Minha Versão de Você

Christina Lauren · Capítulo 21 de 25

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Minha Versão de Você

Sebastian

Então, com o notebook aberto em meu colo, digito palavras...

Palavras.

Palavras.

Palavras.

Chrismukkah é uma mistura das palavras Christmas (Natal em inglês) e Hanukkah (palavra hebraica) que é uma espécie de Natal dos judeus, tem a duração de 8 dias e, normalmente, acontece entre novembro e início de dezembro.

 

À noite, quando Sebastian está deitado, ainda acordado, olha para o teto branco e vazio e sente que há um buraco lentamente ardendo em seu torso. Sempre começa logo abaixo da clavícula e se expande para baixo, escuro, curvado, como um fósforo tocando uma folha de celofane.

Na primeira noite, pensou ser indigestão.

Na segunda noite, sabia que não era.

Temeu a terceira noite, mas, na quarta, foi para a cama mais cedo, já esperando que começasse como um pontinho e logo se transformasse em uma queimação perfurante que se espalharia por dentro de seu estômago. O mais estranho é que acontece logo depois do primeiro contato de sua cabeça com o travesseiro, o que costumava desencadear um enxame de imagens de Tanner: seu sorriso e sua risada, a curva de sua orelha, os ossos de seus ombros, a maneira como seus olhos se estreitavam pouco antes de seu humor se tornar ácido, seguido pela imediata dilatação de suas pupilas, cheias de remorso. Agora, em vez disso, assim que encosta a cabeça no travesseiro, Sebastian lembra que Tanner não está mais ali; depois, não sente nada além da dor.

Não gosta de ser melodramático, mas a dor é melhor do que a culpa; é melhor do que o medo; é melhor do que o arrependimento; é melhor do que a solidão.

Quando ele acorda, a dor passou, mas o cheiro do café da manhã está lá, o que desencadeia uma rotina específica: Levantar-se. Orar. Comer. Ler. Orar. Correr.

Banhar-se. Escrever. Orar. Comer. Escrever. Orar. Comer. Ler. Orar. Doer.

Dormir.

As últimas notas precisam sair em dois dias e, em um momento de desespero, Fujita deu ao Sebastian três livros para ele ler e avaliar. Parece que esse foi um semestre produtivo: todos os alunos entregaram mais de 60 mil palavras. No fim das contas, quase um milhão de palavras é demais para uma pessoa enfrentar sozinha em cinco dias.

Mas Sebastian não recebeu o livro de Tanner e, embora tivesse pensado mil vezes em pedir esse texto, acabou desistindo no fim. Leu o manifesto indecifrável de Asher, o mistério mal escrito de Burrito Dave e o thriller excepcionalmente bem conduzido de Clive sobre a CIA. Criou relatórios expondo os pontos fortes e os fracos de cada trabalho e sugeriu notas.

Entregou tudo dois dias adiantado, dando ao Fujita tempo para correr o olho pelas obras, se assim necessário, antes de entregar as notas finais. E agora volta

para casa, pronto para retomar sua rotina já na próxima refeição, mas, aí, encontra Autumn, parada, na entrada de casa.

Ela usa um moletom da Corvinal, calça jeans e chinelo.

Traz um sorriso incerto no rosto e algo nas mãos.

– Autumn, oi.

O sorriso dela se torna ainda mais incerto.

– Desculpa por ter... simplesmente aparecido aqui.

Ele não consegue não sorrir de volta para a garota. Será que ela esqueceu que as pessoas “simplesmente aparecem” o tempo todo?

– Podemos entrar?

Ele acena uma negação com a cabeça.

– Acho melhor a gente conversar aqui fora mesmo.

A casa mais parece um microfone gigante, escandaloso. Lá dentro, é quente demais, tenso demais, silencioso demais. Em seus raros momentos de tempo livre, Sebastian acessa a internet e procura apartamentos espaçosos e não mobiliados em Atlanta, Nova York, Seattle, Los Angeles.

– Tudo bem. Bom, em primeiro lugar, quero me desculpar. – Autumn começa, falando baixinho. – Sei que Tanner contou para você o que aconteceu entre nós.

