Minha Versão de Você
Capítulo Quinze
– Tanner, o que está acontecendo?
É a mesma voz que Sebastian usou na montanha. Não entendo por que você está tão chateado.
E, exatamente como Sebastian, ela entende. Auddy só quer ouvir as palavras saindo da minha boca.
– Eu... – Olho para o céu. Um avião passa e me pergunto para onde estaria indo. – Eu... acho que estou apaixonado por Sebastian.
Auddy sorri, mas é um sorriso estranho, robótico. Quase dou risada, porque a primeira coisa que me passa pela cabeça é como Sebastian é melhor do que Autumn quando o assunto é fingir sorrisos, mas essa seria a pior coisa que eu poderia dizer agora.
– Vamos conversar no carro? – proponho.
Ela se vira e vai, ainda de maneira robótica, ao banco do passageiro. Estou em um estranho estado de choque, no qual as palavras e expressões de Manny giram em minha cabeça. Sei que uma conversa importante com Autumn está prestes a acontecer, mas espero esse momento há tanto tempo que, acima de tudo, sinto um enorme alívio.
Auddy bate a porta, eu também entro no carro e viro a chave só para poder ligar o aquecedor.
– E aí?
Ela se vira para me encarar, empurrando uma perna debaixo do corpo.
– Então... O que foi que acabou de acontecer?
– Bem, parece que Manny deduziu que eu gosto de meninos.
Auddy pisca os olhos. Sei que ela é toda a favor do direito dos gays – adora Emily e Shivani, rebela-se com a política dos mórmons contra os membros queers e ajudou a espalhar cartazes da festa da Aliança Gay-Hétero de Provo High na primavera passada. Contudo, uma coisa é apoiar na teoria; outra é ver bem na sua frente, na vida real. Em seu melhor amigo.
– Tecnicamente, eu sou bi. Acho que sei disso desde sempre, mas certeza mesmo tenho desde os 13 anos.
Ela aponta para seu próprio rosto.
– Se tiver algum incômodo estampado aqui, só estou chateada por você não ter me contado antes.
Encolho os ombros. Francamente, não preciso apontar que o momento em que decido dividir essa informação não é problema dela.
– Certo. Bem, aqui estamos nós.
– Parece ser algo importante.
Suas palavras me fazem rir.
– É importante. Estou descrevendo como meu coração bate.
Confusa, ela pisca freneticamente.
– Mas você ficou com Jen Riley no primeiro ano. Eu vi vocês! – conta. – E o
que dizer de Jessa, Kailley e Trin? Você transou. Com meninas. – E também dei uns pegas em você. – Faço-a lembrar. Auddy fica enrubescida e eu aponto para o meu peito. – Bi.
– Não seria estranho se houvesse uma menina na escola, uma menina sobre quem tivéssemos conversado, que nós dois achássemos linda, doce e perfeita, e eu me apaixonasse por ela, enfrentasse isso sozinha e não contasse nada para você?
Eu não tinha pensado na situação por esse ângulo, mas essa hipótese me faz sentir meio tristonho – como se eu estivesse aqui o tempo todo, disponível, interessado no melhor para minha amiga, e ela não me procurasse por não confiar em mim.
– Ah, sim, está bem, eu entendo. Mas, em minha defesa, devo dizer que estamos em Provo. E você conhece a minha mãe, ela é toda militante da causa.
Não há espaço para estar nada menos do que cem por cento ao meu lado. Eu não quis correr o risco de você criar algum conflito ou problema comigo.
– Ai, meu Deus. Agora faz todo o sentido.
Auddy expira longa e demoradamente contra a janela. Uma nuvem de condensação surge e ela desenha um coração ali. Depois, abre o Snap e digita um “UAU” vermelho enorme antes de postar.
– E, aí, o Sebastian entrou na história – ela prossegue.
– Sim. O Sebastian sabe – digo, intencionalmente entendendo errado sua pergunta –, mas ele descobriu por acidente. Quando esbocei a ideia do meu livro, acabei me esquecendo de apagar a palavra “queer”, e é muito claro que meu texto é autobiográfico.
Seus olhos se arregalam quando ela percebe que as palavras fluem tão facilmente para fora da minha boca, e eu esqueço que nem todo mundo mora com famílias nas quais um dos pais tem uma camisola estampada com dizeres do tipo: “meu filho queer é foda”. – Seu livro é sobre ele?
– Comecei escrevendo sobre quem sou eu nesta cidade. E aí Sebastian apareceu na história e... sim. Virou sobre me apaixonar por ele.
– Ele é...?
– Nunca me disse que é gay. – Respondo. Tecnicamente, não estou mentindo.
Expor a sexualidade dele não é meu papel e nem minha intenção. – Ele ainda vai viajar para cumprir a missão dele, imagino...
Auddy sorri e segura a minha mão.
– Isso não quer dizer que Sebastian não seja gay, Tann. Muitos mórmons são gays. Muitos missionários e tantos outros homens casados.
– Acho que sim. Só estou... desapontado.
Autumn aperta meus dedos. Suas bochechas enrubescem antes de ela perguntar:
– Você já transou com algum menino?
Nego com a cabeça.
– Só beijei. Tive um namorado de alguns meses na minha cidade.
– Uau! – Ela mordisca o lábio. – A ideia de você e Sebastian se beijando é...
