O Amor Não é Óbvio

Elayne Baeta · Capítulo 23 de 27

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O Amor Não é Óbvio

21 | Lésbica

LÉSBICA

 

 

Antes de ir embora da casa de Cadu Sena, fizemos um acordo. Nem eu nem ele tínhamos gostado da experiência. Mas ficamos tão íntimos em tão pouco tempo que já nos considerávamos amigos, aliados ou seja lá qual foi a palavra estranha que Cadu usou para definir o nosso novo relacionamento. Como foi mesmo muito péssimo, especialmente para mim, ele sugeriu que fingíssemos que nada tinha acontecido de fato, para que as coisas não ficassem estranhas quando o assunto viesse à tona ou qualquer coisa do tipo. Tínhamos um pacto de silêncio sobre tudo o que aconteceu em cima do tapete cafona dele. Juramos mesmo. De dedinho. E demos inúmeras voltas de carro pela cidade, acertando uma quantidade considerável de letras da Britney Spears que tocavam num especial noturno da Nova Rádio. Eu obviamente não imaginaria isso nem em mil anos. Não a parte sobre perder a virgindade com Cadu Sena (já que eu um dia quis, sim, que isso acontecesse). Nem estou me referindo à voz grave e impecável de Cadu cantando “Toxic”, mesmo que tenha sido algo que me pegou de surpresa naquele sinal vermelho. O que eu, honestamente, não imaginaria nem em mil anos é o fato desse cara, o Cadu Sena, ser secretamente apaixonado por Maurício.

Eu queria abrir a minha boca enorme e contar tudo pra Maumau. Ele estava bebendo na minha barraca e me contando coisas que eu já sabia. E eu precisava ficar me concentrando muito na minha própria língua pra que ela não pulasse para fora da minha boca e revelasse o segredo de Cadu Sena, que fazia parte das coisas que eu não podia contar sobre a noite anterior. Você sabe, pacto de silêncio.

Só que Maurício merecia tanto saber.

Que Cadu gostava de Maurício não era a única coisa que eu estava me coçando para contar. Eu queria muito poder dizer que já sabia de toda a história – sobre o término de Cadu Sena e Camila Dourado – que Maumau estava me contando e que fiquei sabendo de tudo direto da fonte (que, por sinal, é uma fonte apaixonada por ele). Mas eu não podia abrir a minha boca nem mesmo sobre isso, porque Maurício só sabia da versão “falsa” do término. Nada sobre Cadu Sena querer enfiar a língua na boca dele. Na versão contada por Maumau, Cadu tinha uma queda por Léon também e não por ele. O motivo do término para todas as pessoas que sabem da história na íntegra foi o fato de “Camila Dourado não querer competir com o próprio cunhado”. Essa versão era tão entediante comparada à verdadeira história por trás de tudo. E eu já não aguentava mais arregalar os meus olhos forçadamente para fingir que estava surpresa.

– Uau! Deus! – Eu nem sequer piscava. – Não estou acreditando! Mas como você descobriu isso tudo?

O que com certeza era a única coisa na história toda que eu não sabia.

– Léon me chamou pra sair depois de oitenta e quatro anos. Ele mentiu que tinha “dado um tempo” com Renata Dourado. Eu topei, como um grande idiota, até comprei uma camisa nova pra ir. Ele fica bêbado rápido e fala demais. – Maurício girou o canudo dentro do copo com uma batida de Kiwi, Bahocas e gelo.

– Ou ele e Renata reataram ou nunca nem terminaram – falei um pouco mais baixo apenas para Maurício. As filas para a nossa barraca estavam cheias. Não queria ninguém escutando nossa conversa. – Acho que vi os dois passando de mãos dadas. Camila também estava junto.

– Nunca nem terminaram. – Maumau sugou todo o resto da bebida de vez, fazendo os gelos se agitarem no copo vazio. – Por que você acha que eu tô bebendo?

Nesse momento, Polly parou de atender todos na fila dela e tirou correndo o avental. Seus lábios estavam pálidos. Uma garota assumiu o lugar de Polly rapidamente e eu assobiei para o grupo de apoio enquanto tirava o meu avental também para ver o que estava acontecendo. Maurício me seguiu até os fundos da barraca.

