O Amor Não é Óbvio
4 | Laranja forte
LARANJA FORTE
Certo, vou concordar agora, Amor em atos é uma péssima influência na minha vida. E sei disso agora porque não consigo parar de encarar o binóculo do falecido marido de Dona Símia, pendurado na parede, junto aos porta-retratos.
Eu sei o quanto isso é errado. Principalmente porque Dona Símia está há quase meia hora falando sobre o episódio da novela a que acabamos de assistir. E também sobre seus exames relacionados às suas doenças de idosa. E enquanto isso, eu estou aqui sem prestar atenção em uma palavra.
É como acontece com a Polly: nem todas as prioridades de Dona Símia são minhas prioridades. É claro que eu também fiquei obcecada com o último episódio. Quem não ficaria?! Edgar está sendo acusado de cometer um crime, logo ele que, apesar de todo o envolvimento com Luiza Abrantes, é um dos mocinhos da novela. Só que agora Maritza e seu prêmio de roteirista estão me fazendo duvidar seriamente disso. E, para a minha desgraça, Rosa decidiu investigar sozinha se Edgar é ou não culpado pelo roubo na empresa dos Abrantes.
É meio impossível que, a essa altura, esse episódio não tenha me dado ideias. Não que eu seja influenciável a esse ponto, não me considero uma pessoa influenciável. Talvez só um pouco. Mas todo mundo se desdobra com algo. Amor em atos sempre coloca minhocas na minha cabeça. Pelo visto, não só na minha...
– Independente disso – disse Dona Símia, de costas pra mim, preparando seu famoso chá da tarde, apesar de já parecer noite, já que as cortinas não permitem que entre tanto sol assim na casa. Ela me disse algo uma vez sobre não poder tomar muito sol na pele. Doenças de idosa –, eu acho que ele roubou sim.
Ainda acho que ela é mais velha do que diz. Fala sério, a minha avó tem 63 anos e é bem menos enrugada que Dona Símia. Tipo, não que isso seja um problema. Ela continua sendo glamourosa de qualquer forma. Será que ela mente a idade? Pra mim? Como alguém tem coragem de mentir pros amigos?
(Tirando o fato de Polly não saber que uma senhora é minha segunda melhor amiga, mas isso não conta, são situações diferentes.)
– Eu sei lá – dei de ombros, coçando as costas de Lanterna, que tenta a todo custo caber no meu colo sempre que sento nesse sofá.
Cachorros são tão adoráveis. Não entendo a pira dos gatos, Margot se autoacaricia. Ela se esfrega na minha mão, mas se eu retribuir, sai correndo. Fora que ela me ignora o tempo inteiro. E, mesmo assim, eu a amo mais que a todos os cachorros que poderia ter em seu lugar. Realmente tenho tendência a idolatrar todos os seres vivos que me ignoram.
– Não consigo acreditar que ele tenha sido capaz disso. – Respirei fundo, ainda encarando o binóculo na parede.
Pegar emprestado sem avisar pode ser considerado roubo?
– Nem todo mundo é o que parece – disse Dona Símia, entre tosses. O barulho da colher girando na xícara de porcelana se aproximou do meu ouvido. – Quer chá?!
– Não, obrigada – respondi, pela milésima vez desde que nos conhecemos.
“Um dia você aceita”, é o que ela diz depois.
– Que pena. – Dona Símia voltou pra cozinha. – Um dia você aceita.
– Você acha que Rosa continuaria com Edgar, quer dizer, se essa coisa de roubo for verdade? – perguntei.
– Amar é aceitar defeitos. – Dona Símia suspirou; pude ouvir o pote de biscoito sendo aberto. Eu não conseguia ver, porque o sofá ficava de costas pra cozinha. Mas eram sons que eu já tinha gravado, de quando passava a tarde por aqui. (Coisa que parei de fazer ultimamente por conta da quantidade de trabalhos e provas do fim do ano letivo.) – Mas não em todos os casos. Se ele roubou, alguma coisa tem.
– A senhora investigaria?! – Minhas sobrancelhas se juntaram na testa. – Porque, fala sério, ela poderia esperar o resultado da polícia.
– Se você quer uma coisa bem-feita, faça você mesma – respondeu Dona Símia. – É muito melhor tirar suas próprias conclusões que saber pela boca de terceiros. E a Rosa é uma moça bonita, bem intuitiva, ela tá certa em seguir essa intuição. Quando eu era menina...
