O Amor Não é Óbvio

Elayne Baeta · Capítulo 11 de 27

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O Amor Não é Óbvio

9 | Eucalipto

EUCALIPTO

 

 

Era sempre a mesma coisa e já fazia quatro dias. Eu acordava para ir ao colégio sem a yellow, porque meus pais me pediram para evitá-la por um tempo. Cadu Sena me mandava uma mensagem dizendo “Ei, Íris, hoje a carona fica por minha conta”. Depois, eu pegava um ônibus até o Colégio São Patrique e cumprimentava Polly no corredor, que, em todas as vezes, aparecia com a farda molhada de suco de laranja e me dizia “Dá pra acreditar que eu quase fui atropelada pela sua coleguinha de sala, Tatiele? Olha o que ela fez com a minha farda! Aposto que é ciúme do Luiz, antes do intercâmbio eles ficavam.” E então eu encarava a cadeira vazia de Édra Norr durante todas as aulas, rezando pra chegar logo a tarde e eu poder visitá-la, depois de finalmente descobrir o quarto dela no hospital, através do meu pai e sua amizade com Augustus Norr. Cadu me dava carona até em casa e me lembrava da festa no fim de semana. Eu almoçava alguma coisa e me arrumava pra ir de bicicleta até o Hector Vigari, levando quase uma hora pra escolher uma roupa legal o suficiente e que ainda tivesse “cara de hospital”, sabe? Tipo, passando seriedade. Eu não queria visitar Édra Norr parecendo que estava indo, sei lá, pro Submundo, por exemplo.

– Eu vim visitar Édra Norr – dizia para a recepcionista assim que chegava, me inclinando sobre o balcão de mármore. Que mais parecia uma pedra de gelo, naquela sala fria de ar-condicionado e azulejos azul-bebê do Hospital Hector Vigari.

– Édra Norr? – Ela me olhava com certa cautela. – Senhora, eu sinto muito, mas... – E tudo ia escurecendo, sobrando somente a voz dela, em eco: – Édra Norr faleceu hoje de manhã.

E, então, eu acordava.

Quatro dias, o mesmo sonho. Ou pesadelo. E eu já tinha decorado todos os detalhes dele. Já sabia como era o clima, como o céu estava e a temperatura dos ambientes. Tinha gravado a cor dos carros que passavam na rua enquanto eu pegava o ônibus até o colégio. Tinha memorizado todas as falas de todas as pessoas que passavam por mim durante esse sonho-pesadelo.

Não aguento mais sonhar com isso todas as noites e acordar sempre às 5h47, pingando de suor, com o coração acelerado.

O pior é que não paro de pensar em Édra Norr durante todo o meu dia. Eu tomo banho pensando nela, eu escovo os dentes pensando nela, eu converso com outras pessoas pensando nela e eu não consigo mais passar pela Avenida Principal porque, só de imaginá-la caída naquele asfalto, sinto um nó na garganta.

Inclusive, estão circulando fotos (acredite se quiser, fotos!) de uma mancha de sangue no passeio que a prefeitura – mesmo depois de limpar – não conseguiu remover.

Admiro a inconveniência de alguns alunos desse colégio, e também acho que a imaginação fértil de outros merecia um prêmio no Grande Fanfiqueiro Idiota Awards. Sério, Priscila Pólvora está especulando que Édra Norr não sofreu um acidente, mas que foi atropelada de propósito. As garotas da igreja da Alma de Deus dizem que isso foi castigo divino e que, depois do acidente, Édra vai retornar como uma garota hétero e cristã. Wilson Zerla foi novamente contratado pela diretoria e peguei 28 panfletos sobre cuidados no trânsito, só pra que ele não ficasse ali em pé sendo alvo de mais atentados contra sua vida social.

O lado bom desse colégio é que, se você engasgar hoje no refeitório, amanhã teremos uma palestra sobre mastigação. E é claro que nesses últimos quatro dias fui obrigada a ver um trilhão de cartazes sobre acidentes de trânsito. O que eu acho bacana, já que é uma forma de evitar mais problemas e alertar os alunos daqui sobre alguma coisa que realmente importa.

Só que isso é um saco quando você não consegue tirar uma pessoa da cabeça e tudo o que vê e escuta está relacionado a ela.

Quatro dias sem nenhuma notícia. Apesar de ter tentado muito, meu pai não conseguiu se comunicar com Augustus Norr para saber sobre Édra e desejar melhoras. O mais próximo dele que meu pai tinha conseguido chegar foi mandar flores pro seu escritório.

Camila Dourado simplesmente não comentou sobre nada com ninguém.

