O Amor Não é Óbvio

Elayne Baeta · Capítulo 3 de 27

Páginas do PDF

O Amor Não é Óbvio

1 | Ficção versus realidade

FICÇÃO VERSUS REALIDADE

 

Eu ainda não tinha me recuperado daquele capítulo de Amor em atos.

Tudo parecia perfeito na novela, e eu me sentia um pouco otária por desejar um pingo daquela realidade na minha vida. Fala sério, o primeiro beijo da Rosa e do Edgar foi no tráfego, com o sinal aberto, embaixo da chuva... Isso é no mínimo incrível.

Mas sei que se um dia eu tentasse reproduzir isso, eu seria atropelada e ainda terminaria gripada – se eu sobrevivesse às fraturas, é claro.

Por que a vida real é tão falha?

Como se não bastassem os motivos que tinha pra lamentar minha existência naquela sexta-feira, ainda tive que receber da diretoria uma intimação pra comparecer à palestra de educação sexual. Quando quase todas as garotas do primeiro ano começam a aparecer grávidas, seu colégio inventa isso, uma coisa chamada Semana de Combate à DST, para não ficar tão óbvio que tudo se trata de uma indireta para que as pessoas comecem a ter relações sexuais com proteção. Não devo reclamar tanto disso, porque não fui eu quem teve que distribuir folhetos vestida de preservativo (sinto muito por isso, Wilson).

Ainda assim, é realmente bizarro como o primeiro ano anda tão precoce. Quer dizer, pra algumas pessoas, bizarro mesmo é se formar virgem. Mas eu não ligo muito pra isso. Minha vida segue vivível, contanto que nem Rosa, nem Edgar morram. Mas algumas pessoas estão obcecadas com isso, e com “algumas pessoas” eu quero dizer...

– Você acredita que a Júlia Pinho não é mais virgem? – Essa, desesperada pela vida sexual de terceiros, é a Poliana Rios, minha melhor amiga. Enlouqueceu, como boa parte das pessoas, na Semana de Combate à DST.

– Oi, Polly – eu disse, quando Polly ergueu minha mochila para ocupar o assento que eu guardava pra ela.

Eu estava no auditório desde as 7h e acompanhei todo o crescimento daquele barulho infernal. O som dos alunos conversando sem parar, de risadas, de copos descartáveis sendo esmagados, de batuques na cadeira e de ventiladores enferrujados era insuportável. Talvez eu devesse pedir indenização, caso saísse dali surda.

– Não, sério – disse Polly, soando incrédula, enquanto eu olhava o diretor, Sr. Álvaro, ajeitar o microfone à sua altura. – Como a Júlia Pinho pode já ter perdido a virgindade e eu não? Ela é tão...

O som estridente do microfone ecoou pelo auditório, fazendo com que todo mundo calasse a boca. Sobre a indenização, estou falando sério.

– É, hum, bom dia. – A voz grave de locutor de rádio do Sr. Álvaro eclodiu. – Como vocês devem saber, esse é o último dia da Semana de Combate à DST e eu gostaria de agradecer muito a todos os alunos que colaboraram para que ela acontecesse. – Nesse momento, ele se virou para alguém na plateia. – Em especial a você, Wilson Zerla.

O que fez com que alguém no auditório gritasse “Homem-Preservativo!” e todos caíssem na gargalhada. Exceto eu, que tinha pena do Wilson, e Polly, que estava digitando freneticamente no papel A4 que ela chama de celular e nem sequer prestava atenção na fala do diretor. Sério, o que aconteceu com os smartphones? Por que eles estão cada vez maiores e mais finos?

– Isso não tem graça, pessoal, foi um trabalho sério e muito bem executado – corrigiu o Sr. Álvaro, em seu famoso tom de bronca. – Gostaria de dizer a todos que, para o último dia de atividades neste projeto, teremos uma sessão de filme sobre sexualidade às 10h, aqui no auditório. Os alunos que quiserem substituir a aula pelo filme precisam assinar as fichas que estarão com a professora Cristiane. A cabine de preservativos fecha às 11h, e tivemos muito sucesso com a distribuição deles.

O barulho de pessoas conversando e rindo ressurgiu imediatamente depois dessa última frase. Vi os gêmeos Colosso se entreolharem com um sorriso cínico – o mesmo que eles usaram todas as trezentas e sessenta e sete vezes que os vi pegando preservativos nessa cabine, da segunda-feira pra cá. Não me admiro se eles forem pais de metade dos bebês dessas garotas do primeiro ano e, com a cabine de preservativos, estivessem poupando os gastos com farmácia.