“Não tinha nada que eu não fizesse.”
– Mamãe sempre brigava comigo – continuou Dona Símia da cozinha, como eu já esperava. – Não tinha nada que eu não fizesse.
– Então, a senhora acha que ela tá certa em procurar saber, independente do que a melhor amiga dela ache disso?! – perguntei, levantando do sofá e indo em direção ao binóculo.
– Acho, porque... Não, espere aí, querida, melhor amiga?! – indagou Dona Símia, sem entender.
– Eu quis dizer pessoas, sabe? Da novela – me corrigi. – Preciso ir pra casa, amanhã tem a festa de aniversário do supermercado, meu pai sempre faz um bolo com velas, como se o Pêssego’s fosse uma pessoa. E mamãe faz doces pra enfeitar a mesa. Já devem ter começado a se preparar e eu nem passei lá ainda – sorri amarelado. – Vim pra cá direto do colégio.
– Tudo bem, meu bem, até logo – Dona Símia sorriu para mim da cozinha. Estava sentada sozinha na mesa, mergulhando biscoitos de polvilho no chá. Loriel balançava o rabo para ganhar uns também. – Feche a porta pra mim – pediu. Pude vê-la entregar o biscoito para Loriel pela greta da porta que ia se espremendo.
Saí correndo de lá como Rosa fez quando descobriu que Edgar estava preso.
Meu Deus do céu, eu roubei o binóculo.
– Todo ano essa agonia, Ermes – ouvi minha mãe dizer enquanto eu fechava a porta, tentando fazer o máximo de silêncio possível. Tentei subir rápido as escadas, mas antes que eu alcançasse sequer a metade dos degraus...
– Íris Pêssego – a voz crítica de futura bronca surgiu da boca de mamãe, vinda da sala. Revirei os olhos e desci todos os degraus que tinha subido.
Rastejei até a sala, como se não conseguisse andar. Deixei a mochila no canto e me preparei para o que estava por vir.
– Onde você estava?! – me perguntou ela, sem tirar os olhos da letra que recortava. Era um “P”, o mesmo de “Parabéns, Pêssego” de todos os anos. Será que eles já consideraram simplesmente guardar as letras?
– Eu tive que ir na casa da Dona Símia – disse, sentando no sofá.
– Essa hora? Sem avisar? – Aí sim ela me olhou, por cima dos óculos. Que eram extremamente feios, apesar de eu ter me oferecido pra ajudá-la a escolher uma armação nova. Aqueles óculos não favoreciam o rosto de mamãe, ela é muito bonita para eles. Ela me transfere miopia e outras doenças por genética, eu me ofereço pra ajudar e ainda sou errada. – Eu não ligo que você seja amiga da Dona Símia, ela é um amor de pessoa, mas você anda passando tempo demais enfurnada na casa dela. Você não dá essa mesma atenção a sua avó.
Mas tenho motivos plausíveis para isso. Sério. A minha avó não é o tipo de idosa convencional. Que avó dá de presente de Natal uma fantasia sexual (de médica, superdesvalorizando a profissão que eu já quis ter) pra própria neta? E depois se desculpa, já que a fantasia era dela e o meu presente era, na verdade, uma calça jeans. Sei lá, acho que a minha avó faltou o curso de avós. Ela é birutinha da cabeça.
Pausa para pensar que até a minha avó tem uma vida sexual e eu não.
– Vovó não gravou nem meu nome, e faz 17 anos que eu tenho ele. – Revirei os olhos.
Ela me chama de Bianca até hoje, sendo que esse não chega nem perto de ser meu nome. Eu nem sequer conheço alguma Bianca. E a única Bianca que vovó “conhece”, pelo visto, sou eu.
– Mamãe é assim mesmo, mas ela é uma ótima pessoa, você tem que ter só um pouco mais de paciência.
Minha mãe fez uma cara feia para o próprio “P”, do Parabéns, que estava torto.
Não demorou muito para que ela transformasse a letra em picadinhos, com um sorriso que deixava explícito o quanto Jade Pêssego sente prazer em descontar o seu estresse nas coisas.
– Eu... não... aguento... mais... ter... que... cortar... essa merda! – disse ela, entre dentes. Em seguida, tomou fôlego para dar o mesmo grito de sempre: – Ermes!
