O Amor Não é Óbvio
19 | Vaga-lume imóvel
VAGA-LUME IMÓVEL
É muito estranho olhar no fundo do olho de uma pessoa que você já beijou e não poder fazer nada. Deveria existir alguma espécie de tutorial, livro ou videoaula que explicasse com extrema clareza como você pode se controlar diante de uma situação dessas, sem ficar ofegante. Porque ninguém quer soar como um total desesperado por causa da presença de outra pessoa. Ninguém quer ficar arrepiado e suado sem seu próprio consentimento. Ninguém quer se sentir como um ímã, que não consegue simplesmente não se deixar atrair em todo o seu magnetismo, como se não tivesse escolha.
Eu nunca tinha me sentido assim antes, por ninguém. Nunca olhei pra uma boca que eu já conhecia e não pude fazer nada. Talvez porque eu não beijei muitas pessoas. E talvez, também, porque nenhuma boca me deixou tão hipnotizada quanto a de Édra Norr.
Mas é claro que eu tive que descobrir essa vulnerabilidade magnética da pior forma possível.
Pensei em dizer a Édra Norr toda a verdade. Foi quando a Lulu Matias – que estava tentando recrutar Nicole para a nossa equipe de vendas (totalmente interessada nos drinks que Nicole sabe fazer) – se aproximou de nós com um semblante de poucos amigos. Isso porque, bom, Lulu Matias era a grande organizadora da nossa ação para arrecadar dinheiro para a formatura, então ela sabia de tudo o que estava acontecendo e isso inclui a lista de nomes escalados para a apresentação no Show de Talentos do Colégio São Patrique. O que, basicamente, significa que ela também sabia que Édra Norr estava inscrita. E é claro que não foi a própria Édra Norr que se inscreveu.
Fui eu, como sempre, agindo estúpida e impulsivamente desde que vim ao mundo.
Lulu Matias foi tomando fôlego para dizer algo e eu simplesmente apressei o meu “Édra, eu preciso te contar uma coisa”, mas antes que pudesse falar qualquer palavra e estragar toda a nossa cena romântica, esperando na fila das bebidas, abraçadas, Lulu Matias simplesmente colocou a mão sobre o ombro de Édra e disse: “Norr, não se atrase pro ensaio de amanhã”. E sumiu.
Édra Norr me olhou com aquela expressão facial confusa, com as sobrancelhas arqueadas e os olhinhos escuros apertados. Eu só quis apertar as bochechas dela e trazer aquele rostinho inteiro pra perto de mim outra vez. E foi isso o que eu fiz. Até ela falar bem perto do meu ouvido:
– Eu não faço ideia do que Lulu Matias tá falando, você tá sabendo de alguma coisa?
O meu estômago, é claro, embrulhou na hora. E pensei em dizer toda a verdade. Mas pensei que talvez eu pudesse reverter a situação. Talvez Édra não precisasse se apresentar. Talvez outra pessoa assumisse a minha culpa. Talvez eu não quisesse estragar esse momento tão gostoso quanto pizzas do Orégano’s que estávamos vivendo agora.
– Não, eu não tô sabendo de nada.
Mas é claro que, se o tempo está nublado, uma hora vai chover.
“A previsão do tempo para São Patrique é de chuva, Fábio. Moradores, vendedores e turistas estão torcendo para que as nuvens não estraguem as festividades, que devem começar hoje mesm...”
E mamãe desligou a TV, voltando a cortar o bacon com muita agressividade, principalmente se você for considerar que ele estava mesmo molinho. Dava pra ouvir a faca arranhar a pintura de margaridas no prato. Jade Pêssego furiosa é algo comum. Jade Pêssego furiosa em véspera de feriado... Não.
– Não tô acreditando nisso – resmungou, escondendo o rosto atrás da caneca de “Mamãe #1” que ela tem desde o primeiro Dia das Mães do primário.
Meu celular vibrou no bolso.
– Calma, querida, vai dar tudo certo. – Papai sorriu confiante, usando seu mesmo boné verde-musgo de sempre, peça-chave de quando ele vai viajar para qualquer lugar.
São engraçados os hábitos de férias da família Pêssego. Mamãe sempre assiste à previsão do tempo antes de pegar a estrada, e sempre toma café na mesma caneca. Papai usa sempre o mesmo boné verde-musgo, e coloca a mesa para o café meia hora mais cedo, pra evitar atrasos. São costumes de viagem. E as malas prontas, encostadas no pé da escada que leva aos nossos quartos, comprovavam isso. Porque é onde eles deixam as malas, todas as vezes, antes de partir.
Meu celular vibrou mais uma vez. E eu não pude pegá-lo. Porque “não se distrair com o celular na mesa” é uma ordem. Que precisa – especialmente em manhãs que antecedem viagens – ser acatada.
– Sua avó chega hoje, e nós voltamos depois do feriado – disse papai, e, atrás dele, a melodia mais causadora de ansiedade: o vibrar do meu celular, sem pausa. – Tem comidas congeladas, tem lanches no armário, tem dinheiro extra embaixo do...
– Pote de alho em conserva. – Arfei, sorrindo. – Eu sei, pai, eu já conheço todo o “procedimento em caso de viagens”. Só nunca vou entender a parte do dinheiro embaixo do pote de alho.
– Se você fosse um ladrão, você iria procurar dinheiro embaixo de um pote de alho em conserva? – indagou ele, inclinando-se sobre a mesa com um olhar prepotente.
– Não? – respondi, tentando conter o riso.
– Exatamente. – Ele ergueu as sobrancelhas, voltando a se enfiar na leitura do jornal do dia. Vi a manchete sobre o feriado e como os turistas estavam animados, apesar da previsão do tempo ser de chuva.
