Minha Versão de Você
Capítulo Cinco
Deus, preciso pisar em ovos.
Ele engole em seco e eu observo o movimento de sua garganta.
– Pode ser? – pergunta, atraindo meu olhar outra vez para o seu rosto.
– Sim – respondo, também engolindo em seco. Dessa vez, é ele quem encara-a que horas?
No sábado, quando me levanto, encontro meu pai usando seu avental verde padrão, sentado ao balcão da cozinha com seu café da manhã. Vejo-o curvado sobre a tigela de aveia como se ali guardasse o grande segredo da vida. Apenas, quando me aproximo, percebo que está dormindo.
– Pai.
Ele dá um salto, fazendo a tigela deslizar pelo balcão antes de, desajeitadamente, pegá-la. Solta o corpo para trás e leva a mão ao peito.
– Você me assustou.
Passo a mão em seus ombros, engolindo uma risada. Meu pai está todo desgrenhado.
– Desculpa.
Sua mão aperta a minha. Como ele está sentado e eu estou de pé, sinto-me enorme. É tão estranho já ter a mesma altura dele. Não tenho nenhum dos traços de minha mãe. Puxei tudo de meu pai: cabelos escuros, estatura considerável e cílios. Hailey tem a altura, as cores de pele e cabelo e a insolência da minha mãe.
– Você só chegou em casa agora?
Ele confirma com a cabeça, empurrando a colher para dentro da tigela.
– Apareceu um paciente à meia-noite com a carótida perfurada, aí me chamaram para a cirurgia.
– Carótida perfurada? Ele conseguiu sobreviver?
Ele responde negando levemente com a cabeça.
Caramba. Isso explica essa postura curvada do meu pai.
– Que triste.
– Tinha dois filhos. E só 39 anos.
Inclino o corpo sobre o balcão, comendo meu cereal direto da caixa. Meu pai finge não ver.
– Como foi que ele...
– Acidente de carro.
Meu estômago afunda. Ainda no ano passado, meu pai contou para Hailey e para mim sobre a ocasião em que três de seus melhores amigos do ensino médio morreram em um acidente de carro, logo depois da formatura. Meu pai também estava no veículo, mas sobreviveu. Deixou Nova York para estudar em Los Angeles, na Universidade da Califórnia, e depois partiu para a pós-graduação em Stanford, onde conheceu e se casou com minha mãe, uma ex-mórmon – para o desgosto da mãe e da família estendida dele, que ainda vivia na Hungria.
Todavia, mesmo depois de ter passado tanto tempo longe, sempre que meu pai visita o norte de Nova York, a perda dos amigos parece voltar a assombrá-lo.
É um dos poucos assuntos que o levou a brigar com minha mãe na nossa frente. Ela insistia que eu tivesse meu próprio carro; ele achava que eu poderia me virar sem. Minha mãe venceu. O problema de Provo é que não tem absolutamente nada para fazer, em lugar nenhum, e nunca dá para se deslocar a pé. O lado positivo é que a cidade é incrivelmente segura – ninguém bebe e todos dirigem como octogenários.
Só agora ele parece perceber que já estou vestido e pronto para começar o dia.
– O que está fazendo acordado tão cedo?
– Tenho um trabalho da escola com alguém de lá.
– Autumn?
Droga! Por que eu disse “alguém de lá”?
Devia ter dito “uma pessoa da classe”.
– Sebastian. – Diante da expressão incerta de meu pai, acrescento: – O
assistente do Seminário.
– O rapaz que vendeu os direitos do livro?
Dou risada.
– Isso, o rapaz que vendeu os direitos do livro.
– Ele é Santo dos Últimos Dias, não é?
Olho à nossa volta como se a cozinha estivesse tomada por mórmons que não tomam o nosso café.
– Todo mundo nesta cidade é, não é?
– Nós somos judeus unitários liberados – anuncia minha mãe, entrando na cozinha com sua calça de yoga e cabelos presos em um coque alto e bagunçado.
Passa por meu pai e lhe dá um beijo nojento e demorado que faz meu rosto se afundar na caixa de cereal. Em seguida, corre para perto da cafeteira. Pega uma xícara enquanto conversa com ele.
– Paulie, a que horas você chegou em casa?
