O Amor Não é Óbvio
14 | Você viu Édra Norr?
VOCÊ VIU ÉDRA NORR?
Momentos decisivos...
Os lábios da garota encostaram nos meus com uma delicadeza muito agoniante. Eles não tiveram pressa, e pude sentir quando sua língua abriu espaço para adentrar a minha boca. Nossas línguas foram se enroscando e dava para sentir todos os nervos colidirem e se esfregarem. Meu coração foi acelerando dentro do peito e pude sentir um calafrio subir da minha coxa até a minha nuca. Segurei seu rosto, aquecido, macio... Deslizei a minha mão cautelosamente para trás da orelha dela, sem interromper os movimentos intermitentes que nossos lábios e línguas faziam. Meu corpo só se enchia cada vez mais de euforia. Talvez fosse o álcool ou o fato de estar fazendo algo que nunca imaginei que tivesse coragem de fazer. Levei um soco de pensamentos, lembrando de tudo o que me trouxe até esse momento. Binóculo, bicicletas, semáforos, luzes laranja, quadra, sala de aula, bolas de papel, casacos pretos, crianças adoráveis, um soco... Meus dedos procuraram os cabelos. O carro, a ferida aberta, o sangue, o quarto, os objetos, o cheiro da cama, a escada, a fotografia presa no quadro, os degraus, o cheiro de comida, o sorriso, a luz da geladeira, o “S” perfeitamente cortado, a discussão, a pista de dança, as luzes, o cigarro apagado, o olhar... Quando notei os cachos, me afastei abruptamente.
...Eu disse que poderiam ser um desastre.
Quando abri os meus olhos, arregalados, enquanto respirava ofegante, percebi o que tinha acabado de fazer.
Os olhos esverdeados de Ira me encaravam de volta, confusos.
E eles não me atravessavam. Não me abduziam, não me sugavam, não me davam nervoso, não me instigavam, não me despertavam, não me causavam nada.
Não era Édra.
– O que houve? – Ira inclinou um pouco a cabeça para trás, confusa.
– Os seus olhos – consegui dizer, desesperada. – Os seus olhos!
– O que têm os meus olhos? – Ela balançou a cabeça negativamente.
– Eles não me sugam. – Levantei, zonza, da banqueta. Vi o meu drink perdido no balcão. Um shot azulado. Virei de vez em um só gole. – Eu sinto muito – disse, limpando a minha boca com o braço.
Não sei onde eu tô com a cabeça. Eu costumo ter uma intuição muito forte pra beijos. Mas parece estar avariada. Não consegui prever o beijo dessa garota e acho que previ o beijo de Cadu Sena com expectativas demais. Talvez a minha intuição pra beijos esteja querendo me dizer alguma coisa com suas falhas técnicas. Talvez a nave espacial de Édra Norr pousada em cima da minha cabeça esteja dando mal contato. Talvez, só talvez, minha intuição esteja em greve. Protestando em prol de um beijo específico.
Segui descalça, de mãos vazias, tentando desviar das pessoas. Todo mundo estava meio triplicado. As pessoas pareciam turvas, tortas. Tive a sensação de que todo mundo estava me olhando com pena ou com um ar zombeteiro. Me senti estranha, confusa, perdida.
Foi se formando um nó na minha garganta.
– Você viu Édra Norr? – perguntei, esticando a gola da blusa social de um cara aleatório que estava vestido como Charlie Chaplin.
O rapaz balançou a cabeça negativamente, como se olhasse para um animal caído no chão da rua.
Sei que provavelmente eu estava soando como uma louca. Mas eu precisava encontrar Édra.
– Édra Norr? – perguntei, segurando o braço da garota vestida como marinheira. – Você viu em algum lugar? Ela tem o cabelo meio...
– Não, querida – disse ela, afastando minha mão de seu braço. – Desculpa.
– Alguém! – gritei, entre as pessoas. – Alguém, por favor...
– Íris? – Maurício surgiu, desesperado, me segurando pelos ombros. – Onde você estava? Cadê suas coisas? Seu sapato, seu celular, seus documentos?
– Eu não sei – disse, sentindo meus olhos encherem de lágrimas. – Deu tudo errado.
– Eu sei, cara, você não vai acreditar... – disse Maurício, soando muito nervoso e inquieto. – Léon estava aqui, agora há pouco. Na festa. Tipo, sozinho.
