Minha Versão de Você

Christina Lauren · Capítulo 14 de 25

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Minha Versão de Você

Capítulo Catorze

– Não é o quê?

– Não sou... isso.

Alguma coisa parece assumir o controle dos meus batimentos e deixá-los descontrolados. Por um instante, meu peito dói.

– Você não é gay?

– Quero dizer... – ele começa, afobado, tentando explicar. – Eu me sinto atraído por meninos e agora estou com você, mas não sou gay. Ser gay é uma escolha diferente, e eu não estou escolhendo esse caminho.

Nem sei o que dizer. A sensação é a de que estou afundando.

Solto sua mão.

– Tipo... você não é gay, não é hétero, é só... você. – Sebastian continua, aproximando-se para me olhar nos olhos. – Eu não sou gay, não sou hétero, sou só eu.

Eu o desejo tanto que chega a doer. Então, quando me beija, tento fazer a sensação de suas mordidas em meu lábio inferior afastar tudo. Quero que o beijo de Sebastian seja o esclarecimento, a reafirmação de que rótulos não têm importância, de que o que importa é isso.

Mas não acontece. Durante todo o beijo, e também depois – quando descemos a montanha –, ainda tenho a sensação de que estou afundando. Sebastian quer ler meu livro, o livro que fala sobre apaixonar-se por ele. Porém, como posso

entregar meu coração a ele quando acabou de dizer, com toda a clareza, que não fala a mesma língua?

No fim da tarde de sábado, Autumn corre atrás de mim na frente de casa.

Finalmente estamos fora da minha casa, e ela começa a me bombardear de perguntas.

– Você estava falando com ele quando eu cheguei?

– Estava.

– E vem me dizer que ele não gosta de você? Tanner, eu vi o jeito como ele olha para você!

Destravo o carro, abro a porta do lado do motorista. Definitivamente, não estou no clima para isso. Mesmo depois de conversar com Sebastian esta manhã, suas palavras de quinta-feira ainda ecoam em minha cabeça.

Eu não sou... isso

Eu não sou gay.

– Você não percebe o jeito como ele te olha?

– Auddy.

Não é uma negação, não é uma confirmação. Essa resposta vai ter que funcionar por agora.

Ela sobe no carro depois de mim, fecha o cinto de segurança e se vira para me observar.

– Quem é a sua melhor amiga?

Sei a resposta certa para essa pergunta.

– Você. Autumn Summer Green. – Dou partida e consigo rir, mesmo com esse clima sombrio. – O melhor nome ruim do mundo.

Auddy ignora minha brincadeira.

– E quem é a pessoa em quem você mais confia no mundo?

– Meu pai.

– Depois dele. – Ela levanta a mão. – E depois da sua mãe, avó, família, blá-blá-blá.

– Eu não confio em Hailey, só para deixar claro.

Viro a cabeça para trás para olhar a garagem. Meu pai não me deixa confiar totalmente na câmera do Camry que estou dirigindo.

Autumn dá um tapa no painel.

– Eu estou falando uma coisa! Pare de desviar do assunto.

– Você é a minha melhor amiga. – Giro o volante e começo a deixar meu bairro para trás. – É a pessoa em quem mais confio.

– Então por que estou com essa sensação de que você anda escondendo alguma coisa importante de mim?

O cachorro com o osso, outra vez. Meu coração está novamente acelerado, tum-tum-tum, espancando o esterno.

Eu estava no telefone com Sebastian quando Auddy chegou em casa.

Estávamos conversando sobre esta tarde, a qual ele se dedicaria a uma atividade na igreja.

Não estávamos falando sobre o quão não gay ele é.

Tampouco falávamos do meu livro.

– Você está o tempo todo com ele – ela provoca.

– Está bem. Em primeiro lugar, nós estamos realmente trabalhando no meu livro. – Rebato e sinto facas metafóricas rasgando minha consciência em repreensão. – Você escolheu trabalhar com Clive, e não há problema nenhum nisso. Em segundo lugar, eu não sei se ele é gay. – Certamente, não estou mentindo aqui. – E, em terceiro lugar, a sexualidade dele não é da nossa conta.

Na verdade, é da minha conta porque...

Só agora percebo que seria ótimo poder falar desse relacionamento com outra pessoa. Só de pensar em alguém além de minha mãe e meu pai já sinto que estou tomando um ar pela primeira vez em semanas. Quero, mais do que qualquer coisa, conversar com outra pessoa – em especial com Auddy – sobre o que aconteceu na quinta-feira.

– Se ele for gay – ela responde, mordendo a unha –, bem, espero que a família não seja muito horrível com ele. Pensar nisso me deixa meio triste. – Auddy ergue a mão para continuar: – Sei que você não é gay, mas o filho do bispo não devia ter o direito de gostar de meninos, se assim quiser?

