Minha Versão de Você
Capítulo Dezessete
Meu pai ainda está acordado quando chego em casa. Segura uma xícara de chá e ostenta em seu semblante aquele franzir de testa que diz “você chegou bem na hora do toque de recolher”.
Sinto o repuxar de um pedido de desculpas começando a brotar nos cantos do meu sorriso, mas não, esse meu sorriso é a prova de balas. Estou em uma câmara de eco e o toque de Sebastian reverbera por todo o meu corpo.
Meu pai franze o cenho como se estivesse confuso com meu sorriso.
– Autumn? – pergunta, mas soa incerto.
Sabe que não fico assim quando saio com ela. Nem com ninguém.
– Sebastian.
Sua boca toma a forma de um “aah!”, e ele assente outra vez, e outra vez, enquanto desliza o olhar por meu rosto.
– Estão se protegendo?
Ah, meu Deus!
Meu sorriso vacila sob o peso da vergonha.
– Pai!
– Foi uma pergunta legítima.
– A gente não... – Viro-me para a geladeira para pegar uma lata de Coca-Cola.
Imagens antagônicas piscam em meus pensamentos: Sebastian em cima de mim, tocando em mim. Meu pai sentado ali, com os olhos apertados, a fim de conversar. – Sabia que minha mãe te mataria por isso? Por sua bênção quase não intencional para que eu tire a virgindade do filho do bispo.
– Tanner!
Não sei se ele quer rir ou me estapear. Para ser sincero, acho que nem ele próprio sabe.
– Só estou brincando. A gente ainda não chegou nesse momento.
Meu pai baixa a xícara e a cerâmica esfrega no balcão.
– Mas, Tann, pode ser que esse momento chegue. Só quero ter certeza de que estão se cuidando.
Abro minha lata de refrigerante, que emite um chiado de satisfação.
– Prometo que não vou engravidar Sebastian.
Ele vira os olhos e minha mãe escolhe este exato momento para aparecer, parando logo ao passar pela porta.
– O quê? – Sua voz sai monótona, mas os olhos estão arregalados.
Preciso de um momento para me dar conta de que está usando uma camisola que diz “a vida passa rápido demais”, com as cores do arco-íris.
Meu pai dá risada.
– Não, Jenna. Ele saiu com Sebastian, mas não é o que você está pensando.
Ela desliza o olhar entre nós, cenho franzido.
– E o que eu estaria pensando?
– Que ele e Sebastian estão em um relacionamento... sério. Pisco os olhos para meu pai.
– Ei, nosso relacionamento é sério.
– Com sério, você quer dizer amor ou sexo? – minha mãe pergunta.
Só consigo bufar.
– Qual seria um problema maior?
– Nenhuma das opções seria um problema, Tann – meu pai afirma com cuidado, olhando para ela.
Com base nesse silêncio que os dois dividem, acabo me convencendo de que meus pais andam conversando mais sobre eu namorar o filho do bispo do que sobre todos os demais assuntos somados.
– Vocês têm sorte, sabia? – digo aos dois, aproximando-me para dar um abraço de urso em minha mãe.
– Por quê? – ela quer saber.
– Porque eu nunca deixei vocês loucos.
Meu pai dá risada.
– Você já provocou algumas taquicardias na gente, sim, Tanner. Não se engane.
– Mas, dessa vez, vocês parecem estar mesmo surtando.
Sua expressão fica mais sóbria.
– Acho que dessa vez está sendo mais difícil para a sua mãe do que ela deixa transparecer. – Ela emite um ruído que deixa claro que está de acordo com as palavras de meu pai. – Esse assunto trouxe à tona muitos sentimentos, muita raiva. Ela quer protegê-lo de tudo isso.
Minhas costelas parecem apertar os pulmões e eu a abraço ainda mais apertado.
– Eu sei.
Suas palavras saem abafadas.
– A gente ama muito você, filho. Queremos que esteja em um lugar mais progressista.
– Quer dizer que, assim que eu receber a carta de aceitação de uma faculdade, devo sair correndo e nunca mais olhar para trás? – pergunto com um sorriso no rosto.
Minha mãe assente para mim.
– Estou rezando para que seja da UCLA.
Meu pai ri.
– Tome cuidado, está bem? Precaução.
Sei que não está falando só de coisas físicas. Agora, vou aonde ele está e apoio o braço em seu ombro.