– Will vai se apresentar no show de talentos meio que a qualquer momento. E eu quero vomitar. – Polly levou a mão até a boca, fazendo sinal de que iria mesmo colocar tudo para fora.

– Will?

Minha voz e a de Maurício se entrelaçaram na mesma pergunta.

– Sim, você sabe. – Polly me fitou com um olhar impaciente. – Wilson Zerla.

– O que ele vai apresentar no show de talentos que, bom, seja digno do seu vômito? – As sobrancelhas de Maumau se ergueram em curiosidade. Estiquei o meu pescoço na direção do palco, para ver se via alguma coisa.

– Ele só deveria tocar uma gaita ou sei lá o quê. Mas soube que eu sou apaixonada por Coldplay. E agora, você deve imaginar, ele vai fazer um cover. – Polly abriu uma garrafa de Bahocas para ela mesma. – Eu não tô pronta pra isso.

Polly deu um longo gole e passou a garrafa para Maurício.

– Coldplay? Arrasou.

Maurício deu um longo gole e passou a garrafa para mim.

– Acho melhor ficar. – Foi a minha vez de dar um longo gole na garrafa de Bahocas. A imagem de Wilson Zerla ajeitando o microfone à altura do banco que ele ia usar pra se sentar tomou conta de todos os telões de LED espalhados pelo festival. – Ele tá no palco.

Não demorou muito para que Polly saísse me arrastando pelo braço para dentro da multidão. Wilson Zerla se apresentou formalmente, disse o nome, a idade e o que iria cantar. “Yellow”, do Coldplay. Foi aplaudido pelos muitos turistas e ignorado por quase todos os alunos do Colégio São Patrique. Tinha um violão velho, um microfone inclinado para a frente da sua boca, estava sentado num banco de madeira e começou as primeiras notas no violão.

Eu, Maurício e Polly paramos o mais perto do palco que conseguimos. Não dava para avançar mais. O espaço estava lotado e os turistas pareciam estar sedentos pelo show de talentos. Tinha pessoas falando em outras línguas muito perto de nós. Elas comentavam sobre Wilson, outras sorriam, outras cantavam o que sabiam da música, e alguns alunos do colégio foram cruéis o bastante para debochar durante toda a apresentação. Gritaram “Saúdem o homem preservativo” uma ou duas vezes. Mas nada impediu Wilson Zerla de continuar a cantar.

Your skin / Oh yeah, your skin and bones / Turn into something beautiful / Do you know? / You know I love you so

Foi uma apresentação quase impecável, já que por nervosismo deu pra perceber que Wilson poderia ter soltado muito mais a voz. Ainda assim, ele foi incrível. A música tinha acabado e os aplausos para Wilson eram calorosos. Algumas pessoas assobiaram e outras deram gritinhos histéricos. Até Priscila Pólvora, um pouco perto de nós, parecia totalmente empolgada com a apresentação.

Wilson chegou mais perto do microfone. Um ruído arranhou o ouvido de todos.

– Poliana Rios. – Ai, meu Deus, ai, meu Deus, ai, meu Deus. Wilson Zerla sorriu de cima do palco, tentando nos encontrar na multidão. Não demorou muito para que conseguisse, estávamos relativamente perto do palco. Polly apertou a minha mão com tanta força que meus dedos ficaram dormentes. – Você quer namorar comigo?

Ai. Meu. Deus.

– Ai, meu Deus! – O queixo de Polly caiu.

– Ai, meu Deus – O apresentador acanhado, no canto do palco, deixou escapar.

– Ai… Meu… Deus! – Maumau levou as duas mãos até a boca.

Todos pararam de fazer o que estavam fazendo para prestar atenção no que estava acontecendo. Não demorou muito para que todo mundo estivesse encarando a mim e a Polly, que fomos deduradas pelo olhar de Wilson Zerla no palco e de todos os nossos “colegas” de colégio na plateia. Maurício deu uns passos para trás, discretamente. Eu tentei fazer o mesmo, mas Polly ainda me mantinha imóvel, segurando a minha mão com uma força desumana.

