O Amor Não é Óbvio
20 | A grande descoberta
A GRANDE DESCOBERTA
Naquele exato momento, eu tinha acabado de fazer a maior descoberta da história da minha vida. E como tudo foi feito impulsivamente em nome da ciência, deixe-me corrigir: a maior descoberta científica da minha vida.
Cadu Sena, o zagueiro do time de futebol do Colégio São Patrique e também o menino mais popular e desejado de toda a escola, que derrete corações de garotas (e as deixa com outras coisas mais íntimas igualmente derretidas), é, na verdade, bissexual. Cadu Sena. O Cadu Sena também beija garotos. Cadu Sena... E garotos. Ai, meu Deus! Descobri não só isso, como também que o pivô do término dele com Camila Dourado foi a pessoa de quem eu menos suspeitaria em todo esse tempo.
Mas calma, essa foi a segunda maior descoberta da minha vida. Porque foi esse cara, Cadu Sena, zagueiro do time de futebol do Colégio São Patrique e, bom, bissexual (isso mesmo, que também beija garotos) que me fez chegar até o ponto crucial: a primeira e a maior descoberta (científica) da minha vida.
– E então? – Cadu Sena se virou ao meu lado, e com a minha visão periférica pude notar o seu olhar um tanto presunçoso. Eu podia sentir cada pequena partícula de poeira daquele tapete horroroso grudando nas minhas costas. Minhas unhas estavam cravejadas no lençol como se eu dependesse daquilo pra continuar existindo (e, bom, nessa altura do campeonato talvez eu dependesse mesmo), minha boca ainda tinha gosto de Bahocos e malditas balas de menta, e o ventilador de teto parecia rir muito alto da minha cara. Eu podia jurar que todo aquele rangido eram risadas escandalosas dele. Talvez o ventilador de teto do quarto de Cadu Sena tenha descoberto muito antes de mim.
A primeira maior descoberta da história da minha vida. Desvendada num quarto cafona de um zagueiro de time de futebol, por quem fui completamente apaixonada por três anos da minha vida. E que é secretamente bissexual e secretamente apaixonado pela última pessoa de São Patrique que eu poderia imaginar. Em cima de um tapete ridículo comprado numa viagem estúpida para o Egito. Eu podia sentir a minha barriga gelada e o vômito querendo escalar pela minha garganta. Meu coração acelerado, a quase incontrolável vontade de gargalhar combinada com a vontade de chorar e gritar histericamente. Não sei como classificar a soma de todas essas sensações, mas elas estavam misturadas no meu corpo, lutando para ver qual entre elas assumiria todo o controle da minha coordenação motora.
O que, exatamente, deve sentir uma pessoa que acabou de fazer uma grande descoberta científica? Pavor? Medo? Pânico? Orgulho? Felicidade? Surpresa? Vaidade? Vontade de gargalhar? Tristeza? Emoção? Ânsia de vômito?
– Ír...
Cadu Sena começou a dizer, deitado ao meu lado, mas eu o interrompi, obviamente.
– Ai, meu Deus. – Meus olhos se arregalaram para o ventilador. Eu sabia, o ventilador sabia, nós dois sabíamos. Eu do chão do quarto. Ele do teto. – Eu sou lésbica – eu disse para todo o resto da decoração cafona daquele quarto, para Cadu Sena deitado ao meu lado e para mim mesma, pela primeira vez, em voz alta.
– Eu sou lésbica – repeti, me virando para Cadu Sena, que me encarava como veio ao mundo, e completamente apavorado.
E depois disso, é claro, gritei... Histericamente.
3 HORAS ANTES DA GRANDE DESCOBERTA CIENTÍFICA – SÃO PATRIQUE, VÉSPERA DE FERIADO 23:50
– Você precisa relaxar mais, sabe? – disse Cadu Sena, abrindo uma garrafa de Bahocos que ele tinha claramente roubado da minha tenda. Minha preciosa tenda. A tenda onde eu deveria estar trabalhando, arrancando dinheiro dos turistas pra custear a formatura. Mas eu estava sentada no chão do quarto de Cadu Sena. Usando a jaqueta dele. Encarando, perturbadoramente, uma boneca Sally vestida de líder de torcida. Que diabos uma boneca Sally líder de torcida (que, no auge dos meus 9 anos, eu não recebi de presente de aniversário. Obrigada, pais) estava fazendo no meio das coisas de Cadu Sena? Escondida atrás de um troféu de futebol, como se eu não fosse reconhecer aquelas pernas com meias três-quartos e aquela mãozinha bronzeada segurando um minúsculo pompom azul. E, por Deus, eu nem deveria estar pensando nisso agora. Já que eu tinha acabado de arruinar toda a minha vida amorosa e, agora, depois de ter abandonado a tenda, também a minha vida acadêmica.
