Minha Versão de Você

Christina Lauren · Capítulo 6 de 25

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Minha Versão de Você

Capítulo Seis

Sou um emaranhado de fios elétricos; uma cacofonia de vozes grita instruções em minha cabeça.

Esclareça que você só quer estudar!

Fale do livro!

Peça desculpas!

Tome coragem e conte a ele seus sentimentos!

Mas apenas concordo com um gesto e o observo sorrir rigidamente, avançar na direção das escadas e desaparecer após passar por um pilar de carvalho perfeitamente polido.

Volto os olhos ao meu laptop, abro um documento novo e expresso tudo isso na página em branco.

 

Aqui está o meu número.

Ah, é o Tanenr.

Hum, eu quis dizer Tanner.

Não acredito que digitei meu próprio nome errado!

Haha! Vou salvar seu nome assim nos contatos.

De Sebatsian

(Veja o que eu fiz aí em cima)

Passo os próximos vinte minutos sorrindo para o celular, lendo repetidas e repetidas vezes nossa troca de mensagens. O aparelho permanece grudado à palma da minha mão. Tenho certeza de que meus pais estão se perguntando o que eu estou fazendo – posso perceber por seus olhares de preocupação à mesa do jantar.

– Deixe o celular para comer, Tann – meu pai pede.

Deslizo o aparelho com a tela para baixo na mesa.

– Desculpa.

– Com quem está trocando mensagens? – minha mãe quer saber.

Sei que não vão gostar nada da resposta, mas também não quero mentir.

– Sebastian.

Eles trocam um olhar, cada um de um lado da mesa.

– O professor-assistente? – minha mãe quer confirmar.

– Pode ler as mensagens se quiser. – Entrego-lhe o telefone. – Você consegue ler de um jeito ou de outro, não é mesmo?

Relutante, ela pega o celular, parecendo esperar encontrar muito mais do que de fato encontra. Seu rosto relaxa quando ela vê as palavras inofensivas na tela.

– Que gracinha, mas, Tanner... – ela deixa a frase no ar e olha para meu pai em busca de apoio.

Talvez não saiba ao certo quanta credibilidade terá vestida assim, com seu

avental de arco-íris da Parada Gay.

Meu pai pega o celular e seu rosto se suaviza quando ele lê as mensagens, mas logo uma nuvem turva seus olhos.

– Vocês dois estão saindo? – Hailey bufa.

– Não. – Respondo, ignorando-a. – Vocês, hein? Deus me livre! Temos conversado sobre meu trabalho do colégio.

Um silêncio cético e pesado recai sobre a mesa.

Minha mãe não consegue se conter:

– Ele sabe sobre você?

– Que eu me transformo em um troll quando o sol se põe? – Nego com a cabeça. – Não, acho que ele nunca percebeu.

– Tanner – ela diz com uma voz leve –, você sabe do que eu estou falando.

De fato, sei. Infelizmente.

– Por favor, acalme-se. Não é como se eu tivesse um rabo dependurado no corpo.

– Querido – diz minha mãe, toda horrorizada –, você está escolhendo não me entender...

Meu celular vibra em frente ao meu pai. Ele o pega.

– É Sebastian outra vez.

Estendo a mão.

– Por favor?

Franzindo a testa, ele me devolve o aparelho.

Não vou estar nas aulas essa semana

Só queria te avisar.

Meu peito parece rachar com uma linha atravessando bem o centro, e há uma briga interna entre a notícia ruim e o lado positivo que veio com ela; afinal, Sebastian pensou em me enviar uma mensagem avisando.

Está tudo bem?

Sim, só tenho uma viagem para Nova York.

Estamos mesmo fazendo isso? Estamos enviando mensagens de texto casuais agora?

Nossa, que chique!

Haha! Certeza que vou passar o tempo todo com cara de perdido.

Quando você vai?

Minha mãe suspira alto.

– Tanner, pelo amor de Deus, pare de trocar mensagens durante o jantar!