– Fala, amor. – A voz de papai desceu as escadas sem ele. Que, provavelmente, estava no segundo andar, mexendo no quarto de tralhas. Tentando recuperar decorações velhas dos aniversários passados do supermercado.
– Eu não quero mais cortar isso. Me dá outra coisa pra fazer agora!
Por respeitar hierarquia na minha casa, evito dar risada em momentos como esse.
– Mãe? – perguntei, tentando obedecer ao máximo a “hierarquia” que acabei de citar. – Sabe os folhetos de bons psicólogos na cidade, que a senhora sempre me oferece?
– O que tem? – Ela espremeu os olhos na minha direção.
– A senhora já leu algum deles? Psicólogos fazem bem pra...
– Some daqui, Íris. Antes que eu corte você em formato de Parabéns.
Eu estava há horas observando Margot brincar de caçar a barata de borracha que comprei pra ela. Usando o binóculo, é claro. Acho que estou pegando o jeito de calibrar essa coisa pra aproximar e afastar. É mais fácil do que eu pensei. Uau! Os pelos dela são mais sedosos que o meu cabelo.
É óbvio que a essa altura eu já estava completamente disposta a ser como a Rosa, em Amor em atos. Fala sério, eu preciso seguir meus instintos. Vai que descubro algo muito tenso sobre o término de Cadu e Camila enquanto sigo Édra Norr?! Sei lá, existe uma força sobrenatural que me diz que eu realmente tenho que seguir em frente com meus projetos sobre ela.
Só que vai ter que ser em segredo, já que não posso contar pra Polly. Ela não me apoiaria. Ela nunca vai entender essa coisa de intuição. É meio chato, porque sempre apoio a Polly em tudo. Tá, não apoiei ela a cortar franja, mas isso foi em 2007. Tirando a franja e esse desespero em perder a virgindade, eu apoio Poliana em tudo. Mas, no fundo, sei que ela provavelmente só está muito preocupada comigo em relação ao último ano do Ensino Médio.
Ah, o Ensino Médio... Vou sentir falta daqueles corredores em algum lugar no meio do meu ódio por aquele colégio, eu sei disso. Mesmo assim, há coisas mais preocupantes e urgentes que (perder a) virgindade. Por exemplo, preciso decidir o que eu quero cursar, o vestibular vai ser logo. E não faço a mínima ideia. Eu gosto de tantas coisas que não consigo decidir entre elas.
Levei 5 minutos pra perceber que meu telefone estava tocando sem parar. Crises existenciais sobre o futuro me deixam meio surda.
– E aí?! – perguntei, porque eu sabia que era Polly. – Como foi com o Luiz?
– Ótimo – respondeu ela em um suspiro, soando chateada. Eu conheço não só aquele suspiro, como aquele tom de voz.
– Mesmo?! – indaguei.
Acho que, pelo jeito que Polly falava, ela finalmente percebeu a burrada que estava fazendo. Provavelmente o Luiz foi bem escroto e agora ela enxergava que perder a virgindade não é tudo isso e que, talvez, Luiz não fosse a melhor opção pra ter essa experiência. Finalmente, minha melhor amiga de volta.
– Foi – respondeu ela, sem nenhum ânimo. – Mas eu continuo virgem.
É, eu desisto.
Fui obrigada a passar o resto da noite ouvindo Polly se lamentar sobre como estava “muito a fim” do Luiz em apenas um encontro, mas que não queria misturar as coisas, porque o intuito principal dela é perder a virgindade e não se apaixonar por ninguém. Ela também me avisou que faltaria à aula porque iria visitar os avós, que moram em Vinhedos. Ela sempre faz isso uma vez por mês, então obviamente armazenei essa informação no meu cérebro pra que pudesse me aproveitar dela quando amanhecesse.
Passei a aula inteira me questionando se deveria mesmo seguir com meus planos. Se deveria mesmo incorporar Rosa e transformar minha vida – ou pelo menos um dia dela – em um episódio de Amor em atos.
Não tinha Polly pra me atrapalhar, nem nada. Eu tinha yellow e o binóculo que peguei emprestado (cara, eu não vejo como um furto) pra me ajudar a seguir em frente. Fora a vasilha com tangerinas (que por algum motivo achei que seria crucial, já que eu não iria almoçar tão cedo).
