O Amor Não é Óbvio
6 | Caindo do céu
CAINDO DO CÉU
Apesar da noite passada, eu não conseguia parar de olhar para a cadeira vazia de Édra Norr durante a aula inteira. Alguma coisa dentro de mim estava torcendo para que ela chegasse atrasada. Mas ela não apareceu. Hora nenhuma.
Passei meu intervalo inteiro sozinha, já que depois da mensagem de Polly – abre aspas Luiz me pediu desculpas por não ter ligado e vamos conversar no intervalo fecha aspas –, fui deixada para trás.
Quando passei pelo corredor para guardar meus livros no armário, pude ouvir as fofocas diárias invadirem meus ouvidos.
– Estou com pena dele, para falar a verdade – disse Tatiele, enquanto eu enfileirava meus livros para que coubessem naquele armário micro que o CSP (a sigla do campo de resistência que chamamos de Colégio São Patrique) nos oferecia por um aluguel de 35 pratas. – Parece que ninguém anda dando atenção pra ele, tadinho.
– Cadu Sena precisa se acostumar a não ser mais o assunto principal das garotas, sabe... – Priscila Pólvora deu de ombros, passando por mim. – Eu só acho maldade demais as pessoas excluírem ele por causa disso. Ele não tem culpa se a Camila está namorando uma garota. Isso não significa que ele seja inferior a Norr.
Em algum lugar da minha cabeça, pude ouvir Polly gritar para que eu me aproveitasse dessa oportunidade única. Cadu Sena não tem como me ignorar, porque ele não tem mais ninguém. É a minha chance. Meu bilhete de loteria.
Com certeza foi o que eu pensei quando me sentei na mesa onde Cadu Sena comia sozinho, no canto do refeitório. Segundos depois, enquanto ele me encarava confuso, pude perceber o que eu tinha acabado de fazer.
Então, levantei abruptamente. Como se nada tivesse acontecido. Desapareça, Íris. Desapa...
– Ei, você é a filha da Doutora Jade, né? – A voz de Cadu foi capaz de parar todos os meus músculos.
Sim, feliz ou infelizmente. Não consegui decidir ainda.
– É. – Eu sorri, sem graça, com a minha bandeja na mão. – Não sei o que eu tô fazendo, você provavelmente tá ocupado com alguma coisa.
Disse isso porque percebi os livros e cadernos abertos ao redor da bandeja dele.
– Não, tudo bem. – Cadu parecia empolgado, um sorriso nos lábios dele me mostrava isso. – Pode sentar aqui, sim. Isso é só o meu trabalho, não posso ficar em recuperação em pleno terceiro ano.
– Legal. – Me peguei sorrindo de volta. – Minha turma também anda superlotada de trabalhos.
– Mas você tá de boa, tipo, dá pra passar? – me perguntou ele, se inclinando sobre a mesa e ficando um pouco mais perto do meu rosto.
Deus, que nervoso.
– Eu tô nervosa – disse. Cara, simplesmente escapoliu. – Quero dizer, os trabalhos. Os trabalhos me deixam nervosa, mas tá tudo indo bem. – Sorri, tentando amenizar a besteira que tinha acabado de dizer.
Que idiota.
– Caramba, seu sorriso é muito bonito – disse Cadu, olhando para a minha boca. – Mas também, né, cê é filha da melhor dentista dessa cidade. – Ele se afastou mais do meu rosto.
– É... – Olhei para o suco e o sanduíche na minha bandeja. Porque, claro, eu me lembrei de quando estava doida para que ele me visse sem aparelho, mas Camila Dourado surgiu em cena muito antes de mim, no primeiro ano. Fala sério.
– Sua mãe é uma figura! – exclamou Cadu, dando uma mordida na maçã que estava, pouco antes disso, solitária em sua bandeja. Disseram que ele andava comendo pouquíssimo desde o término com Camila. – Você me lembra muito a Doutora Jade, sério. Eu acho que você vai arrasar nas vendas do feriado de São Patrique.
Me senti lisonjeada e pude perceber que estava ficando vermelha, como a maçã que ele devorava.
– Eu espero também – falei, tentando não prestar atenção naqueles dentes. – Se o baile for mesmo no Palácio Alfredini, vai ser demais!
– Você já tem par? – Sim, isso mesmo, Cadu Sena me perguntou isso. Ele queria saber. Meu Deus, me diga que essa pergunta tem um propósito.