– Vai parar de se preocupar comigo? Eu estou bem. Gosto muito de Sebastian, mas sei das complicações.
Minha mãe vai até a geladeira para pegar algo para comer.
– Então, deixando de lado os pais dele e os sentimentos dos pais dele, você sabe que Sebastian pode ser expulso da escola apenas por ter ficado com você esta noite, não sabe? A igreja pode estar mais aberta do que quando eu era criança, mas você sabe que existe um código de conduta da BYU que não permite que ele faça o que quer que seja que vocês fizeram esta noite, não sabe?
– Mãe, quando é que a gente pode se divertir um pouco? – Juro que a última coisa que quero fazer agora é analisar o que está errado.
Já faço isso o dia todo, afinal de contas. – O problema não está em Sebastian e nem em mim. O
problema está nas regras.
Ela olha por sobre o ombro para mim, franzindo a testa. Meu pai logo começa a falar:
– Eu entendo o que você está dizendo, mas não é tão simples assim. Você não pode pensar que, só porque as regras estão erradas, pode fazer o que quiser.
Meu entorpecimento pelo toque de Sebastian, pelo que fizemos, começa a desaparecer, e eu quero sair o mais rápido possível da cozinha. É horrível me sentir assim com meus pais. Gosto de poder contar tudo a eles. Aprecio o fato de me conhecerem tão bem. Mas, toda vez que tocamos nesse assunto, sua preocupação se transforma em uma sombra escura que desliza na frente da luz e eclipsa tudo.
Então, eu não respondo. Quanto mais discuto, mais eles vão raciocinar. Meu pai suspira, antes de me lançar um leve sorriso e erguer o queixo como quem diz
“pode ir”, como se percebesse que preciso escapar e expressar o que senti essa noite em algum lugar.
Dou um beijo em minha mãe e depois vou correndo para meu quarto. As palavras estão desesperadas para sair da minha cabeça, para escaparem de minhas mãos. Tudo o que aconteceu, tudo o que sinto, simplesmente flui como um alívio líquido.
Quando as palavras já se esgotaram e o sentimento ainda preenche meu peito
– de ver Sebastian soltar o corpo no capô do meu carro, com aquele sorriso preguiçoso –, pego meu bloco de post-its e vou para a cama.
PASSAMOS A TARDE CONSTRUINDO
“SERVIÇO”, ELE DIZIA.
PEÇAS NOVAS, LUGARES NOVOS, PARTES NOVAS,
TUDO SERIA DEIXADO ALI PARA SE DETERIORAR.
MAS ME SENTI BEM, E ADMITI ISSO A ELE.
ELE APOIOU UMA TÁBUA NO OMBRO,
COMO UMA BAIONETA.
E QUASE DEI RISADA, PENSANDO
“É ASSIM QUE É ESTAR APAIXONADO POR UM SOLDADO
DO OUTRO LADO?”
Fecho os olhos.
Eu devia ter previsto. Depois de sábado à noite, devia ter imaginado que as coisas seriam meio constrangedoras na aula de segunda-feira, porque aqueles dois dias foram, para ele, tempo demais na igreja.
Sebastian não desvia o olhar do que está lendo quando entro na sala de aula, na segunda à tarde, mas sei que sente minha presença como eu sinto a dele, porque seus ombros se repuxam um pouquinho, seus olhos se estreitam e ele engole duramente.
Até Auddy percebe. Ao meu lado, ela ajeita seus livros sobre a mesa e empurra a cabeça na minha direção.
– O que está rolando? – pergunta baixinho. – Vocês dois estão bem?
– O quê? – Olho para ele como se não soubesse do que Auddy está falando e dou de ombros. – Tenho certeza de que ele está bem.
Mas, por dentro, estou tropeçando em meu próprio coração. Sebastian não me enviou nenhuma mensagem ontem. E não olha para mim agora.
Alguma coisa parece fora de lugar, e o jeito descuidado como ignorei as preocupações de meus pais parece, agora, vir morder o meu traseiro.
Asher entra apressado na sala com uma McKenna berrando logo atrás, e toda a sala fica em silêncio quando ele a solta do jeito mais grosseiro possível.
