Minha Versão de Você
Capítulo Dezenove
– Deus, que deprimente.
– É muito ruim eu sentir um pouco de pena dele? – Ela arrisca. – Quero dizer, sei que está doendo e parece que as coisas nunca mais vão ficar bem, mas elas vão ficar. Um dia. Um dia, você vai acordar e vai doer menos, e depois doer menos, até algum menino ou menina aparecer sorrindo para você e o deixar todo bobo outra vez.
Isso de fato soa impossível.
– Meu livro inteiro é sobre Sebastian. – Admito a ela. – Ele ia me ajudar a editar, a se excluir da história, criar algo novo. Nunca enviei o manuscrito para ele. Agora, não tenho mais essa possibilidade e, para ser muito sincero, não tenho ideia do que fazer.
Não demoro a descobrir que só porque as coisas parecem ter voltado ao normal depois de uma conversa como a que tive com Auddy não significa que elas realmente estejam normais.
Seja lá o que “normal” significar a essa altura.
Autumn volta a frequentar o colégio na quarta-feira, mas existe um peso entre nós que parece se tornar maior. Saímos do carro e ela faz uma piada ao apontar para meu zíper aberto, então nós dois nos transformamos em robôs desajeitados enquanto eu levo a mão até ali e o fecho. Lanço meus braços em volta dela enquanto descemos o corredor e ela enrijece o corpo antes de relaxá-lo juto ao meu, e é tão forçado que só consigo ter vontade de rir. Uma olhada em seu rosto
– ansioso, esperançoso, impaciente por fazer tudo ficar bem – e tento puxá-la em um abraço de urso, mas acabamos colidindo com alguns alunos atravessando o corredor. Vamos levar algum tempo para conseguirmos voltar a ficar tranquilos no mesmo espaço físico. Eu me pergunto se seria porque, depois do caos do pedido mútuo de desculpas, caiu a ficha de que a gente transou. Esse é o tipo de coisa que normalmente dissecaríamos juntos. Fosse qualquer outra pessoa, eu reclamaria que tudo mudou entre nós, mas aqui você já entendeu que o problema é outro.
Tampouco, posso conversar com meus pais sobre esse assunto porque, independentemente de quanto eles me amem, mostrar que fiz algo assim mudaria sua forma de me ver. Sei que mudaria. Eles só sabem que Sebastian terminou comigo e que sou um caso perdido.
Os adesivos de carro da minha mãe agora aparecem incessantemente. Nos últimos três dias, recebi em minha fronha mensagens de Morgan Freeman, Ellen DeGeneres e Tennessee Williams. Por mais que eu a provoque, não posso negar que essa sua atitude ajude. Deixo escapar uma longa respiração quando entro em casa. Nunca vou evitar os abraços de minha mãe. Nem sempre temos que verbalizar as coisas para ela saber o que estou sentindo.
A formatura está cada vez mais próxima, o que é bom e terrível – mal vejo a hora de dar o fora desse lugar, mas me formar é sinônimo de entregar esse livro e, a essa altura, minha única estratégia é oferecer ao Fujita as primeiras vinte páginas, alegar que o resto é pessoal demais para entregar e pedir que ele entenda a minha situação.
Também se soma a esse terrível desconforto: Auddy e eu fomos idiotas e não
nos candidatamos a vagas nas mesmas escolas. Então, enquanto eu fui aceito na UCLA, Universidade de Washington, Tufts e Tulane, Autumn foi aceita na Universidade de Utah, Yale, Rice, Northwestern e Universidade de Oregon. Ela vai estudar em Yale. Eu, na UCLA.
Repito essa frase várias vezes.
Autumn vai estudar em Yale, eu vou estudar na UCLA.