– Não, e você? – rebati a pergunta, já sabendo a resposta. Mas não queria soar tão desesperada. – Aposto que estão fazendo fila! – brinquei.
– Nem tenho. – Ele riu pra mim meio cabisbaixo, com a maçã entre os lábios. Pude ver que os olhos dele cruzaram algumas mesas do refeitório. Notei que Camila Dourado estava passando do outro lado... Sem Édra. Onde essa garota se meteu?! – O que você vai fazer hoje, Íris? – Cadu Sena perguntou, pra mim. – É Íris, né?
Tá, tudo bem ele ainda não ter decorado meu nome. Até porque, naquele dia do recrutamento para arrecadar o dinheiro da formatura, ele teve que anotar milhões de outros nomes.
– Sim, é Íris. – Me peguei sorrindo, lembrando de “Júlia”. Não precisava ser Júlia, não com Cadu. Com Cadu eu só queria ser Íris mesmo. – Eu não tenho planos. – Tentei não surtar. Eu precisava parecer uma pessoa normal prestes a ser convidada pra sair.
– Você quer ir no Banana Club mais tarde?
Socorro. Isso está mesmo acontecendo. Cadu Sena está me convidando para sair. Eu estou sonhando. Meu Deus, preciso contar isso para minha amiga exageradamente sexual e para minha outra amiga idosa!
Polly e Dona Símia, quero dizer.
– Fechado – eu disse, segundos antes que o sinal tocasse.
Eu não acredito que isso está acontecendo.
É claro que passei a última aula inteira bastante pensativa, por inúmeros motivos. O primeiro, claro, porque Cadu tinha finalmente me convidado para sair e isso ainda parecia um sonho. A gente trocou número de celular e voltamos pras nossas salas, mas tínhamos um encontro. Isso é incrível demais pra ser verdade. O segundo motivo era Polly. Ela simplesmente me disse que Luiz e ela passariam o intervalo juntos e não me enviou sequer uma mensagem depois disso. Polly estava completamente desaparecida. Não só Polly, como o meu terceiro motivo: Édra Norr. Sua cadeira vazia me irritava demais, e eu não pude fazer nada durante a aula além de encará-la enquanto pensava sobre todos os itens acima. Cadu, Polly e Édra. Hoje deve ser o dia oficial da sorte e dos sumiços.
Não pude evitar abrir um sorriso quando Cadu Sena me enviou uma mensagem no meio da aula, mas não dava pra abri-la. A professora Olga já tinha reclamado comigo na aula anterior porque notara que eu estava aérea. Eu não podia simplesmente usar o celular na frente dela. Ela estava de marcação comigo. Então é claro que eu tive que usar a embaraçosa desculpa do “Preciso muito ir ao banheiro”. Sim, essa mesma que faz as pessoas questionarem se você está com dor de barriga ou se você sujou a sua calça inteira (garotas irão me entender). O desespero para ir ao banheiro sempre é mal interpretado no Ensino Médio, e sempre vai existir alguém na sua classe pra rir quando invocarem essa desculpa. Mas podiam rir à vontade. Eu estava indo para o banheiro responder Cadu Sena.
Entrei na sexta cabine e a tranquei. Peguei o celular e meu sorriso parecia ter dobrado de tamanho. Pude sentir; sério, o meu maxilar deu uma beliscada. Respondi a mensagem de Cadu com o horário do nosso encontro (19h, guardarei para sempre) dizendo que estava tudo certo. Antes que eu pudesse destrancar a porta e voltar para o tédio da sala de aula, a voz de Camila surgiu em eco através dos azulejos do banheiro.
Não dei sequer um passo.
– Cara, onde você está, posso saber? – ela começou a dizer. Pelo visto não sou a única pessoa que usa a emergência do banheiro para mexer no celular. – Fazendo o que no Leoni’s uma hora dessas?! – pausa. – Sim, e daí? Por que não fez essa pesquisa antes? Caramba, Édra, eu preciso de você hoje. Combinamos de sair do colégio mais cedo pra escolher o meu vestido de formatura. Você disse que ia me ajudar nisso – outra pausa. – Claro que eu estou chateada! Se eu soubesse que você tinha uma pesquisa importante pra entregar amanhã, não teria deixado você beber tanto ontem.