McKenna desliza pelo corpo dele, toda sorridente, e as mãos de Asher estão praticamente grudadas no traseiro dela. A entrada dos dois é tão absurda, tão desesperada por atenção, que até Burrito Dave deixa escapar, todo perplexo:
– Cara, precisava disso?
Os dois se beijam diante da classe para anunciar que voltaram.
– Está bem, então – digo.
Sinto uma pontada de raiva no peito. McKenna e Asher podem demonstrar todo o seu afeto em qualquer lugar da escola e, exceto por uma ou outra pessoa revirando os olhos, ninguém está nem aí. A propósito, os dois são mórmons, e, se eu não estiver errado, não deveriam exibir esse tipo de comportamento em lugar nenhum, menos ainda no meio do colégio. Mas vão ser ridicularizados, evitados ou ameaçados por isso? Não. Ninguém vai denunciá-los ao bispo. E os dois são péssimos. Provavelmente, voltaram porque estavam sentindo falta das fofocas que geram. Posso apostar que já transaram de todas as maneiras concebíveis, e Asher ainda assim vai partir para sua missão, voltar para casa, se casar com uma mórmon boazinha – talvez a própria McKenna – e continuar sendo tão hipócrita com os valores dos mórmons quanto todos os outros.
Enquanto isso, Sebastian não pode nem olhar para mim na sala de aula, provavelmente porque está se punindo por nossos toques comparativamente bastante inocentes no sábado.
Meu estômago fica amargo e começa a ferver.
– Acho que o baile iminente os fez ficar apaixonados de novo – Autumn diz ao meu lado.
– Ou desesperados.
Puxo o notebook da mochila e lanço um olhar para Sebastian. Ele continua sem se virar para mim.
Queria poder jogar alguma coisa em sua cabeça ou gritar, sem a menor vergonha, “oi, você lembra de mim?” na frente de todo mundo. Em vez disso, apenas pego o celular e, debaixo da mesa, envio um rápido: Oi, eu estou aqui.
Vejo-o levar a mão ao bolso, pegar o celular e ler meu recado.
E, aí, ele se vira, me oferece um sorriso discreto por sobre o ombro, sem em nenhum momento olhar direto para mim – seus olhos navegam em algum ponto acima da minha cabeça – e se vira outra vez.
Meu cérebro é um liquidificador. A voz da minha mãe surge na superfície mais uma vez, acalmando-me, lembrando-me de que Sebastian vai partir em breve e sofre pressões que eu jamais vou entender. E se agora ele tiver orado e se sentido pior?
A aula se arrasta terrivelmente enquanto continuo em minha espiral. Quase todo mundo já terminou seus manuscritos, e Fujita está nos dando dicas para revisar. Pelo menos, acho que está. Fico agradecido por Autumn estar tomando
notas meticulosas porque não estou acompanhando nada. Só consigo inclinar o corpo sobre meus post-its e escrever:
A LUA SUMIU,
DEIXANDO APENAS O BRILHO AMARELO DAS LUZES NOS POSTES
ATRÁS DE NÓS.
ESTRADAS
DETERRA
SEGUEM
LÁ
ATRÁS
PORTODA
UMA
ETERNIDADE,
E, PELA PRIMEIRA VEZ, ESTIVEMOS SOZINHOS.
EU ACEITARIA O SEU CALOR NESSE CARRO MINÚSCULO TODOS OS
DIAS,
EM VEZ DA MEMÓRIA DE VOCÊ NA MINHA CAMA.
EM MINHAS MÃOS, TANTO PESO.
TODA UMA VIDA DE DESEJOS EM MINHA PALMA.
VOCÊ MORDEU MEU PESCOÇO QUANDO APARECEU.
E FICOU DE OLHOS FECHADOS QUANDO ME BEIJOU.
E faço tudo o que posso para não encará-lo.
Segundos depois que o sinal toca, já peguei minhas coisas e passei pela porta.
Autumn tenta me alcançar, mas continuo avançando. Mais tarde, enviarei para ela uma mensagem de texto explicando tudo. Estou no fim do corredor quando ouço meu nome. Não é a voz de Autumn.
– Tanner, espere.
Meus pés diminuem o ritmo, muito embora eu não queira que façam isso.
– Oi.
Mantenho os olhos grudados nos armários próximos de mim. Eu não devia fazer isso agora. Estou magoado, com raiva e constrangido por ele ter me evitado e com medo do que posso vir a falar.