– Quê?! – Apertei meus olhos, tentando decidir para qual dos dois Maurícios eu deveria olhar. – Como assim?
– Pois é, eu não sei. – Maumau deu de ombros, completamente desnorteado. – Mas Camila Dourado viu e começou a maior confusão.
– Como assim?! – Tentei juntar os pontos, mas estava confusa demais.
– Ela começou a perguntar se o Léon gostava de garotos na frente de todo mundo e se ele estava traindo a irmã dela. – A voz de Maurício estava muito trêmula. – E agora eu não sei onde o Léon foi parar!
– Édra Norr – eu disse, olhando para o além, por entre as pessoas triplicadas. – E Édra Norr? Você viu Édra Norr?
– Quê?! – indagou Maurício, com a cara pálida de quem queria chorar de nervoso. – Édra Norr? Namorada de Camila?
– Elas não namoram. – Revirei meus olhos, sentindo ânsia de vômito por ter escutado aquela frase.
– Com certeza não mais, depois da discussão que tá acontecendo na área de fumantes. – Maumau olhou para o lugar onde, antes, a garota dos cabelos de anjo, Ira, folgava a gravata enquanto me assistia dançar.
– Maurício, eu preciso fazer uma coisa – expliquei, alisando os braços dele.
E segui até a área de fumantes, tropeçando entre muitos sapatos. Pessoas triplicadas, luzes néon, música alta... Tudo estava me deixando tão completamente confusa.
Avistei, encostada na grade, Édra Norr, discutindo com Camila Dourado. Ambas gesticulavam e pareciam gritar uma com a outra.
Me aproximei, enquanto tentava me esconder atrás de alguns corpos. Eu queria saber o que estava acontecendo, mesmo que estivesse muito difícil conseguir entender alguma coisa, naquela altura, com tudo girando e distorcido no meu campo de visão.
– Édra, pelo amor de Deus, você tá entendendo tudo errado. – Camila segurou ela pelo braço, tentando abaixá-los, enquanto Édra gesticulava.
– É? – indagou ela. – Eu entendi tudo errado? Porque não é o que parece. Você quer saber o que eu acho que parece?
– Hum. – Camila cruzou os braços, dentro daquele vestido de 1950, com o cabelo loiro preso com grampos em ondas feitas de gel. – O quê?
– Você não parece estar incomodada por Léon estar ou não traindo Renata. – Ela foi dando passos pra trás. – Você parece estar incomodada por ele não ser hétero! Você escutou os comentários que você mesma fez sobre ele estar numa “boate gay”, segundo você?
– Foi um momento de raiva! – Camila sorriu sem graça. – Por que eu me incomodaria com isso se eu gosto de você?
– Eu também não sei, Camila. – Édra colocou as mãos na cabeça. – Eu também não tô entendendo mais nada. – E, se inclinando para chegar um pouco mais perto de Camila, ergueu o queixo, franzindo a sobrancelha: – Qual é a sua? Por que a possibilidade de Léon gostar de caras também mexeu tanto contigo?
Camila Dourado deu a entender que ia falar alguma coisa. Sua boca até abriu. Mas as palavras não saíram. E ela tinha uma expressão de culpa esparramada pelo rosto inteiro.
Ela tentou segurar Édra pelo braço, mas era tarde demais. Édra balançou a cabeça negativamente e saiu, esbarrando abruptamente nas pessoas. Como uma avalanche. Ela andou até passar pela placa escrito “Saída de Emergência” em vermelho e eu a segui, descalça, sem nada. Segurando nas mãos apenas a barra do meu vestido.
Dei de cara com uma escadaria, que levava ao andar superior, e com uma porta para a rua. Abri a porta, temendo que Édra estivesse lá fora. Mas não havia ninguém. Só gatos miando, sacos de lixo e bitucas de cigarro espalhadas pelo chão.
Voltei, respirei fundo e subi as escadas. Sentindo o cimento e a poeira se atracarem aos meus pés.
A música foi diminuindo conforme eu avançava os degraus.
E, do topo, vi Édra Norr sentada na beirada, com os pés pra fora da construção. Soltos no ar.
Édra escutou quando tropecei num pedaço solto de azulejo, perdido naquele terraço. Sei disso porque ela fez como se fosse olhar para trás, mas desistiu na metade do caminho.
Ventava muito, o que fez com que os meus cabelos só atrapalhassem mais ainda minha vista. Mas, mesmo titubeando, segui até onde ela estava.
