O Amor Não é Óbvio
17 | Entendendo o amor
ENTENDENDO O AMOR
Antes de mais nada, declaro que eu não estava em condições mentais estáveis quando me apossei do livro da – segundo ela mesma e seu público – “guru do amor” Ashley Minisoto, que estava no armário do banheiro de mamãe. Livro este que eu sei que mamãe utiliza como passatempo enquanto exerce suas atividades fisiológicas diárias. (Um minuto de silêncio para a minha dignidade.)
Então, não, eu não estava completamente sã quando fiz isso.
Mas também não me arrependo. Ashley Minisoto é mesmo uma gênia do amor. E eu passei toda a minha madrugada acompanhada de papel-toalha, o primeiro volume do livro dela, Entendendo o amor, e cookies integrais do papai (e também pretendo culpar minha instabilidade mental quando ele descobrir e vier me questionar sobre isso).
Quando finalmente decidi dormir – tipo, literalmente quando fechei o livro e coloquei embaixo do meu travesseiro –, meu alarme apitou.
E cá estou eu, escovando os dentes, já que a vida quis assim.
Sinto que vou desmaiar de sono a qualquer momento.
– Alguém já acordou parecendo novinha em folha. Bom dia, Siri – cumprimentou-me papai, sem abaixar o jornal, assim que meus tênis derraparam no piso limpo da cozinha.
Manchete: “São Patrique se prepara para acolher cerca de 200 mil turistas durante toda a temporada.”
– Bom dia, pai. Eu estou ótima. – Arrastei minha cadeira em direção ao meu prato de ovos mexidos, que já estava lá mofando e esperando por mim desde que eles me gritaram para descer logo. – Bom dia, Jade. Ainda tendo um ataque de amor materno? – eu disse para mamãe, que estava de costas para mim, cortando alguma coisa na pia.
Eu e o papai nos olhamos, divertidos.
– Agora que tudo já voltou ao normal, fique sabendo que eu vou deserdar você.
Ela resmungou de volta quando se virou para sentar conosco.
Nesse momento, senti que teríamos uma conversa séria sobre alguma coisa. Porque eles estavam se entreolhando daquela forma que, traduzindo, significa “Vai, você diz primeiro” e “Não, eu acho melhor você dizer”.
– Filha – papai pigarreou, deixando o jornal de lado. – Precisamos conversar sobre várias coisas.
O amor, às vezes, pode ser rigoroso. Isso porque quem nos ama tende a tomar decisões difíceis para o nosso bem maior. E, muitas vezes, nós não conseguimos enxergar o nosso “bem maior” com os próprios olhos. É aí que as pessoas que nos amam entram. Elas são o nosso maior guia quando paramos no meio da estrada e encontramos dois caminhos em lados opostos para onde seguir. Isso foi algo que Ashley Minisoto, a guru do amor, é claro, disse.
– Você anda meio desligada, sabe? Você precisa se conectar mais ao seu futuro. Nós não sabemos quais são seus planos pra faculdade. Você nem sequer fala da formatura.
Papai parecia estar estrelando sua própria cena de drama. Dirigida pelo olhar reprovador de Jade Pêssego, minha mãe.
– Vou alugar um vestido que não me deixe parecendo um sushi e quero fazer faculdade em Nova Sieva. – Nesse momento, eu soube instintivamente que eles iriam começar um discurso sobre 1, eu morar fora; 2, eu me sustentar morando fora. – Mas, antes que vocês falem alguma coisa, só vou se eu conseguir um estágio em algum lugar bacana. Não quero dar trabalho pra vocês de qualquer forma. Até porque... – Abaixei os meus olhos para o meu prato antes de dizer o que eu iria dizer: – Eu sei que boa parte dos clientes de mamãe são os meus colegas de colégio, que já perderam boa parte dos dentes de leite, então...
Mamãe odeia que mencionem a queda na clientela dela. Faço para irritar.
– Nem ouse finalizar essa fala – ameaçou, apontando o garfo pra mim. Mas ela já não levava o assunto tão a sério quanto antes. Estava amando passar mais tempo em casa.
De qualquer forma, irritar Jade, às vezes, faz bem para a minha saúde.
– Eu sei que Nova Sieva é um sonho distante, mas andei pensando depois de uma conversa que eu tive com uma... – pigarreei. – Amiga. E eu decidi que queria tentar, pelo menos.