Uma risada estoura em minha garganta, e soa como alívio.
– E aí está ela. Autumn voltou.
Ela me bombardeia de perguntas, e decidimos ir ao shopping.
Como meus pais reagiram?
O que Hailey pensa disso?
Já gostei de outros meninos do colégio?
Quantos meninos já beijei?
É diferente de beijar meninas?
Qual eu prefiro?
Acho que em algum momento me assumirei para todo mundo?
Respondo tudo – bem, quase tudo. É claro que não posso confessar que beijar Sebastian é melhor do que qualquer coisa que já fiz em toda a vida.
E, obviamente, deixo claro que assim que for para a faculdade, planejo assumir tudo. Todos sabiam em Palo Alto. Assim que as rodas do meu carro atravessarem a fronteira do estado, vou baixar a janela e abrir a minha bandeira.
Porém, a conversa tem um fundo que é impossível ignorar, uma pontada de dor por eu não ter contado antes para ela. Por sorte, Autumn se distrai facilmente com abraços, piadas e sorvete. Por dentro, algo parece se acalmar.
Autumn sabe.
Está tudo bem entre nós.
Passar o resto do dia sob o calor de sua presença tem o benefício adicional de não me deixar obcecado com a distância de Sebastian, com ele não ser gay e, talvez, mais especialmente, com o que Manny falou lá no lago. É bom ter o apoio de Auddy, mas me incomoda pensar que provavelmente vou passar a maior parte da vida dividindo as pessoas que conheço em dois grupos: aqueles que me apoiam sem questionar e aqueles que deveriam apoiar. Fico contente por Manny estar do lado certo, mas não consigo evitar me perguntar obsessivamente como ele descobriu. Alterno-me entre o alívio por ser óbvio para alguém e não ser grande coisa ou me preocupar com a possibilidade de ser óbvio para mais gente e se tornar uma grande coisa. Por favor, alguém me tire de Provo antes de a merda bater no ventilador!
Tomamos nossos sorvetes de casquinha e andamos em meio às multidões de uma tarde de sábado. Aos sábados, todo mundo vai às compras; os domingos são
para adoração e descanso. Em tese, os mórmons não devem fazer nada que requeira o trabalho de outra pessoa aos domingos, então, na maior parte das vezes, ficam em casa depois de irem à igreja. O que significa que hoje as multidões são densas e exuberantes.
Outra coisa que é fácil de perceber é que a formatura está no horizonte. As vitrines de todas as lojas de roupas proclamam que ali há vestidos, smokings, sapatos, brincos, flores. Promoções, promoções, promoções. Formatura, formatura, formatura.
Depois que Eric se mostrou corajoso e convidou Autumn para o baile, posso voltar a fazer o papel do Melhor Amigo e Apoiador, o que aparentemente significa esperar com toda a paciência do mundo enquanto ela avalia vestidos e mais vestidos no provador pouco iluminado.
O primeiro é preto, justo, vai até o chão, com mangas e um decote questionável, enorme. Também tem uma fenda que vai até a coxa.
– Um pouco exagerado. – Tremo para fazer um drama, mantendo os olhos em seu rosto. – Para dizer a verdade, muito exagerado.
– Muito significa bom?
– Você pode usar isso num baile escolar em Utah? É... – Faço uma pausa, balanço a cabeça. – Não sei... – Aponto para a parte inferior de seu corpo e Autumn abaixa-se para ver o que estou vendo. – Praticamente consigo enxergar a sua vagina, Auddy.
– Tanner, não! Não fale “vagina”.
– Você consegue se sentar com esse vestido?
Autumn aproxima-se de uma cadeira rosa e cruza as pernas para mostrar o que consegue fazer.
Desvio o olhar.
– Obrigado por provar que eu estava certo.
– Qual é a cor da minha calcinha, então? – pergunta, sorrindo como quem acha que estou mentindo.
– Azul.
Autumn se levanta, puxa o vestido para baixo.
– Que droga! Gostei tanto desse.
Ela vai se olhar no espelho e uma pequena centelha de vontade de protegê-la brota em meu peito enquanto imagino Eric, suas mãos e os hormônios dos dezoito anos despejados sobre ela. Auddy me olha nos olhos pelo espelho.
– Então, não gostou do vestido? – pergunta.
Sinto-me um cafajeste por fazê-la pensar que não é perfeita e que não pode vestir o que quiser, mas há um conflito direto com esse instinto de irmão mais velho que me faz querer amarrar as mãos de Eric.
– Quero dizer, você está linda. É só muita... pele exposta.
– Estou mesmo linda? – pergunta esperançosa, e sinto minhas sobrancelhas franzindo.
– Você sabe que está.
Ela murmura alguma coisa enquanto estuda seu reflexo.
– Vou colocar na pilha do “talvez”.
Autumn se fecha outra vez no provador e, por debaixo da porta, posso ver o tecido preto cair em volta de seus pés, antes de ser chutado para o lado.
– Aliás, como está o andamento do seu livro? Agora que sei um pouco mais sobre ele, fiquei ainda mais curiosa.
Bufo enquanto olho o feed do Instagram.
– Eu gosto do que escrevi, mas não posso entregar aquele texto.
Ela passa a cabeça pela cortina.
– Por que não?
