O Amor Não é Óbvio

Elayne Baeta · Capítulo 5 de 27

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O Amor Não é Óbvio

3 | Experimento científico

EXPERIMENTO CIENTÍFICO

 

Eu estava imóvel assistindo a Édra Norr beber água diretamente do bebedouro, a poucos passos do meu armário.

É óbvio que decidi por conta própria absorver todos os detalhes possíveis sobre Édra (incluindo memorizar o nome dela na hora da chamada). Além disso, tive que me aproximar de grupos duvidosos de pessoas nesse colégio pra conseguir escutar o que estavam dizendo sobre ela. Algumas coisas realmente precisam ser investigadas. É como disse algum cara certa vez: esse é um pequeno passo para o mundo, mas um grande passo para a ciência, ou algo do tipo. E é pela ciência, única e exclusivamente por ela, que estou iniciando essa pesquisa. Até porque não me importo com essa garota (apesar de ela ser estranhamente bonita bebendo água).

Sério, é algo a se reparar, porque quando eu tento usar esse bebedouro termino com água em todos os centímetros da minha cara. Fora que se tentasse espremer minha blusa depois disso, daria pra encher uma piscina. Não que eu tenha uma piscina. Um minuto de silêncio pra quando papai começou a juntar dinheiro pra tentar comprar aquelas piscinas que as pessoas instalam nos quintais e decidiu gastar tudo em apostas na loteria de São Patrique. Quando é que as pessoas vão entender que elas não são o Maurício? Ele tem a intuição certeira, o resto de nós, nem tanto. Quer dizer, sempre sei quando alguém beija bem ou não. Está mais que claro isso, relembremos o episódio com o primo da Polly. Não, não relembremos. Pelo amor de Deus.

De qualquer forma, eu estava observando Édra Norr beber água. Até ela decidir sair do bebedouro e vir na minha direção, sorrindo.

Não sei exatamente se eu deveria estar reparando nisso. Na real, eu deveria, sim. Tudo pela ciência. Édra Norr tem os dentes mais bonitos que eu já vi. Isso é um insulto à minha existência nesse colégio. Isso é um insulto aos meus sentimentos por Cadu, até porque o sorriso mais bonito do mundo é dele. Sempre será dele. Quem essa menina pensa que é? Me devolve esses dentes!

Cara, espera aí, ela tá me olhando? Ela tá chegando muito perto. Meu Deus do céu, ela vai falar comigo. Eu não sei o que vou responder. É agora.

– Essa é a prova verídica de que as pessoas transam. – Vi a imagem de Polly se diagramar do meu lado, mas a cena que eu observava mesmo era a de Édra passando a mão por cima do ombro de Camila Dourado (que estava esse tempo todo atrás de mim) enquanto sussurrava alguma coisa no ouvido dela. E Camila logo respondeu com um “Édra, aqui não!” entre risos sacanas.

– Tô cansada de não fazer parte desse grupo – resmungou Polly, revirando os olhos. Me virei para o armário, agora encarando o bebedouro vazio. – É por isso que eu baixei o Lovex no meu celular.

– Quê?! – E o “quê?” dito por mim foi por não acreditar naquilo. Porque eu sabia o que Lovex era, até porque a Carina, funcionária do supermercado do meu pai (e também minha cúmplice de furto qualificado de produtos), era cadastrada nesse aplicativo. E a função dele é arranjar pessoas pra sair. Só que o nome não é só love de amor, o ex no final vem de sex. Ou seja, boa parte das pessoas que usam o Lovex não querem só o love.

Não acreditei que Polly tinha se submetido a isso.

– Isso mesmo. – Ela sorriu cínica pra mim. Fechei o armário abruptamente, incrédula.

Nesse momento, Luiz, um dos caras que andam com o Cadu, passou por nós.

– Ei, Polly – disse, piscando – Tudo certo pra mais tarde?!

– Claro que sim. Te vejo às 20h! – Polly sorriu, mordendo os lábios.

Quando estávamos sozinhas de novo, rumo ao corredor que nos separava em salas diferentes, indaguei:

– Poliana Almirante Rios, o que isso significa?!

