O Amor Não é Óbvio

Elayne Baeta · Capítulo 18 de 27

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O Amor Não é Óbvio

16 | Asteroides

ASTEROIDES

 

Como que se explica uma vontade?

Às vezes, é muito difícil explicar uma vontade. É claro que existem vontades explicáveis, como querer tomar sorvete porque o dia está insuportavelmente quente. Mas tem coisas que você olha e simplesmente quer. E quando você mesmo tenta entender o porquê disso, se atrapalha nas respostas. É frustrante não entender a razão desses nossos impulsos. É bizarro você não saber o porquê de você mesmo querer um sorvete e não, sei lá, um picolé. E isso acontece. Tem dias que você está inerte, em puro ócio, e a vontade de algo aleatório te atinge como um soco na boca. Daqueles fortes, que sangram. E você não faz ideia de onde surgiu esse desejo louco de viajar, ligar pra um amigo qualquer, cortar o cabelo, comprar algo, comer pizza, atravessar a rua e bater na porta da casa da sua vizinha idosa para ver a neta dela.

Existem vontades explicáveis, como querer tomar sorvete porque o dia está insuportavelmente quente. Mas tem coisas que você simplesmente quer. E, como eu disse, às vezes a gente tenta entender o porquê e se atrapalha – completamente – nas respostas.

Mas foi o cabelo amassado de sono. Eu tenho certeza disso.

– Cara, eu tenho quase um dia inteiro nessa casa – disse ela, virada de costas para mim. Talvez sejam as costas. – E nem sei onde ficam os talheres.

Édra Norr estava remexendo as gavetas de Dona Símia como se estivesse cavando pra achar ouro, ou coisa assim. E, deitado embaixo da cadeira onde eu estava sentada, Lanterna lambia os dedos descalços dos meus pés. O que meio que me dava cócegas.

– Você tem cara daquelas pessoas que não sabem procurar nada direito – eu disse, deslizando os dedos sobre a mesa, me divertindo com o desespero dela.

– Você sempre vem aqui. – Ela se virou, com um olhar semicerrado. – Podia pelo menos saber onde achar uma faca.

Talvez seja esse olhar semicerrado.

Eu sabia onde ficavam as facas, garfos e até os sutiãs de Dona Símia. Mas e depois? Levaríamos dez minutos pra comer toda essa pizza e eu teria que ir pra casa, porque, fala sério, que desculpa eu iria dar pra ficar mais tempo?

E por que diabos eu quero ficar mais que dez minutos aqui?

Vontades... Nem todas são explicáveis.

– Eu não faço ideia de onde fica nada nessa casa – arfei, usando meu tom mais mentirosamente convincente.

Acho que tô me tornando uma mentirosa profissional. E eu não me orgulho disso.

– Que caralho... – Édra apoiou os dois braços sobre o mármore da pia, fazendo os músculos das costas saltarem. – A pizza vai ficar fria.

– É, mas – enchi o meu peito de orgulho pra abraçar a causa do meu gosto estranho: – pizza fria é uma delícia.

E só sei que gosto de pizza fria por causa de uma vontade inexplicável. Um dia eu simplesmente encarei as duas últimas fatias que não tinha aguentado comer no dia anterior, e pensei: Hum, bom, por que não? E foi uma vontade bem sem justificativas mesmo. Até porque, quando eu fiz isso, eu estava de barriga cheia. No final das contas, não foi fome nem a reprodução de algo que papai faria (ele não desperdiça nada). Eu só queria saber o gosto da pizza fria.

E hoje em dia eu adoro quando as pizzas esfriam e posso comê-las com esse gosto que, pra algumas pessoas, é insuportável. Mas, hum, pra mim? É genial.

– Não sei. – Ela arrastou a cadeira para sentar. – Nunca comi pizza fria.

Talvez seja o jeito que ela senta errado.

Édra bocejou exatamente como a Margot quando acorda. Só que apoiando os cotovelos na mesa.

– Deus. – Revirei os olhos pra ela. – Que ânimo.

– Foi mal. – Ela coçou as pálpebras, com aquela cara de sono. – Eu cochilei vendo o jornal.

Olhei diretamente para os ombros nus dela, percebendo os sinais que o lustre da cozinha – bem acima das nossas cabeças – iluminava.

– Percebi – falei, abrindo a caixa da pizza para espiar. – Achei que as pessoas ficassem mais animadas pra perder a virgindade.

