Minha Versão de Você

Christina Lauren · Capítulo 18 de 25

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Minha Versão de Você

Capítulo Dezoito

O resto do dia de hoje é difícil de explicar.

Fui embora logo depois que essas palavras saíram da boca de Sebastian e até agora não lembro o que fiz. Fui ao lago, acho. Dirigi, e dirigi, e dirigi sem rumo.

Quando escurece e meu celular acende com um milhão de mensagens da Auddy e nem uma sequer do Sebastian, dou meia-volta com o carro e paro lentamente no meio-fio em frente à casa dela.

Nunca antes notei que o quarto dela tem cheiro de baunilha e que seu abajur lança uma luz azulada tão calmante. Nunca percebi que ela abraça em fases.

Tipo, primeiro me ajeita em seus braços e depois aperta, e depois aperta mais forte, e, na minha cabeça, estamos passando por diversos níveis de tentativas de me reconfortar, que vão de “oi, o que aconteceu?” a “Tanner, converse comigo”, a “Ah, meu Deus, qual é o problema?”.

E aí percebo outra coisa, porque ela está tentando me persuadir. Suas mãos estão em meu rosto – eu estou chorando, não tinha me dado conta –, ela me beija para afastar as lágrimas, e eu fico balbuciando. Estou admitindo que Sebastian e eu estávamos juntos. Estou contando a ela o que aconteceu, como terminou, como me sinto pequeno.

Sua boca está perto da minha, na minha, abrindo-se surpresa e desejando mais.

Aqui, eu fodi tudo.

Aqui, eu arruinei tudo.

Não sei o que estou fazendo. Definitivamente, não devia estar aqui. Meus olhos estão vermelhos; meus cabelos, uma bagunça. Ainda estaria de pijama, mas: (a) tomei banho assim que cheguei em casa; e (b) não dormi. Estou uma zona.

Meus olhos analisam o corredor no caminho para o armário dela. É fácil reconhecê-la no meio da multidão; seus cabelos são como fogo em um mar de azul marinho e jeans, e sua voz é capaz de ir de um lado a outro da escola, diferente de todo mundo que conheço.

Ninguém é assim.

Giro a trava de seu armário para a direita, para a esquerda e depois para a direita outra vez, só para descobrir que seu casaco e sua mochila tampouco estão aqui.

Droga.

O sinal toca, os alunos entram nas salas e os corredores lentamente começam a esvaziar. A adrenalina mistura-se ao medo enquanto permaneço no corredor, aguardando o bater dos sapatos de nosso diretor ecoar no linóleo. Eu devia estar na aula de Literatura Moderna – com Auddy, que nunca chegou a se transferir para a disciplina de Shakespeare. Vou até a sala, espio ali dentro apenas tempo suficiente para ver sua carteira vazia e dou meia-volta. Vou ficar com falta e com as consequências que puderem surgir por isso, afinal, estou agitado, frenético demais para discutir James Frey e seu falso drama.

Contudo, não quero ir para casa. Meu pai está de folga esta manhã e, muito embora eu em algum momento acabarei tendo de conversar com ele e com minha mãe, ainda não estou pronto para ver aquele semblante – decepção matizada de pena – que me diz que eles sabiam que isso aconteceria, que era só uma questão de tempo, antes de tudo explodir bem diante do meu rosto. Eu mereço todos os “eu avisei” que virei a escutar, afinal, eles estavam certos.

Sobre tudo.

No topo das escadas, há um banco. Fico fora do ângulo de visão dos professores e supervisores que agora vasculham os corredores em busca de idiotas como eu, idiotas o suficiente para matar aula e ficar no colégio. Agarro meu celular, rezando por alguns instantes para que haja algo ali quando eu o ligar. Mas não. Não encontro nenhuma nova notificação.