Ele estuda outra vez o relógio, piscando e apertando os olhos.
– Faz meia hora.
– Carótida perfurada. – Resumo para ela. – Não sobreviveu.
Meu pai me encara com um franzir de testa que denuncia sua desaprovação.
– Tanner! – enfim me censura, verbalmente, com uma voz grave.
– O quê? Eu só estava resumindo para ela, assim você não vai ter de explicar outra vez.
Minha mãe olha outra vez para ele, agora silenciosa, e envolve seu rosto com as mãos. Não ouço o que ela diz, mas o leve sussurro de sua voz também me faz sentir melhor.
Ao entrar na cozinha, Hailey é uma mancha composta por um pijama preto, cabelos tingidos de preto, que mais parecem um ninho de pombo, e uma carranca severa.
– Por que é que vocês têm que fazer tanto barulho?
É curioso ela ter escolhido o momento de maior silêncio para surgir com essa queixa.
– Esse é o som que humanos fazem quando estão em pleno funcionamento –
respondo.
Hailey me dá um soco no peito e tenta convencer nossa mãe a lhe dar café.
Como esperado, a resposta é negativa e a única oferta que minha irmã aceita é suco de laranja.
– Café atrapalha o crescimento – digo a minha irmã.
– Então é por isso que seu pênis é tão...
– Tanner vai sair para fazer um trabalho de escola – meu pai interrompe de propósito. – Com uma pessoa chamada Sebastian.
– Ah, sim, o cara de quem ele está a fim – Hailey lança.
A cabeça de minha mãe vira-se violentamente na minha direção.
Meu interior se repuxa em uma pontada imediata de pânico.
– Não é verdade, Hailey.
Ela me lança uma olhadela carregada de ceticismo.
– Cla-ro!
Agora mais desperto, meu pai curva o corpo para perto.
– Gostar de gostar?
– Não. – Nego também com a cabeça. – Gostar no sentido de que ele é uma pessoa gentil e disposta a me ajudar a tirar um A. Sebastian só é o assistente do meu professor.
Meu pai oferece um sorriso enorme, seu lembrete entusiástico de que, mesmo que eu não me sinta atraído pelo cara de quem estamos falando, Ele Não Tem Nenhum Problema Com a Minha Sexualidade. Só falta um adesivo de carro neste momento.
Com uma forte pancada, Hailey coloca seu copo de suco no balcão.
– Ele só é o assistente que a Autumn descreve como maravilhosamente lindo e você descreve como bochechas tão coradas que parece usar blush.
Minha mãe entra na conversa:
– Mas ele só está ajudando a escrever o seu livro, não é?
Confirmo, assentindo.
– Exato.
Qualquer um assistindo a esta troca de palavras poderia pensar que minha mãe está agitada por se tratar de um garoto, mas não. O incômodo é por ele ser
mórmon.
– Certo – ela diz, como se tivéssemos fechado um acordo. – Ótimo.
Quando percebo a preocupação em sua voz, um fogo se acende em meu estômago, abre um buraco em mim. Pego o copo de Hailey e bebo seu suco de laranja para apagar as chamas. Ela olha por um instante para minha mãe, mas meus pais estão dividindo um momento daquela conversa silenciosa que, às vezes, eles têm.
– Estou curioso para saber se é possível um menino supermórmon e um menino super não mórmon serem amigos – explico.
– Então você está vendo a situação como uma espécie de experimento? – meu pai pergunta com cautela.
– É. Mais ou menos isso.
– Entendi, mas não brinque com ele – minha mãe alerta. Só me resta bufar. Essa conversa está ficando um saco!
– Pessoal... – Atravesso a cozinha para pegar minha mochila. – É para fazer um trabalho do colégio. A gente só vai se dedicar ao esboço do meu texto.
SÓ VAMOS TRABALHAR NO ESBOÇO
SÓ VAMOS TRABALHAR NO ESBOÇO
SÓ VAMOS TRABALHAR NO ESBOÇO
Escrevo a frase cerca de dezessete vezes em meu caderno enquanto espero Sebastian aparecer onde combinamos de nos encontrar: na sala de escrita da Biblioteca Municipal de Provo.