Dou uma resposta vaga:
– Porque fica claro que o livro é sobre eu me apaixonar por Sebastian, e não acho que o filho do bispo ficaria tão feliz assim em ser o astro de uma história de amor gay.
Sua voz fica abafada por um instante, enquanto ela coloca outro vestido.
– Não consigo acreditar que é sobre ele. Eu poderia fazer uma leitura crítica para você. O que acha?
A sugestão faz o pânico se espalhar por minha pele. Eu me sentiria menos exposto enviando uma série de nudes para as redes sociais de Provo High do que deixando outra pessoa ler meu livro. Mesmo que essa pessoa seja Autumn.
A cortina se abre outra vez e ela sai em um vestido que tem um terço do tamanho do primeiro. Sinto que falta alguma coisa aqui. Autumn já se trocou na minha frente outras vezes, mas foi mais uma coisa apressada, meio “meus peitos estão saltando aqui, então, se não quiser ver, vire-se de costas”. Agora, parece diferente. Um tanto... exibida.
Deus, eu me sinto um idiota só de pensar nisso.
– Parece um maiô – respondo.
Sem se abalar, ela joga os cabelos sobre os ombros e ajusta a saia minúscula.
– Mas e aí, posso ler ou não?
– Ainda não estou pronto para isso. Em breve. – Vejo-a ajeitando o vestido, fico insatisfeito com o caminho que essa conversa está tomando, mas sei que discutir o vestido é mais seguro: – Gosto desse. Vai fazer você ficar de castigo até se formar, mas acho que a diversão está justamente nisso.
Ela se olha outra vez no espelho, vira-se para ver as costas.
– Talvez, seja curto demais – comenta pensativa.
Seu traseiro mal é coberto pelo tecido. Se Auddy se abaixar para arrumar o sapato, por exemplo, todo o vestido vai se arrastar até suas costas.
– Mas não vou comprar nada hoje. Só estou dando uma olhada para criar um catálogo de ideias.
– Como você faria para um vestido de casamento?
Ela ergue o dedo do meio para mim, antes de voltar ao provador.
– Tem certeza de que não vai ao baile de formatura? Não vai ser a mesma coisa sem você por lá.
Quando ela espreita pela cortina, ofereço um olhar apático, paciente.
– Sim, sim, eu sei – ela fala, desaparecendo outra vez lá dentro. – Quero dizer, você podia convidar ele.
É estranho perceber que essa é a realidade agora: conversar sobre minha sexualidade com alguém, além dos meus pais. Falar de Sebastian.
– Certeza que seria bem complicado.
Vejo seus pés entrando outra vez na calça jeans.
– Que droga!
Fico preocupado com ela começar a supor que há algo acontecendo entre Sebastian e eu, muito embora eu não tenha contado nada.
– Vamos listar os motivos pelos quais isso não parece nada realista: não sei se ele é gay; ele é mórmon; se formou no ano passado; vai sair em turnê para divulgar o livro e depois viajar para cumprir sua missão. Juro que a última coisa que ele poderia querer seria ir ao baile de formatura comigo.
Em algum momento do meu monólogo, Autumn saiu do provador, mas agora está com os olhos arregalados apontados para o que há atrás de mim. Viro-me em tempo de ver Julie e McKenna deixando a loja, digitando loucamente em seus celulares.
Autumn acha que as duas não ouviram nada, mas não há como ter certeza. Ela estava no provador o tempo todo. Estou tentando não surtar e, por melhor que seja saber que Autumn percebe como é difícil ser queer aqui, suas palavras doces ecoando ao fundo do meu cérebro agitado não estão me ajudando a me acalmar.
Tirando nossos telefonemas quase constantes, não ando recebendo muitas notícias de Sebastian. Agora, pela primeira vez, fico aliviado por ele estar em um lugar onde não há linha, assim não me sentirei tentado a compartilhar os eventos do dia, nos quais estão envolvidos Manny, Autumn, Julie e McKenna. Tenho que trabalhar para contornar os danos ou Ele. Vai. Surtar.
– Acha que eu deveria enviar uma mensagem ao Manny para descobrir do que ele estava falando? – pergunto a Autumn, virando uma esquina.
Ela murmura:
– Quer que eu faça isso?
– Não, quero dizer, eu posso escrever, mas... Não sei se não é melhor deixar tudo como está. Fingir que nada mudou.
Estaciono o carro.
– Aliás, como foi que Manny descobriu? – Ela pergunta.
Isso é precisamente o que não consigo saber. E, se Manny sabe, talvez todo mundo saiba. E, se todo mundo souber e eles me virem com Sebastian... também saberão dele.
Para aliviar o estresse, assisto a um episódio de Pretty Little Liars. E é então que recebo a primeira mensagem de Sebastian. Saio correndo do sofá.
Acabei de chegar em casa. Tem problema se eu passar aí?
Olho para a casa vazia à minha volta. Hailey foi visitar uma amiga e meus pais estão aproveitando uma rara noite fora. São quase nove horas, mas o pessoal deve demorar um tempo para voltar. Sei bem o que meu pai falou sobre usar este lugar para nos escondermos, mas Sebastian pode, pelo menos, passar aqui, certo? A gente vai conversar no sofá ou assistir TV. Não há nada errado nisso.
Sim, estou sozinho. Venha quando quiser.
Sua resposta surge quase imediatamente.