– Isso significa que alguém entre nós se importa com a própria vida pessoal – respondeu ela, com desdém. – Se você reparasse menos no que não deve, também teria um encontro com alguém importante. Fala sério, o Luiz é maravilhoso.

– Encontro?! – perguntei, arregalando os olhos. Será que ela esqueceu do “ex” no Lovex?! – Esse aplicativo não funciona só pra encontros, Polly. Vocês não vão só no cinema e pronto.

– Eu realmente espero que não seja só um encontro e pronto – disse Polly, pro meu desespero.

– O que você quer dizer com isso?! – Eu a encarei de cima a baixo.

– Que, se depender de mim, a minha virgindade tá com os dias contados – disse ela, sumindo para dentro da sala de sua turma.

 

É claro que se realmente quisesse descobrir algo sobre Édra, eu teria que levar a minha pesquisa a sério. Isso significa gastar boa parte do meu marca-texto e das minhas canetinhas em anotações. Que o deus dos materiais escolares me perdoe por isso. Mas eu anotei tudo o que pude captar dela durante a aula.

Já que isso é um experimento sério, eu preciso avaliar tudo. Inclusive aparência física e traços da personalidade. Afinal, talvez tenham sido esses os detalhes que fizeram com que Camila se atraísse por ela. Talvez não tenha sido por um vacilo do Cadu. E se não foi, ele está em algum lugar nesse colégio (necessariamente na sala da Polly; é, sim, algumas pessoas simplesmente nascem com sorte), esperando por mim.

E, por falar nisso, não acredito que Polly vai sair com o Luiz. Tipo, cara, é o Luiz. Ele e o Cadu estão no alto nível, no topo da lista de meninos bonitos demais nesse colégio. Mas ele é igualmente metido e, por isso, só se envolve com garotas que sejam famosinhas por aqui. E o nível de popularidade da Polly se restringe a alguns cumprimentos no corredor. Ninguém me cumprimenta no corredor, então já é um começo. Só que nada se compara a você ter toda a atenção que esses garotos têm. Geralmente, eles só querem meninas que recebam das pessoas tanta atenção quanto eles. Essa regra de popularidade é meio esquisita. Uma vez na vida esses caras aparecem namorando (e iludindo) alguém que ninguém conhece. E eu não posso acreditar que essa uma vez vai ser a futura situação da Polly.

Não, fala sério. Claro que não. É Lovex, tem um “ex” no final. Não é Loverelacionamentosério. As chances desse cara só querer ser o motivo pra mais uma semana de educação sexual são grotescas.

Ai, cara, odeio ter que me preocupar com a Polly. É muito estresse envolvido. A única preocupação que tenho com a Dona Símia envolve doenças de idoso, cujos nomes eu não consigo decorar. E, pelo menos, ela toma remédios diariamente.

Alguém precisa inventar remédios pra obsessão de Polly em perder a virgindade. Mas quem sou eu pra falar qualquer coisa?! Tô aqui assistindo a Édra Norr rabiscar a carteira faz quinze minutos. Deus, como eu sou hipócrita.

São Patrique, o que falar desse colégio e de seus habitantes? Na verdade, o que falar de mim mesma enquanto os observo e até escuto suas conversas? Eu não posso acreditar que me submeti a fazer trabalho em trio com Priscila Pólvora e Tatiele Dias pra escutar fofocas. Quando eu me tornei essa pessoa?!

Polly me mandou uma mensagem no celular, perguntando onde eu tinha me enfiado. E fui obrigada a responder que, na verdade, não por escolha minha, tinha caído no trio com Priscila e Tatiele (duas pessoas que Polly odeia). É claro que ela passou direto por mim quando me viu sentada no refeitório acompanhada das duas.

E, pela primeira vez na vida, pro meu azar, elas não estavam fofocando.

– Cara, eu preciso muito de ponto nessa matéria. A gente tá nas vésperas da formatura, se eu ficar de recuperação, meus pais não vão financiar nada. – Tatiele suspirou fundo, girando o canudo dentro do copo de Coca-Cola. De manhã cedo.