Muito pelo contrário, ela está agindo como se a namorada não tivesse sido atropelada na Avenida Principal. Tipo, sério. Camila está mais ativa do que nunca nas atividades escolares e eu tenho certeza de que isso tem alguma coisa a ver com a ambição dela em ser a rainha do baile de formatura. Parece que, de alguma forma, ela quer cativar o máximo de pessoas que puder, pra conseguir votos. Acho que ela está preocupada que o término com Cadu Sena tenha prejudicado sua imagem perante o nosso adorável corpo estudantil. Estamos cada vez mais perto da formatura, e as concorrentes de Camila são muitas. Mas, sei lá, Camila Dourado não deveria sorrir tanto como ontem, durante o debate sobre leis de trânsito e segurança nas ruas de São Patrique. Sinceramente, ela não parecia a namorada da vítima, e sim o vereador Jimmy no comercial eleitoral do ano passado. Ela está mais interessada em cativar pessoas que em alertar pessoas. E, por isso, eu não consegui ouvir nada sobre o estado de saúde de Édra Norr durante esses quatro dias que se passaram.

Não saber sobre Édra Norr estava me matando por dentro.

Sempre fazemos três tentativas. Três vezes parece o máximo de vezes que conseguimos suportar alguma coisa. Sempre ouvi a minha mãe dizer que iria contar até três e, se na terceira vez que ela chamasse eu não fosse comer, eu ficaria de castigo. Geralmente é assim. Três tentativas máximas. No meu quarto dia de pesadelo, decidi que não aguentava mais ficar tão paranoica. Minhas três tentativas de suportar aquilo já tinham se esgotado. Então decidi fazer tudo diferente. E quando acordei de novo às 5h47, tomei banho mais cedo e fiz um café da manhã caprichado pra mim mesma.

– Ai, meu Deus! – exclamou minha mãe quando me viu. Ela me pegou pelas bochechas e encostou a minha testa em seu rosto. – Você tá com febre?

– Ha-ha-ha, Jade Pêssego – Balancei a cabeça negativamente, voltando a mexer o meu suco de laranja. – Como a senhora é engraçadinha...

– Você não come direito desde a sétima série, quando eu desisti de te obrigar a tomar um café da manhã que preste.

Minhas torradas saltaram da torradeira... Queimadas.

– É... – disse ela, enquanto abria a geladeira. – Algumas coisas sempre serão do mesmo jeito.

– Bom dia, Íris. – Papai surgiu com seu jornal matinal embaixo do braço. – Bom dia, amor. – E, apertando os olhos para a torradeira, continuou: – Bom dia, dotes culinários da minha filha.

– Ela nunca consegue fazer uma torrada, né?! – Mamãe riu, abrindo ovos numa frigideira. – Incrível.

Um dia eu perco a minha virgindade de fazer uma torrada direito.

– Alguma notícia sobre a filha do seu investidor, papai? – perguntei, tentando parecer o menos preocupada possível, engolindo um pouco de suco. Estava tão ansiosa pela resposta que o meu gole não quis descer.

– Nada ainda. Nenhuma notícia boa, mas também nenhuma notícia ruim. E as flores que eu mandei foram recebidas pela secretária dele. Pelo visto, não está indo trabalhar. – Papai arrastou uma cadeira pra se sentar, abrindo o jornal. – Augustus é bem reservado com tudo, então não me admira que ele tenha sumido pra estar com a filha num momento desses.

Meu coração diminuiu de tamanho.

E o meu celular começou a vibrar em cima da mesa.

Você tem uma (1) nova mensagem de Cadu Sena:

 

Ei, Íris, hoje a carona fica por minha conta 6:56

Não, isso não pode estar acontecendo. Entrei no ônibus completamente apavorada. Isso não pode estar acontecendo. Definitivamente, não. Fugi da janela, tentei não me sentar do lado dela, mas tudo continuava uma réplica do meu sonho-pesadelo que esteve em modo repeat durante todas essas quatro noites. As mesmas pessoas entravam no ônibus quase que na mesma ordem que elas apareciam no meu sonho. Os mesmos carros passavam buzinando, nas mesmas cores e marcas. O rapaz que tinha dado o troco errado voltava na catraca pra entregar mais moedas. O clima nublado de São Patrique com um sopro frio cheirando a mar...

Tudo o que eu tinha sonhado ganhava vida bem na minha frente. Isso não pode estar acontecendo.

Desci do ônibus, em desespero. Decidi andar o resto do caminho até o colégio. Eu não estava suportando ficar ali, parada, assistindo a tudo o que tinha visto antes.

– Ei, bom dia – me cumprimentou Wilson Zerla quando cheguei ao corredor. – Você sabia que a Avenida Principal não tem um guarda de trânsito? – perguntou, me entregando um panfleto. – Assine o abaixo-assinado pra melhorar o tráfego e a segurança dos pedestres e ciclistas da cidade!

Peguei o meu panfleto e continuei encarando-o.

– Ei, bom dia – disse ele novamente, o que me fez apertar os olhos, meio atordoada. – Você sabia que a Avenida Principal não tem um guarda de trânsito? – E, dessa vez, o panfleto se estendia para Priscila Pólvora, ao meu lado.

– Ei, Priscila – disse, quando a alcancei no corredor. – Você sabe alguma coisa sobre Édra Norr? Ela é a minha dupla no trabalho de literatura...

– Ai, eu não sei não, viu – disse Priscila Pólvora em sua voz desinteressada, mascando um chiclete. – Toda hora alguém fala alguma coisa diferente sobre ela, não dá pra saber o que é verdade e o que é mentira.