Legal. A gente se vê já, já, então.
Corro para o andar de cima para trocar a camisa. Tiro o lixo da cozinha, recolho minhas latas de refrigerante, limpo as migalhas de salgadinhos e jogo fora a caixa de pizza. Estou voltando da garagem quando a campainha toca.
Tenho que parar e respirar fundo para me acalmar, antes de atravessar a sala e abrir a porta.
Ele está parado ali, usando camiseta preta, jeans surrado com um rasgo no
joelho e All Star vermelho desbotado. Mesmo sem suas roupas perfeitamente asseadas, Sebastian é... de tirar o fôlego. Os cabelos caíram sobre os olhos, mas não mascaram a centelha em suas pupilas.
Abro um sorriso tão enorme que meu rosto chega a doer.
– Oi.
Dou um passo para que ele me siga para dentro de casa, onde espera até eu me afastar da porta, antes de me empurrar contra a parede. Seus lábios estão tão quentes quanto sua mão em meu quadril, onde seu polegar pressiona a pele logo acima da minha calça jeans. Esse toque é como se alguém puxasse o gatilho em meu sangue, e eu cambaleio para a frente, tão imerso no contato e na proximidade de outras partes de nossos corpos que nem lembro por que ele não deveria estar aqui. Quero que ele arranque o meu jeans. Quero levá-lo ao meu quarto e ver se enrubesce em todos os lugares de seu corpo.
Alguns beijos depois, Sebastian respira fundo, começando a arrastar seus dentes pelo meu maxilar. Minha cabeça se solta para trás com uma leve pancada, e só então percebo que não fechei a porta.
– Deixe eu só... – começo a dizer, e Sebastian dá um passo para trás.
Olha em volta pela primeira vez em um leve pânico, como se tivesse acabado de perceber onde está.
Noto que está chocado por ter simplesmente entrado aqui e me beijado sem se importar com o que mais pudesse haver em casa. Não vou fingir que esse gesto não me surpreende. É o tipo de impulsividade pelo qual sou conhecido, mas ele sempre pareceu tão mais comedido. Gosto de saber que posso acabar com seus modos. Essa ideia me faz sentir poderoso e esperançoso.
Puxo-o no sofá e o vejo cair ao meu lado. Isso é tão certo. Aposto que passou o dia trabalhando pra caramba, construindo casas, ou cavando trincheiras, ou fazendo qualquer outro “serviço”.
– Como foi o seu dia? – quero saber.
Ele passa o braço em volta do meu pescoço e me puxa mais para perto.
– Foi bom. – Inclino a cabeça para trás o suficiente para ver a marca vermelha em sua pele. – Senti saudade de você.
Esse som que você acabou de ouvir foi meu coração em velocidade máxima, saltando de um avião. Está voando. Acho que eu não sabia que precisava tanto ouvir isso, até ele finalmente falar. É como se passasse uma borracha por cima daquele “Não sou... isso”. – Também fiquei com saudade, caso você não tenha percebido pelas infinitas mensagens que enviei.
Alguns momentos de um silêncio confortável se passam.
– Tann? – Olho para ele e o vejo apertando os olhos para a tela, confuso. – O
que está passando ali?
– Ah, Pretty Little Liars. É como uma série de adolescentes, com reviravoltas e pistas falsas, mas, meu Deus, eu não consigo parar de ver. Quantas pessoas precisam morrer para alguém chamar a polícia? – Pego um saco de salgadinhos e ofereço para ele. – Fico surpreso por você nunca ter assistido, Irmão Brother, com todo o seu tempo livre.
Ele dá risada.
– O que você fez hoje?
Meu coração me dá um soco.
– Dei uma volta com Autumn.
– Eu gosto dela. Parece ser legal.
Meu estômago se aperta e me pergunto se deveria contar a ele que ela agora sabe de mim, mas imediatamente rejeito a ideia. Ela não sabe disso, certo? Seria legal nós três sairmos juntos um dia desses, mas não acho que ele esteja nem perto de se sentir preparado para algo assim.
– Autumn é a melhor.
As outras coisas que aconteceram hoje parecem ser uma sombra que me persegue: Manny, Julie, McKenna.
Mas Manny também não sabe da gente. E, se Julie e McKenna tiverem ouvido minha conversa com Auddy na loja, entenderam que Sebastian não é gay e não vai ao baile de formatura comigo. Ele saiu ileso, certo?
Seu celular acende na mesa e Sebastian estende a mão para pegá -lo. Quando volta ao sofá, me puxa para perto. Se eu virasse a cabeça, poderia beijá-lo outra vez.
Ele digita sua senha e franze a testa para a tela.
– Está tudo bem? – pergunto.
– Sim. É só... minha mãe.
Sebastian joga o celular do outro lado do sofá. Eu me sento com a coluna ereta, afastando-me pela primeira vez desde que ele entrou em casa. Seus olhos estão inchados e vermelhos. Parece que andou chorando, mas também parece que os esfregou muito, algo que já o vi fazer quando está estressado.
– Ei, o que foi?
Além de estudar, dar aulas e escrever seu segundo livro, Sebastian tem que lidar com a iminência de sua missão.
– Nada, não. Está tudo bem. – Acena como se quisesse deixar o assunto de lado. – Ela quer falar sobre o que aconteceu hoje.
