O Amor Não é Óbvio
15 | Tornados no estômago
TORNADOS NO ESTÔMAGO
Primeiro foi a visão. Quando abri os olhos, havia um clarão branco muito forte. Tudo estava desfocado e, de primeira, a luz irritou bastante minha vista. A claridade deu lugar à escuridão quando fechei as pálpebras, tomando um tempo cronometrado de três segundos para tentar vencer a luz de novo. Abri os olhos devagar e o clarão agora tomava uma forma, de pouco ao pouco, esférica, presa no teto.
Era uma lâmpada acesa.
Depois, a audição. O barulho de uma TV foi invadindo os meus ouvidos com calma, em rangidos. Eu não conseguia distinguir o que era dito, estava mesmo muito confusa. Mas aquele tom de voz era de alguma jornalista, eu podia jurar. Somado ao barulho de televisão, havia um apitar de máquinas.
E o olfato me pegou como um soco, com todo aquele cheiro de hospital e, bom, hortelã, frutas, sabonete, banho, perfume masculino...
Édra Norr.
– Ei, você está no hospital. Seus pais acabaram de sair do quarto agorinha – disse ela, ou foi o que eu consegui entender, enquanto ela guardava o celular abruptamente no bolso quando percebeu que eu a encarava. Édra se ajeitou logo em seguida na poltrona branca em que estava sentada (com seu jeito torto de sempre).
Parecia estar bem cansada, os olhos estavam fundos.
Me dei conta de que aquilo era um quarto de hospital. Mas é claro que precisei tentar levantar primeiro e sentir o beliscar de uma agulha na veia da minha mão direita para notar que eu era a paciente.
– Pedra. – Eu sorri, com dificuldade, voltando a me recostar vagarosamente na pilha de travesseiros atrás da minha cabeça.
– Esse foi um dos apelidos mais idiotas que já recebi na minha vida. – Édra revirou os olhos, tentando conter o sorriso. – Espero que você tenha consciência disso.
Arfei do meu travesseiro.
– Não acredito que eu não me lembrei antes. – Deixei o ar escapar, mordendo os lábios.
Ela entortou um sorriso para o canto da boca.
Nos olhamos por alguns segundos que pareceram minutos, com a trilha sonora das máquinas de hospital e da garota do tempo do jornal de São Patrique.
E aí ela respirou fundo, caindo os abismos castanhos para os próprios sapatos.
– Ela entrou em cirurgia faz algumas horas – disse Édra sem olhar pra mim; eu respirei fundo, entendo o porquê dos olhos terem caído. – E eu preciso ir até lá, pra alimentar a Loriel e o Lanterna – completou, com a voz embargada, subindo o olhar aos poucos.
– Eles estão bem, eu tranquei eles – eu disse, apressada, para que ela não se desesperasse. – E eles já ficaram um dia inteiro sem comer, quando ela esqueceu de comprar ração no feriado das ostras.
– Você tem a chave da casa da minha avó? – Édra espremeu os olhos, inclinando a cabeça um pouco para o lado.
– É. – Forcei um sorriso. – Eu meio que sou a babá da Loriel e do Lanterna.
– Hum... – Ela balançou a cabeça positivamente, esperando que eu falasse mais.
– E ela meio que é a minha melhor amiga também, nós vemos novela juntas – eu disse de vez, tentando coçar meus dedos. Mas a agulha enfiada na minha veia não me deixou chegar até lá, com aquela dor fina e insuportável. – Mas eles vão ficar bem, sério, você precisa tentar dormir – mudei abruptamente de assunto, sem deixar brechas para comentários.
Observei enquanto ela piscava os olhos bem lentamente, como quem estava mesmo morrendo de sono.
– Eu não vou a lugar nenhum – disse Édra, séria, conforme suas sobrancelhas se juntavam na testa.
– Você não precisa ir. – Respirei errado, com o que estava prestes a dizer. – Você pode dormir aqui. – Tossi. – Pedra.