Passamos pelas garotas da igreja da Alma de Deus segurando cartazes com frases bíblicas apocalípticas.

– Vocês deveriam ter mais respeito com as pessoas – eu disse, pela primeira vez na minha vida opinando sobre alguma coisa nesse corredor. – Ela não foi punida, ela só sofreu um acidente.

– Você pode ser a próxima – ameaçou Gênesis. Ela era tão obcecada por religião quanto seus pais, que deram a ela esse nome. – Deus sabe de tudo e ele não falha. Algumas coisas acontecem pra nos acordar sobre os nossos erros. E o que Édra Norr estava fazendo é um pecado imperdoável.

– Íris, não perde seu tempo com a ovelhinha de Jesus. – Priscila Pólvora me puxou pelo braço. – Julgar o próximo também é um pecado imperdoável, Gem, cuidado com os carros na rua.

E, pela primeira vez na vida, Priscila Pólvora tinha sido verdadeiramente legal comigo. Vi Gênesis amassar o próprio cartaz, furiosa com o que tinha acabado de escutar.

– Então, sobre Édra Norr – começou Priscila, quando chegamos no armário dela. – Um garoto daqui, um tal de Victor Pesquim, disse que a mãe dele é enfermeira no Hector Vigari e que Édra chegou por lá bem ensanguentada. Mas não dá pra saber assim, entende? Às vezes foram só cortes. Eu sei lá. Meu tio caiu do telhado uma vez e não quebrou um osso sequer. – Ela abriu o armário, recolhendo os livros das nossas aulas.

– Ei, Pri. – Tatiele nos interrompeu. – Vamos lanchar alguma coisa antes da aula?

– Por favor! – disse Priscila, trancando o armário e caminhando com Tatiele como se eu não estivesse ali parada conversando com ela segundos antes.

É como mamãe disse mais cedo: algumas coisas sempre serão do mesmo jeito.

Rastejei até o meu armário com o desânimo que parecia pesar o meu andar. Era horrível destrancá-lo para recolher os livros e não encontrar Édra Norr bebendo água a alguns passos de mim. Eu encarava o bebedouro vazio como se aquilo estivesse me esvaziando por dentro.

“Somos um grão de poeira para o universo, mas, para alguém, em algum lugar do mundo, o sol.” I.A. em marcador azul permanente no meu armário.

Édra Norr estava sendo o sol no universo da minha cabeça desde o acidente.

– Cara... – Polly se aproximou de mim. E, pro meu desespero, com a blusa manchada de suco. – Dá pra acreditar que eu quase fui atropelada pela sua coleguinha de sala, Tatiele?

Isso não pode estar acontecendo. Eu não quero chegar até o fim do meu pesadelo.

– Íris?! – chamou ela, acenando na minha frente. – Você tá chorando?

Respirei fundo e passei a mão rápido no rosto.

– Polly, você não vai acreditar, mas – comecei a tentar explicar, sem parecer maluca e sem mencionar Édra. – Tudo o que eu sonhei no meu pesadelo tá acontecendo e eu acho que uma coisa muito ruim vai acontecer...

– Como assim?! – Polly me olhou confusa. – Tá me assustando.

Mas o que eu ia explicar, afinal? Não iria fazer sentido pra mais ninguém além de mim. E, provavelmente, Polly estranharia muito se eu contasse toda a verdade sobre isso.

– Nada, só tô com um mau pressentimento, sabe? – eu disse, me enfiando o mais dentro do meu armário que eu conseguia caber pra esconder a minha cara. Meu nariz fica muito vermelho quando eu quero chorar (ou acabo chorando).

– Ai, amiga... – Polly me fitou com pena, do mesmo jeito que ela faz pra filhotinhos de cachorro quando visitamos abrigos. – Eu nem posso te abraçar agora, ou você vai virar um copo de suco de laranja, como eu.

O sinal tocou bem acima das nossas cabeças.

– Eu preciso trocar de blusa antes da aula, fala comigo por mensagem se precisar de alguma coisa. – Ela alisou o meu ombro, com um sorriso acolhedor. – Hoje eu não tenho todas as aulas, mas se quiser carona, posso te esperar. Vai ficar tudo bem.

– Cadu Sena me ofereceu carona – disse, como se não fosse uma coisa que sempre quis a minha vida inteira. Porque eu estava chateada demais pra ficar feliz com ele me levando pra casa.

– Minha garota! – Polly deu um gritinho histérico, se afastando de ré. – A festa na praia vai ser o máximo! Sério! Se você não tá animada agora, vai ficar.

E se virou, apressando os passos.

Bati o meu armário com o resto da energia que eu tinha poupado pra aula. Ótimo, agora que gastei todo o ânimo que tinha, estou completamente ferrada.

Só conseguia pensar na recepcionista do Hospital Hector Vigari me dando aquela notícia. A cena não saía da minha cabeça. Isso estava me angustiando muito. E um nó foi se formando na minha garganta, como se uma das bolinhas de papel de Édra tivesse ficado presa por lá, me engasgando.

