Minha Versão de Você

Christina Lauren · Capítulo 10 de 25

Páginas do PDF

Minha Versão de Você

Capítulo Dez

Ele imediatamente começa a digitar a resposta. O sangue corre rápido demais em minhas veias.

Os pontinhos ficam um tempo na tela, então desaparecem, fazendo-me esperar uma dissertação sobre o futebol e a mudança de Provo para Orem, mas, depois de uns cinco minutos, só recebo:

Bom!

Está brincando comigo?

Olho para o celular. Meu coração agora está na garganta. Parece bater em todos os órgãos, em cada espaço vazio do corpo. Se fechasse os olhos, poderia ouvi-lo. Nem sei o que dizer. Então, apenas envio o emoji do polegar para cima e deixo o celular de lado.

Quatro cenouras mais tarde, pego-o para ver.

Sebastian respondeu com um emoji da montanha e, alguns minutos depois, algumas palavras:

Meus avós vêm de Salt Lake City esse fim de semana. Minha mãe me pediu para convidar vc para jantar. Imagino que a ideia pareça aterrorizante para vc, mas juro que eles são legais.

E eu queria mt que vc viesse.

 

Imagino que haja algum código secreto escondido no convite de Sebastian para esse jantar. Talvez seja sua única maneira de expressar a ansiedade acerca do meu livro e seu potencial de empurrá-lo para fora do armário. Porque, francamente, nada me ofereceu uma imagem tão clara de quão diferentes nossas famílias são quanto ir aquele dia à sua casa. Ele próprio testemunhou minha fascinação.

Por outro lado, tem a questão do que fizemos na montanha. A gente se beijou, e não foi um beijo simples ou um selinho acidental, mas um beijo de verdade, com línguas, e mãos, e lábios, e intenção. Sequer consigo pensar nisso sem sentir que estou afundando em água quente. Ele mal conseguia me olhar sem enrubescer quando descemos da montanha. Esse convite para jantar seria pura insanidade?

O que ele está aprontando?

Inspeciono meu reflexo no espelho do outro lado do quarto. Minhas roupas são novas, então, pelo menos, servem bem – cresci tão rápido durante alguns anos que minhas mangas estavam sempre curtas demais e as calças batiam nos tornozelos. Troquei de camisa sete vezes e, com meu novo corte de cabelo, acho que estou com uma aparência legal. Fico preocupado em parecer casual demais com essa camisa de manga curta da Quiksilver. Por outro lado, vestir camisa e gravata pode parecer um tanto presunçoso, como se o evento fosse um encontro ou conhecer seus pais.

O que não é.

Pelo menos acho que não...

– Então, vocês dois estão, tipo... juntos?

Hailey encosta o corpo no batente da porta do meu quarto, braços cruzados enquanto me julga.

Olho outra vez para a minha camisa.

– Nem o diabo sabe.

Ela estala a língua para mim, afastando-se da porta para jogar o corpo sem a menor elegância sobre a cama.

– Eles não vão gostar nada, nada desse linguajar.

Xingo baixinho porque, caramba, ela está certa. Tenho que ser mais cuidadoso com minhas palavras.

– Vocês não sabem se estão juntos, mas você vai jantar com a família dele?

Que estranho.

– Como foi que descobriu?

– Se era para ser segredo, talvez devesse repensar a ideia de discutir o assunto com a mãe e o pai no meio da casa.

– Não é exatamente um segredo, mas...

Mas é.

Hailey assente. Parece que não precisa que eu explique nada e é bom vê-la não se comportar como uma fedelha egoísta por um instante. Quando decidimos nos mudar para cá, meus pais se sentaram com ela e deixaram muito claro que sua discrição era de fundamental importância. Até eu consegui ver o pânico no rosto de minha mãe enquanto ela explicava a Hailey que me expor durante um ataque de raiva seria desastroso. O resto do mundo nem sempre será tão compreensivo quanto nós fomos criados para ser, especialmente, aqui, em Provo.

Inclino o corpo para pegar o restante das minhas roupas e, aí, lembro que Hailey e Lizzy estão na mesma turma.

– Vou encontrar Lizzy hoje à noite. E vou mandar seu oi para ela.

Hailey repuxa o nariz.

Dou risada, ajeitando outra vez as camisetas na gaveta e dependurando as demais peças.