Quando ele anotou seu endereço de e-mail com uma caligrafia perfeita, imaginei que fosse propor que nos encontrássemos no Shake Shack – e não na Starbucks, em nome de Deus! – para conversarmos sobre o meu trabalho.
Porém, a ideia de estar com ele em público, em algum lugar onde qualquer pessoa da escola pudesse nos ver, pareceu-me excesso de exposição. Detesto admitir, mas e se alguém me visse e pensasse que eu estou me convertendo? E se alguém o visse e questionasse o que estava fazendo com um garoto não mórmon? E se esse alguém fosse Dave do Futebol e notasse meu olhar seguindo Sebastian na aula e o bispo perguntasse a algum contato em Palo Alto que lhe contasse que sou queer e depois o bispo contasse ao Sebastian, e Sebastian espalhasse para todo mundo?
Sem dúvida, estou pensando demais.
SÓ VAMOS TRABALHAR NO ESBOÇO
SÓ VAMOS TRABALHAR NO ESBOÇO
SÓ VAMOS TRABALHAR NO ESBOÇO
Ouço passos na escada, atrás de onde estou sentado, e só tenho tempo suficiente de me levantar e derrubar meu caderno no chão antes de Sebastian chegar, parecendo um anúncio de férias na Patagônia com sua jaqueta azul volumosa, calças pretas e botas de montanhismo.
Ele sorri. Seu rosto está rosado por causa do frio, mas sinto um soco no peito ao perceber o quanto gosto de olhar para ele.
Isso é tão, tão ruim.
– Oi. – Ele cumprimenta, ligeiramente sem fôlego. – Desculpa por estar atrasado. Minha irmã ganhou uma casa da Barbie gigante de aniversário e eu tive que ajudar meu pai a montar tudo antes de sair. Aquela coisa tinha, tipo, um milhão de peças.
– Não se preocupe – respondo, começando a estender o braço para oferecer um aperto de mão, antes de puxar meu braço outra vez para trás porque que diabos estou fazendo?
Sebastian percebe enquanto estende a mão, antes de também puxá-la para trás.
– Ignore – peço.
Ele ri, confuso, mas claramente achando graça.
– É como se fosse o seu primeiro dia com um braço novo.
Ai, meu Deus! Que terrível! Somos só dois caras se encontrando para estudar.
Manos. Manos não ficam nervosos. Seja um mano, Tanner.
– Obrigado por se dispor a me encontrar.
Ele assente e se abaixa para pegar meu caderno, mas eu consigo puxar os papéis antes que ele leia as linhas e linhas que escrevi para tentar me acalmar e me convencer do que faríamos aqui, mas não sei se consegui. Sebastian não se dá conta, evita meu olhar e se concentra em uma sala vazia atrás de mim.
– Vamos ficar aqui? – pergunta.
Confirmo com a cabeça e ele me segue mais para o fundo da sala, inclinando-se para olhar pela janela. Nuvens carregadas de neve pairam sobre a Cordilheira Wasatch, formando uma bruma pesada, como fantasmas assombrando nossa cidadezinha tranquila.
– Sabe o que é mais estranho? – diz sem se virar para mim.
Tento ignorar o fato de a luz que entra pela janela iluminar seu perfil.
– O quê?
– Nunca estive aqui antes. Já fui lá onde ficam as prateleiras, nas nunca realmente visitei a biblioteca.
Um comentário é contido quando alcança a ponta da minha língua: é porque tudo que você faz fora da escola acontece na igreja. Mas engulo meu instinto.
Ele está aqui para me ajudar.
– Quantos anos sua irmã tem? – pergunto.
Piscando para mim, ele sorri outra vez. Usa esse sorriso com tanta facilidade, com tanta constância.
– A que ganhou a casa da Barbie?
– Sim.
– Faith está com dez.
Sebastian dá um passo na minha direção e mais um e, com uma voz nada familiar, meu coração grita ISSO, VENHA CÁ. Mas, aí, me dou conta de que ele está apontando para irmos à mesa e começarmos a trabalhar.
Seja um mano, Tanner.
Viro-me e nos acomodamos à mesa que reservei logo que cheguei – embora pudéssemos escolher qualquer outra. Não tem mais ninguém na biblioteca às nove da manhã de um sábado.