– Droga, vou ter que sair mais cedo – disse Polly, olhando para o celular.

Os cabelos encaracolados e volumosos caíam sobre seu rosto, enquanto a luz azulada da tela iluminava a pele caramelo e os olhos cor de mel. Polly é realmente muito bonita para ser virgem, não que eu queira classificar a beleza das pessoas me baseando em suas atividades sexuais. Mas Polly é realmente muito bonita, e não é só sobre o seu físico: ela é extremamente divertida e legal com quase todo mundo, enquanto Júlia Pinho só sabe falar sobre si mesma e jogar todas as embalagens no chão. Tipo, sério, eu não perderia minha virgindade com uma pessoa que não consegue jogar uma embalagem de Mentos no lixo. Sonho com o dia que todas as embalagens vão criar vida e se unir pra jogá-la na lixeira.

– Minha mãe conseguiu bater o carro de novo. Sinceramente, não sei quando ela vai aceitar que não sabe dirigir. – Polly revirou os olhos.

O pai de Polly, Sr. Rios, tem uma patente alta no exército, o que significa dinheiro à vontade para que a mãe de Polly, a famosa Sandra Rios, faça loucuras pela cidade. Minha mãe sempre diz que não sabe como ela e Sandra conseguem ser amigas, porque Sandra é provavelmente a pessoa mais superficial da face da Terra. E tudo bem, porque às vezes não sinto que as prioridades de Polly sejam as mesmas que as minhas. Mas, pelo menos, Polly não bate o carro toda semana nem coloca um aplique novo no cabelo a cada três dias. Essas são coisas com que mamãe precisa lidar tendo Sandra como amiga.

– Tenho que ir pro Hector Vigari, porque ela provavelmente quebrou alguma coisa. – Polly levantou da cadeira enquanto guardava o celular. – Te vejo mais tarde?

Com certeza não, foi o que pensei. Naquela noite, em Amor em atos, passaria a cena em que Edgar conta para Luiza Abrantes que está apaixonado por Rosa. E eu estava há meses esperando por isso. Somos amigas, Polly, mas não a esse ponto.

– Nossa, hoje realmente não dá. Preciso ajudar meu pai com umas coisas do supermercado – disse, com o melhor tom de chateação que eu podia usar.

Ok, vamos lá, por que eu menti? A verdade é que todos têm segredos. Tenho três grandes segredos para o mundo. Pra Polly, no entanto, apenas um. O primeiro é que eu converso com a Margot, minha gata, e sinto como se ela me respondesse. Polly sabe sobre esse porque antigamente ela passava mais tempo no meu quarto que eu mesma. O segundo é que eu sou apaixonada pelo mesmo menino, o Cadu, desde a oitava série. Esse Polly também sabe, por causa do incidente do xixi. Sim, eu fiz xixi na calça. Foi numa noite do pijama com Polly que eu acordei de um pesadelo chamando o nome dele, mas isso não necessariamente significa que eu seja vulnerável a ele como Rosa é vulnerável a Edgar, eu só tenho uma coisa, sabe? Uma atração que não sei explicar direito. Não é tão exagerada assim. Mas não digo que eu não beijaria ele no tráfego, mesmo correndo o risco de ser atropelada, porque é claro que eu beijaria. O terceiro, que é o único que consegui manter até agora, e, sinceramente, não faço questão que Polly descubra, é que... eu assisto a Amor em atos na casa da minha vizinha idosa, Dona Símia, várias vezes na semana.

Sempre que o capítulo vai ter algo interessante, já sabemos que veremos juntas. Então eu roubo uma pipoca no supermercado do meu pai e a Dona Símia já prepara cookies e sucos frescos, fora as balas que ela armazena naqueles potes. Os cachorros dela, que parecem travesseiros quando deitam no sofá, também ficam com a gente. Assistimos juntas e choramos juntas. E não sei se Polly, ou qualquer outro adolescente, entenderia esse tipo de relação que tenho com uma idosa que não é a minha avó. No mundo adolescente é praticamente inaceitável que sua relação com idosos vá além da natural relação de parentesco. Quer dizer, ninguém aceita isso sem achar um pouco constrangedor ou estranho, não em São Patrique. Não é que eu não tenha amigos. Tenho a Polly e algumas pessoas com quem converso na sala, às vezes. Mas a Dona Símia é realmente meu espírito animal no corpo enrugado de uma senhorinha de 68 anos. E, fala sério, o cabelo dela é enorme e branco, muito mais bonito que o de qualquer pessoa que eu conheça. E sei disso porque já vi, apesar dos coques que ela usa o tempo inteiro.