Meu celular continuava vibrando sem parar. E eu não estava conseguindo mais disfarçar na mesa de jantar que aquilo estava acontecendo. Queria saber o que era. E esperava que fosse algo de quem eu queria que fosse. Então, pra aniquilar a minha curiosidade hiperansiosa, fui me levantando cuidadosamente da mesa.
– Eu amo vocês dois, espero que o seu feriado seja pacífico, pai, mesmo que isso seja muito difícil com Jade indo junto – ironizei mamãe, mordendo meus lábios pra não gargalhar. – Agora eu preciso correr pro ponto, ou vou chegar atrasada.
Mas não. Eu queria correr pro outro lado da rua e ir até o colégio assistindo a Édra Norr dirigir aquele carro preto graciosamente bem, enquanto observava cada cabelo espetado em sua nuca.
E achei que isso iria acontecer, até acabar parando no ponto de ônibus acompanhada por Jade e Ermes Pêssego. Que queriam se despedir de mim da forma mais dramática e humilhante possível, acenando do ponto para mim, na janela traseira, enquanto todos os outros desconhecidos em suas janelas observavam.
– Tente não parar no hospital, nem ir presa! – gritou Jade para o ônibus partindo. E pude ouvir alguém alguns bancos na minha frente tossindo para disfarçar o som da risada que escapou logo depois dessa frase.
– Nós te amamos, bebê! – gritou papai, desaparecendo do meu campo de visão.
Agora eu era Íris Pêssego, sozinha em São Patrique, já que vovó não conta (pela irresponsabilidade, obviamente). O que pode acontecer de tão catastrófico além de, é claro, tudo?
Uma coisa eu posso dizer: poucas sensações são tão boas quanto estar apaixonada por alguém que te faz pensar “meu Deus, é essa pessoa”. Porque, bom, nem sempre você se apaixona e pensa isso. Nem todo mundo que faz suas coxas ralarem, faz sua barriga sentir frio e vice-versa. Nem todo mundo por quem você se apaixona consegue te fazer sentir que tem uma espécie de intimidade especial com você. Nem todo mundo por quem você se apaixona te faz pensar “cara, parece que a gente se conhece desde vidas passadas”. Porque existem vários tipos de paixões, várias formas de estar apaixonada. Paixões carnais, paixões sentimentais, paixões por carência, paixões por diversão, paixões por companheirismo e as paixões genuínas, que fazem parecer mesmo que um de seus antepassados e um dos antepassados dessa pessoa, sei lá, já fugiram de mãos dadas de um dinossauro na época pré-histórica.
Essas paixões avassaladoras, que te golpeiam em todas as áreas da sua vida, te fazem esquecer completamente de tudo. Você perde seu equilíbrio, sua noção de idiotice e, quando menos esperar, você vai estar olhando o mundo correndo fora da janela do ônibus como se nem sequer fizesse parte dele. Porque sua cabeça vai estar ocupada demais repassando flashbacks ou até mesmo criando cenas que nunca nem existiram, mas que você – no fundo do seu âmago – torce pra que aconteçam. A pessoa está em todos os lugares, em tudo. E só alguém completamente apaixonado vai conseguir ficar pensando nisso tudo do banco onde bate todo o sol matinal, com um sorriso na boca.
Tem que ter coragem pra se submeter a isso. E, por Deus, ainda bem que eu tenho.
Eu estou apaixonada por Édra Norr. Édra Norr talvez esteja apaixonada por mim. Ontem nos beijamos às escondidas antes de entrarmos na minha rua, pra que ninguém visse e comentasse – sim, Senhora Granson, eu estou falando de você –, gerando uma fofoca que só atrapalharia o que estamos tentando viver agora.
Eu beijei Édra Norr seis vezes. O primeiro beijo foi na pista de dança, o segundo e o terceiro também. O quarto foi na fila de bebidas. O quinto foi quando estávamos no banco traseiro do táxi, voltando pra casa. O sexto foi quando ela pediu pro táxi que parasse na entrada da rua e me encostou no poste velho da esquina, que tem uma lâmpada que pisca de uma forma extremamente irritante e o prefeito nunca quis trocar. O amor é tão idiota. Eu odiava tanto aquele poste que o chamava de “vaga-lume imóvel”. E agora vaga-lume imóvel é o meu poste preferido nessa cidade. É o meu ponto do beijo. O meu grande gatilho pra essa memória. E tive que inventar que estava lembrando de uma piada de Polly quando passei na frente dele com mamãe e papai e eles perceberam que eu estava rindo histericamente (como qualquer pessoa apaixonada).
Seis beijos incríveis. Seis vezes trocando saliva com a boca de Édra Norr. Seis vezes com alguma parte do corpo dela dentro de alguma parte do meu corpo. Seis trocas. Mas sete é o meu número favorito.
E eu não vejo a hora do nosso sétimo beijo chegar.
Mas quem eu quero enganar aqui? Eu não vejo a hora do vigésimo primeiro, do trigésimo quarto e do centésimo nono. Porque eu quero absolutamente todos eles.
Atravessei o corredor sentindo uma energia completamente diferente sobre meu corpo. Parecia que estava todo mundo olhando pra mim, mas eu não me importei muito com isso. Apesar de parecer muito, muito mesmo, que estava todo mundo olhando na minha direção.
Se Édra Norr bebendo água no bebedouro perto dos armários é uma cena instigante, imagine só como eu estou me sentindo em saber que os últimos seis beijos daquela boca foram meus. Dava pra sentir cada gota que escapava e escorria pelo lábio dela até colidir com o alumínio do bebedouro. Dava pra sentir cada vez que o músculo da garganta dela mexia pra engolir a água. Dava pra sentir a força da mão dela pressionando o botão. Édra e seu hábito diário de instigar seres humanos em atividades completamente banais. Não acredito que eu tô apaixonada por isso e que isso tá apaixonada por mim de volta. Sim, eu disse “isso” porque Édra Norr não é mesmo uma coisa identificável. Principalmente bebendo água.