Apesar do corpo de Tatiele ter aparecido em campanhas de calças jeans do shopping, aposto que ela não é saudável. Fala sério. Tudo é sobre genética. A minha genética, por outro lado, não gosta de bochechas, coxas e braços magricelos. Se eu pesquisar foto de comida, eles engordam.

Se eu engordasse como a Lulu Matias, tudo bem, porque, sério, ela é uma das garotas mais bonitas nesse colégio. E, adivinhe só, ela namora o zagueiro do nosso time de futebol, o Boca. E isso faz algumas pessoas se derreterem de ódio, porque Lulu não precisou emagrecer pra conquistar nada na vida. Inclusive... a rádio do colégio? É dela. E ela ganha uma boa grana com as propagandas. A única coisa feia em Lulu é o nome. Que mãe dá a sua filha o nome de Lucivérnia? Deus abençoe os apelidos.

Sei que é errado comparar seu corpo com o de alguém, não importa quanto ele pese. Mas essa neura com corpo tem mais a ver com as nossas próprias inseguranças, né? Ainda estou num processo com as minhas. Não desdenho delas, tento até escutar o que elas dizem sobre mim. O meu corpo vive num efeito sanfona. Ganho e perco peso o tempo todo. Mas nunca com a autoestima da Tatiele, nem a da Lulu Matias. Autoestima bem que podia ser uma coisa de comer. Que eu pudesse comprar, desembrulhar e engolir.

– E eu podia jurar que ter topado o intercâmbio me ajudaria com as notas. Mas pelo menos eu conheci o Scott. – Tatiele suspirou apaixonada. – Não me arrependo de nada.

– Espero que o Scott te dê um emprego, já que ele foi mais importante pra você do que passar de ano e fazer faculdade. Gostar de homens não dá aval pra gente ser burra – disse Priscila Pólvora, áspera, encarando as próprias unhas pintadas de vermelho.

Depois, olhou para além dos próprios dedos e avistou algo que a fez parar, dando um sorriso diabólico.

– E por falar em gostar de homens, tem gente que não tá sentindo nenhuma falta. – A risada de Priscila Pólvora parecia uma cópia fiel da de uma vilã de novela.

– Mas essa garota parece um homem. Sério. Só sei que ela é mulher mesmo porque já vi que ela usa sutiã – disse Tatiele, olhando na mesma direção que Priscila. Eu nem precisei parar de escrever no meu caderno sobre o trabalho pra saber que elas estavam falando de Édra Norr.

– Como assim você já viu Édra de sutiã? – Os olhos de Priscila saltaram. – Então Scott não foi a única pessoa que você reparou no intercâmbio. Como ela é? Meu Deus, Tati!

O intercâmbio de férias, em julho, é uma tradição bem esquisita. Você investe o seu período de férias em estudos por um mês inteiro fora do país. As cidades variam, mas nunca são famosas. As vagas são preenchidas com os alunos de outras escolas, porque é um projeto educacional coletivo da cidade e só quem está no terceiro ano pode participar. Eu sabia que três pessoas do São Patrique tinham sido escolhidas pra fazer intercâmbio esse ano. Também sabia que uma delas era Tatiele, porque Priscila não me deixava esquecer, trazendo fofocas sobre todos os alunos da escola (até mesmo os de outras salas, como a de Polly) que viajaram por meio do projeto. Só alunos que falavam inglês fluentemente ou tinham notas ótimas podiam se inscrever pro sorteio. Eu canto músicas num inglês que só eu entendo e minhas notas oscilam sempre em exatas. Polly não quis se inscrever sem mim. E Camila Dourado viajou sem Cadu Sena, o que todo mundo achou “curioso”, mas ninguém ficou especulando sobre isso. Nenhum dos jogadores foram intercambistas esse ano. E eles andam grudados como se fossem um cardume.

– Não foi bem um sutiã, parecia com os tops que eu usava pra malhar, mas ela tem peitos. São pequenos, mas existem – disse Tatiele, e dessa vez encarei Édra junto com elas. Ela estava do outro lado, no pátio, conversando com Camila.