– “Oi”? – diz em resposta, claramente confuso.
E não é de se surpreender; acho que é a primeira vez que ele veio atrás de mim.
Parados no meio do corredor, somos como uma pedra no rio. Uma corrente de alunos passa por nós, seguindo seus caminhos. Eu não nos descreveria aqui, neste lugar, como “discretos”, mas, se ele está aqui, então eu também estou aqui.
– Você estava indo para a aula? – pergunta.
Não sei por que a tempestade escolheu este momento para ganhar força dentro de mim. Por que agora? Tudo estava indo tão bem nesse fim de semana.
Tivemos um dia de silêncio e uma interação estranha na sala de aula e boom –
meu cérebro está sob alerta de um turbilhão de pânico.
Estou outra vez na montanha, ouvindo-o dizer “não... isso. Eu não sou gay”.
E tem alguma coisa hoje, alguma coisa em seu maxilar, algo estranho em sua postura longe de mim que me avisa que o que tivemos sábado fez mais mal do que bem. Ele está tão enterrado em seu próprio dogma, e em seu próprio mundo de obrigações, e em expectativas, e não consegue admitir para si mesmo que gosta de meninos, que sempre vai gostar de meninos, e que esse é um lado dele, parte dele, algo digno de admiração e respeito, assim como tudo o mais que ele tem.
– Minhas aulas já terminaram. – Respondo. – Eu estava indo para casa.
Sebastian balança a cabeça.
– Certo, eu sabia. Tanner, eu sinto...
Sebastian não consegue concluir esse pensamento porque Manny está vindo em nossa direção.
– Oi, meninos – cumprimenta, sorrindo para nós.
Mas ele não diz apenas “oi”, ele diz “oi, meninos”. Como se não fôssemos duas pessoas, mas duas pessoas juntas. Como se fôssemos um casal. Quando tento avaliar a reação de Sebastian, percebo que também fez essa distinção.
Jesus, Manny! Será que você pode mostrar seu apoio com mais discrição?
– Manny, oi – Sebastian responde.
Desvio o olhar na direção da jaqueta esportiva de nosso colega recém-chegado.
– Jogo hoje à noite? – pergunto, tomando o cuidado de manter uma voz neutra, apesar de sentir que uma constelação começou a explodir em meu peito.
Em momento algum contei ao Sebastian sobre a minha conversa com Manny.
Em momento algum contei que Manny sabe.
– Sim, de basquete. Ouçam, vamos inaugurar a piscina de casa esse fim de semana e queria convidar vocês dois. Vai um pessoal daqui, alguns amigos do meu irmão... – Ele faz uma pausa, deslizando o olhar de mim para Sebastian e outra vez para mim, e, se eu tivesse que apostar, com base na expressão de Manny, diria que nós dois estamos com uma cara péssima. Vira-se para mim e continua: – Mas, Tanner, não é o pessoal daquele dia no lago. Todo mundo é de boa, então não precisa se preocupar com nada.
A cabeça de Sebastian se inclina lentamente para o lado antes de ele perguntar:
– O que você quer dizer com isso?
O ar sai em um único golpe de meus pulmões.
Manny fica de olhos arregalados. Para tornar essa situação ainda mais
constrangedora, só se ele já chegasse falando “vocês dois são o casal mais lindo do mundo”.
– Eu só quero dizer que... – E olha para mim em busca de ajuda. – Desculpa, é que vi vocês dois na trilha umas semanas atrás e pensei que...
Qualquer sinal de cor desaparece do rosto de Sebastian.
– Manny... – Começo, mas ele acena para que eu não diga nada.
– Não, meninos, eu entendi. Enfim, os dois estão convidados, ou um de vocês, separados, como for melhor.
Ele é um cara bastante tranquilo e espero que Sebastian se sinta mais confortável ao notar que Manny, claramente, não dá a mínima para o que nós dois fazemos juntos. Porém, Sebastian continua como uma estátua ao meu lado.
Com um rápido olhar sobre o ombro, Manny vai embora, e Sebastian se vira para mim.
Ah, merda!
– O que foi que você falou para ele?
Ergo as mãos.
– Ou, ou! Eu não falei nada para ele. Ele acabou de admitir que viu a gente na trilha.