Estava prontíssima pro meu sétimo beijo, apesar de ainda sentir que todo mundo estava me encarando. Édra veio andando na minha direção e, apesar de olhar pra mim, parecia ter a cabeça em outro lugar.
– Você veio de farda? – perguntou ela, franzindo o cenho. Foi quando eu percebi que sim, eu era a única de farda no corredor inteiro. Todos estavam com roupas normais. Inclusive Édra, que usava o blusão preto que tinha me emprestado antes.
Eu tava tão no mundo da lua que não conseguia me lembrar exatamente o porquê de todo mundo estar usando roupas normais.
– Sim, eu meio... é que... – tentei formular uma frase, mas acho que minha expressão de “ei, tô completamente perdida” respondeu tudo por mim.
– Hoje é véspera de feriado, já, já vamos pegar o ônibus até o espaço do evento pra começar a montar as barracas e essas paradas – explicou Édra, parecendo impaciente. – Só que talvez eu não vá.
Certo, pode parar de tocar música romântica na minha cabeça agora.
– O que houve? – indaguei, sem conseguir fingir o meu descontentamento. (Cadê o meu sétimo beijo?)
– Preciso resolver um problema na diretoria. – Ela arfou, com o olhar distante.
– Que problema? – perguntei, tentando fingir inocência. É claro que, a essa altura, minha cabeça já tinha remontado um flashback perfeito da noite passada seguido de um flashback perfeito da minha mão assinando o nome de Édra Norr na lista das inscrições pro show de talentos no feriado.
Mas eu não podia simplesmente assumir a culpa. Eu não podia contar a verdade assim, sem mais nem menos. Tipo, “Ei, bom dia, fui eu que assinei o seu nome sem o seu consentimento e agora você corre o risco de perder o seu trabalho e os benefícios de saúde da sua avó, que coincidentemente é minha vizinha e ironicamente a minha segunda melhor amiga”.
Eu só queria que as coisas pudessem se ajeitar antes de ter que contar. Talvez, quando tudo estiver resolvido, a gente possa só rir disso. E quem assinou ou não o nome de Édra não seja algo tão importante pra ela, uma vez que esse assunto esteja encerrado. E logo vai estar.
Ninguém pode obrigar alguém a participar de um show de talentos, não é?
– A minha nota final depende da apresentação. Tipo, da apresentação no show de talentos. Meu nome de alguma forma foi parar lá. E todos os alunos que assinaram vão receber uma espécie de nota baseada na participação – Édra começou a me explicar, encostando-se no armário ao lado, enquanto eu abria o meu pra guardar a minha mochila cheia de livros sem nenhuma utilidade. – Eu meio que tô isenta de fazer a prova final de literatura.
– E isso não é ótimo? – tentei disfarçar com um sorriso amarelo. – Quero dizer, seu poema do eucalipto foi... incrível. O meu ainda nem tá pronto, eu queria ganhar nota em alguma atividade extra. Minha média de literatura ainda tá péssima.
– Não, Íris, isso não é incrível. Porque eu não posso me apresentar na frente da cidade inteira – falou Édra, impaciente, olhando em volta. – Você sabe disso.
– Calma, eu só tô tentando ver um lado bom nas coisas. Tudo tem um lado bom – continuei insistindo em mudar o clima do assunto. Deus, eu estraguei tudo.
– Essa situação é uma exceção a essa regra. Se eu tiver que me apresentar pra passar de ano, acabou, mano. Todas as minhas paradas vão por água abaixo. – Vi Édra balançar a cabeça negativamente, encarando os próprios tênis.
Pelo menos ela tá aceitando a ideia de tudo sair do controle. Seria pior se ela estivesse surtando. Quer dizer... tudo isso já é bem ruim, mas me entende? Eu só quero ver um lado bom nessa confusão toda. Que, ironicamente, eu criei.
Mas eu estava bem enganada sobre Édra estar aceitando essa situação pacificamente.
– Se eu tiver mesmo que me apresentar, vou quebrar o nariz de Cadu Sena – disse ela, se desencostando abruptamente do armário quando o diretor, Sr. Álvaro, passou por nós, direcionando a ela um olhar que, na tradução que desenvolvi depois de anos como aluna nesse colégio, significava “me siga”. E isso nunca era uma coisa boa.
Meu coração acelerou dentro do meu peito, numa mistura de culpa e preocupação. Eu estava diante de uma bola de neve que era do tamanho de uma bola de gude quando decidi empurrar montanha a baixo.
– Como assim, Édra?! Por quê? – perguntei para as costas dela, que agora seguia o Sr. Álvaro rumo à diretoria.
– Porque eu sei que foi ele – respondeu ela, sem olhar pra trás.
Minha cabeça estava pegando fogo e eu estava tentando me manter calma enquanto passava fita adesiva pra selar as últimas caixas com os enfeites das nossas barracas pro feriado. É claro que eu precisava fazer alguma coisa, não pra ocupar minha cabeça – quando estou com raiva eu gosto de me concentrar nisso até achar uma solução –, mas Lulu Matias não podia simplesmente me deixar em paz naquela manhã. E, assim como todo mundo, eu tinha uma tarefa a cumprir antes de pegarmos o ônibus até o espaço onde arrumaríamos as coisas.
Todo esse estresse, e essa é só a véspera da festa. Mesmo assim, é uma data importante. A véspera é a “abertura” do evento, que vai estar repleto de pessoas, não tantas quanto amanhã – porque nem todo mundo recebe folga hoje –, mas, de qualquer forma, vai ter clientela. E a gente não pode desperdiçar um centavo sequer dessas pessoas. Toda e qualquer moeda vale pra arcar com os custos da formatura.
Não que eu vá sobreviver até lá. Minha vida social, minha quase-vida-amorosa e, agora, a minha reputação (ainda duvido que tenho uma) estão todas prestes a serem enterradas juntas.
