O Amor Não é Óbvio

Elayne Baeta · Capítulo 4 de 27

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O Amor Não é Óbvio

2 | Os corredores falam

OS CORREDORES FALAM

 

 

Você percebe que está levando a ficção a sério demais quando começa a se basear nos princípios dela para julgar as pessoas à sua volta.

Eu encarava as meninas grávidas do primeiro ano e só conseguia revirar os olhos. Óbvio que passei a me sentir muito mal quando percebi que só agia assim por causa de Amor em atos e Edgar. Ele e Rosa levarão mais milhões de capítulos até que eu volte a estar satisfeita com a minha vida.

Alguma coisa diferente estava acontecendo nos corredores do São Patrique, e eu sabia que não era por causa das grávidas, embora elas tenham sido a notícia principal na boca dos fofoqueiros por semanas seguidas – o que não acho justo, já que os pais dos bebês não ganharam destaque e, fala sério, elas não engravidaram sozinhas. Também não era o fato de ser segunda-feira e todos comentarem sobre o fim de semana, como de costume. Não importava o quanto eu tentasse me concentrar em algum dos vinte grupinhos de fofocas espalhados pelo corredor, jamais conseguiria decifrar nada. Não dá pra entender quando todo mundo fala ao mesmo tempo. E, para o meu azar (talvez sorte dos meus tímpanos), o meu armário era afastado dos principais polos de fofoca. E, sim, estou falando de Priscila Pólvora. A boca dela é quase o Jornal Nacional, e todo dia de manhã, antes do primeiro sinal tocar, ela abre o armário comentando sobre algo e, segundos depois, está todo mundo comentando sobre a mesma coisa.

Cheguei atrasada porque fui dormir muito tarde no domingo, tentando ler um dos dezesseis livros de capa perfeita que adquiri no Leoni’s. Acabei perdendo o ônibus. Em outras palavras, perdi as notícias da boca de Priscila Pólvora e agora só havia resquícios de vários grupos comentando sobre algo que ela tinha comentado e eu perdi.

Não que eu seja fofoqueira, só estou seguindo os conselhos da Polly sobre me ligar mais no colégio e em mim mesma. Talvez fosse uma notícia que me acrescentasse alguma coisa, nunca se sabe.

Ok, sou provavelmente a pessoa mais curiosa da face da Terra.

É horrível ter que admitir isso, porque posso passar de enxerida a fofoqueira, dependendo da situação. Mas, fala sério, Jornal Nacional, quer dizer, Priscila, fala coisas que acontecem nesse colégio que eu jamais imaginaria. É como assistir a uma novela, às vezes. É a única parte da vida real em que realmente coisas acontecem.

Claro que só me dei conta da gravidade da situação quando Cadu Sena passou pelo corredor de cabeça baixa e todo mundo parou de fofocar para olhá-lo. Consegui imaginá-lo com catapora, mas nem com isso causei o impacto que ele causou pelo simples fato de soar triste. Quando ele desapareceu para dentro de sua sala, os murmúrios triplicaram. Parecia que até as paredes tinham boca.

Nesse momento, minha curiosidade atingiu níveis jamais imaginados pela raça humana. E se eu pudesse sequestrar Priscila Pólvora para ter respostas, eu faria isso.

Mas, ao contrário disso, só fui para a sala de aula. Porque eu tinha um trabalho em dupla pra apresentar. E a minha dupla era Igor Grécia, ou seja, minha dupla era eu mesma, porque ele e nada significam a mesma coisa. Maldita seja a pontuação em grupo. Tenho que fazer por dois, se quiser ter nota.

Já podemos concluir que minha segunda-feira estava uma merda, como todas as outras, então eu realmente não precisava que meu armário emperrasse justo nessa altura do campeonato, me deixando sozinha no corredor enquanto o lugar ia pouco a pouco esvaziando. A única parte boa disso tudo foi que dava pra escutar o que alguns grupos em particular falavam quando passavam.