– Eu não vou conseguir. – Ela moveu a cabeça, recusando. – Tô muito preocupada e paranoica.
– Eu também – concordei, me encolhendo um pouco na minha cama para que ela coubesse. – A gente pode ficar “preocupada e paranoica” juntas, vendo a garota do tempo no jornal. Ela tem um sorriso muito incrível.
Édra riu baixinho e breve, com as sobrancelhas ainda franzidas de zanga. O que eu não entendi direito, mas achei uma gracinha.
E aí ela levantou do sofá, apagou a luz e caminhou até o outro lado da cama, como quem estava pisando em ovos, ou sei lá o quê.
Hortelã, frutas, sabonete, banho e perfume masculino foram se espalhando pelo ar com mais força. Mas quando Édra Norr sentou na minha cama, senti mais cheiro de sono e de cansaço do que todos esses outros cheiros, embora eles ainda fossem perceptíveis.
Não sei explicar que cheiro o sono tem. Mas o cheiro de sono dela me deu uma tranquilidade imediata. Eu faria perfumes com o cheiro de sono dela, se pudesse. E me medicaria com eles quando precisasse de um pouco de conforto. E quando não precisasse também.
A garota do tempo estava falando sobre tornados perto da costa do estado e sobre a louca mudança de temperatura, por conta dos desastres ambientais no mundo. E ainda bem que esse era o tópico, já que, quando Édra Norr começou a afundar do meu lado, o meu coração começou a disparar na máquina que o monitorava.
E quanto mais perto ela chegava – passando as pernas pra cima da cama e afundando a cabeça no travesseiro (bem perto de mim) –, mais ele acelerava.
A máquina parecia o tornado da TV.
Eu parecia o tornado da TV.
No meu estômago estava se formando um tornado, como o da TV.
– Eu tenho medo de tornados – tentei dizer, desesperada.
Droga.
Droga, droga, droga.
Mas Édra já estava com um sorriso cínico (e não completamente identificado pelo meu cérebro) nos lábios.
– Boto fé – foi o que ela disse, completamente deitada ao meu lado.
Nossos braços estavam encostados. Nossas pernas, também. Lado a lado, naquela cama imensa e ao mesmo tempo minúscula do Hospital Hector Vigari.
Eu juro, tentei muito me concentrar na televisão e na garota do tempo, que tinha mesmo um sorriso incrivelmente lindo. Mas meu olho acabou caindo em Édra Norr. Eu podia ver assim, a uns centímetros de mim, a barriga dela subindo e descendo, o peito inflando e esvaziando com a respiração lenta. Podia ver a orelha dela tão estranhamente de perto. Ela tinha uma orelha bonita. (É estranho achar orelhas bonitas?) E eu gostava das costeletas dela. Cortadas assim, retinho, como se um minijardineiro tivesse escalado o rosto dela e aparado os fios com aqueles cortadores de grama.
E tinha aqueles sinais e uns sinais que eu nunca vi direito, mas que agora dava pra ver, porque são meio apagados e eu sofro de miopia em um nível que já me pergunto quando vou ficar cega. E penso que quando eu for fazer novos exames de vista, vou receber um prazo de seis meses até perder a visão completamente.
Também não pude não olhar para alguns fios de cabelo dela, que não eram tão escuros assim. Eles pareciam meio queimados de sol.
Certo, eu preciso voltar para a garota do tempo.
Deus, não consigo nem entender o que ela tá falando.
Eu preciso olhar pro lado.
Não, Íris, não olhe. Essa voz não é sua. Júlia está te sabotando.
Olhe, Íris.
Certo, só uma olhadinha...
– Eu continuo preocupada e paranoica – disse Édra, virada para mim.
De alguma forma incalculavelmente constrangedora, nos olhamos ao mesmo tempo. E como estávamos muito perto, eu vi seu rosto de uma forma completamente diferente.