E, de fato, eu precisava pensar no meu futuro, embora ele não fosse mais interessante que ver novela. Não nas minhas perspectivas. Só que quando eu começava a fantasiar sobre a faculdade, eu sentia esse beliscão e ouvia essa voz que dizia “Íris, as coisas serão extraordinariamente incríveis”. Talvez porque todos os meus filmes de romance favoritos são sobre universitárias. Ou talvez porque eu preciso (pelo menos) torcer pra que essa fase seja boa, já que estou fadada a passar por ela.
É uma decisão difícil e nem tenho total certeza ainda. Porque eu penso nos meus pais, nos meus amigos, nos meus lugares preferidos, no cheiro de café que a Livraria Leoni’s tem, nas rachaduras dos passeios por onde passo todos os dias e brinco mentalmente de “se você pisar, você morre”... São muitas coisas pra considerar e ao mesmo tempo tenho noção de que eu não posso ter amarras.
Sempre sonhei em ir pra um lugar completamente desconhecido. Começar do zero, como uma nova pessoa. Um lugar onde eu pudesse ser quem eu quisesse. Tentar de novo, com novas pessoas. Conhecer novos lugares, ter novos amigos, fazer novas coisas favoritas. Como acontece em alguns filmes e novelas. Eu sempre quis apagar a “Íris Pêssego invisível” da história. A Íris que só observa e nunca participa. A Íris que nota absolutamente tudo, mas nunca é notada. Sempre imaginei um futuro como esses pra mim, com tudo novo em folha.
Só que não tenho tanta certeza se eu conseguiria deixar tudo pra trás. Talvez eu me arrependesse completamente e voltasse correndo em dois meses. Mas eu gostaria de tentar.
E, talvez, essa fosse a melhor opção pra mim.
– Vamos te apoiar em qualquer coisa, mas você precisa decidir o que você realmente quer – disse papai, em um tom de voz preocupado. – O que você realmente quer?
– Bom dia, estranha.
Sim, Édra Norr estava bem na minha porta me esperando sair. Com aquela farda masculina do Colégio São Patrique que caía tão bem nela. E – o que não deveria ter me deixado tão surpresa – montada na bicicleta velha do avô dela. A que usamos na noite anterior e que rangia naquele barulho enferrujado.
– Você saiu ontem, tipo, correndo – disse, me observando destrancar a minha bicicleta, ainda dentro da garagem da minha casa. – E me largou sozinha com um monte de paradas não ditas.
Édra estava do outro lado, perto do meu passeio. Uma perna no chão, a outra dobrada em cima do pedal, pronta pra partir em disparada. E, pela distância, ela estava falando mais alto do que de costume, para que eu conseguisse ouvir. E eu só torci para que meu pai não aparecesse e mamãe não espiasse da janela.
“Paradas não ditas.” Eu fui largada com um monte de paradas não ditas.
Apertei o botão para que a porta da garagem baixasse, ainda sem respondê-la. Não porque não quisesse falar nada, mas porque não conseguia mesmo. Eu estava meio que tendo um curto-circuito interno.
Édra Norr. Me esperando na porta da minha casa. Me esperando mesmo. Tipo, eu. Na frente dessa casa, eu moro nela.
A porta levou dois anos e meio para descer completamente, e papai sempre me disse para esperar que ela travasse de vez antes de sair. Então, quando ela finalmente travou, eu me virei, arrastando a minha bicicleta até a rua.
Édra Norr. E eu. Indo para o colégio juntas. De bicicleta. E isso é sério.
– Achei que você estivesse com pressa pra ir pra casa – eu disse, despretensiosa, subindo na minha bicicleta.
– Por que eu estaria com pressa pra ir pra casa? – perguntou Édra, com aquele tom de voz como se eu tivesse falado algo muito idiota e ela estivesse achando um verdadeiro absurdo.
Disparamos em pedaladas para fora da minha rua, rumo ao Colégio São Patrique. O barulho da bicicleta do avô dela rangendo me fazia ter flashes da noite anterior. Inclusive, a parte constrangedora na qual eu peguei o livro Entendendo o amor, da Ashley Minisoto. Diretamente do banheiro de mamãe. Argh.
E, segundo Ashley Minisoto, quando estamos “no caminho para o amar” tudo é uma pressa sem fim. Queremos tudo para ontem. E não temos um pingo de paciência para lidar com os empecilhos. Só queremos que tudo se ajeite na velocidade de um macarrão instantâneo para ficar com quem gostamos.
– Eu sei lá, pressa pra atender o seu celular – sugeri, lembrando da inconveniente existência de Camila Dourado no planeta Terra.
