O Amor Não é Óbvio
7 | Hormônios em ebulição
HORMÔNIOS EM EBULIÇÃO
Eu estava encantada. Era incrível a paciência de Édra com as crianças. Ela conseguia prestar atenção em todo mundo na mesma proporção, sem o favoritismo que alguns dos nossos professores possuem em relação a certos alunos. Não pude ajudar em muita coisa, o que foi meio chato, porque eu realmente queria me atracar naquelas crianças e não sair dali nunca mais. Pelo menos distribuí os papéis com cifras impressas e também ajudei duas garotinhas a apontar o lápis, o que pra mim já significa muita coisa.
Édra, apesar da aula de música, não cantou nada. Só tocou a demonstração de como a música deveria soar usando seu uquelele amarelo (que eu já tinha visto no quarto dela). Pensei em questionar isso, mas o garoto dos cachinhos gritou que ela estava com vergonha de mim e por isso se negava a cantar justo naquela aula.
Ou seja, ela canta. Só não na minha frente (o que eu – particularmente – achei um absurdo).
Mas tudo bem, até porque, pelo menos, conheço um pedaço do universo secreto de Édra Norr agora. E serei paciente até que ela se sinta segura em me mostrar o resto. Fala sério, eu esperei – junto a Rosa – até que o Edgar tivesse coragem de mostrar os quadros que ele pintava longe do holofote de empresário. E isso me custou quase vinte episódios. Tenho um grande histórico de paciência aqui. Édra é como o Edgar, ela precisa de confiança para que mostre seu lado artístico. Pessoas talentosas geralmente são tímidas. Com exceção de mim, que sou só tímida mesmo. Nessa coisa do talento, alguém com certeza errou feio lá em cima e me pulou (apesar de que a minha torta de cenoura é inegavelmente saborosa e cozinhar também é uma arte. Mas é a única coisa que eu sei fazer. É tipo ser muito boa cantando apenas uma música ou fazendo apenas um desenho.)
Cara, a que ponto cheguei... Meu (pelo visto) único talento envolve uma torta de cenoura. E seguir pessoas sem que elas saibam.
Se bem que, vendo por outro ângulo, até que eu posso ser a próxima Maritza da televisão. Tenho uma mente bem fértil pra montar cenas. Minha cabeça é uma televisão secreta. As cenas que imagino são quase em HD, tipo, sério. Acho que eu consigo escrever uma novela ou coisa assim. Com certeza teria muito drama, romance e beijos com zoom.
Sim, falei que acho que consigo montar uma novela e que minha torta de cenoura é excelente. Mas em nenhum momento eu disse que era justo que esses fossem os meus talentos, ainda mais perto de uma pessoa que consegue ser charmosa até destrancando uma bicicleta.
Édra Norr é atraente fazendo absolutamente qualquer coisa.
Isso pode ser considerado um talento? Ou é só coincidência e alguém no céu, na hora da criação de Édra Norr, usou (e abusou) de favoritismo? Eu com certeza fui largada pelos anjos projetores de pessoas. Porque, cara, fala sério... Ela só tava destrancando uma bicicleta. Não é justo eu precisar levar horas arrumando meu cabelo pra conseguir 40% do charme que ela tem só por fazer isso.
– E aí? – Ela olhou pra mim, ainda agachada, retirando a corrente que enrolava o pneu. – Cê curtiu?
– Tá doida?! – indaguei, achando absurda a pergunta. – Eu achei incrível.
Édra abriu um sorriso enquanto se levantava, arrastando a bicicleta junto.
Eu também quase fui.
– O trabalho é voluntário, mas rola uns benefícios do governo pra quem ajuda – Édra disse, subindo na bicicleta. A voz meio distante, parecendo preocupada com alguma coisa. – Tem muita gente precisando desses benefícios. Mas tem dois problemas.
Meus olhos arregalaram, subi na minha yellow e começamos a pedalar devagarinho, uma do lado da outra, embaixo do céu nublado.
