Minha Versão de Você

Christina Lauren · Capítulo 24 de 25

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Minha Versão de Você

Epílogo

– Oi, pessoal.

Nem todo mundo chegou, mas as pessoas mais importantes já estão presentes.

Cinco rostos sorridentes se viram em sua direção. Faith puxa o vestido, levantando-se toda orgulhosa quando ele olha para ela. Sebastian se lembra de como é a sensação de esperar para ver alguém especial prestes a abrir sua carta com detalhes da missão. Para os presentes, é como estar no mesmo espaço de uma celebridade.

Seu coração se estilhaça.

– Vocês todos estão muito bonitos esta noite.

Sua mãe se aproxima da mesa de jantar. O avental diz “Keep Calm and Serve On” e Sebastian só consegue pensar na mãe de Tanner e no avental que ela

usava e que causava constrangimento em seu filho. E no que ele não daria para ter um pai ou uma mãe que o aceitassem como ele é, incondicionalmente.

– Sebastian? – Sua mãe o chama, dando um passo para mais perto. – Querido, você está bem?

Ele faz um gesto de confirmação, mas sente o choro se enroscando em sua garganta.

– Desculpa, eu... desculpa, mesmo. Mas acho que preciso de alguns minutos para conversar a sós com meu pai e com minha mãe.

Um dia desses, estava falando com Autumn ao telefone e fiz um gracejo: não sei o que é pior, Provo ou Los Angeles. Ela não entendeu – é claro que não, afinal, está vivendo em um país das maravilhas idílico de Connecticut, usando blusas de frio com ombreiras e meias na altura dos joelhos. (Sim, ela está. Mesmo. Não acabe com a minha fantasia). Los Angeles é uma cidade ótima, não me entenda mal. O problema é que é enorme. Cresci perto de São Francisco, então sei o que é uma cidade grande, mas Los Angeles é uma coisa completamente diferente, e a UCLA é uma cidade dentro da cidade. Vista de cima, Westwood Village é uma densa rede de artérias e arteríolas dentro do impressionante sistema vascular de Los Angeles. Fica entre Wilshire e Sunset. Precisei de umas três semanas para parar de sentir como se estivesse afogando em um oceano urbano.

Minha mãe, meu pai e Hailey vieram de carro comigo em agosto, no que acredito poder descrever como a pior road trip de todos os tempos. Em vários momentos, acho que oramos para o apocalipse zumbi levar todos os nossos entes queridos. Deixe-me explicar de uma forma resumida: Hailey não consegue ficar bem em espaços fechados, meu pai dirige como um cego e não conseguíamos chegar a um acordo sobre qual música ouvir no caminho.

Prossigamos: a orientação foi um terror. Recebemos um longo treinamento sobre como não se tornar um estuprador e evitar mortes por coma alcoólico –

acho que podemos concordar aqui que são dois assuntos bem relevantes.

Explicaram o código de conduta – aliás, se comparado àquela monstruosidade imposta na BYU, o nosso código não passa de algumas sugestões interessantes e bem-pensadas. Três semanas depois, não sei se alguém ainda lembra o que foi dito – porque, é claro, ninguém prestou atenção nenhuma.

Fiquei sabendo que eu ficaria numa moradia chamada Dykstra Hall, que aparentemente não é ruim, pois o prédio foi reformado há poucos anos. Porém, levando em conta minha falta de experiência no assunto, só tenho uma coisa a dizer: é um dormitório. Camas de solteiro, banheiros separados para homens e mulheres, com uma longa fileira de chuveiros de um lado e uma de cabines com vasos sanitários do outro. Lavanderia. Wi-Fi. Meu colega de quarto, Ryker, é de longe a pessoa mais louca que já conheci. É como se o universo tivesse dito:

“Ah, você queria sair de Provo e viver com mais agitação? Então toma!”. A má notícia: Ryker vive nas festas e, basicamente, fede a cerveja. A boa notícia: ele quase nunca fica aqui.