Auddy não atende o celular desde ontem à noite. Em desespero, abro suas informações de contato e clico no número bem ao lado da palavra “casa”. Dois

toques depois, uma voz ecoa pela linha:

– Alô?

– Alô, senhora Green.

Ajeito a coluna, limpo a garganta. Já conversei com a mãe da Autumn quase tanto quanto conversei com a minha própria mãe, mas de repente me sinto nervoso. Será que Autumn contou a ela o que aconteceu? Ela sabe o que eu fiz?

– Tanner, oi.

– Autumn por acaso está aí?

Seco a palma da mão livre na calça jeans.

Há um instante de silêncio e então percebo que não sei o que dizer se Auddy me atender. Que eu a amo – muito embora não do jeito que ela precisa? – Que cometemos um erro – eu cometi um erro –, e que preciso dela na minha vida?

Será que isso vai ser suficiente?

– Está. A pobrezinha acordou enjoada e precisou ficar em casa. Ela não mandou mensagem para você?

Uma placa indicando a saída brilha verde no topo das escadas, e eu aperto os olhos. Saí da cama de Autumn ontem à noite e fui embora sem olhar para trás.

Quando finalmente me dei conta do que tinha feito, ela não respondia. Enviei mensagens, e-mais e liguei.

Esfrego as costas da mão nos olhos.

– Eu não devo ter visto a mensagem.

– Desculpa, Tann. Espero que não tenha ficado aqui na frente esperando hoje de manhã.

– Não fiquei. Ela está acordada? Será que consigo falar com ela? – Minha voz é puro desespero. – Tenho uma prova de Cálculo e queria saber se deixou as anotações de aula no armário.

– Quando verifiquei pela última vez, ela estava dormindo. Posso acordá-la, se quiser.

Hesito.

– Não. Não precisa, não.

– Eu já estou saindo para ir trabalhar, mas deixarei uma nota na porta do quarto de Auddy. Ela vai ver quando acordar.

Mantenho minha voz regular até conseguir terminar a ligação, quando enfio o celular no bolso.

O sinal toca e os corredores ficam cheios e logo vazios outra vez, mas eu não saio de onde estou. Nem sei que horas são.

Imagino que eu pareça uma estátua aqui, sentado no banco, emoldurado pela janela enorme atrás de mim. Percebo-me com o corpo inclinado, olhando para o chão, cotovelos apoiados nos joelhos e começo a me forçar a entrar em plena calma. Meu cérebro está um caos, mas, se eu ficar sentado aqui, sem me mexer, as coisas vão começar a se ajeitar.

É fácil reconhecer que eu sou um idiota, que agi por impulso – como sempre faço – e que possivelmente parti outro coração para me distrair do péssimo estado em que me encontro. Sentado aqui, começo a fingir que fui feito de alguma coisa gelada e sem sentimentos. Não sei se as pessoas não notam a minha presença ou se percebem que é melhor me deixar sozinho, mas vejo pés passando na minha frente, e ninguém fala comigo.

Até alguém falar.

– Tanner.

Espantado, ergo a cabeça e me deparo com Sebastian, parado, no meio da escada. Dá um passo cuidadoso e depois mais um enquanto alunos passam por ele, levando consigo a esperança de terem tempo de entrar na terceira aula antes do segundo sinal.

Também está com uma aparência péssima, pela primeira vez na vida. Fico espantado ao me dar conta de que, no meio disso tudo, quase nem pensei nele.

Devo contar sobre Autumn? Apesar do que falou ontem, ele está aqui. Ainda estamos juntos?

– O que está fazendo aqui?

Ele vem até mim, mãos nos bolsos do moletom, e para quando chega ao topo da escada.

– Eu passei na sua casa.

– Eu não estou lá – respondo apático.

Não tinha a intenção de soar assim. A estátua parece estar rachando mais lentamente do que o esperado. Talvez, eu seja mesmo frio e sem sentimentos.

– Sim, eu imaginei quando seu pai atendeu.