Sua cadeira se arrasta estridente pelo assoalho e ele ri, desculpando-se baixinho. Com Sebastian tão perto de mim, consigo tragar mais uma vez seu cheiro e sinto que estou ficando entorpecido.
– Mas você tem outros irmãos, não tem?
Ele me olha de canto de olho, e me pego tentado explicar minha pergunta –
não era para ser nenhum comentário ácido sobre o tamanho das famílias de mórmons; Hailey e Lizzy estão na mesma turma.
– Minha outra irmã, Lizzy, tem quinze – conta. – E tenho um irmão, Aaron, que tem treze, mas parece ter 23.
Dou uma risada educada com esse comentário. Por dentro, estou uma pilha de nervos, e nem sei por quê.
– Lizzy estuda em Provo High, certo?
Ele confirma.
– No ensino médio.
Eu já a vi pela escola, e Hailey não estava errada: Lizzy realmente não para de sorrir e com frequência ajuda o pessoal do colégio nos intervalos de almoço.
Parece tão alegre que quase vibra.
– Ela parece ser uma pessoa legal.
– É sim. Faith também é uma graça. Aaron é... Digamos que goste de testar limites. É um bom garoto.
Faço que sim com a cabeça. Tanner Scott, o preguiçoso até a morte. Sebastian vira-se para me olhar; quase sinto seu sorriso.
– Você tem irmãos ou irmãs? – pergunta.
Está vendo? É assim que se faz, Tanner. Crie um ambiente para conversar.
– Uma irmã – conto. –, Hailey acho que ela está na turma de Lizzy. Hailey tem dezesseis anos e é uma cria do demônio. – Aí me dou conta do que acabei de dizer e me viro horrorizado para ele. – Ai, meu Deus! Não acredito que falei isso. Ou isso!
Sebastian bufa.
– Ótimo. Agora, depois de hoje, não posso mais voltar a falar com você.
Sinto minha expressão se contorcer, adotar um tom de desdém, e demoro demais para perceber que ele está brincando. Seu sorriso agora também desapareceu. Desapareceu assim que ele percebeu o quão profundamente confuso eu estava, quando percebeu que penso o pior de sua fé.
– Desculpa. – Ele diz, deixando sua boca se curvar. Não parece desconfortável, nem de longe. Aliás, parece estar se divertindo um pouquinho com a situação. – Eu estava brincando.
O constrangimento se espalha por meu sangue e me esforço para adotar outra vez o sorriso de alguém confiante, aquele que sempre me faz conquistar o que quero.
– Pegue leve comigo. Ainda estou aprendendo a falar mormonês. Para meu profundo alívio, Sebastian deixa escapar uma risada sincera.
– Estou aqui para traduzir.
Com isso, olhamos para a tela do meu notebook, para ler a quantidade insignificante de letras ali.
Um garoto queer, metade judeu, metade nada, se muda para uma cidade infestada de mórmons. Ele mal vê a hora de dar o fora.
Sinto Sebastian ficar paralisado ao meu lado e, em um instante, percebo meu erro: eu não alterei o esboço. Meu coração salta.
Não me importo em contar para ele que não vejo a hora de deixar este lugar.
Nem me sinto culpado por usar a expressão “infestada de mórmons”, muito embora devesse. O problema está em outra coisa, que se sobrepõe a tudo isso.
Esqueci de deletar a palavra “queer”.
Ninguém aqui – ninguém além da minha família, pelo menos – sabe de mim.
Tento discretamente avaliar sua reação. As bochechas estão rosadas e os olhos saltam outra vez para o início da linha, para reler.
Abro a boca para falar – para explicar – justamente quando ele diz:
– Então esse é o seu tema geral, certo? Você vai escrever sobre alguém homossexual vivendo em Provo?
O gelo do alívio toma conta da minha corrente sanguínea. É claro que ele não supôs que estou escrevendo um texto autobiográfico.
Só consigo assentir vigorosamente.
– Eu pensei em alguém bissexual. Sim.
– E ele acabou de se mudar para cá...
Confirmo outra vez com a cabeça e então me dou conta de que há algo pegajoso em sua voz, como alguém que se dá conta de algo. Se Sebastian já pesquisou qualquer coisa sobre Tanner Scott, sabe que eu me mudei para cá antes do décimo ano e que meu pai é um médico judeu em Utah Valley.