– Deus, você ficou mesmo reparando – falou Priscila em um tom malvado, apertando os olhos pra Tati. Depois deu de ombros. – Tudo bem, até eu repararia. Tipo, não que eu já tenha ficado com garotas, mas ela é diferente, né? Chamativa.

“Chamativa.”

– Camila que o diga, né. Sabia que toda aquela aproximação ia dar em alguma coisa. Mas, ai, sei lá, não julgo. Se ela desse em cima de mim numa festa com esse cabelo, eu ficaria, porque eu com certeza ia achar que era um garoto. – Tatiele riu, sugando a Coca-Cola.

– E se ela falasse depois que era uma garota? – Os olhos de Priscila Pólvora semicerraram e ela mordeu os lábios, esperando a resposta de Tatiele.

Depois de segundos de silêncio, as duas voltaram a encarar Édra Norr, do outro lado. Nesse exato momento, ela fazia pontinho com a bola, ainda acompanhada por Camila Dourado, que dava gritos histéricos com a cena.

– Eu beijaria de novo – as palavras escaparam dentro de um suspiro dado por Tatiele. E qualquer pessoa que estivesse a quilômetros de nós poderia escutar a risada de Priscila Pólvora com a resposta. Mas, no fundo, Priscila parecia concordar com aquilo. Ela não tirava os olhos de Édra. Nem mesmo pra zombar de Tatiele, que era algo que estava acostumada a fazer nesses momentos.

Foi quando comecei a me perguntar o que eu estava fazendo naquela mesa, naquele trio. E, então, a voz de Lulu Matias ecoou por todo o pátio.

“Olá, peixinhos...” Ela começou o pronunciamento na rádio, como sempre, com essa frase. Inclusive não entendo até hoje o motivo do símbolo do nosso colégio e de tudo nessa cidade ser um peixe. Tudo bem, lideramos o mercado de pescaria do estado. Mas, cara, com tanto símbolo... “Vocês já estão se preparando para o baile de formatura? Alguns de nós sim, e se você estiver interessado em ajudar, estaremos com várias barraquinhas montadas durante o feriado de São Patrique. Dessa forma, juntaremos uma graninha pra nossa festa. Sei que faltam alguns meses até a formatura e o feriado também não está assim tão perto, mas a pressa não leva à perfeição. Por isso, já estamos adiantando as coisas a partir de hoje. Quem quiser saber mais sobre como pode ajudar, é só passar no auditório no fim da aula. Estaremos montando um mutirão pra se revezar na hora de tomar conta das barraquinhas, e as funções são bem variadas. Assim dá pra curtir o feriado e ajudar ao mesmo tempo. Então, galera, não deixem de passar no auditório, porque, se tudo der certo, nossa festa de formatura será no Palácio Alfredini.”

Pausa para os gritos excessivamente altos de toda alma presente no colégio.

“Sim, nossa meta é o Palácio Alfredini e o aluguel é muito caro, como vocês podem imaginar. Mas, fala sério, a gente consegue. O feriado tá vindo aí cheio de turistas, então agora é a nossa vez. Vejo todo mundo no auditório, beijo da gorda! Central desligando.”

Entendo os gritos. Palácio Alfredini é meio que fora da cidade, no meio do nada. Entre São Patrique e Vinhedos (será que o símbolo da cidade deles são uvas?). Mas, sério, o Palácio Alfredini é quase um monumento histórico de São Patrique. Isso porque, na época de colonização, uma parte da família imperial veio morar aqui, mas não dava pra construir um castelo nesse solo horrível de São Patrique. Antes, tudo era água na região. E até os prédios têm um certo limite de andares até hoje. Se eu não me engano, o máximo são sete. De todo modo, já tivemos vários passeios pra lá. O palácio pertence aos descendentes dos Alfredini, que são uns milionários que mandam em boa parte dessa cidade, mas nem moram por aqui. Irônico, não? Eles alugam sempre o lugar, exceto pra passeios de colégio, que são gratuitos por causa de um acordo com a prefeitura. Só nos passeios já dá pra perceber o quanto aquele lugar é irado. Tipo, sério. Irado. Dizem que é cheio de quartos e saídas secretas. Incrível. Imagine só uma novela de época filmada naquele lugar. Eu assistiria.