Espero que saiba que ele estava se sentindo péssimo. Eu tirei vantagem da situação, sinto muito.

Um músculo se repuxa no maxilar de Sebastian. Lembrar o que aconteceu entre Tanner e Autumn não é bom, mas, pelo menos, isso responde uma pergunta que vinha habitando sua mente: os dois estão juntos agora?

– Obrigado, mas não precisa se sentir assim. Ninguém me deve explicações.

Ela o estuda por alguns segundos. Sebastian nem precisa imaginar como está sua aparência. É claro que Autumn já viu sofrimento antes, e agora ele também sabe que esse sentimento pode se espalhar por um rosto incapaz de forçar um sorriso. Abaixo dos olhos de Sebastian, há manchas azuladas. Sua pele não é exatamente pálida, mas traz um tom amarelado, como se ele não estivesse saindo muito ao sol.

– Bem, mesmo assim, eu queria me desculpar. – Autumn abre a mão, expondo um pequeno pen-drive rosa. O tom vermelho da traição se espalha em seu pescoço. – E eu queria entregar o livro para você.

– Não entregou para o Fujita?

O prazo era dois dias atrás; Autumn sabe bem disso.

Confusa, ela o encara.

– Este não é o meu livro.

Sebastian nunca tinha sentido aquela dor à luz do dia, mas lá estava ela. Ali fora, debaixo do sol, espalha-se mais rápido, alimentada como um incêndio

chicoteado pelo vento. Precisa de um momento para lembrar como falar.

– Como conseguiu isso?

– No notebook dele.

O coração de Sebastian se aperta no peito, antes de começar a espancar seu esterno.

– Imagino que ele não saiba que você pegou esse arquivo.

– Você está certo.

– Autumn, você precisa levar isso embora. É violação de privacidade.

– Tanner disse ao professor Fujita que não tinha nada para entregar. Você e eu sabemos que não é verdade. Fujita sabe que não é verdade.

O rosto de Sebastian fica gelado e sua voz escapa em um sussurro:

– Então, você quer que eu entregue para ele.

– Não. Eu jamais lhe pediria algo assim. Quero que você leia. Talvez possa conversar com Fujita, perguntar se você mesmo pode dar uma nota. Ouvi dizer que ele passou alguns trabalhos para você avaliar. Fujita sabe que Tanner não se sente à vontade para entregar este texto, mas ele certamente vai ficar feliz se souber que você leu. Eu não tenho nenhum poder para fazer isso, mas você tem.

Sebastian analisa o pen-drive em sua mão e assente. Seu desejo de ler o que tem escrito ali quase o cega.

– Estou no meio de um conflito...

Autumn ri de suas palavras.

– Ah, sim. Mas eu não sei mais o que fazer... Se ele entregar este livro, você vai acabar exposto a um professor sem o seu consentimento. Se ele não entregar, reprova em uma disciplina, o que pode colocar em risco sua vaga na UCLA.

Você e eu sabemos que não existe uma saída tão simples como só trocar os nomes na narrativa.

– É verdade.

– Pessoalmente, não sei o que Tanner tinha na cabeça. – Autumn olha nos olhos de Sebastian. – Ele sabia que, no final, teria que entregar alguma coisa.

Mas o Tanner é assim. Ele sente antes de pensar.

Sebastian se senta na escadinha em frente à sua casa, olha a calçada.

– Ele falou que estava escrevendo algo novo.

– E você acreditou? Mesmo? Ou só escolheu acreditar porque era mais fácil?

Tanner não conseguia pensar em outra coisa.

Sebastian se vê tomado por uma irritação agressiva; quer que Autumn vá embora. A presença dela é como um dedo se enterrando em uma ferida.

Autumn se senta ao lado dele na escada.

– Você não precisa responder, porque acho que não é da minha conta. – Ela ri e hesita. Sebastian se concentra em tentar encontrar outra vez aquela dor. – Eles

sabem sobre Tanner?

O olhar dele aponta para o rosto dela, antes de rapidamente desviar.

Eles sabem sobre ele?

