O Amor Não é Óbvio
11 | Quer chá?
QUER CHÁ?
Me virei naquela cama umas trezentas e vinte e quatro vezes. Eu estava completamente agitada. Parecia que tinha engolido pilhas de bateria da sessão de utilidades no Pêssego’s, ou alguma coisa do gênero. Talvez eu possa culpar o álcool por isso. (Não vou me responsabilizar sozinha por ter parado na cama de Édra Norr.)
Deus, meu corpo está exatamente no lugar onde ela costuma deitar. Quão surreal é isso?!
Quero dizer, eu sei, eu não deveria estar pensando nisso agora. Na verdade, toda a minha energia mental deveria estar sendo gasta em... Bom, na verdade, no meu vacilo com Cadu Sena. Mas, cara, tenho certeza de que ele está viajando na maionese. Porque, tipo, eu só olhei Édra Norr. Isso não necessariamente deveria ser um motivo pra ele me largar sozinha, deveria?! Digo, ele nem sabe que eu persigo ela pelas ruas da cidade, isso, sim, poderia ser uma razão para que ele me largasse sozinha naquela praia (me fazendo perder as rasteirinhas de Polly).
Mas nem ele nem Édra e nem ninguém sequer sonha que eu faço essas coisas altamente questionáveis (pra quem não é um cientista).
Se arriscar é algo inerente a um bom cientista.
Eu acho que Cadu Sena está muito surtado com essa coisa de ter sido trocado por uma garota, deve ter subido a cabeça dele. Se isso tudo foi por eu ter encarado Édra Norr, imagina se ele abrisse o meu caderno de anotações... Ou se alguém contasse a ele sobre eu ter saído da festa com ela, usando apenas o sutiã, na frente de todos os seres vivos que frequentam o Colégio São Patrique.
Deus, é verdade. Todas as pessoas viram.
Certo, agora eu estou surtando. Vamos tentar concentrar em alguma outra coisa, Íris Pêssego, você ainda não está sóbria o suficiente para criar teorias sobre o fim da sua vida social. Obrigada, Senhor, por já ser fim de ano e por faltar poucas semanas até a formatura, o que torna todo o incidente do sutiã “menos pior”.
Fui me concentrando no ventilador de teto e no barulho que os galhos faziam quando arranhavam o vidro da janela. Até que o som abafado de porta de carro batendo atrapalhou toda a concentração que eu me esforçava para ter.
Édra Norr tinha chegado em casa. Mais rápido do que eu pensei que ela fosse chegar. (Só por hipótese, o tempo meio que pode estar passando muito rápido pra mim, já que eu ainda estou consideravelmente bêbada).
Acompanhei os sons, sem me levantar da cama.
Chaves, porta, sapatos, chave de novo, dessa vez caindo sobre algum lugar.
Desci as escadas, passo por passo, sentindo o mármore gelado congelar os meus pés, degrau por degrau. Percebi algumas fotos da família de Édra Norr penduradas em molduras luxuosas de vidro na parede ao meu lado direito. O lado esquerdo, por sua vez, era o corrimão de ferro preso a placas de vidro que se uniam, limitando a escada. E, daqui de cima, dava para ver a sala inteira. Encontrei, entre as fotografias, uma Édra Norr em miniatura, uniformizada com boné e camisa (que a engoliam), com os cabelos desgrenhados na altura do pescoço. Ela segurava um taco de baseball e sorria sem um dos dentes da frente.
Adorável. Completamente adorável.
Os barulhos na cozinha foram aumentando conforme eu me aproximava. Pude ouvir o arranhar de panelas, um abrir e fechar de gavetas somado a um palavrão sussurrado.
Fui me envolvendo com os meus braços quando cheguei na sala e me arrastei até a cozinha, como quem não queria ser vista. Encostei na parede e cruzei meus braços bem embaixo dos meus seios. Apertei meus olhos diante da cena que eu estava vendo.