Os cílios superiores muito longos se espetavam para a frente, e os cílios inferiores eram meio falhados e medianos. A luz azulada da TV me deixava ver uma pupila negra no meio de toda aquela imensidão castanho-escura. Édra tinha uma pupila, embora às vezes não parecesse.
– Você precisa prestar mais atenção na mulher da previsão do tempo – eu disse, atropelando uma palavra na outra pra acabar de dizer logo. De nervosismo.
– Você também – respondeu ela.
E era tão estranho poder ver até as veias riscarem o branco do olho dela.
Aí ela virou de vez. Bagunçando o cabelo todo no travesseiro que a gente dividia. E a luz azulada da TV foi se espalhando pelo rosto de Édra de um jeito errado, escondendo a pupila de novo, mas iluminando a boca.
E era tão estranho conseguir ver as listras discretas que riscavam os lábios dela.
Lábios que Camila Dourado beijava.
Que “Sammy” tinha beijado.
Que não sei mais quantas garotas já tinham beijado. E sobre quem eu nem posso resmungar mentalmente, porque nem sei quem elas são. Eu não tenho nem o nome delas pra adicionar numa reclamação curta.
Rolei os olhos, voltando a prestar atenção no jornal.
Eu queria muito que ela caísse da cama. Ou saísse. Ou parasse de caber. Fui me zangando por motivo nenhum. A birra foi crescendo como se eu tivesse botado fogo em uma folha de caderno. E foi, aos poucos, incendiando minha cabeça inteira.
Mas, aí, ela se moveu um pouco e os nossos dedos mindinhos se encostaram sem querer.
E alguém jogou um balde de água fria na folha de caderno.
– Será que se eu desmaiar eu ganho uma cama só pra mim? – perguntou Édra, virando a cabeça de lado, na minha direção.
Eu estava com as sobrancelhas juntas.
Respirei errado quando senti seus olhos me atravessarem.
– Preocupada – comecei –, paranoica e engraçadinha.
Os dentes irritantemente perfeitos foram aparecendo num sorriso largo que ela abria devagar. E um após o outro, seus olhos foram diminuindo, apertados. Inchados, de quem chorou. Fundos, de quem não dormiu.
Sorri um pouco, mas não deixei que o sorriso se esticasse muito.
– Hoje você beijou uma garota – disse ela, deixando o sorriso sumir.
– É, a gente já sabe disso. – Espremi meus olhos. – Foi o pior primeiro beijo, porque me senti esquisita depois.
– Vai ver você não gosta de garotas, ué. – Ela ergueu o cenho. – Acontece.
– Né, Édra? – Revirei os olhos, arfando. Usei todo o tom de ironia que tinha me sobrado. – Vai ver.
– Mas agora que a gente já sabe quem a gente era... – Ela foi se virando de lado. – No caso, você, porque eu sempre lembrei... Eu fui seu primeiro beijo lésbico de verdade.
– Quê?! – Senti minha testa franzir.
– Bonecas Sally – respondeu ela, entortando um sorriso.
– Você não pode tá falando sério. – Tentei esconder meu rosto com a mão livre de agulhas. – Você não pode tá falando sério.
Édra deu uma risada gostosa de se escutar.
– Pois é – continuou ela, entre risos. – Sua boneca beijou a minha boneca. E foi você quem tava controlando.
– Édra, pra começar, sua boneca era horrível – respondi, rispidamente. – Cindy Lou fez um favor a ela.
– Você não entende nada de cortes de cabelo. – Suas sobrancelhas subiram, enquanto ela balançava o rosto de um lado pro outro, me olhando com prepotência.
– E tinha o que pra entender? – Minha testa se franzia cada vez mais. – Aquela boneca nem tinha cabelo. Como é que ela iria ter um corte?
– Cabeça raspada é uma parada charmosa. – Agora balançava a cabeça positivamente, com o olhar distante. – Já raspei a minha, uma vez.