É uma pergunta tão pesada, mas a resposta obviamente é não. Se soubessem sobre ele – se realmente conhecessem sua capacidade de ser doce, de demonstrar humor, de ficar quieto e conversar –, ele estaria com Tanner agora mesmo.

Sebastian realmente acredita nisso.

– Eles sabem que eu estava interessado em alguém e que era ele. Não contei tudo, mas não importa. Eles ficaram descontrolados de qualquer forma. Foi por isso que...

Por isso que ele enviou aquele e-mail.

– A gente tinha várias citações e imagens motivacionais em minha casa. – Ela conta. – Lembro de uma que dizia que a família é um presente que dura para sempre.

– Certamente temos essa em algum lugar aqui.

– Mas não tinha nenhum asterisco dizendo: “mas só sob essas condições específicas”. – Ela puxa uma linha invisível de sua calça jeans e ergue o olhar na direção dele. – Minha mãe se livrou da maioria daquelas coisas. Acho que manteve a foto deles no dia do casamento, na frente do Templo, mas não tenho certeza. Ela ficou com muita raiva, então pode ser que essa foto também tenha ido parar no lixo, com todo o resto.

Sebastian olha para ela.

– Tanner me contou um pouco sobre o seu pai. Eu sinto muito.

– Na época, eu não entendi a reação da minha mãe, mas agora faz sentido. Sei que aquelas palavras estampadas devem servir de inspiração, mas no fundo elas mais parecem alguém te observando, lembrando-o, de um jeito passivo-agressivo, das suas falhas ou do porquê sua tragédia é por um bem maior, tudo em nome do plano de Deus. Minha mãe não via nenhuma utilidade nisso.

Ele pisca os olhos, aperta-os na direção dos próprios pés.

– Compreensível.

Autumn encosta o ombro ao dele.

– Imagino que as coisas não andem muito bem com você.

Ele inclina o corpo para a frente, querendo se afastar um pouco, e descansa os cotovelos nos joelhos. Não que não queira ser tocado. A verdade é que Sebastian está tão desesperado por algum tipo de contato que chega a queimar.

– Eles mal estão falando comigo.

Autumn bufa.

– Sessenta anos atrás, ficariam tão infelizes quanto agora se você levasse uma garota negra para casa. Mesmo que ela tivesse todas as coisas certas por dentro,

a cor da pele seria errada. Está vendo como é ridículo? Isso não é pensar com independência, é decidir como amar seus filhos com base em um ensinamento antiquado. – Ela faz uma pausa. – Não deixe de lutar, Sebastian.

Sebastian se levanta e limpa a poeira das calças.

– O casamento é eterno, é entre um homem e uma mulher, e leva a uma família eterna e feliz. A homossexualidade vai contra esse plano.

Ele soa completamente desprendido de suas palavras, como se as estivesse lendo em um roteiro.

Autumn lentamente se levanta, oferecendo um sorriso que ele não consegue interpretar.

– Você daria um bispo e tanto.

– Vou entrar. Já ouvi o suficiente.

– Eles estão transtornados, mas, em algum momento, vão entender que ou você é certinho ou é amado. Apenas um grupo muito pequeno consegue ser as duas coisas ao mesmo tempo.

Sebastian desliza um dedo pelo pen-drive.

– Então está aqui?

– Eu não li tudo, mas o que li...

Ele espera, um, dois, três batimentos de silêncio entre os dois, antes de finalmente sussurrar:

– Está bem.

Quando as cortinas já foram abertas e fechadas pela terceira vez, Sebastian finalmente entra. Sua mãe não perde tempo e, assim que a porta se fecha, já está atrás dele.

– Autumn foi embora?

Sebastian queria ir direito para o quarto, mas ela está bloqueando a escada.

Então, vai à cozinha, onde pega um copo no armário e o enche de água. O pen-drive queima em seu bolso. Suas mãos estão praticamente trêmulas.

Ele esvazia o copo em poucos segundos e o coloca na pia.

– Sim – responde –, ela foi embora.

Sua mãe dá a volta na ilha da cozinha e liga o mixer. O cheiro de manteiga e chocolate satura o ar. Está fazendo cupcakes. Ontem, fez cookies. No dia anterior, biscoitos. Sua rotina nem de longe mudou. A família não está se desfazendo. Nada é diferente.

