Minha Versão de Você
Capítulo Três
Ao meu lado, ela suspira desapontada, alheia ao meu colapso interno.
– Uma pena que seja mórmon.
Segunda-feira à tarde: estamos sem lição de casa. Minha mãe chega mais cedo e entende essa soma de fatores como um sinal de que precisa levar seus filhos às compras. Minha irmã, Hailey, fica feliz com a oportunidade de comprar mais roupas de funeral. Concordo em ir, embora sem nenhum entusiasmo, sobretudo, porque sei que, se ficasse sozinho com meus eletrônicos, passaria horas no laptop com múltiplas abas do navegador aberto em minhas tentativas de descobrir mais sobre Sebastian Brother.
Felizmente, Autumn vai com a gente. O superpoder de minha mãe parece ser sua misteriosa capacidade de encontrar as roupas mais horríveis para seus filhos.
Autumn, portanto, é uma grande ajuda. Mas, infelizmente, ter as três à minha volta significa que a investigação sobre Sebastian precisa ser feita discretamente.
Autumn pode lançar uma expressão esquisita se me pegar procurando fotos de homens bonitos no Google. Minha mãe e Hailey sabem que eu gosto de meninos, mas minha mãe, em especial, não ficaria nada contente em saber que o objeto do meu interesse atual é o filho de um bispo da cidade.
Religião organizada não é algo muito bem visto em nossa casa. Meu pai é judeu, mas não vai ao templo há anos. Minha mãe cresceu com os Santos dos Últimos Dias, alguns quilômetros ao norte daqui, em Salt Lake City, mas deixou a igreja aos 19 anos, quando sua irmã mais nova, minha tia Emily, na época uma estudante, saiu do armário e seus pais e a igreja a abandonaram. É claro que eu não existia na época, mas ouvi algumas histórias e vejo a veia na testa de minha mãe saltar sempre que qualquer assunto sobre a mentalidade fechada da igreja surge. Minha mãe não queria romper com seus pais, mas, como qualquer ser humano normal e com um pingo de compaixão, não conseguiu justificar abandonar alguém que amava por causa de uma série de regras registradas em um livro.
Talvez agora você esteja se perguntando por que estamos morando aqui, no lugar com a maior concentração de Santos dos Últimos Dias do mundo. E
justamente com a minha mãe? Dois anos e meio atrás, uma startup de softwares bastante importante e enorme a seduziu a deixar seu emprego no Google, onde era a única engenheira de software sênior com genótipo XX (e basicamente mais competente do que todos os outros engenheiros à sua volta). A NextTech ofereceu a posição de CEO, mas ela pediu para ser diretora técnica, uma posição que vinha com o orçamento quase ilimitado para o desenvolvimento de
tecnologia. Agora, sua equipe desenvolve softwares de representações holográficas 3D para a NASA.
Para qualquer outra família com dois salários de seis dígitos e mal conseguindo sobreviver em South Bay, a decisão teria sido muito simples. Um salto no salário em um lugar onde o custo de vida caberia em nosso menor armário de Palo Alto? Fechado. Todavia, por causa do passado da minha mãe, a decisão de mudar foi agonizante. Ainda lembro que ouvia meus pais discutindo esse assunto no meio da madrugada enquanto Hailey e eu deveríamos estar dormindo. Ele achava que ela não podia deixar essa oportunidade passar, que seria uma chance de ela estimular a imaginação. Minha mãe concordava, mas ficava preocupada com o modo que a vida em Utah poderia afetar negativamente seus filhos. Em especial, ela se preocupava com o quanto a vida aqui me afetaria. Dois meses antes de a oferta surgir, assumi para os meus pais que era bissexual. Bem,
“assumi” talvez signifique dar créditos demais para mim mesmo. Para sua monografia de pós-graduação, minha mãe criou um aplicativo indetectável que ajuda os empregadores a saberem o que seus funcionários estão fazendo. No fim das contas, a coisa era tão amigável ao usuário e tinha uma interface tão agradável que a versão para o consumidor foi criada e vendida para quase todas as casas com um computador nos Estados Unidos. Eu devia ter juntado dois e dois e percebido que meus pais também o usariam em casa, antes de pensar que podia assistir a filmes pornôs no celular.