Tentei ao máximo olhar pela greta da porta, mas só conseguia ver aquele cabelo loiro e a farda superjusta de Camila Dourado, de costas pra mim. Ela estava inclinada na pia do banheiro, se olhando no espelho.
– A gente se vê mais tarde, então? No shopping, né, denguinho. Caraca! Você é muito esquecida! – pausa. – Tudo bem, tudo bem. Eu sei que você ainda precisa de nota pra passar. Eu tô muito ansiosa pra formatura! Não acredito que vamos juntas. Você bem que podia simplesmente aceitar as coisas do seu pai, né? Aquele carro é incrível. Imagine só a gente chegando naquele carro! Que luxo! – pausa. – Ai, eu sei que você não gosta de falar nisso. Mas deveria repensar, né? Aquela bicicleta já tá velha...
Meu braço empurrou a maçaneta sem querer. Droga. Camila Dourado olhou em volta, desconfiada. E pude enxergar seus olhos verdes vibrantes semicerrados em direção à minha cabine.
– Preciso voltar pra sala, fala comigo por mensagem – disse ela para Édra, antes de ajeitar o cabelo e sumir dali em segundos.
Certo, agora temos um pequeno detalhe a absorver nisso tudo. Édra Norr é da minha sala e não temos nenhuma pesquisa pra entregar amanhã. Não consigo acreditar que ela está mentindo.
Não, não... Ela jamais faria isso. Ela não tem cara de mentirosa. Na verdade, ela parece ser bem sincera. Pude perceber pela forma como ela falava com o pai dela. Ela não mentiria, certo? Ou mentiria?
Deus, Edgar nunca pareceria alguém capaz de ser acusado de roubo na empresa dos Abrantes, em Amor em atos, mas foi acusado mesmo assim. A gente pode esperar o pior das melhores pessoas, às vezes.
Impressionante como alguém pode subir e cair tão rápido no seu conceito...
(Científico, é claro.)
Não acredito que Édra Norr seria capaz disso. E se for? E se manipulou Camila para que ela terminasse com Cadu e agora só está enganando Camila de novo?
Mas e se não for nada disso? E se uma coisa não tiver nada a ver com a outra, porque na verdade o grande culpado por tudo é Cadu Sena? E se Cadu Sena for um grande monstro planejando algo terrível contra mim no nosso primeiro encontro? (Na verdade, meu primeiro encontro. E centésimo encontro dele.) Será que alguém marcaria de fazer algo ruim a outra pessoa num lugar chamado Banana Club? Imaginem as notícias nos jornais. Não teria nem credibilidade. Meu Deus, dentro de mim vive uma fofoqueira.
“Jovem é encontrada morta sem a língua no Banana Club.”
Viu? Nenhuma credibilidade.
Agora eu não consigo parar de pensar sobre isso. Entre Édra e Cadu, quem seria mais propício a causar o término? Considerando que agora Édra Norr é uma mentirosa em potencial. E que eu não a conheço como conheço Cadu Sena.
Quem será o verdadeiro culpado pelo fim desse namoro?!
Mais uma vez, gastarei papel e canetinhas em prol da investigação e da ciência.
Fiquei relembrando mil cenas ao mesmo tempo enquanto secava o cabelo. A imagem de Cadu Sena comendo maçã e me chamando para sair se misturava na minha mente com a tela do celular e a mensagem da Polly (que foi o último sinal de vida que ela tinha me dado, já que continua desaparecida) e, por fim, a cadeira vazia de Édra Norr, junto ao espaço – também vazio – no bicicletário. Não teve bicicleta preta hoje. E também voltei em linha reta. Me recusei a fazer o zigue-zague, porque isso me lembrava Édra; que me lembrava o quanto ela era charmosa dançando com aquele cabelo molhado de suor, que me lembrava o quão surreal é essa coisa de ser tão bonita e igualmente tão mentirosa.
Preciso deixar essa garota pra lá, porque já está mais que evidente que o Cadu não foi o vilão nessa história. Pelo contrário, ele inclusive me ofereceu uma carona até a minha casa.
Incrível...