Suas palavras fazem um pequeno alarme soar em meu cérebro.
– O que aconteceu?
– Tivemos uma atividade e meio que me incomodou.
Olho para ele.
– Que tipo de atividade?
Posso ver a TV refletindo em seus olhos, mas sei que ele não está prestando atenção; sua cabeça está em algum lugar naquela montanha.
– Fizemos um jogo chamado “A Caminho da Luz”. Já ouviu falar?
Minha expressão deve ser de perplexidade, porque ele ri e não espera minha resposta.
– Eles colocam uma venda em nossos olhos, no grupo todo, e ficamos enfileirados. Dizem para segurarmos o ombro da pessoa à nossa frente.
Vendados na floresta? Parece-me mais um filme de terror do que uma atividade da igreja.
– O líder do grupo nos dá instruções, manda ir para a direita, para a esquerda, ir mais devagar. E não tem problema, porque você consegue sentir a pessoa à sua frente, sentir o peso de uma mão em seu ombro. – Ele respira fundo, olhos deslizando entre o chão e a TV. – Até não sentir mais. Tem uma mão no seu ombro e, de repente, ela desaparece. E, aí, é a sua vez de se desprender e seguir as instruções.
– Me parece aterrorizante. – Comento.
Sebastian segura minha mão e coloca os dedos sobre os meus.
– Não é tão ruim assim. A maioria de nós já fez esse exercício antes e sabe o que esperar, mas... dessa vez, foi diferente.
– Diferente? Confuso?
Porque, francamente, tudo isso soa horrível.
– Não sei como descrever. A pessoa que o guia pela trilha o leva até um ponto e ali diz para você se sentar e buscar diligentemente o Espírito. Sempre fazem isso, mas foi diferente. Eu senti coisas diferentes.
Ajeito o corpo, virando-me para encará-lo.
– Eles deixam vocês sozinhos lá na mata?
– Sei que parece horrível, mas tenho certeza que, se estivéssemos vendo, não iríamos tão longe um do outro, simplesmente seguiríamos a trilha. Mas não podemos olhar, então ficamos sentados, em silêncio, de olhos fechados. E
esperamos e oramos.
Olho para nossas mãos e entrelaço meus dedos aos seus.
– Pelo que você ora?
– Por qualquer coisa que eu precisar. – Sebastian analisa nossas mãos.
Percebo o tremor em seu queixo. – Então, eu estava ali sentado no chão, sem poder ver, e, depois de um tempo, ouvi alguma coisa em meio às árvores.
Alguém chamando meu nome. Meu pai. Primeiro, foi baixinho, mas ficava mais alto conforme ele se aproximava. Meu pai chamava meu nome e me dizia para ir
para casa.
Uma lágrima escorre por seu rosto. Mas ele continua:
– Já fiz essa atividade antes e sempre é um pouco assustadora. Afinal, você não pode ver, então, claro que dá um pouco de medo. Mas dessa vez foi diferente... para mim. Senti uma urgência que nunca senti antes. Então me levantei e segui sua voz. Meus olhos continuavam fechados, então eu ia tropeçando pela colina, com a esperança de que não cairia de uma rocha ou trombaria com uma árvore. Mas fui em frente, sabia que meu pai não permitiria que eu me machucasse, mas o tempo todo eu tinha essa impressão de que precisava me apressar. Quando finalmente o encontrei, ele me abraçou bem forte e falou “bem-vindo à sua casa” e que me ama e que sente orgulho do homem que estou me tornando. E eu só conseguia pensar: “Será mesmo? Ainda se sentiria assim se soubesse do Tanner?”
Meu peito se aperta.
– Sebastian...
Ele nega com a cabeça, secando as lágrimas com as costas da mão.
– Sabe, tive um sonho em que contava tudo para eles, sobre a paixão que tive por um garoto na oitava série e vários outros meninos depois, sem ninguém jamais saber. No sonho, contei que nunca quis beijar uma menina, nunca mesmo, e falei que não podia prometer que me casaria um dia. Depois, estou esperando na floresta e ninguém nunca aparece. Todos vão embora, para a casa de suas famílias, mas eu fiquei ali, de olhos fechados, só esperando. – Ele olha para o teto e pisca. – Fiquei tão aliviado por meu pai estar lá esse fim de semana que quase prometi a mim mesmo que jamais faria nada que pudesse estragar nossa relação. Mas e se eu não quiser o que ele quer para mim? E se eu não conseguir viver de acordo com as expectativas?
Minha garganta parece cheia de areia molhada. Sequer tenho ideia do que dizer. Então, puxo-o para perto de mim e encosto sua cabeça em meu ombro.
– Tenho pensado muito nisso ultimamente – admite, agora com a voz abafada pela minha pele. – E tentado descobrir o que significa, mas não vejo respostas em lugar nenhum. Existem vários ensaios escritos para nós sobre o que é se apaixonar, se casar e se tornar pai. Mesmo sobre perder um filho ou questionar sua fé. Mas não tem nada sobre essa situação, pelo menos nada útil. Em todos os lugares, o que encontro é “atração entre pessoas do mesmo sexo não passa de um termo técnico; não é quem você realmente é. Talvez, não consiga controlar os sentimentos, mas pode controlar suas respostas”, e isso é uma enorme mentira.