Foi uma conversa constrangedora, mas, pelo menos, resultou em um acordo: eu podia entrar em certos sites e eles não me stalkeariam na internet, contanto que não visitasse lugares que, como minha mãe colocava, “me dariam expectativas não realistas de como o sexo deve ser ou de como nossos corpos devem ser”.
No fim das contas, meus pais, tão estridentes contra os Santos dos Últimos Dias, levaram a filha emo e o filho queer de volta ao País das Maravilhas dos Santos dos Últimos Dias. Para compensar sua culpa por eu ter de me proteger a todo custo (leia-se: ser muito, muito cuidadoso para quem eu me assumiria), meus pais transformaram a nossa casa em uma espécie de toca do orgulho gay, do orgulho muito gay. Autumn e eu passávamos a maior parte do nosso tempo juntos na casa dela, e Hailey odeia quase todo mundo (e nenhum dos seus amigos revoltados vem para cá), então artigos LGBTQ, panfletos da PFLAG e camisetas de arco-íris são entregues a mim em momentos espontâneos com um beijo e um olhar cheio de orgulho. Minha mãe ocasionalmente coloca um adesivo para carros debaixo da minha fronha, e eu só o encontro quando uma das pontas do papel rígido bate na minha bochecha à noite.
NADA SERIA IGUAL SE VOCÊ NÃO EXISTISSE!
CORAGEM É SER VOCÊ MESMO TODOS OS DIAS EM UM MUNDO
QUE LHE DIZ PARA SER OUTRA PESSOA.
O AMOR NÃO CONHECE LIMITES.
“NORMAL” É SÓ UMA OPÇÃO DA MÁQUINA DE LAVAR!
Autumn já encontrou alguns desses adesivos aqui e ali ao longo dos anos, mas apenas dá de ombros e sussurra: “São Francisco, cara”.
É engraçado imaginar adesivos colados no carro agora, enquanto olho escondido as fotos de Sebastian, porque começo a imaginar as mensagens sendo lidas para mim naquela voz profunda e suave dele. Ouvi Sebastian falar apenas três vezes hoje, mas o simples som de sua voz paira como uma abelha embriagada dentro da minha cabeça.
Oi, pessoal.
Ah, o livro sai em junho.
Estou aqui para ajudar no que precisarem, então podem me usar.
Quase perdi o controle quando ele disse essa última frase.
Uma pesquisa na internet não me diz nada que eu já não soubesse. A maioria dos resultados para “Sebastian Brother” traz informações sobre um restaurante em Omaha, links para artigos sobre o Seminário ou anúncios sobre seu novo livro.
O Google Imagens já é mais como ganhar na loteria. Vejo fotos dele jogando beisebol e futebol (sim, eu salvo uma das fotos) e algumas outras concedendo entrevistas para jornais da região. Clico para ler, mas suas respostas não revelam muito ao seu respeito – parecem bem genéricas. Mesmo assim, em várias fotos, ele está usando gravata. E a gravata combinando com aqueles cabelos? Estou prestes a criar a pasta Banco de Imagens de Sebastian Brother. Sério, ele é o cara mais bonito que já vi pessoalmente.
O Facebook é um beco sem saída. A conta de Sebastian é trancada (claro que é), então não apenas não consigo ver suas fotos como também não consigo descobrir seu status de relacionamento. Não que eu me importe. Ele é uma espécie de colírio mórmon. Esse golpe de paixão não vai chegar a nada interessante. Eu não deixaria chegar – estamos em lados opostos de uma cerca muito espessa.
Fecho todas as janelas do navegador do meu celular, antes de ceder aos piores tipos possíveis de stalkeamento na internet: a busca inútil por seu Snapchat ou Instagram. Só de pensar em me deparar com uma selfie de um Sebastian sonolento e sem camisa, já sinto o caos se instalando em meu sistema nervoso.
No shopping, Autumn e eu seguimos minha mãe, que anda em meio às araras da seção de roupas masculinas da Nordstrom. Eu me transformo em manequim
nas mãos delas. Minha mãe me leva à mesa onde estão as camisas, segura algumas delas na altura do meu peito, estreita os olhos, pede a opinião a Autumn, e as duas debatem antes de, sem dizer claramente, rejeitarem a maioria das peças. Eu não comento nada. A essa altura, já sei como essa dinâmica funciona.