Talvez, até saiba que minha mãe foi excomungada.
Quando nossos olhares se encontram, ele sorri. Parece estar controlando cuidadosamente sua reação. Percebo que ele sabe. E agora meus medos sobre Dave do Futebol contar ao bispo e o bispo contar ao Sebastian parecem tão excessivamente complicados. É claro que a informação me escapou, sem qualquer obstrução.
– Ninguém mais sabe – conto abruptamente.
Ele balança a cabeça.
– Está tudo bem, Tanner.
– Eu quero dizer ninguém mesmo. – Esfrego a mão no rosto. – Era para eu ter deletado aquela palavra. É um dos motivos pelos quais não estou conseguindo desenvolver a história. Estou falando de um personagem bi e não sei como escrever este livro na aula. Não sei se Fujita quer que eu escreva essa história, nem meus pais.
Sebastian se aproxima, capturando meu olhar.
– Tanner, você deve se dar o direito de escrever o livro que quiser.
– Minha família é muito inflexível sobre eu não me assumir para ninguém daqui, a não ser que eu realmente confie na pessoa.
Não contei sequer à minha melhor amiga e agora estou entregando o segredo imediatamente à única pessoa a quem não devia contar. Ele lentamente arqueia as sobrancelhas.
– Sua família sabe?
– Sabe.
– E eles aceitam numa boa?
– Minha mãe é... exuberante em sua aceitação, para dizer a verdade.
Depois de um silêncio pulsante, ele se concentra no computador.
– Acho uma ótima ideia colocar essa história no papel. – Diz baixinho.
Estendendo a mão, deixa o indicador pairar diante da tela. – Tem muita coisa aqui em apenas duas frases. Muito coração, mas também muita mágoa. – Seus olhos encontram outra vez os meus. São de uma mistura insana de verde, castanho e amarelo. – Não sei quanto posso ajudar com esse assunto específico, mas fico feliz em conversar.
Sinto essas palavras se esfregarem dissonantes em mim e repuxo o nariz.
– Você seria tão útil quanto se eu estivesse escrevendo sobre dragões e zumbis, não é?
Sua risada está rapidamente se transformando no meu barulhinho preferido.
– Exatamente.
Minha frequência cardíaca precisa de uns vinte minutos para voltar ao normal, mas, nesse tempo, Sebastian fala. É quase como se estivesse consciente do meu ataque de pânico mental, como se intencionalmente me forçasse a isso, mas suas palavras parecem sair de sua boca com uma cadência tão fácil, tão hipnotizante.
Ele me diz que está tudo bem eu não ter nada além de uma ideia a essa altura.
Explica que, para ele, todo livro começa com algo assim – uma oração, uma imagem, partes de um diálogo. O que tenho que decidir, ele explica, é quem é o protagonista e qual é o conflito.
– Concentre-se nesses dois aspectos da personalidade dele – aconselha, apontando para partes do texto. – Ele é antimórmon e...
Um segundo dedo paira livremente diante da tela.
– Queer – concluo para ele.
– Exato. – Sebastian engole em seco, recolhendo os dedos. – O garoto odeia todos os mórmons e planeja sua fuga para depois seus pais entrarem para a igreja e renegá-lo quando ele for embora?
– Não... – Parece que ele não entendeu tão bem assim a história da minha família. – A família vai apoiar, eu acho.
Pensativo, Sebastian ajeita o corpo nas costas da cadeira.
– O garoto odeia a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e acaba deixando a cidade só para se enfiar no meio de outra “seita religiosa”?
Analiso-o, penso em sua capacidade de ver sua fé a partir da perspectiva de um infiel, de conseguir ver o lado negativo com essa facilidade.
– Talvez – reflito, – mas, ao mesmo tempo, não sei se quero demonizar a igreja desse jeito.
Os olhos de Sebastian encontram os meus, antes de ele afastá-los.
– Qual é o papel que ser, hum, bissexual exerce no livro?
É a primeira vez que ele gagueja nessa conversa – seu enrubescer se espalha como se um mapa se desenhasse em seu rosto.
Tenho vontade de dizer a ele: quero saber se você poderia gostar de mim, se alguém como você poderia ser amigo de alguém como eu.
