O Amor Não é Óbvio
10 | Alta velocidade
ALTA VELOCIDADE
Eu estava sem blusa no banco daquele carro e o ar-condicionado ligado arrepiava meus braços. Eu não sentia frio. É claro que a bebida corria quente na minha corrente sanguínea. A essa altura, nem me lembrava mais quantas doses tinha tomado.
Eu a olhei. Não sabia direito o que estava sentindo sobre tudo o que tinha acabado de acontecer e o que ainda estava por vir. É claro que não planejei absolutamente nada disso. As coisas aconteceram de repente e, em uma fração de segundo, a situação simplesmente saiu do meu controle. E deixei que Édra Norr, de certa forma, assumisse a responsabilidade por mim.
Sei que não deveria, mas o que eu posso fazer? Bebidas alcoólicas me deixam tão... Júlia.
– Você tá pronta? – perguntou Édra Norr, cautelosa, enquanto se inclinava na minha direção com um olhar sério. – Posso?!
9 HORAS ANTES
– O que você quer que eu faça? – perguntei, mais baixo, quase enfiando o celular dentro da minha boca para que meus pais não ouvissem o que eu estava prestes a dizer: – Quer que eu fale “Ei pai, ei mãe, será que eu posso ir para uma festa na praia e dormir na casa de um garoto que só tem saído comigo faz umas, sei lá, duas semanas?”
– Íris... – Polly arfou. – Você não sabe mentir? Fala sério, diz que vai dormir aqui. Eu cubro você. Eu acho que você está nervosa, pra falar a verdade. E tá inventando desculpa pra não ir.
Com a pistola de etiquetas atirei em mais alguns pacotes de chocolate granulado enquanto respirava fundo, procurando uma resposta exata para Polly. Já que, pela milésima vez, ela estava esfregando a verdade na minha cara.
– Certo, mas e se eles ligarem? – continuei sussurrando, enquanto colocava os preços. – Tipo, a minha mãe é amiga da sua.
– Caramba, Íris! – Polly quase que gritou no telefone. – Relaxa! Só fala que vai dormir aqui na minha casa. Você pode se arrumar aqui, inclusive. Depois, se rolar mesmo, você pode dormir na casa do Cadu Sena e eu cubro pra você.
– E o Luiz?! – indaguei, sem saber exatamente qual era o plano.
– Eu vou dar um jeito de trazer ele pra cá. É que o irmão dele está na cidade e eles estão dividindo o quarto, então não dá pra ser lá.
– Ué, e eu vou dormir onde, se Luiz for dormir aí?! – Minhas sobrancelhas se juntaram na minha testa.
– Na casa de Cadu Sena com ele, ué! – exclamou Polly do outro lado da linha.
– Cara, eu não disse que iria. – Olhei em volta, só para me certificar de que nem Seu Solizeu nem Carina estavam escutando a nossa conversa.
– Mas também não disse que não iria – Polly insistiu. – Por favor, Íris, se dê uma chance! Por mim.
– E se não rolar? Sei lá, Polly, nunca se sabe. Mas se não rolar – continuei, tentando entender a sacada de mestre que Polly pretendia fazer para que Sandra Rios não notasse um adolescente na casa dela. – Onde eu vou dormir?
– No sofá? – Polly riu. – Ai, amiga, sério. Não é como se eu fosse passar a noite inteira com Luiz. Ele vai embora depois, pula a janela, ou sei lá. Costuma funcionar nos filmes.
– Polly... – Apertei os meus olhos para o pacote de granulado em que eu atirava uma etiqueta de preço, como se ele fosse Poliana. – Nós não estamos em um filme.
– Positivismo! – Pude ouvi-la saltitar. – Preciso correr pro salão agora, quero estar uma deusa hoje à noite.
