O Amor Não é Óbvio

Elayne Baeta · Capítulo 20 de 27

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O Amor Não é Óbvio

18 | Laranja ultraforte

LARANJA ULTRAFORTE

 

Segundo a teoria da insegurança mundial das pessoas banais, ainda que você tenha o melhor beijo do mundo, você sempre vai sentir como se não soubesse beijar quando estiver prestes a dar um beijo na boca de alguém que te intimida. Que te causa calafrios, sabe, em todos os centímetros do seu corpo. E isso é completamente normal e aceitável. É que você quer tanto (tanto) que saia de uma forma perfeita – para que você possa repassar aquela cena com sua playlist favorita inteira, até com as músicas tristes – que não sobra tempo para errar nisso. Os dentes não podem se encostar, mordidas não podem ser muito fortes, a velocidade não pode ser acelerada demais, sua respiração não pode ser tão perceptível, seu olho não pode abrir antes da hora, você tem que virar a cabeça no momento certo, seu hálito tem que estar agradável, você precisa saber exatamente o que fazer com suas mãos.

Então quando eu digo que tá tudo bem se sentir insegura com o primeiro beijo na boca de alguém que te intimida, é porque realmente tá tudo bem. E quase nunca os primeiros beijos são bons. Você precisa se acostumar com aquela boca, até saber o que exatamente fazer com ela, de um jeito que agrade a pessoa e você. Cada um gosta do seu beijo de uma forma. Sucesso em amassos é algo conquistável. Às vezes, por pura sorte, acaba sendo extremamente bom de cara.

Só que até você conseguir escutar a sua playlist com uma cena de beijo memorável... Há insegurança. Tá tudo bem, e é uma pena ser tão difícil se convencer disso.

E é por isso que vim parar no banheiro do Submundo com uma grande vontade de vomitar. Eu queria que fosse perfeito. E eu estava tão insegura em simplesmente pagar pra ver. Queria alguma certeza de que realmente seria. Porque é claro que eu não suportaria existir mais nesse planeta se não fosse.

O DIA “D” 7 OU 6 HORAS ANTES

Eu estava apavorada, e quando estou apavorada, eu recorro à internet.

Talvez não seja o meio mais confiável, mas sempre haverá dúvidas piores que as suas. E, bom, quebre o meu galho, eu nunca tive um encontro com uma garota antes. Exceto quando Polly me convidou pra tomar sorvete e depois eu descobri que ela estava usando a minha companhia para ter mais coragem de flertar com Henri Benninson, no nono ano. Ou pra se sentir menos feia, seguindo a teoria de que se você ficar perto de alguém feio, você parece mais bonito. E eu era muito horrorosa antes do Ensino Médio. (Não que muita coisa tenha mudado.)

Não sei se um encontro com uma garota funciona da mesma forma que um encontro com um garoto. Consigo me lembrar infinitamente bem de como meu encontro com Cadu Sena tinha ocorrido. E, apesar de tentar bloquear Cadu Sena totalmente dos meus pensamentos, eu ainda pensava nele. E ainda abria a última mensagem dele e respirava fundo sem ter o que fazer.

Não é como se eu não ligasse mais para Cadu Sena. É que algo estranhamente maior me puxa para Édra Norr. Eu gostei de Cadu Sena durante anos; eu gosto de Édra Norr exatamente agora, enquanto penso sobre isso. Entende? São sentimentos do passado batalhando contra sentimentos atuais. E os atuais certamente estão mais vívidos e ardilosos. Porque são mais recentes. Recém-saídos do fogo. Como uma comida maravilhosa que você come queimando sua língua, porque você nem consegue esperar que ela esfrie. (E você até tem medo de que ela esfrie e o gosto mude totalmente.)

Eu estava me sentindo assim. E precisava estar preparada para lidar com isso. E é por esse motivo que tive que pesquisar se eu deveria me depilar ou não.

Certo, sem risadas da minha cara. Eu não tenho ninguém pra me explicar essas coisas. Um PDF sobre a história da luta pelo empoderamento feminino aborda um pouco sobre depilação, e diz não ser algo obrigatório nem necessariamente bom para o seu corpo. O ideal mesmo é tudo que cresce na gente ficar. Só que meus pelos me pinicam. Então, sim, eu me depilo às vezes. Conclusão: não é obrigatório que você se depile, mesmo que todos os blogs escritos por homens que eu li façam parecer o contrário.

Um manual fervente diz que você sempre precisa estar preparada para você sabe o quê. E preparada significa confortável. Sendo assim, você precisa seguir todos os seus rituais particulares para se sentir bem com seu corpo se você acha que existe uma chance (ainda que mínima) de acontecer aquilo.

Não que eu queira ou esteja esperando que Édra Norr faça algo comigo no carro dela, com os vidros trancados, em algum estacionamento deserto, com o rádio ligado, como na cena de Devoradores insensíveis, o melhor filme de romance e ficção científica que existe.

Querer eu não quero, mas, você sabe, estamos falando de uma garota que se insinuava para Camila Dourado através de olhares.

Édra Norr tem cara disso, cheiro disso, olhar disso e um sorriso torto de quem está sempre pensando nisso.