Minha irmã não está por perto, está por aí atrás de suas próprias coisas, mas de vez em quando nos provoca, fruto de sua constante necessidade de brigar com a gente. Autumn e minha mãe se dão bem e, quando estão juntas, consigo um intervalo e não preciso prestar atenção em tudo o que todos estão dizendo; elas se mantêm entretidas uma com a outra.
Minha mãe segura uma camisa horrível, dessas de Velho Oeste, na altura do meu peito.
Não posso deixar essa peça ser aprovada:
– Não.
Ela me ignora e pede a opinião da Autumn. Mas Auddy é Time Tanner e repuxa o nariz em desgosto.
Erguendo a camisa, minha mãe pergunta a ela:
– Como está o seu cronograma do colégio esse semestre?
– Eu estou amando. – Auddy entrega uma camisa azul de mangas curtas da RVCA para minha mãe. Faço um sinal positivo com o polegar antes de ela prosseguir:
– Talvez eu tenha que trocar Literatura Moderna por Shakespeare, e Cálculo provavelmente será uma morte horrível, mas, fora isso, muito bom.
– Tenho certeza de que Tanner vai adorar ajudá-la em Cálculo – anuncia, e sinto Autumn virar os olhos para mim. – E você, querido?
Encosto-me a uma arara, cruzo os braços sobre uma barra prateada.
– Eu decidi fazer Biologia depois do almoço e agora vivo com muito sono quando chega a última aula.
Os cabelos loiros de minha mãe são leves e estão presos em um rabo de cavalo, e ela trocou as roupas de trabalho por calça jeans e suéter. Parece mais jovem vestida assim e, se Hailey deixasse de lado sua mania de querer ser Wandinha Addams, as duas mais pareceriam irmãs do que mãe e filha.
Como se estivesse lendo meus pensamentos, Hailey se materializa, surgindo atrás de mim e soltando uma pilha de tecidos pretos nos braços de nossa mãe.
– Não gostei de nenhuma calça, mas essas blusas são legais – comenta. –
Podemos ir comer? Estou morrendo de fome.
Minha mãe olha para a pilha em seus braços. Posso vê-la mentalmente contando até dez. Se minha memória não falha, desde sempre meus pais nos encorajaram a ser nós mesmos. Quando comecei a questionar minha
sexualidade, eles me disseram que seu amor por mim não dependia de onde eu enfiasse meu pau.
Está bem, eles não usaram exatamente essas palavras; só estou resumindo.
No ano passado, quando minha irmã chegou à conclusão de que queria começar a parecer um cadáver, eles se esforçaram para não falar nada e a encorajaram a se expressar como quisesse. Nossos pais são verdadeiros santos quando o assunto é paciência, mas estou começando a sentir que essa paciência está se esgotando.
– Três blusas. – Adverte minha mãe, devolvendo tudo a Hailey. – Eu falei três blusas e duas calças. Você já tem uma dúzia de blusas pretas, não precisa de outra dúzia. – Então, vira-se para mim, frustrando a tentativa de Hailey de responder. – Então, Biologia dá sono. O que mais?
– Auddy deveria continuar cursando Literatura Moderna. Vai tirar A facinho, facinho.
– Ah! O professor-assistente do Seminário é lindo – Autumn confessa a ela.
Como que por um instinto protetor, o olhar da minha mãe desliza na minha direção e depois outra vez para Auddy.
– Quem é?
Autumn deixa escapar uma expiração distraída.
– Sebastian Brother.
Atrás de nós, minha irmã resmunga, então nos viramos à espera do inevitável.
– A irmã dele, Lizzy, está na minha turma. Ela vive sempre tão feliz.
Fecho a cara ao ouvir as palavras.
– Um nojo, não é?
– Tanner! – Minha mãe exclama em tom de aviso.
Hailey empurra meu ombro.
– Cale a boca, Tanner.
– Hailey!
Autumn se esforça para acabar com o climão, voltando ao assunto sobre o qual falava:
– Sebastian fez essa disciplina no ano passado. Parece que seu livro ficou muito bom.
