Minha Versão de Você
Capítulo Quatro
Pela primeira vez em todo o colegial, não preciso ter meu horário de aulas preso com adesivos de dinossauros no armário para saber onde devo estar. Na primeira semana, o Seminário de Fujita foi na segunda, quarta e sexta. Nesta semana, será na terça e na quinta. E assim será a alternância até o fim do ano.
Posso ver a situação se desenrolando de três maneiras: Primeira: eu posso amar as semanas de segunda, quarta e sexta porque tenho três oportunidades de ver Sebastian.
Segunda: eu posso odiar as semanas de segunda, quarta e sexta porque são três chances de ver Sebastian, mas ele só participa de uma das aulas.
Terceira: eu posso odiar as semanas de segunda, quarta e sexta porque tenho três chances de ver Sebastian e ele está lá o tempo todo, mas não me dá bola.
Neste último cenário, fico ressentido porque não consigo me desprender dessa paixão por um Santo dos Últimos Dias, então, vou começar a me afogar em batatas fritas com queijo e molho, ganhar uma pança enorme, fazer um trabalho ruim na aula e perder minha chance de ser aceito na faculdade dos meus sonhos em outro estado.
– Em que você está pensando? – Autumn aparece atrás de mim, encostando o queixo em meu ombro.
– Nada.
Bato a porta do armário, fecho o zíper da mochila. Na realidade, estou pensando que não é justo enxergar Sebastian como uma espécie de galã mórmon. Não sei explicar, mas ele parece muito mais do que isso.
Auddy bufa com uma leve irritação e se vira para seguir pelo corredor, a caminho do Seminário.
Eu a alcanço e desvio de um grupo de alunos do ensino fundamental que passam correndo, uns sobre as costas dos outros, pelo corredor. Fui bem treinado por minha amiga, então devolvo a pergunta:
– Em que você está pensando?
No mínimo, sua resposta, se for bem elaborada, vai me manter distante da loucura.
Autumn fica de braços dados comigo.
– Estava me perguntando a quantas anda o seu esboço.
Ah, claro, o meu esboço. O documento, o esqueleto do livro.
– Está indo bem.
Um... dois... três...
– Quer que eu dê uma olhada antes de entrarmos?
Abro um sorriso.
– Não precisa, Auddy, está tudo bem.
Ela para bem diante da porta da sala de aula.
– Você terminou?
– Terminou o quê?
A julgar pela dilatação de suas narinas, sei que minha melhor amiga está me imaginando morto e ensanguentado no chão.
– O esboço.
Uma imagem mental brota em minha cabeça: o documento do Word com duas linhas solitárias que eu não me atreveria a mostrar a ninguém: Um garoto queer, metade judeu, metade nada, se muda para uma cidade infestada de mórmons.
Ele mal vê a hora de dar o fora.
– Não acha que você deveria olhá-lo?
Ofereço a ela uma única sobrancelha arqueada em resposta.
Ainda estamos na quarta aula e, apesar de toda a reputação venerada desta turma, parecemos já ter um ritmo, um certo conforto em sermos hooligans até Fujita aparecer. Dave do Futebol, com sua sempre presente bola de futebol, começa a chutá-la com pés alternados enquanto Burrito Dave conta quantas embaixadinhas ele faz sem deixar a bola cair no chão. Julie e McKenna falam alto sobre o baile de formatura enquanto Asher finge não perceber (McKenna e Asher foram um casal e o término brutal da relação nos deixou com muito material para fofocas). Autumn insiste que eu mostre o meu esboço – lembre-se de que ela é como um cachorro com um osso – e eu a distraio com um jogo de pedra, papel e tesoura porque, no fundo, nós dois ainda temos dez anos de idade.
Uma agitação se espalha pela sala e eu ergo olhar, esperando encontrar Fujita, mas Sebastian entra, trazendo uma pasta. O efeito de vê-lo é como unhas esfregando-se em meu cérebro e eu faço alguns gestos desconhecidos que mais parecem as garras de uma ave do que pedra, papel ou tesoura.