Mas ele já está aqui, já está sendo generoso e genuíno com alguém como eu.
Esperava que viesse e fosse um bom tutor da disciplina, respondesse a algumas perguntas e me ajudasse a começar a escrever enquanto eu ficasse boquiaberto em sua presença. Não esperava que perguntasse sobre mim ou que fosse tão compreensivo. Não esperava gostar dele. Agora, o conflito parece óbvio e faz
algo estável dentro de mim se curvar e golpear com ansiedade, porque ficou ainda mais assustador escrever sobre esse assunto.
– Pense melhor.– Aconselha baixinho, brincando com um clipe de papel. –
Existem muitos caminhos para seguir com essa história e grande parte depende da jornada dele, das descobertas dele. Ele começa ressentido por estar onde está e sentindo-se sufocado pela cidade. Mas encontra a liberdade ficando nela ou saindo dela? Encontra algo que o faça mudar de ideia?
Faço que sim para a tela do computador porque agora não consigo olhar para ele sem meus sentimentos ficarem claramente projetados em meu rosto. Meu sangue ferve com o calor da paixão.
Lá fora, começa a nevar, e, ainda bem, vamos nos sentar nas poltronas perto da janela para assistir à neve, deixando o livro de lado por um tempo. Sebastian nasceu aqui, no final da rua. Seu pai é advogado fiscal e foi chamado para servir como bispo há quase dois anos. Sua mãe trabalhava com finanças na Vivint antes de ele nascer. Agora, é mãe em tempo integral e esposa do bispo, o que, explica Sebastian, meio que a transforma em uma protetora. Ela gosta disso, ele me conta, mas significa que ele e Lizzy tiveram que dar mais apoio a Faith e Aaron. Ele joga futebol e beisebol desde que tinha seis anos. Sua banda favorita é Bon Iver. Toca piano e violão.
Divido com ele os mesmos detalhes inócuos: nasci em Palo Alto. Meu pai é cirurgião cardíaco. Minha mãe é programadora. Ela se sente culpada por não passar mais tempo comigo, mas tenho muito orgulho dela. Minha banda favorita é Nick Cave and the Bad Seeds, mas não sei tocar instrumentos.
Não voltamos a discutir a minha sexualidade, mas sinto a presença desse assunto como uma terceira pessoa na sala, em um canto escuro, espreitando a conversa.
O silêncio marca o passo do tempo entre nós enquanto observamos a calçada acinzentada, logo abaixo da janela, lentamente sendo coberta por uma camada branca. O vapor se eleva da superfície do sistema de ventilação na calçada e, com o acelerar estranho e frenético do meu coração, surge a vontade de saber mais sobre Sebastian. Quem já amou, quem odeia, se é possível que se interesse por garotos.
– Você não me perguntou sobre o livro – enfim diz.
Está falando do livro dele.
– Putz... droga... Foi mal. – Digo. – Não foi minha intenção ser grosseiro.
– Não é grosseria. – Ele me encara e sorri como se guardássemos o mesmo segredo, um segredo exasperador. – Só falei isso porque todo mundo pergunta.
– Eu achei bem legal. – Coloco as mãos nos bolsos e alongo as costas na cadeira. – Quero dizer, é claro que é incrível. Imagine, seu livro vai estar aqui,
nesta biblioteca.
Ele parece surpreso com o comentário.
– Talvez.
– Aposto que está cansado de falar disso.
– Um pouquinho. – Dá de ombros, sorrindo para mim.
Esse sorriso denuncia que ele gostou de eu não ter perguntado sobre o livro, que não estou aqui atrás de ganhar fama em uma cidade pequena. Então, prossegue:
– Para dizer a verdade, tudo isso criou algumas complicações a mais na minha vida, mas não posso reclamar, porque já me dei conta de como sou abençoado.
– Sim, claro.
– Sempre me perguntei como é viver aqui para quem não foi criado na igreja.
– Diz, mudando de assunto. – Você tinha quinze anos quando veio para cá?
– Sim.
– Foi difícil?
Penso duas vezes para responder. Sebastian sabe algo a meu respeito que ninguém mais sabe, e isso me deixa inseguro dos meus passos. Ele parece ser legal, mas, não importa o quão legal alguém seja, informação é poder.