– Eu podia atender depois, ué. – Édra acelerou a bicicleta, para que ficássemos lado a lado. E eu senti que ela estava me observando enquanto pedalava, mesmo que eu olhasse para a frente.
Eu senti porque existe algo de muito magnético no olhar de Édra Norr, e isso, a essa altura, já não é mais uma novidade. E eu estava evitando olhar para ela pelo simples fato de que eu disse para mim mesma que queria que nos beijássemos como nossas bonecas Sally. Talvez Édra ainda não soubesse disso, mas eu sabia. E eu não conseguia fugir de mim mesma. Então eu estava me autoconstrangendo por saber disso.
– Você nem me deixou agradecer pela pizza. – Ela continuava me olhando. – Essa frase não é muito comum, mas – disse Édra, entre risos – valeu por ter tirado a minha virgindade.
Fiquei tensa para pedalar. E, contra a minha vontade, acelerei mais, para que não ficássemos assim tão uma do lado da outra.
– Tudo bem – eu disse, mais à frente. – Eu faria isso por qualquer amiga.
Certo, fui grossa. Mas a minha cabeça não parava de rebobinar Édra Norr e Camila Dourado no telefone. E o sorrisinho que ela estava dando, mesmo que eu tenha visto só a silhueta, já que eu conheço o sorriso de Édra e eu vi suas bochechas incharem.
– Eu sou qualquer amiga?
A bicicleta dela já estava ao lado da minha de novo. E, para o meu azar, não se aceleram bicicletas no sinal fechado. Paramos. Respirei fundo, ainda tentando não olhar para ela, mesmo que a enxergasse na minha visão periférica de qualquer forma.
– Ser amiga já é uma grande coisa, eu não quis dizer de forma ruim. Todas as minhas amigas estão no mesmo nível – expliquei, me esforçando pra não gaguejar ou qualquer coisa do tipo.
Com exceção de Dona Símia, que, até o momento, é a minha amiga secreta para a minha melhor amiga oficial.
Decidi olhar para Édra Norr só por alguns segundos, para que eu não parecesse um robô com o pescoço esticado pra frente. E também pra dar mais seriedade ao meu papo de total aceitação da nossa amizade.
– Você já beijou as bonecas Sally das suas outras amigas? – perguntou Édra, assim que nossos olhos se encontraram.
Eu odeio Édra Norr.
O sinal abriu e eu simplesmente me recusei a responder isso. Apenas pedalei, como se não houvesse amanhã.
– Foi o que eu pensei – disse ela, me ultrapassando.
Édra foi em zigue-zague pela Avenida Principal. O sol a alcançava e a largava, dependendo da direção para onde ela se inclinava mais. Isso devido às frestas entre as lojas e os prédios comerciais, por onde a luz matinal passava, em todo o seu laranja, tentando queimar um pouco da nossa pele.
E fui obrigada a assistir àquilo como se não fosse adorável.
Em Entendendo o amor eu li algo sobre tudo ser inexplicavelmente bonito quando se trata de quem chacoalha as nossas borboletas no estômago. Seja um zigue-zague com bicicleta ou mordidas desesperadas numa pizza; a gente sempre vai achar tudo inegavelmente maravilhoso. Só que, bom, o livro não foi tão específico assim.
Me apressei para alcançá-la, antes que parecesse que eu a estava admirando. Que era exatamente o que eu estava fazendo (mas não precisava parecer).
– E então – tentei mudar de assunto. – Você já sabe o que vai fazer da vida depois do colégio?
– Eu não sei exatamente. – Ela freou mais uma vez. Outro sinal vermelho. – O meu pai vai decidir isso.
– Não achei que você fosse o tipo de garota que deixa os pais decidirem seu futuro – retruquei, porque eu realmente nunca que iria pensar isso de alguém como Édra Norr. – É que você parece tão... Sei lá, dona da sua vida.
– E eu sou. Quer dizer... – Ela ajeitou a mochila nas costas. – Eu era, mas... Eu meio que tive que fazer um acordo com o meu pai.
– Como assim?! – indaguei, olhando para ela. Só que dessa vez era Édra quem estava fixando os olhos à frente.
– Os planos de saúde e toda essa coisa que eu ganho com os trabalhos voluntários eu entrego pra minha avó, entende? A pensão do vovô não é quase nada, se você for parar para levar um monte de paradas em conta.
– E o seu pai? – Minha testa franziu. – Já ouvi o meu pai falar sobre ele. Seu pai é tipo “o cara” dos negócios, não é?