Me abaixei com muito medo, porque estávamos em não sei que andar daquele lugar. Eu nunca tinha reparado em quantos andares tinha o Submundo. Embaixo dos nossos pés, não havia muito movimento de carros e pessoas, mas dali dava para ver boa parte da cidade.
As luzes se misturavam, alaranjadas, algumas mais acesas que outras. Como vários pontinhos luminosos. Como um pisca-pisca embolado que você tira da caixa de decoração de Natal e seus pais te mandam testar, pra ver se ainda funciona. Todas aquelas luzinhas emaranhadas, vendo quem brilha primeiro... Era assim, a vista da cidade.
Eu não disse nada, apenas olhei. Como se fosse a última coisa no mundo que eu fosse ver.
Édra tirou um cigarro do bolso e, em seguida, um isqueiro azul. As mãos dela estavam muito trêmulas.
– Parece um pisca-pisca embolado de Natal – comentei, tentando quebrar o gelo.
– 36 meses, 12 semanas, 4 dias e 23 horas – disse ela, sem olhar pra mim.
Respirei fundo, esperando que ela continuasse. Mas ela só encarava o cigarro.
– Eu não fumo faz 36 meses, 12 semanas, 4 dias e 23 horas – repetiu ela, esfregando o dedo no isqueiro, fazendo o fogo acender e apagar intermitentemente. – E hoje eu quero fumar.
– Dezessete anos, muitos meses e alguns minutos – eu disse. Esticando, o máximo que eu pude, as minhas pernas no ar. Parecia que eu estava pisando no pisca-pisca embolado que era aquela cidade. – Eu não beijava garotas fazia dezessete anos, muitos meses e alguns minutos. Aí... – Suspirei. – Eu beijei.
– Eu vi – respondeu ela, passando o dedo por entre o fogo do isqueiro aceso.
– E eu me arrependi, então... – Dei de ombros. – Não fume.
Meio minuto de puro silêncio.
– Você não lembra mesmo de mim, né, Íris? – Édra me olhou de canto de olho, com a cabeça baixa.
Apertei os meus olhos. Tentando decodificar o que ela tinha acabado de perguntar.
– Como assim eu não lembro de você? – indaguei, procurando respostas naquela expressão facial cabisbaixa e entediada que era típica dela.
– Nada. – Ela deu de ombros, balançando a cabeça negativamente. – Você acabou de responder a minha pergunta.
– Não sei o que é mais estranho... – Me abracei para me proteger do vento que passava por nós, sentadas naquele terraço. – Você ou a cidade parecer um pisca-pisca embolado de Natal.
– Por que eu sou estranha? – Ela apertou os olhos pra mim.
– Você nunca comeu pizza, acho que podemos começar por aí. – Tentei conter o riso, já que rir naquela situação deplorável em que eu estava era, com certeza, uma prova grandiosa de que eu preciso de remédios controlados.
Édra revirou os olhos, como se eu tivesse dito uma coisa absurda. E acendeu o cigarro.
– Você pode ficar 36 meses, 12 semanas, 5 dias sem fumar – aconselhei, inquieta. – Não quebra esse recorde, se você sabe que vai ser um desastre.
– Você sabia que ia ser um desastre? – perguntou ela, me atravessando com os olhos. – Tipo, quebrar o seu recorde.
– Sabia – engoli seco.
– E por que você fez? – perguntou ela, séria. As sobrancelhas franzidas no meio da testa.
– Não sei, eu precisava quebrar com alguém. – Cocei os meus dedos, caídos sobre a barra do vestido de Dona Símia, entre as minhas pernas. – Mesmo que não fosse com quem eu queria – resmunguei, de uma vez.
Os olhos dela, parados nos meus, foram deslizando pelo meu corpo. Boca, queixo, pescoço, gola do vestido, seios, barriga, coxas, joelho até os meus pés estirados no ar. Fiquei com medo que ela percebesse, já que eu estava respirando de uma forma tão pesada que meu corpo parecia que iria explodir dentro do vestido. A respiração de Édra também estava intensa, e pude ver seu peito inchar e desinchar dentro daquela blusa social, com aqueles suspensórios presos na calça.
Depois, ela voltou tudo de novo. Pés, joelho, coxas, barriga, seios, gola do vestido, pescoço, queixo, boca.
E ficamos assim.
Imóveis.
O mesmo vento que soprava meus cabelos sacudia os dela, que dançavam com a gola de sua blusa social.