– Deus, quem arranca os cabelos de uma boneca? – murmurei, encarando a lâmpada desligada bem acima de nossas cabeças.
– E mesmo assim você beijou ela – rebateu Édra.
Apesar de ainda encarar a lâmpada apagada, senti, pela minha visão periférica, que ela me olhava. O que me deixou um tanto nervosa, mas eu precisava me controlar. Ou o meu coração apitaria nas máquinas de novo.
– Eu não beijei ela... Cindy Lou beijou. – Revirei os olhos. – E outra: era isso ou um dinossauro horroroso que você riscou em vários lugares com marcador preto.
– Tsc. – Ela também se virou para encarar a lâmpada. – Eram tatuagens.
– Dinossauros não se tatuam – arfei. – Qual é o seu problema com brinquedos?
– Qual é o seu problema com imaginação? – indagou ela, passando os braços para trás da cabeça.
– Pelo menos eu dei um final bonito para a sua Boneca Sally. – Virei para olhá-la. Bem rápido, para ver como ela ficava daquele ângulo.
Ela me procurou com os olhos, sem mover a cabeça. Naquela pose prepotente e folgada, tomando espaço na minha cama.
– Você quis – disse ela, séria.
– Eu quis o quê? – indaguei.
– Bonecas Sally não se controlam sozinhas. – Ela respirou fundo. – Você quis.
– Eu já disse que foi a Cindy Lou, mas tanto faz. – Revirei os olhos. – Qual é o seu problema com imaginação?
– Eu já disse que Bonecas Sally não se controlam – Ela arfou. – Qual é o seu problema com brinquedos?
Fiquei em silêncio, querendo muito que ela simplesmente caísse da cama no chão.
– Mas tanto faz, mesmo – ela quebrou o silêncio. – Vai ver aquela garota não era a garota. Você deve ter confundido tudo.
– Por? – questionei, fitando-a de canto de olho.
– Porque você não entende nada de cortes de cabelo. – Ela riu brevemente, me fitando de canto de olho também.
Balançamos a cabeça negativamente na mesma simetria. E voltamos a encarar a lâmpada apagada ao mesmo tempo.
O nosso silêncio foi me deixando nervosa de novo.
E, para piorar tudo, Édra se virou para mim na cama. Abruptamente. Sem nenhum “aviso corporal prévio” de que ela iria fazer aquilo. Digo, me encarar, sem motivo nenhum. Eu fui pega de surpresa.
Isso foi me descompassando. Fiquei num ritmo completamente errado.
E a abertura daquele programa, Galera coruja, a que meu pai adora assistir de madrugada, começou a tocar. Escuto sempre que tenho insônia.
– Você deveria tentar de novo – disse Édra. Sua voz se misturou à do apresentador no fundo.
Eu só queria evaporar dali. Não conseguia me conter mais. E as máquinas me entregaram com os barulhos desgovernados do meu coração.
Era óbvio que ela iria saber que eu estava nervosa. Claro. Ela ia saber de tudo. Até sobre o binóculo e sobre conhecer o quarto dela antes de entrar no quarto dela. Eu não podia deixar que ela simplesmente percebesse.
Os barulhos só aumentavam no quarto.
Eu precisava fazer alguma coisa.
– Eu tenho muito medo de tornados – disse, engolindo seco. Tentando ignorar a minha visão periférica de Édra Norr me encarando, a alguns centímetros do meu corpo.
– O jornal já acabou, Íris. – Pude sentir que ela estava apertando os olhos pra mim.
Deus, ou sei lá, aliens virgens de alguma coisa, me abduzam. Sério, chegou a minha hora.
– Eu sei. – Enruguei o meu rosto, querendo que ele afundasse. – É que tornados são mesmo horríveis – tentei explicar, falando bem baixo.
O corpo de Édra foi se inclinando para muito perto do meu, como se ela estivesse prestes a passar para cima de mim de alguma forma sem encostar em mim.