– Polly? – sussurrei para ela, porque ela estava imóvel e não dizia nada. Os murmurinhos cresciam entre as pessoas que observavam do chão a reação dela e a reação de Wilson Zerla. O sorriso esperançoso dele foi se desfazendo aos poucos.

– É claro que a resposta é não. – Luiz surgiu. Com um olhar prepotente, usando a jaqueta do time. O que, em São Patrique, lhe dá um passe livre para várias coisas e uma série de privilégios. Tipo ter o caminho aberto pela multidão para nos alcançar na velocidade da luz. Acompanhado de outros marmanjos imbecis. Não sei como alguém como o Cadu Sena da noite passada, colecionador de velharias e fã de Britney Spears, poderia se unir a caras tão idiotas quanto esses.

– Vamos lá, bebê. – Luiz sorriu, zombeteiro. – Você sabe que jamais teria qualquer coisa com esse idiota.

– Polly… – chamei o nome da minha amiga mais uma vez, tentando trazê-la de volta à realidade.

– Cala a boca, seu grande idiota – foi o que Polly, p.s: a MINHA Polly, disse para Luiz e seu queixo imenso e prepotente.

Depois ela lançou para Wilson o olhar mais meigo que já vi em seus olhos. Ele estava sendo apressado pelo apresentador para deixar o palco.

– É claro que a resposta é SIM.

Parecia uma final de jogo de futebol. Eu nunca ouvi tanta gritaria em toda a minha vida. Não em uma cidade como São Patrique. Priscila Pólvora e as garotas populares também gritavam. Alguns garotos se davam cotoveladas como se estivessem impressionados com o desfecho positivo para Wilson Zerla. Os turistas foram à loucura. Maurício estava com os olhos cheios de lágrimas e disso eu quis rir. Tudo parecia ter fervido em todos nós. Polly soltou a minha mão e correu sozinha para os fundos do palco, para onde Wilson tinha acabado de sumir. E eu estava mesmo pronta para segui-la e gritar em comemoração pelos dois. Mas o apresentador deu duas batidas de leve no microfone.

– Isso não fazia parte da apresentação, hein? – Ele gargalhou de leve no microfone, acompanhado da multidão de turistas, encorajados a rir do comentário que ele tinha acabado de fazer. – Ah, essa foi boa. – O rapaz suspirou no microfone. – Mas o show precisa continuar! E temos mais alguns alunos para esquentar a noite de vocês.

Todos gritavam como se estivessem fora de controle. Éramos só alunos inexperientes querendo juntar dinheiro para uma formatura. Mas os turistas estavam agindo como se fôssemos cantores profissionais em um festival de música gigantesco. O som dos diferentes fogos de artifício arranhava o céu acima de nossas cabeças. Me atrevi a olhar para cima, mesmo tendo um pouco de medo do barulho dos fogos de artifício. Eu gostava muito das cores. Elas não estavam tão nítidas assim, porque nuvens de chuva se formavam lentamente no azul-escuro do céu de São Patrique. Mas, ainda assim, as cores faiscavam como se tivessem vida.

– Vocês estão preparados?! – O apresentador atiçou o público. – Querem mais?

Meus olhos se arregalaram e todo aquele som, que antes me deixava ensurdecida, havia sido abafado de algum modo pelos meus próprios batimentos cardíacos. Édra Norr estava no canto do palco, esperando ser chamada. Em uma de suas mãos carregava o uquelele amarelo; na outra segurava o próprio cotovelo. Ela não parecia confortável com o público, o olhar perdido no meio das pessoas parecia procurar alguém. Eu ouvi um “Aqui, denguinho!” na voz fina de Camila Dourado, que gritava em pura histeria. Ela estava acompanhada de Renata e Léon. Olhei em volta e flagrei Maurício se esquivando da multidão e saindo de onde estávamos. Só tinha eu ali. E Camila Dourado parecia ter escolhido um lugar perto de mim de propósito.