– Eu não sabia que vocês dois eram amigos.

Sebastian não quer responder a perguntas sobre Autumn, mas sabe que, se não esclarecer as coisas, novos questionamentos surgirão.

– Eu só era assistente na turma dela.

Um silêncio pesado se instala. Em teoria, ele também só era tutor de Tanner,

então essa resposta não diz muita coisa. Contudo, sua mãe não o pressiona; ele e seus pais não conversam mais. Apenas trocam amenidades, como “por favor, passe as batatas” ou “preciso que você corte a grama”, o que leva Sebastian a crer que estão perdendo a prática de conversar. Ele sempre esperou que a relação com seus pais mudasse com o tempo, conforme fosse adquirindo experiências e pudesse relatá -las entre adultos, de um jeito que ele não compreendia antes.

Todavia, não esperava ver a dureza e as limitações deles tão cedo, tão rápido.

Foi como descobrir que a terra é realmente plana; de repente, não existe mais um lugar que guarde aventuras para serem exploradas. Em vez disso, você desaparece uma vez que se aproxima da borda.

Ao desligar o mixer, ela o observa do outro lado do balcão.

– Nunca ouvi você falar dela antes.

Será que ela nunca percebeu que ele nunca falou de nenhuma menina, nem mesmo de Manda?

– Autumn veio deixar uma coisa para eu entregar ao Fujita.

Sebastian a observa enquanto ela liga os pontos. A suspeita de sua mãe surge como um sol negro bem diante do rosto.

– Autumn conhece ele, não conhece?

Ele.

– São amigos.

– Então ela não veio para falar daquilo?

Só existe um “ele” amaldiçoado, assim como só existe um “aquilo”

impronunciável.

Quando Sebastian se dá conta de que em sua casa ninguém pronuncia o nome de Tanner, a raiva incha em seu peito.

– O nome dele é Tanner.

Pronunciar essa palavra faz seu coração coçar, e ele quer levar a mão ali e arranhar a própria pele.

– Você acha mesmo que não sei o nome dele? Está de brincadeira?

De repente, o rosto de sua mãe está vermelho, desde a linha do cabelo até o pescoço; os olhos, vidrados e furiosos. Sebastian nunca a viu com tanta raiva.

– Não sei o que fizemos para chegar a essa situação, Sebastian. Aquilo?

Aquilo que você estava “passando”? – Ela espanca o ar, fazendo aspas ao dizer

“passando”. – Foi uma decisão sua. Nosso Pai do Céu não é responsável por suas decisões. É o seu livre arbítrio que o impede de ser feliz. – Ela pega uma colher de pau e bate a massa. – E, se acha que estou sendo dura, converse com seu pai sobre esse assunto. Você não tem ideia de quanto o feriu com isso.

Mas Sebastian não consegue conversar com o pai, porque Dan Brother nunca está em casa. Desde aquele infeliz jantar, Dan fica na igreja depois do trabalho,

 

visita os membros da comunidade e só volta para casa depois que todos já estão dormindo. Os jantares costumavam ser regados a conversa. Agora, só se ouve o barulho dos talheres e uma ou outra discussão sobre lição de casa enquanto uma cadeira permanece vazia numa ponta da mesa.

– Desculpa. – Ele diz, sempre o filho penitente.

Sem dúvida, Sebastian sabe que a raiva de sua mãe vem da intensidade do amor que ela sente. Imagine, pensa, preocupar-se que sua família passaria a eternidade separada de você. Imagine acreditar que Deus realmente ama todos os seus filhos, menos quando eles se amam do jeito errado.

Pensar que Deus ama as árvores, seu cérebro parafraseia um livro que ele certa vez lera, mas condena o florescer delas na primavera.

Sebastian dá a volta na ilha no centro da cozinha e aproxima-se da mãe.

– Ela só veio mesmo trazer uma coisa da escola.

– Pensei que o curso já tivesse terminado.

– Eu preciso avaliar um dos manuscritos que o professor Fujita ainda não leu.

Nada disso é exatamente mentira.

