastian não consegue acreditar na saudade que sentiu de sua irmã. – Quem sabe nós não vamos juntos da próxima vez. Quando o próximo livro for lançado.

Lizzy sai dando pulinhos pela faixa de pedestres.

– Sim!

– Se Lizzy pode ir a Nova York, então acho que nós devíamos visitar a Ilha de Alcatraz em San Francisco. Você foi lá? – Faith indaga, olhando para ele.

– Não fui, mas do píer dava para ver a ilha. Meu ajudante me levou para jantar em um restaurante de frutos do mar e a gente deu uma volta pela costa. Não sabia que você queria conhecer a ilha, senão teria mandado uma foto para você.

Acho que tenho uma no celular.

Faith deixa para trás qualquer possível insulto quando Sebastian a levanta para

levá-la sobre os ombros. Seu grito de alegria é ensurdecedor, espalha-se em meio às estruturas de concreto do estacionamento.

A senhora Brother destrava as portas e Sebastian lança a pergunta que até agora vem pesando como uma pedra em seu peito:

– O pai e Aaron não puderam vir?

– Seu pai levou Aaron para visitar algumas casas hoje, mas disse que o verá no jantar.

Sebastian conversou com o pai algumas vezes nas duas últimas semanas, mas há um certo incômodo gerado por ele não estar presente. A ausência de seu pai em meio ao grupo que foi buscá-lo no aeroporto é como a pulsação do sangue em um dedo cortado. Parece tão aguda, tão constante, porque é errada.

Felizmente, Sebastian não tem muito tempo para pensar nisso, afinal, assim que Lizzy cantarola que o jantar é uma surpresa preparada para ele, Faith – que não se aguenta com o segredo – grita:

– É pizza!

Lizzy encosta a mão na boca de Faith e dá um beijo barulhento na bochecha da menininha.

– Você estragou a surpresa, sua boba!

Sebastian inclina o corpo para a frente e ajuda Faith a prender o cinto de segurança.

– Pizza para mim?

Ela assente, sua risada ainda abafada pelo peso da mão de Lizzy.

Sebastian ajeita seus pertences no porta-malas.

– E antes que estraguem a outra surpresa – sua mãe anuncia, fechando o cinto de segurança enquanto Sebastian se senta no banco do passageiro. Ela sorri para ele. – Eu enviei seus documentos.

Sebastian assente, oferecendo um sorriso de satisfação, mas as palavras não surgem imediatamente. Porque sua voz desapareceu. Passar um tempo longe foi bom. Ele está com saudade da igreja, de sentir-se cercado de pessoas com quem tem afinidade. Também está com saudade de Tanner, mas sabe que cumprir a missão é o melhor caminho a seguir.

De todo modo, Sebastian tinha pensado que enviaria ele mesmo os documentos quando chegasse em casa. Tinha a esperança de que enviá-los pessoalmente pudesse solidificar sua decisão, torná-la real, fazer as coisas começarem a andar.

Um sorriso brota no rosto de Sebastian quando ele percebe que sua mãe estava ansiosa por lhe dar essa notícia. Estava preocupada justamente com a possibilidade de se deparar com essa reação: incerteza.

Ele faz tudo o que pode para disfarçar. Substitui a incerteza pelo sorriso que

parece se espalhar por sua boca como o reflexo de uma inspiração.

– Obrigado, mãe. Isso... facilita muito as coisas para mim. É algo a menos com que me preocupar.

Parece ter funcionado. Ela se acalma e se concentra outra vez no volante. Eles descem a rampa e passam no meio de um labirinto de cones. A senhora Brother encosta ao lado de um quiosque, enfia o canhoto na máquina e vira-se para ele:

– Andei pensando em convidar todo mundo. O que você acha?

– Convidar todo mundo para quê?

– Para a abertura da sua carta. – Ela se vira outa vez para a máquina, agora para pagar, e, nesse induto de dez segundos, Sebastian se esforça para enterrar o pânico que chega com essa informação.

Sua mãe está falando da convocação para a missão.

No fundo da cabeça dele, uma voz grita não.

É como viver com uma dupla personalidade. Sebastian fecha os olhos, inspira lentamente. Foi tão mais fácil permanecer distante de tudo isso. De longe, a missão iminente parecia palatável. A constante imposição de sua mãe, o peso das expectativas... Voltar para casa é um peso esmagador, mesmo que ele só esteja aqui há dez minutos.

Sebastian sente o motor roncar e se dá conta de que sua mãe já terminou de pagar e eles estão a caminho de casa. Quando ele a olha, percebe que está com olhos duros, maxilar apertado.