Só precisamos declarar nossa escolha de curso no segundo ano, mas já sei que a minha será Medicina. Quem poderia imaginar, não é mesmo? Os programas da área de biológicas daqui são ótimos e, se eu fizer meu minor em Inglês, saio com um curso bem equilibrado. Quem diria? Eu, sendo proativo.

Biológicas era uma escolha óbvia, mas acho que não consigo passar muito tempo longe dos cursos de Inglês. Em primeiro lugar, porque Autumn me treinou tanto e tão bem que seria quase um desperdício de tempo deixar essas habilidades se perderem. E, em seguida, escrever fez surgir em mim alguma coisa que eu não sabia que existia. Talvez, o meu livro vire algo maior. Talvez não, pode ser que eu acabe me sentindo inspirado de novo e escreva outra coisa.

Não importa. Escrever é uma corda – por mais tênue que seja – que me mantém junto a ele. Agora posso admitir que preciso disso.

Ele continua comigo em cada passo que dou. Na primeira festa à qual fui, fiz a linha social e conheci algumas pessoas, bebi cerveja, flertei aqui e ali, mas voltei sozinho para casa. Às vezes, me pergunto quando vou superar essa dor constante e realmente querer ficar com outra pessoa. Houve situações nas quais pensei:

“Não fosse por Sebastian, eu teria ficado com alguém hoje”. Mas eu quero ele.

Por mais louco que possa ser, pensar que esse livro é só para mim –

especialmente, depois de tudo o que aconteceu –, me faz sentir seguro em dizer: eu não perdi a esperança. Sua reação ao me ver na livraria ficou marcada em meu cérebro. E ele desenhou um emoji da montanha no meu livro. Ele me ama.

Sei que me ama.

Ou, me amava.

E estar aqui é diferente não apenas por se tratar de uma cidade grande.

Independentemente do que aconteça por aí, no resto do país, Los Angeles é uma cidade gay-friendly. As pessoas são assumidas e sentem orgulho. Casais de todas as combinações andam pelas ruas de mãos dadas e ninguém está nem aí. Não consigo imaginar algo assim acontecendo numa rua qualquer da maioria das cidades pequenas – e, definitivamente, não consigo imaginar acontecendo em Provo. Via de regra, os mórmons são gentis demais para falar qualquer coisa na sua cara, mas ainda existiria aquele ar de desconforto e julgamento sendo carregado pelo vento.

No fim das contas, eu não soube aonde Sebastian foi enviado para cumprir sua missão, mas fico preocupado com ele. Será que está gostando? Será que está se sentindo péssimo? Está trancando parte de seu coração em uma caixa, só para manter as pessoas à sua volta felizes? Sei que ele não pode fazer contato, então não enviei mensagens nem e-mails, mas, só para liberar parte da pressão em meu peito, às vezes digito alguma coisa e envio para mim mesmo. Assim, pelo menos eu consigo tirar essas palavras de dentro de mim e elas param de roubar o meu

 

ar.

Autumn me contou que a mãe de Sebastian criou um evento ao vivo no Facebook para abrir a tal da carta, mas eu não tive estômago para isso. Imagino que Autumn tenha espiado a festa pela internet, mas ela jura que não tem a menor ideia de para qual lugar do mundo ele foi designado. De todo modo, mesmo se ela estiver mentindo, eu a fiz me prometer que não me contaria. E se ele estiver em Phoenix? E se estiver em San Diego? Eu não conseguiria me segurar e acabaria pegando o carro para vasculhar a cidade em busca do Élder Brother, o cara mais lindo do mundo, com seus cabelos de skatista e camisa branca, andando de bicicleta.

Às vezes, quando não consigo dormir e não consigo parar de pensar em tudo o que fizemos juntos, eu me imagino entregando os pontos e perguntando a Autumn onde posso encontrá-lo. Imagino uma cena na qual eu apareço onde quer que ele esteja e, ali, o encontro com seu uniforme de missionário e sua surpresa ao me ver. Acho que aceitaria negociar: eu me converto se você ficar comigo, mesmo que em segredo, para sempre.