Eu tinha arquitetado tudo. E já estava no canto escondido do estacionamento, perto das árvores, esperando que Édra Norr aparecesse para buscar sua bicicleta e ir pra casa.
Ela demorou tanto a aparecer que eu comi todas as minhas tangerinas. Sério, não sei se por ansiedade ou fome. Pelo menos elas foram úteis. Finalmente tinha arquitetado um plano perfeito, eu realmente estava me sentindo como se fosse a Rosa. Ou a Dona Símia, com essa sensação de que não tem nada que eu não faça. Íris Pêssego, a detetive.
Mas é claro que eu tinha que me esquecer de algo importante. E meu celular começou a tocar sem parar numa altura ensurdecedora, justo quando Édra apareceu pra destrancar a bicicleta.
Tive que atender o mais rápido possível pra que ela não escutasse nada. E, obviamente, atendi sussurrando.
– Pai, o que é? – perguntei, revirando os olhos. Dei zoom com o binóculo para ver as mãos de Édra girando a chave no cadeado.
– Você não tá esquecida do aniversário do supermercado do papai não, né? É hoje, e eu preciso de você. – Pausa para o som da minha mãe gritando alguma coisa. – Vão vir todos aqueles investidores importantes, e aquela ajuda extra significa muito pra mim.
– Pai, eu vou estar lá. Eu tô todos os anos – tentei dizer o mais baixo que pude.
– Por que você tá sussurrando?
– Dor de garganta – menti, forçando uma tosse. Droga, Édra já estava subindo na bicicleta. – Pai, eu preciso mesmo desligar. Não me esperem pro almoço. Beijo. Eu vou estar lá.
Quando desliguei, Édra já estava saindo rumo aos portões da garagem. Eu nunca subi numa bicicleta tão rápido na minha vida. Pendurei o binóculo no pescoço e pedalei o mais rápido que pude pra conseguir alcançá-la.
Não acredito que estou mesmo fazendo isso.
Assim que saí do colégio, vi a bicicleta de Édra parada na banca de jornal. Fiquei no passeio, não quis usar o binóculo para não ficar muito na cara. Eu não tinha nem onde me esconder. Édra falava com o rapaz magricelo da banca de jornal como se eles fossem amigos. Ela pegou o jornal e amassou embaixo do braço, voltou a subir na bicicleta preta e seguimos em frente.
O vento soprava muito o cabelo de Édra, o que preciso dizer que era bem bonitinho, porque não ficava feio, de nenhum jeito. O meu cabelo naquele exato momento devia estar quase uma capa de filme de terror. O que nós não fazemos pela ciência?!
Ela ia em zigue-zague pela rua, se aventurando entre os carros. Aqui já posso acrescentar um item na minha lista de coisas sobre ela: Édra é louca. E tem muita chance de morrer atropelada qualquer dia desses. Talvez nem dure até a formatura, coitada. Cara, o sinal tava aberto! Não acredito que ela passou direto. Ela tá rindo disso?! Qual é a graça? Eu podia ter morrido.
Ok, seguir Édra Norr é perigoso pra minha saúde física. Vou considerar isso da próxima vez que ousar pensar na hipótese de sequer falar com ela.
Estacionamos, ela na frente do salão do Viviano; eu, do outro lado da rua, atrás de um Jeep vermelho, num passeio aconchegante com uma árvore. Pelo menos eu não ia derreter no sol. Já conhecia o salão porque acompanhei Polly várias vezes até lá. É nele que Sandra Rios troca os apliques de cabelo.
O Jeep me proporcionou o prazer de usar novamente o fabuloso zoom do binóculo do falecido marido de Dona Símia. Que Deus o tenha.
Édra cumprimentou Viviano e se jogou no banco, depois girou algumas vezes até parar quieta. Devo admitir que achei prazeroso assistir àquele cabelo sendo cortado. Eu não fazia ideia de que um cabelo já curto pudesse ser estilizado. Parecia o mesmo, só que com um ar diferente. Talvez eu deva considerar isso pro meu futuro, quando eu perder completamente o controle da minha vida. Não que eu tenha algum agora.