Não poderíamos ter escolhido viver em duas cidades mais distantes uma da outra. Ainda faltam alguns meses e já receio a dor da despedida. Ela cava um poço fundo dentro de mim, é como se eu perdesse mais do que apenas uma âncora geográfica. Sinto que vou deixar para trás toda uma era. Parece bobagem? Provável que sim. Todos parecem animados com o fim do ensino médio. E, aí, nossos pais nos ouvem e dão risada, como se ainda fôssemos jovens demais e não soubéssemos nada da vida.
O que provavelmente é verdade. Embora eu saiba de algumas coisas.
Sei, por exemplo, que meus sentimentos por Sebastian parecem não se tornar menos intensos durantes as duas semanas seguintes. Sei que o livro que estou escrevendo mais parece um inimigo, uma obrigação. Não tem núcleo e não tem fim. Agora percebo que o que num primeiro momento pensei ser uma tarefa fácil
– escrever um livro – é realmente fácil. Racionalmente falando. Qualquer pessoa pode começar a escrever um livro. Terminar é que é impossível.
Autumn sugere que eu troque nomes e lugares, mas explico que isso não funcionou muito bem em uma tentativa anterior. Tanenr é a prova do que estou dizendo. Ela rapidamente oferece uma sugestão: eu posso reescrever a história, ela pode reescrever a história ou então podemos trabalhar juntos. Auddy pensa que existem um milhão de maneiras de fazer a história funcionar sem expor Sebastian. Eu não tenho tanta certeza.
Olhando para trás, esse livro é tão básico que chega a ser constrangedor. É só a história de um menino, a autobiografia mais idiota de todos os tempos, um texto sobre apaixonar-se. O amor dá errado por um milhão de motivos –
distância, infidelidade, orgulho, religião, dinheiro, doenças. Por que essa história teria qualquer diferencial?
Eu senti que era especial. Para mim, ela pareceu importante. Viver nesta cidade é sufocante de muitas maneiras.
Mas, se uma árvore cai na floresta, talvez, ela não faça barulho.
E, se um garoto tem uma paixão pelo filho não assumido do bispo, talvez isso não faça uma história.
Sebastian só participou da nossa aula uma vez nas últimas duas semanas.
Fujita nos informa que ele achou melhor tirar alguns dias para estudar para suas provas na faculdade, mas que virá nos ver antes de entregarmos os trabalhos.
Na última vez em que Sebastian esteve na aula, sentou-se lá na frente e ficou o tempo todo de cabeça baixa, trabalhando nos últimos capítulos de Sabine e Levi.
Seus cabelos caíam sobre os olhos e ele inconsciente os afastava. Sua camisa alongava-se em suas costas, fazendo-me lembrar de quando o vi sem ela, de quando vi aquele mapa do tesouro de músculos e ossos. Quero dizer, fico pensando nisso, em como posso estar sentado aqui e ninguém estar nem encostando em mim e, ainda assim, sentir que dói. Meu peito, meus membros, minha garganta – tudo dói.
Durante todo o tempo, Autumn permanece sentada ao meu lado, sua espinha curvada com culpa. Ela tenta ouvir o que Fujita nos diz sobre revisão de texto.
Toda vez que olha para Sebastian, desliza o olhar outra vez para mim. E eu vejo a pergunta em seus olhos: você contou para ele? Mas ela sabe a resposta. Para contar tudo ao Sebastian, eu teria que conseguir conversar com ele. Não trocamos mensagens de texto, nem e-mails, nem notas disfarçadas de páginas de livro. Não vou mentir: essa situação está me matando aos poucos.
Vi um filme quando era criança, algum conteúdo que provavelmente era adulto demais para mim naquela época, mas uma cena me marcou tão intensamente que, às vezes, ela brota em meus pensamentos e me faz tremer: uma mulher atravessa a rua com seu filho, que acaba correndo e sendo atropelado por um carro. Nem sei o que acontece depois no enredo, mas a mãe começa a gritar, tenta andar para trás e desfazer o que acabou de acontecer. Ela está tão frenética, tão atormentada que, por um instante, sua mente se divide e ela acha que é capaz de desfazer tudo.