Édra me olhava como se estivesse pensando em alguma coisa. Ela piscava os olhos olhando para diferentes partes do meu rosto. Em algumas delas, ela apertava mais os olhos. Em outras, abria mais. Seus olhos pareciam perdidos na minha cara, enquanto ela olhava de um lado pro outro, de forma milimétrica. Como se contasse cada sinal e cílio, como se memorizasse cada detalhe. Como quem está lendo as atrações disponíveis no cinema, o menu da cafeteria, um outdoor na rua com letras muito pequenas.
Meticulosamente; pensativamente.
De um lado pro outro, mas sempre no mesmo parâmetro.
Até que um vento muito forte escondeu todo o meu rosto. Meu cabelo voou para frente dos meus olhos e para dentro da minha boca, me escondendo por inteira. E o cigarro de Édra Norr, que antes soltava um fio de fumaça, se apagou, voando para longe.
Seguimos com os olhos o movimento do cigarro apagado, que ia soprado pra longe, dentro da corrente de ar, até sumir de vista.
– Não parece um pisca-pisca embolado de Natal.
Nossos rostos ainda estavam perto.
– E parece com o quê?
Então, ouvi o som do pedaço de azulejo perdido outra vez, bem atrás das nossas costas.
Ira estava de pé com os meus sapatos numa das mãos e o meu celular em outra.
– Vou deixar vocês sozinhas – disse Édra, apoiando as mãos no chão para levantar. E saiu esfregando uma na outra, para que os farelos de cimento caíssem.
– Boa noite – disse ela quando passou por Ira.
– Boa noite – respondeu Ira, confusa. Se aproximando de mim com todas as minhas coisas.
Quando finalmente ficamos sozinhas, Ira me olhou como se eu tivesse feito uma coisa realmente muito ruim.
– Ei, Cinderela. – Ela estirou os sapatos e o celular na minha direção. – Posso saber por qual motivo você não achou relevante me contar que você é menor de idade?
– Quê?! – Agarrei minhas coisas contra o meu peito, me sentindo desmascarada.
– Não adianta mentir, Íris. – Ela arfou, enfiando as mãos dentro dos bolsos da calça. – A proteção de tela do seu celular é uma foto sua com uma garota, usando a farda do Colégio São Patrique.
– E daí? – senti minha respiração se descontrolar. – Muitas pessoas da minha turma já fizeram 18 anos, quem te garante que não sou uma delas?
– Eu duvido muito disso – rebateu ela, apertando os olhos pra mim. – Eu já estudei lá, é um bom colégio. Aposto que é a sua turma que anda me dando tanta dor de cabeça.
– Quê?! – indaguei, sem entender.
– Alfredini, Íris – suspirou ela. – Ira Alfredini.
– Quê?! – repeti, e minha boca se tornou um círculo.
– Pois é, vocês querem alugar a minha casa no fim do ano. – Ela riu, debochada. – E isso não é um problema – explicou, se aproximando de mim. – O problema é você me beijar na boca tendo dezessete anos.
– Você me beijou na boca. – Balancei a cabeça negativamente, cerrando meus olhos em direção a ela.
– Você quis – respondeu ela, dentro de um sorriso torto.
– Mas foi você que beijou, de qualquer forma. – Apertei mais os sapatos de Dona Símia contra o meu peito. – Então não me culpe.
– É claro que eu te culpo! – Ira apontou para mim. – Você me beijou e nem me disse quantos anos você tinha.
– Você nunca me perguntou. – Dei de ombros, tentando manter minha postura.
– Se alguém sonhar com isso, eu tô completamente ferrada. – Ela chutou o pedaço perdido de azulejo, que quicou até saltar do terraço. – O que as pessoas mais querem é fofoca sobre a minha família. E eu já me meti em tanta merda que meus pais e meus avós estão ameaçando me cortar tudo. Até riscar o meu nome do testamento.
– Bom... – Ergui minhas sobrancelhas. – Não tenho nada a ver com isso. Quem me beijou foi você.
– É. – Ira também ergueu as sobrancelhas, como se tivesse duplicado minha expressão. – E você correu pro seu sol assim que eu terminei.
– Eu já disse que não tenho um sol – respondi, me levantando daquele chão. – Ira Alfredini.
– Eu não acredito que você me transformou em poeira. – Ela revirou os olhos, fingindo que iria vomitar. – E você tem a idade da minha irmã mais nova.