Somos ensinados a entregar a vida a Cristo e Ele vai nos mostrar o caminho.
Mas, quando eu oro, o Senhor diz que sim. – Sebastian esfrega as mãos nos olhos. – Ele me diz que sente orgulho de mim e que me ama. Quando beijo você,
sinto que é certo, mesmo quando tudo o que leio diz o contrário. E isso me deixa louco.
Sebastian se vira e beijo sua têmpora, lutando para não perder o controle com ele agora. Não é de se impressionar que ele “não é... isso”. É como se um rótulo fosse capaz de lhe arrancar tudo o que sempre teve. Quero ser forte. Para mim, tudo foi tão mais simples. Tenho tanto apoio. E dói ver que ele não pode contar com nada do que eu tive.
– Eu sinto muito – sussurro.
– O nosso papel é rezar e ouvir, e eu faço precisamente isso. Mas, aí, quando olho para os outros, sinto que... – Ele faz uma negação com a cabeça. – Parece que estou andando na escuridão e sei que o que existe à minha frente é seguro, mas ninguém está me acompanhando até lá.
Ainda estou abalado quando estaciono em frente à casa de Sebastian, alguns dias depois.
Após sua confissão, ele se levantou para ir ao banheiro e, quando voltou, sentou-se ao meu lado, sorrindo como se nada tivesse acontecido. Nunca conheci ninguém tão bom em mudar as marchas e deixar de lado os sentimentos para enfrentá-los mais tarde. Não sei se é a coisa mais impressionante ou mais deprimente que já vi. Ficamos de mãos dadas enquanto assistimos TV, mas, quando seu celular acende outra vez, ele diz que precisa ir para casa. Beija-me na porta e olha para trás enquanto atravessa o quintal em frente de casa. Depois, me envia um e-mail para avisar que estava tudo bem.
Sebastian é muito bom em se sentir bem.
A igreja de fato realizou uma alteração em suas diretrizes recentemente e, como Sebastian falou, eles agora enfatizam a aceitação e a bondade – sempre a bondade – para com aqueles que enfrentam dilemas ligados à sexualidade.
Contudo, não houve uma mudança real de postura; é apenas uma maneira de contra-argumentar a ideia de que a igreja não é aberta à comunidade LGBTQ.
Em minhas leituras, descobri que só recentemente eles se posicionaram publicamente contra a terapia de conversão, alegando que não se deve esperar que alguém mude suas atrações nem que seus pais ou líderes esperem esse resultado. Então, tecnicamente, Sebastian poderia dizer que é gay e não ser expulso da igreja, mas ele não pode ficar comigo. Ter um namorado significaria que está ativamente buscando um “estilo de vida homossexual”, o que seria contra as regras.
Essencialmente, nada mudou.
Deixo o carro na rua e saio. A mãe de Sebastian está ali na frente, descarregando suas compras, e, muito embora o que realmente quero é lhe perguntar quem neste mundo praticaria uma religião que exclui pessoas com base em quem elas amam, corro para perto para ajudá-la.
– Ai, Tanner, você é um doce. Obrigada – agradece, pegando a bolsa.
Acompanho-a para dentro da casa, deixo algumas sacolas no balcão e ela sai para pegar outras. Não vejo Sebastian em lugar nenhum, mas Faith está na sala da frente, deitada no tapete, colorindo um desenho.
– Oi, Tanner – ela me cumprimenta, abrindo um sorriso sem dentes.
– Oi, Faith!
Olho para o desenho e me dou conta de que é uma espécie de livro de colorir dos Dez Mandamentos. Será que essa gente não faz nada que não seja relacionado à igreja? Faith já pintou metade da página, na qual Jesus, com cabelos azuis, está parado na montanha, falando a uma multidão tão colorida quanto o arco-íris. Acho que já adoro essa menina.
– Que desenho mais bonito! – elogio, apontando para o camelo, no qual ela desenhou asas. – Muito criativo.
– Eu vou colar purpurina depois, mas só posso colar purpurina na cozinha.
Você veio procurar meu irmão?
– Sim. – Respondo. – Ele vai me ajudar com o meu livro.
Na verdade, não vai, mas esse continua sendo um álibi excelente.
A senhora Brother entra na sala de estar e sorri para nós dois.
– Uau! – exclama para Faith. – Cabelos azuis?
– Jesus pode ter cabelos azuis.
Seu giz de cera desliza desafiante pelo papel, e quero dizer para ela se lembrar disso, para se lembrar das coisas em que acredita e não deixar que as regras de ninguém as mude.
– Sim, ele sem dúvida pode. – A senhora Brother responde, virando-se para mim. – Tanner, querido, acho que Sebastian está lá embaixo, no quarto dele.
– Obrigado. – Digo. – Belo desenho, Faith.
– Ficou, né? – a menininha responde, sorrindo para mim.
– Tanner, tem uns biscoitos ali no balcão. – A senhora Brother se levanta e aponta para a cozinha. – Será que poderia levar alguns? Sebastian está trabalhando em alguma coisa e não saiu daquele quarto nem para tomar um ar.
Sim, senhora Brother, eu sem dúvida posso levar biscoitos para aquela delícia do seu filho. Será um prazer.
– Claro.
Pego minhas coisas e a acompanho até a cozinha.
– Daqui a pouco, vou levar Faith para a aula de dança, então, se precisar de mais alguma coisa, fique à vontade.
