O Amor Não é Óbvio

Elayne Baeta · Capítulo 24 de 27

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O Amor Não é Óbvio

22 | Alienígenas

ALIENÍGENAS

 

 

O microfone estava ajustado perfeitamente. A toga de formatura azul-marinho de Édra brilhava nas luzes dos refletores. Suas mãos estavam deitadas sobre o púlpito e seus olhos escuros liam atentamente os papéis com os nomes de todos os alunos que ela deveria listar para agradecer pela participação ativa nos projetos extracurriculares do Colégio São Patrique durante todo o ano letivo que passou. E que, agora, eram formandos da casa. Todos estávamos em silêncio ouvindo atentamente cada palavra. Ela não parecia nervosa em falar para todos nós no microfone, mesmo que ele estivesse desnecessariamente alto e desnecessariamente perto demais de sua boca, fazendo sua voz ficar cheia de chuviscos e ruídos a cada sílaba que se juntava para formar os nomes da lista. Ela já estava praticamente no fim e eu só conseguia apertar com força a barra da minha toga e o papel com a minha fala. Tinha repetido o texto tantas vezes na minha cabeça que meu cérebro estava pifando.

“Esse ano foi muito proveitoso para todos nós. Que possamos seguir com os nossos sonhos, buscando ainda mais sabedoria nos nossos caminhos. E que cada aluno de mérito seja lembrado por sua característica de honra. Georgie Louise, pela sagacidade. Lúcia de Castro, pela astúcia. Wilson Zerla, pela solidariedade…”

Argh. “Solidariedade”, entre tantas palavras.

Sim, eu odiava tudo no meu discurso. Mas não fui eu que o escrevi. Nenhum de nós escreveu nada. Tudo estava sendo supervisionado pela direção e pelos professores de redação. Revirei os olhos, amassando o papel de novo e voltando a tremer os meus joelhos sem parar.

Eu deveria falar depois da professora Morelo, que continuaria o discurso dos formandos assim que Édra Norr deixasse o púlpito e voltasse para o seu lugar marcado. Tudo estava sob controle. Sob controle até demais. A voz de Édra Norr ecoava distante dos meus pensamentos e foi ficando cada vez mais alta conforme eu voltava a reparar nela, no púlpito, lendo o seu papel e fazendo poucas pausas para olhar o público, como tinham nos instruído. Estava linda.

– Martha Peterson, Nicolas Sed, Tatiele Dias – Édra Norr fez uma pausa, ainda encarando o papel. Pigarreou olhando para nós antes que voltasse a falar. – Adam Lore, Célia Liz, Wilson Zerla…

Foi quando tudo começou a desmoronar. E começou bem quando Cadu Sena ergueu o braço, voltando todos os olhares pra ele.

– Esqueceu de mencionar o meu nome – ele disse, ingênuo.

A mão continuava esticada para o alto. E pude ouvir alguém gemer “De novo, não” bem atrás de mim. Eu queria enfiar o meu rosto nas minhas mãos, e foi exatamente o que eu fiz. Mas deixei uma fresta entre os meus dedos, para continuar vendo o que diabos iria acontecer por causa daquilo. Todo o rosto de Édra Norr franziu, balançando negativamente por uma fração de segundos, antes que ela voltasse a ter o mesmo olhar sério de antes, enquanto discursava.

– Ah, claro. – Édra se inclinou sobre o púlpito, ficando ainda mais perto do microfone. – Cadu Sena...

– Obrigado. Viram? Não custava nada – sussurrou Cadu para as pessoas nos bancos ao lado dele.

– Eu quero que você se foda.

A voz impaciente, séria e sarcástica de Édra ecoou por todo o auditório.

E eu vi todas as pessoas desmancharem suas poses e voltarem pra mesma barulheira de antes. Reclamando do calor, da toga, das falas, das posições em que suas cadeiras estavam e, você deve imaginar, de todo o resto.

– Assim fica difícil. – Um dos oradores que contratamos para nos ajudar com a cerimônia perfeita de formatura respirou fundo, abrindo a garrafa metálica de água. – Pausa de quinze minutos, vocês estão com os ânimos muito à flor da pele.

Até que o dinheiro que arrecadamos com o show de talentos e com o feriado tinha nos permitido alguns luxos. Tipo esse, de contratar oradores profissionais para organizar tudo pra nós. E tornar a noite de formatura a mais perfeita possível. Não só oradores; investimos também em outros “pequenos luxos”. As barras de cereal para comermos durante os ensaios de formatura se incluíam na lista.

Édra se afastou do púlpito arrancando a toga em poucas puxadas. E fui desviando de todas as cadeiras (e pessoas que saíam afoitas do auditório) para alcançar Cadu Sena.

– Você está bem? – perguntei, estendendo uma barra de cereal em sua direção. Cadu a pegou e acabou com metade dela em uma única mordida. Mas não respondeu a minha pergunta. – Você sabe como é Édra. Tentar forçar essas situações com ela só vai acabar em mais desastres e atrasos nos ensaios.

– Eu realmente não entendo, Íris – Cadu começou a dizer, de boca cheia. – Eu e você não temos nada. Estou ficando com Maurício desde, sei lá, semana passada? Ela me odeia por pura birra.

– Eu sei, eu sei. – Mordi meus lábios para a cena de Édra Norr abrindo uma barra de cereal com a toga presa apenas pelo pescoço, como se fosse uma super-heroína de capa ou algo assim. – Ela é muito implicante. Mas não temos muito o que fazer sobre isso. Precisamos dar tempo ao tempo, ela até que tem evoluído bastante.

– É. – A boca de Cadu ainda estava cheia. E ele também lançou um olhar para Édra. – Pelo menos ela parou de roubar a vaga do meu carro.

Eu queria tanto rir, apesar de ser completamente errado. Sei o quanto Édra vinha sendo implicante com Cadu Sena depois que descobriu todo o lance sobre eu ter perdido a minha virgindade com ele. Ela agia como uma criança orgulhosa. Era, sim, infantil e irritante. Mas eu adorava saber que a razão por trás de toda aquela birra era apenas ciúme do que tinha acontecido. Ainda que agora tivéssemos concordado com o papo sobre sermos “só amigas”, porque nos decepcionamos uma com a outra e, de qualquer forma, ela vai embora logo depois da formatura para fazer faculdade em Montana.

Ver Édra atormentar Cadu Sena por minha causa fazia eu me sentir melhor sobre nossa nova amizade esquisita. Era a prova de que ela ainda sentia coisas por mim, mesmo que insistíssemos nessa coisa toda de “amizade”. Com poucos diálogos, poucos momentos sozinhas uma com a outra, pouca aproximação física e muitas coisas a serem ditas. Honestamente, eu não queria me magoar quando ela fosse embora. Sei que ela também não queria se magoar, muito menos ter uma razão para ficar olhando pra trás quando estivesse em Montana. Então estava tudo bem, mesmo com o lance sobre sermos só amigas agora.

Menos quando ela se inclinava no bebedouro do auditório e as gotas de água escorriam pelo seu queixo. Que era algo que ela fazia umas três ou quatro vezes durante os ensaios para a formatura.