Então, uou, desculpe se estou soando muito “espertinha” por estar me precavendo. Apenas estou cuidando de mim. Não é grande coisa. Estou em três numa escala de obsessão por assuntos mundanos que vai de zero a Polly.

– Íris? – chamou mamãe do lado de fora do meu quarto, na minha porta. Ela deu alguns “tocs” na madeira envelhecida e minimizei todas as minhas janelas sobre “Sexo lésbico: as melhores posições”, “O que ela está pensando de você?”, “A depilação perfeita talvez seja não se depilar: um manual de libertação”.

E, como não é nenhuma novidade, Jade Pêssego entrou antes que eu pudesse dizer “Ei, mãe, pode entrar”. Ela nunca respeitou a minha privacidade nesse quarto.

– Amanhã é a véspera do feriado de São Patrique e o início do festival. A cidade vai encher de gente esquisita de fora – disse ela, sem tirar a mão da maçaneta que acabara de girar (sem a minha autorização). – Nós vamos viajar e você sabe que não podemos te largar completamente sozinha aqui, não é?

– Eu já tô bem grandinha – falei com a minha voz mais enjoada, revirando os olhos.

– Eu confio em você, eu só não confio nos idiotas que compram camisinhas no supermercado.

Quase vomitei de ter que ouvir a minha mãe falar isso, sério.

– Ou seja, vovó. – Balancei a cabeça negativamente.

Como ela podia me confiar com uma idosa que toma os próprios remédios com cerveja quente (que todo mundo sabe que é uma merda)? Vovó é biruta!

– Ou seja, mamãe. – Ela riu maliciosamente. – Você vai sobreviver e poderá sair à vontade. Ela está com um namorado e também vai ao festival. Eu só não quero que você fique até tarde na rua – disse mamãe, puxando a porta para fechá-la. – Nem grávida.

O DIA “D” 4 OU 3 HORAS ANTES

Eu estava na minha vigésima terceira peça de roupa quando o meu celular começou a tocar. Tocar mesmo. Com a minha música favorita da Sza, “Prom”. E isso é estranho, porque ninguém nunca liga para o meu celular. Nem mesmo Polly ou meus pais. Sempre recebo mensagens. Então, imagine o susto que eu levei quando uma foto de Édra Norr apareceu na tela, me perguntando se eu queria atender ou recusar aquela chamada.

Édra Norr. Me ligando.

Fiquei tanto tempo encarando aquilo que perdi a chance de atender. Graças a Deus, ela me mandou uma mensagem logo depois disso.

 

Ei 16:46

 

Eu juro que estou tentando fazer tudo cedo para não me atrasar, só que, cara, minhas roupas são mesmo ridículas 16:47

 

Édra Norr está digitando.

 

A Dilma vai com a gente? Achei que fôssemos só nós duas 16:48

 

Aff, eu tô falando sério 16:48

 

Sou só eu, Íris. Não é como se isso fosse pior do que te ver usando a roupa da minha avó 16:49

 

Hahaha, brincadeira. Você tava do caralho naquele dia 16:49

 

Acho bem difícil eu ficar do caralho hoje 16:49

 

Agora eu tô ficando nervosa. Tenho que ir de smoking ou alguma coisa assim? 16:50

 

Você tá agindo como se a gente fosse pra, sei lá, o baile de formatura 16:50

 

Não, mas eu também vou estar ridícula nele 16:51

Eu pretendo estar do caralho. Principalmente porque o meu pai me ama o suficiente pra comprar o meu voo na madrugada da festa 16:52

 

Eu preciso me despedir bonita, pelo menos 16:52

 

Íris? 16:53

 

Como assim seu voo é na madrugada da festa? Que voo? 16:53

 

Eu vou pra Montana fazer o exame de uma faculdade particular, que eu prometi ao meu pai. Você sabe, por causa da cirurgia de vovó 16:54

 

Nossa, agora eu faço questão de ir feia pra esse encontro 16:55

 

Hahaha Por quê? 16:55

 

Você tá me chamando pra sair justamente quando você tá numa contagem regressiva pra ir embora de novo. Você é muito idiota 16:56

 

Não é como se a gente não fosse se ver nunca mais. E ainda tem a internet 16:57

 

Você pode me mandar nudes. 16:57

 

Sonhe muito com isso 16:58

 

Eu já sonhei 16:58

 

Édra Norr está digitando.

 

Eu também 16:59

 

Hahaha Brincadeira. 16:59

É brincadeira também, né. Hdhsiudh Claro 17:00

 

Eu quero saber por quanto tempo você vai continuar fingindo que não quer me beijar 17:03

 

Prefiro sua boneca careca ridícula. 17:05

 

Pelo menos ela não vai embora na madrugada da festa de formatura. 17:05

 

O que é pior: se permitir e ter uma boa memória disso ou... 17:06

 

Me deixar ir embora e nunca saber como poderia ter sido? 17:07

 

Eu prefiro que você morra. 17:07

 

Vou dar o meu máximo pra engasgar com o milk-shake mais tarde. 17:08

 

Te busco daqui a uma hora. 17:09

 

O DIA “D” 2 OU 1 HORA ANTES

Tive que olhar dez ou dezessete vezes o meu vestido na frente do espelho, ouvindo as buzinas apressadas de Édra Norr escalarem a minha janela, tomando conta do meu quarto com aquele barulho infernal. É claro que Margot se irritou, isso porque ela não sabe o que aquele barulho infernal significava pra mim. Era o dia D. Tudo precisava ser perfeito. Mesmo meu vestido de brechó, ultramega simples. Todo liso e preto, mas a alça dele é tão fina que parece que vai estourar a qualquer momento. E isso o deixa com um ar tão Júlia. Eu só vesti e me sufoquei para não pensar na hipótese de tirá-lo.