Peço desculpas baixinho e me levanto, deslizando o celular com a tela para cima sobre o balcão da cozinha, antes de retornar à minha cadeira. Meu pai e minha mãe estão com aquela energia intratável, silenciosamente agressiva, e um olhar na direção da minha irmã denuncia que ela está vivendo seu melhor momento ao me ver ser repreendido uma vez na vida.

Em meio ao som dos talheres nos pratos e do gelo nos copos de água, uma percepção pesada gira pela mesa, e o constrangimento resultante faz meu estômago se apertar. Meus pais sabem que já me apaixonei por garotos antes, mas nunca foi nada nem parecido com isso. Agora, existe um garoto com um nome e um número de telefone. Todos somos bem tranquilos com relação a isso, mas me dou conta, aqui, sentado à mesa do jantar, que existem muitas camadas de aceitação. Talvez, seja mais fácil para eles serem bem tranquilo quando eu posso tudo, menos sair com garotos de Provo. Será que tenho permissão para me apaixonar por meninos só depois que me formar e só por aqueles que meus pais selecionarem de um grupo de homens inteligentes, progressistas e não mórmons?

Meu pai raspa a garganta, um claro sinal de que está em busca de palavras, então olhamos para ele na esperança de que, dessa vez, encerre de vez o assunto.

Espero que diga algo sobre o elefante branco na sala, mas ele apenas aposta na zona de conforto:

– Contem para a gente sobre as aulas.

Hailey começa a falar outra vez sobre as injustiças de ser uma aluna do segundo ano, de ser uma anã e seu armário ficar lá em cima, na última fileira, do cheiro asqueroso do banheiro feminino e que todos os meninos do mundo são irritantes. Nossos pais ouvem enquanto oferecem sorrisos pacientes antes de se concentrarem naquilo que realmente importa para eles: minha mãe deixa claro que está sendo uma boa amiga; meu pai está mais interessado em saber se ela está se esforçando para ter boas notas. Ouço até metade da resposta na qual ela se gaba de sua nota de Química. O fato de meu telefone estar a 3 metros de

distância significa que 90% do meu cérebro encontra-se focado em querer saber se Sebastian respondeu e se poderei me encontrar com ele antes da viagem.

Estou nervoso.

Para ser justo, as refeições costumam ser um momento peculiar, de um jeito ou de outro. Meu pai vem de uma família enorme, cuja satisfação primeira das mulheres é cuidar dos maridos e filhos. Embora o mesmo seja verdade na formação mórmon da minha mãe, a família do meu pai é totalmente centrada na comida. As mulheres não apenas preparam refeições; elas realmente cozinham.

Quando nos visita, Bubbe2 lota o freezer com o suficiente para um mês de kugel e carne e faz as observações mais discretas e mais bem-intencionadas sobre o fato de seus netos em grande parte sobreviverem comendo sanduíches. Com o tempo, ela superou a decepção de meu pai não ter se casado com uma judia, mas até hoje não gosta nada, nada do fato de minha mãe passar tanto tempo trabalhando e isso nos fazer depender de comida pronta e congelada.

E, apesar de sua visão antirreligiosa de mundo, minha mãe foi criada em uma cultura na qual as mulheres tradicionalmente têm o papel de cuidar da casa. Para ela, não preparar nosso almoço todos os dias ou deixar de ir às reuniões de pais é bobagem das feministas.

Até tia Emily, às vezes, sente culpa por não fazer mais para organizar e cuidar da casa. Portanto, minha mãe cedeu e deixou Bubbe lhe ensinar a preparar certos pratos, e ela tenta fazê-los em uma quantidade considerável no domingo para que, com eles, passemos a semana. É um empenho questionável, mas nós, os filhos, a apoiamos nessa empreitada. Meu pai é outra história: já é bem mais seletivo quando o assunto é comida. Mesmo que se considere um total progressista, ele ainda tem alguns resquícios de tradicionalismo. A esposa cozinhar é um deles.

Minha mãe observa meu pai comendo e, com base na velocidade com a qual ele engole as colheradas, avalia o quão boa a comida está. Quero dizer: quanto mais rápido ele come, menos gosta do sabor. Esta noite, meu pai parece sequer mastigar antes de engolir. Os cantos da boca normalmente sorridentes de minha mãe deixam clara sua chateação.