E, como sempre, a única culpada nisso tudo é... Bom, eu mesma.
– Íris? – Polly me puxou do mundo da lua e todo o som que eu ouvi depois foi aquele barulho rangente e esquisito que fitas isolantes fazem quando são esticadas de vez sobre um papelão. Última caixa selada com sucesso.
– Ei. – Eu me virei, não muito empolgada, preciso admitir.
– A gente pode conversar? Tipo, não agora, porque agora tá tudo uma loucura, mas é que, hum... – Polly gaguejava sempre que estava errada e queria se desculpar. Observei minha amiga fazendo isso com Sandra Rios várias vezes. – Eu só queria saber se a gente pode ter uma conversa mais tarde na festa, tipo, no nosso intervalo das vendas.
Não posso nem fingir que preciso checar minha agenda ou que sou uma pessoa superocupada nessas horas. Queria muito poder fazer isso. Queria que, quando as pessoas finalmente criassem vergonha na cara e viessem se desculpar comigo, eu fosse capaz de dar um gelo nelas. Só que a sensação que eu tenho é que mora um garotinho solitário, carente e otimista no meu coração. E ele fica lá, fazendo barquinhos de papel nas minhas correntes sanguíneas, esperando que as pessoas voltem. E, quando elas voltam, o mais perto de “indiferente” que eu consigo chegar é sorrir escondida. O garoto solitário, carente e otimista dentro de mim sempre me faz sorrir nessas situações. Acho que, pra ele, é como se um desses barquinhos de papel voltasse.
– Pode ser, sim. – Acenei com a cabeça pra Polly, que carregava uma caixa aberta cheia de bandeirolas emboladas.
– Tudo bem, te vejo mais tarde, então. – Ela sorriu amarelo, dando uns passos pra trás. Fez isso até ficar constrangedor pra nós duas e virou de costas.
E que ótimo que ela virou de costas, eu já não tava mais aguentando esconder o sorriso. Garotinho idiota.
Quase arranquei meu dedo fora esperando que Édra Norr entrasse logo no ônibus. Eu queria saber o que estava acontecendo, o que tinha acontecido e o que iria acontecer.
Todos os alunos foram “ordenados” a subir no ônibus. Me propus a guardar um lugar pra Édra, menti pra pelo menos três pessoas da minha classe, dizendo que aquele lugar era de uma garota que só tinha ido ao banheiro e já, já iria chegar.
O motorista tinha feito a contagem pela, sei lá, quarta vez. A professora e Lulu Matias também tinham dado uma espécie de “visto” em nós. Havia mais três ônibus além do nosso, abarrotados de alunos.
É claro que eu quis perguntar pra Lulu Matias onde Édra Norr estava e se ela ia chegar a tempo, mas Gênesis estava procurando um lugar pra sentar na mesma hora e creio em Cristo como ela iria sentar do meu lado, só pra ter o prazer gospel de me torrar a santa paciência.
Então só respirei fundo e me permiti silenciosamente destruir os meus dedos, com essa coceira infernal da “Íris com ansiedade”. O motor do ônibus ligou, tudo começou a chacoalhar e, quando minhas esperanças já estavam zeradas, Édra Norr apareceu.
Ela sorriu com os lábios selados quando me viu. O olhar castanho-escuro parecia aliviado ao me ver. Às vezes, Édra me atingia em cheio como se fosse um filhotinho perdido de algum bicho, desses em que você esbarra na rua e quer muito colocar numa caixa de sapatos e tomar conta. O olhar de Édra, e todo o rosto, era expressivo demais. Então, pondo em prática minhas observações, somei as sobrancelhas arqueadas com o sorriso selado e o resultado foi positivo. Parecia estar tudo bem.
– Achei que você não fosse aparecer mais. – Eu sorri de volta, aliviada, quando ela se jogou na poltrona ao meu lado. Estávamos em um ônibus chique de viagem, como manda o protocolo escolar, mesmo considerando que não demoraríamos nem quinze minutos pra chegar até o espaço da festa. – Tá tudo bem? – perguntei, pra ter certeza.
Édra estava com o olhar baixo. Ela alcançou a minha mão, caída sobre a minha coxa, e a segurou de um jeito muito sutil. Senti os dedos dela acariciarem os meus.
– Tá tudo bem, sim – disse ela, pacificamente, antes de arruinar tudo suspendendo a cabeça com um semblante sério. – Eu só quero quebrar o nariz de Cadu Sena.
E o ônibus deu a partida.
– Todo mundo em algum momento quer quebrar o nariz de alguém, isso é normal. Não significa que você deva. – Apertei a mão dela, franzindo o cenho. – Deu muito errado lá com o diretor Álvaro?
– Ou eu apresento, ou eu repito a matéria. – Ela sorriu, sarcástica, como quem quer puxar meia dúzia de palavrões da garganta, mas só zomba da própria situação. Aproximei, na minha visão, a imagem lateral do seu dente canino de vampiro. – Quanto mais eu repito isso em voz alta, mais certeza eu tenho de que vou quebrar o nariz de Cadu Sena.
– Você não vai fazer isso. – Apertei a mão dela com mais força.
– Vou fazer, sim.
– Não, você não vai. Deve ter alguma outra forma, algum outro jeito.
– Não tem, Íris. Pare de tentar ver “o lado bom nisso” – afirmou, com um tom completamente irônico –, porque não tem um lado bom. Não tem jeito. Eu vou ferrar com tudo. É muito maior do que eu, é a classe inteira, são os alunos, as pessoas que confiaram em mim... E é a minha avó.
– Você não precisa procurar uma briga por causa disso.
– E você não precisa se meter. – Ela soltou a minha mão, sem me encarar.
– E você não precisa ser grossa – rebati, me encolhendo ainda mais na minha poltrona. Me virei pra janela do meu lado. Mas ainda queria que ela viesse atrás de mim, só estava tentando repreendê-la pelo corte gratuito (mesmo sem estar exatamente na posição de quem pode reclamar de alguma coisa).
