Minha Versão de Você

Christina Lauren · Capítulo 12 de 25

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Minha Versão de Você

Capítulo Doze

Afinal, segundo a família dele, ele se apaixonou pela mulher errada 22 anos atrás.

 

A mãe de Autumn abre a porta e dá um passo de lado para me deixar entrar.

Auddy puxou dela esse sorriso com covinhas bastante marcadas, mas basicamente só isso. Minha amiga tem cabelos ruivos, nariz com sardas e olhos azuis brilhantes. A senhora Green tem cabelos pretos, olhos castanhos e pele dourada. Eu me pergunto como é para a senhora Green olha todos os dias para uma filha tão parecida com o marido falecido. Deve ser ou maravilhoso, ou desolador. Muito provavelmente uma combinação das duas coisas.

Temos um ritual aqui: eu a cumprimento com um beijo na bochecha, ela me diz que tem Yoohoo na geladeira e eu finjo me animar. Yoohoo é a coisa mais esquisita, uma coisa tipo leite aguado com chocolate que vem em uma caixinha.

No meu primeiro verão aqui, comentei uma vez com a senhora Green que eu gostava dessa bebida e, desde então, ela compra para mim. Agora, sempre me sinto obrigado a aceitar uma caixinha e levá-la ao quarto de Auddy, mas a verdade é que eu não aguento mais tomar esse negócio. Estamos fazendo uma experiência com uma planta na prateleira do quarto: violetas-africanas conseguem sobreviver se regadas somente com Yoohoo?

Princesa Autumn está deitada no chão, com um esboço de seus capítulos bem à sua frente. Faz marcações com uma caneta vermelha; eu não consigo ler nada.

– Auddy, você é a pessoa mais fofa e mais nerd que já conheci em toda a minha vida. – Ela nem levanta o rosto quando eu entro. – Pare de ser assim. Será que não sabe que correções feitas com caneta vermelha podem ser vistas como severas demais e afetar a autoestima dos alunos? É melhor usar a roxa.

Seus olhos azuis se viram na direção do meu rosto.

– Eu gosto de vermelho.

Seus cabelos longos e ruivos estão presos em um coque enorme sobre a cabeça.

– Sei que gosta.

Ela ajeita os ombros e se senta de pernas cruzadas.

– O que você está fazendo aqui?

Essas palavras doem um pouco, afinal, deixam claro que meu pai estava certo.

Antes de Sebastian, não haveria estranheza nenhuma em eu simplesmente entrar no quarto dela a qualquer momento. Agora, vejo Auddy, talvez, uma vez por semana fora da escola e passo muito mais tempo sozinho, escrevendo palavras, e mais palavras, e mais palavras sobre ele, independentemente de quantas vezes

meu cérebro grite que é hora de eu dar início ao livro novo.

– Não posso dar uma passada para ver a minha melhor amiga?

– Você andou tão ocupado.

– Você também. – Franzo a testa para ela, um franzir cheio de significado. –

Foi legal aquela noite com Eric?

– Se com “legal” você quiser dizer “dar uns amassos até os lábios caírem no chão”, sim, aí sim.

Fico boquiaberto.

– Sério?

Ela assente, o rubor se espalhando em meio às sardas.

– E quantas piadinhas sobre a “sua mãe” ele fez?

Rindo, ela comemora:

– Nenhuma!

– Não acredito em você.

Para Eric, qualquer situação é uma oportunidade para uma piada sobre sua mãe ou foi isso que eu disse. E não importa quantas vezes avisemos que não estamos mais em 2013.

– Foi legal. – Ela responde, apoiando as costas na cama. – Eu gosto dele.

Estendo a mão, belisco sua bochecha. Sinto um aperto dentro de mim. Não é exatamente ciúmes, mas uma estranha sensação de perda, como se não fôssemos mais Tanner e Autumn contra alguém. Agora, nós dois temos outras pessoas.

Mesmo que ainda não saibamos disso.

– Por que essa cara? – pergunta enquanto desenha um círculo no ar, em volta do meu rosto.

– Só estou pensativo. – Pego sua caneta vermelha, rabisco a sola do meu tênis.

– E queria conversar com você.

– Do jeito que você fala, parece que a coisa é séria.

– Não é, não. – Estreito os olhos, refletindo. – Não, é... Acho que é. Eu só queria pedir desculpa.

Ela não fala nada, então a encaro, tentando ler sua expressão. Conheço Autumn melhor do que praticamente qualquer outra pessoa, mas, neste momento, não consigo decifrar o que se passa em sua cabeça.

