Minha Versão de Você
Capítulo Onze
Talvez esse tipo de conversa durante o jantar – exceto a questão do sexo oral –
aconteça a portas fechadas, quando não há ninguém diferente por aqui, mas acho que não. Embora meus pais possam fazer um esforço considerável para entender Sebastian e sua família, francamente, não fico surpreso por ninguém perguntar por que minha mãe abandonou a igreja ou meu pai não vai mais à sinagoga.
Essas conversas são difíceis, e eu sou apenas uma ovelha perdida passando pelo rebanho obediente formado por essas pessoas à minha volta aqui. E só sou uma visita temporária, na cabeça deles. Aqui é a casa do bispo. Felizes, felizes, alegres, alegres, lembra? Todos exibem seu melhor comportamento e ninguém vai fazer perguntas nem nada para eu me sentir desconfortável. Esse tipo de comportamento seria visto como falta de educação. E, pela minha experiência, posso afirmar que os mórmons são sempre educados. Isto aqui é o que Sebastian é.
Meus pais estão me esperando quando chego em casa; à sua frente, xícaras de chá que já esfriaram; em seus rostos, sorrisos cheios de expectativa.
É claro que, quando saí de casa, não tive como mentir sobre o motivo de não jantar com eles naquela noite. O que não significa que sair de casa foi fácil. Os dois ficaram na varanda assistindo enquanto eu tirava o carro da garagem, mas em momento algum disseram nada. Para ser sincero, tive a sensação de que estava roubando alguma coisa.
– E aí? – meu pai pergunta, dando tapinhas no banco ao seu lado no balcão.
O pé do banco raspa no chão e eu tremo. Por algum motivo, acho essa cacofonia hilária porque já estamos passando por um momento terrível – eu, chegando em casa depois de jantar na casa do bispo, por cujo filho estou apaixonado, com meus pais veementemente desaprovando tudo isso – e o barulho apenas parece deixar tudo ainda mais pesado.
Meus pais têm sua própria linguagem secreta; toda uma conversa acontece com apenas uma troca de olhares. Esforço-me para engolir a histeria que borbulha em minha garganta.
– Desculpa. – Digo ao me sentar, descansando as mãos nas coxas. – Então, o jantar...
– O jantar... – minha mãe ecoa.
– Acho que foi bom, acho que sim.
Eles assentem. Querem mais detalhes.
– A família dele é muito legal. – Arregalo os olhos para enfatizar. – Muito, muito legal.
Minha mãe dá uma risadinha nada gentil ao ouvir minhas palavras, mas meu pai parece ser o mais preocupado.
– Mas não foi nada, tipo, um encontro romântico. – Esclareço. – Quero dizer, é óbvio que não. Não foi nada do tipo eu conhecer a família dele. Foi só um jantar.
Minha mãe assente.
– Eles gostam de conhecer os amigos dos filhos, especialmente se não os conhecem da igreja.
Passo alguns segundos encarando-a.
– Foi exatamente isso que Sebastian falou.
– Entenda uma coisa – ela propõe –, todo mundo que eles conhecem é da igreja. Ver seu filho, especialmente, se você é o bispo da cidade, por aí com alguém que não seja mórmon... Bem, eles querem ter certeza de que essa pessoa não vai trazer problemas.
– O problema é que eu sou um problema. Pelo menos, na cabeça deles.
Percebo que minha mãe não gosta nada dessa resposta, mas acena para que eu continue falando. Então, conto como foi a noite e que os pais de Sebastian se conheceram no ensino médio. Conto minhas gafes ao falar da tia Emily e do passado de minha mãe. Ela repuxa o nariz, pois sente que esses assuntos simplesmente não deveriam ser gafes. Conto que conversamos outra vez sobre a missão dele, mas apenas rapidamente. Meus pais ouvem atentamente tudo o que digo.
De todo modo, posso ver a preocupação traçando linhas em seus rostos. Estão sinceramente preocupados com a questão de eu poder me apaixonar por Sebastian, de tudo isso terminar em frustração para um de nós. Ou para os dois.
– Então... você gostou deles? – meu pai pergunta, ignorando o jeito como minha mãe o encara, como se ele fosse um traidor.
– Sim. Bem, eu não senti como se estivesse com a minha turma ali, mas foram gentis comigo.