Quando a mão de Édra alcançou a minha coxa, eu quis morrer.
– Desculpa, eu só tô muito estressada com tudo, não é culpa sua – disse ela, alisando minha perna por cima do uniforme. – Eu não tenho que descontar em você. Eu sou muito na minha, Íris, mas todo mundo tem limite. E Cadu Sena...
– Você vai mesmo procurar uma briga por isso? – perguntei absurdamente enraivada, quase que perdendo toda a minha postura quando nossos olhos se chocaram, mas continuei firme. Porque, dessa vez, parecia pessoal.
Senti como se toda a vontade de Édra de quebrar o nariz de Cadu fosse a vontade de quebrar o meu nariz. Talvez porque seja culpa minha, e ouvir ela me consolar faz eu me sentir três vezes mais culpada. Mas também porque violência não leva a nada. Brigas não levam a nada. E eu me recuso a acreditar que mereço um nariz quebrado ou qualquer coisa por causa disso.
– Se fosse eu – continuei –, se fosse comigo, tipo, você quebraria o meu nariz?
– É claro que não. – A mão dela apertou a minha coxa em reflexo. – É diferente.
– Qual é a diferença? – Senti os meus olhos arregalarem, enquanto, por dentro, eu tentava conter todo o meu nervosismo.
Um lado meu, o covarde, queria continuar escondido e deixar que ela fizesse qualquer coisa. Esse mesmo lado estava mais preocupado em ser “o mocinho” da história e ganhar um sétimo beijo. Mas o outro lado, o eu não sei, estava muito enfurecido com a possibilidade de levar um soco de Édra Norr no nariz. Não fazia sentido no meu cérebro ela querer fazer isso com o culpado. Principalmente porque o culpado, no caso, era eu.
Ela só não sabia ainda.
– A diferença é que – Édra parecia procurar uma resposta que ela não tinha. – A diferença é que... – O olhar perdido continuava fixado no meu rosto, combinado com a mão que não saía de cima da minha coxa. – A diferença é que você não faria isso, então não tem nem por que discutir essa hipótese. Você nunca me colocaria numa situação dessas, pra ser desmascarada diante de todo mundo e passar por essa humilhação. Você não me faria perder os benefícios que eu repasso pra minha avó. Você não iria me forçar a “perder uma virgindade” que eu não quero, a de cantar em público. Você sabe de tudo sobre o projeto, sobre as crianças, sobre a minha avó, sobre mim... E eu gosto de você.
O meu lado covarde soltou fogos de artifício; o meu lado eu não sei se sentiu o Judas da história, um traidor, uma farsa, um lixo.
Nossos olhos se arregalaram juntos, de formas diferentes. Ela parecia estar assustada com o que tinha acabado de dizer. Eu, por outro lado, estava com medo. Eu só queria congelar aquele momento, antes que perdesse aquilo tudo.
É muito estranho olhar no fundo do olho de uma pessoa que você já beijou e não poder fazer nada.
O ônibus parou e o freio nos sacudiu um pouco, cortando completamente nosso clima. Aquele era o clima do beijo. O meu sétimo beijo que faltava. Em todos os beijos eu e Édra fizemos esse pequeno ritual de concordar em silêncio que aquele momento era propício e simplesmente nos encaramos até que acontecesse do nada. E a gente só se dava conta quando já estava uma na boca da outra.
A sede de vingança dela, pelo visto, falou mais alto. Porque assim que Édra percebeu que o ônibus tinha parado, ela se apressou pra levantar da poltrona.
– Você vai mesmo fazer o que eu tô pensando que você vai fazer, Édra? – perguntei, quase que sem voz pra perguntar.
– Só fique fora disso – pediu, sem nem me olhar. Seus olhos escuros estavam concentrados em uma forma de furar a fila de alunos que se formava. Todos estavam numa agonia festeira pra descer do ônibus e ter a primeira visão do espaço da festa. O que é bem idiota, já que todo ano é no mesmo lugar.
Levantei atrás dela e furei a fila assim que ela se encaixou entre duas alunas da nossa sala, que eu não lembro exatamente quem são, mas sei que já me pediram coisas emprestadas e nunca devolveram.
Saímos do ônibus numa fila esquisita com múltiplos cheiros de colônias de diferentes perfumes, sprays de cabelo, suor e pele.
Apressei meus passos. Édra me olhou impaciente quando percebeu que eu a seguia. O espaço era gigantesco. Bandeirolas no ar, palcos ainda sendo instalados, barulhos de metais colidindo e de pessoas trabalhando. Tinha cheiro de chuva chegando. O ar era frio, denso e úmido.
Minha memória arquivou cada detalhe daquela manhã, porque, a partir dela, tudo daria completamente errado.
Avistei os meninos do time de futebol reunidos perto de uma pilha de barras de ferro e madeira, que logo mais virariam uma nova barraca. O ônibus deles chegou antes do nosso, e Cadu Sena já estava lá, risonho, vestido com a jaqueta do time de futebol, apesar de usar roupas comuns por baixo, como todo mundo ali (exceto eu). Eu vi o punho de Édra Norr se fechar cada vez mais enquanto ela se aproximava a passos largos, tentando ignorar minha presença flutuando feito um satélite atrás dela.
– Você pode parar? – perguntou ela, sem parar de andar. – Já disse que eu não quero que você se envolva nisso. Não é sobre você, Íris.
– E eu não quero que você estrague ainda mais a situação procurando uma briga com Cadu Sena, Édra. Brigar não vai te levar a nada – eu disse, alcançando o braço dela. – Poxa, você sabe disso.