Tanto faz agora, tem uma boneca Sally escondida atrás do troféu de futebol de Cadu Sena. E eu também estou escondida no quarto dele. Literalmente. Entramos pela janela para não acordar seja lá quem dorme aqui, Cadu não contou detalhes. Só me fez escalar um andar e arranhar o meu joelho.
– Elas se beijaram – disse ele, enfadonho, depois de um longo gole de Bahocos. – E daí?
– Você deveria ir devagar com Bahocos. – Olhei de relance para ele, encostado na mesa de seu computador, que parecia ter saído dos anos 2000 de tão ultrapassado. Na verdade, olhando assim, tudo no quarto de Cadu Sena é ultrapassado. As cores das coisas são todas meio mortas, não combinam e é tudo meio brega, como se uma socialite falida daqueles realities do canal fechado tivesse decorado todo o espaço. – Sério. – Percebi que ele continuava virando os goles. – Experiência própria.
– Você deveria parar de gostar de quem não gosta de você. Sério – disse ele de forma debochada, erguendo as sobrancelhas. – Experiência própria.
– O que você acha que sabe sobre rejeição? Você é, tipo – fiz uma pausa dramática pra que ele mesmo caísse em si –, Cadu Sena. Todo mundo quer ou já quis você em algum momento de sua existência. Até a minha mãe te acha um gato. – Bahocos, eles nos fazem ter uma boca muito aberta. – Deus, nunca conte isso a ninguém.
– Você não sabe nada sobre mim, Pêssego.
– Eu sei praticamente tudo sobre você. – Espremi os meus olhos pra ele. – “Sena”.
Cadu arrastou a cadeira de rodinhas que estava enfiada no espaço vazio de sua mesa de computador. As rodinhas arranharam o piso de madeira (também brega) e o som durou até que a cadeira estivesse em cima do tapete enorme, que cobria quase todo o chão do quarto. Um tapete esquisito, com desenhos esquisitos e que pouco importava, já que eu estava sentada nele e já que, não vamos esquecer, inacreditavelmente tinha uma boneca Sally líder de torcida escondida atrás de um troféu de futebol.
– De onde você acha que veio esse tapete? – perguntou ele depois de mais um gole de Bahocos, se inclinando sobre as próprias pernas superabertas pra me encarar sentada bem em cima do objeto da pergunta: o tapete brega.
– Eu sei lá.
– Do Egito. Foi a melhor viagem da minha vida. Você sabia que eu sou apaixonado pelo Egito? – Antes que eu pudesse dizer que não, Cadu Sena me lançou um olhar assertivo, como quem já estava esperando ver confusão total nas minhas expressões faciais. – Você sabia que meu primeiro beijo foi com Gina Morson?
– Gina Morson? – Minha boca virou um “O” perfeito. – Mas todo mundo tem medo daquela garota, ela dissecava os sapos dando risada.
– E ela beija muito bem. Você sabia que tudo nesse quarto foi escolhido por mim? Eu comprei cada coisa dessas, a maioria de antiquários.
Coisas sobre Cadu Sena: foi pro Egito e trouxe um tapete, beijou Gina “Psicopata” Morson, tem um gosto extremamente cafona para decoração e uma boneca Sally líder de torcida escondida atrás de um troféu de futebol. Estou encarando os sapatinhos dela bem agora.
– Você sabia que já fui entregador de pizza? E que já trabalhei entregando alguns livros do Leoni’s em domicílio, no caso, para idosos e colecionadores que sempre queriam experimentar os novos lançamentos, mas não tinham tempo para ir à livraria? Tudo eu, de carro, pra juntar grana sabe pra quê?
– Caraca – eu realmente estava impressionada com essa parte. – Pra quê?
– Pra abrir a minha própria loja de velharias e livros usados. Eu gosto de coisas antigas.
– Percebi pelo seu quarto.
– Isso aqui tá pouco pra mim ainda. – Ele encarou, orgulhoso, as paredes e os móveis. – Ainda pretendo encher isso aqui com muito mais coisas velhas.
– Pelo amor de Deus, não faça isso – eu disse, no ápice da minha sinceridade. Você sabe, Bahocos. Eu tinha tomado um tanto quanto demais. O efeito “boca aberta” ainda estava a todo vapor, controlando a minha língua.
– Quê? – Cadu me olhou, franzindo todo o rosto.
– Nada, me dá isso aqui. – Tomei a garrafa da mão dele. – Continue falando qualquer coisa. Esse é o pior feriado de todos os tempos, você pelo menos tem umas histórias legais.
– Eu disse, você não sabe nada sobre mim, Pêssego.
– E nem tinha como saber de toda essa parte. – Dei um gole na garrafa de Bahocos. Desceu quente, ardiloso e parecia que tinha ido parar diretamente nas minhas coxas. Acho que elas estavam armazenando todos os litros de Bahocos que eu tinha consumido naquela noite.