Minha mãe me passa uma blusa de lã tão horrenda que me recuso a pegá-la.
Coloca a peça outra vez diante do meu peito, lançando para mim um daqueles olhares de mãe.
– Ah, ele vendeu os direitos, não foi? – pergunta a Autumn.
Minha amiga assente.
– Espero que seja adaptado para o cinema e que Sebastian tenha um papel no filme. Ele tem cabelos tão lindos e macios e um sorriso que... Meu Deus!
– Ele tem umas bochechas tão coradas que parece usar blush – lanço, antes de pensar duas vezes.
Ao meu lado, minha mãe enrijece. Mas Auddy não parece perceber nada de estranho em minhas palavras.
– É verdade.
Minha mãe ergue outra vez a blusa e dá uma risada apertada.
– Isso pode ser um problema.
Ela está olhando para Autumn enquanto pronuncia as palavras, mas sei, sem a menor dúvida, que está falando comigo.
Meu interesse pelos atributos físicos de Sebastian Brother não diminuiu quando chega a aula de sexta-feira. Pela primeira vez desde que me mudei para cá, estou me esforçando para passar despercebido. Se estivesse interessado em uma mulher assistente do professor, não seria nada demais alguém ocasionalmente me pegar encarando-a. Mas aqui, com ele, não posso. E, francamente, o esforço que tenho de fazer para parecer tranquilo me deixa exausto. Fujita e Sebastian sempre andam pela sala enquanto anotamos ideias do jeito que funciona melhor para nós – esboços, frases soltas, letras de música, desenhos. E eu estou basicamente desenhando espirais em uma folha em branco só para evitar olhar para ele. Ao meu lado, Autumn produz o que parecem ser mil palavras por minuto em seu laptop, sem parar sequer para respirar, e isso me distrai e me irrita. Irracionalmente, sinto que ela está, de alguma maneira, sugando minha energia criativa. Porém, quando começo a ir para o outro lado da sala em busca de espaço, quase trombo com Sebastian.
Peito com peito. Olhamos um para o outro por alguns segundos antes de darmos um passo para trás, os dois ao mesmo tempo.
– Desculpa – digo.
– Não, não, foi culpa minha.
Sua voz é ao mesmo tempo grave e baixa e tem uma cadência hipnotizante.
Eu me pergunto se algum dia ele vai me dar sermões com aquela voz, se vai me julgar com aquela voz.
– Fujita falou para eu trabalhar mais de perto com você – conta, e agora me dou conta de que ele estava vindo conversar comigo. O rubor se espalha como tinta quente por suas bochechas. – Ele comentou que você estava meio, hum...
Um pouco para trás na criação do enredo e que seria bom fazermos um brainstorming.
A energia defensiva e tensa cria uma coisa estranha em minhas veias. Só
tivemos três aulas e já estou atrasado? E ouvir isso dele? Desse almofadinha que carrega a Bíblia por aí e que não sai da minha cabeça? Dou risada, alto demais.
– Não precisa se incomodar. Sério, vou aproveitar o fim de semana para me colocar em dia. Não quero que gaste seu tempo...
– Eu não me importo, Tanner.
Ele engole em seco e percebo, pela primeira vez, como sua garganta é longa, macia.
Meu coração acelera. Não quero ser tão afetado assim por ele.
– Eu preciso encontrar respostas na minha cabeça – digo e então passo mortificado por ele.
Eu esperava que Sebastian fosse só uma paixão que passaria rápido, só uma noite de fantasias, nada além disso. Porém, só de vê-lo andando pela sala, já fico abalado. Estar tão perto dele quase me deixou sem ar, em pânico. Ele toma conta do espaço que ocupa, mas não é só porque é um desses esportistas musculosos, não é aquela coisa de derramar energia de macho pela sala. A luz parece simplesmente iluminar seus traços de uma maneira diferente dos demais.
Alguns minutos depois, Autumn se aproxima de mim e coloca a mão em meu braço.
– Está tudo bem com você?
Absolutamente.
– Claro.
– Não precisa se preocupar se os outros estão mais adiantados.
Dou risada ao me lembrar de mais um estresse: o livro.