Deus, qual trilha? Agora já fizemos tantas e, com o passar do tempo, começamos a nos sentir mais à vontade na montanha, passamos a nos beijar como se estivéssemos a portas fechadas. A ideia de Manny ter visto isso... de que talvez houvesse alguém com ele... Meu estômago mais parece um caldeirão de água fervente.
Sebastian se vira e seu perfil é um retrato de raiva contida. Esse deve ser o primeiro segundo em que sinto que somos realmente um casal. O mais irônico é estar acontecendo justamente enquanto estamos no colégio, com os corredores cada vez mais vazios, exceto por um ou outro perdido que não tem ideia de que estamos juntos, de que nos beijamos, de que eu já o vi perdido em prazer, já o vi chorar e segurei sua mão. Que já vi sua generosidade e que sinto orgulho quando me dou conta de que ele é meu. Em nenhum desses momentos parecemos tanto um casal quanto agora, quando sei que estamos prestes a começar a discutir.
– O que aconteceu no lago?
– Uns caras agiram como idiotas e ele veio até mim e a Autumn, e falou que...
Sua voz sobe uma oitava.
– Autumn também sabe?
Alguém passa e Sebastian se espanta, transformando outra vez seu semblante naquela máscara e cumprimentando discretamente:
– Oi, Stella.
Quando ela vai embora, vamos para o estacionamento. Está vazio aqui – tipo,
não tem nenhum aluno, nenhum professor, ninguém andando na calçada. Mesmo assim, Sebastian mantém uma distância segura de mim. Uma distância mórmon, minha mente ironiza.
– Bem, Manny claramente viu a gente. Ele veio até mim e a Autumn quando estávamos indo embora porque alguém chamou alguém de bicha, e, aí, Manny falou que sentia muito por aquela situação. Foi constrangedor... Assim como foi ali – afirmo, apontando para o corredor. – E Autumn ficou insistindo por tipo, umas duas horas.
– Tanner, isso é péssimo. – Sebastian olha furioso para mim, antes de piscar e expirar lentamente.
Só consigo pensar em um dragão cuspindo fogo.
– Entenda uma coisa: Manny viu a gente. Não só eu... nós. Não estou exatamente hasteando uma bandeira do arco-íris aqui. Eu não falo para as pessoas que sou bi. Autumn, minha melhor amiga, não sabia até uma semana atrás, e eu não contei a ela sobre você. Eu disse que sentia algo por você, mas não falei que era recíproco.
– Eu pensei que... depois de sábado à noite... – Sebastian balança a cabeça. –
Eu pensei que você tivesse contado alguma coisa para Eric ou Manny.
– E por que eu faria isso? – Sei que não devia falar o que falei em seguida; é infantil e mesquinho, mas minha boca não consegue se controlar: – A não ser que eu quisesse falar com alguém sobre esse importante evento emocional da minha vida.
Ele ergue a cabeça.
– Como assim?
– Só quero dizer que teria sido legal receber notícias suas ontem e algum sinal, hoje, de que me viu e não estava surtando.
O rosto de Sebastian denuncia sua irritação.
– Tanner, eu estava ocupado ontem.
Ah, a sensação é a de tomar um tapa na cara. De dedos esticados, daqueles que deixam a marca na bochecha.
– Muita coisa da igreja para fazer, imagino.
Sebastian entende o que quero dizer e responde:
– É o que fazemos aos domingos. Será que sua mãe não ensinou para você como agimos? Se é que ela ainda se lembra.
Um...
Dois...
Três...
Quatro...
Cinco...
Continuo contando. Forço-me a lembrar de que ele só está assustado. Lembro-me de que está confuso. Se eu estivesse como espectador agora, sei que diria a mim mesmo: “Esta não é uma batalha sua. É uma batalha de Sebastian. Dê espaço a ele”. Mas será que não é minha também? Pelo menos um pouquinho?
Estamos juntos nessa, navegando nessas águas pela primeira vez.
Ele dá as costas para mim. Sua mão puxa os cabelos enquanto ele anda pelo canto do estacionamento. Parece pronto para sair correndo, fugir. É curioso perceber que isso é exatamente o que ele quer fazer, porque não é só uma questão de não querer ter essa conversa aqui; ele não quer ter essa conversa em lugar nenhum. Quer que fiquemos juntos sem qualquer expectativa ou discussão.
É como uma nuvem se formando – agora está aqui, vai desaparecer em algum momento do futuro nebuloso, indefinida.