Focar nessa dinâmica me ajuda a distrair, mas só até certo ponto.

Olho para o celular. Como o deixei com a tela para cima, posso ver se receber uma ligação ou mensagem de texto. A tela acende. Enfio na boca algumas colheradas de kneidl, um prato típico judeu, queimando a língua até a tigela estar vazia. Então peço licença antes que qualquer um dos dois possa protestar.

– Tanner – meu pai ralha discretamente.

– Lição de casa.

Enxaguo meu prato e o coloco no lava-louças.

Meu pai me vê indo embora, lançando um olhar de quem sabe que usei a única desculpa que ele seria incapaz de contra-argumentar.

– É a sua noite de cuidar das louças – Hailey grita atrás de mim.

– Não. Você está me devendo uma desde que eu lavei o banheiro no fim de semana passado.

Seu olhar deixa claro que ela está mentalmente erguendo o dedo do meio para mim.

– Também te amo, gatinha do inferno.

Correndo pelas escadas, leio as mensagens de texto.

Meu coração acelera, apertado e feroz. Ele me enviou cinco mensagens.

Cinco.

Vou na quarta à noite.

Tenho reuniões com o editor e o pessoal da editora na quinta.

Ainda não conheci o editor. Admito que estou nervoso.

Acho que você está jantando com a sua família.

Desculpa, Tanner.

Com dedos frenéticos, respondo:

Não, desculpa, meus pais me fizeram deixar o celular de lado.

Fico muito feliz por você. !

Digito meu próximo pensamento e então – segurando o ar bem apertado nos pulmões – aperto “enviar” rapidamente.

Espero que a viagem seja ótima, mas vou sentir falta de te ver na aula.

Espero um minuto pela resposta.

Cinco.

Dez.

Sebastian não é nenhum idiota. Sabe que sou bi. Deve ter sacado que estou a fim dele.

Distraio-me dando uma olhada no Snapchat de Autumn. Seus pés com chinelos. Uma pia cheia de louças. Um close de seu rosto mal-humorado com as palavras “humor atual” escritas logo abaixo. Por fim, fecho as redes sociais e abro o notebook.

Preciso saber com o que estou lidando aqui. Enquanto crescia na Califórnia, sempre soube que a família da minha mãe era mórmon, mas o jeito como ela falava deles – nos raros momentos em que falava – só me levou a pensar que se tratava de uma espécie de seita religiosa assustadora. Foi só quando me mudei para cá que me dei conta de que tudo o que eu conhecia eram estereótipos.

Fiquei surpreso ao descobrir que, embora outras fés cristãs talvez não concordem, os mórmons se consideram cristãos. Além disso, grande parte do tempo livre dessas pessoas é dedicado a realizar serviços – ajudar os outros.

Porém, fora os hábitos de não consumir cafeína, álcool, falar palavrões ou dar uns amassos, tudo ainda parecia uma nuvem de segredos religiosos para mim.

Como de costume, o Google ajuda.

Depois de todas as minhas piadas com as roupas íntimas deles, descobri que o vestuário não é apenas uma coisa ligada à modéstia; é um lembrete físico do convênio que fazem com Deus. Aliás, a palavra “convênio” está em todos os lugares. De fato, a igreja parece ter sua própria língua.

Dentro da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, a hierarquia é exclusivamente masculina. Essa é uma das coisas que minha mãe sempre disse: as mulheres são excluídas. Claro, são elas que têm filhos – segundo a igreja, parte integral do plano de Deus – e podem servir em missões se quiserem, mas, fora isso, não lhes é atribuído muito poder no sentido tradicional do termo.

Traduzindo: não podem ocupar posições ou tomar decisões que influenciem a política oficial da igreja.

O que tenho em mente agora – além da questão Sebastian e vestimentas – é aquilo que faz o sangue da minha mãe ferver: o terrível histórico da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias com relação aos gays.

A igreja recentemente condenou a prática das terapias de conversão, mas isso não significa que elas não tenham existido – e arruinado muitas e muitas vidas.