– Pelo quê?

– Por andar tão distraído.

– É um semestre corrido no colégio. – Ela então joga o corpo para a frente e puxa um fio solto na bainha da minha calça jeans. – Também sinto muito por não ter sido a melhor amiga do mundo nesses últimos tempos.

Suas palavras me surpreendem e eu ergo o olhar para estudá-la.

– O que quer dizer com isso?

– Sei que você e Sebastian ficaram amigos e acho que fiquei com ciúmes.

Ah. Um alarme começa a soar na minha cabeça.

Auddy engole em seco de um jeito desconcertante e audível, e sua voz falha quando ela volta a falar:

– Quero dizer, ele está ficando com uma parte do seu tempo que costumava ser minha. E existe uma intensidade quando vocês conversam, então sinto que ele possa estar tomando algo que é meu. – Olha nos meus olhos. – Faz sentido para você?

Meu coração espanca o peito.

– Acho que sim.

Seu rosto fica vermelho, deixando claro para mim que essa conversa é mais do que sobre amizade. Se estivesse apenas se referindo ao seu espaço como minha melhor amiga, não enrubesceria; seria toda corajosa. Mas há algo mais aqui. E, mesmo que Auddy não saiba a extensão da minha relação com Sebastian, já notou a intensidade. Já tomou consciência de algo que ainda não consegue definir.

– Estou com ciúmes – declara tentando parecer valente, de queixo erguido. –

Por uma série de motivos, mas já estou trabalhando em alguns deles.

A sensação é a de que alguém está martelando o meu peito.

– Você sabe que eu te amo, não sabe?

Suas bochechas ficam completamente coradas.

– Sei.

– Tipo, você é uma das pessoas mais importantes para mim, do mundo inteiro, entende?

Ela ergue um olhar vidrado.

– É, eu sei.

Na verdade, Autumn sempre soube quem é e o que quer. Sempre quis ser escritora. É branca, heterossexual e linda. Tem um caminho a seguir que vai levá-la a resultados e ninguém jamais lhe dirá que não pode ou não deve querer o que quer. Sou bom em ciências físicas, mas ambivalente sobre seguir meu pai no caminho da Medicina, e não tenho ideia de o que mais eu poderia ser. Sou apenas um garoto bissexual, meio-judeu, que está apaixonado por um garoto mórmon. Para mim, o futuro não é tão claro.

– Venha aqui – peço.

Ela se arrasta, até se sentar no meu colo e eu a abraço, segurando-a comigo por todo o tempo que ela permite. Auddy tem o cheiro de seu shampoo favorito da Aveda e seus cabelos tocam suaves em meu pescoço, e eu queria, pela milésima vez, sentir algo como desejo por ela. Mas, em vez disso, só sinto um carinho profundo, desesperado. Agora entendo o que meu pai queria dizer. É

 

fácil falar que vou manter minhas amizades, mas preciso fazer mais do que isso; preciso protegê-las. O mais provável é que não estejamos na mesma faculdade no ano que vem, e agora é a hora de ter certeza de que nossa relação é sólida. Se eu a perdesse, ficaria desolado.

O Warriors está enfrentando o Cavs na TV; meu pai, plantado no sofá. Cada linha de seu corpo é tensa. Seu nível de desgosto por LeBron James me impressiona, mas não posso culpá-lo por sua lealdade.

– Vi a Autumn hoje – conto.

Ele resmunga e assente. Claramente não está ouvindo.

– A gente combinou de se casar.

– Ah, é?

– Você precisa de uma cerveja, aliás, de muita cerveja, se for continuar ligado assim na TV.

Ele resmunga outra vez, assentindo.

– Eu me meti em uma encrenca na rua e preciso de 500 dólares.

Meu pai enfim me olha, horrorizado.

– Como é que é?

– Só queria saber se estava me ouvindo.

Piscando algumas vezes, ele respira aliviado quando o intervalo do jogo chega.

– O que você estava dizendo?

– Que vi Auddy hoje.

– E ela está bem?

Confirmo com um gesto.

– Acho que está saindo com Eric.

– Eric Cushing?

Faço mais uma vez que sim. Ele volta a falar e diz exatamente o que eu esperava ouvir:

– Pensei que ela fosse a fim de você, não?

Não tenho como responder sem soar um pouco convencido.

– Acho que é, um pouco.

– Você contou a ela sobre Sebastian?

– Está falando sério? Claro que não.