Mas eu não podia deixar a minha bicicleta sozinha. E também não quis falar que era por esse motivo. Sei lá, eu não sabia qual seria a reação dele ao saber disso. Ainda mais a yellow, que é tão infantil. Já fui zoada por ter a mesma bicicleta faz anos. E o Cadu sempre foi visto com Camila, que, bom, tem um carro bacana. Apesar de que, considerando o desespero dela hoje no banheiro, o carro dela não é nada comparado ao carro de Édra.
E Édra mesmo assim prefere morrer pedalando. Mas é por causa da mãe dela, né? E isso é bem bonito, se você for pensar por esse lado.
Bonito? Fala sério, quase me deixei levar por dois segundos. Ela é uma mentirosa. Pessoas mentirosas não são bonitas.
De todo modo, não é como se eu achasse que as pessoas são mais interessantes por causa das coisas que elas possuem. Financeiramente falando, claro. Eu não ligo pro conversível de Cadu Sena, se é o que você quer saber. Mas não tenho certeza se ele pensaria o mesmo da yellow. Os adolescentes são projetados para serem fúteis e insuportáveis. Eu queria ter estudado com idosos, porque eles, sim, são adoráveis. Não acredito que Cadu seja fútil e insuportável, é só uma questão de precaução... Melhor deixar a yellow no segundo plano. Não quero que nada estrague a chance que o universo tá me dando. Talvez eu não leve a yellow pro colégio esses dias, assim posso aceitar a carona.
Isso se ele me oferecer carona de novo. Olha só esse cabelo! Horrível...
Queria ter um pingo da autoestima que tive sendo Júlia. Eu estava me sentindo muito estranha encarando meu reflexo no espelho. Suéter, jeans e sapatilhas. Eu não sabia o que vestir. Preciso mesmo fazer compras, não tenho nada nível Camila Dourado no meu guarda-roupa. Não dá sequer pra competir com isso.
Infelizmente, vai ter que ser assim mesmo. E falando em “Júlia”, preciso passar rápido no Leoni’s antes de ir para o Banana Club encontrar com o Cadu. Maurício deve tá se perguntando...
– Que merda estava acontecendo com você ontem? – Maurício arregalou os olhos pra mim, preparando café para algum dos três clientes espalhados na loja. Provavelmente pro senhor no canto da janela, o único que ocupava uma mesa.
Olhei em volta lembrando que mais cedo Édra tinha dito à Camila que estava ali. Será que ela realmente disse a verdade e fui a única que não ficou sabendo sobre esse trabalho? Do jeito que ando esquecida, não duvido nada.
– É uma longa história, mas não tô pronta pra te contar sobre isso ainda – respondi, apreensiva. Sim, eu quero muito contar para Maurício sobre meu experimento científico. Mas acredito que ninguém precisa saber sobre isso agora. Ainda mais com minha possível desistência dessa história. Eu me recuso a seguir uma pessoa mentirosa por aí. Credo.
(Apesar de mentir pra Polly. São situações diferentes.)
– Se você tiver paciência – disse, assistindo a Maumau combinar ingredientes na caneca, formando desenhos –, eu ainda te conto tudo. Mas preciso muito que você me responda uma coisa. Tem que ser rápido, tô atrasada pra um compromisso.
É, eu não queria que Maurício soubesse sobre Cadu Sena ainda. Cadu é ex da irmã da namorada do chefe dele; ou seja, ex da Camila, irmã de Renata, que namora o Léon, que é o dono do Leoni’s. Que confusão! Imagine só? Consigo me lembrar perfeitamente da Renata postando a foto dela com Camila, Cadu e Léon no Facebook. Eu estava stalkeando, obviamente, as fotos em que Cadu Sena tinha sido marcado. E lá estava a imagem fofa de todo mundo abraçado fazendo caretas com a legenda “Os denguinhos das sisters” e vários emojis de coração. Só de lembrar, sinto a mesma ânsia de vômito.
A Renata era a fã número um do Cadu e vivia puxando o saco dele em todos os momentos que consigo recordar, tanto em eventos do colégio, quanto nas vezes que os vi passeando pela cidade. Sempre ela, Camila, Cadu e Léon. O perfeito encontro de casais. Se ela sonhar que eu estou tentando destruir as chances de Cadu e Camila reatarem nessa encarnação, ela provavelmente jogaria uma prateleira de livro dessas na minha cabeça.
Melhor deixar Maurício fora disso. Por enquanto.
Até porque ele nem gosta do Cadu.