Lista das coisas que eu escutei antes de conseguir girar a minha chave e voltar pra sala: “Ele mereceu, me disseram que foi porque uma das garotas grávidas do primeiro ano é amante dele”, “Talvez ele precise de mais aulas de educação sexual, teóricas e práticas, já que foi trocado justo nas vésperas da formatura”, “Ouvi dizer que ela sempre foi desse time”, “Você viu aquele olhar? Até eu trocaria Cadu Sena” e “Deus não se alegra com essas coisas”.

Com isso, concluímos que a apresentação do meu trabalho foi um desastre e eu não podia culpar Igor Grécia. E sim, única e exclusivamente, a minha cabeça obsessiva, que só queria pensar sobre aquilo, enquanto eu deveria estar falando sobre acontecimentos históricos dos quais eu não conseguia me lembrar, porque com certeza não tiveram nada a ver com os murmúrios no corredor.

É claro que não fui a única na sala de aula pensando no episódio do corredor. Mesmo em meio às outras apresentações, as pessoas continuavam murmurando sem parar, e eu sabia que era sobre “aquilo”, que eu não fazia ideia do que se tratava ainda. Me dei conta, para o meu pior pesadelo, que as pessoas estavam olhando em minha direção na sala enquanto fofocavam. Inclusive Priscila Pólvora, que até sorriu para mim de um jeito malicioso e me deixou sem entender o motivo.

É claro que, nessa altura, eu precisei me comunicar com Polly.

 

Acho que as pessoas descobriram sobre o incidente do xixi 09:45

 

Quê? 09:47

 

Sério, as pessoas estão olhando estranho e sorrindo estranho na minha direção. Preciso ir embora 09:47

 

Íris, você pirou? O_o 09:48

 

Poliana, eu não estou brincando 09:48

 

Íris, Cadu e Camila terminaram 09:49

 

Ok, agora eu realmente estou me sentindo péssima. Eu nunca imaginei que o incidente do xixi fosse causar isso.

Meu Deus 09:49

 

Eu quero sumir 09:50

 

Íris, não foi por sua causa. Que autoestima! 09:51

 

Aqui podemos perceber que eu devia ter apenas uma melhor amiga e ela tem 68 anos. Sim, eu disse isso.

 

Te explico no intervalo, se você não descobrir antes 09:52

 

Até porque, você estuda com o Jornal Nacional 09:52

 

Esperei por esse intervalo do mesmo jeito que tinha esperado pelo primeiro beijo de Edgar e Rosa em Amor em atos. E, justamente por isso, ele demorou três vezes mais pra passar. Depois de assinar meu nome na lista de alunos que apresentaram os trabalhos – e falharam miseravelmente –, saí em direção a Poliana “Que Autoestima” Rios. Fui até ela da mesma forma como meu pai sai caçando as crianças que roubam as balas do Pêssego’s quando ele se distrai com a calculadora.

Mas fui impedida de dar qualquer passo quando me deparei com aquela cena.

Camila Dourado estava pendurada nas costas de uma garota. Elas estavam rindo enquanto uma (das muitas) fã de Camila tirava fotos delas duas. Em seguida, Camila desceu das costas da menina e enrolou os braços em volta do pescoço dela. A garota, por sua vez, passou uma mecha do cabelo de Camila para trás da orelha dela e elas ficaram se olhando como se estivessem em uma cena de Amor em atos. Assim que a garota devolveu o celular para Camila, berrou algo de maneira tão escandalosa e embaralhada que eu não consegui entender direito. Porque, nesse ponto, todo mundo também estava escandaloso e berrando alguma coisa com aquela cena.

Algumas pessoas encaravam como se aquilo fosse a coisa mais errada do universo, mas a maioria dos olhares era de aprovação. Ouvi alguns gemidos de fofura, vindos de pessoas que esbarraram em mim enquanto tomavam rumos diferentes ao pátio.

– É, não preciso mais te contar. – Poliana surgiu atrás de mim, segurando meus ombros e me empurrando em direção à fila da lanchonete. – Camila Dourado está ficando com uma garota.