Ela ficou muito bonita e também cheia de cabelos grudados pelo pescoço. A nuca dela agora estava mais à mostra. Uma nuca não tem basicamente nada de interessante, mas, mesmo assim, consegui achar aquela nuca bonita. Talvez seja esse zoom que deixe tudo mais interessante. Não sei se quero devolver esse binóculo.
Fala sério, Dona Símia nem deve usar isso. Ela tem uma coisa horrível com o sol. Sei lá, se ela sair de casa, ela morre. Não sei o que acontece. Ela é alérgica à luz do sol, será?! Isso seria só mais um motivo pra ela não ter o que fazer com esse investimento de seu falecido marido. Nossa, o binóculo foi mesmo uma invenção incrível. Meu celular nunca daria um zoom desses.
Olha esses sinais de nascença espalhados pelo pescoço dela... Consigo ver tudo em HD. Isso é incrível. Quero vender os meus olhos e substituí-los por binóculos. Ser míope é um saco.
Vi Édra pagar pelo corte e se ajeitar para sair da loja. Guardei o binóculo rapidamente e subi na bicicleta. Hora de pedalar.
A nossa próxima parada foi numa loja de CDs antiga. Queria ter conhecido esse lugar antes. De fora da loja, que tinha uma enorme vitrine de vidro (pela qual eu observava Édra caminhar lá dentro), dava pra observar o quão legal parecia ser o interior. O nome era Disco Arranhado, e no letreiro as letras “o” foram substituídas por CDs. Eu admiro a criatividade de algumas pessoas.
A loja parecia ser bem simples e aconchegante. Um rapaz com dreads castanhos, cheio de anéis brilhantes e usando um gorro com as cores do reggae conversava com Édra enquanto ela examinava os discos de vinil. O zoom não estava tão bom. Eu tinha aproximado a imagem o máximo que eu podia, mas estava muito distante da fachada da loja. Não conseguia ver exatamente o que acontecia quando ela caminhava para longe da vitrine, que era a única coisa que me deixava enxergar o que acontecia lá dentro.
O meu celular estava vibrando, mas preferi ignorar. Édra coçava a nuca encarando os CDs. Percebi que ela fazia isso com frequência quando estava em dúvida ou sem entender algo. Achei engraçado, porque me lembrou personagens de desenhos animados. Ela acabou escolhendo dois CDs e um disco. Não vi de que artistas eram, maldito zoom. Agora vou morrer de curiosidade sobre seu gosto musical. Tá, isso não é tão relevante assim, mas nunca se sabe quais informações podem servir para alguma coisa no futuro. Estou apenas sendo cautelosa com meu experimento científico. Só isso.
Novamente o zigue-zague da bicicleta dela foi a minha visão pelas ruas. Pude ouvi-la assobiar algum ritmo muito gostoso entre as buzinas de carro e sons comuns do trânsito de São Patrique.
Estávamos indo para não sei onde, mas não demoramos muito a chegar. Ela estacionou a bicicleta embaixo de uma árvore e só percebi que estávamos em uma rua meio residencial quando reconheci algumas casas. Mamãe aluga um espaço naquela mesma rua, para fazer de clínica dentária. Apesar de considerar aquela uma área de alto risco, tudo bem, eu não seria pega. Ela nunca trabalha na data de aniversário do supermercado, pra ajudar papai com as coisas. Então estava livre pra continuar com a minha pesquisa.
E acho que tinha acabado de conhecer a casa de Édra Norr. É branca e verde, com muitos detalhes em madeira. E, para a minha surpresa, vidro. Dava pra ver as cortinas e alguns pedaços de sala pelas brechas. Achei futurística e antiga ao mesmo tempo, creio que foi o contraste das vidraças com os acabamentos em cedro. Eu moraria ali, de qualquer forma.
E tem uma casa na árvore! Que maneiro! Será que é dela? Ou ela tem irmãos?
Nem dava para acreditar que, diante da minha empolgação, não tinha percebido que o que era bom (observar os detalhes explícitos da casa de Édra Norr com os meus próprios olhos) podia ficar melhor (ou, pelo menos, profissional): hora do binóculo, mais uma vez, salvar a pátria. Larguei minha bicicleta no passeio e me escondi do outro lado da rua. Obrigada, carro e poste de luz, por isso. Saquei o binóculo e dei o zoom. Procurei por qualquer greta que me mostrasse onde, naquela casa de vidro e madeira, estava Édra. Eu não sei o que eu esperava ver, bisbilhotando daquele jeito. Mas, no primeiro andar, uma cortina estava aberta. Meu coração congelou quando o vulto de Édra passou pelo vidro da janela enorme. Mais zoom.