– Mas vovó não aceita nada dele, não que ele dê alguma coisa pra ela. – Édra arfou, voltando a pedalar. – Brigas do passado – completou, de costas pra mim. E eu tratei de pedalar também.
– Espera, eu não entendi – falei, meio sem fôlego, quando consegui alcançá-la. – O que isso tem a ver com o seu pai decidir o seu futuro depois do colégio?
– Ele pagou a cirurgia dela – respondeu Édra, ríspida, me olhando de lado rapidamente. – O plano simplesmente não cobria. Ela nem sabe que foi com o dinheiro dele ainda. E também nem sabe que eu deixei que ele decidisse a minha faculdade em troca disso.
– Uou... – Fiquei boquiaberta e até estremeci ao guiar o guidom. Eu não sabia que o pai de Édra Norr podia ser tão...
– E você? – perguntou ela, quando estávamos perto do portão do colégio. Eu já conseguia ver o emaranhado de pessoas, como formigas perdidas.
– Eu quero ir pra algum lugar onde eu possa começar tudo do zero, bem longe daqui. – Observei meus pés nos pedais enquanto falava. – Nova Sieva, talvez.
– Boa sorte. – Ela sorriu torto, passando na minha frente.
Entramos no estacionamento, rumo ao bicicletário. Minha bicicleta, como sempre, tremeu nas falhas do chão e ouvi aquele som gostoso de folhas sendo esmagadas quando passei por baixo da árvore, até desacelerar de vez. Nesse ponto, Édra, que chegou primeiro que eu, já tinha descido da bicicleta.
– Vamos desaparecer de novo, né? – perguntei, quando tranquei a minha bicicleta. – Digo... – tentei explicar, me levantando. Édra estava esperando por mim, segurando só uma alça da mochila, que estava pendurada apenas do lado direito do corpo dela. – Vamos sumir da vida uma da outra e só vamos nos reencontrar em uma próxima catástrofe?
– É, né? – Ela sorriu, acompanhando os meus passos. – Vou te passar o endereço de mais avós pra você fazer amizade até que elas beirem a morte. Aí eu surjo em cena revelando minha identidade.
– Isso não foi engraçado – resmunguei.
Édra Norr começou a rir e eu entrei em choque. Não por causa da risada, apesar de sempre ser chocante ver aqueles dentes perfeitos. Dessa vez o motivo era completamente diferente. Édra Norr, enquanto ria, passou o braço esquerdo por cima do meu ombro direito. E continuou andando.
Édra Norr. E eu. Rumo ao corredor. E o braço dela estava caído por cima do meu ombro. Estávamos abraçadas. Édra Norr e eu. Meu corpo. E o corpo de Édra Norr. E eu.
Ashley Minisoto disse, abre aspas, o amor nunca é ensaiado; gostar de alguém significa naturalidade, e você tende a achar demonstrações de afeto tão comuns quanto beber água, fecha aspas. Traduzindo: quando gostamos muito de alguém, temos a grande tendência a demonstrar espontaneamente. Não há cobranças, ou regras, ou ensaios. Não é como um beijo técnico em uma novela. Simplesmente acontece. E quando você menos espera... Boom! Uma demonstração de carinho vem à tona.
Foi notório o silêncio quando atingimos o corredor. Até o próprio Wilson Zerla parou de entregar os folhetos como tipicamente fazia. Na verdade, nada foi típico nesse momento. Apesar de que algumas pessoas continuaram conversando entre elas sem dar a mínima, mas a maioria simplesmente parou para observar. E, eu juro, nos meus olhos tudo ficou em câmera lenta.
Ashley Minisoto também disse que o amor, quando realmente vale a pena, inspira e chama a atenção de todos a sua volta. Vira uma espécie de monumento a ser adorado e uma espécie de exemplo a ser seguido. É bem comum que as pessoas se empolguem no meio disso tudo e fiquem um pouco obcecadas com o seu amor e seu relacionamento. É que, no fundo, quando um amor é bonito e grandioso dessa forma, todas as pessoas querem um pouco dele também.
Pude observar a bola de chiclete de Tatiele inflar até explodir na boca dela, que continuou aberta. Priscila Pólvora arregalou os olhos como se eles fossem pular para fora da cara dela e continuou parada, com o armário aberto, como se tivesse esquecido para que tinha destravado o cadeado. Alguns amigos de Cadu Sena se cutucaram como quem quer fazer uma fofoca. Até Júlia Pinho tinha parado no exato momento em que estava prestes a jogar a embalagem daquele pirulito Sunny Tasty de cereja no chão. Ela simplesmente enfiou o pirulito na boca e amassou a embalagem pra sempre, até que passássemos por ela.