Eu tinha tentado achar o perfil de Édra no Facebook enquanto procrastinava ao invés de estudar, mas não consegui achar nada dela por lá. Dizem que o Instagram, sim, é a nova rede social que as pessoas usam, mas eu não sei mexer direito. Queria nunca ter deixado o Orkut. Será que Édra é como eu e não usa muito a internet? Quais seriam as marcações de fotos no perfil de Édra Norr? Será que teria alguma foto da mãe dela? Cara! Será que elas eram parecidas?
Muito estranho eu não ter encontrado nada sobre Édra nas buscas. Qual adolescente nessa cidade não tem uma conta no Instagram? Exceto por mim, eu não conto. Sou burra demais com essas coisas do futuro. Mas todo mundo usa rede social hoje em dia e coloca a vida toda disponível lá. É um Big Brother Brasil online. Todos confinados na mesma rede social. A diferença é que quem faz textão são as pessoas que você segue e não o Pedro Bial. Até a minha prima de cinco anos tem perfis em redes sociais. Ela nem sabe digitar, mas está incluída precocemente na era digital. Com um clique descubro tudo sobre todos os famosos das novelas que eu gosto. Às vezes, sem clicar, descubro coisa até demais sobre os adolescentes dessa cidade. Porque todo mundo hoje conta tudo lá. E Édra Norr pensa que é quem pra não fazer parte disso? Rolei umas mil páginas sem achar nada. Preciso de informações.
Não, não preciso de nada.
De absolutamente nada que venha de pessoas mentirosas.
Foco, Íris. Foco.
A única coisa de que eu preciso agora é encontrar Cadu Sena no Banana Club, como combinado. Mas, antes, uma pequena informação de Maurício, da qual eu também preciso muito.
– O que você quer, Íris? – Ele revirou os olhos quando me encontrou, depois de ter entregado o café.
– Alguma garota com o cabelo bem curtinho castanho-escuro esteve por aqui? – perguntei de vez. – Ah! – lembrei de acrescentar mais detalhes na descrição. – Ela provavelmente ficou coçando a nuca, se parou na frente de alguma prateleira por muito tempo.
– Quê?! – foi a resposta de Maurício, completamente confuso. – Coçando a nuca? Íris, me diz que não tá metida com nenhuma droga. Você tá estranha demais esses dias.
– Sério! – insisti, olhando de relance o relógio na parede. Eram quase 19h e eu ainda não tinha saído do Leoni’s. Já podia me considerar atrasada. – Você viu alguma garota assim?!
– Coçando ou não coçando nuca, não teve ninguém por aqui mais cedo – disse Maurício, limpando o balcão. – Até porque a loja estava totalmente vazia de manhã, o Léon nem sequer colocou a placa de “aberto”. A gente passou a manhã inteira fazendo o descarregamento dos novos livros que chegaram.
– Obrigada, Mau! – Tentei disfarçar meu desapontamento em escutar aquilo. – Preciso mesmo ir agora, tô muito atrasada. Te explico tudo depois.
Ótimo. Édra Norr é definitivamente uma mentirosa.
Eu nem conseguia prestar atenção direito no que Cadu e eu estávamos conversando. Na verdade, só ele estava falando. Porque eu não sabia exatamente o que deveria dizer sobre futebol, natação e faculdade. Não que ele estivesse me dando brecha, Cadu falava sobre si mesmo o tempo inteiro. E isso não era algo tão ruim assim (não nessa situação), é óbvio, ele está se sentindo sozinho. E estou aqui pra dar um pouco de atenção a ele. É normal que Cadu tenha se empolgado durante a conversa. Não o culpo por isso. Ele continua sendo incrível.
Estávamos tomando milk-shake e ele tinha elogiado o meu cabelo quando cheguei. A nossa conversa, quer dizer, eu prestar atenção no que ele falava estava funcionando. Fluía bem, posso arriscar que estava inclusive rolando um clima. E as pessoas do colégio que dividiam conosco aquele espaço amarelo do Banana Club já tinham nos visto juntos quando passaram pra entrar. Estávamos bem perto da porta, numa mesa abaixo daquela escultura de banana incrível pendurada na parede.
Pude notar que as pessoas comentavam sobre nós dois e observavam absolutamente tudo o que estávamos fazendo. Que, a esse ponto, tinha sido consumir milk-shakes e balas artesanais, fora o ph.D. que eu estava fazendo em Cadu Sena, que me contava de onde surgiu sua paixão pelo futebol, o amor pela natação e essas coisas que tornaram ele um astro esportivo no colégio.