3 HORAS ANTES
Você já teve aquela sensação de que, bom, tudo vai dar absolutamente errado pelo simples fato de você ter mentido pros seus pais?! É como se o universo fosse uma mãezona que odeia mentiras e conspira para que seus pais te peguem no flagra sempre que você decide trapaceá-los.
Não que eu não minta pros meus pais, é claro. Sei que isso não é correto, mas como eu vou olhar nos olhos de Ermes Pêssego e dizer que a macarronada com almôndegas que ele faz no meu aniversário é horrível? (E ele continua acreditando que é meu presente favorito...) Como vou enfrentar a fúria de mamãe e dizer que sou eu quem rouba todos os palitinhos doces que ela distribui no consultório, se eu culpo crianças aleatórias há quase oito anos?!
Às vezes mentir é a única saída. Só que, sério, não existe nada que dê mais tensão que mentir pros seus pais sobre sair. Parece que tudo vai dar errado. Parece que você vai se entregar na hora de pedir. E é impossível não mentalizar qual será o seu castigo se eles descobrirem.
“Boa noite do pijama, filha.” Foi o que a minha mãe me desejou quando me deixou na porta do casarão de Sandra Rios. Ela subiu o vidro do carro em câmera lenta; posso jurar que minha mãe meio que já sabe que estou mentindo e quase gritei que estava mentindo mesmo. Momentos assim me fazem entregar todo o jogo. Eu não sei lidar com essas coisas, devo ser meio cardiopata, como a maioria das pessoas nessa família.
Isso está mesmo pesando a minha cabeça e eu estou há trezentas horas tentando fazer um delineado legal no meu olho (que pareça mesmo um delineado, não essa asa de gavião).
E não consigo não sentir que vai dar tudo errado.
– Cara, já são quase dez horas da noite e você continua limpando e recomeçando isso – disse Polly, deitada na cama, e eu quis simplesmente que alguma bigorna caísse na cabeça dela, como acontece nos desenhos animados.
– É claro! – Nem me dei o trabalho de encará-la, continuei tentando consertar a “asa de gavião”. – Você se arrumou num salão de beleza e eu tô aqui – e sussurrei: – quase correndo risco de ser presa por roubo de aves.
E, sério, ela parecia que tinha saído de um filme de comédia romântica no Havaí. Com aquele quimono bordado, shortinho jeans e maiô-grudado brilhante. Os cachos estavam extremamente volumosos e a boca parecia muito maior e mais desenhada naquele batom vermelho aveludado, como se fosse um coração perfeito.
– Ai, Íris, fala sério. Você é linda e você sabe disso. O cara mais disputado do colégio inteiro tá no seu pé. O que mais você quer da vida?!
– Que meus delineados fiquem iguais. – Arfei.
– A gente precisa sair daqui agora – disse Polly, e vi seu reflexo do espelho, mexendo no celular. – Luiz me mandou uma foto brindando com Cadu Sena. Como eles conseguem ser tão bonitinhos assim?
– Tô pronta! – Pulei da cadeira, de frente pro “camarim” que Sandra Rios tinha instalado no quarto de Polly quando ela fez quinze anos.
Mas Polly me olhou de um jeito muito reprovador.
– Não, você não tá pronta. – Ela levantou da cama, respirando fundo. – Vamos mudar a sua roupa, ninguém vai à praia de jeans e tênis, Íris.
Deixe eu te contar uma coisa sobre os cidadãos de São Patrique... Nenhum deles sabe exatamente o que a palavra “limites” significa. E, eu sei, não posso falar muito sobre isso ultimamente, mas, cara... Olha só para essa festa inofensiva em comemoração ao time de futebol do colégio. Quero dizer, tem um cara surfando na areia de tão louco. E quantas tochas acesas... Alguém vai pegar fogo!
Estávamos todos meio amarelados por causa da chama das tochas cravadas na areia. As pessoas já pareciam consideravelmente bêbadas, e uma pilha de latinhas e garrafas empilhadas na placa sinalizadora de coleta de lixo confirmava isso. Nem preciso falar sobre a multidão dançando, pessoas só de sunga e biquíni e essa boia de pato sendo arremessada para o alto.