A pizza suava dentro do papelão e recebi uma explosão de cheiro enquanto fechava a caixa. Não queria que minha barriga roncasse, ou que eu agisse naturalmente na frente de Édra. Com agir naturalmente eu quero dizer, é claro, comer toda aquela pizza antes mesmo que o comercial de shampoo, que estava passando na tv, acabasse.

Quando olhei para Édra, ela parecia me encarar como quando os nossos professores escrevem embolado no quadro e a gente meio que aperta o olho e inclina o pescoço, tentando entender o que aquilo quer dizer.

– Então você tá animada pra perder a virgindade? – Sim, foi o que ela me perguntou.

E é claro que fiquei mais vermelha que os tomates que eu tinha acabado de espiar.

Talvez seja esse jeito de olhar que ela tem, que parece uma flecha atravessando uma maçã. E, no caso, a maçã sou eu.

– Argh. – Encolhi meus ombros, arrastando um pouco a cadeira enquanto me ajeitava. Parecia que meu corpo inteiro tinha entortado e não cabia ali mais. – É claro que não. Eu nem acho que sexo seja assim tão importante.

Édra parecia desacreditar no que eu tinha acabado de dizer. E ela estava do outro lado da mesa, cheia de deboche no rosto.

– Aham – provocou. – Como se você nunca tivesse pensado em sexo.

Minhas coxas ralaram uma na outra e eu acabei chutando (sem querer) a boca de Lanterna.

– Pensar em sexo é natural, não é como se eu fosse uma obcecada por isso. – Revirei os olhos, tentando não coçar meus dedos até eles caírem.

Principalmente porque eu tinha sonhado com Édra Norr na minha cama, fazendo zigue-zague (e não foi com uma bicicleta).

Senti que ela ia falar alguma coisa muito sacana, mas aí ela soprou todo o ar que tinha tomado para falar, e sua cara parecia ter mudado de ideia.

– Eu gosto muito – disse, arrastando a caixa de pizza para perto de si mesma.

Talvez seja o fato dela ser muito sincera, quando eu não consigo ser.

O barulho fez com que Lanterna latisse embaixo da minha cadeira.

– Normal – foi o que eu disse, em vez de “é óbvio, está escrito na sua cara cínica toda vez que você sorri torto e parece que os botões da roupa das pessoas se abrem sozinhos”, que era o que eu queria ter dito. – A maioria das pessoas na nossa idade gostam muito. Minha melhor amiga, por exemplo, mas não sei se ela pratica.

Édra suspendeu a caixa, espiando a pizza.

– É importante praticar – disse ela, divertida. Com aqueles olhos brilhando mais que as azeitonas na pizza.

Minhas coxas prestavam bastante atenção na conversa. Fiquei em silêncio.

– Você tem vergonha, né? – perguntou ela, arrancando uma fatia de pizza com as próprias mãos. – Você pode me contar as coisas, relaxa – e agora vem a frase que eu não queria ter escutado: – Somos amigas – disse Édra, arrancando uma grande mordida da pizza de frango com catupiry.

E foi assim que eu tirei a virgindade de pizza de Édra Norr. Com ela me dizendo que “somos amigas”. E sim, somos amigas, mas eu não tava com nenhuma vontade – explicável ou não – de ter escutado aquilo, naquela hora. Que saco.

Ela podia simplesmente engasgar agora, e eu não me importaria.

Não acredito que estou fingindo que não devoraria essa pizza inteira como um leão matando veados no canal fechado sobre vida na selva... Pra uma pessoa como Édra, que é a minha amiga.

E que nem parece se importar com o fato de eu estar ali, depois de ter passado sabonete sete vezes, tendo que assistir enquanto ela suja a boca inteira de catupiry.

– Você já se masturbou, pelo menos? – perguntou ela, depois de engolir.

– Deus, Édra. – Encarei minhas próprias mãos, suadas, sobre o meu colo. – Eu não sei você, mas eu não discuto essas coisas com minhas – arfei – amigas.

– Que besteira. – Ela mexeu nas fatias dentro da caixa, arrancando mais um pedaço. – Quantas vezes?

– Quantas vezes o quê? – Arregalei meus olhos.

Édra parecia não dar a mínima pro assunto da conversa. E nem para comer como eu normalmente comeria, se não quisesse parecer mais uma garota bonita e menos o leão do canal fechado na frente dela.