– Você vai ficar surpreso quando descobrir que lá todo mundo é igual a ela. –

Hailey vira-se de costas e bufa. – Aquela menina está sempre sorrindo e cumprimenta todo mundo nos corredores.

– Que monstro, não é?

– Como alguém pode ser ao mesmo tempo feliz e mórmon? – Ouço a nossa cegueira pela primeira vez em suas palavras. – Eu iria querer me socar.

Não passei tempo com Lizzy, mas ainda assim tenho um instinto de protegê-la.

– Você parece uma idiota ignorante.

Hailey vê meu celular carregando no criado-mudo, pega-o e digita minha senha de desbloqueio.

– Mas ela não ficaria tão sorridente se soubesse que o que você quer é entrar nas calças do irmão.

– Cale a boca, Hailey.

– Qual é? Você acha que eles o convidariam para jantar se soubessem? Para eles, você é o demônio tentando levar o filhinho deles para o inferno.

– Eles não acreditam em inferno. – Rebato, pegando meu celular. – Não diga esse tipo de coisa.

– Ah, então Sebastian também está ensinando sobre os mórmons para você?

– Na verdade, foi nossa mãe quem me falou isso. Só estou tentando conhecê-

 

lo melhor, e isso significa entender de onde ele vem.

Hailey percebe meu ato hipócrita.

– Claro, claro. É justamente disso que eu estava falando. Ele já contou para você que a igreja está prestes a aceitar o casamento gay? Ou que admitiram que a terapia de conversão foi um erro cruel e terrível? – Ela provoca, cheia de sarcasmo. – Ele não vai, por um milagre, descobrir que gosta mais de você do que de Deus, ou Jesus, ou Joseph Smith. Isso é uma péssima ideia, Tanner.

Suas palavras cutucam um ponto vulnerável em meu peito. Fico irritado:

– Você é um pé no saco.

A casa de Sebastian não se torna menos intimidadora em minha segunda visita. De fora, você já sabe tudo o que precisa sobre a família que vive ali dentro: é branca e ordenada, escrupulosa, mas não exagerada. Parece receptiva e segura, mas, ao mesmo tempo, dá a impressão de que posso estragar tudo de alguma forma, quebrar alguma coisa, deixar impressões digitais em algum lugar... talvez, por exemplo, no filho mais velho.

A casa da família Brother fica atrás da garagem e noto um Lexus novo estacionado ali. Deve ser dos avós. Estudo meu reflexo na janela do passageiro e a tensão em meus nervos redobra. Como vou sobreviver a um jantar com a família mais certinha de Provo, sem entregar que sou um garoto apaixonado?

Talvez Hailey estivesse certa. Isso é uma péssima ideia.

Preparo-me para apertar a campainha. O som ecoa pela casa antes de a voz de Sebastian vir de lá de dentro:

– Eu atendo!

O frio na barriga sobe para o peito.

A porta abre e a imagem de Sebastian suga todo o oxigênio da varanda. Não o vejo desde a última aula, quando as coisas permaneceram estranhas e silenciosas. Ele não olhou para mim naquele dia, mas, sem dúvida, está olhando para mim agora. Qualquer neurônio em meu cérebro que questionava se eu deveria estar aqui derrete.

Sebastian sai, fecha a porta, fica na varanda. Está com calça social e uma camisa branca impecável, com o botão superior aberto. Vejo a pele suave da garganta, a clavícula e a sugestão de seu peito logo abaixo. Sinto a boca salivar.

E me pergunto se estava usando gravata. Será que a tirou para mim?

– Obrigado por ter vindo – diz.

O desespero se espalha por minhas veias e pensar em algo para melhorar essa situação faz uma pontada de dor atingir minhas costelas. Quero imediatamente

reassegurá-lo de que planejo reescrever todo o livro, mas, em vez disso, apenas digo:

– Obrigado pelo convite.

– Está bem. –Responde, dando um passo adiante e apontando para a porta. –

Então, a noite provavelmente vai ser um tédio. Só queria avisar de antemão. E

me desculpe desde já se eles começarem a falar de assuntos ligados à igreja. –

Sebastian passa a mão nos cabelos, o que me faz pensar em como foi bom tocar em seus fios aquele dia na montanha. – Eles não conseguem se segurar.

– Está me zoando? Olhe para mim! Eu adoro coisas de igreja!