Ela me dá um soco no braço.
– Pedra vence seja lá o que for isso aí.
– E aí, pessoal? – Ele cumprimenta e ri enquanto coloca a pasta sobre a mesa.
A única pessoa que não está intensamente prestando atenção a ele é Autumn, que quer continuar jogando. Mas eu me vejo outra vez naquela arena de laser tag, com o corpo de Sebastian encostado ao meu. Ele avalia a sala com seu olhar calmo e distante.
– Não precisam parar de conversar quando eu entro.
McKenna e Julie fazem uma tentativa desanimada de retomar sua conversa, mas é difícil ser sutilmente escandaloso quando todos os demais estão tão silenciosos, e também é difícil diante da presença de Sebastian. Ele é tão...
presente. É lindo, obviamente, mas também tem aquele ar de bondoso e é genuinamente uma pessoa boa. É uma daquelas pessoas que você percebe mesmo de longe. Sebastian sorri para todo mundo, tem aquilo que minha mãe certamente chamaria de boa postura, e eu poderia apostar toda a minha poupança que nunca falou – ou sequer pensou – no meu palavrão preferido, aquele que começa com F.
Um pensamento terrível me ocorre, então viro-me para Autumn.
– Você acha que ele usa aquelas roupas íntimas dos mórmons?
Se ela acha estranho eu perguntar se Sebastian usa aquelas roupas íntimas dos mórmons, aquelas que mais parecem bermudas, não demonstra.
– Você não usa aquelas peças até fazer a ordenança.
– Fazer o quê?
Minha mãe precisa educar melhor seus filhos.
Ela suspira.
– Até entrar para o Templo.
Tento soar casual, como se estivesse apenas falando bobagens.
– Então ele ainda não recebeu a tal ordenança?
– Imagino que não, mas como vou saber?
Autumn se abaixa para pegar alguma coisa na mochila.
Faço que sim com a cabeça, embora essa informação não me ajude, de maneira alguma. Tampouco posso questionar minha mãe sobre esse assunto, porque ela certamente vai querer saber o que me leva a perguntar.
Auddy se ajeita na cadeira e segura um lápis recém-apontado.
– Ele vai fazer isso quando estiver prestes a se casar ou embarcar em sua missão.
Bato a caneta no lábio, analisando a sala como se só a ouvisse distraidamente.
– Ah, tá.
– Duvido que seja casado – ela supõe, agora mais curiosa, assentindo para onde ele está.
Sebastian lê alguma coisa na frente da sala e, por uma fração de segundos, fico sem palavras ao me dar conta de que ele poderia ser casado. Acho que tem 19 anos.
– Não tem nenhuma aliança no dedo dele – ela prossegue. – E, também, ele não adiou a missão para lançar o livro?
– Adiou?
Ela olha para Sebastian e depois outra vez para mim. Olha para ele, depois
para mim.
– Não estou acompanhando o que você está tentando me dizer.
– Ele está aqui. – Ela explica. – Você vai a outro lugar para cumprir sua missão. Por dois anos. Em geral, depois do ensino médio, ou nessa época da vida em que ele está.
– Então ele não está usando aquela roupa íntima?
– Santo Deus, Tanner! Você realmente se importa com que tipo de cueca o cara usa? Vamos falar sobre o seu maldito esboço!
Sabe aqueles momentos? Aqueles quando uma menina grita na lanchonete “eu estou menstruada!” ou quando um cara grita “eu pensei que fossem gases, mas borrei as calças!” e toda a sala fica em silêncio? Esses momentos acontecem.
Aconteceu um bem agora. Em algum momento entre “então ele não está usando aquela roupa íntima” e “Santo Deus, Tanner”, Fujita entrou na sala e todos, menos Autumn, ficaram em silêncio.
Fujita dá risada e balança a cabeça na nossa direção.