Deus, quantos anos de castigo eu estou prestes a ter que cumprir só por fazer parte disso?
– Que cara é essa, Íris?! – Polly me deu uma cotovelada. – Ânimo!
Eu estava com uma roupa tão apertada que mal cabia no meu corpo. Polly me fez usar uma blusa de amarrar que, se alguém triscar no laço, eu fico nua. Na verdade, minhas costas já estão à mostra (com exceção do meu sutiã preto aparecendo, porque a brilhante Polly não teve uma ideia melhor e eu simplesmente não podia não usar sutiã com uma blusa dessas, nunca fiz isso na vida). Fora esse microshort que, cara, as minhas pernas parecem que vão explodir a qualquer momento pra se libertarem dele. E eu estou aqui, passando frio numa praia à noite em nome da beleza.
– Estou dois graus abaixo de zero – resmunguei, me abraçando. Um pouco do meu umbigo estava aparecendo.
– Você precisa se esquentar. – Ela sorriu maliciosamente para mim e, em seguida, olhou pros garotos preparando drinks variados.
Polly me puxou pelo braço e meu pé, naquela sandália rasteira que ela me obrigou a calçar, foi se arrastando pela areia fria. Senti o calor das tochas enquanto passava por elas. Também, respirando fundo, um cheiro mixado de perfumes, álcool e sal.
Quando Cadu Sena me viu, olhou diretamente pras minhas pernas.
– Chegou quem tava faltando. – Ele sorriu para mim, enquanto sacudia a coqueteleira de inox.
Tudo bem, porque eu também estava olhando para os braços dele, naquela camisa polo amarela.
– Onde o Luiz se meteu?! – indagou Polly, olhando em volta. – Eu podia jurar que tinha visto ele por aqui.
– Ele disse que ia pra tenda. Tá tendo uns jogos lá, a galera organizou um monte de coisa pra animar – explicou Cadu, abrindo a coqueteleira e despejando o líquido verde num copo.
– Vou procurar o Luiz! – Polly sorriu, beliscando o meu braço “discretamente”. – Vocês dois não sumam, hein? – Ela me olhou, tentando me dar uma espécie de sinal. – Fiquem juntos.
– E aí? – Cadu me olhou, com copos da bebida verde na mão. Pelo cheiro, chutaria caipirinha. Vovó é viciada em caipirinha. – Vamos pra um canto? – disse ele, me oferecendo o braço.
Eu o agarrei e fomos caminhando pela areia (enquanto eu torcia para que a minha roupa não explodisse conforme eu andava).
Cadu se abaixou numa canga perto de algumas tochas. Estávamos entre as pessoas, mas, mesmo assim, meio isolados. Isso porque, ao contrário dos grupos de amigos amontoados, apenas nós dois dividíamos a nossa canga preta cheia de sóis amarelos.
– Toma. – Ele me estendeu a caipirinha. – Fiz pra você. É irrecusável.
Eu sorri, pegando o copo. Dei um gole e foi um choque refrescante dentro da minha boca. Meus dentes trincaram, mas eu sobrevivi. E o sabor de limão tomou todo o céu da minha boca.
– E aí, o que você achou? – perguntou ele, abrindo um sorriso malicioso. – Não sei ainda, porque eu fiz, mas não provei.
– Hum... – segurei o riso, porque eu parecia muito idiota encarando Cadu Sena, mesmo desapontada com ele. Ele tinha aquela carinha incrível e eu simplesmente não conseguia. – Tá ótimo! Prove aí, pra você ver – sugeri.
– Certo – disse ele, olhando pra minha boca.