Ele dá risada.

– Não tenho a menor dúvida.

Respirando fundo, ele ajeita os cabelos, a camisa e segura a maçaneta.

Contenho-o segurando seu braço.

– É só impressão minha ou essa situação toda é esquisita?

Sei que estou jogando verde em uma tentativa de colher algum sinal de que Sebastian se lembra do que fizemos, de que gostou do que fizemos.

Sua resposta faz a minha semana.

– Não é só impressão sua.

Seus olhos encontram os meus e, aí, o sorriso mais incrível que já vi brota em seu rosto. É um sorriso que não foi capturado por nenhuma daquelas fotografias lá dentro, nem de longe.

Por impulso, deixo escapar:

– Vou reescrever meu livro.

Sebastian fica de olhos arregalados.

– Vai?

– Vou. – Engulo em seco, engasgando com meus batimentos. – Não consigo parar de pensar... naquilo... mas sei que não posso entregar o texto que fiz.

A ansiedade que envolve a ideia de recomeçar o livro e a alegria por vê-lo se misturam em meu estômago. Esse nervosismo me faz mentir ficar mais fácil.

Prossigo:

– Já comecei a criar um texto novo.

Percebo que isso era o que Sebastian queria ouvir e, no mesmo instante, ele parece ganhar mais energia.

– Que bom. Eu posso ajudar.

Permite-se estudar minha boca por três segundos, antes de nossos olhares se encontrarem outra vez.

Confirmo com a cabeça, e ele então abre a porta, lançando um último olhar encorajador na minha direção antes de entrarmos.

A casa cheira a pão fresco e peru assado e, como está ligeiramente mais frio lá

fora do que aqui dentro, as janelas encontram-se tomadas por uma camada de água condensada que embaça os vidros. Sigo Sebastian quando ele atravessa a pequena sala de estar logo na entrada – oi, outra vez, fotografias desse Sebastian delicioso de dezessete anos; oi, múltiplas imagens de Jesus; oi, pôster opressor

– e o corredor, até chegarmos à sala de TV de um lado e a cozinha do outro.

Um homem, que suponho ser seu pai, está vendo televisão. É dois ou três centímetros mais alto do que Sebastian, mas tem os mesmos cabelos castanho-claros e aquele ar de tranquilidade. Não sei o que eu esperava encontrar – uma postura mais intimidadora, talvez? –, mas não estou preparado para o momento em que ele estende o braço para oferecer um aperto de mão e abre aquele mesmo sorriso de fazer os joelhos tremerem.

– Você deve ser Tanner. – Seus olhos azuis brilham com uma espécie de contentamento tranquilo. – Ouvi muito ao seu respeito. Ele ouviu... como é que é?!

Lanço um olhar de questionamento para Sebastian, que prefere olhar para o lado.

– Sim, senhor. – Digo, mas me apresso em corrigir: – Quero dizer, Bispo Brother.

Ele dá risada e apoia a mão em meu ombro.

– Só sou Bispo Brother na igreja. Pode me chamar de Dan.

Meu pai não aprovaria se me visse chamando o pai de alguém pelo primeiro nome, mas não vou discutir aqui.

– Está bem. Obrigado, senhor... Dan.

Um homem mais velho desce as escadas. Os cabelos escuros e encaracolados caindo sobre suas orelhas o fazem parecer mais jovem, talvez até arteiro, apesar de seu terno e dos cabelos que começam a ficar grisalhos nas têmporas.

– Aaron precisou de ajuda para montar o Lego. Quando perguntou como eu sabia o que estava fazendo, expliquei que é porque sou formado em Engenharia.

Agora, ele decidiu que quer estudar Engenharia para montar Legos pelo resto da vida. Se funcionou, que bom, penso eu.

Sebastian vem ao meu lado.

– Vô, este é Tanner, um amigo do Seminário.

O homem me inspeciona com aqueles mesmos olhos azuis.

– Outro escritor! – exclama, estendendo o braço para me dar um aperto de mãos. – Sou Abe Brother.

– É um prazer conhecê-lo, senhor. – Digo. – E o escritor é Sebastian. Eu mais pareço um chimpanzé com acesso a um teclado.

Dan e seu pai caem na risada, mas Sebastian apenas me encara com a testa repuxada.

– Não é verdade.