– Autumn – ele a chama, mas com gentileza –, garanto que as roupas íntimas de nenhum homem são tão interessantes quanto você imagina.
Todos caem na risada, alegres com esse nível de escândalo digno da terceira série. Auddy abre a boca para rebater, para explicar que era eu quem estava perguntando sobre cuecas, mas assim que Fujita acena indicando que sim, que vamos discutir nossos esboços, a oportunidade passa. Sou passivamente levado para a esquerda quando Autumn empurra meu braço direito, mas estou distraído, indagando em silêncio o que ele está pensando sobre essa conversa toda. Por vontade própria, meus olhos piscam para Sebastian enquanto os seus apontam em outra direção.
Suas bochechas trazem aquele tom rosado irresistível.
Fujita nos pede para mostrar nossos esboços, e juro que parece que todo mundo pega um manuscrito longo, extremamente detalhado. Ouço uma pancada quando Autumn puxa uma encadernação enorme e a solta na mesa à sua frente.
Nem sequer me importo em abrir meu laptop com os dois períodos esqueléticos do meu esboço. Em vez disso, puxo um caderno em branco e o coloco sobre a mesa, parecendo diligente.
– Tanner, quer começar? – Fujita convida depois que o barulho que eu fiz atraiu sua atenção.
– Hum. – Olho para baixo. Só Autumn consegue ver que não tem nada escrito nas páginas que eu finjo ler. – Ainda estou trabalhando na ideia geral...
– Não tem problema – Fujita responde animado, assentindo.
Um sinal de apoio entusiasmado.
– ... mas acho que será um romance sobre um garoto que chega à maioridade...
– não digo que ele é queer. – Que se muda para, hum, de uma cidade maior para, hum... uma cidade de pessoas muito religiosas e....
– Excelente! Excelente! O enredo ainda está em formação, eu entendo. Você deveria conversar com Sebastian para ele ajudar, não acha?
Fujita já está assentindo para mim como se fosse eu quem tivesse sugerido.
Não sei se ele quer me salvar ou me punir. Então, vira-se, analisa a sala e arrisca:
– Alguém mais tem um esboço que gostaria de dividir?
Todos erguem a mão, exceto Autumn. O que é curioso, considerando que seu esboço provavelmente é o mais detalhado. Ela vem trabalhando na peça há quase um ano. Mas também é minha melhor amiga e, nesse caso, não tenho dúvidas de que está tentando me poupar; se ela expusesse suas ideias depois da bagunça incoerente que acabei de apresentar, minha imagem ficaria ainda pior.
A classe é dividida em grupos menores e trocamos ideias, ajudando uns aos outros no desenvolvimento de seus arcos narrativos. Eu fico com Julie e McKenna e, como o livro de McKenna é sobre uma garota que é deixada pelo namorado e se transforma em bruxa e busca vingança contra o ex, passamos dez minutos discutindo ideias, antes de começarmos a falar sobre o baile de formatura e o término de seu relacionamento com Asher. Uma chatice tão grande que só consigo afastar minha cadeira delas e pegar meu caderno na esperança de um golpe de inspiração.
Escrevo a mesma palavra várias e várias vezes:
PROVO.
PROVO.
PROVO.
É ao mesmo tempo um lugar esquisito e um lugar de todo mundo. Como descendente de húngaros e suecos, não tenho muitos traços que, em outro lugar do país, gritaria “imigrante”, mas, em Provo, ter olhos e cabelos escuros é o suficiente para me tornar diferente. Em South Bay, a essa altura a maioria das pessoas não são mais de etnia branca do centro dos Estados Unidos, e eu não sou mórmon. Quer mais? Ninguém em minha cidade precisava explicar o que significa ser bissexual. Desde que tinha 13 anos, eu já sabia que me interessava por garotos. Mas, desde antes, eu também sabia que me interessava por meninas.
Lentamente, meu mundo se transforma, vira outra coisa, um rosto, um pensamento.