Qual é o problema dessa garota?

– Por dia – perguntou, enchendo a boca com tanta pizza que as bochechas incharam.

– Quê?! – Me afastei da mesa. – Você não pode tá falando sério. Pra que você quer saber disso?! – Minha testa franziu e eu podia sentir minhas sobrancelhas se juntarem.

– Ué. – Édra deu de ombros. – Eu sempre falei disso com as minhas amigas.

– Eu não sou sua amiga – disse de uma vez, e levei um tempo para perceber que tinha dito rápido demais, o que não me deu tempo de ser uma mentirosa. Então, tratei de me corrigir, com uma cara amarelada. – Eu quero dizer... – Ajeitei minhas costas na cadeira. – Não esse tipo de amiga.

– E que tipo de amiga você quer ser? – indagou Édra, sem me olhar. Estava catando as ervilhas da pizza e deixando no canto da caixa.

Do tipo de amiga que não é a droga da sua amiga. O tipo na frente de quem você não come feito um leão, porque quer ser bonita, sabe? Que inferno.

Mas isso foi só o que eu pensei.

– Do tipo que não fala sobre coisas íntimas e meio constrangedoras.

E isso foi o que eu disse.

– Ah. – Ela acenou com a cabeça. – É que a gente não tem muitas paradas pra falar sobre. Não é como se a gente ainda brincasse de boneca ou como se eu fosse passar horas te contando sobre como eu tô a fim de algum cara do time de futebol.

– Como você sabe que Polly faz isso? – perguntei, boquiaberta, tentando não dar risada de quão patético era isso.

– Porque todas as garotas naquele colégio não falam sobre outra coisa. – Édra tirou mais uma fatia de pizza.

– Você pode me falar por horas sobre garotas, já que os meninos do time de futebol não fazem o seu tipo. – Eu sorri, tentando fazer uma piada idiota. Porque, bom, essa sou eu.

– Hum. – Ela ergueu as sobrancelhas. – Eu e a Camila meio que não estamos fluindo direito.

– Meus pêsames – retruquei, áspera. É, estava mesmo difícil disfarçar as coisas. – Digo, deve ser horrível não combinar com quem você se apaixona, né?

– É. – Édra jogou um pedaço da pizza para Lanterna, que parecia uma rocha, imóvel ao lado dela. Acompanhando cada mordida com os olhos pedintes.

Nem preciso dizer o quanto eu estava decepcionada a essa altura. Ela estava lá, com a boca suja de pizza, a cara amassada de sono e os ombros nus para mim. Não é como se ela estivesse feia, eu comeria todos aqueles farelos no canto da boca dela se pudesse, ainda tiraria uma foto escondida e revelaria.

Ela continuava bonita. Mas ela não estava se importando em estar bonita.

Édra Norr estava sendo Édra Norr versão “para amigas” e isso me confundiu a cabeça inteira, porque, bom, eu sei lá, é errado achar que aquilo no hospital pudesse significar algo? Não sei o que pensar sobre isso.

Nem sei por que estou decepcionada por ter confundido as coisas na minha cabeça. Quero dizer... não é como se eu estivesse a fim dela. Eu só tenho vontades inexplicáveis. Mas achei que ela estivesse, tipo, a fim de mim. Ou, eu não sei, ela parecia querer me impressionar. Ela parecia querer ser mais uma garota bonita e menos o leão devorando o veado no canal fechado.

Mas ela estava lá, sendo a minha amiga-amiga, se sujando inteira de comida e falando sobre Camila Dourado bem na minha cara (apesar de ter sido uma notícia boa).

Édra Norr é bizarra, se é o que você quer saber.

Porque, cara, tudo isso é muito confuso. Uma hora ela quer ser bonita, outra hora ela não liga de ser o leão do canal fechado.

E olhe só essa boca suja! Ela não está mesmo dando a mínima para me impressionar.

E é ridículo ela continuar me impressionando mesmo assim.

Nesse momento, Lanterna tentou puxar – em vários pulos seguidos – a caixa inteira da pizza para que ela caísse e ele pudesse devorar mais pedaços.

Édra gargalhou, afastando a caixa para que ele não fizesse um grande estrago.

Mas Lanterna continuava aos pulos, desesperado.

– Não adianta. – Respirei fundo. – Você precisa falar sério com ele, senão ele não vai parar.

– Ah. – Ela se inclinou para trás na cadeira, me analisando. – Então você conhece mais os meus cães que eu?