Depois de um último suspiro e uma passada de mão no meu cabelo, desci as escadas, eufórica. Mamãe e papai estavam ocupados demais dando os últimos retoques no Pêssego’s para saber que eu era uma aspirante a lésbica.

Tentei repassar na minha cabeça todos os conselhos de Dona Símia sobre Édra Norr.

“Édra planeja muito antes de agir. Isso a deixa mais segura para tomar atitudes. Se ela tem um plano, acredite, ela pensou muito sobre ele. E, na grande maioria das vezes, vale a pena ver até onde vai.” Check.

“Édra gosta de ensinar as coisas para as pessoas. Isso faz ela se sentir mais especial. Então, mesmo que você saiba fazer uma coisa, deixe que ela ao menos te mostre o jeitinho dela de fazer, com seus truques e rituais. Ela fica toda cheia de sorrisos, achando que realmente te acrescentou algo, e vai querer te mostrar tudo do mundo na versão dela depois disso.” Check.

“Édra é muito educada, ela não vai querer te beijar se você ficar demonstrando o nervosismo de alguém que não quer ser beijada.” Check. Supercheck.

– Olha – disse Édra assim que apareci na porta da minha casa. – Você tem um grande problema com horários. Mas eu vou te desculpar por causa do seu vestido.

Revirei os olhos sorrindo enquanto abria a porta do carro, tentando descer o meu vestido um pouco mais, porque ele estava mesmo curto. Só que ele era daquele tamanho. Não consegui dizer muita coisa, e isso pode ter um pouco a ver com toda a nossa conversa meio “flerteira” por mensagens mais cedo, mas também pode ter um pouco (muito) a ver com Édra Norr de blusa preta.

Uma coisa é Édra Norr. Outra coisa é Édra Norr de blusa preta.

– Você não vai me perguntar pra onde eu tô te levando? – indagou ela, tentando prestar atenção nas ruas de São Patrique, dirigindo em velocidade mediana.

O pneu deslizava sobre o asfalto de uma forma tão agradável.

– Não é como se você fosse me sequestrar ou alguma coisa do tipo. – Arfei dentro de um sorriso. Eu estava dividida entre assistir a Édra Norr controlando aquele volante como uma verdadeira badass de um filme de corrida e olhar as árvores de São Patrique.

– Eu não teria tanta certeza assim, se eu fosse você.

Minhas sobrancelhas arquearam.

– Olhe pra trás – pediu ela, olhando o banco pelo retrovisor por alguns segundos.

Tinha uma pá. Uma. Pá. Coberta por uma capa de proteção transparente. Dava pra ver que a pá estava suja com terra e grama.

– Agora eu tô assustada. – Senti meus músculos enrijecerem no banco. – Por que tem uma pá no banco de trás? – indaguei, rindo de nervoso.

Édra Norr começou a gargalhar da minha cara, sem nem olhar para mim.

– Calma, eu fui ajudar a reformar o jardim do lugar onde eu dou as aulas de música pra crianças. – Ela sorriu, me fazendo reparar no pescoço, no maxilar marcado, nos sinais de nascença e cabelinhos na sua nuca.

– Está indo tudo bem lá? – perguntei com o coração completamente quente da lembrança que eu tinha daquele lugar.

– Sim. As crianças estão indo tão bem que poderiam comandar o feriado, seria incrível. Mas eu nunca iria poder me apresentar junto. Por causa de – e fazendo uma voz bem nojenta, ela continuou – “toda a história sobre não ter o curso superior pra oferecer aulas beneficentes” e “não posso ser demitida e perder o plano de saúde”. Você sabe.

Édra estava zangada. As feições dela mudaram rapidamente. E eu, não querendo aturar mais um segundo daquela cara de zanga, tratei logo de mudar o assunto.

– Relaxa. – Dei uma cotovelada leve no braço que ela usava para passar as marchas. – Você não participaria da apresentação de qualquer forma. Você vai morrer hoje engasgada com milk-shake, lembra?

Nos entreolhamos maliciosamente e sorrimos uma para a outra.

O PRIMEIRO “CHECK”

– Depois daqui – disse Édra, por trás do cardápio que cobria toda a sua cabeça, exceto os olhos escuros, fixos em mim, do outro lado da mesa. – Vamos passar no Submundo. Eu soube que vai rolar uma festinha legal por lá.

Engoli um bolo. É porque eu estava tão nervosa de estar ali dentro com ela e não do outro lado com um binóculo na mão que eu não sabia exatamente como agir.

– Tudo bem? – Ela inclinou a cabeça, abaixando o cardápio até o nariz.