 

Depois de fugir tanto das atividades escolares, uma hora sua consciência começa a pesar. Falando sério, não me importo muito com a formatura, mas sou apaixonada por aquele palácio. Então, por ele, decidi ajudar. Decidi ir até o auditório no fim da aula.

É claro que, esperando na fila de cadastro pra participar do mutirão, eu não esperava ver Cadu Sena na minha frente quando chegou a minha vez.

– Então, qual é o seu nome? – perguntou, sem tirar os olhos da prancheta.

– Pêssego – respondi, soando o mais estúpida possível. – Íris.

– Engraçado... – Ele levantou os olhos, que agora estavam nos meus. Verdes e em alerta. – A minha dentista tem esse mesmo sobrenome.

– Dentista é a minha mãe. – Cara, qual é o meu problema?! – Quero dizer... a minha mãe é dentista – me corrigi.

– Ah, sim. – Cadu abriu um sorriso largo pra mim. Pra mim. – Bacana. Sua mãe é muito engraçada. Principalmente quando ela tá estressada.

– Se for assim, ela é engraçada sempre. – Me peguei dizendo, um pouco baixo. Mas ele escutou, porque riu enquanto escrevia o meu nome.

– Então... – Ele voltou a me olhar nos olhos. – Íris... Você olhou a tabela de funções do mutirão na porta do auditório? Sabe qual vai escolher?

Caraca, eu nem sequer reparei naquilo.

– Qualquer coisa. – Dei de ombros, porque não fazia ideia do que fazer. Eu só queria ajudar.

– Certo. – Cadu Sena voltou a anotar na prancheta. – Vou te colocar nas vendas, porque você tem carisma... É engraçada. Ninguém vai querer comprar nada de, sei lá, um Elton Vilas. – Nesse momento, olhamos para a mesma direção. A fila de Elton Vilas estava vazia. Ninguém queria se inscrever pro mutirão com ele. Elton, apesar de insuportável, é o presidente do grêmio estudantil (isso porque não fomos nós, alunos, que decidimos). E, fala sério, esse cara só é queridinho dos professores porque ele é um puxa-saco.

Mas vamos esquecer Elton Vilas por um momento e pensar no quanto sou carismática e engraçada. Meu... Deus... Do... Céu. Suspirei fundo. Já conseguia imaginar nossos filhos estudando naquele colégio, as comidas que eu provavelmente deixaria queimar e a nossa casa, que bem que poderia ser o Palácio Alfredini (sonhar é de graça). Mas antes que eu pudesse sequer agradecer ao Cadu por ter me deixado no ápice da timidez com aquele elogio, fui sugada pra Terra.

– Próximo – gritou ele, olhando para além de mim. E fui empurrada pra fora da fila por Júlia Pinho, a poluidora de ambiente mais desprezível de São Patrique. Espero que a coloquem na limpeza. Nesse caso, eu faria questão de jogar inúmeras embalagens no chão.

Alguém me puxou pelo braço.

– Quê?! – Eu me virei abruptamente.

Era Polly.

– Você teve a chance da sua vida, me diz que você pegou o número de telefone dele. – Polly me encarou, ofegante.

– Claro que não – eu disse, porque, obviamente... claro que não. – Você não viu o tamanho dessa fila e o empurrão que eu levei?

– Cara, de todas as pessoas que já conheci na vida, você é quem mais deixa oportunidades passarem. – Polly revirou os olhos, e tomamos nosso rumo pra fora do auditório. – Você tá tão preocupada com a nova namorada da Camila que tá esquecendo que Cadu Sena está solteiro pela primeira vez em três anos. Fala sério.

Eu não soube o que falar em minha defesa, porque era meio que verdade. Eu estava perdendo a chance da minha vida com o futuro pai dos meus filhos. O que eu tô fazendo?!

– É época de formatura, Íris. Você vai terminar virgem, sozinha e sem Cadu Sena. – Polly deu tapinhas de leve no meu ombro. – E tudo isso porque você quer. Tá tudo bem na sua frente, mas você não aproveita.