Édra Norr quebrando ovos, às 2 da manhã, dentro de uma frigideira preta fosca. A blusa pendurada no ombro, as costas à mostra, usava o top e ainda vestia a calça da festa. Procurei a nuca, porque realmente me agrada encarar aqueles minifios de cabelo grudados ou assanhados. E eles estavam lá.
O som dos ovos começou a estalar na frigideira e o cheiro foi se espalhando pela cozinha. Ela coçou a nuca, encarando uma prateleira de madeira repleta de condimentos pendurada na parede em sua frente.
E eu acabei rindo. Na verdade, rir não foi o problema. É que, bom, saiu o som de “porquinho” que sai às vezes (digo... raramente. Não é como se eu ainda tivesse oito anos) e fui pega no flagra.
– Ah – disse ela, quando se virou pra mim. – Você. – Virou-se de volta, mexendo os ovos com uma colher de madeira. – Cê tá precisando de alguma parada?!
– Não. – Eu fui me aproximando, como se estivesse na lua. Sério, eu levei quase dois minutos pra dar meio passo. – Só vim beber água mesmo.
– Quer comer alguma coisa? – perguntou ela, me olhando por segundos, voltando a se atentar aos ovos. – Cheguei com fome.
– Eu não sabia que você cozinhava. – Dei de ombros, impressionada. Porque o cheiro estava ficando cada vez melhor.
Édra desligou o fogo, abrindo a enorme geladeira bem ao lado dela. Começou a vasculhar alguma coisa lá dentro.
– Eu já pensei em fazer gastronomia, mas... – Pausa pra fechar a geladeira com o pé, já que ela estava abraçando uma pilha de ingredientes – não penso em ser cozinheira. Eu só gosto muito de cozinhar, sabe? É maneiro.
– O que você tá fazendo? – Tentei espiar detrás do balcão da cozinha americana.
Édra começou a amolar a faca no mármore da cozinha. Estava bem arranhado o lugar em que ela passava a faca, provavelmente já era um costume dela. O bom disso foi poder ver suas veias surgirem mais uma vez com o esforço.
– Só ovos mexidos com bacon. – Ela tentou me olhar por trás do próprio ombro. – Mas eu juro que sei cozinhar comida de verdade.
– Aham – respondi, cética, ficando na ponta do pé pra sentar na banqueta de frente para o balcão sobre o qual eu me inclinava. Quando sentei, pude ver melhor o que Édra fazia na pia. Agora, ela cortava tiras de bacon ultrafinas, com muito cuidado. Achei bonita a forma como ela manuseava a faca. Posso dizer isso porque, antes de Amor em atos, sempre passa Quem quer ser um mestre cuca? e eu tenho plena noção da importância de saber segurar uma faca. É claro que ela passaria nesse teste se fosse pro programa. Mas eu jamais admitiria isso em voz alta. Provocar Édra Norr com ceticismo é mais divertido.
– É sério. – Ela tentou não rir, ligando o fogo mais uma vez e colocando sobre a chama uma nova frigideira. – Palavra de escoteiro.
– Quê?! – Eu ri com aquele som nasal idiota. Deus, porquinho, simplesmente pare. – Você foi escoteira?!
– Acho que todas as crianças de Nova Sieva – disse Édra, estirando as tiras de bacon sobre a frigideira.
Minha barriga quase que roncou só pelo aroma.
– Eu não acredito que você cresceu em Nova Sieva! – Minha boca tinha virado um “O” perfeito. – É, tipo, a cidade dos sonhos de todo mundo na região. Lá parece que as coisas realmente acontecem. Tipo, até a Maritza já esteve em Nova Sieva pra uma sessão de autógrafos!
Édra me olhou rapidamente, com os olhos apertados.
– Quem é Maritza?!
– Ninguém. – Comecei a coçar os meus dedos de nervoso. – É só uma diretora e roteirista que eu gosto, sabe. Só que esse não é o tema da conversa. Meu Deus... – Eu ainda não podia acreditar. – Você cresceu em Nova Sieva!