– O primeiro problema é que, tipo, eu não tenho nenhum curso nisso e não concluí o Ensino Médio ainda. – Ela pedalava em mini zigue-zagues. – E o segundo é que os benefícios do governo deveriam ser meus, mas eu repasso pra outra pessoa.
– Mas isso é o máximo! – Me empolguei, porque era mesmo admirável ela fazer isso.
– É... o máximo – Édra imitou a minha voz de empolgação. – Mas eu posso ser presa por isso.
– E você acha que a Camila te deduraria? – perguntei, sem entender. Porque, fala sério, qual seria o motivo pra que Camila não soubesse disso? Ela só ficaria mais apaixonada ainda. Obviamente.
– É que meu pai já me ofereceu vários cargos importantes no meio que ele trabalha, e a Camila fica muito chateada comigo por não topar nada. – Édra olhou para os próprios pés nos pedais. – Ela se preocupa muito com meu futuro depois da formatura, mas eu curto muito essas paradas.
– Que paradas?! – indaguei, sentindo uma gota de chuva cair na minha testa. O dia estava mesmo muito nublado. Podia chover a qualquer momento.
– Artísticas, sabe? – Édra me olhou de canto de olho. – Não enriquece ninguém, mas eu gosto muito. É o que penso em fazer, tipo, no futuro. E não sei como a Camila reagiria a isso, ela tem muita ambição de crescer na vida e essas paradas.
Paradas... Tão bonitinho esse “paradas”.
– Crescer na vida é uma coisa que pode ser entendida de mil jeitos – eu disse, tentando imitar os mini zigue-zagues que Édra fazia com a bicicleta. – Não precisa necessariamente ter relação com dinheiro.
E é claro que esse foi um dos ensinamentos excelentes de Amor em atos.
– Você tá fazendo errado. – Édra me encarou, analítica.
Fiquei sem entender nada, minhas sobrancelhas se juntaram na minha testa.
– Pedale com menos força. – Os olhos de Édra pousaram sobre os meus pés. E, voltando a atenção pro meu rosto, ela continuou: – Relaxe mais seu corpo.
Respirei fundo, seguindo os conselhos. Meus zigue-zagues foram ficando mais leves e perfeitos.
– Quer tentar uma coisa? – me perguntou ela, empolgada. – Pega velocidade e faz isso entre os carros.
Como se eu já não tivesse feito isso enquanto te seguia, né, garota.
– Tá – respondi, me achando a expert porque já tinha feito isso antes.
Começou a chuviscar bem em cima da gente.
– Mas, calma! – gritou ela, no momento em que me afastei. – Respira fundo enquanto você passa pelos carros e só expira quando já tiver passado por todos eles.
– Entendi! – gritei de volta, respirando fundo, no meio do sinal aberto.
Desviei de alguns carros, em zigue-zague, e estava doida pra expirar logo, o que foi dando uma adrenalina faiscante pelo meu corpo. Quando finalmente tinha desviado de todos e expirei, foi como se o peso do mundo inteiro tivesse saído das minhas costas. Deus, que sensação de alívio! Isso é incrível!
Édra já estava atrás de mim, com um sorriso muito largo e contagiante na boca.
– Essa é a melhor sensação de todas! – gritei, empolgada.
– Muito maneiro, né? – Édra observou minha reação, entre risos.
Pude perceber que a chuva já tinha molhado uma parte do cabelo dela, o que me remeteu à cena da boate, quando aquelas ondas castanhas estavam molhadas de suor. Senti uma coisa remexer na minha barriga. Meus óculos tinham uns pingos de chuva, que iam se desmanchando pela proteção contra resíduos da lente.
– É. – Sorri, sem graça. – Muito maneiro. – Dessa vez, fui eu que imitei a voz de empolgação dela.
E, do nada, bem depois disso (completamente tomada pela chuva, porque o mundo real não é uma novela), eu espirrei.
– Eita... – Édra me olhou, preocupada. – Calma aí.
Sinal fechado, paramos as bicicletas. Édra estava prestes a virar na rua dela e eu estava prestes a seguir para a minha casa.