No primeiro fim de semana de outubro, ligo para Auddy no mesmo horário de sempre: às onze horas de domingo. Sempre sinto, antes de qualquer outra coisa, aquela dor, o golpe infligido pelo tom de voz tão familiar. E o mais estranho é que, por pior que tenha sido me despedir da minha família aqui no meu dormitório, despedir-me de Autumn foi ainda mais difícil. De certo modo, eu me detesto por não ter contado tudo antes para ela. Teremos outros portos seguros, mas fomos o primeiro porto seguro um do outro. Não importa o que dissemos ou as promessas que fizemos, tudo muda de agora em diante.

– Tanner, meu Deus, aguente aí, eu tenho que ler uma carta para você!

Sim, é desse jeito que ela atende. Não consigo nem responder e Auddy já apoiou o telefone em alguma coisa para – presumo eu – ir buscar o mais recente manifesto da Chatalha.

Sua colega de quarto é uma drama queen chamada Natalie, que deixa mensagens passivo-agressivas na escrivaninha de Autumn, reclamando do barulho, da bagunça, de Autumn ter usado sua pasta de dente e do número de gavetas da cômoda que minha amiga pode ocupar. Uma curiosidade: também temos certeza de que ela se masturba quando pensa que Autumn está dormindo.

Isso não tem a ver com nada, sério, mas acho realmente fascinante e pedi muitos detalhes antes de finalmente concordar com essa teoria.

O telefone de Auddy raspa na superfície de alguma coisa quando ela o pega de

volta para anunciar:

– Ai, meu Deus!

– Essa é das boas?

– Talvez, a melhor até hoje. – Auddy respira fundo, rindo ao expirar. –

Lembra que eu contei para você que ela estava doente no começo da semana?

Recordo-me vagamente de uma mensagem de texto. Mandamos tantas um ao outro que, às vezes, me perco.

– Então, tem a ver com isso. – Ela prossegue. – Está bem, deixe-me ler: Querida Autumn, obrigada mais uma vez por me levar café da manhã aquele dia.

Eu estava tão mal! E me sinto péssima por ter que falar isso, mas...

Incrédulo, dou risada, já me preparando para o que está por vir.

– Meu Deus!

– ...mas não consegui parar de pensar numa coisa, então preciso expressá-la.

O garfo e o prato estavam sujos, tinham uma coisa encrustada neles. Aí pensei:

“será que Autumn fez de propósito?”. Espero que não. Sei que, às vezes, sou meio nervosa, mas quero que sejamos amigas próximas, como somos agora, para sempre...

– Nossa, essa aí gosta mesmo de se iludir!

– ... por isso pensei que era melhor simplesmente perguntar. Ou, talvez, eu só queira que você fique ciente de que eu percebi, e que, se foi intencional, foi nojento da sua parte. Se não passou de um incidente, peço que, por favor, ignore esta nota. Você é um amor de pessoa. Xoxo, Nat.

Esfrego a mão no rosto.

– Sério, Auddy, você precisa procurar uma nova colega de quarto. Essa criatura faz o Ryker parecer tranquilo.

– Não posso! Pelo que vi nas outras que estavam pedindo para mudar de quarto, rola tanto drama neste lugar!

– E isso que você está vivendo não é drama?

– É, sim. – Ela concorda. – Mas é tão absurdo que chega a ser fascinante se você observar objetivamente.

– Bom, eu entendo a carta que ela escreveu sobre as migalhas de biscoitos. Eu passei anos te avisando. Mas um garfo e um prato sujos quando você está levando comida à cama de alguém doente?

Auddy dá risada.

– Até parece que ela nunca comeu no refeitório daqui. As louças vivem em péssimas condições.

– Como se atrevem! Eles não sabem que são a Yale?

– Cale a boca! Como está Los Angeles?

Olho pela janela.

 

– Ensolarada.

Auddy resmunga.

– E o fim de semana está legal? Fez algo interessante?

– A gente teve um jogo contra a Washington State ontem, então vários de nós fomos juntos.

– Você, fã de futebol americano? Quem poderia imaginar!

– Eu não diria exatamente fã. É mais algo como ciente das regras não verbalizadas. – Relaxo no encosto da cadeira, coçando o maxilar. – Um pessoal de Hedrick fez uma festa ontem à noite. Eu fui com Breckin.