Agora é a vez de meu pai fechar a cara. Para eles, família é tudo, mas em especial para o meu pai, porque, obviamente, meus avós maternos não interagem com a gente. Mesmo assim, a presença da família do meu pai mais do que recompensa essa ausência. Sua mãe mora com a gente três meses por ano desde que eu era recém-nascido. Depois que meu avô morreu, seis anos atrás, ela não gosta de ficar sozinha em casa, e meu pai fica mais feliz quando ela está aqui, debaixo da asa dele. Depois de passar esse tempo com a gente, ela fica com o irmão e as irmãs de meu pai em Berkeley e Connecticut, respectivamente.
Se eu pudesse fazer Bubbe passar o ano todo aqui, certamente faria. Ela é incrível, e sagaz, e traz um conforto para a casa que não conseguimos ter quando somos só nós quatro. Meus pais são ótimos – não me entenda mal –, mas Bubbe faz as coisas de alguma forma parecerem mais calorosas e, ao longo das duas décadas de casamento dos meus pais ela e minha mãe se tornaram muito próximas. Meu pai quer que tenhamos esse tipo de relação quando ele for mais velho, e que tenhamos também esse tipo de relação com os parentes daqueles com quem escolhermos dividir nossas vidas. Para ser sincero, o fato de minha mãe não conversar com seus pais, provavelmente, o incomoda mais do que incomoda ela própria.
Posso ver esses pensamentos estampados no rosto de meu pai enquanto falo, então estendo a mão e dou tapinhas em seu ombro.
– Você parece estressado, pai.
– Acho que nunca o vi tão... envolvido com alguém antes. – Ele fala com todo o cuidado. – A gente fica preocupado por essa não ser a primeira escolha ideal.
Seu olhar se afasta, fixando-se na janela.
Respirando fundo, tento pensar na melhor coisa a dizer. Mesmo que o que ele diga seja a verdade, essa verdade é como um adesivo na superfície das minhas emoções e posso facilmente arrancá-la. Sei que Sebastian não é a opção certa para mim. Sei que é muito provável que eu saia ferido de tudo isso. Mas simplesmente me importa mais tentar do que me proteger.
Então, digo ao meu pai o que acho que ele quer ouvir:
– É só uma paixão, pai. Ele é um cara legal, mas tenho certeza de que vai passar.
Por um segundo, ele se permite acreditar em minhas palavras. Minha mãe também fica em silêncio. Porém, ao me dar um abraço de boa noite, ele me segura bem apertado por três respirações profundas.
– Boa noite, pessoal – digo, correndo para o andar de cima, a caminho do meu quarto.
Ainda são só 8 horas de uma noite de sexta-feira e sei que vou passar algumas horas sem sentir o menor sono. Autumn envia uma mensagem dizendo que vai à casa do Eric. Fico aliviado por não precisar me sentir culpado por furar mais uma vez com ela e envio uma linha inteira de emojis de berinjelas, ao que ela responde com uma linha inteira de mãos com o dedo do meio erguido.
E ali me pergunto se Sebastian atualizou seus emojis e como se sentiria recebendo esse gesto tão explícito em seu celular. Se já percebeu que recebeu, se já usou esses emojis.
Tudo, tudo sempre volta a ele.
Minha mãe saiu para correr, meu pai está trabalhando no hospital e Hailey, andando com passos pesados pela casa, reclamando que ninguém mais lava as roupas nas manhãs de sábado.
Explicito que ela tem duas mãozinhas para fazer isso.
Ela me dá um soco no peito.
Prendo sua cabeça em meu braço e ela grita que sou um assassino sanguinário, tentando arranhar meu rosto. E berra:
– Eu te odeio!
Berra alto o suficiente para fazer as paredes tremerem.
A campainha toca.
– Belo trabalho, idiota – ela ironiza, afastando-se de mim. – Os vizinhos
chamaram a polícia.
Estendo a mão para abrir a porta enquanto mantenho um sorriso que diz que a culpa é dela.
Meu mundo para.
Eu desconhecia o significado de “exultação”, até procurar essa palavra no dicionário, no ano passado. Sempre pensei que fosse algo como “exaltado”, mas é mais como “alegria”, “júbilo”, ou seja, exatamente o que sinto ao me deparar com Sebastian, parado, na varanda da minha casa.