Fitei o bebedouro vazio mais uma vez e respirei fundo. Olhei as pessoas em volta, correndo eufóricas para a primeira aula, esbarrando umas nas outras pelo corredor.

Priscila Pólvora e Tatiele seguiam para a nossa sala, fofocando entre elas, tomadas por sorrisos e olhares sugestivos.

– Ei, Íris – disse Priscila, quando passou por mim. Eu ainda estava imóvel na frente do meu armário. – Édra Norr tá aí.

– Quê?! – Meus olhos arregalaram e uma excitação subiu por meu corpo inteiro. – Tipo aqui, no colégio?

Senti um frio na barriga tão forte, parecia que estava numa montanha-russa.

– É, a gente viu quando ela chegou na diretoria. – Tatiele fez uma bola com a goma de mascar cor-de-rosa. E, quando a estourou, continuou: – Mas pra que você quer tanto saber? Ficou felizinha. – Ela lançou um olhar interrogativo na direção de Priscila Pólvora. – Achei que você tivesse saindo com Cadu Sena.

– É que ela é a minha dupla no trabalho de literatura. – Tentei disfarçar.

– Preciso passar mais tempo com você, Íris – disse Priscila, soando maliciosa. – Agora que você anda por aí com Cadu Sena, podia ser a minha cupido! Tipo, sério, você deixou o garoto caidinho. Eu preciso da sua tática!

Parecia que, por um momento, eu era popular para aquelas garotas. O que me colocava numa posição que eu e minhas marcas de catapora jamais ocupamos. Eu não queria ser uma pessoa popular que exclui pessoas. Então, mesmo me regando a vácuo na esmagadora maioria das vezes, decidi ser legal com Priscila Pólvora.

– Vai ter uma festa na praia, se vocês quiserem aparecer.

– Ai, garota, a gente já te ama, sério – agradeceu Priscila, dando uma cotovelada discreta em Tatiele. – Né, Tati?

Tatiele fez que sim com a cabeça, mas os olhos triplicaram de tamanho e olhavam além da minha direção. Priscila Pólvora falou algo que meu cérebro não processou direito. Porque tudo o que consegui ouvir foi “Édra Norr” e “de volta”.

Me virei tão rápido que me senti zonza. Não consegui pensar na hora se soaria estranho o meu desespero. Eu estava tão nervosa que podia vomitar a qualquer momento.

Édra estava numa cadeira de rodas preta e prata. A mochila do colégio estava deitada em seu colo e eu pude perceber os arranhados expostos em seus braços. Os olhos pareciam menores, como de quem não estava dormindo direito, ou, talvez, estivesse meio dopada de remédio. Tinha uma fita bem embaixo do queixo que, conforme ela se aproximava, percebi que era um band-aid bege. Ela também estava com o nariz meio arranhado e a testa tinha um pequeno corte com três pontos, bem acima da sobrancelha.

O que era o mais absurdo de tudo isso? Ela parecia mais bonita do que nunca. Como se tivesse saído de um filme de ação. Apesar de querer correr pra ajudá-la a girar a cadeira de rodas, não dei sequer um passo. Não consigo decidir se por nervosismo ou se porque aquela cena, quer dizer, Édra Norr arrastando a própria cadeira, fazendo uma força (que tinha como consequência a aparição de veias saltadas por baixo da pele de seus braços) enquanto mordia os lábios, é provavelmente a coisa mais charmosa que já vi nesse corredor. Sei que nem é certo pensar tudo isso, mas eu não consigo evitar: vejo tudo com olhos cinematográficos. Tinha uma trilha sonora internacional tocando em algum lugar nesse momento dentro da minha cabeça. A preocupação sobre como ela estava só me veio depois que o choque de vê-la novamente foi se dissipando pelo ar.

– Misericórdia... – deixei escapar da minha boca entreaberta. Percebi que Priscila e Tatiele me olharam como se eu tivesse cometido um crime, ou coisa assim. – Quero dizer, olhe os braços dela, coitada.

Não deu para pensar muito no que estava acontecendo, especialmente porque, naquele momento, Cadu Sena se aproximou de nós com alguns garotos do time de futebol.

– Ei, meninas. – Cadu sorriu, me abraçando pela cintura. – Ei, gatinha.

Tatiele e Priscila se entreolharam como se arquitetassem um plano maligno. E começaram a mexer compulsivamente nos cabelos enquanto fitavam os garotos que acompanhavam Cadu.

– Você não esqueceu da festa, não é? – perguntou ele próximo ao meu ouvido. – Você é a minha companhia.

– Íris? – chamou Édra, num tom de voz baixo e firme. – Posso falar contigo?

Os garotos do time, Priscila, Tatiele e até o próprio Cadu Sena pararam para analisar Édra Norr em sua cadeira de rodas, a poucos passos de nós.

– Ei, Édra – eu disse, me concentrando o máximo para não corar ou gaguejar. – É sobre o trabalho de literatura? – Tentei dar a entender que não tínhamos nada de mais privado para conversar antes que Cadu e as meninas achassem o que não deveriam.