“Édra planeja muito antes de agir. Isso a deixa mais segura para tomar atitudes. Se ela tem um plano, acredite, ela pensou muito sobre ele. E, na grande maioria das vezes, vale a pena ver até onde vai.”

– Tu-tudo bem. – Tossi, para disfarçar que tinha acabado de gaguejar.

Check.

Então Édra abaixou o cardápio inteiro, largando a encadernação sobre a mesa. Todo seu rosto ficou – feliz ou infelizmente – à mostra. Especialmente a boca (que é bem difícil de não notar, quando ela está passando a língua entre os lábios enquanto suspende a mão para chamar a garçonete).

Édra Norr. De blusa preta. Do outro lado da mesa, em um encontro. Comigo.

– Eu vou querer, hum – começou a dizer, apertando os olhos pro cardápio jogado em cima da mesa, entre nós duas. – Um milk-shake de qualquer parada.

Ela disse, blasé. E tanto ela quanto a garçonete me encararam, esperando que eu falasse o que eu queria.

Deus, eu queria tanta coisa.

– Eu também quero um milk-shake de “qualquer parada”. – Ri ligeiramente, de nervoso. – Por que você não escolheu um sabor? – perguntei a Édra, quase que sussurrando, assim que a garçonete deu as costas pra nós, como se fôssemos alienígenas. E éramos.

– Você quer que eu morra engasgada com esse milk-shake. – Édra espremeu os olhos pra mim. – Não seria meio sádico se eu ainda escolhesse o sabor?

– Não, até porque, em algumas cadeias, quando o preso está prestes a ser executado, deixam que ele escolha a própria refeição – disse, com um sorriso bem suspeito nos meus lábios. Eu adorava ser bizarra às vezes e saber dessas coisas, preciso admitir. Vi numa novela.

Mas Édra provavelmente só focou na parte bizarra e ficou me analisando, com uma cara bastante confusa e de boca entreaberta.

– Me lembre de esconder aquela pá bem longe de você quando a gente sair daqui.

Foi tudo o que ela me respondeu, segundos antes de cairmos na risada.

O SEGUNDO “CHECK”

Fiquei observando Édra Norr retirar uma garrafa de bolso prateada de seu jeans cinza-escuro, quase tão preto quanto A blusa preta. Ela olhou em volta muito rapidamente enquanto girava a tampa e despejou quase que o frasco inteiro em seu milk-shake de “qualquer parada” que a garçonete tinha acabado de deixar na frente dela. Eu estava no meu terceiro gole seguido, tentando entender exatamente qual era o sabor que o meu milk-shake de “qualquer parada” tinha. E podia jurar que era algo entre morango e melancia.

– O que você tá fazendo? – perguntei, bem mal-educada, com o canudo ainda enfiado dentro da minha boca.

– Deixando o milk-shake mais divertido. – Ela sorriu maliciosamente, guardando a garrafa de volta no bolso do jeans.

É claro que eu percebi que ela tinha acabado de jogar alguma bebida alcoólica no milk-shake. E tenho certeza disso, porque vovó tem uma garrafa idêntica para o mesmo propósito.

– Credo. – Revirei os olhos, mordiscando os micropedaços de fruta e sei lá o que que flutuavam na minha boca. – Você parece a minha avó.

Mas Édra, como sempre, estava adorando ter alguma atitude reprovada por qualquer pessoa que fosse. Especialmente se essa pessoa for eu.

– Você também parece a minha.

Foi o que ela respondeu, dentro daquela cara extremamente prepotente de quem sempre sabe o que falar, enquanto girava o canudo dentro do copo.

Édra foi bebendo e os assuntos foram surgindo. Por algum motivo ainda não identificável, eu não conseguia prestar atenção em nada direito. Eu não consigo contar agora sobre o que estávamos falando. Não consigo dizer nada. Mas, eu juro, estava prestando atenção em tudo. Não em tudo o que ela estava falando, mas em tudo nela. Olhos, boca, respiração, dentes molares, o jeito de franzir o nariz antes de abrir um sorriso cínico, os cílios, o lábio superior com um bigode de espuma sendo desmanchado pela língua dela, o brinco brilhando com a luz do sol (perto de se pôr) que vinha do lado de fora.

Ela gesticulava. Parecia empolgada. Eu ouvia algumas palavras soltas como “queda” e “tacos”, e nem tentei entender o nexo. Eu simplesmente não conseguia. Ela estava bem ali na minha frente. Só pra mim. Ela estava ali por mim e comigo. E não precisei do zoom do binóculo pra reparar que ela inteira, em cada sinal que eu pude captar, era a criatura mais bonita que eu tinha visto na vida.

– E é por isso que você precisa saber como é a sensação – disse Édra Norr, me puxando para a Terra.

– A sensação de quê? – Não hesitei em parecer completamente confusa e estúpida por não ter escutado uma palavra.

Mas Édra não pareceu notar o meu devaneio. Ela só deu de ombros, levantando da mesa.

– Ué, a sensação de jogar sinuca.

Ela estava de pé, jeans quase preto, olho quase preto, cabelo quase preto e blusa preta, olhando para mim como quem esperava que eu me levantasse logo.