Abrimos um sorriso na mesma fração de segundos. Ela? Mostrando os dentes. Eu? Tentando não mostrar nada que estivesse dentro de mim (inclua os dentes nisso, mas não só eles).

– Você sumiu, né? – Dei de ombros. – Você pode se culpar por isso. – E, entortando a boca para um lado, observando o balançar de rabo de Lanterna, continuei: – Não só por Lanterna não te obedecer, mas pelo nome “exótico” dele.

– Vovó nunca te contou? – perguntou Édra, juntando as sobrancelhas na testa.

– Me contou o quê? – indaguei.

– Ué – ela soava como se fosse algo muito óbvio. – O porquê dos nomes.

– A gente não fala muito sobre ela na vida adulta – expliquei, tentando não parecer indelicada. – Em todas as histórias que já ouvi, eles ainda não existem.

– Bom... – Édra se ajeitou na cadeira. – Vovô meio que estava “marcado” pra ficar cego, entende? – fez um silêncio longo. – Diabetes.

– Entendo. – Engoli seco.

– E aí que o nome do Lanterna sempre foi Lanterna... Porque lanternas iluminam as coisas e nos guiam no escuro.

Édra suspirou e eu suspirei junto. Meu carinho pelo Lanterna se triplicou com aquele detalhe novo sobre ele.

– E a Loriel? – perguntei, curiosa.

– Esse aí eu acho melhor a vovó te explicar. – Ela sorriu amarelado, perdendo os olhos nos detalhes da cozinha.

Me arrependi imediatamente depois de ter feito a pergunta. Dona Símia não costumava falar muito da vida dela e parecia estar se virando com a falta que sentia de quem já tinha partido. Eu também nunca fui de agoniar ela com esses assuntos. Mas me lembro de ouvi-la resmungar algumas vezes que Loriel era cheia de manias, porque sua filha tinha acostumado assim. Reclamações espontâneas, que ela parecia fazer em voz alta sem muita consciência. Nunca me atrevi a puxar assunto sobre isso. Os olhos marejados de Édra Norr me fizeram conectar tudo. Loriel, cheia de manias, pertencia a filha de Dona Símia. Loriel era da mãe de Édra.

A verdade é que a gente tava se esforçando, tipo, sério. Mas a preocupação com Dona Símia sugou boa parte do nosso ânimo e da nossa estabilidade mental. Então, estávamos sorrindo amarelado uma pra outra e tentando agir normalmente para aliviar toda a tensão do momento.

Dona Símia estava no Hospital Hector Vigari, se recuperando de uma cirurgia. A bicicleta da mãe de Édra estava destroçada. Fora todo o drama envolvendo Léon e Camila Dourado no Submundo. É claro que Édra Norr ainda tinha algumas feridas abertas... Ou várias, se é que você me entende.

Então, é compreensível que ela não estivesse tão animada assim pra perder a virgindade de pizza. Sou uma grande idiota, eu acho. Escolhi o pior momento pra melhor coisa. E eu sempre toco nos assuntos mais desnecessários. E eu sempre estrago tudo. E eu sempre entendo tudo errado. E eu sempre termino no chão do meu quarto ouvindo Whitney Houston.

Porque eu sou Íris Pêssego. Às (ou na maioria das) vezes, é como se eu fosse um asteroide se aproximando da Terra. Sabe aqueles gigantescos? Que passam nos jornais e que blogs religiosos usam para fazer matérias sobre o fim do mundo? Pois é, sou eu. Um grande risco; enorme e desajeitado. Que, mesmo com uma grande chance de destruir tudo, só quer passar por perto, entende? Assim, de lado. E ser visto no céu de alguém.

O problema é que eu me esqueço com frequência da parte em que posso destruir tudo.

E agora Édra Norr está assim, com essa cara não identificável. E não sei dizer se ela quer ou não chorar.

– Me desculpa, Édra – eu disse, me levantando abruptamente da cadeira. – Eu só queria passar perto.

Édra pareceu tomar um susto quando eu puxei ela para fora daquele estado de “vista descansada” em que ela estava, encarando propositalmente os ímãs da geladeira.

– Do que você tá falando? – Ela espremeu os olhos. Tanto que os cílios quase grudaram.

– Asteroides... – Respirei fundo, encarando o teto.