– É, eu meio que fiz uma parte no hospital – respondeu ela, com um olhar atencioso. – A gente pode ir no refeitório agora, antes de entrar pra primeira aula?

– Você não sabia que é falta de educação interromper a conversa dos outros, não? – Cadu encarou Édra. E, olhando em volta para os amigos, continuou: – Algumas pessoas fazem de tudo pra ter um segundinho de atenção. Mal levou uns arranhões e surge no colégio parecendo uma réplica malfeita do Professor Xavier.

Os amigos de Cadu começaram a rir. Priscila e Tatiele forçaram uma risada pra ter aprovação dos garotos. Eu franzi minhas sobrancelhas. Não esperava isso dele. Quero dizer, ele odeia Édra Norr por motivos óbvios: ela está com a ex-namorada dele, que Cadu provavelmente não superou ainda, porque nem eu superei. Mas, cara, ela acabou de sofrer um acidente. Isso foi desrespeitoso. E ainda que nada tivesse acontecido com Édra nos últimos dias, descontar nossas frustrações nas pessoas é covardia. Mas é claro que eu não consegui dizer nada disso em voz alta, nem tomar as dores de Édra Norr na frente de todas aquelas pessoas. Quando a gente não defende o que acha certo, estamos sendo covardes também. Naquele momento, eu fui.

– Verdade, Cadu. Que falta de educação a minha! E eu ainda cheguei sem dar bom dia. – Édra, bizarramente, abriu um sorriso caloroso para ele. Eu podia jurar que ela estava mesmo sendo cordial. Mas tudo foi por água abaixo logo depois disso: – Você prefere que quem receba o bom dia primeiro? Você ou o seu ego frágil?

Os garotos do time ficaram em silêncio, tentando não rir, dessa vez, de Cadu Sena. Eu lancei para ele um olhar completamente reprovador, mas cauteloso. Que dizia “Não procure confusão”. Ele respirou fundo, sibilando algo para os amigos.

– Essa discussão não vale a pena. – Cadu foi dando uns passos para trás. – Deixa pra lá. – E, se virando para mim, avisou: – Mais tarde eu te levo pra casa, gatinha.

Depois, se juntou com os outros garotos. Deu pra ouvir que eles ainda faziam piadinhas infames enquanto se afastavam. E já que Tatiele e Priscila Pólvora decidiram seguir o rastro do time de futebol, agora éramos eu e Édra.

E eu estava me sentindo extremamente desconfortável com a cena que tinha acabado de presenciar. Para além dos motivos óbvios. Dentro da minha cabeça insegura e sabotadora, era impossível não pensar que toda aquela troca de farpas dizia muito a respeito de como os dois se sentiam em relação a Camila. Cadu, de ego ferido, não aceita muito bem o término com a sua ex-namorada perfeita (Camila Dourado). E Édra Norr, apaixonada, não vai permitir que o ex de sua “garota” (Camila Dourado) a diminua ou se sinta no direito de expressar qualquer coisa negativa sobre elas.

Eu estava de pé bem ali no meio. Mas eu não sou Camila Dourado.

Percebi que Édra Norr estava me olhando enquanto eu divagava sobre tudo o que tinha acabado de acontecer silenciosamente.

– Desculpa – disse ela em um tom de voz cabisbaixo, me olhando no olho.

– Não, tudo bem. – Respirei fundo. – Eu só odeio as “briguinhas” desse colégio.

– Eu também odeio. – Édra foi girando a cadeira mais pra perto.

– Você quer ajuda? – Finalmente perguntei. Mas, pela expressão em seu rosto, vendo que ela iria negar, fui logo segurando os pegadores e deslizando o peso de Édra Norr em direção ao refeitório.

– Eu não disse que queria ajuda – reclamou ela, tentando me olhar, inclinando a cabeça para cima. – Eu tô bem, na verdade. A cadeira é só pra me dar um descanso.

– Bem ou não, você tá perdendo a virgindade de ser ajudada por mim sem a sua autorização – brinquei, tomando cuidado com as falhas no piso.

– Eu perdi a virgindade de várias coisas nesses dias. – Ela riu, mexendo na mochila em seu colo. – Tipo a virgindade de ser atropelada.

– Como você começou a fazer o trabalho se esqueceu o livro no Leoni’s? – indaguei, curiosa.

– Meu pai ligou pro colégio pra saber se tinha algo importante. Daí comprou outro correndo quando eu contei do trabalho – explicou ela, folheando o caderno. – Ele tá morrendo de medo que eu fique de recuperação, perca o ano, ou alguma parada dessas.

Parada. Que saudade de ouvir “parada”.

– Você já começou a fazer o seu poema? – Ela inclinou mais a cabeça para me olhar. Parecia que ela estava de cabeça pra baixo. E eu gostei do rosto de Édra desse ângulo.

– Não – respondi, freando a cadeira de rodas. – Eu tava com a cabeça muito cheia de preocupação.

– Com o quê? – perguntou ela, analítica, me observando arrastar um banco do refeitório pra sentar.

“Tive pesadelos sobre você toda noite, temi sua morte e estou passando por uma fase difícil em aceitar o roteiro da minha novela preferida e da minha própria vida”, foi o que passou pelo meu cérebro, e ainda bem que não se conectou a minha boca.