E, no fim do corredor, Polly, me olhando como quem queria socar o meio exato do meu rosto.
Bom, aqui começa o meu velório. Foi bom ter desfrutado desse planeta enquanto pude. Obrigada a todos os envolvidos. Em especial a papai, que sempre foi o mais paciente comigo na história da minha existência.
– Íris? Licença? – Polly me puxou pelo braço de vez. O cheiro de Édra Norr ficou inteiro no meu ombro. Deus! – Preciso muito falar com você por um segundo.
– Eu guardo a sua cadeira. – Édra acenou para mim, caminhando sozinha corredor adentro.
– O que significa isso? É por isso que você está agindo tão estranha? – perguntou Polly, me colocando contra a parede. – Ai, meu, Deus... – Ela levou as mãos até as bochechas coradas. – Então você é o motivo.
– Motivo? Hã? – Minhas sobrancelhas arquearam. – Do que você tá falando?
E, como um golpe de caratê, Poliana Rios sacou o celular enorme (quase a televisão da minha casa) e mirou na minha cara. Literalmente na minha cara, por pouco não encostou no meu nariz.
– Vai dizer que você não tá sabendo disso? – Ela arfou, afastando um pouco o celular.
Eu perdi completamente o controle sobre os meus batimentos cardíacos.
– Não, eu não sabia sobre isso – falei, eufórica. Eu não conseguia sequer disfarçar que estava eufórica.
Então, quer dizer que...
Vamos enumerar os fatos: 1) Camila Dourado, apesar de não namorar Édra Norr, tinha a síndrome do “estamos num relacionamento, mesmo sem estarmos num relacionamento”, e ela deixou isso bem claro pra mim. E é óbvio que eu tinha visitado o perfil dela no Facebook. Camila Dourado adora atenção, então tudo no perfil dela é público. Quem quiser, terá acesso a todas as informações, fotos e frases no mural a qualquer hora. E, eu lembro bem que o status de relacionamento dela era “Indefinido”. Antes, com Cadu Sena, era “Em um relacionamento sério”. Ela só mudou para “Indefinido” como uma forma de mijar em Édra Norr, para marcar território. Como eu disse, check para a síndrome; 2) Agora ela colocou “Solteira”. O que significa solteira-solteira. Não solteira-achando-que-estou-em-um-relacionamento-sem-estar. E nem me lembro a última vez que o status de Camila Dourado foi esse. Deus, fazia tantos séculos desde Cadu Sena e o primeiro ano; 3) Ela e Édra tinham passado boa parte da noite no celular. Mas eu vi Édra Norr sorrir enquanto falava ao telefone. Só que depois eu simplesmente entrei no buraco negro da minha coberta, então, não sei exatamente se ela estava sorrindo depois daquilo. De repente, boom, elas terminaram? Bem do outro lado da rua? E eu me desidratei de tanto chorar por porcaria nenhuma?
– E o que isso significa, então? Porque a essa altura, Íris... – Polly olhou em volta, reparando que algumas pessoas passavam pelo corredor nos encarando. – É o que todo mundo está achando, depois dessa cena.
– Nós somos amigas, qual é o problema? Eu ando abraçada com você! – retruquei, porque não precisava de tanto drama. Mas estamos falando de Polly, não é mesmo?
– Desde quando você e Édra Norr são amigas? Fala sério. – Polly revirou os olhos imediatamente, como se eu tivesse dito algo repugnante. – Você não me conta mais nada. Eu tive que descobrir que você e Cadu Sena estão brigados pela boca dele mesmo, que veio me perguntar por você.
– Você saberia mais de mim se quisesse. Só que, ultimamente, você só tem se preocupado com você mesma. E com as suas vontades – cuspi as palavras, e eu não tinha terminado. A boca de Polly virou um “O”. – É, pois é. Você não me pergunta o que eu quero fazer, como eu estou me sentindo sobre as coisas. Você só me puxa pras coisas que você quer. Nossas vontades não são as mesmas só porque somos melhores amigas. Eu não sou uma extensão sua.
– Do que você tá falando?!