EU NEM TE CONHEÇO.
ENTÃO POR QUE SINTO QUE
POSSO TE AMAR?
(MAS SÓ UM POUQUINHO)
Olho para trás, preocupado com a possibilidade de Autumn talvez me ver
usando nossa frase quando, na verdade, estou pensando em outra coisa – em outra pessoa –, mas minha respiração trava quando eu o vejo parado atrás de mim, lendo por sobre meu ombro.
Bochechas rosadas, sorriso inseguro.
– Como está indo com o esboço?
Dou de ombros, deslizando a mão sobre as quatro linhas de insanidade no papel.
– Sinto que todo mundo está muito mais adiantado. – Minha voz sai trêmula. –
Na verdade, eu não esperava que tivéssemos que apresentar um esboço quando começamos. Eu imaginei que fôssemos criar o texto aqui.
Sebastian assente. Abaixa-se e diz baixinho:
– Quando fiz o curso, eu passei algumas semanas sem conseguir criar um esboço.
Arrepios percorrem meus braços. Ele tem um cheiro tão intenso de homem – a mistura de desodorante com aquela masculinidade tão difícil de explicar.
– Ah, é? – pergunto.
Ele se levanta, balança a cabeça.
– Sério. Eu vim parar nesse curso sem ter a menor ideia do que estava fazendo.
– Mas, no fim, escreveu algo brilhante, aparentemente. – Aponto para a minha folha praticamente em branco. – Não espero que caia um raio por ano nesta sala.
– Nunca se sabe. – Diz antes de sorrir. – Senti o Espírito comigo enquanto escrevia. E me senti inspirado. Nunca se sabe o que está guardado para você.
Apenas esteja aberto para o que vier, e alguma coisa virá.
Ele se vira e vai atender o próximo grupo, e eu fico completamente confuso.
Sebastian sabe – só pode saber – que estou atraído por ele. Meus olhos deslizam impotentes por seu rosto, seu pescoço, seu peito, sua calça jeans, sempre que ele está na sala de aula. Ele leu o que eu escrevi? Será que percebe que foi ele a minha inspiração? Se sim, então por que citar o Espírito?
Estou sendo objeto de uma brincadeira?
Do outro lado da sala, Autumn me olha nos olhos e murmura: “o que foi?”
Porque certamente pareço alguém que está se esforçando para resolver algum processo matemático extremamente complexo em minha mente. Aceno uma negação com a cabeça e afasto a mão, revelando outra vez as palavras escritas em meu caderno.
Alguma coisa se acende dentro de mim, a leve centelha de uma ideia, uma linha que se desenrolou daquela noite no quarto de Autumn até agora.
O garoto queer. O garoto mórmon.
– Sebastian – chamo-o.
Ele olha para mim por sobre o ombro e é como se nossos olhos estivessem ligados por alguma amarra invisível. Depois de alguns segundos, ele se vira e vem até mim.
Ofereço o meu melhor sorriso.
– Parece que Fujita está achando que preciso da sua ajuda.
Seus olhos me provocam.
– Você acha que precisa da minha ajuda?
– Eu consegui escrever duas frases até agora.
Ele dá risada.
– Então precisa.
– Provavelmente, sim.
Espero que sugira irmos até a mesa mais distante, perto da janela, ou que nos encontremos na biblioteca quando tivermos algum tempo livre. Não esperava que ele fosse dizer:
– Estou com tempo nesse fim de semana. Posso te ajudar.
Quando ele fala isso, é como se o restante da classe derretesse. E meu coração começa a bater frenético.
Essa provavelmente é uma péssima ideia. Sim, estou interessado nele, mas receio que, se eu escavar mais fundo, não vou gostar dele.
Mas seria melhor assim, não seria? Certamente não faria mal passar algum tempo fora desta sala de aula, chegar a uma resposta para as minhas perguntas: será que podemos ser amigos? será que podemos ser algo mais?