Eu fui sugada pelos olhos de Édra Norr por alguns segundos enquanto me sentava, pensando na desculpa mais plausível e idiota que eu pudesse inventar.

– Com o supermercado do meu pai. – Sorri, sem graça, e meus olhos despencaram pros meus pés. Os meus cadarços estavam amarrados de maneira horrível, já que nem isso eu soube fazer direito com o nervoso dessa manhã.

– Hum... – Senti seus olhos deslizarem por mim. – Eu não quero assistir a aula hoje, você quer fazer alguma coisa?

– Que rebelde – brinquei e senti um sorriso abrir involuntariamente na minha boca.

– É o que acontece quando você quase morre. – Édra riu, enfiando todas as coisas (que ela deveria me mostrar, afinal, era pra isso que estávamos no refeitório) dentro da mochila. – Se você me acha rebelde por matar aula, imagine se andasse comigo.

Nossos sorrisos congelaram na nossa boca enquanto nos olhávamos. Acho que, sei lá, meio que temos o hábito de encararmos uma à outra em silêncio. Não sei se é algo que Édra Norr faz comigo ou com todas as outras pessoas. Espero que só comigo.

– Que crime você pretende cometer hoje? – perguntei, quando me senti desconfortável (vulneravelmente falando) em estar encarando-a. – Tipo, estamos no Colégio São Patrique e você é o tema de todas as palestras e panfletos dessa vez.

– É, eu soube. – Ela coçou um pouco a nuca. – Camila vai presidir uma palestra hoje sobre isso, mas eu não tô a fim de assistir.

– Deveria – aconselhei, coçando os meus dedos. – Você deu um baita susto em todo mundo e, olha só, você deveria respeitar seu repouso. Não precisava ter vindo hoje.

Mas ainda bem que você veio.

– Pode admitir, Íris. – Édra sorriu, cínica. – Você sentiu falta de ler as minhas bolinhas de papel nas aulas.

– Claro que não! – Eu ri (de nervoso). – Mas também fiquei preocupada – e tentei amenizar: –, é claro, qualquer pessoa ficaria. Fora que, bom, você é a minha dupla no trabalho de literatura. Eu preciso de você viva... – Tossi. – Pela nota.

– Pela nota? – Ela me encarou, cética.

Eu não acredito que Édra Norr quase foi morta na Avenida Principal, mas tem disposição pra curtir com a minha cara quatro dias depois disso.

– Pela nota. – Revirei meus olhos, mas acabei sorrindo no final.

– Eu não acho que foi só pela nota, eu sei que você sentiu falta de reclamar das aulas comigo – continuou Édra em um tom zombeteiro. – Eu sou o Professor Xavier, lembra? Foi o que o seu namorado disse. Eu leio mentes, sei de tudo.

– Cadu Sena não é o meu “namorado” – remedei seu tom de voz. – Nunca nem beijei ele.

– É, ele realmente tem a fama de ser lerdo quando se trata de “contato físico”. – Vi suas sobrancelhas arquearem. E ela se inclinou na cadeira, para mais perto de mim, dizendo: – Você acredita que, mesmo namorando com a Camila por anos, ele nunca tinha colocado a boca na...

– Eu não quero saber dessas coisas, Édra! – interrompi, tampando os ouvidos.

– Ah, é. – Ela fingiu seriedade. – Bati com a cabeça e esqueci que você é virgem.

Uma risada escalou a minha garganta e eu pude notar que ela também queria rir do que tinha dito.

– É menos absurdo que ser virgem de pizza. – Apertei os meus olhos para ela, lembrando que, pouco antes de saber do acidente, estava determinada a convidá-la para experimentar.

– Olhe pelo lado bom. – Édra Norr se apoiou na cadeira, descendo mais o corpo. – Eu, pelo menos, tô te alertando sobre o cara, ué. Cadu Sena não é a melhor pessoa pra você perder a sua virgindade de sexo.

– Como você pode ter tanta certeza? – Arfei. – Se você nunca fez nada com ele pra saber?!

– Mas eu converso muito sobre essas coisas com a Camila. – Édra parecia rebobinar cenas na cabeça; seu olhar ficou longe por poucos segundos. – Não só “converso”, né.

Minhas coxas ralaram uma na outra de nervosismo. Cocei os dedos com mais força. Eu voltei a fazer isso toda vez que ficava tensa.

– Talvez ele não seja tão ruim assim – Édra voltou a olhar pra mim. – Mas se você pudesse escolher o “bom”, ainda escolheria o “não tão ruim assim”?

Seus olhos pareciam enxergar através da minha roupa, de tão infringidores.

– Eu escolho continuar virgem. – Senti minhas bochechas esquentarem enquanto dizia. – Mas me diga uma coisa... – Essa sou eu tentando mudar completamente o tema da conversa. – O que foi que aconteceu com você?