As mãos de Édra passaram por trás da cabeça e agarraram a gola da blusa de manga longa preta que ela vestia. Num puxão abrupto, ela arrancou a blusa do corpo. E, em resposta aos meus olhos arregalados, a farda do Colégio São Patrique apareceu por baixo. Estava ali o tempo todo.
Não levou segundos pra que a chuva molhasse os braços de Édra Norr inteiros. Não só os braços... O corpo dela escorria e eu estava prestando mais atenção nisso do que no fato dela estar estendendo a blusa pra mim.
– Melhor você cobrir a cabeça, ou alguma coisa assim – sugeriu, com o braço esticado na minha direção. – Amanhã cê me devolve.
Gotas, milhares de gotas escorrendo.
– Se secar, né. – Ela riu, enquanto eu agarrava a blusa. – Qualquer coisa eu pego outro dia com você.
E o sinal abriu.
Ah, a quadra de esportes do Colégio São Patrique... O que falar desse lugar onde nove em cada dez bancos têm uma coleção de chicletes grudados embaixo? Sim, eu sei disso porque é claro que fui escalada para a equipe de limpeza na gincana do ano passado. Em todas as gincanas, ninguém nunca me escalou para nenhuma outra coisa. Tipo, nunca. (Eu lembro da líder da nossa equipe dizer que eu tinha cara de garota que aparece em propaganda de sabão em pó.)
Além dos chicletes, quem entende o fato de o piso e alguns bancos da quadra serem vermelhos, se o nosso colégio é todo azul, cinza e branco? Procurar explicações para as loucuras desse colégio é pedir pra falhar miseravelmente. Nada aqui faz sentido.
E eu não tô falando só dos bancos, do piso ou das traves terem adesivos de caderno grudados. Quer dizer, olhe só o nosso corpo docente... O professor Marcelo sofreu um acidente e está nos obrigando a praticar exercícios físicos na quadra sem demonstração. Porque, claro, a perna dele continua engessada. Se você acha que isso tem algum nexo, com certeza é porque você não estuda aqui.
E nem está vendo Priscila Pólvora desenhar carinhas sorridentes com piloto nos halteres que o professor Marcelo trouxe.
– Professor Marcelo... – Me aproximei dele, só porque eu realmente preciso de nota nessa matéria. É, pois é, isso acontece quando você não participa de nenhum jogo, nem nada que seu professor de educação física propõe. – É pra fazer o que exatamente?
– Qualquer coisa, Glória – foi o que ele me respondeu, sem sequer tirar os olhos do celular, enquanto digitava alguma coisa. – Tem uns colchonetes espalhados aí, uns pesos... A aula é pra cada um usar a criatividade e fazer algum exercício físico. E vale nota.
Certo, mas eu sou a Íris. Revirei meu olhos.
Fui andando e me esquivando das coisas espalhadas pelo chão até avistar uma corda. Finalmente um pouco de sorte. Eu adorava pular corda, apesar de sempre me atrapalhar na contagem e nunca ter decorado todas as músicas.
Um homem bateu em minha porta e eu abri. Senhoras e senhores, eu não sei o resto...
Ao contrário de como era na sala de aula, minha turma parecia ter umas trezentas pessoas quando ficávamos em pé, espremidos em algum lugar. O que dificultou que eu encontrasse Édra Norr para explicar que a blusa dela tinha molhado demais e que eu decidi deixar tomar um pouco de vento antes de entregar de volta.
Eu podia ter dito antes, se não tivesse chegado atrasada. É que decidi vir de ônibus e ele demorou a passar. Queria poder aceitar as caronas que Cadu Sena me oferecia e a yellow estava meio que me atrapalhando nisso. Abandonar a bicicleta nessa manhã me fez perder o primeiro horário e já cheguei assistindo a minha turma inteira caminhar para a quadra (fazendo barulho em volume máximo, como sempre).
Inclusive, preciso muito saber o que aconteceu no primeiro horário. Não sei se eu sobreviveria ao estresse de uma recuperação no último ano do Ensino Médio.