Sebastian não via meu pai desde aquela tarde quando fomos flagrados, e também deve estar pensando nisso agora, porque um rubor se espalha por suas maçãs do rosto.

– Você conversou com o meu pai?

– Brevemente. Ele foi gentil e me falou que você estava no colégio. –

Sebastian desce o olhar na direção de seus pés. – Não sei por que eu mesmo não cheguei a essa conclusão antes.

– E você não devia estar na faculdade?

– Acho que sim.

– Matando aula... – Tento sorrir, mas meu rosto se transforma em uma carranca. – Então, o Sebastian perfeitinho não é tão perfeitinho assim.

– Acho que nós dois sabemos que eu não sou perfeito.

Não tenho ideia de como continuar essa conversa. Do que estamos falando,

afinal?

– Por que você veio aqui?

– Eu não queria deixar as coisas como elas ficaram ontem.

Só de ouvi-lo citar esse assunto, meu estômago cai no chão.

– Está falando do término?

O rosto da Autumn flutua em meus pensamentos, o peso do que fizemos, e a náusea sobe até a minha garganta. Realmente me preocupo com a possibilidade de vomitar agora, então ergo a cabeça, respirando fundo.

– Sim – confirma baixinho –, tenho certeza de que foi horrível falar o que você falou e me ver responder daquele jeito.

Pisco os olhos para ele, ciente do peso das lágrimas em minhas pálpebras inferiores. O que eu disse? Quero que Sebastian reconheça as palavras.

– Sim, foi bem horrível dizer que te amo e você terminar comigo.

Lá está outra vez aquele rubor, e posso quase ver a exaltação que ele sente ao me ouvir pronunciando essas três palavras. É infantil, mas tão injusto ele se alegrar com algo que mais parece uma corda amarrada em meu peito, apertando-se cada vez que pronuncio essas palavras.

Sebastian engole em seco e os músculos de seu maxilar se repuxam.

– Me desculpa.

Ele está pedindo desculpa? Quero contar a ele o que eu fiz – porque foram duas traições –, mas acho que não conseguiria falar sem ter um ataque. E agora estamos falando tão baixinho que ninguém consegue ouvir. Mas e se eu tiver um ataque e começar a chorar? Ficaria óbvio para qualquer um o tipo de conversa que estamos tendo. Não estou pronto para isso e, mesmo depois de tudo o que aconteceu, ainda sinto essa vontade de protegê-lo.

Seu rosto demonstra uma expressão pacientemente perfeita. Nesse momento, percebo que será um grande missionário. Parece atento e completamente sincero, mas, de alguma forma... pacificamente distante.

Olho em seus solhos.

– Você alguma vez me imaginou na sua vida depois deste semestre?

Por um instante, Sebastian parece confuso. Sei que é porque o que vem no futuro sempre foi um pensamento abstrato. Ele tinha planos, obviamente – turnê do livro, missão, voltar para casa, terminar os estudos, provavelmente encontrar uma garota doce e seguir o plano de Deus –, mas eu nunca fui parte de nada disso. Talvez, no início da manhã ou em algum canto secreto e escuro de sua mente, mas nunca de um jeito que realmente importasse.

– Acho que não imaginei nada. – Diz cuidadosamente. – Não sei como vai ser a turnê do livro, nunca fiz nada parecido. E também nunca tive nada parecido com o que nós dois temos.

 

Ele aponta o indicador para o espaço entre nós e, por algum motivo, o gesto parece acusatório.

– Sabe o que eu não entendo? – começo, passando a mão no rosto. – Se você tinha a intenção de que ninguém soubesse ou achou que não existia nada maior entre nós, por que foi me exibir na frente da sua família e da igreja? Você queria ser pego?

Alguma coisa abala sua expressão, forçando aquela máscara calma e desconexa a desaparecer. Será que esse pensamento nunca lhe ocorreu?