– Nossa, valeu, Auddy.
Ela geme, soltando a cabeça em meu braço, agora também dando risada.
– Eu não quis dizer isso.
Quando olho para o lado, vejo Sebastian pouco antes de ele desviar o olhar de nós. Auddy alonga o corpo e beija minha bochecha.
– Ainda está a fim de ir ao aniversário do Manny hoje à noite?
Laser tag para comemorar o aniversário de 18 anos. Só mesmo em Utah para ver algo assim, cara.
– Não sei.
Gosto do Manny, mas, francamente, não sei o quão humano consigo ser.
Minha paciência para laser tags é muito limitada.
– Vamos, sim, Tann. Eric vai estar lá. Preciso de alguém para me acompanhar, para eu ter algo a fazer além de ficar constrangida diante dele.
Esse colégio é um espaço tão incestuoso. Autumn tem uma queda por Eric, que está interessado em Rachel, irmã da menina que beijei depois do Homecoming do ano passado e que tenho certeza de que saiu com o irmão da
melhor amiga de Hailey. Aponte qualquer um aqui e podemos falar vários tipos de relação de vários graus.
Mas tenho coisas mais interessantes a fazer.
O barulho da música e dos aparelhos eletrônicos atravessam as portas duplas de vidro do Fat Cats. O estacionamento está lotado. Se estivéssemos em qualquer outra cidade, talvez me surpreendesse, mas é noite de sexta-feira; minigolfe, laser tag e boliche com luzes coloridas – isso é o mais atrevido que se pode ter aqui.
Autumn está ao meu lado e a luz de seu celular ilumina seu rosto enquanto ela faz seu melhor para digitar e, ao mesmo tempo, andar pela calçada congelada.
De braços dados, passamos por um grupo de alunos do ensino fundamental, que também estão com os olhos grudados no celular, e chegamos ao interior da casa.
No ano depois que nos mudamos para cá, a família Scott foi com o Prius do meu pai a Vegas para o casamento da minha tia Emily com sua noiva, Shivani.
Hailey e eu ficamos de olhos arregalados a semana toda: painéis digitais, clubes de strip, bebida e pele exposta... Era um espetáculo para onde quer que olhássemos.
Aqui, apesar das diferenças óbvias, como o tamanho da casa noturna e a falta de garçonetes com pouca roupa servindo bebidas alcóolicas, existe o mesmo frenesi no ar. O Fat Cats é como Vegas para crianças e abstêmios. Clientes com olhos vidrados vão de uma máquina de jogo a outra na esperança de ganhar alguma coisa, qualquer coisa.
Avisto um grupo que conheço do colégio. Jack Thorne está jogando o que aposto ser skee-ball com um monte de tíquetes no chão, ao lado de seus pés.
Dave do Futebol está jogando pinball com Clive e, como era de se esperar, tem uma bola de futebol presa entre os dois pés. O aniversariante, nosso amigo Manny Lavea, está brincando com alguns de seus irmãos perto de uma fileira de mesas ao fundo. E, para desgosto de Autumn, nem sinal do Eric.
Analiso as silhuetas diante das enormes telas de cinema suspensas sobre as pistas de boliche – foi mal, Thunder Alley – antes de desistir.
– Está trocando mensagens com ele? – pergunto, baixando o olhar e me deparando com uma Auddy que ainda olha atentamente para o celular.
– Não.
– Então por que está tão grudada assim no telefone esta noite? Você mal parou para respirar.
– Só estava digitando algumas notas – explica, segurando a minha mão e me levando até as mesas. – Para o livro. Você entende, pensamentos aleatórios que surgem em minha cabeça, ideias para diálogos. É uma boa maneira de registrar ideias. Fujita possivelmente vai querer que apresentemos alguma coisa na segunda-feira.
O estresse faz meu estômago pesar e eu mudo de assunto:
– Venha, Auddy. Vou ganhar alguma coisa para você.
Ganho um tigre gigante, o qual reconheço com culpa que, em breve, vai parar no lixão, e andamos outra vez até a área da festa, onde estão distribuindo comida. Uma mulher com aparência de muito cansada chamada Liz tenta estabelecer alguma ordem, antes de desistir e jogar uma bandeja de legumes e molho na mesa ao centro. Para dizer a verdade, já estivemos tantas vezes aqui que Liz poderia sair e fumar um maço de cigarros e passaríamos a noite tranquilamente bem.