E, pelo visto, todos os professores desse colégio decidiram passar milhões de trabalhos de uma vez. Saudade da época em que tudo o que eu precisava pra ganhar nota era fazer crescer um pé de feijão num pote vazio de iogurte com um pouco de algodão.
Entre algumas garotas fazendo polichinelo e alguns garotos que apostavam quem fazia flexões por mais tempo, estava Édra Norr, no canto, com fones de ouvido. Fazendo nada mais e nada menos que abdominais. A boca, ainda que não saísse voz alguma, contava os números conforme ela encostava as costas no piso vermelho e subia até o próprio joelho novamente.
Trinta, trinta e um, trinta e dois...
Os cabelos na nuca começavam a grudar no pescoço, molhados.
Trinta e sete, trinta e oito...
– Íris?!
Trinta e nove, quarenta, quarenta e um...
– Íris?! – Rebecca Gusmão apareceu na minha frente, arfando. – Você ainda vai usar a corda ou não?
E aí percebi que, durante esse tempo inteiro, eu tinha simplesmente parado de pular.
– Ei, Íris! – Édra Norr surgiu enquanto eu amarrava o meu tênis, sentada naquele banco que sempre range, no vestiário feminino da quadra.
A maioria das pessoas já tinha tomado banho ou simplesmente lavado o rosto e retocado o desodorante. Eu não tinha farda extra no meu armário, então não pude tomar meu banho, como de costume. E, pra minha sorte, Rebecca Gusmão arrancou a corda da minha mão, então nem tive tempo de ficar suada, pra falar a verdade.
Mas Édra Norr pingava de suor. Tipo, literalmente mesmo. Ela se aproximou de mim de top, com a calça de moletom da farda e uma toalha de banho estendida no ombro. E, sério, talvez essa coisa de binóculo esteja acostumando meus olhos... Eu vi uma gota perfeitamente brilhante escorrer pela barriga dela, que, preciso dizer, é muito bonita. Não que ela seja magricela como Camila Dourado, mas os ossos do quadril dela são bem saltados, e, cara, acho tão curioso o corpo humano. Cientificamente falando.
Talvez eu esteja exagerando, já tirei fotos no espelho desse banheiro. É que a luz daqui é meio laranja e todo mundo fica de um jeito mais bonito coberto por essa luz. A iluminação alaranjada, refletida nas gotas de suor de Édra, dava a impressão de que ela estava suando suco de tangerina.
Que engraçado...
Que charmoso.
– Ei – respondi, olhando para a barriga dela.
– Te coloquei como minha dupla em um trabalho de literatura que a professora passou no primeiro horário e você não tava. – Édra se virou em direção aos armários, atrás do banco onde eu amarrava o meu tênis (eu estava levando mais tempo que o necessário porque não queria sair dali naquele momento).
Pude ver, assim, de canto de olho, o armário dela, várias embalagens de plástico em vários tamanhos diferentes. Um desodorante, um sabonete líquido e um spray de alguma coisa (como tinha um cara correndo na embalagem, acho que era pra dor muscular).
– Mas se você não quiser, tudo bem – falou Édra, porque eu nem tive resposta pra aquilo. Ela me colocou numa dupla. Finalmente uma dupla que não era Igor Grécia. – Seria suave, até porque a “mentira” viraria “verdade”, se ligou? Sobre o trabalho de literatura e as aulas – continuou explicando, de costas pra mim. E, então, entrou em um boxe.
Ouvi a tranca da porta girar e, logo em seguida, o chuveiro ligar.
– Ah, não, tá tudo certo – respondi, encarando a única coisa que eu conseguia ver do boxe onde ela estava: o chuveiro ligado. Não precisava mais fingir que amarrava o cadarço, até porque ela não podia me ver. – Você anotou as instruções do trabalho? – perguntei.
– Quê?! – Édra gritou pra mim, de dentro do boxe.
– Você anotou as instruções do trabalho? – repeti a pergunta, um pouco mais alto, por causa do barulho do chuveiro misturado ao som de água caindo no piso.