Nossos olhos se encontraram. Tentei traduzir a cara dela; que parecia confusa, impressionada, inquieta e prestes a ativar uma bomba, ou coisa assim. A respiração dela estava irregular, eu pude sentir. E suas sobrancelhas franzidas acompanhavam o olhar perdido, que me fitava de um lado a outro, em diferentes pontos do meu rosto.
– Íris... – ela começou a dizer alguma coisa.
E o quarto ficou extremamente claro.
Sério? Agora? Eu pedi a abdução antes.
No susto, ela pulou da cama.
E uma enfermeira, que parecia ser descendente de japoneses, com uma prancheta na mão e o cabelo preso com uma caneta surgiu. Nos encarando, completamente confusa.
Olhava para Édra e depois para mim; depois para Édra de novo.
– Eu vim checar o seu soro. – Ela se aproximou, com uma cara muito estranha. Como eu fico quando tento enxergar algo sem meus óculos.
Continuava nos encarando enquanto remexia nas coisas.
– Eu vou tirar a agulha, fazer um curativo e você vai descansar um pouco, certo? – avisou ela, repousando a mão sobre a minha.
– Tudo bem – eu disse, endireitando minhas costas no colchão.
Ela estalou as luvas de borracha branca nas mãos, se aproximando do meu braço.
Depois de um “au” meu, a agulha estava completamente fora do meu corpo. E ela limpou o furo com algodão embebido em um líquido que cheirava a álcool. Me grudou um band-aid branco, removeu os sacos vazios de soro que estavam pendurados e saiu do quarto, sorrindo para mim, mas fazendo uma cara reprovadora para Édra Norr.
– É, eu vou... Hum – Édra tentou dizer, enfiando as mãos no bolso, meio confusa. – Comprar alguma coisa pra comer?
Ela “perguntou afirmando”, atrapalhada, tirando uma das mãos do bolso pra apontar para a porta. Quando tomei fôlego pra falar alguma coisa, ela simplesmente fez “sim” com a cabeça e se virou, me largando sozinha.
Mas não demorou nem cinco segundos para que Édra abrisse a porta novamente.
– Você quer que eu apague a luz? – ressurgiu, colocando apenas o tronco para dentro do quarto.
O cabelo bagunçado de quem estava deitada, pouco antes, do meu lado.
– É... P-pode. – Suspendi os ombros, tentando empurrar as palavras de dentro da minha boca. – Pode ser.
Ela acenou positivamente mais uma vez, antes que fechasse a porta com todo o cuidado, para não fazer barulho.
A fresta de luz foi diminuindo até sumir completamente.
E, sozinha no quarto escuro, com todo o cheiro de Édra Norr e o sono pairando sobre o travesseiro ao lado da minha cabeça, fui sentindo, pouco a pouco, o tempo nublar... E as nuvens se formarem e dançarem em círculos dentro de mim.
A garota do tempo deu todas as previsões, mas ninguém me avisou sobre esses tornados no meu estômago.
Respirei fundo, sentindo aquela coisa revirar tudo dentro de mim.
E, dando o braço a torcer, fechei os olhos.
Achei que tivessem se passado só alguns minutos quando os abri com dificuldade.
– Bom dia – a voz de Édra ecoou do meu lado direito. Mas eu ainda encarava o teto do quarto.
Fui virando a cabeça bem devagar, até vê-la enfiada na poltrona ao meu lado.
Sorri instantaneamente.
– Acho que vão te liberar – Édra continuou dizendo, tirando as chaves do carro do bolso. – Eu tô indo pra casa da minha avó já, já, preciso de um banho. – Entortou um sorriso. – Vou passar o olho em Loriel e Lanterna também.
– Hum. – Apertei meus olhos. – E Dona Símia?
– Já fez a cirurgia – respondeu. O meu sorriso foi se alargando mais. – Mas não acordou ainda – completou, sem me olhar no olho.
Parei de sorrir e respirei fundo, voltando a encarar o teto.