Eric nos encontra enquanto a mãe do Manny distribui pratos de papel, e todo o nosso grupo – cerca de 20 pessoas no total – forma duas filas, uma de cada lado das longas mesas. Tem aquela combinação costumeira de pizza ruim e Sprite, já inclusa no preço, mas também me sirvo com alguns dos pratos que a mãe dele preparou. A família do Manny é tonganesa e, quando me mudei para cá, no primeiro ano do ensino médio, vindo da terra da diversidade que é South Bay, foi um enorme alívio encontrar uma pessoa negra naquele mar sorridente de rostos brancos. Em virtude dos esforços missionários no Havaí e nas ilhas do Pacífico, existe um número surpreendentemente grande de polinésios em Utah.
Manny e sua família não são exceção, mas estão entre as famílias de Santos dos Últimos Dias que adoram pregar por aí. Manny é grande e hilário e quase sempre está sorrindo. Eu talvez tivesse uma queda por ele se não fosse tamanha perda de tempo. O cara é claramente heterossexual. E eu apostaria todas as minhas moedas de que será virgem até o casamento.
Vou ao lado de Autumn, abro a boca para provocá-la por só haver um gressino em seu prato, mas as palavras se desfazem em meu cérebro. Sebastian Brother está do outro lado do salão, conversando com dois dos irmãos do Manny. Meu pulso galopa violentamente.
Eu não sabia que ele viria à festa.
Auddy nos leva a um banco para nos sentarmos e distraidamente toma um copo de água. Agora que olho mais de perto, vejo que investiu em sua aparência esta noite: está com os cabelos escovados e usa um gloss brilhante. Tenho certeza de que sua blusa é nova.
– Por que não está comendo? – pergunto, puxando um guardanapo de papel do utensílio plástico.
Em um esforço para provar que não está olhando para Eric, faz um Snap de sua comida, examina a imagem e digita alguma coisa antes de virar o telefone para me mostrar. É a foto de um gressino sobre um prato de papel branco, com a legenda “jantar” logo abaixo.
Francamente.
– A pizza parecia gordurosa e as outras coisas estavam esquisitas. – Justifica, apontando para o meu prato. – Tinha peixe cru na salada.
Ergo outra vez o olhar e sutilmente olho por cima de seu ombro, e ali vejo que Sebastian se sentou na mesa ao lado da nossa. Há uma mochila no banco ao lado dele. Fico instantaneamente obcecado com a ideia de onde ele estava. Na escola?
Na biblioteca? Ele mora no campus da BYU ou na casa dos pais?
Volto a olhar para a comida.
– É o mesmo ceviche peruano que comemos naquele restaurante em Park City. E lá você gostou.
– Não lembro de ter gostado. – Autumn estende a mão com o garfo e rouba um bocado. – A propósito, você viu quem está aqui?
Como se eu pudesse não ver.
Eric e Autumn jogam um pouco de conversa fora e, embora eu não esteja realmente ouvindo, estou prestando atenção o suficiente para perceber os momentos de desconforto em intervalos de poucos segundos. Qualquer um perceberia. A risada de Autumn é alta demais. Os silêncios se tornam mais longos e são interrompidos quando os dois falam ao mesmo tempo. Talvez Eric também esteja a fim dela e isso explique por que estão agindo como duas crianças do ensino fundamental. É ruim o fato de eu me sentir aliviado por ela estar a fim dele, muito embora isso possa dar errado e afetar a todos nós? Minha amizade com Auddy é o mais importante para mim e não quero que haja qualquer resquício de migalha romântica entre nós. Se as coisas voltarem de uma vez por todas ao normal, talvez eu possa contar tudo a ela em algum momento.
Talvez eu tenha alguém com quem conversar sobre esse dilema envolvendo Sebastian.
E, com isso, as orelhas felinas de meus pensamentos deram meia-volta, focando-se atrás de mim. É como se a simples presença de Sebastian emitisse um zumbido. Quero saber onde ele está a cada segundo. Quero que ele note minha presença.