Meu primeiro e mais próximo amigo até agora, Breckin, escapou de uma cidade pequena do Texas e, por uma estranha coincidência, é (1) gay e (2) mórmon. Nem se eu me empenhasse muito conseguiria encontrar alguém assim.

Ele também é muito inteligente e um leitor quase tão voraz quanto Autumn. Eu teria me apaixonado por Breckin se meu coração já não estivesse tomado. De todo modo, prossigo:

– Foi um dia bem legal. E você, o que fez?

– Deacon participou de uma competição ontem, então eu fui vê-lo.

Deacon. Seu novo namorado e, aparentemente, uma divindade da equipe de remo.

Sinto uma leve onda de ciúme, não vou negar. Mesmo assim, o cara parece ser gente boa. É irlandês e totalmente apaixonado por Autumn, então logo de cara já gostei dele. Até me enviou uma mensagem na semana passada para perguntar o que eu achava que ele devia comprar para dar de aniversário para ela. Conquistar a simpatia do melhor amigo, um movimento inteligente.

– Sinto saudade de você. – Digo a ela.

– Eu também sinto de você.

Trocamos detalhes sobre nossas viagens do Dia de Ação de Graças, prometemos nos falar na próxima semana e desligamos, com amor.

Uns quinze minutos depois, ainda estou melancólico.

Mas, aí, Breckin aparece com um Frisbee na porta do meu quarto.

– Qual dos dois dessa vez? – pergunta.

Graças a uma noite regada a vodca e uma maratona de Breaking Bad em meu quarto, ele sabe de tudo.

– Os dois.

Ele balança o Frisbee.

– Vem comigo. Está um dia bonito lá fora.

Algumas vezes na vida, pensei existir um poder maior agindo. A primeira foi quando fiz seis anos e Hailey tinha três. É a minha primeira memória clara.

Tenho algumas mais confusas de antes, por exemplo, de jogar macarrão pela mesa ou olhar para o teto à noite enquanto meus pais liam alguma história para mim. Mas essa foi a primeira experiência cujos detalhes todos parecem ter sido tatuados em minha mente. Hailey, minha mãe e eu estávamos em uma loja chamada T.J. Maxx. As araras de roupas ficavam tão próximas umas das outras que era impossível passar entre elas sem se esfregar em alguma peça de lã, de seda ou de brim.

Hailey estava toda engraçadinha e se escondeu algumas vezes em uma das araras que minha mãe olhava. Mais tarde, ela desapareceu. Sumiu. Passamos dez minutos correndo de um lado a outro, gritando seu nome com uma histeria cada vez mais intensa, procurando em cada arara, prateleira ou mesa da loja. Não conseguíamos encontrá-la. Avisamos a vendedora, que acionou a segurança.

Minha mãe ficou desesperada. Eu também. Nunca tinha feito nada do tipo antes, mas fechei os olhos e implorei – não a uma pessoa, não a um poder, talvez apenas ao futuro – para que minha irmã estivesse bem. Poucas semanas antes, eu tinha aprendido o significado da palavra “sequestro”, que pareceu se agarrar ao meu cérebro de modo a me fazer enxergar tudo como um possível cenário desse tipo de crime.

Eu me senti melhor depois de repetir várias e várias vezes, “por favor, que ela esteja bem, por favor, que ela esteja bem, por favor, que ela esteja bem”. E

talvez por isso, anos depois, eu compreendia quando Sebastian afirmava se sentir melhor quando orava. Eu sabia que não podia ajudar muito, mas ainda assim senti que minhas boas intenções tinham poder, que eram capazes de mudar a trajetória do que quer que tivesse acontecido com minha irmã.

Nunca vou me esquecer da calma que recaiu sobre mim. Continuei entoando mentalmente aquelas palavras e fui abraçar minha mãe enquanto a vendedora corria toda histérica. Aí, minha calma se transferiu para minha mãe e ficamos, ali, inspirando e expirando e, silenciosamente, acreditando que minha irmã estava em algum lugar por perto, enquanto os seguranças davam ordens em seus rádios e a vendedora verificava todos os cômodos no fundo da loja. Permanecemos ali até Hailey sair de uma gôndola empoeirada e abarrotada de peças em promoção, no fundo da loja. E com um sorriso enorme e orgulhoso enquanto gritava “Hailey venceu!”.