Então, umas três ou quatro vezes por dia, eu queria que a nossa amizade se explodisse.

– A confraternização da turma é amanhã. – Polly se uniu a mim e a Cadu Sena, sem desgrudar os olhos do celular. – Cadu, posso roubar Maurício emprestado pra me ajudar a comprar algo legal pra vestir? Quero dizer... não pra mim. Pro Wilson vestir.

– Você implica demais com as roupas do garoto. – Eu ri, pegando mais uma barra de cereal. Fala sério, são de graça. Eu vou comer trezentas até que os ensaios acabem.

– Eu o amo, mas ele veste bermuda jeans de avô, camisa polo e sapatênis. – Polly fez como se fosse vomitar e voltou a digitar no celular. – Preciso de um pouco de estilo nessa confraternização. É o nosso primeiro evento juntos desde que começamos a namorar.

– Por mim tudo bem. – Cadu Sena deu de ombros, com a boca inteiramente suja de cobertura. Segurei ele pelas bochechas para limpar um pouco da sujeira.

E um som de uma tosse forçada se materializou ao meu lado, junto ao corpo de Édra Norr, que apertava a alça da própria mochila com força e girava a chave do carro com a outra mão.

– Oi, Édra. – Polly acenou com a cabeça, sorrindo, voltando ao “tap tap” de unhas postiças digitando velozmente no celular.

– Oi, Polly. – Édra assentiu com a cabeça para Polly. Se virando para mim, ela disse: – Vamos.

– Vamos. – Comecei a enfiar as minhas coisas dentro da mochila. Toga, papel de discurso, quatro barras de cereal (que foram de graça, então ninguém iria sentir falta se eu levasse algumas pra casa) e, ok, cinco barras de cereal. Porque acabei de pegar mais uma.

– Eu posso comprar uma caixa cheia dessas, se você quiser – disse Édra, enquanto eu ainda deslizava o zíper da minha mochila para fechar a divisória. Tudo pronto para irmos embora daquele auditório calorento. Nós nunca ficávamos até o fim dos ensaios. Era repetitivo e entediante. Quase todos nós já sabíamos nossas falas. Ainda que algum de nós implique com o nome de outras pessoas.

– Eu com certeza iria roubar algumas.

Olhei para cima porque não podia acreditar que Cadu Sena tinha feito a mesma coisa. De novo.

– Ah, não, outra vez não. – Polly se levantou como uma formiguinha. – Vejo vocês depois.

– Por que ele está me dirigindo a palavra? – Édra perguntou para mim, e eu não soube o que dizer. Enfiei uma barra de cereal inteira na boca para que não precisasse fazer parte daquela discussão. Dei de ombros e acenei com a cabeça para Cadu, que estava com a cara mais abobalhada possível na cadeira. Fiz um “tchauzinho” e arrastei Édra Norr pelo braço, para o mais longe possível dele, antes que outra guerra começasse.

Sei que depois de tudo o que aconteceu, Édra mudou totalmente a forma de se comportar em público. Bom, não exatamente em público, mas perto de Cadu Sena ou de qualquer coisa que a lembrasse dele, que automaticamente a fazia lembrar do que tinha acontecido no feriado, quando brigamos, e que ainda a magoava.

Ter que encarar Cadu Sena nos lugares era como tocar numa ferida ainda aberta. Mas eu não podia simplesmente ignorá-lo, agora que somos amigos. Pessoas são diferentes e lidam com as coisas de formas totalmente diferentes. Talvez, se fosse eu, ainda estaria chorando e ouvindo música triste, sem trocar nem duas palavras com Édra Norr. Ela, por sua vez, só parecia ranzinza e implicante a todo momento. Mas, quando saíamos dos ensaios e éramos só eu e ela no carro, prestes a fazer qualquer coisa que fosse, Édra ainda se parecia com a mesma Édra de sempre. Ela ainda estava lá, em algum lugar, por trás de toda mágoa.

Ainda era ela quando me lançava um sorrisinho descarado enquanto dirigia. Mesmo que com poucos diálogos, poucos momentos a sós, pouca aproximação física e muitas coisas a serem ditas.

Estávamos tentando aproveitar o tempo que ainda tínhamos antes que ela fosse para Montana. E antes, também, que os resultados de todos os vestibulares que eu fiz saíssem. Não queríamos pensar muito sobre o futuro, nem em como manteríamos a amizade quando tivesse um oceano inteiro entre nós.

Naquele momento, só queríamos dirigir pela cidade, ir ao cinema, tomar milk-shakes no Banana Club, disputar jogos de tabuleiro com Dona Símia e fingir que éramos só boas amigas. Ainda que a mão dela sempre encontrasse um caminho até a minha coxa enquanto ela dirigia. E ainda que eu deixasse. E que, em silêncio, estivéssemos ambas de acordo em quebrar apenas algumas regras em prol disso.

Estava olhando para a mão dela na minha coxa enquanto íamos até o cinema. Como eu sempre estava de jeans, nunca senti a mão de Édra Norr literalmente na minha pele. Mas pouco importava; o calor e o peso da mão já eram suficientes. Eu não perderia Vendaval 3 por nada. Ela sabia disso. E me surpreendeu com os ingressos assim que entramos no carro. Nem parecia a mesma pessoa que estava xingando Cadu Sena no púlpito uma hora antes.

Respirei fundo. Queria perguntar.

Às vezes precisava mesmo ser lembrada sobre o mantra da nossa amizade. Principalmente por ser confuso demais para mim ser impressionada com ingressos de cinema, ver a mão de Édra Norr na minha coxa, assistir aos ponteiros deslizarem em seu relógio de pulso e saber que três horas depois dali eu estaria dentro do meu quarto atualizando os sites com os resultados dos vestibulares. Ansiosa sobre algum deles já ter uma resposta pra me dar. E só. Porque esses eram os meus dias. Ensaios para a formatura, saídas esquisitas e silenciosas com Édra Norr e sites de universidades. Eu sentia falta dos beijos dela.

Precisava perguntar.

– Édra?

Mas o carro parou no estacionamento do shopping.

– Hum? – Ela sempre tirava a mão de cima da minha coxa com muita rapidez, como se levasse um choque de realidade toda vez que seu carro estacionava em algum lugar.

– Você vai pra confraternização da turma?

Menti sobre a pergunta. Já que não era isso que eu deveria perguntar quando me sentisse perturbada com os pensamentos sobre Édra Norr e sua boca.

– Você quer que eu vá? – Ela destravou o cinto de segurança e as portas, removendo a chave da ignição.

Engoli seco. O estacionamento do shopping sempre estava vazio a essa hora. E eu gostava disso, porque significava que o cinema também estaria.

Ela não se moveu para sair do carro. Sendo assim, nem eu. Não conseguia mais ler as expressões de Édra Norr como antes. Seu rosto nunca me dava os sinais certos para que eu deduzisse o que provavelmente estava se passando pela sua cabeça. Ela olhou pelo vidro do carro, percebendo o estacionamento vazio – ainda mais vazio do que estávamos acostumadas. Porque não vimos nem sequer os vigias. Seus olhos voltaram para os meus, desceram para a minha boca, para a minha coxa, subiram pela minha barriga até o meu queixo e novamente para os meus olhos. Acho que ficou explícito que eu estava respirando completamente errado, com uma arritmia, porque ela sacudiu com a cabeça de leve quando percebeu.