Esse plano é prematuramente frustrado quando Manny arrasta alguns de nós para a arena de laser tag. Vou contra a minha vontade, seguindo-os para a sala onde nos darão instruções.
Autumn escolhe assistir da área de observação na sala ao lado, então estou com Eric e me perguntando se há uma maneira de escapar daqui sem ser notado
antes de o jogo começar. Mas, quando vou na direção da porta, vejo Sebastian e Kole, irmão de Manny, entrando na arena. Quase engasgo com meu chiclete.
Não estou sequer fingindo ouvir quando o instrutor chega. Sou incapaz de afastar meu olhar de Sebastian e da maneira como seu maxilar, e seu rosto, e seus cabelos ficam sob essa luz. Ele também deve estar tendo dificuldades para prestar atenção, pois seu olhar desliza para analisar o salão e ele me observa.
Por um.
Dois.
Três segundos.
Ele me observa.
Sebastian me reconhece e esse reconhecimento se espalha por seu rosto. E, quando ele sorri, meu estômago afunda como se o chão tivesse se aberto debaixo de mim. Socorro.
Sorrio em resposta, uma bagunça instável.
– Meu nome é Tony e eu vou coordenar o jogo – o instrutor se apresenta.
Pisco os olhos, forçando-me a virar para a frente. – Já temos os dois capitães das equipes?
Quando ninguém se oferece como voluntário, ele aponta para o canto onde Sebastian e Kole estão e gesticula para o seguirmos até o vestiário.
Em meio à movimentação, Eric vai parar no fim da fila e eu fico bem ao lado de Sebastian. Que Deus abençoe Eric. Em cada lado da sala, há duas fileiras de coletes equipados com sensores. Fazendo os gestos como um comissário de bordo antes da decolagem, Tony nos instrui para que coloquemos um sensor junto ao colete e guardemos o outro na parte da frente.
– Tirem uma arma da estação de carregamento e apertem o gatilho. –
Prossegue. – Vocês verão um código aparecendo na tela de LED. Estão vendo?
Faço o que ele diz e vejo o nome “O Patriota” aparecer na telinha. Com uma discreta olhadela na arma de Sebastian, vejo o nome “Sargento Blue”.
– Memorizem esse nome. É com ele que vocês verão suas pontuações nas telas lá fora, depois do jogo. Para ganhar pontos e vencer, têm de abater seus oponentes da outra equipe. Podem atingi-los em seis pontos do corpo. – Tony pega a manga da blusa de Manny e o puxa para perto. – Aqui está onde devem mirar – esclarece, apontando dramaticamente para os pontos iluminados do colete. Então prossegue: – Se forem atingidos no ombro ou nas costas, seu colete vai acender e o tiro será contado. Se forem atingidos no peito, o colete vai acender e sua arma ficará travada. Vocês ainda poderão ser atingidos, mas não conseguirão atirar de volta. Estarão vulneráveis até chegarem às suas bases ou encontrarem um esconderijo e a arma voltar a funcionar.
Tony solta Manny e desliza o olhar pela sala.
– São duas equipes competindo na arena e o colete de cada uma terá uma cor diferente. – Apontando para o colete de Kole, diz: – Equipe vermelha. – Depois, aponta para o de Sebastian: – Equipe azul. Atirem na cor que não for a sua. A base de cada time é da mesma cor da roupa, e vocês ganham três pontos quando atingem e derrubam seus oponentes.
Ao meu lado, Sebastian se mexe e vejo-o olhando brevemente para mim, desde os joelhos até o rosto. Arrepios se espalham por minha pele.
– Agora, antes de darmos início à batalha, algumas regras – Tony prossegue. –
Não vale correr para fora da arena porque podem trombar em algo ou alguém lá fora. Não vale deitar no chão, pois podem ser pisoteados. Não vale nenhum tipo de contato físico, e isso inclui dar uns amassos no escuro. Estaremos de olho.
Tusso e Sebastian se mexe ao meu lado.
Tony termina de dar os direcionamentos e nos diz para não batermos uns nos outros com nossas armas ou – que Deus nos proteja! – dizer palavrões, e então é hora de começar.