– Eu fui atropelada – respondeu ela, tranquilamente, como se fosse uma coisa muito normal de se dizer. – E aí tive que levar uns pontos, fazer radiografia de tudo, mas só dei uma torcidinha no pé. Consegui andar pelo quarto tranquilamente. Então até o pé torcido tá bem. Nenhuma sequela, nada. Eu só vou ficar com uma cicatriz irada na barriga. Porque caí em cima de alguma parada que machucou.

– Você é doida – deixei escapar, incrédula com a naturalidade que ela lidava com o assunto. Tipo, se eu fosse atropelada, eu faria um drama tão imenso que ganharia um Oscar.

– E você precisa perder a sua virgindade de loucura – disse Édra, divertida. – Vamos! – Ela colocou as mãos em ambas as rodas. – Começando com uma coisa estúpida.

– Como assim?! – perguntei, me levantando do banco do refeitório. Não sabia o que Édra estava planejando por trás daquela cara de quem iria aprontar alguma coisa. – Segurei os puxadores de sua cadeira para que ela não tivesse que forçar.

(Embora eu quisesse ver as veias de seu braço de novo).

– Em direção ao auditório. – Ela apontou, mostrando o caminho velho para chegar lá. E com “caminho velho” eu quero dizer, na verdade, o caminho das rampas.

O nosso auditório fica numa espécie de subterrâneo. Antes, pra chegar lá, tínhamos que descer umas rampas enormes. E, pra voltar, tínhamos que subir as mesmas rampas. Era como enfrentar a subida de uma ladeira (ou escalar uma montanha).

Então, fizeram uma espécie de “corredor labirinto” com descidas menos bruscas que as rampas gigantes. A gente ainda descia até o auditório, mas não cansava muito. Foi um toque de gênio na reforma do ano passado. Tudo ficou claro e fácil. Mas Édra não parece ser o tipo de pessoa que gosta das coisas fáceis.

– Cara, o que você tá pretendendo fazer escolhendo esse caminho? – Fui arrastando Édra, sentindo um calafrio e sem saber identificar direito o motivo. Acho que porque quase ninguém desce até o auditório pelas rampas.

Então ficaríamos completamente sozinhas. E se alguém sonhasse com isso...

Quando chegamos na frente de uma das rampas, Édra Norr segurou as rodas pra que eu parasse.

– Tá, agora senta aqui na pontinha da cadeira – ofereceu ela, se afastando.

Eu não estava acreditando naquilo.

– Você sabe que eu não vou caber aí, não é?!

– Você pode sentar no meu colo, se quiser. – Ela me olhou, mas não houve malícia em seu tom de voz. Tentei entender o que ela queria daquilo, já que costumava ter um rosto expressivo. Mas ela estava indecifrável. Vamos, Íris, não é como se eu tivesse alguma coisa aqui que fosse saltar em você – brincou, rindo.

Eu ri junto.

– Certo... – Fui tremendo, suando frio. Mas parei na frente dos joelhos dela, que encostavam em mim. – Mas você tá doente...

– Mano do céu. – Ela gargalhou, revirou os olhos. – Cala a boca e senta logo, Íris.

– Certo – repeti, tentando não rir de nervoso, mas já estava meio que com uma cara consideravelmente idiota.

Agachei me apoiando na cadeira, pra não ter que fazer força com meu peso sobre ela. Minhas coxas foram encostando-se às delas e fui afundando em seu colo vagarosamente. Seu cheiro foi ficando cada vez mais forte enquanto eu me aproximava. E eu agora sentia todos misturados como socos no meu nariz. Eu suava muito e conseguia sentir o coração de Édra Norr bater tranquilo nas minhas costas. Também senti seus seios, pequenos, sendo apertados por mim enquanto eu me ajeitava, sentada em suas pernas.

– Tá, agora... – A voz de Édra estava muito perto, muito, muito perto. Eu sentia seu hálito morno perto da minha orelha enquanto ela falava: – Fecha os olhos.

– Meu Deus, o que você vai fazer?! – perguntei, apavorada.

Mas, antes que pudesse responder, Édra Norr girou as rodas da cadeira e descemos rampa a baixo em máxima velocidade.

Por impulso, agarrei o pescoço dela e fechei meus olhos com toda a minha força. Meu rosto franziu junto de medo.

Eu podia jurar que estávamos voando.

Meu Deus! Que maluquice eu estou fazendo? Essa garota é doida!

A cadeira parou repentinamente.

– Perdeu sua virgindade de loucura – Édra Norr foi dizendo entre risos. – Pode me soltar agora, antes que eu morra sufocada.

– Desculpa – respondi, abrindo os olhos. Eu realmente estava sufocando ela. O que eu posso fazer? Nunca desci uma rampa numa cadeira de rodas em alta velocidade.

Estávamos a centímetros da parede.

– Você é louca! – gritei, me levantando depressa do colo dela. – A gente quase bateu na parede! A gente podia ter morrido!

– De nada. – Ela sorriu torto.

A porta do auditório, a passos de nós, se escancarou, liberando vários alunos como se fossem formigas saindo de um formigueiro.

Camila Dourado, que nunca economiza na própria beleza, vestia um terno superjusto e estava usando uma armação de óculos de grau, e ela nem usa óculos. A cara de professora sexy de filme de comédia se transformou em curiosidade quando nos viu.