Pelas informações que obtive de minha mãe, a situação atual é a seguinte: se um mórmon se assumisse para a família, eles rapidamente o mandavam para algum lugar para ser “corrigido”. Esse tipo de terapia envolvia institucionalização e terapia de choque eletroconvulsivo. Às vezes, medicamentos e condicionamento de aversão, o que não me parecia um grande problema, até eu descobrir que isso significava administrar drogas para deixar o indivíduo com náusea enquanto assistia a filmes eróticos com conteúdo homossexual. A internet também me conta sobre versões mais “benignas”, incluindo condicionamento com uso da vergonha ou retreinamento de comportamentos masculinos e femininos (segundo estereótipos), terapias envolvendo encontros com pessoas do sexo oposto, hipnoses e uma coisa chamada “recondicionamento do orgasmo”, que... bem, não.

Quando tia Emily se assumiu, 28 anos atrás, seus pais lhe ofereceram uma escolha: terapia de conversão ou excomunhão. Atualmente, a posição da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias em relação aos assuntos queer é clara como lama. Segundo qualquer declaração da igreja que você encontra por aí, sexo só deve acontecer entre marido e esposa. Preguiça. Mas, surpreendentemente, a igreja reconhece uma diferença entre atração entre pessoas do mesmo sexo e o que chamam de “comportamento homossexual”.

Grosso modo, é o seguinte: garotos sentindo-se atraídos por outros garotos =

vamos fingir que não estamos vendo; garotos beijando garotos = mau.

O mais curioso é que, depois que essa linha tênue foi traçada para, basicamente, dizer que um mórmon gay baixe a cabeça e viva infeliz e insatisfeito a vida toda, em nome de Deus, a maior parte das declarações da igreja também deixam claro que todos são igualmente filhos de Deus, amados por Deus, e devem ser tratados com amor e respeito. Dizem que as famílias não devem, jamais, excluir ou desrespeitar aqueles que escolhem um estilo de vida diferente... mas devem sempre lembrar-lhes das consequências eternas de sua escolha.

E, é claro, todos que vivem aqui sabem do alvoroço que se espalhou pela cidade com uma notícia alguns anos atrás: uma alteração nas diretrizes, segundo a qual pessoas em casamentos com outras do mesmo sexo seriam considerados apóstatas (desertores da igreja – obrigado, Google) e seus filhos excluídos das atividades da igreja até terem idade suficiente para renunciarem a prática da homossexualidade e voltarem para a igreja.

Resumindo: amor e respeito, mas somente para aqueles que estiverem dispostos a viver de acordo com as regras deles... senão, exclusão é a única resposta.

Entende o que eu digo? Tudo é claro como lama.

Em algum lugar da cama, meu celular vibra. Como estou sozinho no quarto, não tem ninguém aqui para me ver bagunçar as cobertas para pegá-lo rapidamente.

Vou estar amanhã o dia todo na BYU.

E, então, enquanto a tela ainda está acesa por causa da mensagem anterior, outra chega:

E também vou sentir saudade de você.

 

Tem alguma coisa rolando entre nós. Só pode ser alguma coisa rolando entre nós desde que nossos olhares se cruzaram naquele primeiro dia de aula.

Quero vê-lo antes de sua viagem. Não estou nem aí para o que minha mãe diz.

Não estou nem aí para as doutrinas.

Afinal de contas, essa não é a minha igreja.

Em tese, o colégio de Provo fica fechado no horário de almoço e os alunos não devem sair, mas essa é uma regra oficial que ninguém obedece. A escola é cercada por restaurantes de fast-food, como Del Taco, e Panda Express, e Pita Pit. Quatro em cada cinco dias, escapamos para comprar alguma coisa para comer.

Admito que sei que Sebastian estuda Literatura Inglesa (não precisei me esforçar demais para descobrir), mas também sei (porque ele me contou na biblioteca) que gosta de passar tempo no Harris Fine Arts Center porque lá é silencioso.

No almoço de hoje, compro Panda Express suficiente para duas pessoas.