Eu precisava perguntar.

Eu precisava de um balde de água fria na minha cabeça.

– Por que somos só amigas? – Arfei, tentando alcançar a mão dela, que antes estava na minha coxa.

– Por causa de todas as coisas que aconteceram. – Ela se desvencilhou, abrindo a porta do carro. – E porque eu vou embora.

 

– Beije ela, pra valer – disse Dona Símia, sem conseguir respirar direito. Com as mãos para o alto. Totalmente enrolada em tecido marfim, renda e seda. Estávamos tirando suas medidas para fazer um novo vestido. Estávamos, não. Polly e uma equipe de costureiras estavam. – Au! Alguma coisa me espetou aí nos fundos.

– Desculpa, Simmy.

Era como Polly chamava Dona Símia desde que contei para ela todas as coisas, inclusive sobre Dona Símia ser incrível e também estar na minha minúscula lista de amigos. Elas estavam mais próximas que eu. Polly já ia para a casa de Dona Símia naturalmente. As duas tomavam chá e Polly introduziu Dona Símia no mundo das séries televisivas mais modernas. Eu nem acreditei quando fui visitar Dona Símia e ela estava simplesmente maratonando Friends. Para ser sincera, eu estava até meio enciumada com essa aproximação toda. Principalmente porque eu estava tão concentrada em aproveitar meus últimos dias com Édra Norr que estava perdendo todas as “noites de maratona” que elas faziam sozinhas. Sempre recebia uma mensagem dizendo “Vem pra cá” de Polly, porque ela já estava do outro lado da rua, com pizzas congeladas e vários DVDs de suas muitas coleções de seriados populares.

– Eu também acho que ela deveria beijá-la, tipo, boom – disse Polly, esticando os tecidos de um lado para o outro. – Mas ela não me escuta.

– Eu tô tentando respeitar o jeito como Édra quer que as coisas funcionem.

Todas caíram na risada. Até mesmo as costureiras, que nem sabiam sobre tudo, só o pouco que fofocávamos quando estávamos lá, com nossos horários marcados, decidindo nossas roupas para a formatura.

– Isso é pura pose. Édra só está agindo como um robô porque está ensaiando. Ela só consegue se segurar porque criou um roteiro. E você segue o script, então tudo está sob controle. Ela precisa sair do controle – disse Polly, enfiando mais um grampo no vestido de Dona Símia.

Ela tomou alguns passos de distância de nós. Eu, Polly e todas as costureiras inclinávamos nossas cabeças em diferentes ângulos para observar o vestido. Dona Símia foi se virando com todo o cuidado para a direção do espelho. “Está igualzinho”, disse Polly para mim, apenas movimentando os lábios. Ao que eu respondi da mesma maneira, sussurrando um “Obrigada”.

Vi o tórax de Dona Símia crescer conforme ela puxava todo o ar da sala e seus olhos miúdos se arregalavam. Ela deslizou as mãos da cintura até a barra. Pegou um pouco do tecido da seda para senti-lo e esfregou os dedos. Ela não olhou nem para mim nem para Polly, apesar da nossa expectativa. A sala inteira de confecção estava silenciosa. As costureiras suspiravam em cantos diferentes. Algumas se cutucavam com os cotovelos. Todas sorríamos. Os olhinhos de Dona Símia começaram a brilhar. Ela tinha sido seduzida pelo espelho. Parecia tão jovem. Uma formanda prestes a ir ao baile. Passou as mãos pelos cabelos e liberou o clipe que sempre o mantinha inteiramente enrolado num coque. Os fios perfeitamente brancos e ondulados.

E nem percebi que eu estava tão emocionada, até sentir minhas bochechas molhadas com lágrimas.

– Dessa vez... – Eu surgi atrás dela no reflexo do espelho. – Ninguém vai rasgar o seu vestido.

– Uau, Simmy – sussurrou Polly para si mesma. – Faculdade de moda, aí vou eu.

 

Eu e Édra estávamos num canto mais isolado da confraternização. Tínhamos reservado todas as mesas do Banana Club, e com isso o clube estava fechado apenas para as turmas do terceiro ano do Colégio São Patrique. (O que o bom e velho dinheiro não pode fazer, hum?) Ela estava inclinada sobre o balcão que nos separava da “pista de dança” que improvisamos. Arrastamos todas as mesas de sinuca para os cantos das paredes e deixamos um bom espaço no centro. Ali, todas as pessoas bebiam, dançavam e falavam sobre o futuro embaixo das luzes que oscilavam entre azul e lilás. Tudo naquela pista me lembrava a primeira vez que beijei Édra Norr, no Submundo.

Polly e Wilson Zerla (de calça e camiseta de botão, devo acrescentar) estavam dançando completamente fora do ritmo. Maurício conseguiu entrar de penetra e estava muito perto da boca de Cadu Sena enquanto os dois conversavam. Todas as pessoas estavam olhando. Eles nunca tinham ficado na frente de ninguém. Na verdade, não são muitas pessoas que sabem sobre Cadu Sena.

– Você? – Édra tentou conter o riso por causa do que eu tinha acabado de contar a ela. – Você e quase todas as garotas do terceiro ano vão abrir mão de usar vestido na formatura?

– Não é “abrir mão” – corrigi. – Ainda podemos trocar de roupa se quisermos depois que já estivermos lá dentro. É só um protesto. Não é justo que as garotas do grupo religioso te persigam por querer se formar de smoking. Elas vão tentar te barrar na porta por isso. Mas não dá pra barrar quase todo o corpo estudantil.

Dei de ombros, assumindo a minha genialidade. Me custou horas de conversa, muitos e-mails e trocas de favores para que eu conseguisse fazer com que a maioria das garotas aceitasse a minha ideia sobre entrarmos no Castelo Alfredini de smoking e só lá dentro colocarmos nossos vestidos. Para que Édra não sofresse nenhuma punição estúpida em plena noite de formatura. Eu queria que tudo fosse bom para todo mundo, especialmente para ela, em sua última noite em São Patrique.

– Essas garotas nunca deram a mínima pra mim – disse ela, confusa, olhando de relance para meninas aleatórias espalhadas na pista de dança improvisada. Quase todas tinham topado. Graças a Deus.

– Ainda bem que as pessoas mudam e se arrependem, não é mesmo? – Respirei fundo, seguindo seus olhos. Estavam presos em Cadu Sena, que se divertia em alguma conversa com Maurício. A perna de Maumau estava discretamente apoiada na perna dele. – Não dá pra saber nada sobre as pessoas antes de tentar conhecê-las de verdade.

Édra fez um “tsc” com a boca, revirou os olhos e inclinou a cabeça. Sei, por causa da minha ótima visão panorâmica, que ela estava olhando para mim.

– E eu nem me importo com a parte de trocar de vestido e tudo mais – disse eu, sem tirar os olhos da pista de dança. Porque eu sabia que, se olhasse para ela, ela iria parar de me olhar. – Fico uma gata de smoking.