– Cante pra mim! – Ela deu gritinhos histéricos, balançando os dois braços no ar para ser vista por Édra. E, um pouco mais baixo, comentou: – Ela com certeza preparou alguma coisa pra mim, vai colocar Wilson Zerla no chinelo. – Ela e Renata riram. Vi que Renata dava uma bronca em Léon, mandando ele prestar atenção em tudo para aprender a ser mais romântico.

Eu queria chorar. Eu nunca quis tanto chorar em toda minha vida. Mas fiquei com aquilo na garganta, como se o nó que tinha se formado pesasse um quilo inteiro. Eu não podia piscar, porque tinha certeza de que as lágrimas rolariam. Tentei deixar o meu lugar perto do palco e fazer como Maurício tinha feito. Seria menos humilhante, menos doloroso, menos todas as coisas que eu estava sentindo. Eu mal podia respirar. Mas a multidão se encostava cada vez mais e eu não conseguia me mover muito de onde eu estava.

– Com vocês, representando o terceiro MA – começou o apresentador, e os alto-falantes à minha direita vibravam. – Édra… Norr!

Édra caminhou até o microfone, já ajustado na altura do banco por Wilson Zerla. Estava com uma calça verde-musgo e uma camisa preta de manga longa. O cabelo muito bem cortado e desgrenhado apenas no topo. Eu podia sentir o cheiro do shampoo se me concentrasse nas minhas memórias olfativas. O brinco de argola brilhava contra a luz do refletor e as mãos trêmulas ajeitavam o uquelele. É incrível como ela sempre parece ter saído de uma cena perfeita de novela. A boca entreaberta parecia querer dizer algo. Mas Édra não se apresentou formalmente como fez Wilson Zerla, não disse a idade e muito menos o que iria cantar. Os meus olhos preferidos no mundo, escuros, pareciam perdidos na multidão. Eu estava olhando diretamente para ela quando seu olhar pousou sobre Camila Dourado, que finalmente parou de sacudir os braços para ser notada. Me doía demais ver aquilo, mas eu não tinha mais para onde olhar. E não conseguiria desviar, mesmo se quisesse. Era o efeito de Édra sobre mim. Para a minha surpresa, os olhos de Édra desviaram de Camila Dourado e continuaram perdidos na multidão. Camila parecia não ter entendido e murmurou alguma coisa, mas não prestei atenção.

Édra pigarreou e ecoou em todos os alto-falantes. Juntamente com a nota errada que ela dedilhou no uquelele. Sua respiração densa e muito perto do microfone também era escutada por nós, na plateia.

Vamos lá, vamos lá, vamos lá. Você consegue. Vamos lá. E depois de mais uma respiração funda, Édra começou a tocar o seu uquelele amarelo.

Eu bebo água sem sede / Eu peço uma caneta / E eu tenho três / Me mudei de cidade / E mudei de carteira / Depois de você, eu mudei de vez

“É claro que é sobre mim!”, Camila Dourado gritou histericamente muito próxima de mim.

Oooh, que pena / Seu olho não me vê, me faz querer apelar / E explodir tudo no seu ecossistema / Pra mexer e bagunçar / E te causar algum problema / Você enxerga aliens e novelas de antena

– Você por acaso vê novela? – Renata perguntou alto demais para que Camila escutasse. E eu também a escutei.

E é claro que meu coração saiu pela boca. Porque, nesse momento, eu soube que não era sobre Camila.

Tudo / Que pena, que não eu / Que não garotas e que não eu / Que não garotas e que não / Que não garotas e que não eu / Hum /

Espere, espere, espere.

Fiquei entre esquecer e te fazer relembrar / Ensaiei mas nunca falei

Não é sobre Camila. E se for mesmo sobre mim? Édra Norr sabe que eu sou eu esse tempo todo? Era ela quem estava me seguindo esse tempo inteiro?

Quando me deu zoom, me neguei a acreditar / Eu acho que só me acostumei / Com o fato de que / Oooh, que pena /

Ai. Meu. Deus. Ai. Meu. Deus. Ai… Meu… Deus.