Senti essa força algumas outras vezes na vida. A impressão de que alguém está me avisando para ficar longe do mar em um dia em que a praia está fechada por causa das correntes perigosas. O alívio tranquilo quando me sinto irritado com alguma coisa e consigo parar de pensar em cenários catastróficos e

simplesmente respirar – e me pergunto o que foi que me tirou daquela espiral de pânico e me lembrou de me acalmar. Às vezes, são momentos breves; outros, mais demorados. Mas sempre senti que são apenas parte de ser uma pessoa, de ter sido criado por pais racionais.

De todo modo, ter sido criado por pais racionais não explica o que aconteceu naquela tarde de domingo. Breckin e eu saímos, levando o Frisbee conosco. Lá fora, o tempo estava incrível: 23ºC, nada de vento, nem sinal de nuvens. A estranha neblina que pairou até o horário do almoço havia evaporado e o céu era de um azul fantástico, do tipo que todo turista nota e comenta. O Frisbee verde brilhante de Breckin cortava o ar, ia e voltava entre nós. Desviamos do pessoal no gramado e nos desculpamos nas vezes em que o Frisbee foi parar nos pés de alguém ou, como em uma ocasião, atingiu a canela de uma pessoa. Quando começamos, o sol estava à nossa esquerda, mas, conforme fomos jogando e correndo, acabei ficando com o sol direto nos olhos.

Eu devo estar romantizando tudo – aliás, em meus momentos mais ateístas, sei que estou romantizando; em outros momentos, não tenho tanta certeza assim –, mas, em retrospectiva, vejo nosso jogo como um espirógrafo meticuloso. Eu pegava todas as jogadas de Breckin e acabava me movimentando em ângulos precisos: dez, quinze, vinte, trinta, até ter me deslocado exatamente noventa graus do meu ponto de partida.

Todo mundo tem um jeito específico de andar tão único e reconhecível quanto sua impressão digital. Sebastian sempre andou de coluna ereta, desapressado, cuidadoso: cada passo tão regular quanto o anterior. Eu conhecia seus ombros –

largos e musculosos – e o jeito como sua cabeça se encaixa no pescoço – queixo erguido de um jeito elegante. Sabia que ele andava com o polegar enfiado na mão, então sempre parecia estar com o punho direito fechado enquanto a mão esquerda se dependurava mais relaxada.

E ali estava ele, iluminado por trás. Nenhum de seus traços era visível; só reconheci seu jeito de andar enquanto vinha em minha direção.

Muito parecido, mas não era ele.

Lembro de ter aprendido numa aula de Biologia do colégio que os neurônios que enviam sinais de dor, chamados nociceptores, têm alguns dos axônios mais lentos do nosso corpo. A sensação de dor demora mais do que quase qualquer outro tipo de informação para chegar ao cérebro – incluindo, a consciência de que a dor está a caminho. O professor perguntou por que achávamos que essa seria uma vantagem em termos evolucionários e, na ocasião, a resposta pareceu simples: precisamos conseguir nos afastar da fonte de dor antes de sermos debilitados por ela.

Gosto de pensar que foi assim que fui preparado para a dor de me dar conta de

que não era ele. Naquele dia, o sol ofuscante chegou primeiro, avisando que havia uma fonte de dor a caminho: a esperança. E assim fui lembrado de que não poderia ser Sebastian. Eu estava em Los Angeles. Ele, em algum lugar por aí, angariando almas. É claro que não estaria por aqui.

Ele nunca vai estar aqui, pensei. Nunca vai voltar.

Se eu aceitava isso? Não. Mas sentir saudade de Sebastian todos os dias, pelo resto da vida, ainda era mais fácil do que a luta que ele tinha de enfrentar: enfiar-se dentro de uma caixa todas as manhãs e enfiar essa caixa dentro do coração e orar para seu coração continuar batendo, mesmo com aquele obstáculo ali.