Só que tudo logo foi por água abaixo. Eu não conseguia mais prestar atenção em Cadu Sena com Édra Norr jogando sinuca do outro lado do espaço, na área de jogos, bem na ampla visão dos meus olhos. Digo, na direção da nossa mesa.
E agora tudo o que eu conseguia pensar era “que mentirosa!”. Apesar de que, caramba, essa garota consegue ser atraente fazendo coisas tão idiotas. Não acredito que eu tô achando bonito o jeito que alguém joga sinuca. Fala sério.
Ela estava cercada por alguns garotos, e o bolo de dinheiro no canto da mesa de bilhar provava que se tratava de uma aposta. Édra parecia extremamente concentrada e fazia jogadas bem pensadas. Ela mirava com o taco, fechava um olho, encarava o alvo por longos segundos com o olho que permanecia aberto. Um toque e todas as bolas corriam pela mesa, uma, duas, três se perdiam pelos buracos. E Édra comemorava com um sorriso torto. Olhava debochada para os garotos enquanto pendurava o taco sobre o ombro, esperando sua vez chegar para repetir tudo de novo.
Era inacreditável como as garotas que acompanhavam os rapazes espiavam Édra de canto de olho. Como é que você está acompanhada e deixa de prestar atenção no seu carinha pra olhar outra pessoa? Que ridículo.
– Íris? – Cadu me chamou, inclinando o pescoço.
Detalhe que eu estava fazendo o mesmo. Ignorando Cadu. A hipócrita ataca novamente. Eu acenei com a cabeça e disse a ele que concordava com sei lá o quê.
De repente, no meio do jogo, Édra foi puxada por Camila para o banheiro. Eu não sabia de onde Camila tinha surgido, mas, pelo semblante dela, parecia muito irritada. Não sei o que me deu. Algo mais forte que eu me disse que eu precisava contar para Camila Dourado sobre Édra não ter passado no Leoni’s. Eu sabia que Édra iria convencê-la com alguma desculpa, como fez por telefone. E, apesar de não ser a fã número um de Camila Dourado, não acho que ela mereça passar por isso. Então, me levantei.
– Preciso muito ir ao banheiro. Eu já volto, certo? – disse para Cadu, com um sorriso sem graça.
Meu Deus, o que eu estava fazendo?!
Entrei no banheiro quase desistindo do que pretendia fazer. E como eu ia falar? Na frente de Édra? Melhor pedir para conversar com Camila a sós e contar tudo. Cara, minhas mãos estão tremendo demais.
Assim que cruzei a porta do banheiro, Édra apontou para mim. Parecia aliviada por ter me visto.
– Aí. – Édra continuou com a mão estendida na minha direção. – Pergunta pra ela.
Eu não fazia ideia do que estava acontecendo. Congelei onde eu estava.
Camila se virou para mim, me fuzilando com o olhar esverdeado.
– Vocês são dupla nesse trabalho idiota de literatura? – indagou Camila, revirando os olhos logo em seguida. – Quer saber, não precisa me responder. – E, se virando pra Édra, continuou. – Até porque isso não muda o fato de você ter me deixado esperando por horas. Nem muda ter descumprido o nosso combinado.
– Camila... – Édra hesitou, me encarando com os olhos escuros arregalados. Parecia tentar me dar algum sinal.
– Depois a gente se fala, tá? Eu tô cansada. – Camila saiu, o salto alto ecoando no piso do banheiro. – Me ligue quando pensar num bom pedido de desculpas.
E ficamos eu e Édra, nos encarando.
Eu? Sem entender nada do que tinha acabado de acontecer. Ela? Com uma cara de preocupação.
– Eu posso explicar – disse ela, quebrando o nosso silêncio. Seu olhar parecia atravessar o meu corpo. E fui ficando mais nervosa do que já estava.
Vim acabar com uma mentira e, em segundos, passei a fazer parte dela.
Alguém, por favor, me diga o que tá acontecendo com a minha vida.
Édra foi até a porta por onde Camila tinha saído batendo os pés. Olhou em volta. Em seguida, saiu empurrando todas as entradas das cabines do banheiro, para se certificar que estávamos sozinhas.