– Aposto que sim – disse ela, sorrindo. Vi os seus dentes caninos. Não consegui não virar para olhar. E, como eu já imaginava, assim que o fiz, ela se virou para olhar a pista de dança.

Poucos diálogos, poucos momentos sozinhas, pouca aproximação física e muitas coisas a serem ditas.

Minha cabeça não parava de rebobinar os conselhos de Polly e Dona Símia. Os conselhos que me diziam para ignorar todas as regras idiotas que criamos para não sofrermos e simplesmente partir para cima dela.

Foi o que eu comecei a fazer. Desvencilhei um dos braços dela para me encaixar de frente para o seu corpo, ficando completamente encurralada. Estávamos encostadas no balcão, uma de frente para a outra. Sei que a peguei de surpresa com esse movimento porque, em vez de ter uma reação imediata de me deixar escapar, Édra estava boquiaberta e seu corpo parecia totalmente rígido. Ela não deu um passo sequer. Não movimentou absolutamente nada. A única coisa em movimento eram seus cílios e os seus olhos tentando decifrar o que eu estava querendo fazer.

– Édra? – perguntei, olhando para a boca dela. – Por que somos só amigas?

Meu coração estava obviamente saltitando dentro do meu peito. E a respiração de Édra Norr estava intensa, tão intensa que eu conseguia sentir o ar quente ricochetear contra o meu rosto. Estávamos muito perto uma da outra. Eu conseguia sentir seu cheiro no ar, por toda parte. Era a garota mais bonita e cheirosa que eu tinha visto na vida. Dentro de sua jaqueta jeans e da camiseta preta. Ergui meus olhos para dar de cara com os dela, fitando a minha boca.

– Porque... – Ela passou a língua entre os lábios, dando a eles um brilho específico de saliva embaixo da luz azulada. – Bom, somos só amigas porque…

“Dane-se” foi o que ela sussurrou, quase que imperceptivelmente, de tão baixo, se inclinando para perto da minha boca. Estávamos a centímetros de um beijo quando duas garotas começaram a gritar histericamente ao nosso lado no balcão.

– Aquele beijando um garoto não é Cadu Sena?!

– É claro que é. Ai, meu Deus! Ele é gay!

Meus olhos reviraram, não tinha mais a menor paciência pra essas garotas do Colégio São Patrique.

– Ele não é gay, ele é bissexual. E ainda que fosse, vocês não gritam toda vez que um casal hétero se beija nesse maldito colégio. Pra que a histeria agora? É só um garoto beijando outro garoto. Pronto. Não tem nada de especial ou de anormal nisso. Ninguém aqui é um alienígena por causa de um beijo na boca num corpo parecido.

Uma das garotas me encarava constrangida, a outra me encarava enojada.

– Não era você quem estava saindo com ele um tempo atrás? Não quer que a gente fale mal do seu namoradinho por causa de quê? Está com ciúme? – Ela ergueu as sobrancelhas. – Veja só, Becca. Ela está claramente com ciúmes. Não temos culpa se você foi trocada por um garoto, está bem?

– Eu não me importo com quem Cadu Sena sai ou deixa de sair. Somos amigos. Eu só quero que parem de tratar pessoas diferentes como se não pertencessem aos lugares. Ou como se fossem uma grande atração. Sério, vão procurar o que fazer.

As duas se retiraram cochichando e rindo de toda a situação. Inclusive de mim. Édra estava com uma cara inegável de desconforto. Suas sobrancelhas estavam arqueadas e seu olhar era estranho. Ah. Não, não, não.

– Por causa de todas as coisas que aconteceram – ela começou a responder à pergunta que eu tinha feito antes, com um olhar perdido, engolindo seco. Vi o músculo mover na garganta, o maxilar trincar e os olhos marejarem. – E porque eu vou embora.

 

– Esse ano foi muito proveitoso para todos nós. Que nós possamos seguir com os nossos sonhos, buscando ainda mais sabedoria nos nossos caminhos.

Minha voz estava trêmula no microfone. Dava para ouvir até os meus dentes baterem. Éramos todos tão minúsculos dentro da estrutura do Castelo Alfredini. E levamos tanto tempo para arrumar todas as coisas por aqui. Tinha várias faixas homenageando o corpo docente e alguns alunos em especial. Também tinha os banners engraçados, pendurados ao fundo. O que dizia “Terceirão, vocês não fizeram mais do que a sua obrigação” tinha me arrancado boas risadas assim que cheguei.

Por causa da ansiedade de Polly e do conforto de Dona Símia, decidimos todos ir mais cedo. A viagem de São Patrique até lá era demorada. Apesar de termos ficado sem gasolina em um momento, ainda assim chegamos no horário combinado. Eu, Polly, Wilson Zerla, Dona Símia e Maurício apertados em um carro. Cadu tinha lamentado por horas no nosso grupo (Formatura dos Otários) do celular porque teria que ir com a família no próprio carro. Mas não sentimos piedade dele, seu único interesse em viajar até o Castelo Alfredini dentro do fusca enferrujado do avô de Wilson Zerla era um certo rapaz de terno vinho florido. Ah, as pessoas acham seus pares perfeitos uma hora.

A primeira coisa em que reparei quando chegamos foi obviamente a cadeira ainda vazia de Édra Norr. Mesmo que seu pai estivesse lá, ereto, conversando com pessoas aleatórias. A segunda coisa foi em como todos estávamos tão elegantes que nem parecíamos os alunos suados e entediados que fomos durante todo o ano letivo. Era engraçado como algumas pessoas se pareciam tanto com seus parentes. Narizes, queixos e cores de cabelo. Camila Dourado estava acompanhada de Renata e Léon, usava um vestido que parecia ter custado mais do que eu juntaria se economizasse por três anos. E ela estava acompanhada de Luiz, que foi a terceira coisa em que reparei. É, as pessoas realmente acham seus pares perfeitos uma hora.

Mamãe e papai viriam para cá assim que fechassem o mercado. Eu estava evitando encontrá-los, porque estava com medo de dizer um “sou lésbica” para responder qualquer pergunta que eles me fizessem, mesmo que a pergunta não tivesse nada a ver com isso. As notícias correm nessa cidade e eu tinha certeza que eles já desconfiavam de alguma coisa. Ainda mais me vendo de smoking em plena formatura. Ainda que tivesse uma costura feminina que valorizava a minha cintura, era um smoking e não um vestido elegante cheio de pedras, como o que Camila Dourado estava usando. Mamãe e papai com certeza já desconfiavam de tudo e só estavam fingindo que não. Eu tinha contado que parte do dinheiro que eles me deram para a roupa da formatura seria para esse smoking, do brechó, e eles fizeram aquela expressão que eu já conhecia.

Apesar de que todas as nossas últimas conversas tinham sido supersérias sobre eu prestar os vestibulares. Papai me levou para fazer todas as provas. Até para Nova Sieva, mas pena que nem tive tempo de conhecer o campus ou a cidade. No dia seguinte prestei vestibular em Glorado, depois em Pitsburgo. Eu e Édra Norr mal tínhamos nos visto, ou saído, nos últimos dias, quando todas as provas exigiam que eu entrasse e saísse de inúmeros ônibus. Como uma carga a ser despachada a qualquer momento pelos meus pais. Graças ao crescimento do mercado, eles estavam dispostos a me ajudar a cursar alguma coisa fora da cidade. Se eu também estivesse disposta a levar os meus estudos a sério.