Rindo, murmuro algo como “se você diz” – porque, francamente, o fato de eu só poder escrever sobre o que está literalmente acontecendo no meu dia a dia e depois deixá-lo analisar uma versão primitiva do meu livro ainda me faz morrer de vergonha.

Na cozinha, Sebastian me apresenta a Judy, sua avó, que me pergunta se moro aqui perto. Acho que é um código para “qual templo você frequenta?”

– Ele mora perto do country club – Sebastian explica e pergunta se podemos ajudar de alguma forma ali na cozinha.

Quando elas dizem que não, ele fala que vamos trabalhar no meu manuscrito.

O pânico se espalha como água gelada em minha pele.

– Está bem, querido. – Sua mãe diz. – O jantar vai estar pronto em uns quinze minutos. Pode pedir para suas irmãs se prepararem?

Assentindo, ele me leva outra vez pelo corredor.

– Eu não trouxe o manuscrito – sussurro, subindo as escadas atrás dele e fazendo o meu melhor para olhar para os meus pés, e não para suas costas.

No topo da escada, o corredor se divide em duas direções.

Quartos.

Vejo-o parar diante do quarto de Faith. Lá dentro, o que há é uma mistura fofa e monstruosa de rosa e roxo, com sinais de revolta pré-adolescente escapando pelas beiradas.

Sebastian bate à porta e coloca a cabeça para dentro.

– O jantar vai sair daqui a pouco, então lave as mãos, está bem?

Ela responde alguma coisa e ele sai.

– Você ouviu o que eu falei? – sussurro, agora um pouquinho mais alto. – Eu não trouxe o manuscrito.

Será que cometi um erro enorme ao dizer que já estou trabalhando em um texto novo? Ele vai querer ler em breve?

Sebastian olha para mim por sobre o ombro e pisca apenas um olho.

– Eu ouvi. E não o convidei aqui para trabalhar.

– Ah, entendi.

Seu sorriso é o de quem está aprontando alguma.

– Acho que devo mostrar a casa para você.

Já sei que não há muito a ver – lá em cima, é um beco sem saída com quatro quartos –, mas concordo mesmo assim.

– Ali fica o quarto dos meus pais – diz, apontando para o maior dos quartos.

Outra fotografia do Templo de Salt Lake decora a parede acima da cama, com as palavras “A FAMÍLIA É PARA SEMPRE”. Fotos do colégio e outras tiradas durante as férias se espalham pelo cômodo; rostos sorridentes vêm de todas as

direções.

– Banheiro, Faith e Aaron. Meu quarto fica lá embaixo.

Descemos outra vez ao piso principal, antes de virarmos para nos depararmos com outra escada. Nossos passos são abafados pelo pesado tapete e as vozes vindas lá de cima tornam-se mais baixas a cada centímetro que percorremos.

Para um porão, aqui é muito bem iluminado. A escada se abre em outra sala enorme com TV, sofá e pufes em um canto e uma pequena suíte do outro. Há algumas portas do lado e Sebastian aponta para a primeira:

– Lizzy. – Conta, e se aproxima da outra porta. – Aqui é o meu.

Meu coração salta na garganta com a possibilidade de ver o quarto de Sebastian.

Onde ele dorme.

Onde ele...

Fico desapontado ao encontrar um cômodo tão organizado. Terei de deixar meus pensamentos de Sebastian em meio a lençóis amarrotados para outra ocasião. Uma fileira de troféus de futebol decora uma prateleira acima da bandeira do Cougars, a equipe de futebol americano da BYU. Uma mão enorme de isopor gravada com um Y gigante fica encostada em um canto. Imagino-o em um dos jogos, gritando com a multidão, sorriso enorme, coração acelerado.

Sebastian fica perto da porta enquanto percorro seu quarto sem tocar em nada, apenas analisando de perto as fotografias e as lomba-das dos livros.

– Uma pena eu não ter bisbilhotado mais a sua casa – comenta, fazendo-me olhar por sobre o ombro, na direção dele.

– Da próxima vez. – Respondo com um sorriso. E, no mesmo instante, fico abobalhado com a ideia de que haverá uma próxima vez. – Admito que fiquei surpreso quando você me convidou para jantar com a sua família, depois que...

Busco as palavras certas, mas sei que ele me entende quando um rubor sobe de seu pescoço até as maçãs do rosto.