– Você não quer ver como seria? Posso te passar uns truques.

“Édra gosta de ensinar as coisas para as pessoas. Isso faz ela se sentir mais especial. Então, mesmo que você saiba fazer uma coisa, deixe que ela ao menos te mostre o jeitinho dela de fazer, com seus truques e rituais. Ela fica toda cheia de sorrisos, achando que realmente te acrescentou algo, e vai querer te mostrar tudo do mundo na versão dela depois disso.”

– Ok. – Eu sorri com os lábios selados, me levantando da mesa com o resto do meu milk-shake de “qualquer parada entre morango e melancia”.

Me arrastei até os fundos do Banana Club, tendo que encarar as costas de Édra Norr durante todo o percurso. Eu gostava do fato de que, assim como eu, ela não era alta, e isso me dava um ótimo ângulo para namorar a nuca dela e todos os cabelinhos que pareciam sempre arrepiados (sem mencionar os sinais que correm do pescoço e vão se escondendo para dentro das blusas que ela veste).

Ela abriu um sorriso sacana quando alcançou os tacos, puxou um deles e jogou na minha direção, como se eu tivesse alguma coordenação motora pra agarrar isso no ar. Só que, graças a Deus, eu tive.

Obrigada, Senhor, por ter me eliminado dessa vergonha em específico.

Édra organizou as bolas numa espécie de triângulo – meu Deus, eu não sei o nome de absolutamente nada dentro de um jogo de sinuca. Depois ela ajeitou a ponta do taco com um outro treco, se inclinou inteira com uma cara muito suspeita de quem iria assassinar alguém.

Os olhos apertados, as sobrancelhas juntas na testa, a boca entreaberta que me dava uma visão dos dentes insuportavelmente impecáveis. Coluna torta, braço esticado sobre a mesa de bilhar. Édra afastou os dedos e foi deslizando o taco entre eles. E afastando e afastando... Como se o taco fosse uma flecha.

Um toque e todas as bolas se espalharam. Em grande parte, sendo engolidas pelos buracos da mesa.

Édra Norr sorriu, vitoriosa e cínica. Muito cínica. Com um olhar tão prepotente que chegava a ser antipático. E, para o meu enorme desespero, dentro da droga de uma blusa preta.

– Sua vez – disse ela, caminhando até o bebedouro, bem nas nossas costas.

Eu não sabia o que fazer, então, só tentei imitar. Me curvei, estiquei os meus braços, tentei segurar o taco e... Senti as mãos de Édra Norr segurando meus ombros com firmeza.

– Em primeiro lugar – começou a dizer –, relaxe os ombros.

Check.

– Em segundo lugar... – Senti sua perna direita passar exatamente pelo meio das minhas. – Afaste suas pernas.

Ela separou as minhas pernas, antes grudadas, uma da outra, usando a própria coxa e o joelho. Nesse momento, eu já não estava mais no controle da minha respiração.

Check.

– E por último... – Senti sua voz suave bem atrás da minha orelha esquerda, com o soprar de um hálito quente. – Seja o taco.

A mão direita de Édra Norr apertou a minha cintura, numa tentativa de me ajeitar. Em seguida, foi deslizando pela minha coluna, até que eu me inclinasse sobre a mesa de bilhar, ficando quase que na mesma direção do meu taco, apoiado sobre a minha mão esquerda. Senti o meu vestido subir vagarosamente enquanto eu me inclinava.

Nunca use vestidos curtos para jogar sinuca. Check.

Dei um toque e todas as bolas foram se espalhando e rebatendo de todos os lados. Mas apenas duas sumiram para dentro dos buracos. Eu realmente devo ser péssima nesse jogo.

– Não foi tão ruim assim. – Édra sorriu, surgindo do outro lado da mesa, pronta para mais uma tacada. – A prática leva à perfeição.

– Deve ser por isso que eu sou péssima em tudo – resmunguei, pensando alto.

– Você é boa em esconder coisas – resmungou Édra de volta, levando mais bolas até os buracos na mesa de bilhar.

Era a minha vez de novo e eu, bom, tentei repassar todos os passos de Édra Norr sozinha. Foi falho; eu relaxei os ombros, me inclinei, mas era impossível “ser o taco” se tudo o que eu conseguia ser era a réplica de um binóculo, observando ela do outro lado, inclinada na mesa, distraída com o celular.

– Eu acho que o nosso jogo vai ter que ficar pra depois – disse Édra, parecendo distante e preocupada.

Minhas sobrancelhas franziram.

– O que houve? – Arfei, impaciente, presumindo que algo tinha dado errado. Porque sempre alguma coisa precisa dar errado pra mim.

– Nada de mais – respondeu ela, abrindo um sorriso involuntário na minha boca. – É que a fila pro Submundo já tá enorme. E eu quero muito te apresentar uns amigos.