Sebastian dá um bocejo falso.

– Nossa! Estou tão cansado! Sim, mãe, parece uma ótima ideia. Imagino que o vô e a vó também venham, não?

Os ombros dela relaxam, o sorriso volta a estampar seu rosto.

– Imagine se não! Eles não perderiam por nada!

Uma ampulheta foi lançada no estômago de Sebastian, e ela derrama chumbo.

Sua respiração fica rasa por um instante.

– Mas eu não quero que Sebastian viaje outra vez! – Faith grita do banco de trás. – Ele acabou de chegar!

– Ele não vai viajar ainda, meu amorzinho. – A mãe esclarece, olhando-a pelo retrovisor. – Ainda vai demorar alguns meses.

Sebastian se vira e abre um sorriso de encorajamento para a irmã mais nova. E

nem ele próprio seria capaz de explicar, mas se vê tomado por uma sensação desesperadora de pegá-la, de abraçá-la. Dois anos. Faith vai ter quase treze anos quando ele voltar. Aaron vai estar aprendendo a dirigir; Lizzy, se preparando para começar a faculdade. Sebastian já sente saudade de casa, e ainda nem partiu para sua missão.

– Então, por você, tudo bem? – a mãe pergunta. – Não ficaria tenso demais

 

com a presença de todos?

Sebastian encosta a cabeça no banco e fecha os olhos.

Pai, dai-me forças. Dai-me a sabedoria de que preciso, a certeza da decisão.

Eu irei aonde o Senhor me levar.

– Acho uma ótima ideia. – Ele sussurra em resposta. – Por mim, perfeito.

O lado positivo de ter passado esse período viajando é que, de longe, seus problemas pareciam muito menores. Mas essa sensação não condiz com a realidade, conforme ele percebe assim que entra em casa e se vê cercado de imagens, sons e cheiros tão familiares. A realidade o esmaga.

Sebastian acabou de colocar sua mala sobre a cama quando ouve alguém bater à porta.

– Posso entrar? – Seu pai passa a cabeça pela porta entreaberta. – Vejo que nosso cidadão do mundo voltou.

– Sim, e está exausto.

Uma tentativa de cessar-fogo ganhou espaço quando o livro saiu e seus pais conseguiram ver o orgulho que toda a comunidade demonstrou sentir por Sebastian. Porém, ele não passou muito tempo sozinho com seu pai nos últimos meses, e agora a presença de Dan Brother faz o quarto parecer claustrofóbico.

– Você tem bastante tempo para descansar antes do jantar. – Dan afirma. – Eu só queria trazer isso. – E entrega uma pilha de cartas. – E dar as boas-vindas de volta à nossa casa. Sentimos muito orgulho de você, filho. Sei que enfrentou dificuldades e fiquei mais orgulhoso do que você poderia imaginar por testemunhar meu filho superando tudo aquilo, sendo mais forte do que qualquer coisa. “A adversidade é como um vento forte. Arranca de nós tudo, menos o que não nos pode ser tirado, de modo que nos vemos exatamente como somos.”

Sebastian franze a testa, tentando reconhecer a Escritura.

– Essa eu não conheço.

Bispo Brother dá risada e olha com carinho para o filho.

– Arthur Golden, Memórias de uma Gueixa.

– Está bem, eu admito: jamais me passaria pela cabeça.

A risada se torna mais intensa e os olhos de Dan Brother brilham.

– Acho que vou deixar essa passagem fora do Sacramento na semana que vem. – Dá meia-volta para sair antes de parar perto da porta. – Ah, e sua mãe disse que tem alguma coisa do senhor Fujita aí. – Comenta, apontando para a pilha de correspondências na mão de Sebastian. – Imagino que seja o cheque do seu último pagamento. Só estou avisando para você não demorar muito para

abrir.

– Vou ver o que tem aqui assim que desfizer minha mala.

Quando Dan Brother sai, o ar lentamente escapa dos pulmões de Sebastian, que fecha a porta e atravessa o quarto para desfazer a mala. Itens de higiene pessoal, blusas de frio, terno, calça jeans. Debaixo de tudo, está a cópia do livro de Tanner que Sebastian imprimiu e levou consigo.

As páginas estão desgastadas, há uma mancha de gordura na primeira folha, fruto de uma visita a um restaurante em Denver, e as pontas estão curvadas onde Sebastian virava as páginas ao ler. Embora deva ter lido a obra toda pelo menos dez vezes, depois da primeira leitura, nunca mais começou do começo. Sempre escolhia algum trecho e lia dali em diante. Certa vez, partiu da cena em que Tanner saía para comprar roupas com sua mãe e Autumn. Em outra ocasião, abriu na passagem do lago, em que a palavra “veado” foi pronunciada e um Tanner todo sem graça trocou algumas palavras com Manny.