Respirei fundo, meio atordoada. Não por isso, claro, mas porque automaticamente me lembrei de Cadu e de que, se isso fosse mesmo verdade, ele estava completamente solteiro. Ok, um pouco da minha respiração funda foi sim por aquilo, mas, cara, esfregaram uma cena de novela no meu nariz. Como eu deveria respirar? Sou formada em reações exageradas desde Amor em atos. Fala sério, escuto Whitney Houston pra chorar após os episódios, as pessoas precisam pegar leve comigo.

– Quem diria... – disse Polly enquanto contava as moedas pro suco. – Anos de namoro pra ser substituído por uma aluna do mesmo colégio.

Certo, alguma coisa está muito errada nessa história. Porque, vamos por partes, Cadu é o tipo de cara que é bom em tudo. Ele surfa bem, tem medalhas de natação, tem um cabelo cacheado que é a coisa mais bonita que meus olhos já viram. Eu sei que ele beija bem, minha intuição sobre beijos não falha, porque eu sabia que meu beijo com o primo de Poliana seria horrível e realmente foi, mesmo ele sendo um cara legal e bonito (me desculpe, Pedro, mas seu rosto lindo não salvou seu beijo extremamente babado). Se, segundo minhas intuições, Cadu beija bem, pela lógica, ele faz outras coisas bem também. Então, não foi por sexo, como falaram. Ou porque ele é ruim em alguma coisa, há evidências suficientes do contrário. Que ele tenha engravidado uma das garotas do primeiro ano, eu duvido. Quem largaria Camila Dourado? Odeio ter que admitir isso, mas ela é tão sem defeitos quanto Cadu – não que eu tenha tido qualquer intuição sobre o beijo dela, ou coisa assim. Em outras palavras, o que quero dizer é: eles formavam o casal perfeito, então, preciso de um motivo muito plausível pra esse término.

Ok, vou investigar isso.

– Mas – começou Polly, quando finalmente chegou a nossa vez e fizemos o pedido; ela suco, eu vitamina de banana e morango com um sanduíche natural – não é da nossa conta o que eles fazem ou deixam de fazer com o namoro deles.

É, não vou investigar isso.

– Só é estranho, sabe? – continuou ela enquanto saíamos da frente da lanchonete e procurávamos um lugar pra sentar. – Cadu é praticamente uma celebridade pras garotas daqui. Ele e Camila formavam um casal que parecia ter saído de Malhação. E aí do nada eles terminam e Camila fica, sei lá, com uma figurante de cena. Normal a gente tomar um susto e achar meio esquisito. Será que foi traição?

É claro que eu vou investigar isso.

– Mas, sei lá, ainda acho que, independente de qualquer coisa, as pessoas desse colégio se metem demais na vida dos outros – disse ela, quando sentamos.

Verdade, eu não devo investigar isso.

– Quem é ela? O rosto é muito familiar. Ela com certeza não tinha esse corte de cabelo de garoto antes. Todo mundo teria reparado.

“Teria?”, eu me perguntei. A verdade é que eu vivia tão imersa no meu mundo que eu não tinha certeza da resposta.

– Ou não, né? Sei lá. Vai ver ela falta muita aula, ou foi uma das alunas que passou naquele projeto do intercâmbio ou só mudou o cabelo agora. – Polly parecia surpresa, observando o novo casal do São Patrique. Camila estava sentada no colo da garota, tomando refrigerante.

Do outro lado, Camila e a garota pareciam estar presas num universo só delas. Eu, de boca propositalmente cheia, concordava com tudo o que Polly dizia com sonoros “hum”.

– Não é estranho que precise acontecer uma coisa dessas pra gente notar a existência de algumas pessoas? Quem será essa menina?

Dei um último gole na minha vitamina; eu preciso investigar isso.

 

Sei que não existe um pingo de dignidade no que eu estava fazendo. Quer dizer, foi totalmente por impulso. Acho que até andei levando a Semana de Combate à DST a sério demais. Minhas últimas aulas eram do professor Marcelo, que quebrou a perna na maratona de ciclistas de São Patrique quatro dias antes. Ele ainda não tinha se recuperado, disseram que foi horrível. Ou seja, eu estava sem aula. Completamente livre pra fazer o que eu quisesse, e digamos que, talvez, ler alguns livros de conteúdo sexual estivesse incluído nisso. Não acredito que eu passei todo esse tempo achando que beijo grego era um beijo que dão na Grécia. Tô me sentindo inocente de um jeito que já não sei mais se considero saudável.