– Eu menti pra Camila sobre uma parada – ela começou a dizer, quase sussurrando. – Desculpa ter te metido nisso, não tive outra escolha. Você caiu do céu nesse banheiro, cara.
– Como assim, cara?! – perguntei, incrédula. Eu estava tentando absorver o que realmente tinha acabado de acontecer, bem embaixo do meu nariz.
– Amanhã, depois da aula, você pode ir comigo num lugar? – perguntou Édra, enfiando as mãos nos bolsos da calça. – Eu te mostro.
Não me vi com muitas alternativas. Então, me sentindo bem inútil, apenas balancei positivamente a cabeça.
– A gente se encontra no bicicletário, então? – combinei, dando de ombros.
– Pode ser – respondeu ela, me deixando completamente sozinha no banheiro.
Fiquei horas deitada no chão, ponderando sobre aquilo. Eu não conseguia sequer pensar sobre como meu encontro com Cadu tinha se transformado numa grande falha depois daquele episódio no banheiro. Nosso assunto morreu automaticamente e ele decidiu me trazer pra casa mais cedo que o esperado. Nos despedimos com um beijo no rosto (que eu nunca vou esquecer). Ele tinha um cheiro muito bom, de perfume, mas era só de perfume mesmo. Não havia fragrâncias misturadas, como as de Édra. Ela saiu do banheiro e conseguiu deixar tudo naquele lugar cheirando a ela.
Eu ainda me sinto extremamente desapontada por, além de mentir, ela ter me incluído nisso. Essa é a minha primeira vez em contato com meu objeto de estudo científico e eu não esperava que fosse desse jeito. Ela me usou pra acobertar alguma coisa que fez. Agora entendo a Rosa ter ficado tão sem rumo quando Edgar foi acusado pelo crime na empresa dos Abrantes. Eu estava com aquela cara de desolada, igual a Rosa faz pra câmera que sempre foca no rosto dela.
E, pela primeira vez, a Margot não estava me olhando como se estivesse me xingando mentalmente. Ela só me encarava, sem entender o que estava acontecendo. Acho que ela sentia pena de mim. Eu estava deitada na cama, com os pés apoiados na parede. Eu adorava deitar assim, parecia que o quarto inteirinho ficava de cabeça pra baixo.
É estranho as coisas de cabeça pra baixo parecerem mais corretas que o “normal”?
– Você pode subir o zíper desse seu moletom? – Édra me deu um susto, porque eu estava desacorrentando a yellow e não esperava que ela aparecesse tão do nada.
Ela não tinha me olhado hora nenhuma, sendo que eu passei o dia inteiro olhando pra ela. Até quando Cadu Sena me chamou pra sentar com ele no intervalo e ficamos conversando sobre coisas aleatórias, como o recrutamento de alunos pra arrecadar dinheiro pra formatura e sobre o Palácio Alfredini ser irado pra esse evento (de novo). Eu realmente achei que ele fosse me convidar pro baile, ali mesmo, na mesa, enquanto comíamos nossos sanduíches e eu encarava Édra Norr rabiscar a garrafa de água mineral com marca-texto amarelo-fluorescente. Ela e Camila ficaram o intervalo inteiro meio distantes, mesmo considerando o fato de que conversavam com o mesmo grupo de pessoas. Édra estava mais empolgada em pintar a garrafa de forma psicodélica, e Camila, como sempre, mais empolgada em se exibir. Eu conseguia ouvi-la se gabar de como tinha achado o vestido perfeito pro baile de formatura e que não podia mais esperar pra usá-lo.
Polly era definitivamente uma pessoa desaparecida. Eu tentei mandar mensagem e fui até a sala dela, mas a cadeira em que ela costumava se sentar estava vazia. Também não vi Luiz em lugar nenhum. Ou seja, deduzi o óbvio: eles estavam juntos em algum lugar. E não “desaparecidos”.
Ela podia, pelo menos, ter me avisado.
– Oi?! – Édra balançou a mão na frente dos meus olhos.
– Ei – respondi, subindo o zíper do meu moletom. – Mas pra que isso?!
– Se eles perceberem que estamos de farda, posso me ferrar – disse Édra, destrancando a bicicleta preta dela. – Melhor prevenir.