– Mas o que é…? – Meu sorriso de surpresa se espalha por todo o espaço possível, de leste a oeste.
– Oi.
Ele ergue a mão para coçar atrás da cabeça e seu bíceps salta, bronzeado e malhado.
Eu derreto.
– Desculpa. – Dou um passo para trás, sinalizando para que ele entre. – Você chegou enquanto um assassinato acontecia.
Sebastian ri e dá um passo para a frente.
– Eu ia dizer que... – Pisca para o que há atrás de mim e sorri. Suponho que Hailey esteja parada ali, lançando olhares fulminantes na direção das minhas costas. – Oi, Hailey.
– Oi. Quem é você?
Quero enfiá-la na parede por ser tão grosseira, mas resisto, porque essa pergunta sem noção que ela acaba de fazer dá a entender que não fico falando constantemente dele.
– Esse é o Sebastian.
– Ah, você estava certo. Ele é mesmo lindo.
Pronto, já era. Agora quero mesmo enfiá-la na parede.
Com uma risadinha sem graça, Sebastian estende o braço para oferecer um aperto de mão à minha irmã. Para meu horror, ela o encara por um instante antes de aceitar o cumprimento. Quando minha irmã olha para mim, arqueio a sobrancelha em um gesto que diz: “vou terminar de te matar mais tarde”. Se meu pai ou minha mãe estivesse aqui, ela seria cheia de boas maneiras. Como só eu estou em casa, age como uma total sem noção.
– Quer subir? – convido-o.
Ele olha para Hailey, que já atravessou o corredor a caminho da lavanderia, e assente.
– Onde estão os seus pais?
– Minha mãe foi correr. Meu pai está trabalhando.
Acho que ele entendeu o subtexto aqui. O ar entre nós parece estalar.
A escada range com nossos passos e estou superconsciente de que Sebastian vem atrás de mim. Meu quarto é o último no final do corredor, então vamos até lá em silêncio. Meu sangue parece borbulhar na superfície da pele.
Estamos indo ao meu quarto.
Ele vai ficar no meu quarto.
Sebastian entra, olha em volta e parece não notar quando discretamente fecho a porta ao passar – desrespeitando a regra da porta aberta estabelecida por meus pais. Mas hello: pode ser que rolem beijos aqui, e Hailey está com seu humor bestial. A porta vai ficar F-E-C-H-A-D-A.
– Então, este é o seu quarto? – Ele constata, analisando tudo.
– É.
Acompanho seu olhar, tentando entender o que está achando. Há muitos livros aqui (nenhum religioso), alguns troféus (a maioria de competições acadêmicas) e algumas fotografias aqui e ali (não estou segurando a Bíblia em nenhuma delas).
Pela primeira vez, agradeço por meu pai ter me forçado a arrumar o quarto. A cama está feita e as roupas para lavar, contidas no cesto. Minha escrivaninha encontra-se vazia, com exceção do laptop e...
Ah, merda!
Sebastian olha para a escrivaninha e aponta para um bloco de post-its. Agora é tarde demais para eu dizer qualquer coisa. Sei o que está escrito no primeiro papel do bloco.
A GENTE SE DEIXA
ASSIM ACABA COM ESSE BECO SEM SAÍDA.
IMAGINO QUE, AONDE ELE FOR, HÁ UM JANTAR DISCRETO
SEGREDOS COLADOS COMO CHICLETE EMBAIXO DA MESA
ELE IMAGINA QUE AONDE EU VOU SEJA BEM DIFERENTE.
NA
MELHOR
DAS
HIPÓTESES:
RISADAS
ESCANDALOSAS,
LIBERDADE LEVIANA
NA PIOR DAS HIPÓTESES: XINGAMENTOS, PECADOS.
PODE SER QUE ME DEEM GOLES DE VINHO.
MAS, MESMO SE ELE PENSAR ASSIM,
NÃO ESTÁ ME JULGANDO.
ESPERO QUE UM DIA ME AME.
BOA NOITE, ELE DIZ.
QUERO BEIJÁ-LO, E BEIJÁ-LO, E BEIJÁ-LO.
– O que é isso?