Ah, e eu amo o Leoni’s. É muito longe do colégio e ao mesmo tempo é perto da minha casa. Essa livraria de madeira cheirando a café fresco é definitivamente o meu refúgio. Também é o lar de criaturas estranhas e cruelmente críticas como Maurício. É claro que demorei muito tempo pra perceber que ele estava me observando enquanto eu lia Por que ela não goza? Que fique declarado aqui o meu arrependimento.

– É por isso que não me envolvo no mundo heterossexual – disse Maurício, e me peguei fechando as páginas em uma fração de segundos. Isso me fez derrubar o livro com um barulho estrondoso no piso de madeira. Estávamos no mezanino da livraria e pude ver Léon, o gerente, nos olhar da caixa registradora.

– O que você tá dizendo? – perguntei, me fazendo de desentendida.

– Procure no mundo um livro que fale sobre “problemas de orgasmo” no sexo homossexual e te dou café de graça por dois meses seguidos. – Maurício cruzou os braços, me observando abaixar para pegar o livro. – Não acredito que você perdeu a virgindade e não me contou.

Sim, Maurício sabe que sou virgem. Apesar de sermos amigos, ele descobriu sozinho.

– Você tá curiosa sobre sexo ou sobre como alguém é no sexo? – Ele arrebitou o nariz, passando o espanador pela prateleira. E foi com essas palavras que ele descobriu sobre minha virgindade. O Maurício tem uma intuição estupidamente boa e eu nunca vou entender isso. É bizarro. Sempre me perguntei se deveria apostar na loteria depois de perguntar os números a ele. Mas ele jura que nunca ganhou nada em sorteio.

– Só tô com tédio, não tive as últimas aulas. – Arfei, colocando o livro no lugar. – O número de pessoas virgens naquele colégio diminuiu muito nessa semana.

– Vá se acostumando... – Ele me olhou de canto. – Na faculdade, pessoas virgens são uma lenda urbana.

– Prazer. – Me virei, pegando o espanador da mão dele. – Lenda Urbana.

– Em nome de Madonna, você acha mesmo que vou acreditar nisso? Ainda mais quando você sair do São Patrique. – Maurício me olhou de cima a baixo, tomando o espanador de volta. – Você é a cara do fogo no rabo, sua fingida.

Me peguei rindo um pouco mais alto do que o tolerado pelo eco do Leoni’s. Sério, a gente fala tudo muito baixo, porque o eco da loja é onipresente e insuportável. Uma vez falei mal da Camila Dourado, o Léon ouviu e me olhou com uma cara desconfiada. Ele é cunhado da Camila.

– Você não vai acreditar no que tá acontecendo... – eu disse, dessa vez sussurrando. – Camila tá ficando com uma garota.

Outro estrondo, dessa vez, o espanador.

– Como é que é? – Ele parecia incrédulo e me puxou pelo braço para um dos corredores entre as prateleiras enormes de livros. Um verdadeiro labirinto. A gente sempre adentrava lá, porque era escuro e silencioso. Eu também ia pra lá sozinha, sentava recostada em alguma prateleira pra pensar sobre minha vida quando algo pesado acontecia. Tipo quando a Margot ficou internada porque algum bicho venenoso picou ela. Ou aquela semana sem Amor em atos, quando a TV só exibiu jogos de um campeonato de futebol.

Eu já estava rindo, porque sempre ria quando a boca de Maurício virava um “O” perfeito.

– Então quer dizer que a queridinha não é hétero? A irmã homofóbica dela já sabe disso? Me conta tudo agora.

– Sério. Tipo, eu achei estranho. O Cadu é incrível e... – comecei a falar, mas fui interrompida pela impaciência de Maurício.

– Já entendemos que você é apaixonada por esse menino. Prossiga.