Me lembrei de olhar docilmente para eles de cima do palco. Mamãe estava tão bonita em seus brincos de pedra que eu queria chorar.

– E que cada aluno de mérito seja lembrado por sua característica de honra. – Minhas mãos tremiam no púlpito. E eu mal conseguia segurar o meu papel.

Foi quando Édra Norr chegou, completamente deslumbrante e atrasada. Arrastando sua bicicleta para um banco vazio reservado para a família dela. Estava reformada. E meu coração se aqueceu por inteiro, porque eu sabia exatamente o que aquela bicicleta de sua mãe significava, ali, encostada no banco. Esqueci completamente o que precisava dizer. Só conseguia assisti-la se posicionar no lugar, inclinar a coluna, lançar um olhar doce para Dona Símia e outro cauteloso para o pai. Já para mim, ela respirou fundo, com um olhar compenetrado e uma boca de quem queria sorrir, mas não conseguia.

Parecia que agora cada um de nós estava tomando um rumo tão distante. Édra iria cursar contabilidade e não sei mais o que em Montana. Seu pai queria que ela fizesse duas faculdades ao mesmo tempo, na melhor faculdade particular que se tem notícia fora do país. Ele estava disposto a fazê-la herdar todas as coisas. E ela estava disposta a ter condição financeira para ajudar Dona Símia em tudo o que precisasse, já que, depois da apresentação no feriado, ela foi mesmo impedida de lecionar para as crianças no instituto. Polly estava obcecada por moda e pela criação de vestidos chiques. Wilson Zerla queria muito ser diretor de colégio e estava totalmente ligado à pedagogia. Cadu Sena comentou sobre continuar dentro da área de Educação Física, queria ser treinador e tinha uma paixão muito viva por futebol. Lembro de Maurício rindo, tentando imaginar Cadu contendo uma classe inteira de alunos. Maumau já estava terminando seu curso de bibliotecário e pretendia ficar mesmo em São Patrique. Polly estava pesquisando faculdades de moda em toda parte, e Wilson Zerla, com o nível de QI arrogante que ele tinha, não parecia nem um pouco preocupado em prestar vestibular no mesmo lugar que Polly. Ele sabia que iria passar. Onde quer que ele quisesse estudar.

– Georgie Louise, pela sagacidade. Lúcia de Castro, pela astúcia. Wilson Zerla pela... Wilson Zerla pela...

Solidariedade, Íris.

A palavra certa é Solidariedade.

– Fala sério, Wilson Zerla é um gênio – deixei escapar em alto e bom tom pelo microfone. Todas as pessoas se consertaram em suas cadeiras. E eu só percebi, obviamente, depois que tinha dito. E depois que os cochichos foram ganhando mais volume, comparados ao meu silêncio no púlpito.

Vi os oradores que contratamos e grande parte do corpo docente me olharem de olhos arregalados. Alguns deles balançavam a cabeça negativamente para mim em câmera lenta.

Eu tinha uma nova promessa comigo mesma. A de ser honesta, a de agir conforme os meus princípios e a de nunca mais ser a garota que se tranca no quarto e apenas vive no mundo das novelas. Eu precisava ser eu mesma. Custasse o que fosse.

– Quero dizer... – Regulei um pouco mais o microfone para que saísse de tão perto da minha boca e eu pudesse falar direito. – Ele é mesmo um gênio. Ainda que quase todos nós não tenhamos reparado nisso nos últimos três anos. Muitas pessoas aqui têm coisas boas a serem citadas. E nem todas elas estão nesse papel idiota sobre mérito e honra.

Ok, eu já tinha começado a estragar tudo e iria terminar. Todos estavam olhando para mim. Muitos senhores de idade que eram avôs e avós de alguém me encaravam, pálidos.

– Todos aprendemos algo e todos vamos levar alguma coisa daqui. E estamos todos nos formando juntos. Então, vamos lá, todos nós temos um pouco de mérito por termos sobrevivido ao Ensino Médio. Polly, estou orgulhosa de você mais do que posso falar. Cadu Sena? Uou, você é uma das pessoas mais doces desse colégio e quase ninguém tem noção disso.

Alguém entre os formandos disse “gay” de forma debochada. E eu pude ouvir.

– Tá, tudo bem, se querem mesmo levar as coisas a esse nível. Vamos lá. – Arranquei a minha toga com tudo. – Todo o sistema do mundo, todo esse Ensino Médio e todas as pessoas aqui são uma farsa. Nós somos cópias de cópias de cópias. Quantos de nós vamos precisar fazer o mesmo que os nossos pais? Quantas de nós estamos reproduzindo todas as atitudes das nossas mães, para preencher suas expectativas? E sobre nós mesmos? Onde está a parte onde escolhemos nossos próprios caminhos e nossas próprias personalidades? Quantos de nós temos o nosso jeito brilhante de ser resumido a nada, só porque esse jeito “brilhante” brilha de forma diferente? Se queremos coisas diferentes, se sonhamos diferente, se temos um corte de cabelo diferente ou se vamos às nossas próprias formaturas da forma que queremos nos vestir, somos apedrejados por todos vocês. Não podemos ser nada além de cópias, porque, quando nos apropriamos de quem realmente somos, nós incomodamos demais. E somos a nova piada. Todos os dedos se esticam para nós!

Percebi que alguns oradores se aproximavam com um sorriso sem graça para tentar contornar a situação que eu estava criando.

– Eu ainda não acabei. – Desconectei o microfone do suporte metálico e me afastei do púlpito. Eu falei sério sobre ser uma gata de smoking. – Está tudo bem. Alguém uma vez me disse que está tudo bem em ser um alien virgem de alguma coisa. Está tudo bem em sermos diferente. Está tudo bem em sair da margem e deixar de ser a cópia da cópia da cópia. Está tudo bem em seguir a carreira que quiser, em ir morar onde quiser, em amar quem quiser. Somos pessoas. Somos particulares. E se isso significa ser um alienígena para todos vocês, eu honestamente não dou a mínima. Sei que zombam e riem de nós porque queriam ter a nossa coragem. Então, sim, que cada aluno de mérito seja lembrado por sua característica de honra. Wilson Zerla, pela genialidade. Polly, minha Poliana Rios, pelo coração gigantesco. Cadu, ei, Cadu Sena, pela doçura. É muito fácil ser forte, mas não é fácil ser gentil como você é. E Édra Norr... – Olhei para ela, boquiaberta em seu assento. Parecia a mulher dos meus sonhos com aquele novo corte de cabelo. Sim, eu sonho com mulheres. Porque eu sou lésbica. – Você abriu a cabeça de todos nós desse colégio onde nada nunca acontece. Você nos mostrou que vale a pena pagar qualquer preço para ser quem nós somos. Então, Édra Norr, pela coragem. Pronto. Agora eu disse tudo o que eu queria – falei para todas as pessoas na enorme catedral do Castelo Alfredini. E já estava me virando para descer do palco. – Na verdade... – Eu voltei para alcançar o microfone. – Não somos amigas.