– Hum. – Aproximo-me, puxo o post-it para ler como se não lembrasse o que
está escrito ali. Na verdade, eu sei cada palavra; escrevi ainda ontem à noite. –
Ah, não é nada.
Conto até cinco, e até cinco, e até cinco outra vez. Durante todo esse tempo, estamos, nós dois, olhando para o post-it azul em minha mão.
Ele finalmente pega o papel de volta.
– É sobre mim?
Confirmo com a cabeça, sem olhar para ele. Dentro do peito, sinto passos pesados e animais rugindo.
Sua mão encosta em meu braço, desliza do punho ao cotovelo, puxando tão docemente para que eu olhe para ele.
– Eu gostei – sussurra –, mas não é do livro novo, né?
Nego com um gesto. Mentira número dois.
– Tem mais?
Confirmo com outro gesto.
– Use palavras, Tanner – pede, rindo.
– Tem mais, mas eu... hum... estou escrevendo outra coisa agora.
Ele assente.
– Sobre o que é o novo texto?
Olho para a janela e consigo improvisar:
– A mesma ideia, mas ele não se apaixona pelo filho do bispo.
Vejo a palavra “apaixona” envolvê-lo. Sua boca se repuxa.
– Então, você vai me deixar ler?
– Sim. Quando eu tiver material suficiente para ler.
A implicação dessas palavras me deixa desconfortável, mas sei que, em algum momento, terei de parar de escrever sobre Sebastian e escrever sobre outra coisa, para que ele e Fujita leiam. O mais estranho disso tudo? Não quero parar de escrever sobre Sebastian. É quase como se eu precisasse continuar escrevendo para descobrir como a história termina.
Ele solta meu braço e vai até a cama, onde se senta. Meu coração lança combustível por todos os lugares; é como se uma prova de Fórmula 1 estivesse acontecendo em minhas veias.
– Eu recebi as minhas cópias hoje, cortesia para o autor. Também quero que leia o meu livro – conta, deslizando o dedo sobre um prego da cama –, mas tenho medo de você achar horrível.
– Eu tenho medo de achar incrível e ficar ainda mais obcecado do que já estou por você.
Ainda bem que ele dá risada, como eu esperava que acontecesse.
– Eu estou tenso.
– Com o lançamento do livro?
Ele confirma.
– Você está escrevendo outro? – quero saber.
Mais uma confirmação.
– É um contrato de três volumes. E estou adorando. Parece que estou fazendo o que nasci para fazer. – Ele me encara e a luz que passa pela janela reflete em seus olhos de um jeito quase divino. – Depois daquele dia na montanha... –
prossegue, assentindo para mim em busca de uma confirmação, como se eu de alguma forma pudesse não saber do que está falando – eu fui para casa e...
Se masturbou?
– Teve um ataque?
Ele dá risada.
– Não. Eu orei.
– Para mim, isso é bem parecido com ter um ataque.
Sebastian acena uma negação.
– Não. Orar me acalma. – Ele olha para a parede, onde tenho um quadro da Golden Gate Bridge, uma foto que meu pai tirou anos antes de nos mudarmos. –
Eu não senti culpa pelo que fizemos. – Confessa, agora com a voz mais baixa. –
O que é inesperado.
Não tinha me dado conta do quanto precisava que ele dissesse isso até ele enfim dizer. Sinto-me como uma boia lentamente esvaziando-se no sol.
– Culpa é um sinal de que estou fazendo algo errado – prossegue. – E, quando me sinto em paz, sei que Deus aprova o que estou fazendo.
Chego a abrir a boca para responder, mas, no fim das contas, não tenho a menor ideia do que dizer. Ele continua falando:
– Às vezes, eu me pergunto se é Deus ou a igreja que tem essas opiniões tão fortes a respeito dessas coisas.
– Quer a minha opinião? – proponho com todo o cuidado. – Um Deus digno do seu amor eterno não o julgaria com base em quem você ama enquanto está aqui.
Ele assente para minhas palavras por alguns segundos antes de finalmente lançar um sorriso tímido para mim.
– Venha cá – pede, e é a primeira vez que o vejo com um sorriso inseguro.
Ajeito-me ao seu lado na cama, e agora não apenas consigo sentir, mas também ver o quanto está tremendo. Prendo as mãos entre os joelhos para evitar que elas se soltem no colchão.