O seu olho não me vê, me faz querer apelar / E explodir tudo no seu ecossistema / Pra mexer e

Os olhos de Édra me encontraram na multidão.

Nesse exato momento. E ela errou uma nota, antes que pudesse voltar a tocar perfeitamente.

Bagunçar e / Te causar algum problema / Você enxerga aliens e novelas de antena / Tudo / Que pena, que não eu / Que não garotas e que não eu / Que não eu / Que não garotas e que não eu / Hum

Todas as pessoas começaram a gritar e a aplaudir em total sintonia. Édra agradeceu um pouco distante do microfone. Seu “Obrigada” saído dos alto-falantes ecoou dentro do meu corpo inteiro. Eu fiquei ali, parada. Boquiaberta. A multidão foi se dissipando, tomando rumos diferentes. O apresentador estava no palco explicando sobre uma “pausa técnica” por conta da chuva. Eu nem tinha sentido nada. Estava ensopada de chuva. Completamente. Olhei em volta e eu era uma das poucas pessoas amontoadas perto do palco. Todo mundo tinha ido se abrigar embaixo de alguma barraca, tenda ou estrutura do festival. Eu não sabia onde Camila Dourado tinha ido parar e se ela sequer tinha ficado até o final.

Minha cabeça rebobinou todos os momentos.

Desde quando percebi que ela estava sentada perto de mim, até a conversa no terraço do Submundo. E o encontro no hospital. E quando dei um “zoom” e ela tinha acabado de sair do banho e dava para ver perfeitamente todas as gotículas de água escorrendo pelo corpo dela através das lentes do binóculo. Foram tantos acontecidos, tantos momentos. Eu podia jurar que estava seguindo Édra Norr esse tempo todo.

Mas Édra Norr sempre soube.

Eu não fiz nada sem que ela soubesse.

Édra tinha plena noção de todas as coisas. E me deixou descobrir sozinha tudo o que eu queria. Se colocou em lugares estratégicos para que eu pudesse captá-la melhor. Para que eu pudesse me aproximar. Agindo feito uma estúpida, ou uma psicopata. Sabe-se lá Deus quais foram as impressões que eu passei.

Lembrei de quando andamos em zigue-zague pela primeira vez de todas. O quanto me senti viva fazendo aquilo. E como ela parecia se divertir, mesmo pedalando muito mais à frente.

Ela sabia.

– Não! Solte ele! – os gritos de Polly me trouxeram para a realidade. Dois garotos do time seguravam Wilson Zerla pelos braços e Luiz se preparava para dar um soco.

Foi tudo muito rápido. Em uma fração de segundos, Cadu Sena estava se metendo entre os dois e empurrando Luiz. Os dois se embolaram no chão e corri o mais rápido que pude. Meus pés escorregavam no chão de cimento da grande área de eventos onde todo o festival do feriado de São Patrique estava acontecendo. Não parava de chover. Nem por um segundo. E o ronco das trovoadas parecia ter algum efeito sobre os alto-falantes, porque todos estavam soltando ruídos de interferência. O vento ergueu uma das tendas e a chuva começou a cair em cima de todas as comidas doces que tínhamos preparado para vender no feriado. As garotas da tenda de sobremesas começaram a chorar e se abraçaram desesperadas. A tenda saiu rolando com suas hastes de ferro lançadas pelo espaço. As pessoas iam se afastando e a gritaria tomava conta do lugar. Não eram gritos felizes como os de minutos antes. Todos estavam horrorizados.

Ergui as mangas do meu suéter e parti para cima de Luiz como se fosse um dos seus garotos de briga. Todos estavam chutando Cadu Sena caído no chão. Wilson Zerla estava muito zonzo para fazer algo. Maurício estava tentando manter Polly longe de tudo.

E, bom, eu não sei brigar. Eu só pretendia dar uma mordida no braço de Luiz com toda a força que eu tinha guardada. Porque já fiz isso na alfabetização com um garoto que quebrou a minha boneca na minha cabeça. Morder é o mais perto de brigar que eu sei. Nem sei se morder pode contar como uma atitude numa briga, para ser bem honesta.