– Tem coisas que só dá pra descobrir descobrindo. Sabe? Tipo, você mesma indo atrás e desvendando, juntando as peças, como um jogo ou uma pesquisa no laboratório de ciências. – O olhar de Cadu Sena estava na minha boca. Acho que ele percebeu e se consertou na cadeira. E eu percebi que estava com a garrafa esticando meu lábio inferior pra baixo, sem nenhuma razão plausível para fazer isso. Eu não estava tentando ser sexy, apesar de Bahocos ser uma bebida popularmente afrodisíaca.
– Gostava disso em Gina, eu perguntei a razão dela rir tanto dissecando os sapos.
– Foi?
– Foi.
– E aí? – Minhas sobrancelhas se juntaram na minha testa, esperando pela quebra do suspense e pelo delivery do restante da história. Ainda que meu cérebro estivesse rebobinando (contra a minha vontade) Cadu Sena olhando para a minha boca.
– E aí que ela levava a sério essa coisa de pesquisas de laboratório, e ela achava incrível descobrir as coisas, remexer, ver que aquilo pertencia àquilo e aquilo estava preso naquilo. Sabe? Ela amava descobrir as coisas descobrindo. Vendo a sensação por ela mesma. Tirando suas conclusões. E, sei lá, abrindo seus próprios sapos.
– Meu Deus, nem parece que estamos falando da mesma Gina Morson.
– Pois é. Aí viramos amigos, apesar de ninguém saber. Eu não queria ser visto com Gina, e ela também não queria ser vista comigo. Disse que as garotas implicariam com ela mais ainda. Eu também não queria que os garotos implicassem comigo. Idiotice do sétimo ano. Mas aí... – Cadu respirou fundo, se inclinando para trás nas costas da cadeira de rodinhas. Deslizou um pouco, centímetros. – Falamos sobre beijo na boca e, acredite, Gina Morson tinha beijado na boca. E de língua. Eu ainda era o maior boca virgem do colégio, só mentia pros outros, dizendo que já tinha beijado. Perguntei a Gina como era beijar na boca e ela disse que eu só ia descobrir descobrindo.
– E aí você beijou Gina Morson, a dissecadora de sapos?
– E aí eu beijei Gina Morson. – Cadu Sena me lançou um olhar sério, que não condizia com o sorriso discreto em sua boca. – Só Gina.
– Desculpe, eu não quis...
– Tudo bem – disse ele, se levantando da cadeira.
Me senti uma grande idiota por zombar de Gina Morson durante todos esses anos. Ela é uma pessoa. Só uma pessoa. Com experiências próprias, descobertas próprias, e também passava pelas primeiras vezes das coisas. Como o primeiro beijo dela, que nem foi com o Cadu Sena. Ou o primeiro sapo que ela dissecou. Apesar de que isso acabou de soar muito mórbido, mas minha opinião não é nada relevante nesse exato momento.
Cadu Sena sentou do meu lado e pegou a garrafa da minha mão com cuidado. Nossas mãos se encostaram durante o processo. Meu cérebro rebobinou, mais uma vez, seus olhos encarando a minha boca. Tentei não pensar muito nisso e encarei os sapatinhos da boneca Sally líder de torcida escondida atrás do troféu.
– Vamos jogar um jogo – sugeriu ele.
Deus, como eu tinha ido parar ali?
SÃO PATRIQUE, VÉSPERA DE FERIADO 21:22
Édra Norr estava lá, com uma jaqueta jeans cheia de bottons e outros penduricalhos, com uma blusa preta por baixo. Tinha aparado o cabelo, as costeletas estavam bem-desenhadas. A lateral de sua cabeça, com o cabelo curtíssimo, como se tivesse sido raspado ou algo assim, dava toda a atenção para a orelha com seu maldito brinco prata de argola e seu piercing. Ela estava sorrindo enquanto falava alguma coisa, aquele sorriso largo, descaradamente enorme. Um braço passado por cima dos ombros da amiga dela, a que eu tinha conhecido no Submundo. O outro braço dobrado para cima, segurando uma garrafa metálica, como aquelas que as pessoas usam para levar bebidas às festas entediantes. Só que Édra Norr não estava entediada. Ela estava rindo muito, cercada de amigas. Algumas mais parecidas comigo, outras mais parecidas com ela. Os lábios avermelhados e molhados brilhavam sob as luzes das lâmpadas amarelas. Estavam todas na frente da barraquinha de “Mate o Pato”, um jogo idiota, cheio de patos idiotas que ficavam se movimentando e você precisava acertar com balas de borracha. E eu não via Camila Dourado no meio delas. Édra não tinha ido com Camila Dourado pra festa da véspera de feriado, como eu tinha deduzido sozinha dentro da minha cabeça paranoica. Meu Deus, como eu sou idiota. E agora era tarde demais. Porque eu estava agarrada no braço de Cadu Sena numa tentativa idiota e completamente imatura de tentar fazer com que Édra sentisse ciúme.