Essa conversa me faz sentir ligeiramente nauseado. Por que é que até hoje não me assumi para Auddy? Sim, o pânico de minha mãe antes de nos mudarmos foi meio traumatizante para mim, e a amizade com Auddy é meu porto seguro.

Acho que nunca quis correr o risco de perdê-la. Mesmo assim. Autumn Summer Green é a pessoa mais cabeça aberta que já conheci, não é?

– Alguém precisa ter uma revelação. – Digo, olhando para ela. – Ligue para o profeta e diga a ele que é hora de abrir seu coração para os queers.

– Não vai rolar. – Ela responde. – Alguém vai ter uma revelação. E não vai demorar.

Revelações são uma grande parte da fé mórmon. É uma ideia bastante progressista: o mundo está mudando e a igreja precisa que Deus os guie durante esses tempos desafiadores. Afinal, eles são os Santos dos Últimos Dias.

Acreditam que qualquer um pode ter uma revelação – isto é, uma comunicação direta com Deus –, contanto que a busquem com a intenção de fazer algo bom.

Mas somente o profeta atualmente vivo – o presidente da igreja – pode ter revelações que alteram a doutrina da igreja. Ele (e é sempre um ele, diga-se de passagem) trabalha com dois conselheiros e o Quórum dos Doze Apóstolos (também homens) “com a inspiração de Deus” para determinar a posição da igreja sobre qualquer assunto ou para decidir possíveis mudanças de regras.

Por exemplo, uma controvérsia: a poligamia era aceita no passado. A mãe de Autumn certa vez me explicou que, nas primeiras colônias dos mórmons, havia muitas mulheres e poucos homens para protegê-las. Ao terem muitas esposas, os homens podiam sustentar melhor as mulheres da comunidade. Mas, em minhas pesquisas, li que o governo americano não gostava nada desse aspecto da igreja e, mediante as condições da época, não concederia a Utah o status de estado. Em 1890, o presidente da igreja Wilford Woodruff declarou que a poligamia não era mais aceita por Deus – aparentemente, ele teve essa revelação.

E, é claro, era justamente isso que o governo dos Estados Unidos precisava ouvir. E, convenientemente, Utah virou um estado.

A ideia de uma revelação envolvendo a aceitação de membros LGBTQ na igreja é essencialmente a única esperança na qual me apego quando penso além de hoje e amanhã com Sebastian. O próprio Brigham Young, essencialmente, declarou que espera que as pessoas na igreja não apenas considerem o que os líderes afirmam ser a verdade de Deus; ele quer que todos orem e descubram também suas próprias verdades interiores.

Sem dúvida, Young não estava falando da homossexualidade, mas, no mundo moderno, existe nós que não somos mórmons e que, sinceramente, esperamos que uma revelação sobre a homossexualidade não ser pecado venha logo.

Mesmo assim, mesmo com a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, ainda não aconteceu. Autumn bate os dedos nas coxas, acompanhando o ritmo da música. Eu não estava dando atenção ao rádio, mas agora percebo que é uma canção da qual gosto. Tem uma batida lenta e consistente e a voz da cantora é gutural, rouca. Num primeiro momento, a letra parece inocente, mas claramente fala de sexo, como quase todas as músicas tocadas hoje em dia nas rádios.

O que me faz pensar em sexo, e em como seria com Sebastian. Como aconteceria. Como nós... seríamos. Ainda é um território vasto e desconhecido, ao mesmo tempo emocionante e aterrorizante.

– Você conversou com a Sasha? – Autumn me pergunta de repente.

– Sobre o quê?

Ela me encara.

– Sobre o baile de formatura.

– Sério, Auddy. Por que você se apegou tanto a esse assunto?

– Porque você disse que a convidaria.

– Mas por que você se importa tanto com isso?

– Eu quero que você vá à sua formatura. – Abre um sorriso para mim. – E não quero ir sozinha com Eric.

Essas palavras fazem soar um alarme em meu cérebro.

– Espere aí. Por quê?

– Eu só quero ir devagar com ele. Gosto de Eric, mas...

Auddy olha pela janela do banco do passageiro, parecendo desanimada ao perceber que chegamos ao lago.

– Mas o quê? – pergunto, estacionando o carro.

– Não, nada. Ele é bom. Eu só quero que você esteja lá. – Ela me olha nos olhos por um... dois... três. – Tem certeza de que não quer ir comigo?

– Você quer ir comigo? Cara, Auddy, eu vou com você se é disso que precisa.

Ela desmorona:

– Não posso dar para trás com Eric agora.

O alívio toma conta do meu sangue. Sebastian entenderia, é claro, mas a ideia de dançar com Autumn quando eu preferiria estar com Sebastian não parece justa com nenhum deles.