É, isso é sério. Nova Sieva é, sei lá, a pequena Nova Iorque do nosso país. Tipo, quem não adora esse lugar? É ainda mais turística que São Patrique (e não por causa das sardinhas ou do bom clima para acampar). Nova Sieva tem prédios lindos, museus admiráveis, um grande teatro que recebe espetáculos bem famosos e a Universidade de Sieva é, tipo, como eu posso usar outra palavra que queira dizer mais que “espetacular”? É a cidade da arte! É o sonho de qualquer pessoa que pensa em, sei lá, viver uma fantasia. Um verdadeiro roteiro de Amor em atos na vida real.
E, do mesmo jeito que é maravilhosa, é igualmente cara. Os aluguéis em Nova Sieva são um absurdo. Isso quando você acha um aluguel. Mas o que falar da cidade em que Maritza passa as férias?!
É incrível. E é claro que Édra Norr tinha que ser de lá. Ela nem tem cara de gente daqui.
– É uma cidade grande como qualquer outra. – Édra virou as tiras com uma espátula. – Minha mãe era de lá, ela estudou na Universidade de Sieva.
– Jura?! – Suspirei, achando tudo aquilo o máximo. – Eu queria muito poder cursar algo lá, mas eu nem sei o que eu quero. Fora que lá é tudo muito caro.
– Hum – respondeu ela. – Tem as repúblicas, tem o projeto de trabalho para estudantes. Rola muito estágio e essas coisas.
– Você vai voltar pra lá depois da formatura? – Me apressei em perguntar.
– Não – respondeu Édra, de forma ríspida, quando desligou o fogo.
Eu não quis insistir no assunto, porque, bom, ela realmente respondeu com uma voz muito conclusiva. Parecia não querer falar sobre. Eu sei disso, ando estudando os tons de voz de Édra Norr. E esse foi um tom de voz meio que “mude de assunto, Íris”.
– Aposto que ficou ruim – brinquei, me balançando de um lado pro outro, em giros que não se completavam, na banqueta.
Ouvi Édra rir, muito brevemente. Uma risada gostosa que ela tinha, bem oposta ao meu porquinho assustador.
Às vezes parece que mora uma criança de seis anos dentro do meu corpo.
– Não deduza se alguma coisa é ruim ou boa... – Édra Norr veio, exibida, com um prato na mão e o nariz em pé, caminhando lentamente até o balcão. – Se você ainda não perdeu a virgindade dela.
O som do prato de porcelana estalou no mármore do balcão. E o impacto fez desprender dos ovos e do bacon um aroma muito agradável de temperos misturados.
Eu olhei para baixo. As fatias de bacon bem fritas estavam estiradas em um canto, enquanto os ovos mexidos se espalhavam do outro lado. Acima dos ovos? Um raminho de salsa. Sim, Édra tinha enfeitado a comida. Eu sorri com isso, inevitavelmente.
– Disse a pessoa virgem de pizza e garotos. – Arfei, puxando o prato para a minha direção.
– Eu nunca comi pizza porque nunca tive vontade. – Ela deu de ombros com um sorriso discreto nos lábios, arrastando uma banqueta para o outro lado do balcão e sentando de frente pra mim.
– E garotos?! – Apertei meus olhos.
– Garotos não se aplicam a essa regra. – Ela apertou os olhos de volta pra mim. E foi quando percebi que nunca mais deveria fazer isso, já que eu não aguento quando ela faz de volta. Pelo simples fato dos olhos dela terem esse poder de abdução estranho.
– Cadê seu prato? – perguntei, percebendo que tínhamos talheres pras duas, mas um prato só.
– Vamos comer juntas. – Ela pegou o garfo dela, cutucando os ovos mexidos. – Eu levei um murro por você, acho que você deveria ser menos exigente comigo.
Tentei engolir a minha risada, por medo do porquinho. Mas acabou saindo um barulho muito mais estranho que ele. O que fez Édra Norr rir também.