– De tudo! – Desencostei da parede, apertando as alças da minha mochila com bastante força. – Ashley Minisoto disse que o amor precisa ser algo compartilhado. E sempre cedemos, entendemos e cuidamos de quem amamos. Eu cedi, entendi e cuidei de você, Polly, porque eu te amo. E você é a minha melhor amiga. Mas não tenho visto você ceder, entender ou cuidar de mim. E, sinceramente, eu tô meio de saco cheio de ter que lidar com isso. Quero a minha amiga de verdade de volta. Quando você achar ela aí dentro, você sabe onde me encontrar.
Dei as costas abruptamente. Me senti aliviada por ter falado tudo o que tava acumulado dentro de mim, e estava meio apavorada por finalmente ter feito isso.
– Quem diabos é Ashley Minisoto?
Ainda de costas, ouvi Polly perguntar. Não hesitei, continuei andando rumo à sala de aula.
– A droga da guru do amor – respondi, emergindo entre as pessoas que seguiam o mesmo caminho que eu.
Passei todas as aulas me afogando em “e se” e em mil teorias conspiratórias sobre o braço de Édra Norr ter caído sobre o meu ombro durante nossa passagem pelo corredor. Somei isso com a cama do hospital, com as conversas comendo pizza, até cheguei a considerar o beijo das nossas bonecas Sally no passado. Eu precisava que tudo aquilo fizesse algum sentido. Precisava que Édra Norr também precisasse. Por isso, evitei olhar para a cara dela durante todas as aulas e me tranquei no banheiro com o meu livro, digo, o livro da mamãe, Entendendo o amor. Li várias páginas novas, reli as anteriores, fiz marcações e até rabisquei algumas frases na parede.
Empaquei na parte em que, de acordo com Ashley Minisoto, quando a gente duvida de algo sobre nós mesmos (por insegurança ou qualquer outro motivo idiota), precisamos repetir isso em voz alta até que a frase crie raiz na nossa cabeça e a gente se acostume com a ideia da dúvida se tornar certeza. O mesmo funciona com o amor. Quando a gente tem dúvidas sobre gostar de alguém ou sobre a nossa capacidade de gostar de alguém e ser correspondido, a gente precisa se dizer isso. Não só dentro do pensamento. Pelo contrário, é preciso dizer alto e bom som. E quando você se escutar dizendo, o seu corpo vai reagir de alguma forma que, imediatamente, você vai saber. Você vai sentir a raiz daquilo brotar em você. E eu tentei, durante todo o intervalo, dizer isso sentada na tampa daquele vaso sanitário, mas não saiu nada.
Eu me considero uma medrosa. Ou covarde. Ainda não decidi qual dessas duas palavras me cai melhor.
É importante expor o que você sente em voz alta, para libertar os seus sentimentos. Ashley Minisoto tem pensamentos muito valiosos para mamãe só querer absorvê-los como passatempo das necessidades fisiológicas. Essa mulher é uma gênia nata, e eu, uma covarde-medrosa por opção.
Repeti “eu gosto de” umas cento e vinte e nove vezes, mas a frase nunca se completava.
No fundo, acho que eu tenho medo de me ouvir dizer isso. Medo do que vai acontecer depois. Medo da reação das pessoas. Medo de, sei lá, só medo.
Eu só queria que o mundo me mandasse um sinal. Tipo um raio caindo na minha cabeça. Qualquer coisa que me direcionasse a seguir com essa loucura ou enterrar isso pra sempre, pra daí voltar a ser a mesma Íris Pêssego sem graça de todos os dias, até que o Ensino Médio acabe e eu possa recomeçar, sei lá, no Japão, com um novo corte de cabelo.
Acho que não funcionaria muito, não sou a maior fã da culinária japonesa. Não que seja ruim. Mas também não é ótima. Como pizza é, especialmente a do Orégano’s. Deus, vou sentir falta de São Patrique, se algum dia eu deixar esse lugar.
Caia, raio, na minha cabeça.
Fui pegar a minha bicicleta querendo evaporar da face da Terra, pegar uma espaçonave pra Júpiter, ou qualquer coisa do gênero. Ajoelhei no chão sujo de cimento, indo contra as reclamações de mamãe sobre estragar todas as calças da farda, porque hoje é o dia oficial da Íris Pêssego que não dá a mínima. Então, eu só ajoelhei, enxuguei a minha testa que estava meio suada com aquele sol tinindo na minha cabeça e me inclinei pra destrancar o cadeado.
É claro que percebi a sombra de alguém quando toda a luz solar parou de arder na minha pele.
Varri o meu campo de visão assim que o cadeado fez aquele barulho engraçado para me avisar que estava tudo ok e eu já podia remover a minha yellow do bicicletário. Reconheci os tênis de Édra Norr antes mesmo que ela abrisse a boca.