Sebastian abre a boca, mas logo a fecha.

– Eu... – Começa a dizer, mas não há mais espaço para respostas fáceis, nem frases tiradas de um manual da igreja.

– Sei que você disse que orou e orou e que Deus lhe disse que estar comigo não era errado. – Ao ouvir essas palavras, Sebastian afasta os olhos do meu rosto para ter certeza de que ainda estamos sozinhos aqui. Engulo a minha frustração.

Foi ele quem veio me procurar no colégio, pelo amor de Deus! Então insisto: –

Mas, durante suas orações, você dedicou tempo a pensar em como isso se encaixava no seu futuro e em quem você é, e no que significa ser gay?

– Eu não sou...

– Eu sei – rosno. – Já entendi. Você não é gay. Mas, em algum momento, fez uma busca dentro de si, enquanto orava, para tentar descobrir quem realmente é, em vez de apenas pedir a Deus, várias e várias vezes, permissão para procurar?

Ele não diz nada e meus ombros cedem. Só quero ir embora. Sem ter a menor ideia do motivo que fez Sebastian me procurar, não tenho como resolver nossa situação. Ele vai embora, e eu tenho que deixá-lo ir.

Levanto-me pela primeira vez no que parecem ser horas. Fico vertiginoso quando o sangue desce para a minha perna, mas é bom me movimentar, ter um objetivo outra vez: Autumn.

Passo por ele e paro, baixando-me para sussurrar e sendo fisgado por aquele seu cheiro familiar.

– Sebastian, para ser sincero, não me importo que você parta meu coração. Eu entrei nessa situação sabendo que isso aconteceria de um jeito ou de outro, e, ainda assim, escolhi entregar meu coração. Mas não quero que parta o seu. Você tem muito espaço nele para a sua igreja, mas será que tem algum espaço para si mesmo?

Ouço a música assim que saio do carro. As janelas do sobrado pequeno da Autumn estão fechadas, mas o baixo pesado do death metal faz as paredes

vibrarem. Auddy deixou para trás seu modo “triste e escondendo-se debaixo das cobertas” e adotou seu modo “death metal”. Parece-me bom sinal.

Em geral, sou eu quem corta a grama no verão e percebo que chegou a hora de fazer isso; os tufos irregulares já estão se arrastando pela lateral da calçada.

Tomo uma nota mental para trazer o cortador de grama mais para o final da semana... se Autumn permitir. Talvez, nem sequer estejamos nos falando.

Com uma respiração regular, toco a campainha, ciente de que ela, provavelmente, nunca vai ouvir com uma música tão alta. Não noto nenhum movimento na casa. Pego o telefone e ligo outra vez para o seu número. Ergo a cabeça ao perceber que, pela primeira vez desde a noite de ontem, o telefone está tocando. Mesmo assim, cai na caixa de mensagens. Deixo mais um recado: Autumn, sou eu. Por favor, me ligue.

Guardo o celular no bolso e tento outra vez a campainha, antes de me sentar na escadinha em frente à casa por um tempo. Sei que Auddy está aí dentro. Só preciso esperar.

Vejo doze carros, dois passeadores de cachorros e um carteiro passar antes de, finalmente, ouvir alguma coisa. A música para e o silêncio repentino ecoa em meus ouvidos.

Viro-me bem na hora de me deparar com uma Autumn com olhos vermelhos passando a cabeça pela porta. Em minha pressa para me levantar, quase tropeço na varanda. Os cantos de sua boca se repuxam em um sorriso.

Meu peito ferve de esperança.

– Vi você estacionar. – Ela comenta e, apertando os olhos para protegê-los da luz da tarde, sai na varanda. Em outras palavras, Autumn sabe que estou aqui há quase uma hora. – Achei melhor atender, antes de os vizinhos chamarem a polícia.

– Eu tentei ligar.

– Eu vi. – Suspirando, ela desliza o olhar pela rua antes de me encarar outra vez. – Talvez você devesse entrar.