Não estou comparando o fim do meu relacionamento com a morte de uma criança – não sou tão melodramático assim –, mas essa sensação de desamparo, de ser totalmente incapaz de mudar seu destino, é tão confusa que, às vezes, do nada, sinto náusea. Não há nada que eu possa fazer para consertar o que aconteceu.
Não há nada que eu possa fazer para tê-lo de volta.
Contei aos meus pais que tudo deu errado e, por mais que eles tentem me animar, por mais que Auddy e eu trabalhemos para tentar retomar aquele conforto tranquilo que tínhamos antes, há uma nuvem que me segue por onde quer que eu vá. Não sinto fome. Ando dormindo muito. Não dou a mínima para esse livro idiota.
Três semanas depois de terminarmos e oito dias antes do prazo da entrega do livro, chego em casa e me deparo com Sebastian, sentado, nos degraus da varanda.
Não sinto nenhum orgulho em admitir, mas imediatamente começo a chorar.
Não que eu tenha tido um ataque e me jogado na calçada, mas o fundo da minha garganta se aperta e a ardência se espalha na superfície de meus olhos. Talvez, eu esteja chorando porque sinta medo de ele ter vindo aqui para causar mais danos, para reativar o que sinto e depois me empurrar outra vez para baixo – em estilo missionário.
Sebastian se levanta, limpa as palmas das mãos nas calças esportivas. Deve ter vindo aqui logo depois do treino.
– Faltei o futebol – anuncia para me cumprimentar.
Está tão nervoso que sua voz chega a tremer.
A minha também.
– Sério?
– Sim – confirma, abrindo aquele tipo de sorriso que repuxa um dos lados da boca, aquele sorriso incerto, que mais parece uma pergunta.
Estamos sorrindo? Isso é bom?
É um tapa na cara perceber que sou o porto seguro dele. Sou eu quem recebe os sorrisos verdadeiros.
Sebastian nunca teve uma Autumn, ou um Paul e Jenna Scott, um Manny, nem mesmo uma Hailey, que o odeia, mas o aceita.
Desisto de lutar e sorrio em resposta. Sebastian se tornou um bom matador de aulas. Deus, como me sinto bem em vê-lo! Andei com tanta saudade que é como se houvesse um animal dentro de mim, um controlador de marionete bestial tentando levar meus braços aos ombros dele e meu rosto ao seu pescoço.
A pergunta paira como uma nuvem acima da minha cabeça:
– O que você está fazendo aqui?
Ele deixa escapar uma leve tosse e analisa a rua. Seus olhos estão inchados e vermelhos e acho que, dessa vez, Sebastian andou chorando.
– Não estou me sentindo tão bem. E não sabia aonde mais podia ir. – Agora ele ri, fechando os olhos bem apertado. – Eu pareço um idiota.
Ele veio me procurar.
– Não é verdade.
Cambaleante, vou na direção dele, até estar próximo o suficiente para poder tocá-lo, se eu assim quisesse.
Na verdade, quero tocar em todo o seu corpo para saber se está bem.
– O que aconteceu?
Sebastian desce o olhar na direção dos nossos pés. Usa uma chuteira de futebol de salão. Adidas, preta com listras laranjas. Eu estou com um par de Vans surrados. Enquanto tenta encontrar sua resposta, eu imagino nossos pés se movimentando em uma dança ou nossos tênis um do lado do outro na entrada de casa.
Meu cérebro é um demônio traidor. Vai imediatamente de “nossa! Sebastian está sentado ali” para “dois meninos felizes e casados”.
– Eu conversei com meus pais – anuncia, e o meu mundo derrapa até parar.
– O quê?!
– Não me assumi – diz baixinho, e é uma revelação tão grande que o simples fato de eu ouvi-lo dizer isso faz meus joelhos quererem ceder –, mas apresentei um cenário hipotético.
Gesticulando de modo a expressar que seria melhor dar a volta na casa e ir ao quintal para termos mais privacidade, viro-me e ele me segue.