– Adivinha quem já pode receber visitas?
Levantei limpando os joelhos da minha calça e fui arrastando a yellow, tentando não fazer muito contato visual com Édra Norr. Mesmo considerando que ela estava bem do meu lado, falando comigo. Eu só estava confusa demais para ainda ter que me perder naquele abismo castanho-escuro que ela chamava de olho.
– Que ótimo! – Eu sorri, sentindo o meu coração esquentar pelo que ela tinha dito, apesar de ainda me sentir meio “turva” no meio de tanto pensamento (frase de Ashley Minisoto) e sol quente. – Vou lá assim que terminar de ajudar papai a recortar as bandeirolas pra enfeitar o mercado pro feriado.
– Ah... – Édra suspirou, destrancando a bicicleta do avô dela. – Então você vai estar ocupada hoje?
– Meio que. – Apertei meus olhos, tentando enxergá-la naquele sol todo. – Não sei. Mas acho que sim. Meu pai sempre surta com datas comemorativas. Você viu o aniversário do supermercado, não viu?
– É. Eu vi. – Ela subiu na bicicleta, ajeitando a mochila nas costas. – Tudo bem então.
– Tudo bem então o quê? Era alguma coisa?
Estávamos quase lado a lado, fervendo naquela temperatura. Os olhos apertados uma pra outra, sem muita expressão no rosto. Só com tudo franzido, especialmente o nariz, como todo mundo fica embaixo de um sol desses.
– Ah, é que eu meio que ia te chamar pra sair.
Meu coração escalou todo o meu corpo até a minha garganta. Porque eu estava sentindo-o pulsar, bem na minha jugular.
– Sair sair? – perguntei.
– Sair sair – respondeu ela. – Você quer fazer alguma coisa? Não precisa ser hoje, necessariamente.
Fiquei em silêncio, porque eu estava com medo de abrir a minha boca e sair confete de dentro dela. Eu queria explodir e lamber a foto de Ashley Minisoto na orelha do livro de mamãe.
– Íris? – perguntou Édra, colocando a mão direita sobre a testa, fazendo uma viseira para me olhar direito. Os olhos escuros, como de costume, me atravessaram, sérios, instigantes e profundos. – Você não vai falar nada?
Édra Norr estava lá, embaixo do sol quente, me chamando para sair. O cabelo, apesar de castanho tão escuro quanto os olhos, brilhava um pouco mais claro com a luz do sol que o cobria. O corpo, sempre mais torto para um lado que para o outro, igual ao sorriso dela. Os olhos embaixo da sombra da própria mão, mirando diretamente os meus. Sentada na bicicleta, mochila nas costas, perna dobrada no pedal, a outra perna esticada no chão, apoiando todo o resto. Os pelos ralos no braço brilhavam dourados com o sol. A boca (eu odeio essa palavra) carnuda contrastante... O lábio superior pegava um pouco da sombra que a mão fazia sobre a testa, o inferior queimava avermelhado no dia quente.
Eu, ela e raios ultravioleta.
Eu tinha tanta coisa pra falar, desde o princípio. Mas antes de admitir, em ordem talvez não tão cronológica, tudo o que pensava sobre Édra Norr, eu precisava fazer algo. Precisava seguir o conselho primordial de Ashley Minisoto. Talvez fosse tarde demais ou cedo demais. Eu sou uma desajustada e isso pouco importa agora. Precisava dizer em voz alta, para que a dúvida virasse certeza e eu me acostumasse com a ideia. Precisava completar o “eu gosto de” que me custou todo o intervalo trancafiada no banheiro com o primeiro volume de Entendendo o amor.
Eu estava eufórica, torrando no sol, e Édra Norr esperava que eu abrisse a minha boca. Então, antes que o sol nos evaporasse de uma vez, eu abri.
– Eu gosto de Édra Norr.
Eu disse de uma só vez. Sem pânico, sem peso, sem arrependimentos. Foi como se tivesse vomitado cada sílaba. Parecia que algo que estava preso dentro de mim por muito tempo tinha finalmente saído. E isso estava pesando, então foi como se, boom, o peso não estivesse mais lá. Assim que eu disse, me senti leve. Tive que forçar meus pés no chão, porque, por Deus, quase flutuei.
Toda a adrenalina dessa sensação me fez rir ligeiramente. E fiquei em pé esperando que ela dissesse alguma coisa. Qualquer coisa.
Mas ela não disse nada, só sorriu de volta, balançando positivamente a cabeça.