– Você quer uma carona?
“Você quer uma carona?”, remedei a voz de Édra Norr dentro da minha cabeça. Era desprezível me sentir tão eufórica com qualquer coisa que ela falava diretamente pra mim.
– Acho que dá pra levar todos vocês no meu carro – Édra comentou.
– Todos vocês quem?
Eu perguntei, mas ela não precisou responder pra que eu lembrasse que tinha pais e que, muito em breve, eles iriam me matar. ME ESGANAR. Me picar em pedacinhos. Não há nada que eu possa dizer minha mãe que a impeça de quebrar todos os meus ossos. Nem há nada que eu possa dizer a meu pai, mas vou pedir que ele reze por mim. Pra que eu chegue bem no céu. Meu Deus! Eu passei uma noite inteira fora de casa.
Meus pais nunca vão me perdoar por estar agindo de forma completamente inconsequente e irresponsável. Minha vida virou uma novela e eu não avisei a eles.
– Calma, não precisa se desesperar. – Édra, pelo visto, percebeu que eu estava perto de ter um ataque de pânico seguido de três paradas cardíacas.
– Você conhece a minha mãe? – Foi tudo o que eu consegui dizer, desesperada.
– Conheci quando ela chegou e salvei a sua pele – disse ela, se levantando da poltrona. Parecia olhar alguém através das persianas entreabertas. – Não diga nada.
A maçaneta girou e surgiram os meus pais, como se estivéssemos bem no meio de um apocalipse zumbi e eu estivesse prestes a ser devorada.
– Meu bebê! – disse meu pai, quando me viu. Antes mesmo de me alcançar na cama. Ele e mamãe me agarraram pela cabeça e me esmagaram coletivamente.
– Sirizinho! – Minha mãe parecia ter sido possuída pela mãe de alguém.
Eu estava boquiaberta. Não sabia o que Édra tinha dito a eles. Mas tinha funcionado. Ninguém queria me matar por ser a pior filha do mundo. Só queriam me encher de beijos na testa e de abraços.
Édra estava de pé, imóvel, com uma cara de quem não fazia ideia do que deveria fazer. Mas eu podia jurar que, em algum lugar dentro da cabeça dela, ela estava se vangloriando por ter me acobertado com alguma desculpa épica que fez com que meus pais – em vez de me colocarem na forca – me amassem ainda mais.
Jade e Ermes Pêssego, em toda aquela euforia familiar, nem notaram a existência dela. E quando ela percebeu que eles realmente não tinham reparado, movimentou os lábios, sem proferir nenhum som:
“Depois a gente se fala.” E ergueu a minha cópia da chave da casa de Dona Símia, balançando para que eu a visse. “Peguei emprestado, ok?”
Dentro do abraço de papai e mamãe, tentando fazer com que ela enxergasse a minha boca, fiz o mesmo de volta: “Ok.”
E ela saiu do quarto, de fininho.
Eu não fazia ideia do que poderia acontecer se ficássemos sozinhas de novo, como na madrugada. Foi uma coisa meio esquisita toda aquela situação. E o pior é que eu não consigo parar de pensar no que teria acontecido se aquela enfermeira não tivesse aberto a porta; se aquele clarão não tivesse cortado o nosso escuro; se Édra Norr não tivesse saltado da cama para comprar alguma coisa pra comer, só para não ter que prolongar o clima estranho que consumiu a atmosfera do quarto.
Talvez eu soubesse no que o nosso silêncio se transformaria, se tivesse ganhado mais tempo antes que os meus pais aparecessem no quarto.
Eu pensei sobre isso durante todo o caminho, olhando a cidade passar através da janela.
Respondi as perguntas dos meus pais no automático, coisas sobre como eu estava me sentindo, o que queria comer quando chegasse em casa, se estava tudo bem mesmo, se eu queria faltar aula para descansar. Para as perguntas que exigiam mentir sobre a noite anterior me fingi de “cansada demais para responder”.