Todos os dias eu posso ir para a aula sendo exatamente quem sou; posso conhecer novas pessoas e depois sair para tomar ar fresco e brincar de Frisbee.

Todos os dias eu seria grato porque quem realmente é importante na minha vida não dá a mínima se sou masculino demais, feminino demais, aberto demais, fechado demais.

Todos os dias, eu seria grato pelo que tenho e por poder ser quem sou, sem julgamentos.

Então, todos os dias eu lutaria por Sebastian e pelos demais que se encontram na mesma situação dele, que não têm o que eu tenho, que se esforçam para se encontrar em um mundo que lhes diz que os brancos, e os héteros, e os

“normais” são os primeiros a serem escolhidos no jogo da vida.

Meu peito estava congestionado de tristeza, alívio e decisão. Mande mais coisas assim para mim, pensei para quem estivesse ouvindo – fosse Deus, Oz ou as três irmãs do Destino. Mande mais desses momentos nos quais penso que ele vai voltar. Eu consigo suportar a dor. Lembrar que ele não vai voltar – e por que não vai voltar –, me dá forças para continuar lutando.

Peguei o Frisbee e o joguei para Breckin. Ele o pegou com uma mão e eu saltei para o lado, braços abertos, revigorado.

– Me bote para correr atrás do Frisbee!

Ele ergueu o queixo, rindo:

– Cara, cuidado aí!

– Eu estou bem, pode mandar!

Breckin ergueu outra vez o queixo, agora com mais urgência.

– Você vai acertar nele aí atrás!

Trepidante, fecho os braços e dou meia-volta para pedir desculpas a quem quer que seja.

E ele estava ali, talvez a meio metro de mim, com o corpo recolhido, como se eu pudesse de fato lhe dar uma cotovelada.

Por um instante, perdi o controle de minhas próprias pernas e tive que me sentar na grama. Não havia nenhum halo de sol atrás dele. Só o céu.

Ele se agachou e apoiou os antebraços nas coxas. A preocupação o fez repuxar as sobrancelhas e franzir os lábios.

– Você está bem?

Breckin corre até nós.

– Cara, está tudo bem?

– E... e... eu... – Começo a gaguejar, e então deixo escapar uma expiração demorada e trêmula. – Sebastian?

Breckin lentamente se afasta. Não sei onde ele foi parar, mas, em retrospectiva, o resto da história somos só eu, Sebastian e uma enorme extensão de grama verde e céu azul.

– Oi.

– Sebastian?

Ah, Deus! O sorriso doce e presunçoso.

– Sim?

– Juro que acabei de vê-lo atravessando o gramado e pensei que Deus estivesse me dando uma lição de vida e, nem vinte segundos depois, você estava bem ali.

Ele estendeu o braço, segurou a minha mão.

– Oi.

– Era para você estar no Camboja.

– Na verdade, em Cleveland.

– Eu não sabia. Acabei de inventar.

– Percebi. – Sebastian sorriu outra vez, e aquela imagem envolveu meu coração. – Eu não fui.

– Então não devia estar na cadeia mórmon?

Ele deu risada, sentado e me encarando. Sebastian. Aqui. Agora segurando as minhas duas mãos.

– Estamos discutindo os detalhes da minha liberdade condicional.

Nem consigo acompanhar a piada.

– Sério, eu estou... – Vertiginoso, pisco os olhos. A sensação é a de que meus olhos lentamente conseguem focar o mundo à nossa volta. – Eu nem sabia o que tinha acontecido.

– Embarquei em um voo para Los Angeles hoje de manhã. – Ele estudou minha reação antes de acrescentar: – Para encontrar você.

Lembro-me do dia quando o encontrei na frente da minha casa, ferido pelo silêncio de seus pais. O pânico se arrastou pelo meu pescoço. Agora foi minha vez de perguntar:

– Está tudo bem com você?

– Para ser sincero, o aeroporto desta cidade é um pesadelo.