Queria ser capaz de descrever o que acontece dentro do meu peito quando sinto sua mão deslizar na minha e passamos pelas treliças de hera na lateral da garagem. Meu sangue está em festa, elétrico; vibra em meus ossos.
– Podemos ficar na sua casa? – ele pergunta.
Olho para nossas mãos, que têm tamanhos tão parecidos.
– Para ser sincero, eu não sei.
A voz de Autumn invade a minha cabeça: Tome cuidado. Empurro essa voz para a frente do meu cérebro, mas em momento algum solto a mão de Sebastian.
Encontramos um lugar debaixo do salgueiro preferido de minha mãe e nos sentamos. A grama continua úmida depois de ser regada, mas acho que nenhum de nós se importa. Alongo as pernas, e ele também, pressionando a extensão de sua coxa junto à minha.
– O que devemos discutir primeiro? – pergunta, olhando para nossas pernas. –
Meu pedido de desculpas ou a minha história?
O pedido de desculpas dele?
– Não sei se meu cérebro está acompanhando.
– Você está bem? Andou bem?
Deixo uma risada seca escapar.
– Com relação a nós? Não. De modo algum.
– Eu também não.
Conto meus batimentos. Um, dois, três, quatro. Um pássaro grasna no céu e o vento faz as folhas se mexerem. Essa árvore sempre me lembrou o Snuffy da Vila Sésamo. Grande e discreto e gentil.
– Quando terminei, não foi por não querer mais ficar com você – explica.
– Eu sei. E acho que isso só tornou tudo ainda pior.
Ele se vira, encosta as duas mãos em meu pescoço, e eu o olho nos olhos.
– Desculpa.
Suas mãos são calorosas e estamos tremendo. Mordo o lábio para não perder o controle. Sebastian se aproxima, cuidadoso, sem, em momento algum, fechar os olhos, nem quando sua boca toca a minha.
Acho que nem o beijo em resposta. Simplesmente fico parado ali, boquiaberto, em choque.
– Também te amo.
Ele me beija outra vez, agora mais demoradamente. E, dessa vez, eu retribuo.
Afasto-me porque, talvez, eu precise raciocinar um pouco, inclino-me e encosto as mãos no rosto. É claro que esse momento está acontecendo exatamente como eu desejei em todas as minhas fantasias. Mas tenho muitas cicatrizes e não sei se consigo removê-las todas enquanto ele permanece ali, sentado, me olhando. Preciso de meia-hora para chegar a uma conclusão sobre como reagir ao que ele falou de um jeito um pouco mais comedido do que puxá-lo em cima de mim no gramado.
– Preciso de um minuto para processar. – Explico. – Me diga o que aconteceu.
Com as bochechas quentes, ele assente.
– Tudo bem. Então, lembra do Brett, aquele cara sobre quem meus pais estavam conversando quando ouvimos do quintal?
O cara que se casou com o namorado, o que levou a mãe de Sebastian a se preocupar com o bem-estar de seus pais.
– Sim, lembro.
– Ele e o marido se mudaram da Califórnia para Salt Lake City. Acho que está rolando um drama na igreja por causa disso. – Sebastian vira nossas mãos e desliza o indicador pelo meu tendão. – Posso fazer isso?
– Acho que sim.
Dou risada porque o tom da minha voz é o equivalente acústico de um rabo de cachorro abanando, mas nem fico constrangido.
– Então, ele voltou para Utah e meus pais estavam falando disso no jantar.
Meus avós estavam lá. – Ele ri e olha para mim. – Escolhi um momento ruim para fazer o que fiz, eu sei, mas a coisa meio que... saiu.
– Entendi.
Ele ri outra vez.
– Bem, durante o jantar, eles estavam falando sobre Brett e Joshi, e eu baixei os talheres e perguntei de forma bastante direta o que aconteceria se um de nós fosse gay.
– Você fez isso?!