Mas ela não estava nem aí. E eu sei disso porque, assim que ela me viu, tomou o rifle das mãos de uma de suas amigas (que não acertava pato nenhum) e o carregou de balas de borracha. Ela ainda tinha seus olhos castanhos apontados para mim quando deu o primeiro tiro. E acertou, mesmo sem mirar no pato. O estalo da bala de borracha colidindo com a madeira pintada em formato de pato me fez apertar o braço de Cadu Sena com mais força.
– Íris? – chamou Cadu, confuso. – Tá tudo bem?
Não, não estava. Édra se virou para os patos, como se eu não estivesse passando por ela. Ouvi os gritinhos empolgados de suas amigas, porque ela estava acertando todos. E segui caminhando com Cadu Sena, acompanhada de vários estalos de tiros de borracha. E, por um momento, parecia que eles estavam me acertando. E eu era todos aqueles patos de madeira, que caíam tesos sinalizando mais um ponto acumulado para Édra Norr. Eu quis olhar para trás, mas não fiz isso. O som dos fogos de artifício que começaram a rasgar o céu de São Patrique me ensurdeceu no caminho. E, então, eu percebi que Cadu Sena tinha parado de andar. Estávamos de braços entrelaçados e ele tem o dobro do meu tamanho, é claro que eu não iria conseguir dar um passo sem que ele também desse.
Eu o encarei, confusa e agitada. Só queria desaparecer daquela área do parque o mais rápido possível.
– Nada, é só que minha garrafa de água meio que, não sei – Cadu começou a dizer, confuso. Eu levei alguns segundos para entender o que estava acontecendo. A garrafa de água que Cadu Sena tinha comprado logo na entrada da festa estava vazando toda a água bem nos tênis dele. Só que eu lembro muito bem que a garrafa tinha sido entregue em perfeito estado pela senhorinha na barraca de água. Tinha um furo perfeito que atravessava a garrafa de um lado a outro. – Estranho – disse ele, sem reparar no buraco na garrafa. – Deixa pra lá, eu compro outra.
Nesse momento, enquanto retomávamos os passos, me atrevi a olhar pra trás. Porque eu tinha me dado conta do que tinha acontecido ali. E Édra Norr me encarava de volta, com puro desdém nos olhos, o maior bico nos lábios e o maxilar saltado, como quem estava de dentes trincados. Algumas de suas amigas estavam rindo, algumas estavam com um olhar preocupado. Édra só olhava pra mim como quem queria que eu, de fato, fosse um daqueles patos de madeira. Com o rifle caído sobre seu ombro direito e cartuchos de balas ao redor de seus pés.
Í
38 MINUTOS ANTES DA GRANDE DESCOBERTA CIENTÍFICA
SÃO PATRIQUE, VÉSPERA DE FERIADO 02:14
– Vamos jogar o jogo da verdade, não vale mentir nem omitir. Uma vez de cada, vale todo tipo de pergunta – explicou Cadu. Estávamos em cima do tapete, encostados na lateral da cama. Ele se virou para trás e tirou uma garrafa de bebida pela metade, escondida num canto abaixo do colchão.
– Ok... – Balancei a cabeça afirmativamente.
– Eu começo – desbravou ele, abrindo a garrafa. – Você gosta de mim? É que eu ouvi uns rumores e eu sempre quis saber disso.
– Cara, eu era apaixonada por você.
Ele deu um longo gole. Eu puxei a garrafa da mão dele e também dei. Eca, tinha um gosto horrível e estava em temperatura ambiente. Ew.
– Você só está saindo comigo pra deixar Camila Dourado com ciúme?
Cadu pareceu ter acabado de ser ofendido.
– Claro que não, eu te acho maneira. – Arfou, dando mais um gole e passando a garrafa para mim. – Você só está saindo comigo pra colocar ciúme em Édra Norr?
Eu dei mais um gole também. Queria encher minha boca com aquilo pra não precisar responder a pergunta. Mas Cadu Sena tomou a garrafa da minha mão.
– Meio que sim, mas ao mesmo tempo, não. Eu já gostei de você mesmo, tipo, de verdade. Já ouvi músicas pensando em você, já escrevi seu nome no meu antebraço e já enviei uma carta de Natal anônima pro seu endereço.
– Foi você? – Cadu começou a gargalhar. – Eu guardo até hoje. Achei engraçado. “Querido Cadu, você não me conhece, mas...”
Eu não queria ter que ouvir tudo o que eu escrevi. Era Natal do primeiro ano e eu estava frustrada com a minha vida amorosa.
– Eu sei o que eu escrevi. – Franzi o meu nariz para ele.
Ficamos em silêncio por uns instantes de novo. Os olhos de Cadu Sena caíram na minha boca. E minhas coxas estavam meio bêbadas e se esfregaram uma na outra.
– Você ainda é virgem? – perguntei, por causa de todo o papo sobre Gina Morson e ter sido “BV” por muito tempo. Mas imediatamente percebi que foi uma pergunta estúpida. Cadu Sena estava com o sorriso aberto, mordendo os próprios lábios, me olhando como se tivesse acabado de descobrir que eu era o ser humano mais ingênuo do planeta Terra.