Antes de me mudar para Utah, ouvi muito sobre a igreja de acordo com as visões de pessoas que admitidamente jamais fizeram parte dela. Eles casam suas filhas quando elas completam doze anos! E são polígamos!

Não casam e não são – a poligamia foi proibida em 1890 –, mas, por causa da minha mãe, sei que os mórmons são apenas pessoas e esperava que os adolescentes mórmons fossem parecidos com qualquer outro das ruas de Palo Alto. O mais louco é que não parecem. Sério. São como parte da elite em termos de polimento. São muito higiênicos e suas roupas, incrivelmente modestas.

Também vivem excessivamente bem-arrumados.

Olho para a minha camiseta surrada do Social Distortion sobre uma blusa térmica e calça jeans intacta. Eu não me sentiria mais deslocado na Brigham Young University nem se estivesse usando uma fantasia de galinha roxa e fazendo moonwalk na quadra. Como é início do semestre, tem um tipo de programação rolando na frente do prédio principal. Vejo muitas saias longas, e camisas simples, e cabelos bem aparados, e sorrisos genuínos.

Um pessoal brinca de frisbee; um deles cai e grita um suave “poxa vida!” de frustração.

Um trio de alunas brinca de bater as mãos enquanto cantarola uma música.

A BYU é exatamente como eu imaginei, também é provável que seja exatamente como os fundadores esperavam que fosse, mesmo 140 anos depois.

Apenas atravessei a rua de Provo High, mas parece que entrei em um mundo

completamente diferente.

O interior do Harris Fine Arts Center é surpreendentemente escuro e silencioso. A arquitetura moderna faz o espaço parecer mais “engenharia austera” do que “construção de arte” e os pisos superiores são abertos em uma estrutura retangular, com vista para o térreo. Todos os sons – meus passos no chão de mármore, algumas vozes murmurando lá em cima – ecoam pelo saguão inteiro.

Sebastian não está em nenhuma das poltronas, nem nas mesas espalhadas pelo segundo piso e, em retrospectiva, ter trazido essa comida parece um constrangedor excesso de confiança. Indago se há câmeras seguindo cada um dos meus movimentos aqui, se os seguranças da BYU vão aparecer, deduzir que não pertenço a este lugar e educadamente me acompanhar para fora do prédio, desejando-me que meus caminhos sejam seguros e prometendo orar por mim quando me deixarem no limite do campus.

Depois de alguns minutos no terceiro andar, pego-me prestes a ir embora e comer, por estresse, o equivalente a dois almoços de comida asiática de qualidade duvidosa quando avisto um par de Adidas vermelhos espreitando por debaixo de uma escrivaninha.

Aproximo-me e declaro:

– Trouxe uma boa quantidade do almoço menos saudável do mundo para dividirmos.

Sebastian se assusta – e, no tempo que demora para se virar, imploro a mim mesmo para poder voltar no tempo e jamais ter feito isso. No início desse ano escolar, uma aluna do primeiro ano me entregou um envelope e saiu correndo na direção oposta. Desconcertado, eu o abri. Um punhado de glitter caiu nos meus sapatos e ali dentro havia uma carta cheia de adesivos e letras encaracoladas me dizendo que ela achava que éramos almas gêmeas. Eu sequer sabia seu nome até ler a última linha da nota: Paige, com coração de glitter pontuando o “i”. Acho que até aquele momento eu não tinha me dado conta de como somos novos quando temos quatorze anos.

Agora, parado aqui, esperando Sebastian falar... eu sou a Paige. Sou uma criança emocional. Sem dúvida é assustador – ou totalmente imaturo – estar aqui, trazendo almoço para ele. Que diabos estou fazendo?

Ele lentamente tira os fones de ouvido.

Quero respirar aliviado: suas bochechas rubras me dizem tudo o que preciso saber.

– Tanner? – Abre um sorriso enorme. – Oi.

– Oi. É... eu...

Olhando para o relógio na tela de seu notebook, ele faz a observação óbvia:

– Você saiu do colégio.

– Todo mundo sai, não sai?

– Na verdade, não.