Quando chegamos na saída do colégio, Polly se virou pra mim e pude ver Sandra Rios em sua Hilux branca, acenando para nós.

– Você quer carona? – Polly perguntou.

– Não, vim com a yellow – respondi, tentando sorrir. Polly sabia sobre ela.

– Cara, essa bicicleta marcou a nossa infância. – Polly sorriu pra mim, encarando a chave do cadeado da yellow na minha mão. – A gente se fala, então! – falou ela, se afastando. – Te conto como foi com o Luiz depois. Tchau!

Ficamos eu e a yellow, sozinhas. Enquanto caminhava até o bicicletário, comecei a pensar sobre as verdades que Polly tinha acabado de jogar na minha cara.

Eu realmente sou apaixonada por Cadu Sena, jamais negaria isso pra mim mesma. Eu sei disso. Ele é incrível. Mas é mais difícil do que parece, você ter a cara e a coragem de se jogar em cima da pessoa de quem você gosta. Quem me garante que vai ser recíproco? Sim, sou medrosa pra essas coisas. A vida não é como Amor em atos. Não vivo uma novela. Eu e Cadu não nascemos pra ser protagonistas juntos. É meio o que sinto lá dentro, embora quisesse que não fosse verdade.

Ao mesmo tempo, vejo Polly prestes a conseguir o que ela realmente quer, e só custou um esforço extra. Não parece tão impossível assim, quando você vê pessoas próximas conquistarem algo. Parece que dá mais fôlego. Só que eu ainda tenho medo disso tudo. Apesar de que saber que Cadu Sena me acha engraçada o suficiente pra vender no mutirão me faz ter um pingo de coragem de, pelo menos, dar oi pra ele na próxima vez que nos encontrarmos.

É, estou esse tempo todo focando na pessoa errada. Preciso levar mais a sério a minha formatura e os meus objetivos. Investigar uma garota aleatória não vai me ajudar em nada. Se eu quiser realmente saber algo sobre o Cadu, que eu simplesmente pergunte a ele. Não vou saber nada investigando terceiros.

Foi por isso que arranquei a folha em que tinha escrito coisas sobre Édra e joguei no lixo ao lado do bicicletário. É. Tá na hora de seguir em frente. Focar no que realmente importa.

– Nunca mais tinha visto essa bicicleta amarela por aqui. – Uma voz desconhecida surgiu atrás de mim.

Será que me viram jogando aquele papel fora? Socorro. Já era. Agora fui pega no flagra. Não tem mais como fingir que não sou louca. Mais tarde vão descobrir sobre Dona Símia, Amor em atos e o incidente do xixi.

Me virei e meu desespero triplicou. Édra Norr estava bem na minha frente e, em fração de segundos, agachou-se pra destrancar a bicicleta preta do lado da minha yellow.

– Como assim?! – indaguei, tentando não parecer nervosa. – Eu quase nunca venho de bicicleta.

– Você até que vinha antes de ficar com catapora – disse ela, liberando sua bicicleta da corrente.

Deus, alguém reparou na minha ausência naquela época. Obrigada.

Não, espere, ela sempre estudou na minha sala? Digo, desde essa época?! Onde eu estava com a cabeça durante todo esse tempo?

Mais uma vez demorei muito até (saber se devia) falar algo, as pessoas sempre me largam sozinha em cena.

– Até – ouvi sua voz dizer enquanto ela subia na bicicleta preta e pedalava rumo ao portão de saída da garagem, deixando pra trás, soprado pelo vento, um rastro forte de perfume misturado ao aroma de... hum... talvez shampoo?!

Respirei fundo e observei Édra sumir de vista, pedalando em pé para ganhar velocidade. A mochila balançava nas costas, seguindo o movimento do corpo. O seu cheiro foi se alastrando pelo ar, bem embaixo do meu nariz, até se esvair de vez.

Quão escassa é a minha dignidade por ter enfiado a mão na cesta de lixo logo depois disso?

É, posso imaginar que ela nem deva existir mais.