Estávamos todos prontos para beber e comer na área separada apenas para nós, alunos.

– Foi um belo discurso. – Ira Alfredini surgiu ao meu lado, mexendo uma azeitona dentro de uma taça elegante. – E esse é um belo smoking.

– Obrigada, I ponto A. – Eu sorri para ela. – Esse é um belo castelo. Soube que ajudou a minha turma a alugar tudo isso aqui pra essa formatura acontecer.

– É, eu fiz o que pude. – Ela deu um gole, com os lábios tortos para um lado e um olhar presunçoso. – Se conseguir passar para a UNS, pode contar comigo.

– Como sabe que prestei vestibular para a Universidade de Nova Sieva? – Minhas sobrancelhas se arquearam.

– Eu sei de tudo o que acontece em Nova Sieva. – Ira correu os dedos entre os cachos dourados.

Que engraçado. Lembrava muito bem de quando toda essa “onda lésbica” tinha começado. E que Ira tinha sido a primeira garota que beijei na vida.

Entortei o meu nariz, querendo indagá-la sobre cada coisa da UNS e perguntar como diabos ela sabia sobre eu ter ido prestar vestibular lá. Mas Édra Norr surgiu antes que eu pudesse abrir a minha boca, com uma cara não muito amigável.

– Com licença – pediu educadamente e saiu me arrastando pelo braço antes que eu pudesse ter qualquer reação sobre tê-la visto tão de perto depois de dias que pareciam ter sido infinitos.

Ela não disse uma só palavra durante todo o percurso. Mas o meu coração disse, em inúmeras batidas arrítmicas. Viramos inúmeros corredores como se ela já conhecesse o lugar como a palma das mãos. Tentei me perguntar o que estava acontecendo. Tentei pará-la, perguntando o que ela pretendia fazer e para onde estava me levando. Mas a verdade é que eu não estava nem aí. E tudo em que conseguia focar naquele momento era em como seu cheiro me deixava inebriada, como ela estava mais bonita do que nunca e como era charmosa por trás de todo aquele semblante zangado.

Édra saiu conferindo maçaneta por maçaneta de um longo corredor, ainda me segurando pelo braço. Quando uma porta se abriu, ela me empurrou para dentro.

– O que foi aquilo? – perguntou ela, parecendo descontrolada. – O que você acha que está fazendo?

– Não faço ideia do que você está falando. Respondi, em minha defesa. Em um smoking, ela conseguia ser mais gata que eu. Principalmente folgando a gola apertada no pescoço. Estava suando. Parecia completamente incomodada no traje apertado. Que, mesmo sendo justo, não tinha um recorte feminino como o meu. Só era sob medida. Cabia nela, perfeitamente. E o Castelo Alfredini estava mesmo calorento. Depois de tanta tempestade, não víamos uma só gota de chuva fazia semanas.

– Eu vou embora. Você sabe que eu vou embora. Eu sei que eu vou embora. Então qual a necessidade de ficar brincando com a minha cabeça? Não ando brincando com a sua. Decidimos isso. Somos amigas.

– Não somos amigas – rebati, me apoiando na mesa oval atrás de mim. Estávamos dentro de alguma sala que eu nem conseguia identificar de que cômodo se tratava. Tinha essa enorme mesa oval no centro, várias poltronas, livros e quadros chiques com molduras de ouro pendurados na parede. Parecia uma sala de reuniões ou sei lá o quê.

– Eu estou fervendo aqui dentro. – Édra Norr arfou, puxando com ainda mais força a gola do conjunto que compunha o smoking. – Somos amigas. Pare de dizer isso. Pare de dizer que não somos. – Ela se virou para mim, furiosa. – Você perdeu sua virgindade com Cadu Sena. Um dia depois que brigamos.

– Você beijou Camila Dourado. E não fazia nem vinte e quatro horas que tínhamos brigado.

– Camila Dourado me beijou. E mesmo assim, nunca senti nada por ela. Eu só estava tentando fazer dar certo desde o primeiro dia, ela também estava tentando. – Os olhos de Édra pareciam uma tempestade a caminho, me encarando.

– Cadu Sena também me beijou. E eu retribuí. Estava confusa sobre mim mesma e sobre tudo. Queria que alguém me mostrasse algo, qualquer coisa, pra que eu tivesse certeza sobre mim mesma. E isso tudo só começou depois que você apareceu, colocando essa grande interrogação na minha cabeça sobre gostar ou não de garotas. E você nunca desfez a interrogação, Édra. Você nunca me ajudou a encontrar a resposta. Só me trouxe mais dúvidas.

– Você queria que tivesse te ajudado a encontrar uma resposta? – perguntou Édra, e eu não conseguia ler a expressão em seu rosto. Como sempre.

– Queria – respondi, encarando-a de volta. Ainda que fosse muito difícil fazer isso sob a mira do seu olhar compenetrado. Me sentia atravessada por ele.

Édra deu as costas para mim, saindo como um furacão. Não disse uma só palavra. Como... Ela... Ousa.

– Ah, claro! Faça isso mesmo! – gritei para as costas dela. – Me traga para o meio do nada e me deixe aqui, falando sozinha. – Revirei os olhos, querendo quebrar tudo dentro daquela sala. – Você é uma grande idiota mesmo – sussurrei para mim mesma.

E aí ouvi o barulho estrondoso de madeira sendo arrastada pelo chão do corredor fora da sala. Édra Norr surgiu novamente, com uma cadeira que parecia ter o meu peso.

– O que você vai fazer com isso? – perguntei, em voz alta, ainda que eu pudesse jurar que a pergunta era só um pensamento povoando minha cabeça diante daquela cena.

Édra posicionou a cadeira sob a maçaneta da porta, travando a entrada.

– Eu vou te dar a resposta.

Ela veio na minha direção, puxando a gola do smoking.

A língua de Édra Norr dentro da minha boca era quente e tinha gosto doce. Eu só percebi que aquilo não se tratava de um simples beijo quando senti a mão dela desabotoar o primeiro botão da camisa branca que eu usava por baixo do meu smoking. Não tentei impedi-la. Queria aquilo mais do que ela.

Édra liberou nos botões o espaço que precisava para que sua mão entrasse na minha roupa e alcançasse o meu peito. O gemido escapou naturalmente de dentro da minha boca para dentro da boca dela. Nosso beijo foi ficando cada vez mais intenso e eu sentia a respiração dela quente contra a minha pele. Eu não fazia ideia do que fazer com as minhas mãos, tentei segurar o rosto dela. Meus dedos escorregaram em um carinho que fez com que Édra se afastasse do beijo imediatamente.

Seus olhos pareciam caídos, vulneráveis e gulosos.

– Não faça isso comigo – pediu, quase que em um sussurro. Sua voz era tudo o que se podia ouvir naquela sala onde estávamos. – Eu vou embora.

Meu coração gelou dentro do peito. Eu sabia disso. Eu tinha consciência de absolutamente tudo. Mas a queria dessa forma mais do que qualquer coisa que já pude querer na minha vida.