Ele pisca e seu olhar se volta para mim com uma leve confusão ali estampada.

– Eu... comprei almoço para você. – Olho para a comida em minha mão. –

Mas agora sinto que estou infringindo a lei.

Analisando o que eu ofereço, ele diz:

– Panda Express?

– Sim. Nojento, eu sei.

– Sem dúvida. Mas, quero dizer, já que você está aqui...

E sorri para mim. É o único convite de que preciso.

Abro o embrulho e lhe entrego o contêiner com noodles e frango ao molho de laranja.

– Também tem camarão.

– Pode ser frango mesmo.

Ao abrir o embrulho, ele geme, fazendo todo o meu corpo enrijecer.

– Obrigado. Eu estava mesmo morrendo de fome.

Sabe aqueles momentos que são tão surreais a ponto de gerar a sensação de

“eu estou mesmo aqui”? Quando você não está apenas usando hipérboles, mas, por uma fração de segundo, vivendo uma experiência fora do corpo? É o que está acontecendo comigo agora. Parado aqui com ele, pego-me em meio à vertigem.

– Meu pai chama esse prato de Frango Gordo Gorducho – me conta enquanto puxo a cadeira ao seu lado e me sento.

Pisco os olhos, esforçando-me para controlar meu cérebro e meu pulso.

– Eu não vou contar para ele se você também não contar.

Sebastian dá risada.

– Ele come isso aqui pelo menos duas vezes por semana, então não se preocupe.

Observo-o usar o garfo, e não hashi, para pegar com todo o jeito uma pilha de noodles e levar à boca, sem sequer sujar o queixo. Existe algo “Teflon” nele: está sempre imaculado, limpo, higienizado. Analiso a mim mesmo e me pergunto que impressão eu transmito. Não sou nenhum lambão, mas tampouco tenho esse mesmo brilho imaculado.

Sebastian engole e um milhão de imagens pornográficas voam em minha mente nos dez segundos antes de ele voltar a falar.

– O que o trouxe ao campus? – pergunta, antes de levar com todo o jeito uma garfada de frango à boca.

Será que está jogando verde? Ou acha mesmo que eu viria à BYU por algum

motivo que não fosse vê-lo?

– Eu estava aqui por perto. – Levo um pouco de comida à boca, mastigo, engulo, abro um sorriso. – Vim ao campus para dançar e cantar algumas canções.

Seus olhos brilham. Não parece se importar por eu não ser mórmon, menos ainda por estar dando uma zoada de leve.

– Legal.

Olho pelo corredor, na direção das janelas com vista para a quadra.

– Sempre tem pessoas lá fora... celebrando?

– Não, mas é um lugar muito feliz.

Inclino o corpo para a frente, sorrindo.

– Enquanto eu passava lá embaixo, alguém ficou frustrado e esbravejou dizendo “poxa vida”.

– O que mais diriam?

Ele está fodendo comigo outra vez. Nossos olhares se encontram e se fixam.

Seus olhos são verdes e amarelos, com listrinhas castanhas. Sinto como se tivesse saltado de um penhasco, sem a menor ideia de quão funda é a água.

Sebastian enfim pisca e baixa os olhos.

– Desculpa por eu ter saído de forma tão abrupta aquele dia.

– Não tem problema.

Acho que não tocaremos mais nesse assunto, mas o fato de ele não conseguir olhar diretamente para mim somado ao rubor brotando novamente em suas bochechas me diz muito.

Tem alguma coisa rolando entre nós, puta merda!

Em algum piso lá embaixo, a voz grossa de um homem mais velho ecoa:

– Oi, Irmão Christensen.

O tal do Irmão Christensen murmura uma resposta polida que chega até nós e, enquanto os dois deixam o saguão, suas vozes se tornam cada vez mais distantes.

– Espere. – Olho outra vez para Sebastian enquanto me dou conta

de uma coisa. – Você já é um Élder? 3

Ele engole antes de responder:

– Não.

Que curioso.

– Sebastian Brother. Isso significa que você é o Irmão Brother. Alegre, ele sorri.