O DIA “D” 40 MINUTOS ANTES

Tudo com Édra Norr era diferente. Ficamos na fila do Submundo por pouquíssimo tempo, até que ela conseguisse falar com o rapaz da barba cor-de-rosa, que, aparentemente, é um grande amigo dela. Ele fez com que entrássemos sem mofar naquela linha quilométrica de pessoas. E sem mostrar nossas identidades. Só que não foi por isso que comecei a suspeitar que tudo estava diferente, e sim por nem parecer que eu estava no fim de uma fila dessas. Édra Norr me deixava tão flutuante e leve com suas piadas estúpidas que eu até esquecia que estávamos esperando para entrar na festa. E eu odeio muito esperar. Talvez eu seja a pessoa mais impaciente da face da Terra. Só que Édra Norr transforma toda a minha impaciência em paciência, porque, quando ela começa a falar sem parar sobre qualquer coisa, eu esqueço de todo o resto. Apesar de que eu quase nunca presto atenção ou quase sempre desvio o olhar.

É bem difícil conversar com alguém como Édra Norr, com aqueles olhos dela. Especialmente porque ela não é o tipo de pessoa que para de te olhar durante uma conversa. Ela sempre fica ali, olhando diretamente dentro do seu olho, como se tivesse dando toda a atenção do universo pra você. E isso é tão intimidador que não consigo simplesmente continuar encarando-a de volta. Uma hora ou outra eu sempre olho pro lado ou pros meus pés.

E eu fiz isso dentro do carro, até estacionarmos perto do Submundo. Fiz isso enquanto andávamos um pouco até lá, e fiz isso durante a fila inteira.

Mas agora estávamos uma de frente pra outra, com bebidas nas mãos. E quanto mais o álcool percorria a minha corrente sanguínea, mais difícil ficava olhar para outra pessoa que não fosse Édra.

Mesmo levando em consideração que todas as amigas dela – que são lindas – estavam conversando comigo. De alguma forma, Édra sempre consegue se destacar entre as pessoas. Ou tudo isso é um grande monólogo apaixonado, que a gente começa a ter quando está bêbada.

– E vocês lembram quando Juliana ficou presa no banheiro? – uma das amigas de Édra começou a falar superalto e rindo, tentando se sobressair em meio ao barulho da música e das pessoas. Todos pareciam rir e entender a história.

Mas eu estava só ouvindo, sem necessariamente escutar. Édra Norr estava na minha frente, olhando para mim, séria, enquanto passava o dedo indicador pela borda da garrafa long-neck de uma bebida chamada “Dear Caribe” que ela havia comprado quando entramos. Eu estava olhando para Édra, séria, apertando a minha própria garrafa (de uma bebida alcoólica de frutas vermelhas) com tanta força que era como se eu fosse explodi-la a qualquer momento.

– E quando Édra ficou com a irmã gêmea de Tábatha achando que era ela – gritou, entre risos, a outra garota, com uma camiseta com a frase “Girls Only”. A informação puxou uma risada coletiva. Até a minha. Deus. – Como era mesmo o nome da irmã da Tábatha?

– Ôh! – Édra abriu os braços, confusa. – Guardem o resto dos meus podres pro diabo.

– Ah, para. – A outra garota de cabeça raspada revirou os olhos enquanto inclinava o pescoço na direção de Édra. Pude notar uma tatuagem de libélula na nuca. – Suas histórias são as melhores.

– Vou aproveitar e contar pro diabo que você continua com essa mania feia de dirigir e beber. Aposto que você veio de carro, né?

Voltei a encarar Édra, que lançava um olhar fuzilante em direção às amigas. Tinha um sorriso amarelado, e o nariz, corado, embaixo da luz em rosa néon que iluminava o grupo (e que oscilava para azul e roxo o tempo inteiro).

– Já deu. – Édra balançou a cabeça negativamente, virando mais um gole. Meus olhos deram um zoom completo no seu pescoço e, em seguida, nos lábios brilhando por causa do líquido.

– Tudo bem, parou, parou – disse “Girls Only”, brincalhona, num sorriso cínico. – Mas como era o nome da garota mesmo?

– Dalila. – Disparou “tatuagem de libélula”, tentando segurar a risada.

Mas era tarde demais. Todas já estavam gargalhando. Eu, inclusive, e eu nem sabia da história. Édra não conseguiu se conter e acabou rindo dela mesma também. Eu só não esperava que, no meio de toda essa risada, Édra fosse sair me puxando pelo braço, pro meio da pista de dança.

O SUPER “CHECK”

– Esse foi um jeito bem pré-histórico de me chamar pra dançar – provoquei, quando ficamos sozinhas, de frente uma pra outra.

– Eu não te puxei pra dançar, eu nem sei dançar. – Édra deu de ombros, virando a garrafa na boca por três segundos. Contei três goladas de “Dear Caribe”.

– E o que você tá tentando fazer, então? – indaguei, olhando em volta. Todo mundo estava dançando, mas nós duas estávamos olhando uma pra outra. Sem fazer absolutamente nada.

– Eu tô tentando te salvar da minha péssima reputação – brincou Édra, entortando a boca pra um canto.

– Você não precisa me “salvar” disso. – Apertei meus olhos, tentando imitar a expressão dela (meio autoritária) pra mim. – Uma hora eu vou ter que perder a minha virgindade de você.

– Ah, é? – Vi os dentes de Édra apertarem seu lábio inferior num sorriso cínico.