– Eu não tenho a capacidade de te transformar em poeira – franzi o cenho –, a menos que você me transforme em sol.
– Você não tem nem idade suficiente pra ser sol. – Ela cruzou os braços. – Você é, no máximo, plutão.
– Acabou? – perguntei. – Posso me retirar agora?
– Me procure daqui a um ano. – Ela me encarou, tentando não sorrir.
– Eu tenho alergia a poeira – brinquei, rindo.
E, antes que ela pudesse me alcançar, desci a escada correndo.
A música foi ficando mais alta e fui voltando a me sentir como alguém que realmente estava em uma festa. O que não parecia do terraço.
Meu celular começou a vibrar no meu peito.
Você tem (1) nova mensagem de Édra Norr.
Parece com o céu, só que no chão. 01:03
Tive a sensação de que havia feito tudo o que eu tinha de fazer. Passei por entre aquelas pessoas me sentindo diferente, me sentindo viva. Estava me sentindo como se não houvesse nada que eu não pudesse fazer. Levantei de cabeça erguida. Vi casais rindo, vi amigos brindando, vi beijos que pareciam infinitos. Tudo isso embaixo de luzes oscilantes. O Submundo abrigava as pessoas que, constantemente, são rejeitadas no mundo fora daqui. Mas, aqui dentro, somos todos tão importantes uns pros outros. Nos enxergamos. Nos gostamos. Nos cumprimentamos. Dançamos no mesmo espaço.
Me senti parte daquilo. Me senti como se eu fosse um dos pisca-piscas emaranhados. Como se nós fôssemos luzes.
Não foi exatamente como eu queria, não foi exatamente com quem eu queria. Mas eu tive coragem.
Eu fui corajosa.
Naquele momento, enquanto procurava a saída do Submundo, eu senti. Senti nos olhos de todas as pessoas que me olhavam, e sabia que elas também sentiam de volta...
Essa coragem pulsante. Essa conquista...
Em usar um vestido que ninguém rasga.
Laranja forte.
Laranja (extraordinariamente) forte.
Caminhei para minha casa me sentindo assim. Como uma grande guerreira vencedora numa arena contra o próprio medo.
Mas todas as peças da minha armadura foram caindo quando eu cheguei, descalça, na entrada da minha rua. Segurando os sapatos de Dona Símia e meu celular na mão.
Havia luzes néon, vermelhas e azuis. Não eram como as do Submundo. Elas giravam em cima de uma ambulância. As mesmas luzes pintavam a minha casa e as de todos os vizinhos. Meu rosto se coloria com a oscilação delas.
Uma agonia de homens uniformizados, com aquelas roupas brancas, discutindo entre si. Andando de um lado pro outro.
Os sapatos e o meu celular caíram, juntos, no chão. E pude ouvir o barulho da tela trincando contra o asfalto.
Corri. E quanto mais eu corria, mais distante tudo aquilo parecia estar de mim.
– Ei, ei, ei – eu disse quando alcancei os rapazes, com a respiração ofegante. – O que vocês estão fazendo? Meu Deus!
Loriel e Lanterna latiam muito. Lanterna tentava abocanhar a calça do rapaz que vinha arrastando uma maca para fora da casa.
– O que tá acontecendo? – perguntei, sem conseguir arregalar ainda mais os meus olhos. Eles estavam expandidos o máximo que eu conseguia. E eu tentava entender aquilo, sem necessariamente querer entender aquilo.
– Garotinha, se você não for um familiar, preciso que você se afaste da ambulância – pediu o rapaz, por trás de sua máscara.
– Eu sou! – gritei. – Eu sou um familiar! – Segurei o tecido da farda do rapaz.
Meu rosto foi esquentando e as lágrimas rolaram pelas minhas bochechas.
– Certo, qual é o seu nível de parentesco? – perguntou ele, sacando uma prancheta da ambulância.
A maca tinha travado na escada, vários homens tentavam descê-la. Eu não tive coragem de ficar olhando.
– Ela é a minha melhor amiga – expliquei. – Nós somos melhores amigas!
Corri até os rapazes que tentavam destravar a maca.
– Ei, ei, ei, vocês não podem fa-fazer isso, não. – Puxei os braços de um dos rapazes. Eles eram muito maiores que eu. E me olhavam como se eu fosse louca.
– Alguém tira essa menina daqui, por favor – um deles disse para o rapaz da prancheta, logo atrás de mim.