– Quê? – perguntou, confusa, enquanto eu tentava não afastar meus olhos do forro da casa. Não durou muito tempo, porque, bom, tente ficar muito tempo sem olhar pra Édra Norr.

Quando deixei meu olhar cair novamente nos olhos dela, pude ver seu sorriso torto no rosto. Rindo – descaradamente – da minha cara.

– Íris, você é muito estranha – foi o que ela se atreveu a me dizer.

– Eu só queria te animar um pouco... – tomei fôlego e paciência para continuar a frase: – Amigos são pra essas coisas, né?

Tomara que não tenha soado sarcástico como foi dentro da minha cabeça.

– Tem uma coisa que definitivamente me animaria agora. – Ela me atravessou com o olhar lascivo.

– Sexo? – deduzi, mais brincando que falando sério.

– Deus, não! – Édra gargalhou, arrastando a cadeira pra se levantar. – Era andar de bicicleta.

– Ah! – Arfei, com os olhos arregalados. E claro, me sentindo uma completa idiota. Nessa hora, eu queria mesmo ser um asteroide e flutuar pra bem longe. Ou, sei lá, entrar num buraco negro.

– Mas se você quiser tentar a sua alternativa... – Ela ergueu os ombros nus, suspendendo a caixa da pizza.

Meu rosto inteiro ferveu imediatamente.

– Engraçadinha – respondi, coçando os meus dedos. O que não é nenhuma novidade perto de Édra Norr. Já que ela coloca todos os meus hormônios dentro de uma panela e esquenta em fogo máximo; e tudo o que me sobra é coçar os dedos.

– Eu tô brincando. – Ela piscou o olho, rapidamente, se virando com a caixa da pizza em direção ao balcão ao lado da pia. – Ou não – brincou, de costas pra mim.

E, Deus, obrigada por ela estar de costas e não poder perceber a minha cara estúpida de vergonha agora.

– Amigas não transam – retruquei, cruzando meus braços.

– Existem vários tipos de amizade – disse ela, ainda de costas. Ai, os cabelinhos na nuca. – Nós somos o tipo que tira virgindades uma da outra.

– Não somos, não! – falei tão rápido que acho que soou meio desesperado.

– Ah, é? – Édra se virou por alguns segundos para me encarar, e depois me deu as costas de novo, voltando a limpar as coisas na pia e no balcão. – Então devolva a minha virgindade de pizza.

Eu não pude segurar a risada.

E o porquinho ataca novamente.

– Não é bem isso o que eu quis dizer – expliquei. – Só que sexo não está incluso no nosso acordo de amizade.

Meu coração foi acelerando dentro do peito, mesmo ciente de que aquilo era só uma brincadeira idiota. Eu também estava em dúvida se o fato de ser só uma “brincadeira idiota” era bom ou ruim.

– Hum, não fui eu que sugeri, mas me desculpa, então – senti seu tom de voz brincalhão tirar sarro da minha cara. – Eu só queria passar perto.

– Do que você tá falando? – perguntei, desconcertada.

Édra se virou, secando a mão numa toalha bordada de Dona Símia. Nossos olhos tão fixados pareciam dar choque.

– Asteroides. – Ela sorriu torto. – Só asteroides.

Um silêncio gostoso se colocou entre nós conforme ela se aproximava da mesa.

– E como você pretende andar de bicicleta sem a sua? – perguntei bem rápido, antes que ela chegasse ainda mais perto e aquele silêncio todo me engolisse.

– Ué. – Édra deu de ombros. – Com a sua.

– E eu? – Franzi o cenho, me sentindo “de fora”.

– Ué. – Édra deu de ombros mais uma vez. – Comigo.

– Então, ok, certo – eu disse, enfiando as mãos nos bolsos do meu short. – Eu só preciso da chave da gara...

Vazios. Todos os bolsos vazios.

– Droga – resmunguei, em um sussurro. Mas Édra Norr ouviu.

– O que foi? – indagou ela.

– Eu sempre trago a minha cópia da chave da garagem. Agora já era. Se eu triscar o meu pé em casa pra pegar a chave, não vou conseguir sair mais. E vou ficar de castigo até me formar na faculdade. Meus pais vão acordar e fazer a maior cena de todas, não é uma boa ideia – doeu pra dizer isso tudo. – Já é tarde – e doeu pra dizer isso também.

Pra mim ainda não existe um horário que especifique se é ou não tarde pra estar com Édra Norr.