– Você é? – rebateu a pergunta. Não olhava para mim, olhava para a minha boca.
– Sou – respondi, e meus olhos também fitaram a boca dele, contra a minha vontade. Eu não estava entendendo o que estava acontecendo ali e comigo. – Como é não-ser virgem?
Nossas respirações estavam ofegantes. E o rosto de Cadu Sena tinha se aproximado bastante do meu. Coisa que eu só consegui notar quando estávamos praticamente com os narizes colados.
– Isso você tem que descobrir. – Ele esfregou o nariz no meu. – Descobrindo.
E, então, nos beijamos.
SÃO PATRIQUE, VÉSPERA DE FERIADO 23:11
Eu estava encarando Édra Norr. Édra Norr e Camila Dourado. Camila Dourado... E Édra Norr. Édra estava ensinando Camila Dourado a atirar nos patos. Camila, que surgiu do nada no meio das pessoas. Uma hora eu estava na minha tenda servindo sucos naturais para um casal de idosos, e na outra hora eu estava vendo Camila Dourado se aproximar do grupo de amigos de Édra Norr e começar todo aquele seu joguinho de charme. Ela passava a mão no cabelo e, a cada risadinha, encostava a mesma mão no braço de Édra. E foi fazendo isso até que acabasse dentro dos braços de Édra, atirando em malditos patos de madeira.
Eu queria muito vomitar. Comecei a beber escondida, pegando parte das coisas que eu deveria estar vendendo para as pessoas, inclusive as bebidas que claramente possuem álcool, mas que por alguma razão conseguimos autorização para vender na tenda, já que o professor Ivan está vigiando todo o processo de vendas. Ou deveria estar, né, porque eu já estou acabando com uma garrafa inteira de Bahocos enquanto ele discute no telefone com a ex-esposa.
– Noite difícil, hein? – Polly surgiu ao meu lado. Tínhamos acabado de atender toda fila. E agora as pessoas estavam se afastando das tendas para ver a próxima banda local se apresentar no palco.
– Sim – respondi.
Camila Dourado estava falando muito perto da boca de Édra Norr.
– Sinto saudade de ser sua amiga e te contar todas as coisas – disse Polly, esfregando a flanela no balcão da nossa tenda, sujo de suco e Bahocos. – Nunca mais te contei nada e nem sei se você quer mais saber das minhas coisas, mas lá vai: eu gosto de uma pessoa que você não vai imaginar; na verdade, você não faz ideia. Talvez você nem apoie. Nem meus princípios apoiam. Eu nunca gostei de ninguém perto disso antes. Até me permiti ficar um pouco afastada de você pra tentar entender essa situação toda. Mas quanto mais eu tento entender, menos eu entendo. Acho que eu só gosto, sabe? E ponto.
– Eu estou passando pela mesma coisa – eu disse, quase que automaticamente. Sem nem reparar que eu estava ali, tendo aquele diálogo com Polly.
Camila Dourado estava falando muito, muito perto da boca de Édra Norr.
– Sério? Meu Deus! Eu estava tão preocupada e acabei me afastando completamente, achei que você nunca iria entender. Não faz o menor sentido. – Polly parecia animada. – Vamos contar na mesma hora, então. Rápido, tipo tirar um band-aid! – sugeriu ela, e senti seu ombro encostando no meu. – Como nos velhos tempos, hum?
– Tudo bem.
– Sem julgamentos e sem perguntas, ok?!
– Ok.
Muito, muito, muito perto da boca de Édra Norr.
– Wilson Zerla – disse Polly de uma só vez, com a respiração ofegante. – Sua vez, Íris.
No exato momento em que Camila Dourado puxou a cabeça de Édra Norr, com suas mãos na nuca dela. Foi o suficiente para que os lábios delas grudassem. As amigas de Édra nem estavam prestando atenção, as pessoas que passavam também não estavam prestando atenção. Ninguém, além de mim, estava se importando com aquele beijo. Parecia que eu era a única assistindo àquilo acontecer. Foi se formando um bolo na minha garganta, sabe? Fui me sentindo meio engasgada. Fiquei com medo de piscar o olho que ia se enchendo de lágrimas, deixando a minha visão completamente turva.
– Édra Norr – eu disse quando consegui engolir o nó na minha garganta, olhando para elas enquanto desamarrava meu avental.
Poliana, em um estalar de dedos, parecia ter percebido tudo. E virou o rosto para onde antes eu estava olhando.
– Ah – foi tudo o que ela disse antes que eu desaparecesse daquela tenda.
No momento que eu alcancei o lado de fora, Cadu Sena estava se aproximando da barraca de patos e carregando um rifle para que ele pudesse jogar. Ele era monitor de todas as tendas, não tinha muito o que fazer além de passar o olho em todos nós, dar advertências e aproveitar todas as atividades festivas.