Consegui fazê-la parar. Édra se voltou para mim com um olhar furioso. Eu a encarei do mesmo jeito, com um toque extra de decepção. Eu estava extremamente chateada. Sabia que, se ela desse mesmo um soco em Cadu Sena, eu iria sentir em todo o meu sistema nervoso. E tô falando de algo muito além de dor física. Muito além do sistema nervoso corporal. Quero dizer, o meu sistema nervoso sentimental também seria abalado. Eu iria sentir dor em cada sentimento, em cada memória, em cada retrato que meu cérebro fez dela. Eu iria sentir dor em todas as sensações que ela me causou, em todas as expectativas que criei, em todos os pensamentos e as opiniões que tenho sobre ela. Iria doer em mim por inteiro. E iria doer mais ainda no sistema nervoso dos meus sentimentos por ela. Porque se ela acha que o culpado por isso, independente das razões, merece um soco, ela automaticamente acha que eu mereço um também. Ela só não sabe que fui eu. Mas e se? E se eu não significasse nada pra Édra Norr agora, eu iria merecer um soco também? O problema não é nem necessariamente o soco em si. Mas a intenção de machucar. Édra Norr me machucaria por causa de um erro? O que isso significaria, se a resposta fosse sim? Quem gosta de alguém e machuca essa pessoa de propósito? Quem gosta de alguém e destila um soco?
No momento, a ira de Édra não é contra mim. Mas poderia ser. Poderia ser e, no fundo, é. Porque é tudo culpa minha. E não saber se Édra Norr me machucaria ou não naquele exato momento já era um soco.
Eu precisava saber, mesmo que aquilo estragasse tudo.
– Você não tem nada a ver com isso, nem com a minha forma de querer resolver as paradas – disse Édra, seca, impaciente e tentando se desvencilhar da minha mão, que segurava o braço dela.
– Desde quando um soco vai resolver as coisas? Pra que você precisa causar uma briga pra se sentir melhor sobre isso? – insisti e o meu sistema nervoso sentimental meio que se conectou ao meu sistema nervoso físico. Sei pelo bolo que foi se formando na minha garganta.
– Você... não tem nada... a ver com isso. – Ela se soltou do meu braço na última palavra. – Eu vou resolver.
– Então, resolva – falei para as costas de Édra Norr, mas ela continuou andando. – Volte aqui e resolva!
Nesse momento, Édra Norr parou de andar. O meu grito alertou Cadu Sena e os amigos palermas do time e as garotas que abriam as caixas e Lulu Matias, com sua prancheta contando os estudantes, e até uns rapazes que soldavam um carrossel.
Eu estava respirando ofegante aquele ar frio e úmido. O tempo ia, cada vez mais, ficando denso. Difícil de respirar.
Édra Norr se virou para mim com uma cara analítica, confusa. Como se já soubesse de tudo, mas aquilo não fizesse sentido. Ela foi se aproximando cautelosamente, balançando a cabeça negativamente a cada passo.
– Do que você tá falando, Íris? – perguntou, inclinando um pouco a cabeça para o lado, com os olhos apertados, atravessando os meus.
Meu coração estava batendo na minha garganta.
– Se você quer dar um soco em alguém, dê em mim. Se você acha que machucar alguém resolve os seus problemas, eu sou o seu alvo – minha voz saía falhada e trêmula. – Porque fui eu, Édra.
– Não, não, não! – Ela colocou as mãos sobre a testa. – Não tem como ter sido você, cara. Você sabia de tudo. Eu te contei tudo.
– Fui eu, Édra – repeti, tentando piscar os olhos o mínimo possível. As lágrimas estavam se acumulando e eu não podia simplesmente chorar bem ali.
– Não foi você – Édra não parecia falar comigo. Na verdade, analisando bem a reação dela, parecia mais que ela estava tentando se autoconvencer daquilo. – Não tem como ter sido você, você não faria isso. Não foi você.
– O que você vai fazer sobre isso? Você vai me machucar, como você queria fazer com Cadu Sena? Sua raiva inteira também se aplica a mim? Você quer “resolver” isso de que forma, Édra?
– Você mentiu pra mim! – gritou ela, chamando ainda mais a atenção das pessoas. – Eu passei a manhã inteira desesperada com isso e você mentiu pra mim. Você mentiu pra mim segundos antes de beijar minha boca, você disse que não fazia ideia de nada disso. Você mentiu olhando no meu olho. E você continuou mentindo, mesmo vendo o meu desespero, mano.
– Eu menti porque foi mais fácil fazer isso do que me tornar algo que você machucaria por raiva! – Tentei me aproximar dela, mas ela recuou com uma cara de desprezo, como se eu fosse contagiosa. – Eu tive medo da sua reação. Eu tive medo de estragar tudo.
– Você não precisaria ter “medo de nenhuma reação” se você não tivesse feito merda. Você mentiu pra não lidar com a consequência do seu erro, Íris. Não queira, nessa altura do campeonato, empurrar isso pra mim.
– Certo, eu fiz merda. Eu agi sem pensar. Mas você não pode me resumir a isso, Édra. Olha quanta coisa a gente viveu nesses últimos dias. – Tentei alcançar o braço dela.
– E você estava escondendo essa mentira de mim esse tempo inteiro. – Édra deu de ombros, com uma cara completamente apática.
– Achei que ainda pudesse consertar, achei que dava tempo. – Respirei fundo, tentando me controlar. Mas a minha mão estava tão trêmula quanto a minha voz.
Eu sei que todo mundo que estava por perto conseguia ouvir nitidamente tudo o que eu estava dizendo. Enquanto as pessoas aos arredores só observavam e tentavam entender o que estava acontecendo ali. Entre mim e Édra Norr.
– Eu errei, Édra. Mas percebi isso e não queria estragar tudo por causa de algo que eu já tava arrependida de ter feito. Eu não queria ter que contar e transformar isso em um problema real. Eu não queria nem dizer isso em voz alta, porque eu sabia que, no momento que dissesse, eu iria me tornar uma pessoa que talvez não fosse boa o suficiente pra você. E, mesmo errando, eu queria ser boa o suficiente pra você. Pra você me enxergar no meio de todo mundo. – Não pisque o olho, Íris Pêssego, não pisque. – E quando vi que você machucaria alguém por causa disso, eu não queria ser esse alguém.