Então pergunto:
– Você já pensou em contar aos seus pais que é gay?
Sebastian nem se surpreende por eu ter chegado a essa pergunta tão rapidamente. Não há nenhum sinal de espanto, nenhum olhar estranho. As linhas em sua testa franzida ficam mais profundas e ele dá um passo para ainda mais longe de mim.
– Eu precisaria chegar a muitas conclusões sobre mim mesmo, antes de ter essa conversa com eles.
Encaro-o.
– Sebastian? Você é gay?
Quer dizer, é óbvio que ele é.
Certo?
Ele me observa como se nem sequer me conhecesse.
– Não sei responder a essa pergunta.
– É uma resposta de sim ou não.
– Eu sei quem eu quero ser.
– Quem você quer ser?
E que porra significa isso?
– Quero ser bom e generoso e semelhante a Cristo.
– Mas o que isso tem a ver com a minha pergunta? Você já é essa pessoa.
Também é gentil, atencioso e leal. Todas essas qualidades que o fazem essa pessoa que eu amo. Você já é assim. Ser gay não muda nada.
E posso ver o momento em que minhas palavras o atingem, em que elas penetram sua pele, quando são absorvidas. Eu falei a palavra. Não a palavra
“gay”. Eu falei “amo”.
Ele pronuncia meu nome bem baixinho e olha para o lado.
Sequer está olhando para mim, e eu acabei de falar que o amo.
Por algum motivo, a próxima pergunta parece muito mais importante do que a anterior:
– Sebastian, você ouviu o que eu disse? Eu te amo. Percebeu o que eu falei?
Ele assente.
– Eu ouvi.
Está enrubescendo. Reconheço esse rubor e sei que é de felicidade. Posso ver.
Agora, eu conheço as tonalidades específicas de cada emoção, isso não é curioso?
Ele gosta de ouvir que eu o amo, mas, ao mesmo tempo, não gosta.
– É demais para você – arrisco –, não é?
– É. – Ele confirma. – Quero dizer, estou sendo sincero, é intenso demais ouvir isso agora. E não tem a ver com o que você perguntou antes. – Sua voz perde o volume e ele olha furtivamente em volta. – Sobre se eu sou gay. É muita coisa agora porque tenho um livro que está para sair, e vou partir para cumprir a minha missão, e tem muita coisa acontecendo.
– Então é inconveniente me ouvir dizer que te amo?
Ele treme.
– Tanner, não. Eu só estou dizendo que... não sei se posso te dar a mesma coisa que você quer me dar.
– Não é uma questão de eu querer dar meus sentimentos para você. – Chego a rir dessa ideia. – Eu só sinto isso.
Sebastian me observa como se eu estivesse louco.
Como se talvez não acreditasse em mim.
– Eu te amo por quem você é, e não por causa das suas bochechas vermelhas, ou dos seus olhos, ou das coisas que me faz sentir quando me toca. – Declaro, e ele enrubesce outra vez. – As coisas que amo em você não vão desaparecer quando você for fazer a turnê de divulgação do livro, não vão sumir quando você for cumprir a sua missão. Eu vou continuar aqui e vou continuar sentindo essas coisas. Vou continuar me esforçando para ser uma pessoa melhor, um amigo melhor, um filho melhor. E vou me perguntar como eu poderia ser um melhor namorado para você. E você vai estar envolvido com a sua missão, pensando em quanto queria não ser gay.
Sebastian está nervoso, já percebi. Meu primeiro instinto é desejar poder retirar minhas palavras, mas esse instinto se desfaz como fumaça quando me dou conta da realidade: cada palavra foi sincera.
– Eu não vou querer... – Ele começa, mas logo se vira, maxilar repuxando de raiva.
– Então é isso? – pergunto. – Chegamos ao limite do que você está disposto a dar?
Ele nega com a cabeça, mas diz:
– Você quer que eu seja uma coisa que eu não sou.
Uma coisa. Não alguém, mas uma coisa.
– Eu só quero que você fique bem com quem é. Sei que não sou o único que tem sentimentos aqui.
Ele mira e atira, seu rosto é uma máscara calma.
– Acho melhor a gente terminar. – Sebastian faz uma pausa, observa enquanto meus órgãos se transformam em tijolos e desmoronam dentro de mim. – Não está mais dando certo.