Ela estava guardando os CDs em algum lugar, não consegui ver direito. Tinha uns desenhos pregados na parede e um abajur azul-marinho numa cabeceira que eu não conseguia enxergar por completo. A parede era cinza-grafite. Não sei exatamente o que pensar disso, eu odeio cinza, tem cor de dia nublado.
Senti o meu rosto esquentar em questão de segundos. E, por impulso, fui aproximando ainda mais o zoom.
Não acredito nisso. Estava assistindo a Édra Norr trocar de roupa.
É, realmente, ela usa top de academia ao invés de sutiã, indo contra todas as garotas que eu conheço. E ela tem costas muito bonitas. E quantos sinais...
Ela está suspendendo o top. Deus, não vou ver mais.
Eu e minha timidez viramos abruptamente, deslizamos pelo carro até atingirmos o chão. Conseguia sentir o meu rosto quente. O que eu acho que estou fazendo?
Isso – Édra Norr sem roupa – com certeza não é relevante pra pesquisa. Mas, pra minha defesa, quem troca de roupa com a cortina aberta? Essa garota tem sérios problemas. Primeiro, ela não se importa em ser atropelada. Agora, ela não se importa com a possibilidade de existir um maníaco no bairro assistindo a ela trocar de roupa?
Não que eu seja o maníaco do bairro. O que estou fazendo aqui é científico.
Certo, vou dar um tempo até que ela esteja vestida.
Aproveitei para checar meu celular, que estava vibrando sem parar. Uma mensagem do meu pai:
Não se atrase! Vamos receber convidados importantes, venha arrumadinha. Nada de tênis. 14:49
“Arrumadinha” deve ser o mais perto de bonita que eu consigo ficar.
Chegou mensagem de Polly também:
Luiz não me ligou até agora. 15:05
Desliguei a tela do celular, revirando os olhos. Aprontei o binóculo e voltei a espiar através do carro. Édra não estava em lugar nenhum. Mofei por um tempo observando o quarto dela. Decidi atualizar minhas anotações sobre o dia inteiro.
Eu estava distraída desenhando a janela de Édra Norr quando ela surgiu do nada, enrolada num roupão, com o cabelo todo molhado e incontáveis gotas escorrendo pelo corpo. Não sei exatamente como me senti sobre isso. Meu coração escalou o meu corpo e começou a bater no meu pescoço. Zoom.
Me peguei imaginando o cheiro que tinha sentido naquele dia. Ela é muito cheirosa. Preciso lembrar de anotar isso no caderno. Sei lá, nunca se sabe.
O cabelo dela fica muito menor molhado, e ela parecia um bichinho acanhado agora. E, ao mesmo tempo, muito charmoso. O cabelo estava todo penteado para trás, como se ela tivesse saído de um filme dos anos 1980.
Assisti torturosamente enquanto ela abotoava a blusa social como se estivesse em um videoclipe. Dei zoom nos dedos e nos botões entrando pelo tecido. Édra esfregou o cabelo com a toalha e ele bagunçou inteirinho. As ondas destrambelhadas começaram a aparecer enquanto ela passava perfume e remexia em alguma coisa que estava em cima da banquinha. Parecia procurar algo. Observei enquanto ela remexia alguns objetos: papéis, caderno, copo de vidro vazio, um classificador e uma câmera fotográfica.
Eu estava tão entretida que me assustei quando a minha barriga roncou. A rua era tão silenciosa, que aposto que alguém assistindo a Sessão da Tarde ouviu o meu ronco. Eu não fazia ideia de quanto tempo tinha passado seguindo aquela garota. Já era quase fim de tarde e minha barriga não entendia a importância do experimento científico.
Édra se aproximou da janela por uma fração de segundos. E eu senti uma coisa estranha no meu corpo, não sei se por causa da fome ou se era o nervosismo dando seus sinais. E nem tive tempo de pensar, ela fechou a cortina na minha cara.
Sério, na minha cara.