– Sim. – Ele assente e continua balançando a cabeça como se quase não conseguisse acreditar. – Não andei muito bem nas últimas semanas. Não sei se posso voltar a pensar que a minha pergunta um dia vai ter ficado para trás.
Tentei pensar em várias hipóteses envolvendo a minha vida, tipo, se eu saísse dessa nossa relação, eu deixaria de me sentir atraído por meninos? Seria capaz de me casar com alguém como Manda um dia? A verdade é que não. Ficar com você parecia certo. Em parte, porque você é você; em parte, porque...
Aponto para o meu peito.
– Menino.
Sebastian abre um sorriso sincero.
– Exato. – Faz uma pausa e, antes mesmo de ele voltar a falar, já sei o que está por vir. E parece que o sol escolheu justamente esse momento para atravessar os densos galhos da árvore. – Eu sou totalmente gay.
Uma risada alegre me escapa.
Jogo meus braços em volta de seu pescoço.
Debaixo de mim, ele ri e me deixa beijar todo o seu pescoço e rosto.
– Vou dizer uma coisa, mas não quero parecer condescendente: estou muito orgulhoso de ouvir você dizer isso.
– Eu andei treinando. – Admite. – Falei para o meu travesseiro, depois sussurrei enquanto andava de bicicleta. Venho dizendo isso todos os dias desde que terminamos. Agora, não me sinto mais esquisito.
– Porque não é. – Deixo-o levantar-se e lembro que estávamos no meio de uma história. – Então, aí você perguntou a eles o que aconteceria nessa hipótese...
– Minha mãe ficou totalmente em silêncio. – Narra, e nossos sorrisos desaparecem porque não, agora o assunto não é nada divertido. – Meu pai e meu avô trocaram um olhar, como se quisessem dizer “ah, aqui vamos nós”. Minha avó concentrou-se em cortar seu bife em pedaços pequeninhos. Lizzy se levantou, chamou Faith e Aaron e saiu com eles da sala de jantar. Tipo, acho que ninguém ficou surpreso.
O que Sebastian está descrevendo, imagino eu, é como sentir-se com o coração partido. Deixo escapar um gemido de solidariedade. Ele continua:
– Por fim, meu pai perguntou: “você está falando de atração ou de comportamento, Sebastian?”. E ele nunca fala meu nome inteiro. – Com esforço, Sebastian engole em seco. – Eu respondi: “tanto faz; as duas coisas” e ele, essencialmente, falou que nossa família acredita que o ato sagrado da procriação deve ser dividido apenas entre um homem e sua esposa e qualquer outra coisa vai contra a base da nossa fé.
– Essencialmente o que você esperava, então? – arrisco com cuidado. Quero
dizer, a prova de que essa situação é complicada é o fato de eu estar ouvindo seu relato e pensando “podia ter sido pior”. – Acha que eles, pelo menos, estão abertos a conversar?
– Isso foi há uma semana. – Ele sussurra. Quando, com lágrimas nos olhos, me encara, acrescenta: – Faz uma semana que ninguém fala comigo.
Uma semana.
Uma semana!
Não consigo nem imaginar o que seria não conversar com meus pais por uma semana. Mesmo quando estão em viagens de negócios, eles ligam todas as noites para saber como estamos e perguntar sobre detalhes que vão muito além de simplesmente ligar para o vizinho para saber se está tudo bem com a casa.
Porém, Sebastian está vivendo em uma casa com uma família que o trata como se ele fosse um fantasma.
Não sei quando exatamente voltamos a falar, mas não é muito tempo depois que ele me contou o que está acontecendo. Parece que não há nada que eu pudesse dizer para tornar a situação menos terrível. Tento, mas não consigo e, por fim, acabo apenas me concentrando em fazê-lo se deitar ao meu lado. Olho para a árvore e relato a ele todas as fofocas idiotas que Autumn me contou.
Nossa! Autumn. Preciso falar sobre esse assunto em algum momento.