– Mas você não voltou a vê-lo? Nem a conversar com ele?

– Faz semanas que não falo com ele.

Essa parte também é verdade. Sebastian vem se mantendo longe do colégio, longe de todos os lugares onde os dois iam juntos. Não fez mais trilha. Quer continuar trabalhando como tutor, mas sabe que as tentações são excessivamente fortes; seria fácil demais voltar à casa de Tanner ou esperá-lo na saída da aula.

Ele sequer tem as antigas mensagens de voz para ouvir. Deletou todas minutos antes de seu pai lhe confiscar o celular.

– Que bom. – Ela diz, visivelmente mais calma. Desliga o mixer e começa a raspar a lateral do pote e a espalhar a massa nas forminhas. – Você deve ao senhor Fujita por tudo o que ele fez por você, então pode ler esses livros para ele, se sobrar tempo. Mas você tem um encontro com o Irmão Young e precisa fazer a última entrevista. – Sua mãe fica sempre mais feliz quando tem uma lista de coisas para delegar e organizar, então Sebastian a deixa agir como ela prefere, mesmo que só fale assim com ele. – Termine as suas obrigações e, por favor, vamos deixar aquilo para trás.

Juntos, Irmão Young e Sebastian se ajoelham no chão e oram para que ele seja forte, para que possa se tornar outra vez um exemplo quando sair pelo mundo, para que ainda consiga tirar alguma coisa boa de tudo aquilo.

Sebastian percebe que Irmão Young se sente melhor quando os dois se

levantam. Percebe que ele está com o semblante de um homem que fez algo significativo naquele dia. Ele abraça Sebastian, diz que está disponível para ouvir, afirma sentir orgulho dele. Fala com a clareza definitiva de um homem muito mais velho, embora tenha só 22 anos.

Para dizer a verdade, quando o Élder vai embora, Sebastian se sente pior. Orar é um reflexo, um ritual, parte dele – mas não traz mais a promessa de alívio que no passado trazia. O jantar é servido, mas Sebastian não sente fome. Nos últimos tempos, ele só se alimenta porque privar o corpo parece ser mais um pecado e sua carga de pecados já parece pesada demais.

Em seu quarto, o notebook zumbe baixinho na cama. Ele carregou a bateria assim que se viu sozinho – quase uma hora atrás – e agora, lentamente, vê a carga diminuir. Esse comportamento já está se tornando um ritual calmante: a luz na tela se torna mais fraca quando o computador entra em modo de descanso, e Sebastian desliza o dedo pelo trackpad para acendê-la outra vez.

Há uma nova pasta chamada MINHA VERSÃO DE VOCÊ na área de trabalho e, ali, está o arquivo que ele tem interesse em ler, mas que não consegue abrir. Em parte, é a dor da ansiedade que Sebastian sabe que só vai piorar assim que começar a ler. Além disso, há algo fascinante na organização das notas que Tanner tomou durante o Seminário. A pasta tem várias versões do documento, todas claramente nomeadas, com datas. Tanner também guardava fotos de Sebastian, igualmente organizadas.

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Mas aí está o segredo. Este livro é a chave para entrar na cabeça de Tanner. O

lado mais vaidoso de Sebastian quer invadir esse espaço mais do que já quis qualquer coisa, quer ver cada detalhe excessivamente analisado. Seu lado racional, todavia, sabe que isso não o levará para mais perto do Tanner de verdade do que ele está agora – ou virá a ficar. Vale a pena passar por essa tortura? Não seria melhor simplesmente apagar a pasta, agradecer à Autumn e pedir a ela que entregue uma mensagem verbal ao Tanner? Algo sincero e definitivo, que não possa ser impresso, que não possa deixar rastros.

Sem Sebastian se dar conta, o quarto fica outra vez escuro. Ele desliza o dedo pelo trackpad e aperta os olhos quando a luminosidade se espalha outra vez.

Com a mão trêmula, clica no ícone e a tela é tomada por palavras.

 

A história começa com um menino e uma menina, um desafio e migalhas de biscoito espalhadas pela cama.

Mas tudo começa de verdade com um olhar mais demorado e as palavras: “O