Um prato com seis biscoitos de chocolate descansa no balcão de granito.
Estou prestes a descer as escadas quando alguma coisa lá fora atrai a minha atenção, um brilho azul perto do balanço. Sebastian está com sua camisa azul hoje. Aquela que gruda ao seu peito definido e destaca seus bíceps. Quase não consigo prestar atenção em mais nada e me pergunto se usa essa camisa todas as manhãs para me torturar.
A porta de correr desliza silenciosamente sobre o trilho e eu saio no quintal.
Posso vê-lo daqui, de cabeça baixa, sentado em um dos balanços, passando a caneta marca texto em algumas linhas de seu livro.
Atravesso o gramado e ele ergue o olhar ao me ver.
– Oi. – Cumprimenta, olhos descendo na direção do prato em minha mão. –
Você trouxe biscoitos para mim?
– Tecnicamente, são biscoitos feitos pela sua mãe. Ela só me pediu para entregar.
– Minha mãe gosta de você. – Ele comenta, arrastando os pés pelo gramado. –
Tudo mundo em casa gosta. Eu sabia que seria assim.
Dou risada.
– Não tenho ideia do motivo.
– Qual é?! Todo mundo gosta de você. Meninas, meninos, professores, pais.
Minha avó o chamou de “o menino adorável de cabelos lindos”.
– Sua avó me acha adorável?
Sebastian ergue o rosto na direção do meu, apertando os olhos para protegê-los do sol.
– Acho que você sabe que é adorável. – Quero que ele escreva essas palavras para que eu possa ler várias, e várias, e várias vezes. – Vai me dar um biscoito?
Olho-o nos olhos por um instante, antes de lhe entregar um biscoito. Ainda estão mornos.
– Sua mãe me pediu para levar para o seu quarto. – Comento, arqueando as sobrancelhas em um gesto sugestivo. – A propósito, ela acha que você está no quarto.
Hoje sua aparência é muito melhor – feliz. Aparentemente, o trauma causado pelas atividades da igreja ficou para trás. Sua resiliência mental e emocional é uma espécie de superpoder.
Quando Sebastian sorri, sinto meu coração soluçar no peito.
– Se minha mãe acha que estou dentro de casa, meu voto é para que nos escondamos aqui fora.
– Ela vai levar Faith para a aula de dança.
– Mesmo assim, aqui fora está gostoso.
Sebastian pega suas coisas e eu o acompanho até a sombra de uma árvore enorme. Para qualquer um dentro da casa, estamos invisíveis, completamente escondidos pela copa de folhas novas e verdes.
Pego um biscoito e o parto no meio.
– O que está estudando?
– Psicologia. – Ele fecha o livro e solta o corpo na grama. Faço de tudo para continuar concentrado eu seu rosto, mas, quando se vira para mim, percebo que ele sabia que eu estava de olho em seu caminho de felicidade. – Como foi trabalhar com McKenna e Asher hoje? – pergunta.
Adoro notar que ele parece estar tão acima da nuvem de fofocas, mas não está.
Sebastian vê tudo.
– Ela quase caiu da cadeira tentando mostrar seu decote.
– Eu percebi – responde rindo, mordendo mais um biscoito.
– Como foi o resto do seu dia?
– Prova de Economia. – Dá mais uma mordida, mastiga e engole. Ver seu maxilar em funcionamento é hipnotizante. – Também tive prova de Latim e ensaio do coral.
– Queria ter visto isso.
– Talvez, na próxima, você possa matar aula e ir assistir. – Ele abre um olho para me observar. – Sei o quanto você adora dar o dedo do meio para qualquer tipo de autoridade.
– Esse sou eu, aluno nota máxima e delinquente juvenil. – Passo a língua no chocolate em meu polegar e agora é minha vez de vê-lo acompanhar o movimento. Um tremor percorre minha espinha. – Autumn já está quase concluindo o livro dela.
Ele pensa no que acabei de dizer. Talvez, perceba a tensão em meus olhos.
– Isso é bom, mas não necessariamente. Quero dizer, vocês ainda têm um mês. Algumas pessoas precisam de mais tempo para revisar. Outras, precisam de menos. Você só precisa de um manuscrito concluído ao final do semestre. Não precisa entregar uma prova já toda polida e pronta para ser publicada.
Evito seu olhar, mas ele não desiste de me encarar.
– Você vai me mandar os capítulos?
Detesto a ideia de fazê-lo arrumar meu livro.
Também detesto a ideia de deixar que veja meus medos e neuroses tão claramente expostos.
Então, desvio o assunto.
– Quando você terminou de escrever o seu?
– Hum... – Ele aperta os olhos na direção dos galhos sobre nós. – Eu terminei
em maio, pouco antes do prazo, se me lembro direito. E entreguei o manuscrito uma semana depois, sem saber se o texto estava bom.
– Parece que estava.
– As pessoas têm gostos diferentes. Pode ser que você leia o meu livro e deteste.
– Duvido muito.
– Pode acontecer. Minha mãe já deve ter prometido dar todas as cópias que vou receber como cortesia, mas vou arrumar uma para você. Assim estaremos quites, porque você vai me dar o seu livro.
Sebastian abre o mais charmoso dos sorrisos.
Dou um chute de leve na sola de seu sapato.