Ansioso, concordo com a cabeça. Ela abre mais a porta e volta para dentro da casa escura, acenando com a mão pálida para que eu a siga.

Sua sala de estar é uma fortaleza, como sempre fica quando ela precisa se esconder do mundo: as cortinas estão fechadas e a TV está ligada, mas no mudo.

Travesseiros e cobertores se espalham pelo sofá e, no canto, vejo um pacote de chips que parece ter sido violentamente aberto por um bando de furões. Seu telefone descansa placidamente na mesinha de centro. A tela se ilumina com notificações. Aposto que são todas minhas.

Já estive nesta casa mil vezes, já jantei aqui, fiz lição de casa aqui, assisti a

inúmeros filmes neste sofá, mas nunca fiquei aqui assim, com uma montanha de constrangimento entre mim e Autumn. Não sei como escalar essa montanha.

Vejo-a mexendo no sofá, chutando a maioria dos cobertores no chão, antes de acenar para que eu vá ali com ela. Quase nunca conversamos aqui. Assistimos a filmes no sofá, comemos na cozinha, mas nossas conversas sempre – desde que nos tornamos melhores amigos – aconteceram em seu quarto.

Não sei se algum de nós está pronto para voltar para lá ainda.

Sinto um nó no estômago. Qual o propósito de ficar sentado no colégio, acalmando meus pensamentos se, agora que estou aqui, não consigo pensar em nada para dizer.

Olho para Auddy e tento me concentrar. Quando vim aqui ontem à noite, ela estava com um pijama rosa e preto. Um brilho surge em minha cabeça, seguido pela pergunta: ela se vestiu? Ou imediatamente foi tomar banho?

Tentou se lavar e se livrar do que aconteceu, como eu?

Agora está usando moletom, uma blusa da Universidade de Utah que ganhamos em um jogo no verão passado. Eles enfrentavam a BYU e nós queríamos tanto que a Universidade de Utah vencesse que procurávamos moedinhas no chão para jogar na fonte dos desejos. Parece que mil anos se passaram entre esse jogo e o momento em que estamos agora. Os cabelos de Auddy estão de lado, presos em uma trança. Parecem molhados. Por que me sinto aliviado ao notar que ela tomou banho? Meus pensamentos desviam para outra tangente: lembro-me da sensação dos cabelos de Sebastian em meu rosto, enquanto ele beijava meu maxilar e meu peito, mas não lembro se os cabelos de Autumn estavam presos ou soltos ontem à noite, não lembro de tê-los sentido.

Esses pensamentos parecem trazer minha culpa de volta à superfície e as palavras simplesmente escapam:

– Quando vim procurar você, em momento algum eu quis... – Seco uma lágrima e tento recomeçar: – Eu não queria que... aquilo acontecesse. Eu estava magoado e não conseguia pensar direito, e em momento algum quis tirar vantagem de você e...

Autumn ergue uma mão para me calar.

– Espere. Antes de você vir fazendo a linha do rapazinho nobre para cima de mim, eu vou falar.

Concordo com um gesto. Minha respiração está tão agitada que mais parece que corri vinte quilômetros para chegar aqui.

– Está bem.

– Quando acordei hoje de manhã, pensei que tivesse sido um sonho. – Diz com os olhos fixos no colo, os dedos brincando com o cordão na cintura da calça. – Pensei ter sonhado que você veio aqui e fizemos aquilo. – Autumn ri e

olha para mim. – Já sonhei com isso antes.

Fico sem saber o que dizer. Não que esteja surpreso, mas a atração de Autumn por mim sempre foi uma espécie de conceito abstrato, nada sólido, sem qualquer base para fazer esse interesse durar.

– Ah.

Essa provavelmente não é uma boa resposta.

Ela estende a mão e aperta a ponta da trança até seus dedos ficarem pálidos.