– Então me dê uma boa memória de despedida. – Agarrei Édra pelo rosto, voltando para a sua boca.

Se iria acabar uma hora, eu queria que cada segundo valesse a pena.

Tudo no meu corpo estava superaquecido. O beijo de Édra Norr tinha um efeito surreal em cada centímetro da minha pele. Dei uma mordida leve na boca dela, que a fez deixar um gemido escapar. Não sei nem descrever o que aquele som me causou. Seus dedos afastaram meu cabelo para o lado, abrindo um caminho perfeito para que os seus lábios escorregassem pelo meu pescoço. Senti a pele do meu pescoço ser sugada, lambida, molhada. Meu coração já estava tão acelerado que eu podia morrer. Nossos corpos se encostaram mais e eu vi que meu coração não era o único que tinha enlouquecido. O de Édra Norr latejava contra o meu peito. Tão forte que sentia como se pudesse escutá-lo através do ritmo. Ainda assim, teria que bater um pouco mais alto, se quisesse sobressair ao som dos estalos que todos os nossos beijos e movimentos faziam no eco daquela sala. Fui me deitando na mesa oval, sendo guiada pelos comandos de Édra. Me sentia confusa sobre o que fazer em cada parte e se deveria mesmo fazer algo. O olhar de Édra Norr sobre o meu corpo parecia saber exatamente como lidar com cada parte de mim. Sua mão desabotoou o resto dos botões do meu smoking conforme seus olhos escuros me encaravam com cautela. Era como se analisassem a minha reação para tudo, esperando uma autorização minha para continuar fazendo o que quer que fosse. Eu não dizia “continue” ou “pare”. Meus gemidos escalavam a minha garganta e pareciam autorizar Édra a tomar qualquer atitude.

Meu corpo estava tão quente que parecia ter saído do forno. Minha temperatura só contrastava com a superfície daquela mesa gelada.

A lentidão de Édra em seus movimentos me fazia desejar a minha própria morte. Havia um misto de cautela e pirraça. Cautela no seu olhar, estudando minhas reações. Pirraça nos sorrisos discretos e cínicos, quase que imperceptíveis, para os meus gemidos.

Ela se inclinou e deslizou a língua pela minha barriga. De um jeito tão devagar e tão molhado, que deixou em mim um rastro de arrepio. Arranhei a mesa quando sua boca encostou no meu peito. A sensação era tão. Apenas “tão”. Nada além disso pode descrever a quentura de sua língua e como o meu corpo respondeu a isso.

Entrei em estado de alerta quando ela alcançou minha calça. Me senti tímida. Mesmo sem fôlego, me senti desajeitada. Eu não era ingênua a ponto de não saber o que ela faria depois, mas eu nunca tinha feito isso antes. Não aconteceu metade dessas coisas com Cadu Sena. Não fiquei surpresa em estar um pouco insegura, meu rosto aqueceu e acho que Édra percebeu. Porque ela parou. Por que parou?

– Eu posso parar por aqui, se você quiser – Sua voz era serena e seu olhar era paciente. O que não condizia nada com a respiração ofegante e ansiosa para continuar avançando níveis no meu corpo.

Os cabelos, mais bagunçados que de costume, me fizeram sorrir.

“Dane-se” digo eu, Édra Norr.

– O quê? – perguntou ela, inclinada sobre o meu corpo deitado na mesa oval. Balancei a cabeça negativamente, dando de ombros. E cobri os meus olhos com a minha mão. Ela deu uma risada curta e abafada enquanto se inclinava ainda mais, agora entre as minhas pernas. Senti seus cabelos se esfregarem nas minhas coxas quando ela chegou lá.

Não sei explicar o que foi aquilo. O calor tomou conta das minhas pernas assim que Édra deslizou a minha calça para o chão. Alguns beijos na lateral da minha coxa me fizeram morder os lábios. Os cabelos se encostavam em toda parte, a orelha era fria contra a minha pele. Seu brinco de metal estava gelado.

Só conseguia senti-la; minha mão ainda cobria os meus olhos. Eu não queria ver nada, não queria que meu coração parasse e não queria que minha timidez estragasse algo que eu queria tanto. Parecia tão certo. Hesitei um pouco assim que a minha calcinha passou de uma perna para outra e então para fora do meu corpo. E a sua boca me tomou como se tivesse sido feita para mim. Tudo ficou molhado, em uma textura que eu nunca tinha sentido antes.

A língua de Édra Norr era quente em mim. Quente e precisa. Precisa e rígida. Rígida e macia. Mordi a manga do meu smoking para que eu não nos entregasse para algum vigia, por causa dos sons que queriam sair a todo custo da minha garganta. Meus gemidos, entregues. Ela ia de cima para baixo, de baixo para cima. Pincelava pequenos círculos com a língua. Tudo pulsava. Eu podia jurar estar bêbada por cada sensação. E as sensações vinham uma atrás da outra, cada vez mais intensas e profundas. Sabia que, em algum lugar ali embaixo, seu queixo estava se encostando em mim. Com aquele sinal que eu adorava. Podia me sentir molhada contra o queixo de Édra Norr. E também contra os seus lábios. Não sabia que era possível me sentir pegando fogo e, ainda assim, com frio na barriga.

Aquilo era tão, tão certo de estar acontecendo.

Um de seus dedos encontrou o caminho para dentro de mim. E tudo ao mesmo tempo me fazia sentir como se a minha alma estivesse desacoplando do meu corpo.

Quando eu já não podia mais aguentar, a minha mão escapou dos meus olhos e me inclinei um pouco na mesa para vê-la, nem que por uns segundos. Ela percebeu o meu corpo se erguer contra a sua boca e subiu o olhar. Nossos olhos se encontraram e colidiram, como um acidente de carro, como meteoros no espaço, como as alienígenas que éramos. E que sempre seríamos. Totalmente conectadas depois daquilo. Senti como se fosse desmaiar. Era a minha resposta. E o meu corpo fervendo caiu de vez na mesa gelada.

Édra Norr sorriu para mim.

Eu ainda estava boquiaberta e ofegante.

– Você tem razão. – Ela se deitou ao meu lado na mesa. Sem fôlego e cansada. O queixo dela brilhava, um pouco da ponta do nariz também. Os lábios estavam bem mais corados que de costume, como se tivesse muito sangue correndo por dentro deles. E os cabelos caíam desgrenhados e totalmente suados na testa. – Não somos amigas. E nem tem como sermos amigas. – Ela limpou o canto da própria boca. Eu a encarava e ela encarava o teto. – Porque eu sou apaixonada por você.

 

– Ai, meu Deus, ai, meu Deus, ai, meu Deus. – Polly começou a dar pulinhos, com a boca cheia de salgadinhos de camarão. – E então vocês se beijaram?

Eu balancei positivamente com a cabeça. Me sentindo tímida.

– Foi perfeito! – Polly suspirou. – Foi muito como numa novela.

– É. – Eu sorri vendo Édra Norr encher o copo de ponche do outro lado da festa. Nos olhamos rapidinho e ela deu um sorrisinho para mim. – Foi mesmo como numa novela.

– E agora? – perguntou Polly, se deitando no meu ombro. Estávamos perto da mesa de salgados, sentadas, observando a festa ir a todo vapor.