O jogo volta do intervalo e me sinto mal por precisar da atenção dele agora, mas a situação é como cupins devorando uma viga de madeira. Se eu não me expressar, serei tomado por ansiedade.

– Pai, o que aconteceu quando você contou para Bubbe que estava namorando a mãe?

Ele lança um último olhar relutante para a TV, antes de pegar o controle remoto e colocá-la no mudo. Depois, vira-se para mim, apoiando uma perna no sofá para poder me olhar no rosto.

– Isso já faz muito tempo, Tann.

– Eu só queria ouvir outra vez.

Eles já me contaram a história antes, mas, às vezes, ouvimos as coisas quando ainda somos muito novos e os detalhes se sobressaem; o que fica nem sempre é a ideia principal. A história do namoro de meus pais é uma dessas coisas. Na primeira vez que nos contaram, o que se sobressaiu foi o lado romântico. A realidade de quão duro foi para meu pai e sua família – e também para minha mãe – acabou se perdendo na grandiosa narrativa do “felizes para sempre”.

Eu tinha treze e Hailey dez anos, e a história que nos contaram foi abreviada: Bubbe queria que meu pai se casasse com a filha da melhor amiga dela, uma mulher que cresceu na Hungria e se mudou para os Estados Unidos para fazer faculdade. Era normal, diziam eles, que os pais se envolvessem nesse assunto.

Não explicaram outros detalhes que eu vim a descobrir com o tempo, conversando com tias e primos, como, por exemplo, o envolvimento da família fazia sentido por vários motivos: o casamento é para sempre, ao passo que a paixão termina. Encontrar alguém que venha da mesma comunidade e tenha os mesmos valores, no fim das contas, é mais importante do que estar com a pessoa com quem você quer transar nos próximos meses.

Mas meu pai conheceu minha mãe em Stanford e, como ela disse, naquele momento ela já sacou. Meu pai tentou lutar, mas, no fim, ele também percebeu.

– Conheci sua mãe no meu primeiro dia do curso de Medicina. – Conta. – Ela trabalhava em uma lanchonete bacana perto do campus e eu apareci lá todo desgrenhado e faminto. Tinha me mudado na véspera do começo das aulas e a realidade de estar longe de casa se mostrou muito diferente das minhas expectativas. Tudo era caro, corrido, e eu já tinha uma carga de trabalho inacreditável. Sua mãe fez o sanduíche de frango mais perfeito do mundo, e me entregou, e perguntou se eu aceitaria jantar com ela.

Essa parte eu já ouvi. Aliás, adoro quando eles contam, porque, em geral, meu pai faz alguma piada sobre a propaganda enganosa que foi a questão de minha mãe cozinhar. Dessa vez, porém, ele não diz isso.

– Pensei que ela quisesse ser amigável porque eu parecia tão sobrecarregado.

Nunca imaginei que ela tivesse pensado que poderíamos namorar. – Meu pai dá risada. – Mas, quando ela apareceu, suas intenções ficaram claras.

Agora sua voz sai mais baixa. Está me dando acesso a uma versão da história

que não é a superficial. Estou tendo acesso à versão que um homem adulto conta a seu filho também adulto.

Minha mãe é linda, sempre foi. Sua confiança a torna quase irresistível, mas combinada com sua inteligência... Bem, meu pai não tinha chance. Afinal, estava com apenas 21 anos – jovem para um aluno de Medicina – e, naquela primeira noite, durante o jantar, disse a si mesmo que não faria mal nenhum passar algum tempo com ela. Já tivera algumas namoradas antes, mas nada muito sério.

Sempre soube que em algum momento voltaria para sua cidade e se casaria com alguém da comunidade.

Meus pais namoraram em segredo por dois anos. E, mesmo no tempo em que ele morou na casa dela, insistia que se casaria com uma judia. Toda vez que ele dizia isso, minha mãe escondia a dor e dizia: “Tudo bem, Paul”.

Quando Bubbe e Bekah, a irmã de meu pai, foram visitá-lo, minha mãe em momento algum se encontrou com elas. Meu pai não contou nada sobre os dois e, durante todo o tempo que elas passaram na cidade, minha mãe também não o viu. Foi como se ele tivesse desaparecido. Não ligou, nem foi atrás de saber como ela estava. Depois que as visitas se foram, minha mãe terminou com ele, que nem discutiu. Meu pai disse a ela que lhe desejava o melhor e a viu ir embora.