Édra Norr e toda a sua turma saíram assim que Cadu Sena se aproximou. Foram pulando, rindo e bebendo em direção ao palco. Camila Dourado, apesar de não caminhar perto de Édra, também ia na mesma direção que todos. Édra era responsável pela barraca de “Mate o Pato”, mas, assim como para mim, ela não parecia dar a mínima para aquilo.
Cadu Sena acertou um pato assim que cheguei atrás dele, depois de ter limpado o meu rosto e respirado fundo para que minhas feições de chorona desaparecessem. Eu estava destruída por dentro, mas ninguém precisava saber disso. Não sobre essa parte. Só que Cadu precisava saber como eu me sentia por ele. Não era justo.
– Ei, Cadu. Olha, eu te acho um cara... – mas Cadu Sena não deixou que eu terminasse a frase.
– Olha, Íris, eu sei que você preferia não estar comigo hoje à noite. Também vi o que você acabou de ver e sei que você tá com ciúme de Édra Norr e Camila. E, tudo bem, você é livre pra gostar de quem você quiser – me interrompeu ele, acertando a cabeça de mais um pato.
O estalo me assustou. Meus ombros se ergueram abruptamente.
– Mas, sério, eu achei que seria legal passar a noite com você. Por isso aceitei todo o seu pedido de desculpas e o seu convite. Não precisamos falar sobre mais nada além disso.
– Desculpa, eu só...
– Tá tudo bem. – Cadu Sena se virou para mim, os cabelos enrolados, a blusa de manga longa de algodão branca, com uma enorme prancha de surfe preta desenhada nas costas, pude perceber quando me aproximava. O rosto corado de quem tinha surfado nos últimos dias e o par de olhos esverdeados, sérios, para mim. – Você não precisa fingir que gosta de mim.
Disse ele, balançando a cabeça negativamente, voltando a mirar nos patos.
– Eu não estou fingindo – afirmei, me sentindo mexida com tudo aquilo que tinha acabado de ouvir. Não podia acreditar que Cadu Sena se importava com seja lá o que fosse que viesse de mim. Ele parecia ter se cansado de me dar chances.
Ou, talvez, não estivesse tão cansado assim.
Vi mais um pato sendo derrubado por ele.
– Você quer sair daqui? – perguntou, deixando o rifle sobre o balcão.
A GRANDE DESCOBERTA CIENTÍFICA
SÃO PATRIQUE, VÉSPERA DE FERIADO 02:52
– E então? – Cadu Sena se virou ao meu lado. – Ír...
– Ai, meu Deus. – Meus olhos se arregalaram para o ventilador. Eu sabia, o ventilador sabia, nós dois sabíamos. Eu do chão do quarto, ele do teto. – Eu sou lésbica – eu disse para todo o resto da decoração cafona daquele quarto, para Cadu Sena deitado ao meu lado e para mim mesma, pela primeira vez, em voz alta.
– Eu sou lésbica – repeti, me virando para Cadu Sena, que me encarava como veio ao mundo, e completamente apavorado.
E depois disso, é claro, gritei... Histericamente.
– Íris – Cadu Sena tentou “gritar” meio que sussurrando pra mim, enquanto se cobria com os travesseiros cafonas espalhados pelo tapete cafona do Egito e ia se levantando, desajeitado. – Pelo amor de Deus, pare de gritar! Você vai acordar todo mundo. A gente vai se ferrar. Eu vou me ferrar.
– Me desculpa, é que, meu Deus. – Levantei, me cobrindo com o lençol. Mil partículas de poeira grudadas em mim, podia senti-las em todos os lugares indevidos do meu corpo. Eu quero vomitar. – Então eu sou...
Gritei histericamente.
– Íris, você precisa parar de gritar. – Cadu Sena soltou os travesseiros todos de uma vez, agarrando os meus ombros.
E eu vi aquilo agarrado no corpo dele. Como eu podia achar que gostava de garotos, meu Deus? Tinha visto aquilo antes indevidamente na internet e em alguns filmes. Eu sabia exatamente como era aquilo, mas pessoalmente é muito mais estranho do que parece. Céus, tinha mesmo acontecido. E aquilo fez parte de todo o processo.
– Ai, meu Deus, ai, meu Deus, cubra isso. – Virei de costas.
E lembrei que não estava coberta nas costas, já que senti o desagradável vento vindo diretamente do ventilador de teto de Cadu Sena em mim. Cadu estava bem ali e ele estava me vendo nessa situação completamente constrangedora. Se bem que estávamos ali o tempo inteiro, ele viu coisas talvez muito mais embaraçosas que isso.
Eu preciso gritar.