– Esperei a vida toda para ouvir alguém fazer essa piada. O pessoal da igreja é recatado demais para dizer algo assim.

Incapaz de interpretar o brilho em seus olhos, eu hesito.

– Você está me zoando.

– Sim. – Se é que isso é possível, seu sorriso se torna ainda maior e entalha uma ruptura em meu peito quando ele não se aguenta e começa a rir. – Mas acho ainda melhor do que o caso de Lizzy, que vai ser Irmã Brother.

– Ela acha graça nisso?

– Todos nós achamos.

Fazendo uma pausa, Sebastian me analisa por mais alguns instantes, como se ele estivesse tentando me decifrar, e não o oposto, antes de se aproximar e pegar mais uma garfada.

Acho que estraguei tudo. Tenho uma impressão esquisita dos mórmons, como se eles fossem todos caridosos, sérios e secretamente malvados. Para mim, parece impossível eles rirem de si mesmos desse jeito.

– Estou agindo como um cuzão.

A palavra simplesmente sai da minha boca e estremeço como se tivesse falado um palavrão em uma catedral.

Enquanto engole, Sebastian faz que não com a cabeça.

– O quê? Não!

– Eu não sou...

– Familiarizado com a igreja. – Ele conclui para mim. – A maioria das pessoas não é.

– Nós moramos em Provo – lembro-o. – Aqui, a maioria das pessoas é.

Sebastian olha fixamente para mim.

– Tanner, eu sei que Provo não é uma representação do mundo. Todos sabemos. Além do mais, e digo isso com a melhor das intenções, é provável que os jovens não mórmons da idade não conversem sobre o que a igreja tem de positivo. Estou certo?

– Suas palavras me parecem justas.

Pisco e cutuco meu almoço quase intocado. Sebastian me deixa tão nervoso –

nervoso no sentido de animado, vertiginoso. Quando me concentro em seu rosto, meu peito se aperta tanto que quase chega a doer. Sua atenção está focada em sua próxima garfada, então tenho alguns segundos para encará-lo sem sentir qualquer vergonha.

Uma voz fraca tenta me alcançar, vinda do fundo da minha mente barulhenta: Ele é mórmon. Isso está fadado a dar errado. Afaste-se. Afaste-se!

Olho seu maxilar, e sua garganta, e a pele que consigo enxergar logo abaixo, a marca da clavícula.

Minha boca saliva.

– Obrigado mais uma vez – ele agradece, e eu fecho os olhos, registrando o brilho em suas pupilas enquanto ele me observa.

E então percebo que fui flagrado devorando-o com os olhos.

– Você nunca fugiu do colégio? – pergunto no tom mais casual do mundo. –

Ele mastiga mais uma garfada, negando com a cabeça. – Tem um lado meu que queria que você se comportasse mal de vez em quando.

Caramba.

O que foi que eu acabei de dizer?

Sebastian dá risada, tossindo enquanto engole, e toma um gole de água da garrafa sobre a mesa para limpar a garganta.

– Eu matei aula uma vez.

Gesticulo pedindo que continue seu relato enquanto levo um pouco de comida à boca na esperança de que ela acalme meu estômago agitado e minha mente lunática.

– No ano passado, tive uma consulta no ortodontista e, quando voltei, a aula já estava na metade. Tínhamos uma reunião na sequência, depois almoço, e... – Ele balança a cabeça, deixando aquele maldito rubor se espalhar pelo rosto. – Bem, eu me dei conta de que ninguém iria atrás de mim. Tinha três horas para fazer o que bem entendesse.

Mastigo um pouco de camarão, mas é difícil engolir. Quero que ele me diga que foi para casa e procurou na internet imagens de meninos se beijando.

– Fui sozinho ao cinema e comi uma caixa inteira de doces. – Ele se aproxima de mim, olhos tomados por aquele brilho provocador. – E tomei uma Coca-Cola.

Meu cérebro dá pau. Esse programa parou de funcionar. Qual emoção soltar na corrente sanguínea? Afeto ou perplexidade? Pelo amor de Deus, isso é Sebastian sendo o mais rebelde que consegue ser.