Aí eu percebi que ela não estava usando a farda do São Patrique, como de costume. Tinha trocado a camisa masculina do uniforme por uma blusa preta de manga longa. A blusa combinava perfeitamente com o cabelo e os olhos dela.
Subimos nas nossas bicicletas e partimos rumo a... Bom, não sei exatamente.
Era estranha a sensação de pedalar perto de Édra Norr. Principalmente porque, quanto mais o vento batia, mais eu me sufocava com aquele cheiro bom que vinha dela. E agora eu podia ver tudo de perto, digo, sem binóculo... O que me deixava meio nervosa pra pedalar.
Eu conseguia ouvir o barulho de nossas mochilas sacudindo com o balançar das bicicletas. Também podia escutar todo o trânsito e o som das correntes girando e girando. O vento bagunçava nossos cabelos inteiros. E me desequilibrei algumas vezes, prestando mais atenção nela do que nos obstáculos no caminho.
Édra parou a bicicleta na frente de um prédio comercial. Disse “É aqui” para mim. Tranquei a yellow e entrei com ela.
Esperamos o elevador enquanto uma recepcionista, que mascava chiclete com a boca aberta, nos encarava com um olhar de desdém.
Não dissemos uma palavra sequer no elevador e subimos todos os seis andares encarando coisas aleatórias. Édra assistia ansiosa ao mudar dos números. Depois de olhar seu rosto, desci a minha atenção para os tênis pretos, que já tinha visto antes.
Assim que o elevador abriu, escutei o barulho contagiante de risada de crianças. E vozes muito finas que se mesclavam. Respirei fundo, o cheiro de giz de cera agora era mais forte que o próprio cheiro de Édra Norr. Conforme atravessávamos o corredor rumo a uma porta amarela, o barulho infantil só aumentava.
– Concorde com tudo o que eu disser – me aconselhou Édra, em voz baixa. – Não se assuste e, principalmente, não assuste eles. Vou te mostrar o que eu faço quando mato aula e na saída te explico por que eu te usei como desculpa pra despistar a Camila.
Eu não sabia o que falar.
– Tudo bem?! – Ela olhou pra mim. Parecia preocupada.
– Tudo bem – respondi.
E Édra abriu a porta.
Dei de cara com múltiplos olhos de diversas cores me encarando, curiosos. Mas, ao mesmo tempo, se alegravam com a imagem de Édra ao meu lado. Era tudo muito colorido. Vários cartazes, um varal de fotografias e desenhos com tinta, texto, letras de música, cartinhas...
Simplesmente adorável.
– Pró Édra! – foi o que uma garotinha de franja gritou, correndo em nossa direção. Parecia uma mini Branca de Neve e tinha um tampão no olho esquerdo, por baixo dos óculos. Faltava um dente no sorriso que ela abria.
– Ei, Su! – Édra se inclinou, pegando-a no colo. E, virando-se para a turma, foi dizendo em uma voz bem séria (como a que as nossas professoras usam com a gente na sala). – Todo mundo treinou os exercícios da aula passada? Ontem teve reunião com os pais e as mães de vocês e recebi um montão de reclamações.
– O bicho-papão comeu o meu dever, tia! – Escondendo o próprio rosto, o garoto, de cabelos cheios de cachinhos, gritou da cadeira onde estava.
Eu queria poder engolir todas aquelas crianças, de tão fofas que elas eram. Meu coração tinha até se aquecido. Queria me mudar pra aquela sala.
– Não caio nessa não, Gustavo – respondeu Édra, rindo enquanto colocava a mini Branca de Neve de volta na cadeira. – Vamos pegando os cadernos, tá na hora de fazer música!
Os gritos empolgados tomaram conta da sala. Eu me peguei rindo.
– Ah, já ia me esquecendo... – Édra abriu um sorriso, virando-se pra mim. – Essa aqui é a minha ajudante de hoje. O nome dela é Íris.
Ela sabia o meu nome também.
– Oi, pró Íris! – o coral de crianças disse, olhando pra mim.
Eu preciso muito engolir eles.
Mas eu só acenei, sorrindo tanto que meu maxilar estava doendo.
Édra passou por trás de mim para recolher algumas coisas. Não consegui ver, continuei encarando as crianças com meu sorriso congelado. Édra se aproximou do meu ouvido, por trás do meu corpo.
– Bem-vinda a bordo – disse ela, baixinho. – Pró Íris.