Mas ainda não. Agora estamos de mãos dadas e deitados um ao lado do outro.
Nossas palmas ficam úmidas e escorregadias, mas ele não solta; eu tampouco.
– O que você tem feito?
– Ando atordoado. – Admito. – Tem a escola, mas passo a maior parte do tempo atordoado.
– Eu também. – Ele ergue sua mão livre para coçar o maxilar. A barba está por fazer, e eu adoro. – Bem, e a igreja. Ando praticamente vivendo lá.
– O que você vai fazer?
– Não sei. – Vira a cabeça para me olhar. – Embarco na turnê daqui a três semanas. Sinceramente, não acho que meus pais vão continuar agindo assim quando o livro sair. Sei que estão orgulhosos e vão querer dividir esse orgulho com todo mundo.
Eu tinha me esquecido do livro. É mais ou menos como se a turnê tivesse se misturado à missão e deixado de ter qualquer propósito legítimo. Acabei agindo como um fedelho.
– E eles não vão querer agir como dois cuzões na frente de todo mundo.
Sebastian não responde, o que significa que não discorda.
– Desculpa – continuo –, não quero xingar seus pais porque sei que vocês são muito próximos. Só estou com raiva.
– Eu também. – Ele se mexe, encosta a cabeça em meu ombro. – As próximas palavras saem fracas, como se tivesse pensado nelas tantas vezes que agora já estão desgastadas: – Acho que nunca na vida me senti tão desprezível.
A frase é um soco em meu estômago e, em um momento de agitação, quero que ele saia dessa porra de Provo. Espero que seu livro venda um milhão de cópias em uma semana e que todo mundo fique louco com seu talento. Espero que o ego de Sebastian fique tão inflamado a ponto de torná-lo insuportável –
qualquer coisa que evite que sua voz trêmula volte a pronunciar essas palavras.
Puxo-o para perto e ele se vira de lado, deixando as lágrimas escaparem em meu pescoço.
Tantos elogios se acumulam na ponta da minha língua, mas todos soam terríveis.
Você é incrível.
Não deixe ninguém fazê-lo se sentir desprezível.
Eu nunca conheci ninguém como você.
E assim por diante.
Contudo, nós dois fomos criados para nos importarmos muito com o que nossas famílias pensam de nós – a estima deles é tudo. Além disso, Sebastian tem o julgamento da igreja pairando sobre ele, dizendo-lhe, onde quer que busque, que o Deus que ele ama o considera um ser humano podre. É impossível saber como desfazer os danos que essa igreja está lhe causando.
– Você é incrível – digo mesmo assim, e ele deixa escapar uma mistura de soluço e risada. – Venha aqui e me beije. Deixe eu beijar esse rosto maravilhoso.
Minha mãe nos encontra assim – chorando-rindo-chorando – um sobre o outro debaixo da árvore. Com um olhar em nossa direção, ela já se dá conta do que está acontecendo.
Leva a mão à boca ao ver Sebastian e lágrimas brotam quase imediatamente em seus olhos. Minha mãe me puxa para perto, me abraça e, sem dizer nada, faz a mesma coisa com Sebastian – hoje, ele recebe o abraço mais demorado, aquele com palavras de mãe pronunciadas com voz suave em seu ouvido. E, aí, alguma coisa se desprende dentro dele, fazendo-o chorar mais intensamente. Talvez, ela só esteja dizendo coisas como “você é incrível, nunca deixe ninguém fazê-lo sentir-se desprezível”. Talvez, esteja dizendo que entende o que ele está passando e que a situação melhora com o tempo. Talvez, esteja lhe prometendo
entregas semanais de adesivos para carro. Seja lá o que for, é exatamente o que ele precisa, porque as lágrimas enfim cessam e ele assente para ela.
O sol começa a se pôr e Sebastian sem dúvida vai jantar com a gente.