– Provo pode ser sufocante.
Sebastian assente e se inclina para a frente para olhar mais atentamente pela janela.
– Sei que parece que a igreja está em todos os lugares. Para mim também é assim. Parece que ela penetra todos os detalhes da minha vida cotidiana.
– Posso apostar que sim.
– Entendo que pode parecer sufocante para quem vê de fora, mas a igreja também faz muitas coisas boas.
Ele olha para mim e, com um terror crescente, entendo o motivo por trás dessa sessão de estudos. Entendo por que ele concordou em vir. Sebastian está tentando me converter, me recrutar. Sabe tudo ao meu respeito, e isso lhe dá mais um motivo para falar comigo, para me “salvar”. E não está me recrutando para o Grupo Gay do Norte de Utah, mas para a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.
– Sei que fazem boas ações – digo com cuidado. – Meus pais... conhecem a igreja. É difícil morar aqui e não ver o bem e o mal que ela faz.
– Verdade – Sebastian concorda distraidamente, sem olhar para mim. – Eu mesmo vejo.
– Sebastian?
– Sim?
– Só... queria que você soubesse que... caso... – Paro, estremeço, pisco os
olhos. – Eu não te pedi para me ajudar para que depois tentasse me levar para a igreja.
Quando ele me observa, seus olhos estão arregalados, alarmados.
– O quê?!
Olho outra vez para o lado.
– Entendo que talvez eu tenha passado a impressão de que queria conversar porque eu questionava algo a meu respeito ou talvez quisesse entrar para a igreja. Não tenho nenhuma dúvida sobre quem sou. Gosto muito de você, mas não vou me converter.
O vento assobia ao passar pela janela, está muito frio perto do vidro. Mas, aqui dentro, ele me estuda, sem expressão.
– Eu não pensei que você fosse entrar para a igreja – Seu rosto está rosado. É
por causa do frio. É por causa do frio. Não é por causa de você, Tanner. – Não pensei que fosse por isso que você... – Ele acena uma negação com a cabeça. –
Não se preocupe. Não vou tentar rifá -lo na igreja. Não depois do que dividiu comigo.
Minha voz sai atipicamente tímida:
– Não vai contar para ninguém?
– É claro que não – responde imediatamente. Olha para o chão enquanto seu maxilar se movimenta de um jeito que não consigo ler. Por fim, puxa algo do bolso. – Eu... aqui.
Quase por impulso, Sebastian me entrega um pequeno pedaço de papel. Está quente, como se tivesse passado todo esse tempo em sua mão.
Abro e olho para os nove dígitos. O número de seu celular.
Deve ter anotado antes, talvez antes mesmo de sair de casa, e enfiado no bolso para me entregar.
Será que ele se dá conta de que está me entregando uma granada? Eu poderia estragar tudo com seu número de telefone. Nunca gostei muito de enviar mensagens de texto, mas, meu Deus! A vontade que tenho de acompanhar todos os seus movimentos dentro da sala de aula é como uma possessão demoníaca.
Saber que posso entrar em contato com ele a qualquer momento é uma tortura.
– Eu não... – começa a dizer, mas logo olha atrás de mim. – Pode enviar mensagem de texto ou ligar. O que preferir. Quando quiser. Para sairmos e conversamos sobre o seu trabalho, se precisar.
Meu peito se aperta dolorosamente.
– Sim, sem dúvida, claro. – Fecho os olhos bem apertados. Tenho a sensação de que ele está prestes a fugir. E a necessidade de me expressar faz meu interior parecer pressurizado. – Obrigado.
Sebastian se levanta.
– Sem problemas. Quando quiser.
– Sebastian?
– Sim?
Nossos olhares se encontram e não consigo acreditar no que estou prestes a dizer.
– Sem dúvida quero sair de novo com você.
Suas bochechas explodem de cor. Será que está traduzindo minha mensagem corretamente em sua cabeça? E o que é isso que eu estou falando? Ele sabe que eu gosto de meninos, então deve saber que não estou falando só do livro.
Sebastian analisa meu rosto, descendo da testa até a boca, até o queixo, depois foca em meus olhos e analisa meus lábios, antes de desviar completamente.
– Acho que preciso ir.