– Digo, a virgindade das suas histórias. – Sorri sem graça, me sentindo uma completa idiota por ter acabado de cortar o clima.

“Édra é muito educada, ela não vai querer te beijar se você ficar demonstrando o nervosismo de alguém que não quer ser beijada.”

Mas e agora? Eu não sei não parecer nervosa. É claro que estou nervosa. Meu coração só falta escalar minha garganta e saltar para fora da minha boca.

Édra estava olhando em volta, tentando balançar a cabeça para parecer menos uma “não pertencente à tribo das pessoas dançantes” na festa.

Tudo o que eu conseguia pensar era que eu não queria que ela achasse que eu não queria. Me entende? Eu não queria que meu nervosismo estragasse tudo. Eu não queria que os meus sentimentos que fervem por Édra Norr me impedissem de ter Édra Norr. É complicado. Nunca me senti tão nervosa por estar prestes a beijar alguém assim antes. Tudo o que eu consigo pensar é na vontade de que ela me beije aqui e agora. Mas, ao mesmo tempo, eu quero sair correndo. Porque eu não quero que dê errado.

Estamos sem assunto, extremamente próximas e sozinhas. Tem uma música aleatória tocando, pessoas dançando ao nosso redor, estamos bebendo e ela não para de me olhar e olhar em volta o tempo inteiro.

Vai acontecer. Precisa acontecer. Mas e se? E se for ruim? E se eu beijar errado? E se ela não gostar? E se alguém estragar tudo? E se depois ficar tudo esquisito entre nós duas? E se eu ficar ainda mais apaixonada quando ela for embora?

Segundo a teoria da insegurança mundial das pessoas banais, ainda que você tenha o melhor beijo do mundo, você sempre vai sentir como se não soubesse beijar quando estiver prestes a dar um beijo na boca de alguém que te intimida. Que te causa calafrios, sabe, em todos os centímetros do seu corpo. E isso é completamente normal e aceitável. É que você quer tanto (tanto) que saia de uma forma perfeita – para que você possa repassar aquela cena com sua playlist favorita inteira, até com as músicas tristes – que não sobra tempo para errar nisso.

Só que até você conseguir escutar a sua playlist com uma cena de beijo memorável... Há insegurança. Tá tudo bem, e é uma pena ser tão difícil se convencer disso.

– Édra – comecei a dizer, sem conseguir olhar direito pra ela. – Eu preciso muito ir ao banheiro. Eu já volto – disse de vez, praticamente fugindo em cena.

Me enfiei no meio de mil pessoas. Saí esbarrando em todas elas, interrompendo beijos, danças e conversas em rodas de amigos. Eu era o furacão Íris da insegurança.

E é por isso que vim parar no banheiro do Submundo com uma grande vontade de vomitar. Eu queria que fosse perfeito. E eu estava tão insegura em simplesmente pagar pra ver. Queria alguma certeza de que realmente seria. Porque é claro que eu não suportaria existir mais nesse planeta se não fosse.

Eu quero que Édra Norr me beije. Mas eu tenho tanto medo do que pode acontecer por causa disso.

– Esse é o banheiro masculino, meu anjo – disse um rapaz com uma peruca laranja néon quando esbarrou em mim.

Eu respirei fundo, desnorteada. E quando estava prestes a deixar o banheiro masculino do Submundo, eis que Deus me envia uma luz.

– Ah, não – disse Maurício quando me viu. – Me diga que você não tá se atracando com alguma garota no meu banheiro.

– Maumau... – Deixei um suspiro desesperado escapar, abraçando-o pela cintura.

– Ei. – Maurício me segurou pelos ombros, me afastando dele para conseguir enxergar o meu rosto. – O que aconteceu?

Engoli o grande nó na minha garganta e tomei fôlego para falar.

– Eu me apaixonei pela “ficante” da Camila Dourado, aquela garota, minha colega de classe e dupla naquele trabalho idiota de literatura, com quem eu fui até o Leoni’s procurar livros pra fazer – pausa para tomar mais fôlego. – E aí eu descobri que já nos conhecíamos, ela é a neta da minha vizinha idosa que, na verdade, é a minha melhor amiga em segredo. Agora ela terminou com Camila Dourado, me chamou pra sair e tá perdida na pista de dança, querendo me beijar.

– E qual é o problema? – As sobrancelhas de Maurício franziram. – Isso não era pra ser bom? Você tá agindo como a Britney em 2007 por causa disso?

– Cara, não é simples como parece. Em primeiro lugar, Édra Norr vai embora. Em segun...

– Íris, cala a boca. – Maurício interrompeu, me dando uma sacudida. – Garota, acorda! Você tá pensando demais. Tudo o que eu ouvi foi “tem uma garota que quer me beijar e eu também quero, mas tô procurando desculpas”.

– Mas, Maumau, você nem sabe sobre tu...

– Íris, apesar de todos os problemas e de todos os obstáculos, o que você quer? – perguntou Maurício, olhando no fundo dos meus olhos.

Minha cabeça repassou Édra Norr saindo do mar, cozinhando, comendo, procurando um livro na prateleira, abrindo a porta pra mim, comendo pizza de boca cheia, me abraçando no corredor, me chamando pra sair, me ensinando a jogar sinuca e me encarando na pista de dança como quem queria me devorar viva.