Dona Símia tinha dançado tanto que se cansou, e estava cochilando na mesa com mamãe e papai, porque eles prometeram uma carona para ela. Cadu Sena e Maurício tinham sumido (eu não queria nem sonhar com o que estavam fazendo). E Wilson Zerla estava bêbado na pista de dança. Para compensar sua genialidade, ele não dança nada bem.

Eu sabia que Édra Norr só tinha mais algumas horas antes de pegar o voo para Montana. Mas naquele momento, apesar de tudo, eu tinha uma boa memória de despedida. E ainda me sentia embriagada demais com ela para pensar em qualquer outra coisa.

– Não faço a menor ideia. – Respirei fundo, respondendo a Polly enquanto observava Édra se esbaldar em ponche e sujar um pouco a gola da camisa. Memórias arrepiaram a minha nuca.

– Com licença, gatinhas. – Dois garotos surgiram, mas apenas um deles (o que aparentava ser bem mais esnobe) falava. Me perguntei quem os tinha convidado. – Vocês estão acompanhadas? Querem dançar? Duas garotas bonitas assim não deveriam estar dando sopa por aí.

– Eu tenho namorado. – Polly se esquivou, entediada, com a boca cheia de salgadinhos.

– E eu sou lésbica.

Caramba, fica cada vez melhor dizer isso em voz alta.

– Íris?

Eu já estava prestes a ir embora quando a professora de literatura me chamou no estacionamento do Palácio Alfredini. Meus pais decidiram ir caminhando mais à frente. Minha mãe já estava carregando os sapatos na mão e tinha bebido mais do que eu e os meus amigos conseguimos beber (batizando o nosso ponche escondidos). Eu disse para Maurício que ele não precisava se preocupar comigo e que eu já tinha como voltar pra casa. Não só eu, como a Dona Símia, que iria aproveitar a carona de papai e mamãe por ser nossa vizinha e agora, assumidamente, a minha segunda melhor amiga. Dona Símia não podia ficar até tarde, o que era outra razão para estarmos indo embora antes que a festa de fato terminasse. Ela iria viajar para passar uma temporada com a família no interior, todo mundo estava preocupado demais em deixá-la sozinha em São Patrique depois do susto que levamos. Acalmei as preocupações de Maurício e o vi comemorar internamente que não precisaria mais esperar todo mundo ir pra casa. O caminho estava livre pra que ele e Cadu Sena fossem embora no mesmo carro. Sorri enquanto passava por eles. A família de Cadu Sena e os amigos dele estavam tomados pela desconfiança, mas mesmo assim Maurício conseguiu raptá-lo sem que quase ninguém percebesse. E eu podia sentir que, quando o álcool passasse, mamãe e papai também teriam muitas perguntas a me fazer. Eu não estava preparada, mas também não estava com medo. O bom de aprender a falar a verdade é que você começa a gostar disso e a abraçar (sem peso na consciência) qualquer consequência que venha da sua honestidade.

Polly e Wilson Zerla eram um novo casal e estavam naquela fase onde um tenta impressionar a família do outro, que estão acabando de conhecer. Eu e Polly nos abraçamos mais vezes do que posso contar e o ponche batizado nos fez remoer toda a trajetória da nossa amizade e pedimos desculpas uma a outra pelas dezenas de vezes que quase colocamos tudo a perder porque somos jovens e estúpidas demais às vezes. Os pais de Polly e a família de Wilson combinaram de estender as comemorações e até nos convidaram para comer pizza na volta para casa. Mamãe estava rabugenta demais e com dor nos pés, papai tinha trabalho no dia seguinte e Dona Símia ainda precisava fazer as malas para uma ida sem previsão de volta. Eu agradeci internamente quando recusamos em unanimidade o convite feito pela mãe de Polly, porque assim poderia voltar pra casa e ter o meu momento reflexivo deitada no tapete, ouvindo minhas músicas, olhando pro teto e pensando na novela que a minha vida tinha se tornado.

A festa estava quase no fim. Mas, para mim, ela já tinha acabado desde o momento que me despedi de Édra Norr. Depois disso, eu não consegui mais me divertir da mesma forma. E eu não estava triste. Só completamente imersa no meu próprio mundo. Num transe nostálgico sobre tudo o que tinha acontecido. Meu corpo ainda sentia Édra Norr em todos os lugares. Meu coração, de todas as partes, foi a que mais a sentiu.

O problema (ou talvez a sorte) em se despedir de algumas pessoas é que elas vão, mas elas ficam.

Passei o resto da noite me perguntando o que ela estaria fazendo. Imaginando ela entre as pessoas. Se servindo de ponche, fazendo piadas infames, me irritando propositalmente, descansando a cabeça no ombro de Dona Símia ou sorrindo pra mim.

Mas ela não estava mais lá.

Eu estava me perguntando em qual dos aviões (que rasgavam o céu acima do estacionamento) ela poderia estar. Aviões parecem estrelas cadentes, você pode fazer um pedido para um Boeing 777 sem nem fazer ideia de que está apostando seus sonhos num gigante de ferro. Na falta das estrelas cadentes, já fiz muitos pedidos a aviões. Era coincidência demais para mim que Édra fosse embora numa estrela cadente. Digo, num avião. Eu olhava pro céu sem saber se fazia um pedido ou se me despedia novamente.

Desejei que ela me enviasse qualquer sinal de que sempre estaria comigo.

E quase morri do coração quando senti uma mão agarrar o meu braço.

– Oi, professora. A senhora precisa de uma carona? – perguntei, nervosa.

– Não, eu estou bem. Obrigada. – Ela sorriu, mas parecia preocupada. – É sobre seu trabalho de literatura. Eu preciso que você me entregue qualquer coisa pra completar os pontos que faltam pra você passar. Eu vou sair de férias e sou a única pessoa que pode te dar essa nota. Você foi uma aluna extraordinária, Íris. A sua dupla, Édra Norr, me entregou dois poemas. Mas os dois estavam com a letra dela. Eu não posso te pontuar se você nem ao menos tentar me entregar um trabalho feito por você mesma.

Meu Deus! O trabalho de literatura. Meu trabalho de literatura em dupla com a Édra. Ela fez Eucalipto se baseando em Lapsos de desejo. E eu escolhi Descobrindo o amor e não produzi nada.

– Professora! Meu Deus! Me desculpa mesmo por isso. Muita coisa acabou acontecendo e pra piorar eu sou péssima em escrever poemas.

– Não precisa ser um poema. Me entregue qualquer material que tenha a ver com a temática do livro que você escolheu. Pode ser um poema, um texto, uma carta. Qualquer coisa pela qual eu consiga te pontuar de maneira justa e equivalente ao que você me entregar. Você só precisa de um único ponto pra passar, você sabe que consegue.

– Uma carta? – Meus olhos saltaram.

Como se essa fosse a única coisa que ela tinha dito.

– É, uma carta. Pode ser, sim, uma carta.

Eu não sei se acabei sorrindo de empolgação ou de nervoso. Eu precisava escrever uma carta de amor para passar de ano. E eu já sabia exatamente quem a receberia.