– Não sei se a Renata sabe, mas elas estavam de casalzinho no colégio – eu disse, franzindo a testa. A irmã da Camila já tinha procurado todos os motivos mais fúteis pra fazer com que Léon se irritasse com o Maurício. O Léon não caía em todos, mas como ela sempre armava direitinho, ele acabava se deixando levar em alguns casos. Renata Dourado sempre tem coisas preconceituosas (que ela pensa serem piadas) para dizer, especialmente a Maurício.

– Gente, quando a Renata souber... – Maurício não continuou, porque, bom, como eu falei... O eco entrega tudo neste lugar. E era impossível não perceber o sino da porta da loja somado à voz irritante de Renata falando “Oi, meu denguinho” para Léon, no andar de baixo. – Sabia que se você falar Oi, meu denguinho três vezes na frente do espelho aparece a Renata?!

Tentei não rir, mas, como na minha apresentação mais cedo, falhei.

As pessoas acham que é incrível quando seus pais são donos de algum estabelecimento porque você ganha regalias. Não posso negar a parte das regalias, eu realmente como trezentos bombons diariamente sem pagar nada, mas, falando sério, são roubados. Porque sempre que estou a centímetros de pegar algo nesse supermercado, meu pai surge das cinzas, como vilões aparecem em filmes.

– Esse salgadinho custa dois e noventa e nove – ouvi sua voz atrás de mim, seguida daqueles braços desnecessariamente peludos tomando o salgadinho da minha mão. – Eu já te disse, você pode comer o que quiser no mercado do papai, mas vai ter que pôr o boné.

O boné é a parte preferida do meu pai, e igualmente – numa escala de pelos no braço dele – desnecessária na farda do Pêssego’s. Realmente sinto muito por Carina e Seu Solizeu, que trabalham aqui há milênios. O Pêssego’s não tem tantos funcionários porque não é um mercado assim muito grande. Mas Carina e Seu Solizeu passam a “vergonha do boné” há mais tempo que os outros. Sendo bem honesta, esse boné é a coisa mais zoada que eu já vi. É ser o Wilson vestido de preservativo todos os dias. E o sonho do meu pai é que eu trabalhe no Pêssego’s e “crie maturidade financeira”, como ele diz. “Filha”, ele começa, “quanto mais você precisa gastar do próprio dinheiro, mais você aprende a economizá-lo.” O que não é verdade. Consigo dinheiro passeando com Loriel e Lanterna para ajudar a Dona Símia. E quanto mais eu gasto do meu próprio dinheiro... Mais eu gasto do meu próprio dinheiro. Pizzas e bons livros não são de graça.

– Mamãe saberá disso – eu disse, friamente. Aproveitei que ele se virou e roubei um bombom. Coloquei de vez na boca e tentei mastigar o mais rápido que pude, pra que ninguém percebesse.

Carina me pegou no flagra, mas, como sempre, ela só espremeu os olhos e tentou não rir. O único que conta as coisas aqui é Seu Solizeu. Isso dificulta muito nossa amizade.

– Não vai ficar perturbando sua mãe com qualquer coisa – disse meu pai, abrindo a primeira caixa de papelão de uma pilha de três. Eu estava pronta pra saltitar por um produto novo (talvez uma nova marca de bombom ou as revistas que tanto peço pra ele passar a vender), mas eram preservativos.

Estou sendo perseguida por adereços sexuais em todos os lugares possíveis. O que tá acontecendo?

Meu pai percebeu que eu estava encarando a caixa um tanto assustada.

– Filha, você não precisa olhar isso, se não quiser – disse ele, cauteloso. – Eu até prefiro que você não queira.

– Não, é só que eu não aguento mais ver preservativo na minha frente – reclamei, mas só percebi que tinha sido mal interpretada quando vi que Carina, Seu Solizeu, meu pai e outros dois funcionários que estavam por perto etiquetando latas me encaravam com os olhos arregalados de pontos diferentes do supermercado. – Porque no meu colégio tá tendo umas palestras sobre isso – completei, desejando ser invisível.