Lanterna não parava de morder a perna do cara que segurava a maca do outro lado.
– É-é sério, eu tô falando sé-sério – eu tentava dizer, dentro do meu choro e soluço. – Te-tem no-no no-no novela, amanhã tem novela! Ela não pode ficar sem ver a novela. Vocês não po-podem tirar ela daqui, não!
– Setenta e quatro anos, parada cardiorrespiratória. A gente precisa que vocês liberem uma sala. Agora – disse o rapaz da prancheta pra uma espécie de rádio que ele segurava.
– Me escutem, por favor! – implorei, dando socos nas costas dos rapazes. – Vocês não podem!
Então me enfiei no meio deles, para ter acesso à maca.
Dona Símia parecia desacordada e estava com algo enfiado no rosto. Um rapaz apertava o troço sem parar. Eu não estava entendendo nada. Eu não sabia se queria entender.
– Ei, você precisa acordar! – eu disse, séria, para ela. Foi me subindo uma raiva desesperadora no peito. – Você tá me ouvindo? Você vai perder o final! A novela tá perto do final! Você sabe disso!
Eles se entreolhavam e negavam com a cabeça.
– Dona Símia! – gritei, sacudindo o braço enrugado dela. – Dona Símia! Eu quero chá! Eu tenho coragem! Você precisa me ver, agora que eu tenho coragem!
Me virei para os paramédicos que me encaravam. E gargalhei.
– Gente, é sério, vamos levar ela pra dentro, cara – pedi, rindo, mas as lágrimas não paravam de escorrer. – Ela só tá cansada. Olha só a cara dela de cansada! Já, já ela acorda... Né? Já, já ela não acorda? E fala “quer chá?”, porque ela não sabe escutar um não...
Minha risada parecia desesperada.
Todos continuavam em silêncio.
– Hein? Ela não acorda? Já, já? – continuei perguntando.
Meu sorriso foi sumindo aos poucos.
As rodas destravaram e eles foram descendo a maca.
– Vamos, pessoal, precisamos trabalhar rápido. Ainda bem que essa senhora ligou quando estava começando a passar mal, senão não daria tempo – ordenou o rapaz da prancheta, observando enquanto puxavam a maca de Dona Símia pelo chão rachado.
– Ei, ei, ei. – Puxei um deles pela farda. – Não! Vocês não podem fazer isso, não!
– Controla essa garota, Fred! – gritou o rapaz cuja farda eu puxava. O cara da prancheta me segurou pelos braços.
Eu me debati, tentando me soltar. Mas ele me apertava de uma forma muito firme.
Dona Símia foi sumindo para dentro da ambulância.
Eu não conseguia parar de chorar.
– Por favor – pedi, deixando todas as lágrimas rolarem. – Vocês estão rasgando o meu vestido!
E eles fecharam as portas, que, unidas, formaram o desenho de uma cruz vermelha.
Lanterna e Loriel começaram a latir, arranhando os pneus da ambulância.
Me deixei cair no chão. Oscilando entre azul e vermelho, enquanto eles se preparavam para ir embora.
Gritei pro vento, como se eles pudessem me escutar enquanto se afastavam. Arranquei a grama do jardim de Dona Símia com uma força que eu nem sabia que tinha. E fui me encolhendo, sem tirar os olhos da ambulância.
Até perceber o nome Hospital Hector Vigari – Plantão Emergencial escrito na lateral do veículo, quando eles viraram a esquina.
Corri para o outro lado da minha rua, até a minha casa, para pegar a yellow. Não me importei com o horário, em como eu estava ou se meus pais estavam ou não em casa.
Eu sabia onde ficava o Hector Vigari.
Prendi Lanterna e Loriel dentro da casa de Dona Símia e pedalei, de vestido, como uma verdadeira guerreira de arena.
Dizem que, quando você está perto de perder alguém, você costuma repassar dentro da sua cabeça todos os seus momentos com aquela pessoa. Momentos que você, provavelmente, nem se lembrava mais que tinham acontecido.
SÃO PATRIQUE – 10 ANOS ANTES
– Vizinhos novos? – indaguei, empurrando o meu prato de waffles para longe e me debruçando na cadeira para conseguir enxergar a janela.
– Não exatamente vizinhos novos – disse mamãe, sem parar de remexer os ovos na frigideira. – Um casal de idosos muito agradável. – Inclusive... – Ela se virou, desligando o fogo. – Vamos aproveitar que estão desempilhando coisas e entregaremos o bolo que eu fiz.