– Minha mãe gosta de conhecer as pessoas que trazemos aqui em casa. – Ele explica. – Eu não tenho muitos amigos na cidade.

– Ah.

– Acho que ela quer conhecê-lo melhor. – Ele rapidamente ergue a mão. –

Mas não vai tentar convertê-lo, prometo.

Outra pergunta me escapa:

– Você acha que ela desconfia que eu sou...? – Deixo o movimento de minhas sobrancelhas terminarem a pergunta para mim.

– Acho que jamais passaria pela cabeça dela. Imagino que só queira conhecer meus amigos, em especial aqueles que não conhece da igreja.

O jeito como ele me olha, me faz sentir que um jogo de pinball está

acontecendo em meu estômago. Afasto-me e olho em volta. Há livros por todos os cantos: nas prateleiras e empilhados perto de sua cama; também organizados na escrivaninha. Ao lado do computador, vejo uma Bíblia com capa de couro e zíper. Suas iniciais estão bordadas a ouro na parte superior.

– Hum, esses são da igreja – explica, dando um passo para mais perto de mim.

Abre a Bíblia e folheia as páginas delicadas.

– É enorme – comento.

Sebastian deixa uma risadinha escapar.

– Chamamos de Quadrângulo – explica e eu seguro a obra, sinto o peso na mão.

– Tem muitas regras aqui.

– Se pensar por esse ângulo, sim, acho que tem. – Baixa o corpo para abrir o livro, apontando para o índice. – Mas, está vendo? Aqui tem mais de um livro.

Tem a Bíblia, o Livro dos Mórmons, Doutrina e Convênios e A Pérola de Grande Valor.

Pisco os olhos ao me dar conta de que ele está tão perto.

– Você já leu tudo isso?

– A maior parte. E algumas passagens mais de uma vez.

Fico de olhos arregalados. Sem dúvida, esses livros me dariam um sono enorme. Eu seria o pior mórmon do mundo. Dormiria mais que Rip Van Winkle.

– Quando tenho alguma pergunta ou incerteza, sei que a resposta estará aí –

conta.

Olho outra vez para o livro. Como Sebastian pode ter tanta certeza? Como pôde ter me beijado na montanha e ainda concordar com o que está escrito nessas páginas?

– Então, qual é a diferença desses livros para a Bíblia sozinha?

Sinto que já deveria saber isso. Quero dizer, também não sou familiarizado com a Bíblia, mas posso imaginar que não sejam a mesma coisa.

– Sério, você não quer falar disso, quer?

Sua postura parece constrangida, um pouco incerta.

– Talvez, você pudesse só me apresentar a versão Mormonismo para Principiantes.

Sebastian dá risada e pega o livro das minhas mãos, abrindo na página que busca. Estamos tão próximos e eu quero ficar mais perto agora que me dou conta de que, se alguém entrasse e nos visse assim, simplesmente pensaria que estamos lendo as Escrituras juntos.

– O Livro dos Mórmons é mais um testemunho de que Jesus existiu, de que era o Filho de Deus. – Ele pisca para mim, para ter certeza de que estou ouvindo.

Quando percebe que estou, disfarça um sorriso e volta sua atenção ao livro em

 

mãos. – Seria o que veio depois da Bíblia e detalha o plano do Pai para Seus filhos. – Olha para mim para dizer baixinho: – Seus filhos somos nós.

Dou risada.

– Essa parte eu sei.

Seus olhos se concentram nos meus por um segundo e percebo humor ali.

– Doutrina e Convênios contém as revelações que Joseph Smith e outros profetas receberam de Deus. É uma maneira de receber direcionamento de profetas modernos em tempos modernos. Já este aqui – vira as páginas –, é a Pérola de Grande Valor, que acreditamos ser um registro do Profeta Abraão quando jovem no Egito. Com o crescimento da igreja, eles viram a necessidade de colocar as histórias e as traduções em um único lugar, para que mais pessoas pudessem aprender com elas. De certa maneira, esses livros são como ferramentas. Se você ler e orar com devoção, vai encontrar respostas e direcionamentos e saberá, sem sombra de dúvida, que as palavras são verdadeiras.

Não me dou conta da atenção dada ao que estava ouvindo, até erguer o olhar para me deparar com Sebastian me estudando outra vez. Não que eu concorde com nada disso, mas há alguma coisa em sua voz e em sua fé que prendeu minha atenção em cada palavra.