– Um editor todo requisitado de Nova York já leu e comprou os direitos do seu. Você sabe que não é uma obra ruim.
– O seu livro não é ruim, Tanner. Não tem como ser. É claro que alguns detalhes precisam ser modificados para proteger os inocentes, mas não é ruim.
Você é muito profundo, muito sensível. – Ele sorri. – Sim, eu falei sensível...
apesar do seu exterior todo irreverente.
– Meu exterior... – começo a falar e sorrir, mas fecho a boca ao ouvir o som das vozes lá em cima.
– O que está acontecendo aí? – a mãe de Sebastian pergunta, e ficamos sem graça, como se tivéssemos sido pegos fazendo alguma coisa errada. – Eu não esperava que você chegasse em casa antes do jantar.
Quando inclino o corpo, alongando-me para ver, noto que a janela do banheiro está aberta, logo acima da nossa árvore. Ela não está falando com a gente.
Sebastian começa a recolher seus livros.
– Vamos entrar. – Ele sussurra. – Eu não quero...
– Brett Avery casou-se com seu namorado na Califórnia na semana passada.
Nós dois congelamos ao ouvir a voz profunda dele, e há um tom duro de reprovação ali.
Sebastian me encara com olhos arregalados.
Só consigo imaginar a expressão de desgosto no rosto de sua mãe, pois seu pai suspira, dizendo com tristeza:
– Pois é.
– Ah, não! – ela exclama. – Não, não, não! Eu sabia que ele tinha se mudado, mas não tinha ideia de que era... – Ela se contém para não dizer a palavra que começa com G, então baixa a voz: – Como estão os pais dele?
Por um brevíssimo momento, a tristeza fica estampada no rosto de Sebastian, e eu tenho vontade de estender as mãos e cobrir suas orelhas, puxá-lo até o meu carro e sair dirigindo.
– Estão sobrevivendo, imagino. – Seu pai responde. – Parece que Jess aceitou melhor do que Dave. O Irmão Brinkerhoff está orando com eles e os colocou na lista de oração do templo. Prometi que passaria lá, então vim em casa para me trocar.
Suas vozes somem quando eles vão a outro cômodo. Sebastian olha, desanimado, para o horizonte, e a tempestade do meu silêncio me queima enquanto tento pensar no que dizer.
Como estão os pais dele?
Sebastian, sem sombra de dúvida, notou que sua mãe não perguntou sobre Brett, se Brett estava feliz. Perguntou sobre os pais, quase como se ter um filho gay fosse algo que eles tivessem que suportar, que explicar, que enfrentar.
Ele é gay; ele não morreu. Ninguém saiu ferido. Sei que os pais de Sebastian são pessoas boas, mas que inferno! Eles inadvertidamente acabam de fazer seu filho sentir que tem algo a ser “consertado”. Será que aceitação custa tanto assim? Será que receber de braços abertos custa tanto?
– Sinto muito, Sebastian.
Ele olha para mim de onde está recolhendo suas canetas, há um sorriso apertado em seu rosto.
– O que foi?
Alguns segundos de um silêncio pesado se instalam entre nós.
– Não é estranho ouvi-los falar assim?
– Falar sobre Brett ser gay? – Quando confirmo com a cabeça, ele dá de ombros. – Acho que a reação dos pais dele não surpreende ninguém.
Analiso seu rosto enquanto me pergunto por que parece tão resignado.
– Não sei... Talvez, se pessoas suficientes se indignassem, as coisas mudariam, não?
– Talvez, talvez não. – Ele inclina o corpo para perto, tentando me fazer olhá-lo nos olhos. – As coisas são assim.
As coisas são assim.
Está resignado? Ou sendo realista?
Será que sabe que isso lhe diz respeito?
– As coisas são assim? – repito. – Então, você vai sair pelo mundo e pregar o Evangelho e dizer a mais pessoas que ser gay é errado?
– Ser gay não é errado, mas também não é o plano de Deus.
Ele nega com a cabeça e acho que esse momento, bem aqui, é quando me dou conta de que Sebastian não tem uma identidade queer. Não tem uma identidade gay. Não tem nem a identidade de um jogador de futebol, ou namorado, ou filho.
Ele tem a identidade mórmon.
– Sei que isso não deve fazer o menor sentido para você. – Diz
cuidadosamente, e o pânico aperta meu estômago. – Tenho certeza de que não tem ideia do que está fazendo comigo ou do que estou fazendo com você, e se você...
– Não. – Aperto seus dedos sem dar a mínima para se alguém está nos vendo.
– Não é isso que estou dizendo. Eu quero você. Mas detesto pensar que seus pais olhariam para nós e nos veriam como pessoas que precisam de conserto.
Sebastian demora um bom tempo para responder, e não sei se gostou de ouvir o que eu falei, porque puxa a mão para longe da minha, ajeitando-a entre os joelhos.
– Não me atrevo a fingir que sei por que o Pai faz as coisas que faz, mas, em meu coração, sei que Ele tem um plano para cada um de nós. Ele nos deu a vida por um motivo, Tanner. Não sei qual é esse motivo, mas sei que existe um propósito. Tenho certeza disso. Estar com você não é errado. O que sinto por você não é errado. De algum jeito, as coisas vão dar certo.
Balanço a cabeça, olhando para a grama.