– Ah... – respondeu ela, ainda gritando. – Tirei foto do quadro. Espera eu acabar aqui que eu pego seu número e te mando.
Fiquei escutando o chuveiro enquanto esperava Édra Norr desligá-lo. É errado imaginar o que acontecia atrás daquele boxe?
Deus, a que ponto eu cheguei? O que eu acho que estou fazendo?!
Depois de alguns minutos me perguntando se Deus estava me vendo, o barulho de água cessou. Édra apareceu de top, com a toalha enrolada na cintura. Sim, eu olhei, e aquilo não era a borda de uma calcinha. Eu sei disso, é claro que eu sei disso. Já vi mamãe comprar aqueles kits de cuecas pro papai. E elas tinham as mesmas bordas, digo, o nome “Skaleno” se repetia circulando a tiragem de lycra.
Coisas para pontuar no caderno: o objeto do experimento científico realmente usa cuecas.
Édra passou desodorante e borrifou em si mesma um perfume que saía de um vidro redondo, pequeno e preto. O cheiro que se espalhava pelo ar foi me dando um troço nas pernas, um desequilíbrio, apesar de estar sentada.
Eu tenho uma coisa muito forte com cheiros e cores. Sério. E aquele cheiro de Édra Norr, em particular, me dava uma coisa.
Uma coisa muito esquisita.
Observei enquanto ela, ainda de toalha, deslizava o zíper da mochila preta e capturava de dentro da divisória uma folha de caderno e uma caneta. Não demorou para que apoiasse o papel na porta do próprio armário e escrevesse os números do próprio telefone.
Esticou o braço na minha direção (o cheiro veio junto), com o papel dobrado na mão.
– Me dá um oi por lá. – Édra sorriu pra mim, de lábios selados, amigável.
Não que eu estivesse prestando atenção necessariamente ao sorriso dela. Eu tava meio atordoada, na verdade. Devia ser a mistura das lâmpadas laranja com esse perfume.
Saí dali em passos apressados, antes que eu tivesse que ver mais alguma coisa.
Deus, como eu sou estranha.
Tinha acabado de pegar a minha bandeja quando Polly apareceu do meu lado com uma cara de decepção no rosto. Um rosto que estava “desaparecido” esses dias.
– Ai, tenho tanta coisa pra te contar – disse ela, quando sentamos.
Revirei meus olhos com tanta força que fiquei com medo deles não voltarem mais pro lugar.
– Cara, você desapareceu. É claro que tem muita coisa pra me contar. Não seria assim se você tivesse dado um sinal de vida. – Mordi meu sanduíche natural, procurando por Cadu Sena entre os garotos no pátio.
– Desculpa se eu estava ocupada demais tentando deixar de ser virgem – rebateu Polly, irônica. – Você não sabe o quanto isso é difícil.
– Não me importo com sexo – falei, ainda de boca cheia. Minha cabeça, em sabotagem, rebobinou a cena de Édra Norr fazendo abdominal.
Trinta, Trinta e um, Trinta e dois...
Engasguei com o sanduíche.
– Deveria, porque já soube que você e Cadu Sena estão saindo. Tipo, cara, é o seu sonho acontecendo! – Polly abriu a lata do refrigerante. – A gente tá finalmente conquistando coisas, imagina só nós duas e todos os nossos desejos realizados antes da formatura?! O Ensino Médio, pelo menos, vai ter valido de alguma coisa.
– Eu e Cadu só saímos uma vez e passamos uns intervalos conversando. – Respirei fundo. – Não é como se ele tivesse apaixonado por mim, ou alguma coisa do tipo.
(Apesar de eu querer muito que isso aconteça.)
– Mas é um começo, né, Íris?! Acorda, cara, ontem mesmo eu estava na casa do Luiz e quase rolou. Tipo, foi um começo. Apesar de sempre alguma coisa dar errado quando estamos tentando. – Polly parecia inconformada, mas olhava com um olhar apaixonado para Luiz, do outro lado do pátio entre os garotos do time.