Já estava abrindo a minha boca para o braço de Luiz quando ele me empurrou.

– Sai daqui, projeto de sapatão.

Dei uns passos para trás. Meus olhos se apertaram para fitar Luiz. E eu já estava com um sorriso debochado no meu rosto. Nem fazia ideia do que eu estava fazendo, mas uma energia furiosa tomou conta do meu corpo inteiro quando ele disse aquilo.

– Você me chamou de quê?

– Você sabe do que eu te chamei.

– Eu não sou um “projeto de sapatão”, seu grande idiota. – Meu maxilar trincou. – Eu sou lésbica.

Tudo ficou escuro. Não porque eu desmaiei ou algo muito grave aconteceu comigo. Eu só fechei os meus olhos de dor. Quando encarei a minha mão, ela estava inteiramente ensanguentada e doía como se eu tivesse quebrado algum dedo ou coisa assim.

– Você é louca? – perguntou Luiz, com a boca cheia de sangue, segundos antes de cuspir o próprio dente. Meu Deus! Eu sou boa com socos e não sabia!

– Não. – Eu sorri para Maurício e Polly, que me encaravam chocados. Depois olhei de volta para Luiz. Ele tentava manter a boca fechada com as duas mãos empurrando o próprio queixo. – Eu sou lésbica.

 

Estávamos todos nos fundos da barraca de bebidas. Fechamos tudo temporariamente, pelo menos até que a chuva amenizasse. Não que precisássemos. Ninguém estava se movendo para comprar nada. A chuva estava muito forte e todos nós tremíamos, encharcados. Cadu Sena estava sentado no freezer, segurando junto da própria bochecha uma compressa de gelo enrolada num pano de prato. Polly estava no colo de Wilson Zerla, que tinha se sentado em um caixote porque ainda estava zonzo. Ambos batiam o queixo de frio.

– Toma. – Maurício, que estava se aproveitando de todo o estoque de bebidas, me estendeu uma garrafa de água ainda congelada. – Coloca nessa mão, antes que ela desgrude do seu braço. Acredite em mim. – Maurício inflou o peito, tentando não rir. – Agora que você é lésbica, vai precisar dela.

– Babaca – grunhi para ele, segurando a garrafa contra o meu punho fechado. Estava doendo, mas não num nível que eu não conseguisse suportar. Luiz realmente tinha levado a pior.

– E a garota? Eu ouvi tudo. Não era nem pra você estar aqui agora. Deveria sair correndo atrás dela embaixo da chuva, depois de uma música daquelas. – Maurício se encostou no meu ombro. Assistíamos à chuva acabar com tudo no feriado. Todos os turistas estilosos agora pareciam pintos molhados. A maioria das tendas tinha voado para algum lugar. Ainda bem que nenhum acidente aconteceu, só o prejuízo de tudo o que produzimos para custear a formatura. Meus olhos varriam cada metro quadrado que podiam alcançar.

Nenhum sinal de Édra Norr. Desde a apresentação.

Eu estava cansada de mentir para as pessoas. Cansada de esconder coisas. Precisava achar Édra e contar a ela tudo o que tinha acontecido na noite anterior. Mesmo que isso me custasse os últimos momentos que poderíamos ter juntas antes de ela ir embora. Eu precisava falar sobre tudo. Sobre como eu tava me sentindo sobre cada mísera coisa.

Só queria ser sincera pelo menos uma vez na minha vida. E tomar as atitudes que eu quisesse. Sem pensar muito sobre. Só fazer e pronto. Meus 17 anos estavam escapando das minhas mãos. E tudo o que eu tinha feito era mentir, ver novela e me esconder dentro do meu quarto.

Maurício suspirou ao meu lado.

– Alguém podia me querer de vez em quando, pelo menos – disse ele, enquanto olhávamos para um casal de turistas se beijando embaixo da chuva. Eu também suspirei. – É um saco ver romance em todos os lados e nada nunca dar certo pra mim.

Chega. Chega de não fazer nada sobre nada. Chega de ser mentirosa, hipócrita e de meias.