Embora meu pai jamais tenha falado sobre o período que os dois passaram distantes, minha mãe se refere a essa época, em tom de brincadeira, como o

“Ano Sombrio”. Brincadeiras à parte, já vi fotos dos dois e as imagens me deixaram ligeiramente desconfortável. Meus pais se Amam, com A maiúsculo.

Ele acha minha mãe linda, mais brilhante do que qualquer estrela. Minha mãe o acha o homem mais inteligente e mais lindo na face da Terra. Estou certo de que o tempo que passaram separados os fez valorizar o que têm, mas fica claro que sentiam isso mesmo antes de terem terminado. Naquelas fotos, os dois parecem vazios e cansados. As olheiras escuras de meu pai parecem as fases escuras da lua. Minha mãe já é normalmente magra, mas, no Ano Sombrio, ficou esquelética.

Ele agora admite para mim que não conseguia dormir. Durante quase um ano, só dormiu algumas poucas horas por noite. Não era raro encontrar alunos de seu curso que passavam a noite acordados, estudando, mas meu pai é um cara dedicado e organizado, não tinha problemas para se manter em dia. Não conseguia dormir porque estava apaixonado por ela. Naquele ano, sentiu-se como um viúvo.

Foi ao antigo apartamento dela e lhe implorou para aceitá-lo de volta.

Eu nunca soube disso. Sempre ouvi que os dois simplesmente se reencontraram por acaso no campus um dia e, dali em diante, meu pai deixou

claro que não conseguia ficar longe dela.

– Por que você contou para nós que reencontrou a mãe no campus?

– Porque foi isso que contei a Bubbe. – Fala baixinho. – Ela ficou um bom tempo magoada por eu ter me casado com Jenna. Mas admitir que eu fui atrás da sua mãe e implorei para ela voltar para mim seria mais como deliberadamente trair a minha mãe.

Meu coração dói quando ele diz isso. Toda vez que vou ver Sebastian, sinto que estou deliberadamente traindo minha mãe. Só não tinha pensando em um nome para isso, até agora.

– Jenna me colocou sentado e gritou comigo por uma hora. – Meu pai relembra. – Disse que doía muito ser colocada em uma posição na qual não tinha nenhum poder. Falou que sempre me amaria, mas que não confiava em mim. –

Agora ele ri. – Me mandou embora e disse que eu tinha que provar meus sentimentos por ela.

– O que você fez?

– Liguei para Bubbe e contei que estava apaixonado por uma mulher chamada Jenna Petersen. Comprei uma aliança e voltei ao apartamento da sua mãe e a pedi em casamento.

Aparentemente, minha mãe perguntou quando e meu pai respondeu “quando você quiser”. Então, eles se casaram no cartório na manhã seguinte, outro detalhe que eu desconhecia até hoje. Já vi inúmeras fotos do casamento oficial dos dois: a assinatura na Ketubah, minha mãe quase totalmente escondida atrás do véu, esperando para

entrar na igreja, meu pai quebrando o copo debaixo do chuppah4, as fotos dos amigos e familiares durante o pronunciamento do Sheva Brachot – as sete bênçãos –, com meus pais erguidos em grandes cadeiras de madeira enquanto os amigos dançavam à sua volta. As fotografias do casamento decoram as paredes do corredor do andar de cima da nossa casa.

Eu não fazia a menor ideia de que os dois já tinham legalmente se casado quase um ano antes.

– Bubbe sabe que você se casou com ela antes da cerimônia?

– Não.

– Você se sentiu culpado?

Meu pai abre um sorriso para mim:

– De jeito nenhum. Sua mãe é meu sol. Meu mundo só fica aquecido quando ela faz parte dele.

– Não consigo imaginar como foi para vocês. – Desço o olhar para minhas mãos. – Não sei como ficar longe de Sebastian, nem se conseguiria ficar. –

Agora preciso perguntar, por mais que tenha medo da resposta: – Você contou para ela que me flagrou com ele?

– Contei.

– Ela ficou nervosa?

– Sua mãe não ficou surpresa, mas concordou com o que eu falei para você. –

Ele se aproxima e beija a minha testa. – O que Jenna aprendeu comigo foi que ela sempre teve poder, mesmo quando sentia que eu não reconhecia essa força.

Você não está desamparado, mas precisa ter claro quem é e o que está disposto a tolerar. – Ele encosta o dedo em meu queixo e ergue meu rosto para me olhar nos olhos. – Está disposto a ser um segredo? Talvez, agora esteja. Mas você tem a sua vida e um futuro pela frente. E é a única pessoa que pode fazer seu futuro ser o que quiser que ele seja.