– Você deveria aproveitar sua chance com Cadu. Isso acontece, sei lá, uma vez em um milhão de anos?!
– Não vim de bicicleta hoje pra aceitar a carona dele – eu disse, engolindo o suco logo depois. – Mas não quero me iludir e terminar igual...
Pensei em citar Amor em atos e os ensinamentos de Dona Símia. Mas Deus parou a minha língua.
– Igual a... Tanto faz! Você vai ser a única aluna virgem quando entrar na faculdade. – Polly me reprovou com os olhos. – Não é algo fútil, é necessário. São coisas da vida adulta. É importante participar. Não vejo a hora de entrar pro clube das pessoas que transam. E gostaria que, como minha melhor amiga, você se importasse mais com você mesma e me acompanhasse nisso. E nem é só disso que eu tô falando, porque, independente de sexo, você pode até conquistar o Cadu Sena de verdade. Olhe só pra eles...
O olhar de Polly voou longe. Eu o segui, vendo que, agora, Cadu Sena também fazia parte dos garotos do time, que conversavam em um círculo. Ele estava meio acanhado e usava o moletom listrado (que era o meu preferido). Eu amava ver Cadu vestido com ele. Ficava tão fofinho...
– Todos esses caras fazem parte do clube das pessoas que transam – a voz de Polly parecia analítica. – Não só eles, como o resto do colégio. Com exceção de nós duas e Wilson. E ele até que é bonitinho, mas duvido muito que depois daquela fantasia de preservativo ele consiga alguma coisa.
– Tadinho – me peguei pensando em voz alta.
– Tenho a sensação de que esses caras só namoram garotas que fazem parte do clube. – Polly suspirou, cabisbaixa. – Não é justo, mas essa é a verdade. As garotas do clube das pessoas que transam sempre serão mais interessantes pra eles. – Os olhos claros sugavam a imagem de Luiz.
– Se alguém gosta de você de verdade – comecei a dizer –, essa pessoa vai esperar o seu tempo certo pra isso.
– Ai, Íris... – Polly revirou os olhos pra mim. – Você é tão ingênua. Aposto que você nunca nem pensou em sexo. Nem imaginou, nem nada. – E, abrindo um sorriso malicioso, me aconselhou: – Experimente só imaginar. Você vai ver que não é esse monstro.
O fato é que Cadu Sena era mesmo uma coisa de outro mundo dirigindo. Deus, que charme! Eu sei que não deveria existir nada de charmoso nisso, mas, cara... Sério. Ele trocando as marchas e prestando atenção na rua, com aquele braço bronzeado, conversando comigo de canto de olho...
Não tenho palavras pra me expressar. Minha perna teve um troço e senti uma coisa por dentro.
Mas é claro que eu não estou falando da mesma coisa que aconteceu em relação a Édra. Um experimento científico é um experimento científico. E Cadu Sena é Cadu Sena.
E justamente por entender a diferença entre os dois, eu estava cheirando a blusa preta de Édra Norr minutos depois de arrancá-la do varal e me afundar na cama. Precisamos fazer coisas extremamente duvidosas quando decidimos cair de cabeça em certos projetos. Já li sobre absurdos que cientistas famosos fizeram antes de suas descobertas. A ciência é realmente cheia de bizarrices que no final fazem sentido.
Eu já tinha memorizado todos os aromas que encontrei.
Eu sei que, no final, cheirar essa blusa vai ter alguma lógica ou relevância nesse projeto. Então, Margot, não adianta me olhar com essa cara.
Tinha acabado de jantar com meus pais e de conversar sobre os planos do feriado de São Patrique. Eles estavam pensando em viajar pra visitar os parentes, mas é óbvio que eu não decepcionaria Cadu depois dele ter me dado a importante posição de vendedora no mutirão pra arrecadar grana pra formatura. Então deixei Jade e Ermes Pêssego logo avisados sobre a minha não participação em seus planos.
Saí de fininho quando eles começaram a discutir como fariam pra viajar sem que eu fosse. Com quem eu ficaria, como eu sobreviveria... Pouco dramáticos.