Tenho mais ou menos 1,90 metro de altura. Sebastian deve ter mais ou menos 1,80, mas, neste momento, a calma que ele emana parece pairar sobre mim como a sombra do enorme salgueiro que temos no fundo de casa. Ele se mexe, apoia a mão direita em meu quadril enquanto a mão esquerda vem na direção do meu
peito, pressionando suavemente, até eu perceber que ele quer que eu me deite.
Perco todo o controle voluntário dos meus músculos e, essencialmente, caio no colchão. E ele está em cima de mim, olhando para baixo.
Percebo que cortou os cabelos hoje cedo. As laterais estão raspadas bem perto do couro cabeludo, o topo é suave e macio. Seus olhos dançam, brilham, me encaram, e sou possuído pelo calor e preciso sentir, e sentir, e sentir.
– Obrigado por ter ido ao jantar ontem à noite – fala, e seu olhar faz um circuito completo por meu rosto.
Passa pela testa, desce pelas bochechas, paira na região da boca.
– Sua família é legal.
– Sim.
– Mas eles devem ter me achado um lunático, não?
Ele sorri.
– Só um pouquinho.
– Você cortou os cabelos.
Seus olhos perdem o foco, tentam se concentrar em minha boca.
– Cortei.
Mordisco o lábio, querendo rugir por causa de como ele me olha.
– Eu gostei. Muito.
– Ah, é? Que bom!
Deus, já basta de conversa fiada. Puxo-o para perto, levo a mão à sua nuca, e ele desce imediatamente, boca sobre a minha, peso parcialmente sobre mim, respiração saindo de seus lábios em golpes de alívio. Começa muito devagar, um beijo tranquilo, aliviado. Primeiro, em meio a sorrisos constrangidos, depois com a confiança de que isso – nós – é tão bom que chega a arder.
E, aí, os movimentos vão ganhando força, como um avião ao de-colar, e somos tomados ao mesmo tempo por uma coisa selvagem e mais desesperada.
Não quero pensar que estejamos com essa fome, porque o que há entre nós é algo que não vai longe. Não quero precipitar as coisas. Prefiro pensar que estamos famintos assim porque sentimos algo mais profundo. Algo como...
amor.
Seu peito descansa junto ao meu e suas mãos estão em meus cabelos e ele faz uns barulhinhos profundos que lentamente me libertam até a única palavra que consigo pensar, e só pensar nela, é sim.
Tudo parece sim.
A boca dele é sim, e suas mãos são sim, e em cima de mim ele se movimenta e sim, sim, sim.
Deslizo as mãos por suas costas e debaixo da camisa, pela pele aquecida de seu torso. Sim. Não tenho tempo de apreciar o fato de ter descoberto a resposta à
minha pergunta sobre sua roupa íntima, porque logo está sem camisa, e eu estou sem camisa e pele com pele é...
S
I
M
E eu nunca estive assim, embaixo de alguém, nunca envolvi a cintura de alguém com minhas pernas, nunca senti esse tipo de transformação e fricção, e ele me diz que pensa em mim a cada segundo.
Sim.
E me diz que nunca sentiu isso por ninguém, que gosta de chupar meus lábios, que quer parar o tempo para podermos nos beijar por horas.
Sim.
E eu digo a ele a verdade, que nada nunca foi tão bom assim, e ele ri dentro da minha boca, porque tenho certeza que ficou claro o quão envolvido estou. Sou um monstro debaixo dele, com o quadril arqueando, as mãos de um polvo em todos os lugares ao mesmo tempo. Não acho que nada na história da humanidade tenha sido tão gostoso.
– Eu quero conhecer tudo de você – confessa para mim, agora frenético, sua boca deslizando por meu maxilar, a barba por fazer se esfregando em meu pescoço.
– Conto qualquer coisa que você quiser.
– Você é meu namorado? – pergunta, depois chupa meu lábio inferior antes de rir para si mesmo, como se isso não fosse a coisa mais incrível que alguém já me disse em toda a história da minha vida.
– Hum, sim.
Namorados. Sim.
– Mesmo sendo seu namorado agora, não vou contar isso para ninguém –
sussurro.
– Eu sei.