– Dona Símia, a senhora precisa me dizer alguma coisa antes que eu surte e vomite no meu próprio tênis.
Depois do silêncio de alguns segundos, ela finalmente se manifestou.
– Espero que você esteja tomando conta do binóculo direito – disse ela, ainda com um sorriso dócil preso entre os lábios. É claro que eu me senti numa cena de crime, sendo pega no flagra por uma equipe de policiais.
– Quê?! – foi tudo o que consegui empurrar pra fora da minha boca, no meio de trezentos milhões de dúvidas, emoções etc.
– Eu sou velha... – Ela apertou os olhos miúdos em minha direção. – Mas não sou burra.
– Deus – Respirei fundo, incrédula e furiosa. – E você me deixou fingir esse tempo todo?
Era realmente inacreditável como Dona Símia permitiu que eu fosse uma mentirosa, hipócrita e de meias o tempo inteiro, bem embaixo de seu nariz. Acho que devo analisar melhor as pessoas antes de chamá-las de “segunda melhor amiga”. Se ela sabe do binóculo, ela sabe de tudo. Mas... como?!
– Como você sabe se nem eu sabia? – Deixei minha mochila cair contra o piso branco daquele quarto de hospital.
Minhas sobrancelhas já estavam franzidas e grudadas bem no meio da minha testa, antes mesmo que Dona Símia pudesse se explicar. Nada mais fazia sentido. Eu estava completamente exposta. Eu queria engolir todos os meus sentimentos e sair correndo, mas, antes de fazer isso, eu queria entender: Como?! Como ela sabia sobre isso antes de mim, se é algo que está dentro de mim e da minha cabeça?
Ashley Minisoto começou a parecer uma farsa pra mim. Já que em momento algum, em nenhum capítulo ou página, havia algo sobre “Suas vizinhas idosas podem saber por quem você é apaixonado antes mesmo de você”. Ashley Minisoto me largou desavisada sobre isso.
E continuei ali em pé, com minha mochila caída bem ao meu lado, minha boca formando um “O” perfeito, esperando que Dona Símia explicasse (e sem tosses) como.
Ela só se jogou ainda mais pra trás no travesseiro, com aquele rosto amigável e sábio de sempre.
– Às vezes, é mais fácil alguém ao seu redor perceber algo sobre você do que você mesmo. Algumas coisas estão tão embaixo do nosso nariz que a gente não vê direito. E elas, eu quero dizer, essas coisas, estão ali o tempo todo, esperando para que a gente as enxergue. Quase gritando, torcendo pra que tropecemos nelas. O amor é assim, Íris. – Dona Símia sorriu para mim. – Devastador, enlouquecedor, enriquecedor, arrebatador, ardente, intrigante, divertido, compreensivo, imprevisível e, às vezes, quem sabe, até mágico e surreal como cenas de novela... O amor pode ser traduzido em várias palavras que a gente pula no dicionário, mas que têm significados intensos e incríveis. A gente é nada e o amor é tudo. Tudo. Menos óbvio. Por isso a gente leva um tempo até enxergá-lo, mesmo que ele esteja assim, dançando bem na nossa frente.
– Certo – eu disse, sentindo aquilo escalar do meu estômago até a minha garganta. – Licença aqui, rapidinho, eu já volto.
Saí do quarto esbarrando em várias pessoas que andavam de um lado pro outro pelo Hospital Hector Vigari. Alguns médicos, enfermeiros e familiares de pacientes. E tive a sensação de que todos eles sabiam. De que todos eles sempre souberam. Como se tivesse um outdoor escrito “Eu gosto de Édra Norr” piscando bem na minha testa. E pensar sobre isso não melhorou em nada aquela sensação de...
Ops.
– Você tá bem? – Senti uma mão sobre o meu ombro, enquanto eu me apoiava nos meus joelhos, ainda de pé, só que inclinada de frente pro meu próprio vômito.
Bem no meio do Hector Vigari e só a alguns passos do banheiro... Porque eu tinha que passar vergonha, não é mesmo? Caso contrário, não seria Íris Pêssego.
– Não, tudo bem, eu acho – eu disse, sem fôlego, esfregando meu braço na frente da boca. – Eu só tô apaixonada.
– Ah – respondeu, confusa, a enfermeira na minha frente, enquanto abraçava uma prancheta azul-marinho contra o corpo. – Não temos remédios nem protocolos para isso – brincou ela, com um sorriso abobalhado me encarando.
E eu, é claro, vomitei de novo.