– Você é bom nisso. – Digo, mas minha boca ficou seca. – Já pensou em...

Não sei, partir em uma missão e ensinar essas coisas? Arrumar uma plaquinha que diz “vim aqui para batizar”?

Ele dá risada, como esperei que acontecesse, mas agora que tocamos no assunto de sua missão, quero fazer mais perguntas. Aonde ele acha que será enviado? O que vai fazer lá? Com quem vai estar? Existe alguma brecha nessa regra de não fazer contato com quase ninguém? Haverá algum espaço para mim em sua vida?

– Em breve – responde com um sorriso.

Ficamos em silêncio e seus olhos deslizam na direção da minha boca.

Será que Sebastian tem pensado tanto quanto eu no que aconteceu aquele dia, na montanha? É a última coisa em que penso antes de ir para a cama e quase a primeira ao abrir os olhos. Quero tanto beijá-lo e, se seu semblante e o ritmo de sua respiração servirem de indícios, acho que ele também quer.

Todos já estão à mesa quando chegamos à sala de jantar. Há quatro cadeiras de cada lado e uma em cada ponta para os pais dele. Sebastian se senta na cadeira vazia mais próxima ao seu pai. À sua esquerda, estamos eu, Lizzy e

Aaron; do outro lado, seus avós e Faith.

A mesa está coberta com pratos e travessas, mas ninguém está comendo ainda.

Percebo o motivo quando Sebastian bate seu pé no meu, assentindo para as mãos unidas à sua frente.

Entendi. Oração.

– Pai Celestial – Dan começa de olhos fechados e queixo próximo ao peito e apresso-me em reproduzir essa postura –, somos gratos por esse alimento e pela abundância que o Senhor mais uma vez coloca diante de nós. Somos gratos por nossos entes queridos e pelos novos amigos que o Senhor colocou à nossa mesa.

Por favor, abençoe esse alimento para que ele nos nutra e fortaleça nossos corpos e mentes, para que possamos agir segundo a Sua vontade. Por favor, abençoe aqueles que não podem estar aqui e ajude-os a encontrar seu caminho. Nós O

agradecemos, Senhor, e pedimos que continue nos abençoando. Em nome de Jesus Cristo, amém.

Uma onda apressada de améns se espalha pela mesa e, de um segundo para o outro, o silêncio fica para trás. Talheres se esfregam em louças e pratos são passados apressadamente enquanto todos salivam. Faith quer comer nuggets e Aaron quer saber se seu pai vai brincar de pega-pega com ele, amanhã, depois do colégio. Lizzy fala sobre o acampamento de meninas que está por vir.

Inspeciono as opções de bebida na mesa à minha frente: água, leite, suco de morango e kiwi e, o pior de tudo, cerveja de raiz. Absolutamente nada com cafeína. Sirvo-me com um copo de água.

Dan entrega a Sebastian um prato repleto de peru e sorri para mim.

– Então, Tanner, Sebastian comentou que você veio da Califórnia?

– Sim, senhor. De Palo Alto.

Sebastian pega um pouco de carne e passa o prato para mim, oferecendo um sorriso encorajador. Meu mindinho se esfrega no dele. Vou sentir esse contato durante horas.

Abe olha nos meus olhos ao dizer:

– Da Califórnia para Utah? Deve ter sido uma mudança e tanto.

Dou risada.

– Foi mesmo.

De seu lugar à mesa, a mãe de Tanner me lança um olhar de dó.

– Não consigo imaginar sair de um lugar que tem sol quase o ano todo e se mudar para uma terra tão tomada pelo inverno e pela neve.

– Não foi tão difícil. – Respondo. – Aqui, as montanhas são lindas. E, para dizer a verdade, na minha cidade tínhamos muita neblina o tempo todo.

– Você esquia? – Judy quer saber.

– Um pouco. A gente costuma ir a Snowbird ou aos Canyons pelo menos uma

vez por ano.

A mãe de Sebastian volta a falar:

– A família inteira?

Confirmo balançando a cabeça enquanto pego a travessa com batata e queijo e coloco um pouco em meu prato.

– Sim. Nós somos em quatro, só. Tenho uma irmã mais nova, Hailey.

A mãe elogia:

– Que lindo nome!