Mordisco o lábio, tentando engolir um sorriso, tentando segurar as lágrimas.

– Estou falando sério.

Sebastian balança a cabeça em um sinal de negação.

– Estou melhorando. Mas só de vê-lo, já me sinto outro. – Uma pausa se instala. – Senti saudade. – Contemplou o céu antes de deslizar seus olhos vidrados e apertados outra vez na minha direção. – Estava morrendo de saudade.

Acho que tenho muitos perdões a conquistar, se você me permitir.

As palavras formaram um emaranhado em minha cabeça.

– O que aconteceu?

– Quando o vi na sessão de autógrafos, alguma coisa aconteceu dentro de mim. Foi como se alguém estivesse me sacudindo para me acordar. – Aperta os olhos para protegê-los da luminosidade do sol. – Embarquei na turnê do meu livro e quase todos os dias eu lia o seu.

– O quê?

– O seu livro parecia o meu novo livro sagrado. – Sua risada é doce e autodepreciativa. – Pode soar como uma loucura, mas é verdade. Seu livro é uma carta de amor e me lembrava todos os dias de quem sou e do quanto eu era amado.

– É amado.

Ele expirou, agora agudamente, depois acrescentou com uma voz mais baixa:

– Algumas semanas depois que voltei de Nova York, minha carta chegou. A carta detalhando a missão. Minha mãe planejou uma festa enorme, esperávamos umas cinquenta pessoas em casa e outras tantas assistiriam pelo Facebook.

– Autumn me contou. Acho que ela assistiu, mas eu não a deixei me contar nada.

Ele engoliu em seco, negou com a cabeça.

– No fim, a festa não aconteceu. Eu contei aos meus pais naquela noite que achava que não conseguiria ir. Bem, eu sabia que podia conversar com as pessoas sobre a igreja, dar meu testemunho, falar sobre o que o Pai Celestial deseja para nós. – Nesse momento, ele se abaixou e, de olhos fechados, encostou os nós dos meus dedos à sua boca. Parecia adoração. – Mas senti que não podia fazer do jeito que a igreja queria: longe de você, longe deles, tentando me transformar em algo que não sou.

– Então você não vai?

Ele fez que não outra vez, seus lábios deslizando pelas costas da minha mão.

– Também deixei a BYU. Acho que vou pedir transferência para alguma outra faculdade.

Nesse momento, minha esperança foi mais forte do que qualquer outra reação.

– Aqui?

– Veremos. O adiantamento que me deram pelo meu livro novo me permite tirar um tempo para pensar.

– E a sua família?

– Atualmente, a situação está uma bagunça. Estamos tentando reatar os laços, mas não sei como as coisas vão ficar. – Sebastian ergueu a cabeça, estremecendo. – Ainda não sei.

Eu quero esse fardo, pensei. E, talvez, tenha sido justamente isso que aconteceu. Talvez, eu tenha ganhado esse fardo. Quero ser pelo menos em parte responsável por mostrar ao Sebastian que o que ele tem a perder é menos importante do que conquistar o controle completo de sua própria vida.

– Eu não tenho medo do trabalho que nos aguarda.

– Eu também não tenho.

Ele sorriu para mim, tocou seus dentes em minha mão e, quando rugiu todo bem-humorado, o sangue correu quente pela superfície de sua pele.

Precisei passar dez segundos de olhos fechados para me acalmar. Inspirando, expirando, inspirando, expirando, inspirando, expirando.

E lancei meu corpo para a frente, abraçando-o, agarrando-o. Surpreso, Sebastian caiu para trás e eu me vi em cima dele, olhando para aqueles olhos arregalados e intensos. Meu coração espancava o peito, batia junto ao dele, tentando abrir a porta para entrar ali.

– Você está aqui. – Falei.

– Eu estou aqui.

Sebastian olhou em volta, estudou o gramado onde estávamos juntos, instintivamente hiperativo. Mas ninguém estava prestando a menor atenção.

E, aí, ele me deixou beijá-lo, só uma vez. Mas eu fiz valer a pena, ofereci meu lábio inferior.

– Você está aqui. – Agora foi sua vez de dizer.