E o asteroide ataca novamente, não destruindo o planeta, mas destruindo os planos. Argh, como eu sou estúpida às vezes.

– Calma. – O rosto de Édra foi formando feições de quem teve uma ideia brilhante. – Acho que eu sei um jeito da gente dar uma volta de bicicleta. – Ela sorriu, ligeiramente. – Mas eu não sei se vai funcionar...

– Ai, meu Deus! – Eu levantei, nervosa. – Diga logo.

Minutos depois, estávamos em pé na frente da garagem de Dona Símia. E eu nem sabia que ela tinha uma. Era tudo muito empoeirado, cinzento, e a maioria das coisas estavam cobertas, então não sei exatamente o que era aquilo tudo amontoado pelos cantos.

Os olhos de Édra, no entanto, só notavam a bicicleta velha, roxa e prateada, com assento de couro e uns detalhes bem vintage. Bingo, era a nossa carona.

– Era do vovô, não sei se funciona mais – disse Édra, me fazendo reparar no moletom branco que ela tinha vestido. A cor do forro do capuz combinava um pouco com a bicicleta.

Eu tive que esperar ela vestir o moletom, me oferecer mil casacos, negar todos os mil e procurar a chave da garagem da Dona Símia antes de chegar onde estávamos. A gente tinha perdido tempo demais.

– Se tem rodas e pedais, funciona. Só vou calibrar aqui. – Sorri, empolgada e preocupada ao mesmo tempo. – Eu não posso demorar... Se você quiser ir, vamos logo. Meus pais estão um porre com tudo o que tá acontecendo e eu tive que esperar eles apagarem pra vir até aqui.

– Tomara que você seja leve – disse ela, olhando séria para as minhas coxas. – Ou tomara que não.

Abaixei mais o meu short, sentindo meu rosto esquentar.

– Qualquer coisa, você dá duas viagens. – Revirei os olhos querendo rir. – Anda logo!

Édra ficou de frente pra mim, dentro daquele moletom branco que ressaltava a cor do cabelo e dos olhos dela (superescuros). Ela me olhava em todos os movimentos. Sua respiração estava calma, mas intensa. Meu coração já foi imediatamente escalando até a minha garganta, o que não é mais do que o esperado. Estávamos perto demais. O cheiro dela pairava inteiro sobre a minha atmosfera, a poucos centímetros de mim. Édra afastou uma mecha do meu cabelo pro lado...

Ai, meu Deus, vai acontecer alguma coisa. Ela está agindo como no hospital!

...E colocou a palma da mão suavamente contra a minha testa.

– Você deve tá com febre – brincou, no tom mais cínico. – Topando fácil a aventura.

Argh! Meus dentes trincaram e eu dei um “empurrãozinho” nela. Garota idiota.

– Cara, eu tô falando sério. Você vai ter que enfrentar a fúria de Jade Pêssego se continuar demorando assim – ameacei, me enrolando com os meus braços.

Estava ventando, mas eu não podia aceitar nenhum casaco de Édra Norr. É meio chato, porque eu já peguei um emprestado daquela vez, entende?

Deus, quem eu quero enganar? Eu não aceitei por medo de não devolver nunca mais.

– E aí? – Édra me puxou dos meus pensamentos direto para o planeta Terra. Para a garagem de Dona Símia, pra ser mais específica.

Vasculhei o meu campo de visão rapidamente, pra localizá-la. Só que Édra já estava atrás de mim, em cima da bicicleta empoeirada.

– Vamos? – perguntou ela, de costas para mim, me olhando de lado.

– Vamos – respondi, dentro de um sorriso desajeitado.

Subi na bicicleta sentindo as minhas pernas surrealmente trêmulas. Rezei internamente pra que Édra Norr não percebesse esse pequeno detalhe. Ela pediu que eu me segurasse firme, por causa das ladeiras, curvas, dos buracos e das pedras que encontraríamos (como sempre) pelo chão de São Patrique. Por isso, eu tive que abraçá-la pela cintura. O moletom dela era tão quentinho e macio, parecia o meu cobertor, sério. Ela começou a pedalar e o meu cabelo se pôs a dançar no vento que soprava conforme ela ganhava velocidade. Na cintura de Édra, meus braços se moviam, acompanhando os movimentos de sua perna. Não foi só o meu cabelo que dançou com o vento, os fios negros de Édra também foram tirados pra dançar. E isso causou o que eu chamo de soco. Sim, eu estou falando do cheiro de Édra Norr se desprendendo inteiramente dela e me acertando em cheio, no banco de carona da bicicleta.