Ainda bem que tirei a blusa de Édra do varal antes que mamãe percebesse a existência dela e automaticamente deduzisse alguma coisa absurda, tipo, que eu roubei a blusa de alguém, ou algo pior.
Subi as escadas correndo, desacelerando só pra me jogar na cama. Mas, por acidente, cheirei de novo a gola e desde então não consegui mais parar.
Comecei a pensar sobre o meu dia inteiro, dedicando uma parte dos meus pensamentos ao assunto principal que tive com Polly no refeitório. E fui pegando no sono assim...
– Íris Pêssego! – A voz de Cadu Sena foi surgindo com a imagem dele dirigindo numa rua misteriosa. – Você sabia que sou apaixonado por você desde a oitava série?
– Fala sério! Eu sou apaixonada por você faz séculos – respondi, incrédula.
– E o seu corpo... – A mão de Cadu segurou o meu joelho com força. – É o corpo mais bonito que já vi na minha vida inteira.
Eu sorri sem graça, observando enquanto a mão áspera (e, devo dizer, pesada) de Cadu alisava a minha coxa. Eu sentia a minha perna estremecer por dentro da calça jeans, que era a única coisa que separava Cadu Sena da minha pele.
Ele continuava dirigindo. E eu fui sentindo aquela coisa de novo.
A mão de Cadu Sena correu, coxa acima, em direção ao botão do meu jeans. Ele prestava atenção na rua, apesar de saber exatamente onde o zíper da minha calça estava.
Conforme o zíper deslizava, meu coração acelerava dentro do meu peito.
– Espera. – Cadu me olhou, malicioso. – Vamos pra um lugar mais reservado.
E tudo ficou esfumaçado, virou nuvem e névoa rosada. Entre elas, o meu quarto foi surgindo, móvel por móvel, objeto por objeto...
Cadu Sena me puxou contra o corpo dele pela cintura. Ele se inclinou para mim, de olhos fechados, e eu também fechei os meus. Nos beijamos lentamente enquanto ele me guiava até a minha cama. Os beijos foram ficando cada vez mais intensos e envolventes, até que caí de costas no colchão. Minha pele foi esquentando no lençol gelado, e o corpo de Cadu Sena pesava sobre o meu. Tive a atitude de correr a minha mão entre os cachos do cabelo dele e senti a sua boca devorar o meu pescoço em beijos e chupões que pareciam puxar a minha alma junto.
Meu pescoço foi ficando molhado... Eu já respirava ofegante e algo lá, entre as minhas pernas, pegava fogo.
Deus, o que estava acontecendo?
– Eu sei o que você quer – Cadu Sena sussurrou no meu ouvido, com seu hálito quente, em um tom de voz rouco e sério.
O peso de seu corpo sobre o meu foi diminuindo conforme ele escorregava para baixo do edredom. A mão áspera puxava, com cuidado, a minha calça jeans já aberta. E eu sentia a sua respiração contra a minha barriga. Fui ficando inteiramente arrepiada e mordi os meus lábios espontaneamente.
Senti a língua quente deslizar pela minha barriga em zigue-zague.
A saliva se alastrava em seu caminho, até parar na lateral interna da minha coxa, sugando a minha pele para dentro daquela boca que parecia ferver, de tão aquecida. Eu sentia os dentes... Isso me fez latejar em um espasmo, não consegui conter o gemido que escapou pela minha boca.
Procurei os cabelos para que me segurasse neles em vez de no lençol que eu apertava e esticava sem nenhuma piedade. Quando os encontrei, em mechas entre os meus dedos, embaixo do edredom, estranhei a falta dos cachos. Parecia, hum, mais liso?!
Tudo bem, porque a textura do cabelo de Cadu Sena pouco importa agora.
Fui assistindo ao edredom se mover, escondendo o corpo por dentro dele.
Os chupões seguiam intermitentes, dessa vez na outra coxa. Mordidas e lambidas em sincronia ameaçavam entrar pela borda da minha calcinha. Eu sentia o furor dos atos. Minha respiração ofegante era o oposto do ar quente e pesado, calmo e malevolente, que soprava na minha perna.