Ouvi Seu Solizeu murmurar “graças a Deus” na frente da máquina de refrigerante.

– Hum... É sempre bom conversar com seus pais sobre essas coisas – disse meu pai, sendo o típico Ermes Pêssego versão avermelhada e sem graça. – Mas evite sua mãe esses dias, ela tá muito estressada com o trabalho.

Agora o “Bom dia pra quem?” quando eu a cumprimentei de manhã fazia sentido.

– Só passei pra dar um oi, tô cheia de trabalho acumulado pra fazer – falei distraída, brincando com a máquina de etiquetas abandonada pelos funcionários.

– Pode pegar o seu salgadinho. – A voz serena de quando papai está de bom humor surgiu entre o barulho de fita adesiva que ele usava agora para selar as caixas de volta. – Mas coma pensando sobre o boné.

É, nada é completamente de graça na vida de Ermes Pêssego.

 

Só percebi que tinha acordado tarde demais quando não passou um ônibus sequer no ponto e meu desespero chegou a níveis elevados. Tão elevados que tive que recorrer à yellow. Sim, eu achava legal nomear bicicletas quando tinha quatorze anos. Cara, fala sério. Tenho a sensação de que o universo inteiro conspira pra estragar minha vida escolar. Só no primeiro período, eu tinha duas atividades valendo nota pra entregar. Realmente extrapolei. Não acredito que me deixei levar pelas sugestões do YouTube. Passei quase a madrugada inteira vendo vídeos aleatórios, em vez de simplesmente terminar o meu trabalho e dormir. Qual o meu problema? E até agora ainda não descobri se formigas têm ou não joelho. Esse é o nível das minhas prioridades. Realmente mereço o que está acontecendo comigo.

Minha confiança em mim mesma é tão grande que toda vez que pego uma bicicleta, mesmo tendo certeza de que já decifrei como pedalar, parece que estou aprendendo pela primeira vez.

Até chegar no São Patrique, quase fui atropelada quatorze vezes. E minhas curvas foram péssimas e mal calculadas.

É claro que eu estava horrível quando cheguei. Apesar de ter herdado esse cabelo castanho e ondulado de mamãe, ao contrário do dela – que sempre está perfeito naquele rabo de cavalo –, o meu se transforma em uma coisa ainda não identificada quando toma vento demais. Tentei conter a situação passando a mão nele sem parar. Não adiantou de muita coisa. Eu sabia que estava horrível.

Decidi checar o celular enquanto prendia a minha bicicleta. Não que eu precisasse. Quem roubaria uma bicicleta amarela naquele colégio?

Polly Pocket:

 

Eu vou te matar 00:49

 

Você vai morrer 08:16

 

É, nada de novo nas minhas mensagens.

Corri pra sala, ciente de que teria que me humilhar pra professora Carola se ainda quisesse entrar no primeiro período e levar a pontuação que, depois das formigas e do YouTube, não sei se eu merecia mais.

Passei pelos corredores sem ninguém notar a minha existência, como sempre. Deixei uns livros do próximo período no meu armário e fui rezando a todos os deuses para que eu conseguisse entrar naquela sala.

Só percebi que deveria ter rezado por outra coisa quando já me encontrava de pé na porta da sala. Eu não sabia exatamente como andar sem parecer estar prestes a passar mal. A professora Carola não estava na sala, mas tinha alguma coisa escrita no quadro, parecia uma atividade nova. Ela provavelmente voltaria dali a alguns instantes. Mas não era por isso que eu tinha ficado nervosa.

Agora fazia sentido todo mundo ter olhado tanto tempo na minha direção naquela aula. Ninguém estava olhando pra mim.

A garota, a nova namorada de Camila, estava sentada ao lado da minha carteira. E ela, como todo mundo, me observou entrar atrasada na sala. Foi quando entendi o comentário sobre os olhos dela que eu tinha escutado naquele dia no corredor. Eles pareciam me engolir, mesmo que a expressão facial dela demonstrasse não estar dando a mínima para a minha presença. E a prova disso foi que ela desviou o olhar antes mesmo que eu alcançasse minha carteira.