– Ei, amorzinho – disse ela, sorrindo. – E oi, você. – Camila me fitou, apertando os olhos, como se fosse uma lagartixa. – Incrível, nunca lembro o seu nome.

– É Íris – respondeu Édra Norr antes de mim. – Como foi a palestra?

– Um sucesso, baby! – ela deu um gritinho histérico, se jogando no colo de Édra. – Tô seriamente pensando em cursar alguma coisa assim.

Eu fiquei ali parada, feito um poste de luz. Não que houvesse alguma coisa que eu pudesse fazer além de sair correndo, já que segundos antes era eu quem estava no colo da namorada dela. O que, mesmo sem malícia nos olhos de Édra Norr, não sei se foi algo correto.

– Vamos comer alguma coisa?! – Camila se enrolou no pescoço de Édra Norr. E vi suas unhas postiças gigantescas pintadas de vermelho correndo entre os fios de cabelo na nuca dela. A nuca que eu acho bonita.

– Vamos, sim – Édra respondeu e se virou pra mim: – Íris, você quer vir com a gente?

Édra estava sorrindo, esperando minha resposta. Camila Dourado deixou claro, pelos lábios torcidos pra um lado e as sobrancelhas esticadas em deboche, que ela não me queria por perto. Ela balançou a cabeça negativamente de forma quase imperceptível.

– Tô meio sem fome. – Eu me apressei a dizer.

– Então eu te ligo pra falar sobre o trabalho depois, pode ser? Não vou assistir a mais nenhuma aula hoje.

– Ah, tudo bem – respondi, sem muitas opções restantes. – Certo. Então, eu vou indo...

Eu disse, não que elas tivessem escutando. Édra saiu empurrando a cadeira de rodas, já que Camila “Sem Noção” Dourado continuou no colo dela. (A sorte é o novo caminho alternativo: um corredor sem rampas, ou Édra Norr estaria sem braços antes de voltar pro colégio.) Será que ela não percebe que Édra acabou de sair de um hospital? Ainda que (graças a Deus) não tenha acontecido nada sério. E tudo o que Camila Dourado fez foi dar palestras e fingir que se importa com o colégio pra chamar atenção das pessoas.

Eu não sei o que seria “bom”, mas Édra Norr definitivamente estava escolhendo o “não tão ruim assim”.

Fui pra casa me sentindo meio esquisita por dentro. Cadu Sena passou toda a nossa carona falando sobre a festa na Praia da Sardinha e como queria que eu fosse. E cheguei em casa desejando um banho de banheira, já que nunca mais tinha tomado um. Aproveitei que estava sozinha – meus pais estavam muito ocupados com o novo estoque do supermercado – e deixei a banheira encher.

 

Quando desabotoei a calça jeans, meu celular vibrou.

Número desconhecido.

– Alô – atendi.

– Ei, alien – A voz de Édra parecia misturada a um barulho de ventilador. – Posso ler o meu poema pra você me dizer se ele tá ficando legal? Opinar se mudo alguma coisa ou sei lá. Não sou tão boa... E preciso da nota.

– Agora eu tô indo tomar banho, mas... – respondi, mas Édra me interrompeu.

– Ah, Íris – insistiu. – Estamos no celular, não é como se eu estivesse te vendo nua, ou alguma parada assim.

– Édra... – Arfei, semicerrando os meus olhos para a torneira ligada da banheira.

– Eu leio daqui e você ouve daí, beleza?

– ...

– Pode ser?

– Ai, cara... – Abaixei a minha calça jeans. – Tá. Vai, lê logo de uma vez.

Coloquei o celular em viva-voz e comecei a tirar a minha roupa, me sentindo meio que insegura em fazer isso. Mesmo que ela não pudesse me ver, eu sentia como se estivesse ali dentro do banheiro comigo.

– Anda logo! – mandei quando já estava na última peça que restava: meu sutiã.

Muitos barulhos de páginas sendo folheadas até que Édra respirasse mais perto do telefone e começasse a recitar o que deveria ser nosso trabalho de literatura.

– Tá, escuta.

– Estou escutando.

– Meu corpo: em hortelã, no seu corpo: em vício. E os nossos beijos de manhã: em eucalipto. O cair do seu cardigã é o meu beirar do precipício. Se despe distante pra me atiçar, você lá e eu cá... lipto. Feita de fantasia, como água na boca e saliva no mar e tudo isso chega a soar fictício. Lambo, dedilho e me alegro em seu suplício. Você goza na minha boca e eucalipto.

Eu fiquei completamente em silêncio. Meu coração batia tão forte que eu podia jurar que dava para ouvi-lo ecoar por todo o banheiro. Podia jurar que dava pra escutar meus batimentos desgovernados do outro lado da linha. Podia jurar que algo tinha acabado de acontecer comigo. Eu só não sabia o que era.

– Íris?! – A voz de Édra Norr ecoou pelo banheiro. – Ficou bom?

Me deixei afundar na banheira lentamente.

– Íris?!