Desligo o motor, solto o corpo no banco e fecho os olhos. Não tenho a menor vontade de estar aqui com Manny e o pessoal do colégio, que vieram ao lago para brincar com carrinhos de controle remoto no estacionamento. A minha vontade é de ir para casa e escrever sobre essa confusão toda em minha cabeça.

Estou chateado com Sebastian e detesto pensar que ele vai passar um dia inteiro longe quando eu me sinto essa bagunça por dentro.

– Com quantas meninas você ficou?

Pisco para ela, assustado com o quão abrupta é sua pergunta.

– O quê?

Mesmo em retrospectiva, sinto uma pontada de deslealdade a Sebastian por ter dormido com outras pessoas.

Autumn está enrubescida. Parece acanhada.

– Só curiosidade. É que, às vezes, me pergunto se eu sou a última virgem que sobrou neste lugar.

Nego com a cabeça.

– Posso garantir que não.

– Entendi. Bem, tenho certeza de que você tem muitas histórias que eu desconheço.

Deus, ela está me deixando desconfortável.

– Auddy, você sabe com quem já rolou. Foram três. Jessa, Kailey e Trin. –

Seguro a mão dela. Preciso de ar. – Vamos.

 

No passado, Utah Lake já foi um lugar lindo. Era um lago cheio, um ótimo lugar para praticar todos os esportes aquáticos ambientalmente irresponsáveis, o que sem dúvida deixou meus pais horrorizados logo que nos mudamos para cá.

Se você perguntar ao meu pai, ele dirá que Jet Skis são uma invenção do demônio.

Agora, o nível da água está baixo e há tantas algas que, mesmo se o tempo estivesse propício para nadar, provavelmente não arriscaríamos. Então, apenas ficamos entre o estacionamento e a encosta, comendo a pizza que Manny trouxe e jogando pedrinhas o mais longe que conseguimos.

Penso em como será a vida durante a faculdade, morando em uma cidade grande, onde eu possa passar o dia em museus ou em bares assistindo a partidas de futebol, ou fazer um monte de outras coisas que não envolvem ficar sentado e conversando sobre as mesmas coisas de que falamos todo dia no colégio. Sonho em convencer Sebastian a se mudar comigo e mostrar a ele que ser gay não é ruim.

Kole trouxe alguns de seus colegas de faculdade que eu nunca vi, e agora estão brincando com miniaturas de helicópteros controlados por rádio perto do estacionamento. São grandalhões como os jogadores de futebol americano, o tipo de cara que fala alto e xinga o tempo todo, o tipo que sempre me deixou ligeiramente desconfortável. Não sou alto como Manny, mas também não sou baixo e sei que tenho um ar calmo que frequentemente é interpretado como ameaçador. Um desses caras, Eli, me encara com um franzir de testa, antes de olhar para Autumn como se quisesse enrolá-la em uma fatia de pizza e devorá-la.

É musculoso de um jeito suspeito, com o pescoço grosso e a cara inchada e cheia de acne.

Ela se ajeita do meu lado, fingindo ser minha namorada. Então, imediatamente assumo o papel do namorado, puxando seu braço atrás de mim, olhando-a nos olhos. Eli nos evita.

– Não quer se divertir com aquele ali? – brinco.

Auddy bufa uma negação.

Depois que nossa ligação mais cedo foi interrompida pela chegada de Autumn, Sebastian me deixou para participar de uma atividade em algum parque de South Jordan. Sei que ele não vai voltar antes das seis. Porém, isso não me impede de verificar obsessivamente para saber se tenho algum emoji sugestivo entre as minhas mensagens.

Mas não tenho.

Detesto o jeito como nos despedimos – com um “a gente se fala mais tarde”

casual – e detesto em especial o fato de ele aparentemente não perceber como suas palavras de quinta-feira me afetaram. É algo sobre o que já li nos panfletos que minha mãe entregou – que os queers, às vezes, têm essa sensação de dúvida porque sabem que alguém pode rejeitá-los não apenas por quem são superficialmente, mas por sermos quem somos em um nível mais profundo.

Acontece que eu nunca tinha sentido isso até então. Se Sebastian acha que não é gay, então o que diabos está fazendo comigo?

Puxo Autumn mais para perto, para me acalmar com o peso sólido de seu contato.

Manny chama alguns garotos para ajudá-lo a construir um veículo militar controlado por rádio e, quando terminam, alternam-se para brincar no chão irregular, no caminho até o lago, nas pequenas pedras do estacionamento.