Contudo, estar tão longe também o fez sentir-se distante dessa situação. Seus problemas em casa podiam não ser reais e, se não eram, isso significava que Tanner também não era real. Sebastian não tinha consigo nenhuma foto dele, apenas esse livro.

Pega o manuscrito e o esconde atrás da cabeceira da cama antes de abrir o envelope de Fujita.

Caro Sebastian,

Espero que esta carta o encontre com muitos livros vendidos e muitas aventuras na bagagem. Queria atualizá-lo sobre o manuscrito do nosso amigo em comum. Não sei se você conversou recentemente com Tanner, mas ele sabe que seu romance veio parar em minhas mãos. Ele me ligou quando as notas saíram, certo de que eu havia cometido algum erro. Fiquei feliz de informá-lo que não se tratava de erro nenhum.

Venho trabalhando com Tanner nas revisões e o estimulando a fazer algumas alterações significativas no texto. Não exatamente mudanças no assunto, mas, como entendo que ele criou algo especial, sugeri algumas alterações nos nomes e características dos dois protagonistas, assim como em alguns detalhes que talvez pudessem entregar quem essas pessoas são na vida real. Tenho conversado com alguns editores e existe a possibilidade de nosso Seminário se transformar em mais uma obra publicada. Mas é claro que conversaremos com você antes de tomarmos qualquer decisão.

Agradeço profundamente, Sebastian, por sua coragem. Desejo-lhe tudo de bom. Você é um ser humano excepcional, profundo, com um coração de ouro.

Não deixe ninguém – nem nada – apagar essa luz que existe dentro de você.

 

Atenciosamente,

Tim Fujita E, de fato, Sebastian encontra, atrás da carta, seu último cheque. Agradece em silêncio. Mais tarde, quando seus pais perguntarem sobre a carta de Fujita, ele não vai precisar mentir.

Olhando para o papel, Sebastian compreende a urgência de sua mãe em enviar seus documentos. Ele não demorou nem quinze minutos para se encontrar outra vez onde estava antes, com uma saudade tão intensa de Tanner a ponto de cada músculo se apertar, incitando-o a sair pela porta.

Imaginar o livro de Tanner sendo publicado é um pouco demais, então Sebastian deixa esse pensamento de lado. De repente, sente-se grato por viajar outra vez em breve, agora quem sabe para fora do país. Longe o suficiente para poder vencer a dor e a tentação de voltar a ver Tanner, só uma vez, e expressar tudo o que sente por ele.

Três semanas passam em um piscar de olhos. Nesse tempo, ele participa com seu pai de visitas a casas da comunidade, corta grama para todo mundo (incluindo sua avó) e ajuda na mudança de várias famílias. Sebastian mal tem tempo para fuçar atrás da cama todas as noites e ler algumas páginas do livro de Tanner, antes de seus olhos serem fechados pela total exaustão.

A carta com o chamado para a missão chega em uma terça-feira e o envelope é colocado no balcão da cozinha. Ali fica, intocado, durante dias. Todos foram convidados. A família de sua mãe vem de Phoenix, no Arizona. Sua bisavó deve chegar de St. George às 5 horas. Uma dúzia de amigos e familiares estão vindo de carro de Salt Lake City e inúmeros outros que vivem na cidade também devem comparecer.

Às 3 da tarde, sua mãe já preparou um pequeno buffet de aperitivos, que ela agora ostenta espalhado em assadeiras. Guiozas, quiches, tortinhas salgadas e –

na lateral – uma enorme travessa de legumes. Faith e Lizzy usam vestidos amarelos combinando. Sebastian e Aaron, ternos azuis-marinhos idênticos.

Sua mão treme. Seu maxilar está dolorido de tão apertado. Todos andam de um lado a outro, conversam amenidades e aguardam.

A voz suave de Tanner não para de repetir na cabeça de Sebastian: Se você odeia tanto, por que vai fazer?

A resposta é simples. Quando pensa em estar longe deste lugar, Sebastian consegue relaxar. Ultimamente, sente-se melhor quando conversa com Deus.

Não se sente mal com a missão ou com sua fé. É o peso da vergonha e a pressão

das expectativas de seus pais que o fazem se sentir mal.

Com o coração em chamas, ele vai à cozinha.

– Pai, posso usar o carro um pouquinho?