A palma da mão – grande e áspera – de Cadu Sena foi passando pela minha bochecha, se esquivando dos meus cabelos e parando perto da minha orelha. Ele se aproximou com os olhos fechados e é claro que, a esse ponto, os meus estavam arregalados. Quero dizer, estava esperando por aquilo desde a oitava série. Não podia ser verdade. Eu não estava acreditando que...
Meu Deus, ele vai me beijar! Ele vai mesmo me beijar.
Então, eu fechei meus olhos. Seus lábios grudaram nos meus e ele foi, em uma velocidade que eu não sei exatamente como classificar, roubando todo o sabor de limão que estava na minha língua.
Eu só conseguia pensar se estava beijando direito e em como acompanhar a língua dele dentro da minha boca. Tipo, sério, ninguém pensa nisso quando fica muito tempo sem beijar? É como andar de bicicleta, quando você não pratica, parece que você esqueceu e tem que reaprender.
Quando ele se afastou, eu tentei disfarçar a minha cara de apavorada. Surpresa, talvez. Talvez não, com certeza surpresa. Cadu Sena, O Cadu Sena, me beijou na boca, na frente de todo mundo.
Mas depois foi impossível disfarçar minha cara de “uau”. Édra Norr saindo do mar... De noite... Usando uma bermuda e um de seus tops de academia.
Édra parecia caminhar em câmera lenta, porque eu consegui captar todos os seus detalhes enquanto ela andava em nossa direção. A princípio, ela vinha do breu, não havia tochas naquela área perto do mar, mas eu sabia que era ela.
Conforme ela se aproximava, seu corpo ganhou o tom amarelado das tochas em chamas. Cada gota que escorria em diferentes partes, cada cicatriz que não estava totalmente curada, cada ponto cirúrgico pingando, cada arranhado em cor viva... Em cor de fogo. Seus passos molhados deixando rastros perfeitos na areia enquanto os grãos, que levantavam com seu caminhar, grudavam em sua perna. Ela não andava direito, mancava mais para um lado, se movendo devagar enquanto passava a mão direita entre os cabelos de forma abrupta, mas eu assistia a tudo em câmera lenta. Cada fio de cabelo (expelindo gotas que voavam para o ar) caindo de forma assimétrica, formando ondulações perfeitamente bagunçadas. O arranhado do queixo em carne viva, os pontos perto da sobrancelha pingando água de mar. E eu sabia que estava ardendo. Como não arderia? Era água salgada.
Édra tinha acabado de tomar banho de mar e era quase meia-noite. E, com tantos machucados, ela deveria estar ardendo por completo. Mas ela não parecia se importar com isso. E, quando passou na frente da nossa canga, me olhou de canto de olho percebendo Cadu comigo. Seu olhar era uma mistura de desdém e decepção enquanto ela tirava uma chave de dentro do bolso da bermuda molhada. Seus olhos caídos saíram dos meus. Ela apertou um botão e pude ouvir o apitar de um carro, misturado ao som da música que tocava na festa, um pouco afastado da canga onde eu estava.
– É, acho melhor eu procurar os meninos. – Cadu Sena foi se levantando da canga, como quem quisesse desaparecer.
– Cadu?! – perguntei, gritando para as costas dele. – Mas eu vou ficar sozinha!
Sobramos eu e duas caipirinhas. Revirei meus olhos com tanta força que quase fiquei cega. O que eu tinha feito de errado dessa vez, cara? Tipo, tá, uma pessoa passou e eu olhei pra pessoa que estava passando. Pessoas olham pra pessoas.
Eu sabia que alguma coisa iria dar errado nessa droga de festa.
– Só me resta beber – disse pra mim mesma, virando o meu copo de caipirinha. O líquido entrou na minha boca depois da saliva de Cadu Sena.
Pensar nisso me deu um arrepio, mas eu consegui estragar tudo. Porque, bom, eu sou Íris Pêssego, o que é que eu não estrago, afinal?!