– Sei que você vai me dizer que tirou vantagem de mim e acho que... de certa maneira, é verdade. Mas não foi só você. Eu não estava mentindo quando falei que toda a situação com Sebastian foi difícil para mim, Tann. Por mais de uma razão. Acho que, no fundo, você sempre soube parte dos motivos. Sempre soube por quê.

Autumn olha para mim em busca de confirmação e eu sinto essa coisa pesada no peito.

– Acho que é por isso que é tão terrível. – Digo. – Essa é a definição de tirar vantagem.

– É, entendo... – Ela balança a cabeça. – Mas não é tão simples assim. Nossa relação mudou muito nesses últimos meses e acho que eu estava tentando entender. Tentando entender você.

– Como assim?

– Quando você me contou que era bi, e eu me sinto uma pessoa horrível por isso, mas... Mas, como não existem mais segredos entre nós, eu preciso tirar um peso do peito. Está bem?

Aceno uma confirmação e ela puxa as pernas para perto do peito, descansando o queixo nos joelhos. Então continua:

– Num primeiro instante, não sei se acreditei em você. Tive um momento em que pensei, que ótimo, agora tenho que me preocupar com meninas e meninos?

Mas, aí, também pensei que, talvez, eu pudesse ser aquela que o faria mudar de ideia.

– Ah – digo outra vez, sem saber de que outra forma responder.

Autumn, obviamente, não é a primeira a pensar que a bissexualidade é uma questão de escolha e não de como você nasceu, então não posso culpá-la por isso. Especialmente, agora.

– Você estava tão triste e eu... eu te conheço. Sei como reage quando está magoado. Você mergulha em mim, nesse espaço de melhores amigos, mas ontem à noite... – Ela morde o lábio enquanto pensa. – Ontem, eu me joguei em cima de você. Talvez, eu também tenha tirado vantagem.

– Auddy, não...

– Quando você falou que Sebastian não te amava, foi como se um fusível

queimasse em meu peito. – Lágrimas brotam em seus olhos, e ela balança a cabeça, tentando afastá-las. – Eu fiquei tão brava com ele. E a pior parte, como você permitiu que ele te machucasse? Era tão óbvio!

Não sei por que – francamente, não sei –, mas essa ideia me faz rir. Parece ser minha primeira risada sincera em dias.

Auddy estende a mão e ajeita minha cabeça em seu ombro.

– Venha aqui, seu idiota.

Encosto-me em seu pescoço e, com o cheiro de seu shampoo e a sensação de seu braço em meu pescoço, uma série de imagens brota em minha mente, e as lágrimas escapam.

– Autumn, me desculpa.

– Me desculpa também – ela sussurra –, eu o fiz trair.

– Mas a gente terminou.

– Precisa haver um período de luto.

– Eu quero te amar daquele jeito – admito.

Ela deixa as palavras no ar, e eu fico esperando o silêncio pesar, tornar-se desconfortável, mas não acontece.

– Logo tudo isso vai ficar para trás.

Ela beija a minha têmpora. Isso é algo que sua mãe já deve ter falado mil vezes. Neste momento, Auddy soa como uma criança tentando espalhar sabedoria, e isso me faz abraçá-la mais forte.

– Você está bem?

Sinto seus ombros encolhendo.

– Dói.

– Dói – repito lentamente, tentando acompanhar seu raciocínio.

E, aí, ela ri, constrangida, e aí sinto os freios deixando uma longa cicatriz negra em minha mente.

Como?

Como fui esquecer?

Como foi que isso não surgiu em minha mente, nem por um segundo?

Meu peito parece se desmanchar, o que me empurra para a frente.

– Auddy! Puta merda!

Ela se afasta, tentando segurar meu rosto em suas mãos.

– Tann...

– Meu Deus! – Abaixo-me, levando a cabeça entre os joelhos para não desmaiar. – Você era virgem! Eu sabia que era. Eu sabia, mas...