– Mãe... – Eu sorri, sem graça. – Seu bolo é horrível.
– Precisamos ser receptivos, Íris. – Mamãe apertou o meu nariz. – Vá trocar de roupa.
Atravessamos a rua naquela manhã ensolarada de verão de mãos dadas. Mamãe segurava o bolo dela, que tinha um cheiro muito bom, mas eu ainda tinha minhas dúvidas quanto ao gosto. Alguns rapazes ainda descarregavam caixas de um grande caminhão vermelho. Subi as escadarias, saltitando.
Mamãe tocou a campainha.
– Ei, olá. – Ela sorriu para nós, com os cabelos em um tom castanho-escuro com algumas mechas brancas, usando saia e blusa que combinavam, de cor creme. Parecia nossa candidata a prefeita, Selma Sal, só que um pouco mais velha e de batom vermelho-cereja nos lábios enrugados. – Posso ajudar?
– Ah, só vim dar boas-vindas. – Mamãe sorriu de volta, estendendo o bolo coberto por uma toalha de pratos florida. – Caso você precise de alguma coisa, pode nos chamar! Moramos bem aqui na frente.
– Que querida! – Ela agarrou o bolo, sorrindo muito docilmente. – Estou bem por enquanto, meu marido e minha neta que estão bagunçando tudo. Mas pode deixar, se eu precisar de alguma coisa...
– Somos do 302! – Mamãe sorriu. – Qualquer coisa, é só apertar a campainha da casa 302!
– Vovó! – A voz surgiu de dentro da sala, atrás da senhorinha. – Eu e vovô acabamos com a raça de um ninho de vespas!
Me inclinei, sem soltar a mão de mamãe, para ver quem era.
A garota, de boné e taco de baseball caído sobre o ombro, me encarou de volta. Com os olhos castanhos, profundos e enormes. Quando ela me viu, parecia que estava olhando pro ninho de vespas de novo. Fez uma cara muito feia e séria. As sobrancelhas franzidas exalavam desconfiança.
– Que ótimo, meu bem! – respondeu a senhora para a garota. E, virando-se para mamãe, abriu um novo sorriso. – Você aceita um pouco de chá?
– Não, obrigada, acho melhor a gente ir agora. Eu deixei umas coisas no fogo! – respondeu mamãe, sem graça. – Nos vemos em breve... – Ela estendeu a mão.
– Ana. – Ela sorriu, segurando a mão de mamãe. – Ana Símia.
– Jade Pêssego! – Mamãe sacudiu a mão. – É um prazer, Dona Símia.
– O prazer foi todo meu – Ana Símia riu, bem brevemente. Os dentes brancos contrastavam com o batom. – E você? – Ela se inclinou, me percebendo. – Qual é o seu nome?
– Íris – eu disse, me escondendo um pouco atrás da perna da minha mãe.
– Íris, que falta de educação a minha! Ofereci para a sua mãe, mas não ofereci para você. – Ela sorriu, se apoiando nos joelhos. – Quer chá?
– Eu odeio chá. – Fiz uma cara de nojo, sem querer parecer mal-educada. – É muito ruim o gosto.
– Tudo bem. – Ela sorriu, voltando a se levantar. – Um dia você aceita.
Descemos os degraus de volta para nossa casa. Olhei para trás, para a casa de Dona Símia, e vi que a garotinha com taco de baseball me observava da janela. Apertei meus olhos para ela, retribuindo a cara de desconfiança. E ela arrastou a cortina da janela de uma só vez, desaparecendo atrás do tecido branco.
SÃO PATRIQUE – DIAS ATUAIS
Cheguei muito ofegante ao Hospital Hector Vigari. Larguei a minha bicicleta destrancada no estacionamento. Estava descalça, minha maquiagem borrara toda a minha bochecha. O vestido que Dona Símia tinha me emprestado estava todo amassado e sujo.
Entrei, desnorteada, olhando de um lado pro outro, para ver se encontrava algum dos paramédicos que tinham levado Dona Símia embora.
Vi Édra Norr, com os olhos bem inchados e vermelhos, sentada numa cadeira, na segunda recepção.
Senti um choque diretamente na espinha.
Quando Édra me viu, ela se levantou abruptamente.
– Íris?
E antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, tudo ficou escuro.