Limpamos a grama de nossas calças e acompanhamos minha mãe para dentro de casa. Estamos no fim da primavera e, muito embora os dias sejam bem aquecidos, a temperatura cai como uma pedra quando o sol se põe. Lá dentro, a lareira da sala de estar está acesa. Meus pais ouvem Paul Simon. Hailey está sentada à mesa da cozinha, concluindo sua lição de Química com golpes pesados e ressentidos de lápis.
De repente, é impossível se livrar do frio. Damos risada, abraçamo-nos de um jeito surreal – ele está aqui, na minha casa, com a minha família. Então, levo Sebastian comigo pelo corredor e lhe entrego um dos meus moletons dependurados no cabide perto da entrada de casa. É vermelho, com as letras S-T-A-N-F-O-R-D estampadas em branco na frente.
Sebastian, pacientemente, espera eu terminar de fechar o zíper para ele, e admiro meu trabalho.
– Você ficou lindo usando essas cores.
– Infelizmente, já estou matriculado em uma universidade daqui da cidade.
Por enquanto, penso. Deus, sua decisão de assumir isso – nós – impacta em tantas coisas. Se quiser ficar na BYU, não pode sair do armário, ponto final. Só de estar aqui, Sebastian já está essencialmente quebrando um código de honra.
Mas existem outras universidades...
Esta noite é surreal! Olho pelo corredor para onde meus pais estão, corpo inclinado, rindo do nojo histérico que meu pai sente de tocar um frango cru. Os dois parecem ter deixado as preocupações de lado, pelo menos por esta noite.
Parecem ter se dado conta de que precisamos de algumas horas nas quais podemos simplesmente ficar juntos, como qualquer outro casal. A única instrução que nos dão é para lavar as mãos antes de jantar.
– Mas falando em faculdade...
Fico espantado com suas palavras, porque elas me lembram uma coisa: passamos poucas semanas separados, mas muita coisa aconteceu. Muita coisa capaz de alterar nossas decisões para o futuro. Sebastian não sabe para onde vou me mudar em agosto. Ele continua:
– Imagino que você já tenha recebido resposta da maioria delas.
– Sim. – Estendo a mão e puxo o zíper do moletom dele apenas o suficiente para ver sua garganta e clavícula. A pele ali é tão suave e bronzeada.
Quero arrancar sua camisa e fazer um ensaio fotográfico.
Estou protelando.
– E então?
Olho em seus olhos.
– Vou para a UCLA.
Sebastian fica em silêncio por alguns segundos tensos durante os quais seus batimentos se tornam mais acelerados.
– Não vai ficar em Utah?
Estremecendo, reforço:
– Não. – Espero que meu sorriso suavize minhas palavras. – Mas parece que você também não.
Ele parece um pouquinho desanimado.
– Vai saber.
Sua mão encosta em meu peito, deslizando aberta desde o ombro até o abdômen. Tudo fica tenso.
– Quando se muda? – pergunta.
– Acho que em agosto.
– Como está o seu livro?
Meu estômago dá um nó e, com cuidado, afasto sua mão do meu umbigo.
– Está indo bem. Venha, vamos pegar alguma coisa para beber.
Sebastian envia uma mensagem para seus pais, para avisar que vai chegar tarde. Ninguém responde.
Acho que me lembrarei desta noite pelo resto da vida, e não digo isso de um modo superficial ou hiperbólico. Digo porque meus pais estão animados com alguma coisa – estão sendo hilários. Hailey chega a chorar de rir. Sebastian quase engasga com um gole de água quando meu pai conta sua piada preferida (e péssima) sobre um pato que entra em um bar e pede uvas passas. Quando terminamos de comer, seguro a mão de Sebastian sobre a mesa e meus pais nos observam por alguns segundos com uma mistura de adoração e preocupação.
Depois, servem a sobremesa.
É o que quero para nós. E, sempre que o contemplo e que nossos olhares se encontram, tento dizer: Entendeu? Pode ser assim. Pode ser assim todos os dias.