– Não, não, está tudo...

Solto um gemido macabro, querendo – basicamente – morrer neste sofá, mas Auddy agarra meu braço e me puxa para cima.

– Pare com isso.

– Eu sou o Satanás!

– Pare já com isso! – Ela parece irritada, pela primeira vez. – Nós estávamos sóbrios. Você, triste. Eu, em casa, fazendo a lição, lendo. Não estava inconsciente nem nada assim. Não estava embriagada. Eu sabia o que estava acontecendo. E eu quis.

Fecho os olhos.

Volte, Tanner Estátua. Ouça o que ela está dizendo e nada mais.

– Entendeu? – Auddy insiste, sacudindo-me. – Me dê algum crédito. E, já que estamos falando nisso, dê algum crédito a si mesmo. Você foi muito gentil e cuidadoso comigo, e fizemos com segurança. É isso que importa.

Nego com a cabeça. Consigo lembrar de alguns flashes. A maior parte do que aconteceu é uma mancha estranha e emotiva.

– Eu queria que fosse com você. – Ela garante. – É o meu melhor amigo e, de um jeito nada convencional, fazia sentido ser com você. Mesmo que estivesse fazendo o que fizemos para esquecer seus pensamentos por meia-hora.

Chego a bufar ao ouvir suas palavras; sem dúvida não foi meia -hora, e ela segura outra vez o meu braço, mas percebo que agora está sorrindo. Auddy continua:

– É comigo que você costuma cometer esses equívocos. Essa pessoa sou eu.

– Sério?

– Sério. – Reafirma. Seus olhos brilham vulneráveis, e eu tenho vontade de dar um soco em meu próprio rosto. – Por favor, não diga que está arrependido, porque isso seria terrível.

– Bem... – começo, tentando ser sincero. – Não sei o que dizer sobre isso. Se eu gosto da ideia de ter sido o seu primeiro? Sim. – Ela sorri. – Mas não é nada legal, Auddy. Deveria ter sido com...

Ela arqueia uma sobrancelha, esperando toda cética que eu conclua.

– Bem, não com Eric. – Admito. – Não sei. Com alguém que a ame do jeito certo. Que dedique tempo e tudo mais.

– Que dedique tempo e tudo mais. – Ela repete. – Francamente, você é tão doce. Não tenho ideia de por que Sebastian quis terminar.

Tusso uma risada que parece morrer quase imediatamente no silêncio.

– Então, está tudo bem entre nós? – pergunto depois de mais ou menos um minuto de quietude.

– Eu estou. – Auddy passa a mão nos cabelos. – Você conversou com ele?

Gemo outra vez. É como se eu entrasse em um prédio de problemas. Passo pelo andar do Comportamento de Pior Melhor Amigo e entro na sala de Mágoa e Intolerância Religiosa.

– Ele veio se desculpar hoje.

– Então vocês voltaram?

Adoro Auddy ainda mais ao perceber uma sementinha de esperança em sua voz.

– Não.

Ela emite um discreto ruído de compaixão que me faz lembrar como tudo aconteceu tão facilmente ontem.

Acho que nós dois nos damos conta ao mesmo tempo. Autumn afasta seu braço, leva as mãos entre os joelhos.

Ajeito-me no sofá.

– Acho que ele só queria ter algum controle sobre a sensação péssima que está tendo. Por mais que eu queira odiá-lo, acho que Sebastian não teve a intenção de me machucar.

– Não acho que ele tivesse a intenção de que muita merda acontecesse – ela concorda.

Ergo o queixo para olhá-la nos olhos.

– O que você quer dizer com isso?

– Acho que, num primeiro momento, ele ficou intrigado. Às vezes, você consegue ser tão cativante quanto acha que é. Imagino que Sebastian o tenha visto como uma maneira de resolver alguma coisa, mas, aí, o oposto aconteceu.