20 MINUTOS ANTES
Certo, lembre-se de uma coisa: nada é tão ruim que não possa piorar. E eu nunca vi uma frase se aplicar tão bem na minha existência. Acho que quando eu for pro céu, ganharei de Deus um prêmio por ter passado por tanto perrengue. Quero dizer, se eu sei que não tenho costume de beber, por que diabos eu fui beber tanto? Agora eu não consigo parar. Minha cintura ganhou vida própria.
Eu dançava descalça na areia, tinha deixado as sandálias rasteiras, que Polly tinha me emprestado em algum canto (que eu definitivamente não vou me lembrar agora). E a sensação de dançar descalça na areia é tão gostosa.
Mas é claro que não sou eu no comando agora.
Seja bem-vinda de volta, Júlia.
Não sei como eu estava conseguindo fazer aquilo numa sincronia perfeita, mas, de alguma forma, eu estava. Minha cintura rebolava por conta própria, meu pé descalço levantava a areia e meus braços pro alto batiam palma e sacudiam no ritmo da música.
Eu sei que, talvez, eu tenha sido uma grande idiota com Cadu Sena. E eu sei que, talvez, eu seja mais idiota ainda em admitir isso, mas Édra Norr chegou de volta na festa usando uma blusa social azul-marinho e uma calça preta dobrada abaixo dos joelhos. Combinava com o relógio e suas sapatilhas. Ela tinha tomado um banho em casa e voltado. E agora que ela estava sentada sozinha numa cadeira de praia, abrindo com o dente uma garrafa de Saborozzo (uma bebida famosa entre os adolescentes daqui, de frutas e vodka), eu só queria que ela me olhasse dançando. E não sei exatamente por que diabos eu queria isso.
Na verdade, eu sou um ser humano horrível.
A verdade precisa ser dita em alguma hora.
Eu deveria estar preocupada com Cadu Sena; deveria estar indo atrás dele ou procurando minha melhor amiga, que desapareceu desde que chegamos. Mas não, eu tinha que estar dançando e desejando que os olhos de Édra Norr, de alguma forma, me achassem entre as pessoas que também dançavam a minha volta.
Eu sou um ser humano horrível.
Na verdade, Júlia. Júlia é um ser humano horrível.
– Ei, gatinha – uma voz rouca, como de quem fuma cigarro (sei por causa de vovó), se aproximou. Uma pessoa encostou em mim, segurando minha cintura. – Tá sozinha?
– Tô. – Me virei com um sorriso falso. – E quero continuar assim.
Fala sério... Raul Mirante, o mais “ficha suja” de todo o colégio.
– É porque você não me conhece ainda. – Ele riu, com os dentes amarelados, e passou a mão (cheia de anéis pesados) no meu rosto. Eu quase vomitei, sério.
– Quem em São Patrique não te conhece, Raul? – Revirei os olhos, tirando a mão dele de mim.
Fui me afastando, mas Raul Mirante agarrou o meu braço.
– Eu quero dançar com você. – Ele arregalou os olhos. Suas pupilas dilatadas me apavoraram. Tentei me soltar e dei as costas pra ele mais uma vez.
E, então, senti a minha blusa escorregar para fora do meu corpo. O vento soprou na minha pele, despida, me arrepiando por inteiro. Meus olhos foram arregalando. Ele puxou o laço da minha blusa. Me virei abruptamente.
Foi tudo muito rápido.
Quando dei a volta para surtar com Raul Mirante, ele já estava segurando o próprio nariz com força, e Édra Norr sacudia a mão direita enquanto dava uns passos pra trás.
O que tinha acabado de acontecer?!
– Você tá louca?! – Raul avançou em cima dela e eles caíram na areia, bem na minha frente.
Eu tentei amarrar a minha blusa. Todo mundo estava olhando pro meu sutiã. Raul se embolava com Édra na areia.
Foi um soco de um lado e outro soco de outro... Até que alguns garotos do time de futebol apareceram pra separar os dois.