– Você sempre gostou de meninas?! – eu perguntei. Simplesmente escapou da minha boca. Acho que eu só estava pensando nisso pela afirmação sobre os garotos, e acabou que deixei escapar. Então, tentei consertar o meu desespero: – Tipo, não que seja da minha conta, é que...
Mas os olhos de Édra Norr já estavam me analisando enquanto ela mastigava. Ficamos em silêncio até que ela engolisse.
– Eu sempre soube – respondeu ela, mexendo na comida, sem tirar os olhos dos meus.
– Mas quando foi a primeira vez que você soube? – Me inclinei no balcão, curiosa.
– Tipo... – Édra Norr explicou, entre uma mastigação e outra. – A primeira vez que a minha cabeça perdeu a virgindade de pensar em uma garota foi com a minha melhor amiga, Sammy, do grupo de escoteiro.
Meu coração foi acelerando, palavra por palavra, como se escutasse nossa conversa.
– Ela trocou de roupa na minha frente e eu nunca mais consegui parar de pensar sobre aquilo. – Édra sorriu de boca fechada, meio sem graça, com as bochechas inchadas de comida.
– E aí? – perguntei, tentando não arregalar tanto os meus olhos.
– E aí que eu beijei Sammy no dia do meu aniversário. – Os olhos de Édra se voltaram ao prato. – E ela não falou comigo nunca mais depois disso.
– Nossa! – Arfei. – Que história triste, Édra.
– Mais triste que isso só você ter beijado Cadu Sena – retrucou.
– Você não precisa sentir ciúme. – Arrebitei o meu nariz e dei um sorriso. – Ainda sou sua dupla no trabalho de literatura.
Édra Norr deu uma gargalhada, estreitando os olhos na minha direção.
– Eu não tô com ciúme – respondeu ela, cortando a tira de bacon de forma veemente. O prato rangeu quando a faca encostou a tintura da porcelana.
– Falando nisso... – Escondi as mãos por baixo do balcão, para coçar os meus dedos sem ser pega. – E Camila Dourado? Eu acho que todo mundo viu a gente saindo junto.
– Relaxa. – Édra levou até a boca o garfo com o bacon cortado. – Camila não é ciumenta. E ainda que fosse, não temos nada sério nem exclusivo uma com a outra.
– É? – Meus olhos deslizaram para cima. – Sei lá, é que eu achei que fosse uma situação completamente diferente. – Cocei os dedos com mais força. – Meio grave.
– A única coisa grave aqui, Íris Pêssego, é que eu tô quase terminando a comida e você ainda nem segurou o seu garfo. – Os olhos de Édra me atravessaram, como de costume. Acompanhados do seu tom de voz sério e, ao mesmo tempo, sarcástico.
– Claro, eu sei que tá horrível. É tipo você com garotos – brinquei. – Prefiro não provar.
– Você tá com medo de perder a virgindade da minha comida e adorar – rebateu Édra, com um sorriso torto no canto da boca.
– Não, agora é sério – respondi, coçando os dedos com mais força. – Não consigo comer quando eu tô desconfortável.
– O que eu faço pra você se sentir confortável? – indagou Édra, suas sobrancelhas se juntaram na testa.
Dei de ombros. E ela me fitou como quem está olhando para peças espalhadas de um quebra-cabeça.
– Você vem sempre aqui? – perguntou ela, finalmente, largando os talheres num canto.
– Essa é a minha primeira vez aqui. – Eu sorri, sem graça. – E você?
– Não costumo passar muito por esse planeta, não. – Seus olhos escuros olharam em volta por poucos segundos, até voltarem pros meus. – Só quando eu tô com muita fome. Ou a fim de cozinhar.
– Esse planeta é muito gelado – eu disse, sentindo uma brisa passar pelas minhas pernas por baixo do balcão.
– Eu tô suave. – Ela piscou os olhos, quase que em câmera lenta. – Seu corpo extraterrestre não tá quente o suficiente.