As mãos, nesse momento, pareciam menos ríspidas que antes. Uma delas foi subindo pela minha barriga, deslizando devagar por baixo do tecido da minha camisa. Se atreviam por dentro do meu sutiã. Deixei escapar outro gemido com o aperto que acabara de ganhar no seio.
– Shhhh... – foi o som sutil (mas autoritário) que escapou de baixo do edredom pra mim em resposta.
A mão agora, por sua vez, foi descendo do meu seio para acompanhar a outra, puxando a minha calcinha para baixo. O tecido foi resvalando tão vagarosamente que eu quis morrer de agonia, a lentidão parecia proposital. Eu já estava inteiramente arrepiada e não podia sequer imaginar o que viria depois.
Só que, pro meu desespero, minha calcinha foi largada daquela forma, na metade do caminho.
O corpo foi subindo por cima do meu, me obrigando a soltar as mechas de cabelo que eu segurava.
– A gente pode continuar isso depois? – Édra Norr surgiu do meu edredom, em cima de mim. Na minha cama. – É que você já tá atrasada pra aula.
Os olhos escuros me descompassaram. Eu estava em choque.
– Ah, já ia me esquecendo... – Ela me encarou com um sorriso torto e cínico. Numa cara amassada de sono, com o cabelo mais bagunçado que o normal e... Sem nenhuma blusa. Embora eu só conseguisse vê-la da clavícula pra cima, por causa da posição de seu corpo sob o edredom. – Bom dia – disse ela, desaparecendo.
E eu abri os olhos, me levantando da cama num susto. Arranquei o celular debaixo do travesseiro abruptamente e percebi que meu alarme já tinha despertado três vezes. Esfreguei os olhos, me afundando de volta no travesseiro.
Meu coração só faltava sair pela boca, e meu corpo, apesar do clima frio, estava inteiramente suado.
Tentei respirar fundo, suspendendo o edredom para ver por dentro dele. É, eu estava mesmo sozinha ali. Dentro do meu pijama de girassol, com Margot dormindo bem ao lado dos meus pés.
Nem Édra Norr, nem Cadu Sena.
Apenas Íris Pêssego, lunática e atrasada pra aula.
É claro que eu não sabia onde enfiar minha cara depois daquilo. Parecia que todo mundo que me olhava tinha plena noção do que eu havia sonhado. A impressão que dava era de que as pessoas sabiam. E eu não pude fazer nada além de encarar meus tênis até que chegasse ao meu armário. Nunca demorei tanto para alcançá-lo. Parecia o corredor da morte, como nos filmes a que minha avó assistia sempre que tomava conta de mim.
Pude ver, rotineiramente, Édra Norr beber água no bebedouro perto de mim.
Tentei focar meus pensamentos no trabalho e no fato de não ter mandado mensagem pra ela, mas não consegui me controlar. Meu cérebro é mesmo muito sabotador, e eu não fazia ideia do que estava acontecendo no mundo dentro e fora de mim.
Quero dizer, era impossível não “dar zoom” na boca dela e lembrar de tudo aquilo. A última coisa que a minha cabeça queria fazer agora era pensar no trabalho de literatura.
Minha mente, como se fosse uma grande tela de cinema, me fez repassar as sensações e o momento em que Édra Norr saiu do meu edredom, bem diante dos meus olhos. E eu, claro, fiquei vermelha involuntariamente.
Édra deixou de se inclinar no bebedouro, terminando de tomar água. E veio, em seu andar despojado e arrastado, na minha direção.
Quando seus olhos me encontraram, me senti completamente vulnerável. Era como se ela também soubesse sobre o sonho.
No mesmo instante, minhas pernas desvencilharam e senti a coisa de novo.
Calor absurdo, respiração ofegante, inquietação incontrolável...
E todos os meus hormônios em ebulição.
– Ei, Íris – disse ela, quando passou por mim. – Bom dia.