Também tenho que dizer que havia um rangido meio engraçado de alguma peça enferrujada. Édra resmungou por causa disso. Eu sei que ela xingou bem baixinho pra que eu não ouvisse. Mordi meus lábios com muita força, pra que o porquinho da minha risada não atacasse bem naquele momento.

Passamos por todos os sinais abertos, e tudo estava tão deserto que a cidade naquele momento parecia nossa. Éramos verdadeiros asteroides orbitando São Patrique. Eu sei que ela estava pedalando em chão firme. Mas, na minha cabeça, tudo tava bem de cabeça pra baixo mesmo. E era céu no chão. Pude sentir o pânico das pessoas e todos os blogs religiosos comentando sobre nós. Éramos asteroides gigantescos passando.

O chão do céu estava cheio de estrelas. Como na empoeirada garagem de Dona Símia, onde todas as estrelas eram ciscos. A lua cheia amarelada nos pintava de amarelo também, embora eu enxergasse tudo laranja forte nesse momento.

Eu daria qualquer coisa pra poder ver a cara de Édra Norr enquanto desviávamos dos buracos pela pista. Nos arriscando no sinal aberto, no meio de trânsito nenhum. Eu só conseguia ver seus braços dentro das mangas brancas do moletom, seus pés pedalando com força, suas costas quase que encostando no meu nariz.

Eu fui me deixando e me deixando e me deixando...

E colidi contra as costas de Édra Norr, deitando a minha cabeça ali mesmo, capturando o máximo que pude da lua cheia. No céu-chão empoeirado que parecia nosso. E que, naquele momento, era o suficiente pra ser incrível. E ainda seria incrível se fosse nublado, ou se não fosse nada.

Tudo com Édra era dez vezes mais bonito. E eu queria saber o porquê. E não queria também. Nem tudo precisa ser compreendido.

Do mesmo jeito que nem todos os asteroides destroem tudo. Eu sei disso porque colidi com Édra Norr bem agora. E, às vezes, colidir pode ser extraordinário.

Fui remontando todas as situações em que a vi pela cidade, durante todo o nosso caminho até não-sei-onde (já que era ela quem nos guiava). Meu cérebro viu várias Édras; na loja de CDs, no sinal, na banca de jornal, na frente do colégio. E, em uma velocidade menor, atravessamos o caminho da praia. Nessa hora, Édra inclinou um pouco a cabeça, tentando me ver. Nossos rostos se encostaram um pouco e foi estranhamente aconchegante. Fora que o cheiro dela no ar ficou ainda mais forte, assim, pertinho de mim.

– Você tá viva? – perguntou, e eu senti que ela estava sorrindo, pela pressão que a bochecha dela fez.

– Muito. – Respirei fundo. E repeti baixinho pra mim mesma: – Muito.

E voltamos pra dentro do melhor silêncio do mundo. Tudo tinha som de mar, rangido de ferrugem da bicicleta e vento soprando contra as nossas roupas, como bandeiras sendo assopradas. Apertei Édra Norr um pouco mais forte do que eu precisava. E ela se inclinou para tentar me olhar em algumas vezes, mas não disse nada. O coração dela batia calmo perto dos meus braços enlaçados. O meu batia acelerado contra as costas dela.

Passamos pelo Submundo e olhei bem para o topo do prédio, relembrando de nós duas ali em cima. Passamos pelo Leoni’s e me peguei sorrindo, recapitulando nossas conversas doidas sobre aliens dentro da minha cabeça. E fomos nos aproximando do caminho de casa. E, por Deus, como eu queria que as ruas se esticassem mais nessa hora. Pra que demorasse só mais um pouco. Só mais alguns segundos. Por favor...

– E, voilà – disse Édra, soltando a corrente da bicicleta, desacelerando para dentro da rua da minha casa. – Chegamos.

Pensei em mil coisas que eu queria dizer pra ela quando eu descesse daquela bicicleta e pisasse no chão-chão. Que, quando ela parasse na frente da casa de Dona Símia, não seria mais chão-céu.

Obrigada, Édra, você é incrível. Foi maravilhoso colidir com você. Você deixa tudo dez vezes mais bonito. E eu queria que você terminasse o que eu sei que você começou a fazer naquele quarto de hospital. Ou que você fosse a sua boneca ridícula e careca e eu fosse a minha Cindy Lou. Porque eu como pizza pra ser bonita, mesmo que você prefira ser o leão do canal fechado. Porque é um querer inexplicável e porque...