Eu não soube o que responder. Então, agarrei os meus talheres e comecei a remexer a comida no prato. Claro que por puro escape, mesmo tendo certeza de que aquela comida estava mesmo deliciosa.
– De que planeta você veio? – perguntou Édra, pra quebrar o silêncio.
– Do planeta das pessoas que estragam tudo e são extremamente confusas e curiosas e desastradas – respondi, enchendo a minha boca de ovos mexidos para que eu não precisasse continuar falando.
E, como eu esperava, tinha ficado gostoso demais. Não parecia que estava comendo ovos, sei lá, tinha um tempero diferente. Nunca provei ovos mexidos com esse gosto picante. Me lembrou a comida mexicana de vovó.
– Eu já passei por lá. – Édra deu mais uma de suas risadinhas, aquela que eu acho que quer dizer que estou falando besteira, mas que ela parece gostar.
Minha cabeça ainda estava meio zonza.
– É. – Suspirei, ainda de boca cheia. – É um planeta de merda.
– Eu ia dizer que pelo menos as habitantes são bonitas – completou ela, e meu coração foi acelerando. – Mas você fala de boca cheia, então, não.
Gargalhei como um porquinho quando finalmente engoli.
– Não acredito que você me chamou de feia na minha cara.
– Eu vim do planeta da sinceridade. – Édra sorriu, mordendo os lábios.
– Nossa! Mais uma palavra e sua cara inteira vai provar da sua comida – ameacei, apertando bem os olhos, como o Xerife Romanéz, de Amor em atos.
– Você tá me ameaçando?! – Ela apertou os olhos de volta.
Quando eu vou aprender que não posso fazer isso, porque não aguento quando ela faz de volta?! Deus...
– Talvez... – Larguei os talheres, enfiando minhas mãos entre as pernas abruptamente para coçar os dedos de nervoso.
Nos encaramos por alguns segundos, não sei quantos, não consegui contar. Édra Norr me observava de uma forma que eu não conseguia decifrar, embora seu olhar fosse sempre voluptuoso e penetrante. Comecei a respirar e me senti desajeitada na banqueta, como se eu não coubesse mais nela. Não sei explicar.
Eu estava um tanto quanto fora de órbita.
Édra levantou, pegando o prato.
– Acho melhor eu limpar isso aqui logo. – Ela levantou da banqueta, soando meio desconfortável.
Eu sei, eu também estava. O nosso ar, de legal, ficou assim, meio não identificado.
Não de um jeito ruim, era mais como se não soubéssemos de que forma reagir.
– É, eu... – comecei a dizer, me levantando da banqueta. – Vou beber água. – Forcei um sorriso sem graça. – Desci pra... pra beber água – gaguejei.
– É – disse Édra, jogando o restinho do ovo no lixo. – Cê disse.
Senti que o sorriso que ela me deu, nos três segundos que inclinou o pescoço pra me olhar, também foi forçado. Como o meu.
Édra Norr começou a colocar os pratos dentro da lava-louças e eu não conseguia me aproximar dela para pegar água. E também não conseguia pedir que ela pegasse pra mim. Sei lá, só congelei onde eu estava.
– Tem água na geladeira – disse ela quando passou por mim, enxugando as mãos numa toalha que, posteriormente, ela largou em cima do balcão.
Revirei meus olhos com bastante força, já que eu odeio quando as pessoas fazem isso. Odeio ter que mexer nas coisas da casa dos outros.
Certo, eu toquei e cheirei o quarto dela inteiro, mas, cara, é completamente diferente.
Caminhei até a geladeira, porque, bom, eu não queria que parecesse que eu só desci pra vê-la. (Não que eu tenha descido por isso, óbvio.) Eu precisava beber água.
Mas é claro que eu precisava esbarrar na lata de lixo também. Meus pés “chutaram” a lixeira de aço contra a parede quando cheguei perto da pia. E o barulho ecoou pela casa inteira.
– Édra?! – A voz áspera do pai dela cortou o silêncio que fizemos logo depois do incidente. – Vai dormir, tá tarde. Você tem que estudar pro seu exame.