Não demorou muito pra que ela surgisse na frente da casa. Tive que me deitar no passeio para que não me visse. Só fui perceber o quanto isso soava estranho quando reparei que estava sendo observada por duas crianças: uma estava boquiaberta, deixando o slime arrastar no chão, e a outra parecia filmar com um tablet. Uma moça quarentona surgiu logo depois, afastando as crianças de mim. Caminharam em ré cautelosamente, como se eu transmitisse alguma doença.
E talvez eu transmita mesmo. Talvez a minha impulsividade pegue pelo ar. E agora é tarde demais, porque todos vão sair por aí seguindo as pessoas na rua. Fala sério.
Eu me limpei abaixada atrás do carro, esperando que Édra Norr ressurgisse. Depois de um estrondo na porta da garagem, ela reapareceu montada em sua bicicleta preta e saiu em disparada pela rua, como se fosse um flash. E eu fui destrambelhadamente atrás.
Pedalei muito para acompanhar Édra, que parecia bastante apressada. Cruzamos ruas até eu reconhecer o Banana Club e sentir o cheiro da brisa da Praia da Sardinha soprando salgada no meu rosto inteiro e no meu cabelo. Estava perto do pôr do sol e percebi que não teria muito tempo pra ver o que Édra Norr faria ali.
Continuei firme. Não sabia se entrava e fingia querer algo, ou se olhava de fora mesmo, já que o Banana tem a frente inteira de vidro. A praia fica do outro lado e dá pra observar tudo por trás de um coqueiro tranquilamente. O movimento na Praia da Sardinha só acontece no fim de semana, então não teria muita chance de ser flagrada por algum conhecido agora. Podia ser a louca do binóculo em paz.
Aquele dia estava a favor do meu experimento. Tirando o fato de que talvez uma criança tenha me filmado largada no chão e isso viralize no YouTube, tenho mesmo que agradecer pelas coincidências oportunas daquele dia. Sério. Obrigada, universo.
Édra parou a bicicleta, trancou o quadro e a roda no cercado do Banana Club e entrou passando a mão sobre a blusa social branca que vestia – ela também estava com uma calça jeans preta e tênis pretos. Gostei do jeito que ela estava vestida, mas aquilo não era apropriado pro Banana Club, parecia um pouco chique demais.
Talvez ela estivesse querendo impressionar alguém.
Só tive certeza disso quando dei zoom e avistei Camila Dourado esperando por ela numa mesa, tomando uma vitamina rosa (com certeza era a vitamina de banana com morango, a minha preferida). Édra deu um selinho nela e pude vê-la sorrir pelo zoom. Não conseguia ver muito mais, porque Édra estava de costas pra mim. Elas deram as mãos por cima da mesa e Camila falava algo com os olhos brilhando e com um sorriso abobalhado. Aquela era a mesma cara de apaixonada que ela fazia pra Cadu Sena meses atrás. Édra passou uma mecha do cabelo pra trás da orelha dela, uma cena que eu tinha visto antes, no colégio. Me peguei revirando os olhos espontaneamente. Camila Dourado começou a ficar com o rosto bem vermelho e o sorriso nem cabia mais na boca dela.
Um rapaz se aproximou para anotar os pedidos. Nesse momento, minha barriga roncou de novo. Édra gesticulou com o menu na mão. O rapaz fez algumas anotações e saiu, deixando as duas sozinhas de novo. Ninguém merece.
Vi Édra se inclinar sobre a mesa e Camila Dourado fechar os olhos. Eu sabia o que ia acontecer. Então me poupei daquilo, afastando o binóculo do meu rosto. Chega de experimento científico por hoje.
“Quando você olha pra ela”, da Gal, tava tocando no radinho de uma senhora que caminhava no calçadão; ela se afastava vagarosamente enquanto eu ajeitava todas as minhas coisas na mochila. A música já estava distante de se ouvir, mas tocava alta dentro da minha cabeça. Respirei fundo a brisa do mar e subi em yellow.
Voltei para casa com o sol se pondo bem em cima da minha cabeça. Me atrevi a experimentar o zigue-zague que Édra fazia com a bicicleta e nunca me senti tão livre na vida. Me peguei rindo da sensação de possível morte por atropelamento. Era emocionante. Como ver novela. O céu foi ficando em um tom laranja muito forte. O pôr do sol estava no ápice e eu também me sentia meio laranja forte por dentro. Quero andar em zigue-zague pra sempre.