– Meus pais gostam muito de atividades ao ar livre. – Conto. – Meu pai adora andar de bicicleta e minha mãe gosta de correr.

O pai de Sebastian engole uma garfada de comida antes de perguntar:

– O que exatamente eles fazem? Sebastian disse que vocês se mudaram para cá por causa do emprego da sua mãe.

Esse Sebastian tem falado demais.

Tomo um gole de água gelada e apoio o copo na mesa.

– Sim, senhor. Ela é diretora técnica na NextTech.

Várias exclamações interessadas se espalham pela mesa. Eu prossigo:

– Quando abriram o escritório focado em satélites aqui, queriam que ela o administrasse. – Mais ruídos de interesse. – Ela desenvolve softwares.

Trabalhava no Google, na Califórnia, e saiu para vir para cá.

– Nossa! – Dan exclama, impressionado. – Deve ser um emprego e tanto para ela ter deixado o Google. Ouvi dizer que eles são muito bons com os funcionários.

– E o pai dele é médico no hospital de Utah Valley – Sebastian acrescenta.

Olho para ele e sorrio. Sebastian parece se gabar, como se sentisse orgulho.

Judy fica de olhos arregalados.

– Eu faço trabalho voluntário lá todas as quartas-feiras! Qual é o nome dele?

– Paul Scott. É cirurgião cardíaco.

– Sei exatamente quem é! Não passo muito tempo no andar dele atualmente, mas é o médico mais gentil do hospital. O cardiologista judeu, não é? –

pergunta, e eu faço que sim, surpreso por ela conhecê -lo, mas também por identificá-lo como judeu. – Bastante atencioso, e as enfermeiras o adoram. – Ela se abaixa e diz com um toque de drama: – E, se me dão licença, Paul Scott é todo bonitão.

– Vovó! Você ama o pai de Tanner? – a pequena Faith pergunta escandalizada, fazendo todos à mesa rirem.

– Bem, você sabe que só tenho olhos para o vovô, mas também não sou cega –

responde, piscando com um olho.

Faith ri sobre seu copo de leite.

– É verdade. – Abe comenta. – Ela me encontrou em um baile da igreja e, desde então, não tem olhos para mais ninguém.

– Mamãe, você e o papai também se conheceram em um baile, não foi? –

Faith pergunta.

– É verdade. – Responde a mãe de Sebastian, olhando para Dan. – Eu o convidei para ir comigo no Sadie Hawkins.

A menininha leva uma colherada de comida à boca antes de perguntar confusa:

– O que é Sadie Hawkins?

Sua mãe explica que é um baile, mas só consigo pensar no que ela acabou de dizer. Quando termina a explicação, viro-me para o pai dele:

– Vocês namoravam no ensino médio?

– Sim – ele responde, assentindo –, a gente se conheceu no último ano e se casou logo que voltei da minha missão.

Meu cérebro derrapa até parar.

– Vocês podem fazer isso?

– Eles dizem para não termos namorada enquanto estamos em missão – conta, sorrindo para a esposa –, mas não tem nenhuma regra que o impeça de escrever cartas uma vez por semana.

– Como se esses dois respeitassem alguma regra. – Judy olha para as crianças e acrescenta: – Seu pai não vai gostar nada de me ouvir contando isso, mas vocês deviam ver as cartas de amor que ele escrevia para sua mãe. Ele as deixava no bolso e eu sempre as encontrava na hora de lavar as roupas. Eles eram loucos um pelo outro.

O resto da conversa se transforma em um borrão à minha volta. Apesar de todas as complicações, se pudéssemos manter contato enquanto ele estiver longe, acho que a coisa toda não seria tão ruim. Dois anos não é tanto tempo assim, e, além do mais, eu vou estar na faculdade. Talvez, durante esse tempo, o profeta tenha alguma revelação.

Poderia dar certo, não poderia?

Por um instante, sinto esperança.

Dan me tira da minha bolha.

– Tanner, a sua família frequenta a sinagoga de Salt Lake City? – Ele olha para Abe. – Estou tentando lembrar onde fica a mais próxima daqui.

É constrangedor, mas nem eu sei onde fica a sinagoga mais próxima.

– Bem, deixe-me pensar – Abe responde. – Tem o Templo Har Shalom em Park City...

– Longe demais – Dan fala, negando com a cabeça como se soubesse que esse templo não seria uma opção para nós.