– Exame?! – perguntei, sussurrando.
Mas Édra apagou a luz na hora.
– Tá doida?! Eu tenho medo do es...
Ela chegou abruptamente em dois passos largos. Senti uma de suas mãos atrás da minha nuca, enquanto a outra prensou a minha boca, impedindo que qualquer palavra escapasse. Dava pra sentir, nos meus lábios, a divisão dos seus dedos.
– Shhhh! – soprou ela pra mim, quase que sem voz.
Meus olhos arregalaram pra ela, no escuro. Eu só conseguia ver parte do seu rosto, do nariz pra cima, por causa do feixe de luz azulada que escapava da janela centelha, acima da pia, bem atrás de mim.
– Pegue a sua água e suba em câmera lenta – disse Édra Norr, enquanto me soltava.
Senti os seus dedos deslizarem pelos meus lábios até o meu queixo quando sua mão me desprendeu de vez.
Respirei fundo, me agarrando no mármore da pia, nas minhas costas.
Abri a porta da geladeira, bem devagar e com cuidado. A luz amarelada foi clareando a cozinha inteira, especificamente Édra Norr, que se inclinava para pegar o copo, no armário.
Olhei pro meu próprio corpo, dentro das roupas dela, agora iluminado de amarelo.
Alcancei a primeira garrafa de água que vi, de vidro com a tampa verde. E me virei para Édra, ainda com a geladeira aberta, erguendo a garrafa para ter certeza de que era essa mesmo a que eu deveria pegar.
Não disse uma palavra, nem ela. Édra só acenou com a cabeça, me olhando com aquela cara séria que ela faz às vezes quando ficamos em silêncio.
A luz amarela iluminava todos os seus detalhes. Suas feridas, seus arranhados, o curativo que fiz em sua sobrancelha, os fios desgrenhados de seus cabelos escuros. Sua barriga despida, a blusa caída sobre seu ombro, seu pescoço, seu queixo, seus lábios (eu já disse que odeio essa palavra, mas inegavelmente...) carnudos. Para cima de seu piercing de argola, prata, no septo, mais outro arranhado no nariz, até os seus olhos, escuros, de abismo, escondidos atrás de cílios longos e sobrancelhas arqueadas. Dando a Édra um olhar analítico sobre mim, observador e preocupado.
Fui fechando a geladeira, vendo o corpo dela escurecer de novo, aos poucos, enquanto a porta chegava ao fim do seu ciclo. Foi quase que um pôr do sol inclinado pro lado errado, de um jeito certo. Um pôr do sol de geladeira.
No escuro, o copo de vidro refletia a luz da janela, sendo estendido para mim por Édra.
Peguei o copo fazendo todo o esforço para que nossas mãos não se encostassem hora nenhuma. E o mais absurdo foi me sentir chateada porque, de fato, elas não se encostaram. E Édra imediatamente me largou sozinha na cozinha, com uma cara meio estranha.
Nessa altura, seria natural que eu já tivesse digitado trezentas mensagens para Édra Norr, que estava online, a uma escada de mim. Mas eu não queria soar tão estranha quanto ela soou me abandonando na cozinha. Então, só repeti mil vezes para mim mesma: Íris Pêssego, por favor, não digite nada.
Você tá chateada comigo?! 3:49
Foi mal ter acordado o seu pai 3:49
Não 3:51
Relaxa 3:51
Você me largou sozinha na cozinha, eu podia ter morrido. 3:51
Hahahaha Morrido de quê?
Eu fui tomar banho 3:52
O planeta da cozinha é um lugar seguro 3:53
O que é mais importante: minha vida ou seu banho? 3:54
Meu banho 3:54
Boa sorte com seu trabalho de literatura 3:54
Hahaha Sua vida* 3:55
Tarde demais. Você já tá numa dupla com você mesma 3:55
Isso é cientificamente impossível. 3:55
Então você não conhece Igor Grécia 3:56
Mas eu conheço a ciência 3:57
Não 3:57
Eu conheço a ciência, você é só um experimento! 3:58
Como assim? 3:59
Íris? 4:03
– Oi – respondi a Polly, na milésima vez que ela me chamou. Eu só estava tentando procurar uma desculpa esfarrapada que fosse perfeita. – Eu dormi com Cadu Sena.