– Íris? – Édra me arrastou pra Terra novamente. – Eu preciso trancar a bicicleta agora. – Ela riu baixinho. Eu ainda estava agarrando ela e já estávamos paradas no passeio de Dona Símia.

Certo, eu preciso falar.

– Obrigada, Édra – eu disse, assim que encostei no chão. E fui andando pra perto dela, que continuou na bicicleta, me olhando com uma cara gostosamente confusa. – Você é incrível.

Eu preciso falar.

Édra continuava me olhando, agora com um sorriso doce nos lábios. Embora os olhos continuassem penetrantes, intensos e famintos encarando os meus.

Engoli seco.

– Foi maravi...

E o celular dela começou a tocar.

– Pera, Íris, só um minutinho – pediu ela, tirando o aparelho do bolso da calça de moletom. – Calma, não precisa ligar 500 vezes – disse, mas não pra mim. – Eu tô indo pra casa e já te ligo de volta. Ok? – E deslizou o dedo sobre o celular, fazendo com que a luz azulada que iluminava seu rosto se apagasse.

Tentei engolir, sem muito sucesso, o bolo que foi se formando na minha garganta.

– Pode falar, alien. – Édra sorriu, ainda sentada na bicicleta.

Senti que iria chorar a qualquer momento. Só queria que um buraco negro me engolisse. E o bolo na minha garganta só ia se expandindo. Eu quase não conseguia respirar.

– Eu só ia dizer que foi maravilhosa a volta de bicicleta. – Forcei um sorriso, sentindo o meu olho se encher de lágrimas. Me apressei para fora do passeio de Dona Símia. – A gente se fala!

Édra disse alguma coisa e depois outra, mas não consegui processar direito. Eu já estava chorando. As lágrimas escorriam quentes pelas minhas bochechas. E eu simplesmente não podia me virar daquele jeito... O que eu iria dizer?

Desculpe, Édra, não sei o que está acontecendo. Talvez eu goste da sua boneca careca e do jeito horroroso que você tem pra comer pizza. Talvez eu entenda o porquê de Cadu Sena ter sido trocado. Eu trocaria ele também. E eu meio que já troquei.

Talvez eu prefira as coisas dez vezes mais bonitas. E que só ficam assim por sua causa, quando você tá perto. Mas, como sempre, a vida insiste em me lembrar, em pequenos detalhes idiotas, que eu não pertenço a certos lugares. E que certas coisas só vão acontecer nos meus sonhos.

Eu nem sei do que eu tô falando mais. Eu nem sei o que eu tô sentindo mais.

Mas me desculpe, Édra, por não conseguir desgrudar os meus olhos de você.

Me desculpe por ter colidido.

É, tirando que nem faz sentido e que eu jamais diria isso. Só se eu tivesse uma passagem pra fora do planeta, aí sim, eu teria coragem.

Tranquei a porta e subi as escadas correndo desesperada, como se os degraus estivessem se desfazendo embaixo dos meus pés. Prendi a respiração durante todo esse tempo e só soltei o ar depois de passar a chave duas vezes na minha porta, me trancafiando dentro do meu quarto.

Deus, como eu sou idiota.

O que eu acho que estou fazendo?

Enxuguei o rosto rápido e corri para a janela minúscula do banheiro. O binóculo ainda estava pendurado no gancho onde deveria estar a minha toalha. Saquei com rapidez e fui observar o meu planeta ser destruído por um asteroide...

Édra Norr, em silhueta, andando de um lado pro outro com o celular grudado na orelha. Ela estava sorrindo e brincando com Lanterna enquanto conversava. Orbitando do outro lado da linha? Camila Dourado.

Fui me despedaçando em um milhão de partes.

Não dava mais. Meu braço perdeu toda a força e o binóculo foi descendo com ele até as minhas coxas. Deixei o binóculo de lado e me arrastei até a cama, desviando de Margot no caminho.

Senti o meu corpo inteiro afundar no colchão e puxei o cobertor até a minha cabeça. Fiquei imóvel, como se estivesse dentro de um casulo. A textura do cobertor cruelmente me lembrava o moletom branco de Édra Norr.

Lá dentro estava escuro.

Como um buraco negro.