– Mas você pôde me machucar, né? – indagou ela, cínica, inclinando a cabeça. Édra me olhava com uma frieza que eu nunca tinha visto antes no castanho de seus olhos.
– Édra, eu... – tentei procurar as palavras exatas. Mas fui percebendo que era tarde demais. Pras minhas palavras, pra aquela situação toda e pra minha tentativa de não chorar. Meu rosto foi esquentando, eu sabia que era questão de segundos até que as lágrimas rolassem espontaneamente.
– Não tem “Édra”, Íris. Parabéns, sério. – Édra bateu palmas pra mim. – Você conseguiu estragar tudo.
– Você que tá decidindo resumir as coisas a um erro. Você que tá decidindo estragar tudo – insisti, sentindo as gotas escorrerem pelas minhas bochechas, deslizando pra baixo do meu queixo, onde se acumulavam.
– Você decidiu isso muito antes de mim.
A verdade é que ninguém decide essas coisas sozinho. O amor se estraga por uma série de decisões estúpidas. Nossas, dos outros, do universo e de tudo que nos orbita e conspira contra e a nosso favor. Você pode decidir lutar contra tudo e todos, você pode proteger o amor de toda essa série de decisões boas e ruins, pra que ele não se afete muito com nada disso. E se ele se afetar, você pode decidir recomeçar. Você pode decidir pelo amor. Escolher o amor. Imperfeito, defeituoso, humano, porque nada vai ser impecável. Nada é perfeito, nós não somos. O amor provém de nós mesmos, e nós erramos demais. Nós somos feitos de decisões erradas. E, mesmo assim, é possível aprender e melhorar. Você pode decidir pelo amor. Você pode escolher o amor. Em todas as hipóteses e oportunidades. Ou você pode decidir deixar tudo pra lá.
E, bom, vendo as mãos enfiadas no bolso da calça de moletom e uma cara completamente indiferente, de quem nem conseguia me encarar direito, eu tinha presumido a decisão de Édra Norr.
E se ela não decidiu pelo amor, se ela não me escolheu, talvez eu não seja mesmo pra ela. Talvez não estejamos predestinadas a viver isso.
Você pode decidir pelo amor. Escolher o amor. Mas não dá pra fazer isso por duas pessoas. É pesado demais. O único amor que a gente pode carregar sozinha por pura responsabilidade nossa é o amor-próprio. E esse precisa ficar quando todo mundo se for.
Édra me via exclusivamente como o meu erro. Ela me resumiu a isso como se eu não tivesse mais nada de bom pra oferecer. Como se não houvesse coisas boas em mim, além disso. Como se eu não merecesse um perdão, uma conversa, um acerto. Ela me sentenciou ao meu erro. Ela esqueceu de quando ajudei com as crianças, quando escolhemos os livros do trabalho de literatura juntas, quando voltamos pra casa de bicicleta rindo à toa, quando empurrei a cadeira de rodas dela e a defendi, quando seguramos as mãos no hospital, quando esperamos juntas por Dona Símia, quando eu tirei a virgindade de pizza dela, quando circulamos pela cidade de noite e parecia que só existíamos nós duas e aqueles quarteirões eram um pequeno planeta particular. Ela esqueceu o meu sorriso no meio disso, o barulho da minha risada, o meu abraço, a minha dificuldade pra decidir o sabor do milk-shake, o meu “lado Júlia”. Ela esqueceu o meu beijo e a forma como a gente se olha e faz parecer que tudo ao nosso redor tá em câmera lenta. E ela pegou todas essas coisas e colocou o meu erro acima de todas elas.
Eu estou errada. Errei, mesmo. Mas eu devo me contentar com isso? Não posso melhorar? Não posso me redimir? Eu posso. E Édra não consegue enxergar isso agora porque ela está magoada demais, e sinto isso naqueles abismos castanhos dela.
Um soco no meu nariz doeria menos do que tudo isso.
– E agora, o que você vai fazer? Me dar um soco e nunca mais falar comigo? – perguntei, frustrada. Eu queria que ela, pelo menos, surtasse. Porque a falta de expressão de Édra estava me matando.
– Não, Íris. Eu não vou “te dar um soco”. Não vou encostar um dedo em você, nem nada. E eu tô falando sobre tudo aqui. Eu não quero nada disso mais. – Ela ergueu os braços e as sobrancelhas ao mesmo tempo, deixando-os cair abruptamente enquanto dava passos pra trás. – Eu tô fora.
– Então é isso, o meu erro vale mais do que os meus acertos pra você? Você não vai nem me dar a chance de mostrar que eu me arrependi de ter feito isso?
– Você acabou de errar, Íris. Você precisa enfrentar as consequências disso.
– Então você vai me punir por isso? Você vai se afastar de mim pra me machucar?
– Eu não vou fazer nada, Íris, eu só tô fora. Tudo volta à programação normal – disse ela, virando de costas. – Eu nem existia no seu mundo antes, lembra? É só você voltar a fingir que eu não existo.
– Então vai ser assim?! – perguntei, tentando não me deixar seduzir pela nuca ou por seus passos desconcertados.
Toda a minha tristeza foi se convertendo em puro ódio. Édra Norr estava me chutando da vida dela por causa de uma porcaria de um erro. Me. Chutando.