Passamos pela avenida da praia de carro e fui silenciosamente remontando aquela festa na minha cabeça. Édra Norr estava em tudo. Pude nos ver saindo entre os coqueiros, de mãos dadas, rumo ao carro dela, estacionado bem naquele passeio logo ali.
Quando chegamos na nossa rua, meu pai foi dando a ré para estacionar e eu me virei no banco para ver, através do vidro traseiro, a casa de Dona Símia.
As luzes acesas me deram frio na barriga.
Não era a minha melhor amiga idosa que estava lá dentro. Era Pedra Norr, a companhia mais esquisita que eu tive naquelas férias.
E agora eu lembrava de tudo sobre ela. Desde os brinquedos bizarros (tatuados e sem cabelo), até a mania irritante de remedar tudo o que eu falava com Dona Símia.
Abri a porta do carro e corri para o meu quarto antes que meus pais inventassem de fazer mais alguma pergunta ou o efeito da poção do amor que Édra deu a eles passasse (e eles me dessem uma bronca de duas horas). Eu quase tropecei nos degraus, passei por Margot, que miou muito alto quando me viu, e abri a minha mochila, como se estivesse em um filme de caratê ou coisa assim.
Saquei o binóculo e corri para o meu banheiro.
Especificamente, para a janela minúscula bem alta na parede. Que só existia por motivos de: 1, ventilação e 2, luminosidade.
Fiquei na ponta dos pés e dei o máximo de zoom que pude.
Eu conseguia ver a sala de Dona Símia, mas as cortinas ainda me atrapalhavam um pouco.
O vulto de Édra Norr passou de um lado para o outro, e os latidos de Lanterna e Loriel ecoavam abafados no silêncio da nossa rua.
Respirei fundo, deixando os meus pés encostarem no chão.
Apertei o binóculo contra o peito.
Eu preciso fazer alguma coisa.
Certo, vamos lá. Édra está do outro lado da rua, na casa da minha melhor amiga idosa, com os meus sobrinhos cachorros, andando de um lado pro outro numa sala onde a gente já brincou de comandos em ação.
Eu preciso mesmo fazer alguma coisa.
Mas nunca vou conseguir dar um passo sem que alguém me empurre. Eu preciso ser empurrada. E Júlia não vai acordar agora.
Droga.
Droga, droga, droga. Mil vezes droga.
Ah, espere.
Eu ainda não consegui agradecer pelo que ela fez.
É isso! Deus, é isso!
Só que ainda preciso ser empurrada. Nem que seja pelo acaso.
Corri de volta para dentro do quarto e virei minha mochila aberta de cabeça para baixo, deixando todos os meus materiais escolares caírem sobre a minha cama. Saquei papel, caneta e tesoura.
É isso. Eu vou sortear. E seja o que o acaso quiser.
Tirar a virgindade de pizza ou não tirar a virgindade de pizza?
Não, espere. Deve ter alguma coisa errada com esse papel. São só dois. O acaso nem tem tempo pra pensar direito. Vamos incrementar mais.
Agora vai.
É, acho que eu deveria fazer mais papéis com a opção “não”. Porque se for sim, pelo menos, vou ter certeza. Não é? É. Eu acho que sim.
Então, certo. Ok. Vamos lá.
Dane-se, eu vou mesmo assim.
É claro que só tive noção do que eu realmente estava fazendo depois de já ter batido na porta da casa de Dona Símia. Deus, como eu sou idiota.