Sua mão vem na minha direção, entre nós – ah, meu Deus – e, ao deslizarem por minha calça de moletom, fazem tudo isso parecer ao mesmo tempo tão inocente e tão sacana. Mas a sensação de sacanagem se desfaz quando ergo o olhar e percebo que ele está todo entregue, estudando meu rosto.
E eu entendo. Também nunca fiz isso.
Em transe, também levo a mão mais para baixo. Seus olhos viram antes de se fecharem.
Não parece de verdade. Como isso pode ser real?
Ele empurra a cintura para a frente uma vez, e mais uma, e isso é a coisa mais incrível que já fiz...
Sequer ouço os passos e a porta, antes de ouvir meu pai exclamando todo envergonhado:
– Ai!
E a porta batendo.
Sebastian salta para longe de mim, vira-se para olhar para a parede, suas mãos cobrindo o rosto. No eco desse silêncio, não sei o que acabou de acontecer.
Quero dizer, sei o que aconteceu, porque aconteceu tão rápido, tão rápido, que acho que posso fingir que ele e eu simplesmente tivemos a mesma alucinação.
Isso é ruim de tantas formas. Agora, não posso mais fingir que somos apenas amigos para os adultos lá embaixo. Agora que fizemos isso, vou ouvir um sermão do meu pai e um sermão da minha mãe.
Mas, sem dúvida, a conjuntura toda é muito mais humilhante para Sebastian.
– Ei – digo.
– Que situação! – Ele sussurra.
Não tira as mãos do rosto e não se vira para mim. Suas costas estão nuas, um mapa de músculos. Afogo-me em reações opostas: contente por agora ter um namorado lindo e aterrorizado por aquele momento que estragou tudo.
– Ei – repito –, ele não vai ligar para os seus pais.
– Que situação!
– Fique tranquilo e venha aqui comigo, está bem?
Virando-se lentamente, ele se aproxima, baixando-se na direção da cama sem olhar para mim e bufa:
– Seu pai deu um flagra na gente.
Preciso de um instante para pensar na melhor resposta.
– Sim, mas ele deve estar com mais vergonha do que a gente.
– Duvido.
Eu sabia que ele não aceitaria essa linha de raciocínio, mas valeu tentar.
– Olhe para mim.
Cerca de dez segundos depois, ele olha. Percebo que seu rosto se suaviza, noto o alivio que me faz querer me levantar e bater no peito.
– Está tudo bem. – Sussurro. – Ele não vai contar para ninguém.
Provavelmente só vai querer conversar comigo mais tarde.
Quero dizer, sem a menor dúvida ele vai vir falar comigo mais tarde.
Expirando como se sentisse derrotado, Sebastian fecha os olhos.
– Está bem.
Inclino o corpo em sua direção, e acho que ele sente a minha proximidade mesmo sem abrir os olhos, porque sua boca se repuxa em um sorriso resguardado. Encosto minha boca à sua, ofereço meu lábio inferior, aquele que ele gosta de chupar, e espero sua resposta. Pouco a pouco ele responde. Não é
nada nem próximo do calor de antes, mas é sincero.
Sebastian se afasta, levanta-se e vai pegar sua camisa.
– Vou para casa.
– Eu vou ficar bem aqui.
Ele tenta esconder outro sorriso, que lhe surge como fruto das implicações de tudo o que aconteceu, e, aí, vejo seu rosto voltar a se transformar naquela máscara. A testa relaxa e uma luz vibrante brota em seus olhos. O sorriso tranquilo do qual estou aprendendo a desconfiar se espalha em seu rosto.
– Me acompanha até a porta?
Depois que Sebastian vai embora, meu pai só precisa de quinze minutos para aparecer no meu quarto. Bate à porta com cuidado, quase como se pedisse desculpa.
– Entre.
Ele faz justamente isso, então fecha a porta com cuidado.
Não sei se devo sentir raiva ou remorso, e essa combinação faz arrepios percorrerem a minha pele.
Meu pai se senta na cadeira da escrivaninha.
– Primeiro, queria pedir desculpas por não ter batido à porta mais cedo.
Ajeito o livro que estou lendo aberto sobre o peito, olho para ele de onde estou, deitado na cama.
– Concordo.
– E não sei o que dizer além disso. – Coça o maxilar e repensa. – Não, não é exatamente verdade. Sei o que quero dizer, mas não sei por onde começar.