Raul Mirante foi pego pelo braço por dois garotos. Seu lábio estava cortado e seu nariz (possivelmente quebrado) sangrava muito. Édra Norr foi levantada do chão pelo goleiro do time, Elias, e eu pude ver o sangue escorrer de cima da sua sobrancelha, os pontos abertos.
– Vem. – Ela me deu a mão. – Vou te tirar daqui.
Saímos passando pelas pessoas, os pés afundados na areia fofa. A mão de Édra segurava firme a minha, enquanto que, com a outra mão, eu tentava cobrir o meu sutiã. Ela tirou a chave abruptamente do bolso de sua calça e apertou na direção de um carro preto, estacionado no passeio, quando atingimos o calçamento. Eu continuava descalça, havia perdido mesmo a sandália de Polly. Não só a sandália, como Polly em pessoa. Eu não deveria estar indo com Édra Norr, fora que todas as pessoas nos viram sair de mãos dadas. Mas o que eu posso fazer? Estava me sentindo completamente exposta. O colégio inteiro me viu assim. Não sei exatamente o que pensar, só segurei a mão de Édra e deixei que ela fizesse o resto.
Édra abriu a porta do carro pra mim e deu a volta até a outra porta.
– Você quer buscar uma blusa e voltar? – Édra começou a perguntar, cautelosa. – Ou eu te deixo em casa? – continuou, ajeitando o retrovisor pra que pudesse ver a própria sobrancelha.
– Eu não quero voltar – eu disse. E aí lembrei que tinha mentido pros meus pais. – Mas também não posso voltar pra casa. Eu meio que disse pros meus pais que estaria na casa de uma amiga e ela simplesmente sumiu na festa.
– Você pode ficar na minha casa até amanhã de manhã então, não tem problema – sugeriu Édra, me olhando. Pude perceber que ela estava desconfortável com a minha “situação”. – Posso te deixar na minha casa e volto pra buscar Camila. Você pode dormir no meu quarto, se quiser – ofereceu, girando a chave.
– Calma – eu disse, abraçando os meus peitos pra cobri-los. – Eu não sei se isso é certo, sabe? As pessoas são fofoqueiras... E, tipo... O que sua namorada acharia disso?
– Cara, eu não tenho namorada. – Édra me encarou, confusa. – Eu e a Camila estamos só ficando.
– Continua sendo errado, porque... – Olhei pras minhas pernas, pra não ter que olhar naqueles olhos escuros de Édra enquanto uma gota perfeitamente vermelha de sangue escorria na lateral de seu rosto. – Se eu fosse sua namorada, eu odiaria isso.
– Mas você não é minha namorada. – Édra Norr arfou. – Nem Camila. E eu só tô tentando ajudar, o que tem de errado nisso?
– Você pode me deixar na casa de Polly de manhã? – perguntei.
– O que você quiser – disse Édra, trocando a marcha.
Eu estava sem blusa no banco daquele carro e o ar-condicionado ligado arrepiava meus braços. Eu não sentia frio. É claro que a bebida corria quente na minha corrente sanguínea. A essa altura, nem me lembrava mais quantas doses tinha tomado.
Eu a olhei. Não sabia direito o que estava sentindo sobre tudo o que tinha acabado de acontecer e o que ainda estava por vir. É claro que não planejei absolutamente nada disso. As coisas aconteceram de repente e, em uma fração de segundo, a situação simplesmente saiu do meu controle. E deixei que Édra Norr, de certa forma, assumisse a responsabilidade por mim.
Sei que não deveria, mas o que eu posso fazer? Bebidas alcoólicas me deixam tão... Júlia.
– Você tá pronta? – perguntou Édra Norr, cautelosa, enquanto se inclinava na minha direção com um olhar sério. – Posso?!
– Pode – respondi, me encolhendo no banco.