Bispo Brother lança para o filho um olhar de preocupação.

– Está tudo bem com você?

– Um pouco nervoso. – Sebastian responde com sinceridade. – Estou bem. Só preciso... preciso passar uns dez minutos na igreja.

Dan Brother gosta dessa resposta, então aperta o ombro do filho em um gesto de solidariedade, antes de lhe entregar as chaves.

Sebastian tinha planos de ir à igreja; tinha, de verdade. Mas, em vez disso, faz uma curva para a esquerda, e não para a direita, e continua em linha reta onde devia virar, até finalmente se encontrar em uma estrada de terra, diante de uma placa que declara que o acesso dali em diante é proibido. Estaciona, pega o cobertor que está no porta-malas e olha para o céu azul, tentando lembrar as imagens formadas pelas estrelas.

Agora não é a mesma coisa aqui. Para começo de conversa, o calor é sufocante; enxames de mosquitos se espalham pelo ar. A segunda diferença, a ausência de um corpo ao seu lado, é ainda mais notável. Sebastian dá a si mesmo dez minutos, depois vinte. Tenta se despedir de Tanner, mas, mesmo quando fecha os olhos e pede a Deus que lhe apresente as palavras certas, um milagre que desaperte seu coração, elas não vêm.

Durante a turnê, Sebastian aprendeu que uma das responsabilidades de ser um autor publicado é se fazer presente nas redes sociais. Ele tem contas, mas elas continuam inativas na maior parte do tempo – um dos motivos é a tentação ser tão grande.

Até agora, ele resistiu. Mas, deitado no capô de seu carro, finalmente, pega o celular e abre o Instagram. Procura a conta de Manny. Encontra sua lista de seguidores e, ali, o que estava procurando: @tannbanidoobrigadocara.

Uma risada lhe escapa.

A conta de Tanner é desbloqueada, então Sebastian pressiona o polegar sobre a imagem de perfil, expandindo-a. É uma péssima ideia. Ele sabe disso. Mas, quando o rosto de Tanner se torna maior, seu coração parece se encher de água quente, lançando às favas todo o resto. Na tela de seu celular, vê uma fotografia de Tanner segurando uma enorme flor rosa, que obstrui metade de seu rosto, mas os cílios ainda parecem tridimensionais. Seus olhos são resplandecentes; os cabelos, mais bagunçados do que a última vez que Sebastian o viu; a boca, curvada naquele risinho tão singular, cheio de alegria.

As imagens no feed de Tanner são ainda mais viciantes do que Sebastian poderia imaginar: Há uma foto dele no banco de trás do carro, fingindo

estrangular seu pai; outra de Hailey, dormindo ao seu lado, com a legenda “preciso de um álibi #semarrependimentos”. Uma fotografia de um hambúrguer, outra de alienígenas falsos, o Camry estacionado em frente a um prédio chamado Dykstra Hall, e depois – Sebastian quase chega a soluçar – uma imagem de Tanner sorrindo, em um dormitório vazio, usando uma blusa da UCLA.

O polegar de Sebastian paira acima do botão “curtir”. Se ele tocar ali, Tanner vai saber. Seria tão terrível assim? Tanner descobriria que Sebastian está pensando nele. Talvez, com o tempo, os dois até passassem a seguir um ao outro, mantivessem contato, conversariam.

Mas é aí que Sebastian encontra o problema. Em sua cabeça, a relação não vai parar nas conversas. Vai se transformar em telefonemas, depois em encontros, depois em beijos, depois em mais. Porque mesmo agora, enquanto os convidados provavelmente estão chegando em sua casa – todos eles indo lá para vê-lo –, ele ainda está pensando em Tanner.

Em algumas semanas, Sebastian deve receber o Sacerdócio de Melquisedeque, depois, vai ser aceito no Templo, receberá seus dotes – e está pensando em Tanner. Tenta imaginar-se usando seus trajes – algo que passou a vida esperando para fazer...

E não consegue respirar.

Ele é gay. Nunca foi outra coisa. Esta noite, eles esperam que Sebastian dê seu testemunho e fale da alegria que sente por ter sido convocado para propagar a palavra de Deus onde quer que Ele tenha escolhido enviá-lo. Mas agora Sebastian não sabe onde se encaixa na palavra de Deus.

O que ele está fazendo?

Quando entra em casa, sua boca saliva – o cheiro dos pratos satura o ar. Sua mãe o recebe e lhe dá um abraço e um biscoito.

Ela parece tão feliz. E Sebastian está prestes a arruinar tudo. Ele raspa a garganta.