Dona Símia é incrível, e qualquer pessoa que eu ache incrível e com quem tenha uma amizade representa uma ameaça pra Polly. Que é a pessoa mais ciumenta com quem eu já tive que lidar na minha vida.

Então, por todos esses motivos, Polly não precisa saber disso.

– Certo. Então, me liga, pelo menos – disse Polly enquanto se afastava.

 

Eu estava tentando não chorar fazia meia hora. Dona Símia, por sua vez, já estava com uma pilha de lenços amassados ao seu lado, sendo farejados por Lanterna, um de seus cachorros. Era inaceitável. Eu não sabia o que estava mais sem sal, a pipoca que peguei escondida na prateleira do Pêssego’s Supermercado (meu pai e sua grande criatividade usando nos negócios o próprio sobrenome superconvencional), ou o enredo de Amor em atos, que foi do ápice para o fundo do poço em duas cenas. Edgar realmente contou para a Luiza Abrantes que gostava de Rosa, e mesmo assim ficou com a Luiza. É, hum... Por que diabos? Sim, isso mesmo, porque Luiza Abrantes está grávida.

Nunca achei tão útil a Semana de Combate à DST, com toda aquela coisa das palestras e filmes de educação sexual. E, Wilson, foi mesmo por uma boa causa. Porque, talvez, se no colégio de Edgar e Luiza tivesse ocorrido uma semana dessas, apenas talvez, eu não teria que passar por isso. Qual o problema desse cara? Por que amar uma e engravidar outra? Qual o problema dos homens? E é isso. Esse é o fim do meu casal.

Três meses e eu ganho um beijo no tráfego, só isso? Tipo, sério, Maritza? É assim que você quer ganhar um prêmio de melhor roteirista de novela?

Algumas coisas simplesmente me aborrecem de uma forma tão absurda que prefiro fingir que não aconteceram.

E foi isso que disse para a Dona Símia quando ela me perguntou o que eu tinha achado daquele capítulo de Amor em atos, na varanda dela, enquanto eu descia aquela escadaria de apenas três degraus:

– Acho que podia ser melhor – Foi tudo o que saiu da minha boca enquanto eu tentava fingir que aquele capítulo não tinha destruído minha vida.

Corri pra casa e fiquei ouvindo Whitney Houston, chorando e olhando pro teto. Pensei um pouco em Cadu durante esse tempo. Eu tenho uma mania estúpida de associar meus personagens favoritos a ele.

Preciso parar de chorar fácil, principalmente porque começo a soluçar e meus pais percebem e surgem me perguntando se estou sofrendo. Daí se inicia uma conversa constrangedora que termina com panfletos de grupos de apoio e recomendação de bons psicólogos. Olhando por esse lado, mamãe realmente não pode reclamar de Sandra Rios como se ela mesma fosse normal. Meus pais realmente não são normais, e digo isso por motivos mais plausíveis do que chorar ouvindo Whitney Houston, pensando em Amor em atos e em Cadu Sena. Isso porque já é quase meia-noite e eles decidiram fazer panquecas ouvindo rock nacional, ignorando o fato de termos vizinhos. Inclusive uma que é idosa e minha segunda melhor amiga.

Margot me olhou com cara de desaprovação enquanto se lambia. Eu sabia que, em algum lugar na cabeça dela, a gata estava me achando extremamente idiota.

Foi quando meu telefone tocou, e não precisei de dois segundos para saber que era Polly.

– Oi, Pops – falei, levando o telefone pro chão, porque eu não queria me mover do tapete.

– Passei no mercado pra te ver e você simplesmente não estava, Íris – Poliana estava com uma voz indignada. Eu podia visualizar ela revirando os olhos do outro lado da linha. Meu coração saltitou por ter sido pega no flagra. – Onde você tava? Eu precisava te contar uma coisa.