– Édra Norr – respondi, me dando conta do que eu realmente queria.

Eu estava perdendo todo o meu tempo.

Era hora de acordar o lado Júlia de uma vez.

Larguei Maurício sozinho no banheiro e saí procurando Édra Norr entre as pessoas do Submundo. Mais uma vez, uma Íris Pêssego esbarrando em vários corpos e interrompendo várias pessoas. Era por uma boa causa. E como era.

Mas quando me deparei com Édra Norr abandonada na pista de dança, dessa vez sem “Dear Caribe” nas mãos, apenas um olhar intenso e perdido na multidão, eu congelei.

Simplesmente parei de andar no caminho, como se eu tivesse empacado. Era Édra Norr, sozinha. Era Édra Norr e ela queria o mesmo que eu. Era Édra Norr e eu queria que, por um segundo, toda a minha insegurança explodisse e só sobrassem cacos de Júlia.

Então precisei respirar fundo para fazer exatamente o que eu pretendia fazer.

– O que você tá fazendo? – me perguntou ela quando eu, impulsivamente, me aproximei e passei a vasculhar os bolsos da calça jeans dela.

– Acordando Júlia – disse rispidamente, quando encontrei a garrafa de bolso.

Girei a tampa vagarosamente sem tirar os meus olhos de Édra Norr sequer por um segundo. Luzes néon oscilavam, pintando nossos corpos de azul, rosa, vermelho e roxo. Minha respiração foi ficando ofegante e senti o meu coração pulsar na minha veia jugular. Édra Norr, na minha frente, ia arregalando os olhos tentando entender exatamente o que eu estava prestes a fazer. Nem eu sabia ao certo. Eu só precisava passar o controle para Júlia, só por um instante. Mas eu me sentia Íris, como eu nunca tinha me sentido antes. Eu estava laranja ultraforte. Precisava continuar com aquilo. Virei a garrafa inteira na boca, olhando para Édra Norr em cada gole.

A bebida amarga escorria para dentro da minha garganta e tomava conta do meu paladar, ansiando pela saliva da garota que estava exatamente na minha frente. Não ousei tirar os meus olhos dos abismos castanhos de Édra. E ela foi inclinando a cabeça, se dando conta do que eu também estava me dando conta.

Zerei a garrafa, virando-a para que a última das gotas pingasse na minha língua. Édra assistiu a tudo, sem tentar me impedir de nada. Sequei a boca com o meu braço, como se não tivesse modos. E, nesse exato momento, eu não tinha mesmo modo algum.

Eu era Júlia e Íris ao mesmo tempo. Édra Norr me fazia sentir como se tudo fosse laranja ultraforte.

Ela foi se aproximando de mim, e seus olhos pareciam morrer de fome, de modo que não me senti atravessada. Eu me senti engolida.

Sua mão direita entrou no meu cabelo, agarrando com uma ferocidade indomável várias mechas de uma só vez. Ela fechou o punho, me segurando. Senti os fios da minha nuca presos entre seus dedos, e eu queria muito estar ali. Nossos olhos não se desgrudavam. A mão esquerda de Édra Norr foi deslizando pela minha coxa, passando pela costura do meu vestido e escalando as minhas costas, puxando-me para perto.

Eu estava à mercê, envolvida pelos braços dela.

Meus olhos fecharam e o último som que eu ouvi antes de me ensurdecer com a música foi o da garrafa de bolso escapando da minha mão e atingindo o chão da pista de dança.

Os lábios de Édra Norr encostaram nos meus com muita leveza. Uma leveza que foi completamente desconstruída pela mordida que ela me deu no lábio inferior, antes de passar a língua para dentro da minha boca.

O beijo de Édra Norr era calmo e lento, lento e feroz, feroz e manso, manso e indomável, indomável e ardiloso, ardiloso e fervente, fervente e cheio de fogo, cheio de fogo. E me dissolvia em cada gota de saliva com gosto de bebida alcoólica que ela deixava em mim. E regredia devagar, com tamanha perversidade, brincando com a língua dentro da minha boca. Lenta e calma. Calma e lenta. Me apertando a cintura e mais embaixo.

Eu nunca me senti tão minha. Todos os meus sentidos estavam aguçados e voltados para Édra Norr e sua língua, que, diabólica, se esfregava na minha. Na exata frequência da música que tocava. Fui perdendo todo o meu ar dentro dos apertos de sua mão e das mordidas de seus dentes.

Era demais pra mim. Eu precisava de um segundo. Então, afastei os meus lábios dos dela.

– Seu beijo é horrível, como o da sua boneca – eu disse sem fôlego no ouvido de Édra Norr, tentando provocar. Envolvi o pescoço dela com os meus braços por uns instantes, porque eu precisava respirar. E eu mal conseguia ficar de pé.

– Então devolva – respondeu Édra Norr, cínica, resfolegando e com o olhar de fome preso em mim. Me... engolindo. Fazendo-me involuntariamente fechar os meus olhos de novo.

As luzes néon oscilavam em todas as suas cores.

Mas, por dentro, tudo estava laranja ultraforte.

Ultra.