Sento-me na cama e me viro para ele.
– Entendi.
– Sei o que sente por Sebastian e tenho certeza de que é recíproco.
– É...
– Também sei que sente de coração, e não porque estar curioso ou por querer se rebelar.
Como posso responder a isso? Faço uma afirmação com a cabeça, ciente de que meu semblante deixa clara a minha confusão.
– A Autumn sabe?
Confuso, pisco os olhos.
– Auddy?
– Sim, a sua melhor amiga.
– Eu não me assumi para Autumn, pai. Não me assumi para ninguém, lembra?
Como a mãe quer.
– Veja bem... – ele responde, apoiando a mão em meu joelho. – Tem duas outras coisas que quero dizer. Vou começar com a mais fácil. É tentador, quando a gente se apaixona, ignorar tudo o que existe no mundo.
– Eu não estou ignorando a Aud...
– Ainda não terminei. – Ele me interrompe com uma voz ligeiramente severa.
– Preciso que me prometa que vai dar atenção também aos seus outros relacionamentos. Que vai passar algum tempo com a Autumn, o Eric e o Manny.
Que continuará sendo um exemplo para Hailey. Que continuará sendo o filho atencioso e participativo com a sua mãe.
Confirmo com um gesto.
– Eu prometo.
– Estou dizendo isso porque é importante que você mantenha uma vida plena, independentemente de quão profundo e intenso seu relacionamento com Sebastian possa se tornar. Isso independe da religião dele. Se a relação continuar, e de algum jeito der certo, você vai querer ter amigos que o aceitam e apoiam. E, se por algum motivo não der certo, você terá pessoas ao seu lado.
Olho para o chão, sentindo uma reação estranha e conflitante dentro de mim.
Ele está certo. O que diz faz sentido. Mas detesto as implicações de não ter me dado conta disso eu mesmo.
– A outra coisa que quero falar... – meu pai prossegue, coçando o maxilar e desviando o olhar. – Bem, eu não tenho o mesmo histórico da sua mãe com a igreja, então minha relação com seu relacionamento é drasticamente diferente da visão dela. – Ele me olha outra vez nos olhos. – Mas, tendo dito isso, não acho que sua mãe esteja errada. Não concordo necessariamente com os motivos que a levam a alertá-lo, mas concordo que a situação é complicada. Imagino que os pais dele não aprovariam, certo?
– Acho que iriam muito além de desaprovar.
Meu pai já está assentindo para as minhas palavras.
– Portanto, sempre que você e Sebastian ficam, estão agindo pelas costas dos pais dele.
– Sim.
– Não gosto nada, nada dessa ideia. – Admite baixinho. – Quero acreditar que, se a situação fosse inversa, você se abriria com a gente e não contrariaria nossas vontades enquanto vive aqui com a gente.
– A diferença, pai, é que eu posso me abrir com vocês.
– O que quero dizer, Tann, é que você já tem 18 anos, então, o que faz com seu corpo é uma escolha sua. Mas o que você faz dentro da minha casa ainda é algo que posso controlar.
Ah.
– Amo você, sua irmã e sua mãe mais do que tudo neste planeta, você sabe disso.
– Sim, eu sei.
– E sei que você gosta de meninas e meninos. Sei que vai experimentar e nunca, nem por um segundo, fui contrário a isso. – Meu pai me olha nos olhos. –
A complicação aqui não é Sebastian ser homem. Se eu tivesse flagrado você com alguém de fora da igreja, provavelmente nem diria nada, e apenas trocaríamos um olhar na mesa do jantar e tudo estaria dito ali.
Minha vontade de me curvar em posição fetal e me esconder em uma caverna só cresce. Essa conversa é tão constrangedora.
– Mas não quero que você e Sebastian usem a nossa casa para fazer nada pelas costas dos pais dele.
– Pai – digo, sentindo meu rosto ferver –, nós não temos muitas outras opções.
– Sebastian já é adulto. Ele pode se mudar para sua própria casa, onde viverá segundo suas próprias regras.
Isso é essencialmente meu pai fechando as portas para qualquer argumentação. Sei que sua opinião vem da experiência. E, sentado aqui, olhando para o rosto que conheço quase tão bem quanto o meu próprio, posso perceber como é difícil meu pai dizer isso para mim.