– Cadu Sena terminou com Camila Dourado porque é doido por você.

Eu disse antes de sair da proteção da barraca para a chuva.

 

– Você tem certeza de que vai ficar bem? – Cadu Sena me perguntou quando estacionou na frente da minha casa. Tínhamos deixado Wilson Zerla, Polly e até mesmo Maurício em casa. Maurício passou o caminho inteiro sentado no banco da frente e se despediu de Cadu Sena com um olhar estranho e tímido (o que não é nem um pouco típico de alguém como Maumau).

Não precisei perguntar, nem tinha ânimo para pensar em nada além do fato de não ter encontrado Édra Norr em lugar nenhum, muito menos Camila Dourado. O que só me fazia pensar que, muito provavelmente, as duas estavam juntas em algum lugar. Independente daquela música toda sobre alienígenas e novelas. Como eu sou idiota. Cadu Sena foi logo me contando que nada aconteceu entre ele e Maurício. Os dois só conversaram e Maurício o ajudou com os machucados.

Cadu fez uma piada sobre estar com o lábio partido no dia que mais queria beijar uma pessoa. E eu fingi uma risada, porque não conseguia ter ânimo para nada. Ainda que eu quisesse ser o grande cupido na história deles.

Disse a Cadu que tinha certeza que eles ainda iriam se conhecer melhor e que algo rolaria. Foi quando ele me disse que tinha convidado Maurício para o baile de formatura. Para a parte da festa onde nossas famílias não vão, porque é a festa fechada dos alunos. Ele ainda não estava pronto para contar à família sobre ser bissexual. E eu consegui entender o medo dele. Ainda não fazia ideia de quando iria conseguir dizer aos meus pais sobre ser lésbica. Mas não queria que demorasse tanto. Gostava da sensação poderosa que me vinha quando dizia em voz alta. Era impagável.

– Vou ficar bem, sim. – Me inclinei para beijá-lo na testa. – Muito obrigada por tudo.

Ainda me sentia meio bêbada quando girei a maçaneta da porta dos fundos, que dava direto para a cozinha. Bêbada o suficiente para não perceber vovó fazendo palavras cruzadas na mesa da cozinha, acompanhada de uma latinha de cerveja, torradas e um cigarro repousado em um dos pires japoneses de mamãe.

– Bonito o garoto, Bianca. – Seus olhos me fitaram por uma fração de segundos. – Quando pretende contar a ela? – E o olhar escorregou novamente para a revista de palavras cruzadas.

Bianca. O nome que vovó endereçou a mim em praticamente todas as cartas que vinham acompanhadas de seus presentes de Natal. O mesmo nome que ela usou para me chamar nas festas de família, pedindo por mais uma latinha de cerveja no freezer, escondida de mamãe.

– Não preciso contar a ela sobre ele, vovó. Não é o meu namorado, nem nada do tipo – respondi para a fumaça de cigarro que escondia a expressão em seu rosto.

– Mas ela precisa saber, não?

– Eu nem sei como contaria a ela tudo o que aconteceu ontem à noite. Na verdade, tudo o que tem acontecido há um tempo – disse quando me lembrei sobre parar de ser uma grande mentirosa e abrir a minha boca sobre as coisas. – Se ela sonhar que perdi a minha virgindade nesse feriado com um garoto, eu estou morta. Imagine todo o resto.

Vovó Ieda amassou o cigarro no pires japonês de mamãe, fazendo com que toda a névoa de fumaça se dissipasse. O que revelou uma expressão confusa em seu rosto.

– Você acha que mamãe me entenderia? – Meu peito se inflou do ar que eu não conseguia expirar, pensando em todas as possíveis reações que mamãe teria se soubesse de todas as coisas que estavam acontecendo.

– Tenho certeza que sim, querida. Mas não estou falando sobre a sua mãe. – As sobrancelhas de vovó Ieda se curvaram na testa. – Estou falando sobre a garota cochilando no sofá da sua sala.

E, naquele exato momento, a porta de entrada da casa foi batida com toda a força do mundo.

Édra Norr.