Porém, acho que vejo suas palavras vindo na minha direção, direto de seus pensamentos: Poderia, mas eu perderia tudo o que conheço e tudo o que tenho.
Francamente, não posso culpá-lo se o que temos ainda não for suficiente.
Meus pais vão para a cama uns vinte minutos depois que começa a passar 007
Contra Spectre. Ajudam Hailey, que já está roncando, a se levantar da cadeira e subir a escada. Meu pai olha para mim como se quisesse ao mesmo tempo me encorajar e me lembrar de não transar no sofá. Depois, desaparece.
E, aí, ficamos sozinhos na sala de estar, com o brilho azul estranho da TV e uma tigela enorme e praticamente intocada de pipoca à nossa frente. Num primeiro momento, continuamos exatamente como estávamos. Já segurávamos a mão um do outro debaixo do cobertor. De tempos em tempos, tenho alguns flashes – e me pergunto se ele também os tem –, nos quais não consigo acreditar que Sebastian está mesmo aqui, que estamos outra vez juntos, que meus pais estão se divertindo comigo e com meu namorado naturalmente, sem nenhum problema.
Mas aquela voz que passou o dia todo em meus pensamentos agora raspa a garganta e não posso mais deixá-la de lado.
– Preciso contar uma coisa para você – anuncio.
Ele me encara. A lateral esquerda de seu rosto está iluminada pela televisão, e a imagem formada por seu maxilar apertado, as maçãs do rosto e a expressão de leve preocupação o faz parecer o Exterminador do Futuro.
– Diga.
– Eu fiz uma coisa errada. – Respiro fundo. – Depois que você terminou comigo, eu estava acabado. Na verdade, não lembro de muita coisa daquele dia.
Sei que passei algumas horas dirigindo sem destino, depois fui para a casa da Autumn. Eu estava chorando e não conseguia pensar direito.
Percebo que, assim que digo isso, ele já sabe. Porque respira fundo, como se dissesse “aí vem”.
Balanço a cabeça e deixo escapar um ressentido:
– Pois é. – Ele assente, olhando outra vez para a TV. – Ela está bem, eu estou bem. Conversamos sobre o que aconteceu e é claro que a situação está estranha, mas ela e eu vamos superar. Eu só... não queria esconder de você.
– Só para eu ter certeza de que entendi direito: você transou com ela?
Faço uma pausa enquanto culpa e vergonha recaem como um peso em meus ombros.
– Sim.
Seu maxilar se repuxa.
– Mas você não quer ficar com ela?
– Sebastian, se eu quisesse ficar com Auddy, eu estaria com Auddy. Ela é minha melhor amiga e eu fui procurá-la porque estava com o coração partido.
Sei que isso parece uma loucura completa, mas a gente entrou nessa espiral esquisita de conforto que acabou se transformando em sexo.
Acho que minhas palavras o fazem rir contra sua vontade. Porém, ele olha outra vez para mim.
– Isso não me faz sentir bem.
– Eu sei.
Sebastian se levanta, distraidamente esfrega o punho no peito. Ergo sua mão para beijar os dedos.
– Eu sei que fiz coisa errada. – Admite baixinho. – Então, acho que não posso ter o tipo de reação que quero ter.
– Pode. Eu entendo. Eu estaria louco agora se a situação fosse inversa.
– Mas você não poderia me dizer o que fazer depois de terminar comigo.
Parece que sua calma vence no final. Não sei se me sinto aliviado ou se quero que ele demonstre um leve sinal de ciúme.
– Acho que não.
– Mas, se nós estivermos juntos, você está comigo, certo? – pergunta. –
Mesmo se eu estiver longe?
Afasto-me um pouco para poder estudá-lo por um instante.
– Pensei que você não pudesse manter um relacionamento durante a missão.
Ele baixa a cabeça.
– Vou ter que decidir quais regras sigo e quais não.
– Enquanto mantém tudo ligado a nós em segredo?
Sebastian vira-se para mim, beija meu pescoço e deixa escapar um leve rugido.