Ela não me respondeu mais nada. Evitou contato visual comigo em todas as vezes que nos esbarramos na montagem das barracas. Eu estava bem do lado da tesoura e ela pediu pra Evelyn Barros entregar pra ela. Eu estava bem do lado da droga da tesoura. Ela parecia ter seis anos. Em todas as oportunidades que tivemos de ficar completamente sozinhas fazendo a mesma atividade, ela simplesmente se oferecia para ajudar alguém em algo três vezes mais difícil que, sei lá, cortar confetes, por exemplo. Ela simplesmente preferiu carregar as madeiras da barraca com os garotos do que ficar perto de mim cortando a porcaria dos confetes. Aquilo foi crescendo dentro de mim como um incêndio florestal. Eu estava acostumada a ser invisível e rejeitada, mas estava me sentindo injustiçada demais.
Certo, eu estraguei a vida de Édra Norr. E isso vai afetar diretamente Dona Símia. E ela confiou esse segredo a mim, e eu simplesmente a coloquei numa situação em que ela mesma vai ter que se expor sem nenhuma escolha. É péssimo? É péssimo. Mas podíamos resolver tudo. Podia ter uma forma de me perdoar. Ela nem sequer me deu a chance de consertar as coisas. É tão injusto sentenciar alguém a um erro e nem dar a essa pessoa uma chance de se redimir. Podíamos ter um sétimo beijo... E um vigésimo sétimo e um quinquagésimo terceiro.
Passei uma hora e quarenta e sete minutos sem Édra Norr e já estava surtando.
Ela estava mesmo fingindo que eu não existia ali. Eu tinha voltado a ser a Íris invisível, mesmo quando o meu armário é perto do local onde ficam várias pessoas populares. Mesmo estando de pé no meio do espaço da festa do feriado, consideravelmente longe do meu armário.
Mas eu ainda tinha um pingo de esperança, e ainda estava me agarrando a esse fio prestes a ruir. Nossa briga não fez nenhum sentido na minha cabeça. Eu não podia acreditar que tinha sido tão fácil para ela “terminar” comigo antes mesmo de começarmos algo. Eu precisava fazer alguma coisa. Eu precisava agir.
Segui Édra Norr pelo estacionamento do colégio. Tínhamos ajeitado todos os preparativos para a noite: barracas de comida, bebida, jogos. Cabines de foto, loja de brindes, serviços de pintura em crianças e adultos, maquiagem e um ponto de arrecadação de brinquedos, alimentos e dinheiro. Estava tudo impecável e todo mundo tinha se empenhado muito pra deixar todas as coisas em seu devido lugar. Nós tínhamos tudo pra conseguir o dinheiro que faltava pra arcar com a formatura nesses dois dias de festa em São Patrique. Édra, além de não falar comigo ou me olhar desde a nossa discussão, também trocou de assento no ônibus com Lucas Castillo pra, obviamente, não ter que sentar do meu lado.
E guiada pelos meus instintos de “preciso resolver tudo”, eu decidi (escolhendo o amor) segui-la no estacionamento do colégio. Eu tinha ensaiado todo o meu pedido de desculpas, e tinha mandado uma mensagem pra Orégano’s só perguntando das promoções de pizza do dia. Tinha tudo pra dar certo. Ela estava de cabeça quente. E achei que um pedido de desculpas sincero e um convite pra comer outra pizza – antes de irmos trabalhar na véspera do feriado – fosse o plano perfeito.
Mas eu sou Íris Pêssego. E vejo novelas demais. É claro que romantizei uma cena e criei uma expectativa gigantesca que se desenvolveu dentro da minha cabeça feito uma bola de neve.
Édra Norr e Camila Dourado estavam conversando. Camila estava encostada no carro de alguém enquanto mascava um chiclete. Sua cara parecia falsa, como sempre, e preocupada. Eu não sabia qual era a expressão no rosto de Édra Norr. Ela estava de costas pra mim e brincava com a alça da mochila.
Do outro lado do estacionamento, Priscila Pólvora e Tatiele observavam tudo enquanto fofocavam e riam.
Eu senti ódio. E era mesmo como um incêndio florestal. Estava completamente tomada por aquilo. Então era isso. Era isso que “voltar à programação normal” significava. Correr pra Camila Dourado em menos de 24 horas. O meu erro era uma sentença, mas todos os erros de Camila eram o quê? Nada? Ela era a santa? A “menos pior”? E eu era a Íris Pêssego, vilã, mentirosa, hipócrita e de meias?
Édra inclinou um pouco o rosto e eu pude vê-la sorrindo. Camila Dourado, ainda encostada no carro, também gargalhava de boca aberta sem – infelizmente – se engasgar com aquele chiclete.
Me senti uma intrusa numa festa para a qual eu não tinha sido convidada.
É, é oficial.
Eu odeio Édra Norr.
E tive ainda mais certeza quando o meu ônibus passou na frente do vaga-lume imóvel, pouco antes de parar pra que eu saltasse. Justamente quando eu tinha acabado de digitar um “Desculpa” na mensagem para Cadu Sena e estava me segurando pra enviar. Eu não sabia se ele iria aceitar, eu não sabia nem o que eu estava fazendo. Mas se as coisas iam mesmo “voltar à programação normal”, eu meio que me senti na obrigação de fazer algo sobre Cadu e a nossa situação esquisita, estranha e mal resolvida.
Minha mente, pouco sabotadora, me fez lembrar de tudo. De sua boca na minha, das nossas barrigas se encostando, da minha respiração ofegante, da mão direita dela me apertando pela cintura enquanto a mão esquerda se apoiava no poste. O pisca-pisca da lâmpada quebrada, o cheiro (cheio de cheiros) de Édra Norr, o vento nas minhas pernas, que, sem nenhum sucesso, tentava apagar o meu fogo, e o meu coração desgovernadamente satisfeito no peito.
Foi o sexto beijo, e o último.
Desculpa 13:16
– Poste idiota – resmunguei quando passei por ele.
Como se não bastasse absolutamente tudo o que tinha acontecido, começou a chover. Bem na minha cabeça. Era inacreditável. Então voltei os passos que tinha dado e, pouco antes de me arrepender amargamente, chutei o vaga-lume imóvel com toda a minha força.