– O carro de Cadu Sena não é aquele. – Ela apertou os olhos na minha direção. – Quem te trouxe até aqui?!
– Cadu Sena, Polly, Deus. – Revirei os olhos, tentando não soar nervosa. – Eu já falei.
– Não me parece real, ué. Como é que você dormiu com Cadu Sena se você tá com essa cara? – Ela arregalou os olhos, enfiando a colher na tigela de cereal e derrubando um pouco do leite no vidro da mesa. – Quem dorme com Cadu Sena e acorda com essa cara?
Alguém que está prestes a ter todas as mentiras descobertas por todo mundo. Por pouco eu não abri o jogo inteiro para Édra Norr numa conversa de celular.
– Eu não dormi com ele do jeito que você está pensando. – Pigarreei, franzindo a sobrancelha. – Ele me emprestou as roupas dele, me ofereceu a cama dele pra dormir... E ficou no sofá a noite inteira, pra falar a verdade.
– Deus! – Polly abriu a boca cheia de cereal mastigado. – Cadu Sena é um príncipe.
Ou talvez Édra Norr seja.
– Pois é, ele é incrível – eu disse, coçando os dedos. – E ele cozinhou ovos mexidos com bacon e até comi um pouco, foi muito fofo.
– Não brinca! – Polly enfiou mais uma colher na boca. – Estou nadando em inveja. Tipo, perder a virgindade é importante, mas, cara... Eu esperaria por uma pessoa dessas. Ele deve estar esperando o momento certo. Isso é muito fofo.
– Você acha que eu posso estar gostando do Cadu Sena? – perguntei, coçando meus dedos com tanta força que fiquei com medo deles desprenderem da minha mão. – Tipo, conversamos a madrugada inteira pelo celular e, sei lá, eu meio que senti um frio na barriga.
– Ué. – Polly apertou os olhos pra mim. – Você já não é apaixonada por ele desde a oitava série?
– Sou. – Meu coração acelerou dentro do meu peito. Quase descoberta, de novo. – Mas, tipo, é diferente, né? Quando a gente conhece a pessoa de verdade. Você meio que pode desgostar ou se apaixonar pra valer.
– É. – Polly respirou fundo. – Eu sei bem como é isso. Luiz é meio estranho, sei lá. Mas eu não vou estragar o seu clima amoroso te contando nada. Se você me deixou lá por causa de Cadu Sena – ela foi dizendo, de boca cheia –, eu apoio, porque sei que ele é o seu maior sonho.
– É. – Sorri sem graça. – Ele é o meu maior sonho.
Édra Norr tinha me acordado de manhã com uma ligação de celular e me levou para a casa de Polly sem falar quase nada comigo. Na verdade, ela só perguntou se eu tinha dormido bem, se eu queria comer alguma coisa... Parecia que estava no automático. Não sei se por causa da mensagem que eu mandei. Eu mencionei a palavra “experimento”. Não acredito que eu fiz isso.
É claro que ela sacou.
É claro que ela não sacou.
Deus, eu sou louca. E pensei nisso o dia inteiro.
Édra Norr já é quase uma residente na minha cabeça. Aposto que já tem uma escova de dente pra ela em algum lugar no meu cérebro, como acontece quando os casais começam a dormir juntos com muita frequência e passam a ser “de casa”, assim dizendo.
Na minha cabeça, Édra Norr era de casa.
Não só na minha cabeça, metaforicamente falando, mas nos meus olhos literal e definitivamente falando.
Já que eu, no ápice da minha insanidade mental, estou atrás de um arbusto dando zoom em sua janela.
Cara, alguém, por favor, me diga: Qual... É... O meu... Problema?!