Nossa atenção é atraída para uma briga ao longe, perto do meu carro. Os amigos de Kole estão lutando, rindo, e eu observo enquanto um cara chamado Micah derruba Eli. Abaixo de Micah, Eli chuta e empurra, mas não consegue se levantar. Não sei o que ele fez para ter ido parar ali, muito embora os dois claramente estejam brincando. Mesmo assim, é bom ver aquele idiota preso e imobilizado. Não trocamos nenhuma palavra, mas ele tem uma vibe que deixa claro que é um grande cuzão.

– Saia de cima de mim, sua bicha! – Ele berra, percebendo quanta atenção estão atraindo.

Zero.

Tudo dentro de mim para. Cada partícula de energia se concentra exclusivamente em controlar meu semblante.

Ao meu lado, Auddy também congela. A palavra “bicha” parece ecoar pela superfície do lago, mas as únicas pessoas aparentemente afetadas somos nós dois.

Micah se levanta, rindo ainda mais, e ajuda Eli a também se levantar.

– Aposto que ficou de pau duro, seu veado.

Eli esfrega as mãos nas calças jeans. Seu rosto está ainda mais vermelho do que antes.

Viro-me de costas, fingindo apertar os olhos para o horizonte, para as lindas montanhas ao longe, mas, quando olho de soslaio para Auddy, ela parece querer arrancar as bolas de Eli com as próprias mãos. Não posso culpá-la. Também estou horrorizado por ainda existirem pessoas que usem esse palavreado... em qualquer lugar.

Ao vagar por ali, Micah parece despreocupado. O restante do grupo começa a andar até onde ele foi para pegar o controle remoto de seu brinquedo, e o momento parece passar para todos com a mesma tranquilidade de uma onda que

chega à encosta.

– Asqueroso – Auddy sussurra.

Ela olha para mim e tento sorrir por cima de minha raiva reprimida. Tento canalizar aquele semblante de Sebastian e, pela primeira vez, entendo seu incrível sorriso falso. Já praticou tanto.

Auddy se levanta e limpa a grama seca grudada em sua calça jeans.

– Acho que já podemos ir embora.

Eu a acompanho.

– Está tudo bem com você?

– Está. Só que essas pessoas não são o meu tipo. Por que Kole resolveu andar com esses cuzões?

Também não é o meu tipo de gente. Fico aliviado.

– Não tenho a menor ideia.

Protestando, Manny vem atrás de nós.

– Pessoal, vocês acabaram de chegar! Não querem apostar corrida com os carrinhos?

– Eu comentei com Tanner que não estava me sentindo bem hoje de manhã. –

Auddy mente. – Agora, estou me sentindo pior.

– E eu estou dirigindo para ela – completo, dando de ombros como se ela estivesse me arrastando para fora dali contra a minha vontade.

Mas carrinhos de controle remoto e homofobia não são a minha praia, de todo modo.

Manny nos acompanha até o carro, fazendo-me esperar quando já estou ao lado da porta do motorista.

– Tanner, o que Eli falou ali atrás...

Sinto o calor brotando em minha nuca.

– O que foi que ele disse?

– Ah, cara, qual é?! – Manny dá risada, olhando para o lado e fazendo um gesto que diz “não me faça repetir”. – Cara, não ligue. Eli é um idiota.

Começo a entrar no carro.

Essa situação é tão estranha.

Essa situação é tão ruim.

É como se ele soubesse de mim. Como descobriu?

Sem ceder, Manny empurra os óculos de sol sobre a cabeça, apertando os olhos para mim, confuso.

– Tann, espere. Quero que saiba que a gente é de boa, beleza? Eu jamais deixaria alguém dizer aquela merda para você.

Não resisto quando Manny me puxa em um abraço, mas me sinto minúsculo perto dele. Fios e fios de memórias passam em minha cabeça. Em algum lugar

do meu cérebro, tento encontrar a memória de quando ele percebeu que eu gosto de meninos. Não consigo encontrar essa memória, essa possibilidade, em lugar nenhum.

– Manny, cara... A gente está de boa. Nem sei do que você está falando.

Ele se afasta e olha para Autumn, que está totalmente paralisada. Olha outra vez para mim.

– Ah, não, cara, foi mal. Eu não percebi.

Ele se afasta e dá meia-volta, deixando-me com Auddy em uma nuvem de silêncio e vento.

– O que foi que aconteceu aqui? – Ela pergunta, vendo-o se distanciar.

– Vai saber.

Olho para ela enquanto minha cabeça prepara alguma explicação simples.

Bem, é isso que eu sempre faço. Costumo ser rápido para improvisar. Em geral, muito rápido. Mas hoje, não sei, talvez eu esteja cansado. Talvez, esteja cansado de me proteger. Talvez, esteja afetado pela negação de Sebastian. Talvez, o furacão dos meus sentimentos, mentiras e meias-verdades tenha arrancado as cortinas da minha janela e Auddy agora veja meu interior.