Édra acelerou cidade adentro.
E todos os postes nos viram passar.
– Cara – reclamei. – Será que você pode parar de se mexer?! – Arfei, encostando, de novo, o gelo em cima da sobrancelha dela.
Eu estava usando uma blusa de Édra Norr, de modelagem bem folgada. Na verdade, nem parecia uma blusa no meu corpo. Estava mais pra vestido. Ela também me deu um moletom, que ajustei pra que coubesse em mim. Chegamos na casa dela andando de fininho, na ponta do pé. Fiquei sentada na cama dela, balançando minhas pernas, enquanto ela revirava o guarda-roupa, procurando uma blusa pra me emprestar. Era engraçado ver as coisas do quarto de Édra Norr assim, na minha frente. Quase deixei escapar um “eu estava doida pra ver esses desenhos de perto”, mas, graças a Deus, me lembrei que ela não pode saber que eu sou uma louca obcecada. Digo, cientista competente.
E, pra retribuir o que ela estava fazendo por mim, me ofereci pra usar as minhas habilidades de filha de dentista na sobrancelha dela. Sei que dente não tem nada a ver com sobrancelhas, mas, mesmo assim, eu estava tentando melhorar o aspecto daquela ferida aberta.
Só que Édra não parava quieta.
Ela estava inclinada com as mãos no balcão da cozinha e eu meio que estava em pé na frente dela, tentando enxergar o que eu estava fazendo.
Pausa para dizer: que casa! Parecia muito a casa de Luiza Abrantes em Amor em atos. Tipo, estou falando muito sério aqui. O pai de Édra Norr deve usar dinheiro como guardanapo.
– Mano... – Édra franziu a sobrancelha, fazendo sangrar um pouco mais. – Tá doendo. Como você quer que eu fique quieta?
– Você tomou banho de água salgada, isso deve doer muito mais que gelo. – Revirei meus olhos. – Não achei que você fosse dramática.
– Você beijou Cadu Sena, cara. – Ela fechou o olho quando encostei a compressa. – Isso, sim, doeu. Eu esperava mais de você.
– Você é mesmo dramática. – Eu ri, enxugando a ferida com cuidado. O gelo estava parando o sangramento aos poucos. – Cadu é um cara legal, apesar de tudo.
Édra revirou os olhos e grudei um band-aid em sua sobrancelha.
– Preciso buscar Camila. – Ela se desinclinou do balcão, saindo do meu campo de visão. – Eu já deixei cobertor e essas paradas na cama pra você.
– Certo. – Respirei fundo, jogando as gazes e algodões no lixo perto da porta que dava para os fundos da casa. Pude ver a piscina enquanto o fazia.
– Já, já eu tô de volta – me disse Édra, antes de atravessar a porta. – Depois, eu tô aqui no sofá, caso você precise de alguma coisa.
– Certo – repeti, me abraçando enquanto caminhava em direção à escada para o quarto de Édra.
Ela saiu e fui subindo os degraus com pressa. Fechei a porta nas minhas costas e corri pra janela, que já tinha observado do outro lado da rua. Apoiei a minha cabeça em uma das mãos, enquanto meus cotovelos se apoiavam no batente da janela.
Édra Norr bateu a porta do carro e deu a ré, partindo em alta velocidade.
Fiquei olhando a rua vazia, me imaginando do outro lado, com o binóculo do falecido marido de Dona Símia na mão. Depois, me virei, dando conta de onde realmente estava. Eu não esperava por nada disso. Não consegui deter o sorriso que foi se formando na minha boca.
Saí tocando e cheirando tudo o que eu tinha visto antes. O abajur azul, os desenhos, os livros, a mesa...
Me joguei na cama de Édra Norr e o cheiro dela subiu para a minha atmosfera, depois de ter se desprendido de seu travesseiro e do lençol.
E eu encarei o teto, torcendo pra que o meu sono chegasse antes dela.