– Bem, e a cidade tem vários...

Decido acabar logo com o assunto:

– Na verdade, não, senhor. Ou melhor, senhores. – Corrijo-me para incluir também Abe. – A gente não vai ao templo. Eu diria que, a essa altura, meus pais estão mais para agnósticos. Minha mãe foi criada em uma família de mórmons, e meu pai não é mais muito judeu.

Ah, meu Jesusinho, o que foi que eu acabei de falar?

O silêncio engole a mesa. Não sei qual gafe foi pior: ter admitido que minha mãe é ex-mórmon ou ter falado sobre abandonar a religião como se simplesmente estivesse pedindo para alguém me passar a travessa de batatas.

Sebastian desfaz o silêncio:

– Eu não sabia que sua mãe já foi mórmon.

– Sim, ela cresceu em Salt Lake City.

Sua testa fica franzida e sua boca é uma linha suave.

A mãe de Sebastian apressa-se em falar:

– Bem, isso significa que você tem família aqui na região! Costuma visitá-los?

– Meus avós vivem em Spokane, Washington, atualmente – explico.

Acho melhor não comentar que nunca sequer os conheci em meus dezoito anos de existência e mentalmente me cumprimento por ter tomado essa decisão.

Mas ter parado para me cumprimentar também significa que me concentrei em outra coisa e deixei a língua solta:

– Mas minha tia Emily e sua esposa vivem em Salt Lake City. A gente se vê pelo menos uma vez por mês.

O único som à mesa é o de pessoas desconfortáveis se mexendo em suas cadeiras.

Ai, meu Jesusinho, o que foi que eu acabei de falar?

Sebastian me dá um chute por debaixo da mesa. Quando olho para ele, percebo que está se esforçando para não rir. E continuo falando:

– A mãe do meu pai sempre vem visitar e passar tempo com a gente. Ele também tem três irmãos, então nossa família é bem grande. – Ergo o copo e encho a boca de água para ver se assim consigo ficar calado. Mas, quando engulo, um pouco mais da minha mania escapa: – Bubbe ainda vai à sinagoga toda semana. É muito envolvida com o judaísmo. Muito espiritualizada.

O calcanhar de Sebastian bate outra vez em minha canela e sei que está me dizendo para me acalmar, ou talvez que eu não preciso estar ligado a nenhuma religião para ser aceito aqui. Vai saber. Mas certamente tenho essa sensação.

Todos aqui são tão certinhos. Comem com toda a etiqueta, com guardanapo no colo. Dizem “por favor, me passe isso” ou “pegue aquilo para mim, por favor” e elogiam os pratos preparados pela mãe. A postura à mesa é totalmente

impressionante. E, talvez, mais importante, em vez de me perguntarem mais sobre a formação de meus pais ou de Emily, os avós de Sebastian tentam se esquivar da minha diarreia verbal e perguntam sobre os professores do colégio ou os eventos esportivos que estão por vir. Seus pais de tempos em tempos lembram os filhos para manterem os cotovelos fora da mesa (e eu discretamente também recolho os meus), para não consumirem tanto sal, para comerem todos os legumes antes de pedirem mais pão.

Tudo é tão previsível, tão seguro.

Em comparação, a minha família deve parecer um bando de selvagens. Quero dizer, não somos animais ferozes ou pessoas monossilábicas, mas minha mãe de tempos em tempos diz a Hailey para “sossegar a periquita” à mesa do jantar e já vi meu pai uma ou duas vezes levar o prato para a sala de estar para se livrar do barulhão que Hailey e eu fazemos enquanto brigamos. Mas uma diferença ainda mais notável é a intimidade que temos uns com os outros em casa, algo que só agora percebo – agora, que estou aqui, com esse grupo de estranhos dóceis.

Enquanto devoramos espaguete e almôndegas, os Scott conversam abertamente sobre o que é ser bissexual. Enquanto Bubbe servia kugel, Hailey certa vez perguntou aos meus pais se era possível pegar AIDS por meio de sexo oral. Para mim, foi aterrorizante, mas eles responderam sem hesitar. Agora que penso em tudo isso, se Sebastian fosse jantar em casa, tenho certeza de que minha mãe se despediria dele dando-lhe um adesivo brilhante para carro com alguma mensagem afirmativa.