A luz no vestiário era fraca, mas ainda preciso de um instante para meus olhos se ajustarem à escuridão da arena. Nossas equipes se espalham entre as paredes que parecem feitas de tijolos de neon e eu avisto nossa base no centro. Luzes negras servem como iluminação, mas é difícil enxergar qualquer coisa. O som das armas sendo ligadas se espalha como uma onda pela arena, e então a contagem regressiva começa:
Cinco...
Quatro...
Três...
Dois...
Um...
Sirenes perfuram o ar. Avanço para perto de uma parede e depois outra. Está tão escuro que quase não consigo enxergar, mas as divisórias e o perímetro do salão são marcados com tinta neon e faixas de luzes coloridas. Um tanque verde parece brilhar no canto, e vejo uma luz vermelha e uma movimentação diante dela.
Atiro e o colete pulsa vermelho, registrando que acertei alguém. Meu colete acende quando sou acertado em um canto. “Alvo atingido” anuncia minha arma, mas deve ter sido no ombro porque, quando alguém se arrasta diante de uma parede, ainda consigo atirar, atingido o sensor em seu peito e garantido que sua arma se torne inútil.
Dois outros participantes vêm de lados opostos, e eu me viro e corro, avançando na direção da base. Está quente aqui, o ar não se movimenta. O suor escorre por minha nuca; meu pulso é frenético. Música e efeitos sonoros ecoam
e, se eu fechar os olhos, seria fácil fingir que estamos todos em uma rave, e não correndo por uma sala escura, atirando uns nos outros com armas plásticas de laser. Atinjo mais dois oponentes e consigo dar uma série de tiros rápidos na base da equipe vermelha quando sou outra vez atingido, dessa vez nas costas.
Voltando pelo caminho de onde vim, encontro Eric.
– Tem um grupo perto do tanque. – Ele relata. – Estão lá esperando alguém se aproximar.
Faço que sim com a cabeça. Só consigo diferenciá-lo dos demais por causa da camiseta branca e das baterias em seu colete.
– Vou dar a volta – berro por sobre a música. – Tente cercá-los por trás.
Eric dá tapinhas em meu ombro e eu dou a volta em uma divisória.
A arena é um labirinto com rampas para pular e evitar tiros ou para subir e atirar melhor.
“Alvo atingido. Alvo atingido. Alvo atingido”, minha arma registra, e meu colete acende. Ouço passos acelerando atrás de mim. Quando ergo a arma para retribuir o tiro, sem sinal. Fui atingido no peito. Olho em volta, busco a base da minha equipe ou um lugar para me esconder, então sinto um corpo cair junto ao meu, alguém me puxando para um canto enquanto Kole e seus colegas de equipe correm.
– Santo... obrigado! – digo, passando a mão na testa.
– Não por isso.
Meu pulso avança. Tinha quase esquecido que Sebastian estava aqui. Ele expira esbaforido e uma onda de calor percorre minha espinha.
Aqui tem barulho demais para conversarmos, e estamos próximos demais para eu me virar e olhar para ele sem que a situação se torne constrangedora demais, íntima demais. Então, fico parado enquanto meu cérebro se torna histérico.
Ele segura meu colete e minhas costas fazem contato com a parte frontal de seu corpo. Menos de dez segundos se passam – o tempo de minha arma voltar a funcionar, mas juro que sinto cada tique-ta-que do relógio. Minha respiração soa escandalosa aos meus ouvidos. Posso sentir meu pulso, mesmo com a música alta. Também sinto a respiração de Sebastian bater quente em minha orelha.
Meus dedos se repuxam, querendo que eu os leve para trás, querendo tocar a lateral do rosto dele, sentir se ele está enrubescendo aqui no escuro.
Quero ficar neste canto escuro para sempre, mas sinto o momento quando minha arma volta a funcionar. Ele não espera, agarra a lateral do meu colete para me puxar e gritar para que o siga em direção à base vermelha. Eric contorna um canto e avançamos.
– Vá! Vá! – Sebastian grita, e atiramos ao mesmo tempo.
Poucos segundos se passam e a base pisca vermelha e uma voz gravada
anuncia:
“Base vermelha destruída. Game over!”.