– Íris. – Cadu tapou a minha boca com uma das mãos. Enquanto isso, com a outra segurava um travesseiro na frente de seus, vamos chamar de, hum, países baixos. – Respira fundo. Você quis isso, eu quis isso, aconteceu. Não precisa significar nada. Ninguém nem precisa ficar sabendo disso. Você fez a sua descoberta, apesar de que – ele continuou resmungando para dentro – poderia ter sido mais agradável na hora de me contar isso. Mas – retomou seu tom de voz normal, se é que podemos considerar normal falar naquela altura às duas da manhã. – Tá tudo bem. Eu só preciso que você pare de gritar, porque se alguém entrar agora nesse quarto vai parecer que uma coisa completamente diferente estava acontecendo.
Eu fiz o mais sonoro “Tudo bem” que pude, com a boca tomada pela mão enorme de Cadu Sena.
– Vou destampar a sua boca, ok? Mas, por favor, sem gritos. – A mão deslizou, dedo por dedo, para fora dos meus lábios. Eu respirei fundo, ajeitando o lençol no meu corpo.
– Certo, é, hum. – Pigarreei. – Por onde começar? Bom... – Meu corpo inteiro estava tremendo. – Eu entrei heterossexual nesse quarto. Quero dizer, não, não heterossexual, mas sexualmente confusa. Você viu isso? Acho que todos viram isso. Até a sua boneca Sally líder de torcida escondida atrás do seu troféu, e sabe-se lá Deus o porquê de você ter a boneca que era meu sonho de aniversário de nove anos, e eu, não. Mas a questão é que coisas acontecem sem que façam sentido. Você beijou Gina Morson, que dissecava sapos dando risada. Eu persegui uma garota com um binóculo roubado de uma idosa nas últimas semanas do fim do meu Ensino Médio. E acabei de perder a minha virgindade em cima de um tapete e isso talvez doa, talvez não, mas foi horrível. Foi horroroso. Foi pior do que a decoração do seu quarto. Você é incrível, mas qual a necessidade desse relógio dourado pendurado na sua parede? Quando eu tô nervosa, eu falo muito. Eu falo sem parar. E eu bebi Bahocos. E eu achei tudo a ver isso acontecer porque você tava olhando demais pra minha boca e eu tava confusa. Mas agora a minha vida acabou. Eu sou lésbica. Tipo, eu sou lésbica? O que eu vou fazer agora? Édra Norr ama Camila Dourado. E mesmo se não amasse, jamais me perdoaria por ter perdido a virgindade no seu tapete do Egito, que por sinal também é brega. Mas, Cadu Sena, olhe pra mim. – Arregalei meus olhos ainda mais na direção dele. Parado, em pé, segurando um travesseiro na frente dos, você sabe, países baixos.
– Estou olhando – respondeu ele, com um olhar que eu só pude classificar como confuso e preocupado.
– Então eu sou lésbica. Tipo, os seus países baixos me dão medo, eles não são atraentes pra mim. E eu não gostei dessa experiência. Então é claro que eu sou lésbica. Mas e agora? Vou ter dois gatos e viver com uma garota chamada Mônica em Vinhedos? Como eu vou contar isso pros meus pais? Deus, os meus pais vão me matar. Aliás, talvez papai fique feliz, considerando a cara que ele fez quando me viu encarando a caixa de preservativos.
– Você ficava encarando caixas de preservativo?
– Cadu Sena, pelo amor de Deus, cale a boca.
– Tudo bem.
– E então? O que eu vou fazer com a minha vida agora que descobri que eu sou lésbica? – perguntei, frustrada, não exatamente para Cadu Sena, mas para o destino. Só que, como o destino ainda não responde perguntas de forma verbal, eu esperava que Cadu Sena dissesse alguma coisa. Mas antes: – Por que diabos você tem uma boneca Sally líder de torcida, afinal?
– Foi a primeira boneca que eu tive – respondeu Cadu Sena, como se não estivesse prestes a revelar a segunda maior descoberta da minha vida.
– Você tem outras bonecas? – perguntei, porque naquele momento os meus instintos de fofoqueira priorizaram esse fato mais do que a minha vida.
– Sim, várias. Todas escondidas por esse quarto – disse ele, esticando o lençol da cama para se cobrir. Era lilás e cafona. – Achei que o jogo da verdade tinha acabado, mas você pode perguntar o que tanto quer saber.
– Certo, hum, você é gay ou algo assim?
– Acabamos de fazer coisas no tapete, você acha que eu seria gay e faria uma coisa dessas com você? É claro que eu não sou gay. – Ele respirou fundo. – Mas...
– Mas?
– Eu sou bissexual. Você é provavelmente a quinta pessoa a saber disso. A primeira foi Gina, a segunda foi o garoto que eu beijei depois dela, a terceira, o garoto que eu também trouxe pra esse tapete, a quarta foi a Camila. Você é provavelmente a quinta pessoa a saber disso, se é que Camila já não espalhou pelo colégio inteiro.
– Você é bissexual? E Camila Dourado sabe disso?
Eu, honestamente, não podia acreditar.