Ela estava afinando o uquelele e dedilhando-o, para testar os sons. Não sei o que estava cantando, não dava pra ouvir nada, já que a janela estava completamente fechada. Tudo o que iluminava Édra Norr era a luz de seu abajur azul aceso.
E, contra a minha vontade, eu só conseguia dar zoom e achá-la cada vez mais (na mesma proporção do zoom) bonita.
Sei que alguma coisa muito estranha anda acontecendo porque, sério, eu já estou sóbria faz quase dezenove horas. O que eu vou culpar dessa vez?!
Cara, eu quero muito vomitar.
(Quase na mesma intensidade que eu quero muito saber o que ela está cantando do outro lado.)
Ontem mesmo eu estava lá em cima, olhando ela ir embora no carro preto que ela despreza. E agora eu volto pra cá, para o lugar a que eu pertenço. Pro meu roteiro, script, que seja. Atrás de um arbusto, pinicando, totalmente desconfortável, numa postura tão péssima quanto a que ela usa para assistir às aulas.
Tudo pra quê?
Por quê?
(Ela está sorrindo enquanto canta, exatamente agora.)
Meu celular vibrou no meu bolso.
Você tem (1) mensagem de Cadu Sena.
Ainda estou aqui, quando você tiver pronta pra me pedir desculpa 21:16
Pedalei com toda a minha força pelas ruas de São Patrique e, por pura ironia do destino, cruzei com uns quarenta e nove casais apaixonados. Eu não sei o que isso significa, se você quer saber. Talvez algo queira esfregar na minha cara que todo mundo tem sua metade da laranja, ou a própria laranjeira, menos eu.
Quanto mais eu pedalava, mais flashes de Édra Norr vinham na minha cabeça: Édra Norr cortando a comida, mastigando, sangrando, apertando os olhos de dor, sacudindo a mão depois de ter me defendido de um idiota, girando a cadeira de rodas, rindo, destrancando a bicicleta, bebendo água, dançando no Submundo, apontando para a bolinha de papel no meu colo, saindo do banheiro, saindo do mar, fazendo abdominais, abotoando a blusa social, afinando o uquelele...
Eu quero mesmo vomitar.
Eu preciso de ajuda.
– Quer chá?! – Dona Símia perguntou instantaneamente, quando me viu parada de pé na porta. Eu não disse nada, mas acho que ela conseguiu ler a minha expressão no rosto. Que, para falar a verdade, não era necessariamente sobre o chá e sim sobre “todo o resto”. – Tudo bem. – Ela abriu mais a porta para que eu entrasse. – Um dia você aceita.
– Eu meio que nunca tomei chá, Dona Símia – respondi, parecendo mais assustada do que deveria parecer.
– Tem gente que odeia chá. – Dona Símia fechou a porta às suas costas, arrastando os chinelos até a cozinha. – E tem gente que ama chá.
Lanterna pulou no meu colo quando me sentei no sofá, e Loriel farejava os meus pés.
– Mas você só vai saber se gosta de chá... – Ouvi o som da xícara sendo cheia. – Se você experimentar chá.
– Eu tenho medo de experimentar chá. – Arregalei meus olhos, encarando a parede, apavorada.
Dona Símia se sentou do meu lado com duas xícaras cheias na mão e apertou bem os olhinhos miúdos na minha direção.
– Minha filha, estamos mesmo falando de chá?! – Ela me encarou, com aquela cabeça trêmula, como se fosse uma tartaruga.
– É claro que estamos falando de chá. – Arfei, coçando os dedos, como se ela tivesse dito uma coisa realmente absurda.
– Bom, então, pare de fugir do chá. – Ela recostou no sofá, esticando um dos braços com a xícara para a minha direção. – Experimente de uma vez, não é como se o mundo fosse acabar se você não gostar.
– Hum... – Balancei a cabeça negativamente, encarando a fumaça que dançava para fora da xícara.
– Vamos tentar mais uma vez. – Ela abriu um sorriso. – Quer chá?