Esperei meus pais dormirem e os convenci de que ficaria vendo série sozinha no meu quarto. Deixei o computador ligado com Grey’s Anatomy rolando. Tranquei minha porta por fora. Saí da minha casa pela porta dos fundos, na ponta dos pés, como se tivesse acabado de assaltá-la. Meia hora antes disso, liguei para a Orégano’s Pizza. Meu pedido foi tamanho grande, metade frango com catupiry e metade portuguesa. É claro que pedi que não trouxessem sachês de mostarda, já que eu sempre desperdiço os sachês de mostarda, e só depois de desligar o telefone foi que eu me dei conta de que talvez Édra pudesse gostar e talvez fosse mais perfeito para ela com sachê de mostarda, ou seja, eu estaria estragando tudo. Então, liguei mais uma vez e disse “Ok, Gabriel, sachês de mostarda dessa vez”. Tomei banho, porque sempre levam uns vinte e três minutos (adivinha quantas pizzas eu já comi para ter esse cálculo?). Procurei uma roupa bonita, mas sem parecer que eu estava querendo impressionar ninguém. Precisava ser confortável, mas não desleixada. Precisava ser bonita, mas não extravagante.
Calma, fala sério, desde quando eu tenho roupas extravagantes? Eu nem deveria ter me preocupado com isso. Eu mal tenho roupa, muito menos “extravagante”.
Levei um tempo maior no banho, acho que passei sabonete no mesmo lugar umas sete ou oito vezes.
Short folgadinho confortável? Check. Blusa de Coragem, o cão covarde, o melhor desenho de crianças que já existiu? (Quem não gosta desse desenho não merece habitar esse planeta. E minha blusa ainda era simbólica. Dona Símia é a avó e eu sou o cachorro). Check. Sandálias ridículas porque não achei nada além delas? Check.
Tudo estava... Check.
E eu estava dizendo para mim mesma que eu estava bonita e que tudo ia dar certo. Ainda que meu papel tivesse dito não, no final das contas, eu estava lá. Segurando uma caixa de pizza enorme com uma das mãos (torcendo pra que ela não caísse no chão e despedaçasse inteira) e, com a outra mão, batendo na porta de Dona Símia.
E foi aí que minha ficha caiu. Não era uma idosa adorável que iria abrir a porta e me perguntar se eu queria ou não tomar chá. Seria... Ela.
Será que dá tempo de dar meia-volta?
Loriel e Lanterna começaram a se agitar do outro lado e pude ouvir os arranhados na madeira da porta.
Eu posso simplesmente me virar e ir embora, certo?
Os barulhos dos trincos da porta sendo destrancados foram tilintando e o meu coração parecia escalar a minha garganta. Senti o tempo nublar no meu estômago mais uma vez.
Édra foi surgindo com o rangido de porta velha se abrindo.
Ela estava de calça moletom cinza-escuro, um top (como sempre, de academia) preto e uma blusa branca caída sobre o ombro esquerdo. Os cabelos desgrenhados em ondas amassadas, o corpo iluminado pela luz amarelada do poste e uma cara de sono inegavelmente bonita.
O som de TV ligada se misturou aos latidos empolgados de Lanterna ao me ver tentando passar por entre as pernas de Édra, sem nenhum sucesso.
– Ei – disse ela, coçando o olho.
Parecia tentar entender o que estava acontecendo. Olhou dos meus pés até o meu rosto. E, em seguida, para a caixa da Orégano’s Pizza que eu trazia em minha mão.
Suas sobrancelhas juntaram na testa. E ela inclinou um pouco a cabeça para o lado, esperando que eu dissesse alguma coisa.
O tornado começou a girar no meu estômago.
– Ei – foi o que eu consegui dizer, tentando falar mais alto que os batimentos cardíacos dentro de mim. Os quais eu conseguia escutar perfeitamente bem, como a bateria de uma banda.
Mas nenhuma palavra saiu depois disso.
Édra apertou os olhos para mim. Sua boca estava entreaberta.
Engoli aquele bolo de nada que tampava a minha garganta.
Quando percebi que ela tomava fôlego para falar alguma coisa, interrompi, abruptamente. Antes que tudo ficasse mais constrangedor do que já estava.
– Quer pizza? – perguntei de vez. Como se tivesse arrancado um band-aid dessas palavras.
E um sorriso cínico começou a se entortar para o canto da boca de Édra Norr.