– É, ela sabe. Mas não por mim. Ela descobriu descobrindo, entende? Revirando minhas coisas. Achando minhas bonecas e fotografias de Todd no rolo da minha câmera dos anos 1980, que comprei numa velharia do Egito. Mas não foi assim que começou tudo. Pra falar a verdade, Camila sempre foi neurótica e achava que eu dava mais atenção a Léon do que a ela. Sendo que, cara, ele foi o meu patrão por um tempo. Ela viu coisa onde não tinha. É que... – Cadu se sentou na cama. – Léon também é bi, a irmã de Camila sabe disso e faz várias piadas sobre. Provavelmente só está com o cara pelo dinheiro. Ele é um dos maiores empresários no ramo dos livros nesta cidade.
– Meu cérebro vai ter um curto-circuito. – Arrastei a cadeira de rodinhas para me sentar também. E, sim, eu cobri meus fundos.
– Eu fui o grande culpado do meu término com Camila, sabe, Pêssego? Nosso namoro já estava meio frio, meio desgastado com todo o ciúme e a paranoia dela. Quando saíamos os quatro, eu acabava trocando mais ideia com o Léon, já que ele trabalha numa coisa tão próxima ao que eu queria montar pra mim. E, às vezes, eu passava no Leoni’s também... Mas não por causa de Léon, por outra pessoa.
Ai... Meu... Deus.
– Eu conheci um cara muito maneiro lá, Maurício Mansinni. Ele entendia de absolutamente tudo naquele lugar. Sabia como cada coisa funcionava. Mais até do que o Léon. Não conversamos muito, mas eu achava ele demais, sei lá, gostava das músicas que ele colocava pra tocar na caixa de som quando o Léon não estava. Me atrasava pra ver a Camila porque ficava lá escutando. Gastando tempo, pensando na minha própria loja de velharias.
– Você gosta do Maumau? – perguntei, quase que gritando histericamente de novo. Era informação demais pra minha cabeça. – Ele é super meu amigo, meu Deus.
– O quê? Não! – Cadu ficou instantaneamente vermelho. Coisa que, em três anos, nunca tinha visto acontecer com ele. – Não tem nada a ver. Eu vou me formar agora, o Maurício Mansinni é mais velho, já faz faculdade. Outro mundo. Não tem nada a ver comigo. Inclusive deixei a Camila achar que eu ficava no Leoni’s batendo papo com o Léon, porque se ela sonhasse que tinha qualquer coisa a ver com Mansinni, com certeza faria Renata convencer Léon a demitir ele.
– Você deixou Camila Dourado achar que você tinha uma coisa pelo cunhado dela pra que Maumau não fosse demitido? E ela terminou com você? Meu Deus! Foi isso? Esse foi o grande motivo do término de vocês?
– É – disse Cadu, um tanto quanto cabisbaixo. Sua voz parecia embargada, mas as bochechas continuavam coradas. – Foi meio que isso. E ela ficou com uma garota publicamente pra “descontar”.
– Ei, espera aí. – Meu corpo parecia tomado por um ódio mortal totalmente repentino. – Então Camila Dourado tá usando Édra Norr como um plano de vingança contra você?
– Eu não sei se ela gosta dela ou não. Só sei que ela terminou comigo dizendo que pagaria na mesma moeda. E ela nunca ficou com garotas antes.
– Ela tá usando a Édra. A minha Édra. – Levantei da cadeira, furiosa. Como se fosse, de fato, resolver todos os problemas da noite enrolada nos lençóis de Cadu Sena.
– A sua Édra? – Cadu Sena parecia estar se controlando para não cair no riso.
– Foi muito lésbico isso que eu disse? Eu soei totalmente lésbica agora, não foi? Caramba – disse, quando finalmente me dei conta. – Será que isso sempre esteve nos meus genes? E agora?
– E agora eu não sei, Pêssego. Você não tá falando com um expert em sexualidade. Ninguém nem sabe sobre mim.
– Cinco pessoas sabem – eu disse, me aproximando de Cadu Sena para sentar na cama perto dele. – E eu acho que a sexta pessoa deveria ser Maurício.
Cadu Sena bufou, balançando a cabeça negativamente.
– Isso nunca vai acontecer.
– Eu nunca achei que “isso” – eu disse, encarando a mim mesma enrolada em um lençol – fosse acontecer. E, veja só, aqui estamos.
Ficamos em silêncio por alguns instantes.
Até que o silêncio me conectou de volta ao meu corpo e a toda a situação, o que de fato estava acontecendo no meu estado presente, sabe. E tinha algo úmido embaixo do meu pé.
– Isso é sangue? – Retorci o nariz para o lado, virando o meu pé para que eu pudesse ver melhor no que tinha pisado. – Isso é sangue! Meu Deus! Eu estou tendo uma hemorragia? Eu vou morrer?
– Íris, respira fundo. – Cadu Sena foi ficando com aquela cara pálida de assustado de novo. As duas mãos abertas na minha direção, tentando alcançar os meus ombros. – Isso acontece, isso é nor...
E eu gritei histericamente. De novo.