– É, eu... – Olhei em volta, procurando uma desculpa. – Decidi estudar pra apresentação do trabalho na segunda-feira e acabei pegando no sono. Foi mal.

Obrigada, livro de história na cabeceira!

– É por isso que você é virgem, você estuda sexta à noite, fala sério.

– Você não estuda sexta à noite e também é virgem – retruquei.

Polly ficou em silêncio por alguns segundos.

– Você pegou pesado nessa – disse ela, entre risos. – Mas já sei como resolver meu problema antes da formatura. Falando nisso, a gente precisa começar a pensar nos vestidos. É daqui a dois meses, nem acredito!

Nem eu acredito. Não me sinto pronta pra abandonar o Ensino Médio.

– Tô tentando juntar grana suficiente pra alugar alguma coisa legal na Marybeth’s – falei, porque realmente estou. Eu passeio duas vezes por semana com a Loriel e o Lanterna desde que Dona Símia piorou de saúde e, também, desde que o último garoto que passeava com os dois cachorrinhos praticamente perdeu a Loriel no parque. Depois de muita panfletagem e dor de cabeça, ela foi encontrada num abrigo quase nos fins de São Patrique (sim, perceba que o meu colégio tem o mesmo nome da cidade, porque alguém, como meu pai, é bastante criativo nos negócios). Inclusive, foi depois do estresse com o sumiço da Loriel que a Dona Símia começou a piorar do coração. Mas acho que também posso culpar Amor em atos por isso.

– Fala sério, você diz isso faz meses – resmungou Polly, e pude ouvi-la arfar no telefone. – Você com certeza tá gastando o dinheiro que ganha com os cachorros daquela velha em alguma coisa.

“Daquela velha.” É assim que Polly enxerga Dona Símia. Preciso dizer mais alguma coisa sobre manter a parte da novela em segredo ser a melhor opção de todas?

– Eu não estou gastando com nada – respondi, mas, dessa vez, era mentira. Ando comendo pizza do Orégano’s todo fim de semana, e tenho uma pilha consideravelmente grande de livros que compro no Leoni’s porque gosto da capa, mas nunca termino de ler. Talvez não sejam bons investimentos, mas eu não consigo parar. Estou viciada em frango com catupiry e capas coloridas.

– Eu te conheço, Íris, sei tudo da sua vida – disse Polly, presunçosa.

Tudo, menos o fato de a minha segunda melhor amiga ser “aquela velha”.

– Sério, vou conseguir o dinheiro todo a tempo de ter um vestido – confortei Polly, que estava muito preocupada com a formatura. Tanto quanto obcecada pela própria vida sexual e a de terceiros, claro.

– Você tem mesmo que se ligar nisso, você precisa ser mais participativa na sua vida escolar. Não sei no que você gasta tanto tempo pensando, se não é em você – reclamou Polly. E ela tinha razão. Depois de Amor em atos, eu só decaí.

A verdade é que acho que não preciso me importar tanto assim comigo se posso investir tempo em um universo onde coisas realmente surreais acontecem. Um universo onde eu sinto frio na barriga, emoção, ansiedade, raiva, tristeza... A novela, às vezes, parece mais real que a própria realidade. Pelo menos ela me causa mais coisas do que a minha rotina pode proporcionar.

Polly me pediu opinião sobre o trabalho dela, contou que viu um dos gêmeos Colosso e que ele estava com uma das grávidas do primeiro ano (coisa que eu sabia, graças a meu ph.D. em enredos dramáticos – obrigada, Maritza, apesar dos pesares) e, por fim, me fez prometer de um jeito bastante ameaçador que eu iria levar a formatura mais a sério.

Em seguida, desligamos o telefone e voltei a me afundar no chão, sem necessariamente sair do lugar, pensando sobre Amor em atos e o que eu faria se o cara de quem eu gosto, abre parêntese Cadu Sena fecha parêntese, aparecesse falando que engravidou outra mulher e não vai ficar comigo.

Depois comecei a cair na real, a pensar que Cadu na minha vida, como Edgar na vida de Rosa, é uma coisa completamente impossível. Apesar de habitarmos o mesmo planeta, vivemos em grupos sociais completamente distintos, e é científica e matematicamente impossível uma aproximação nossa. Se houvesse um cálculo, ele seria definido pela distância entre pessoas adoradas e pessoas com catapora cuja ausência nem é notada. Deixa eu explicar: sério, faltei duas semanas quando adoeci e ninguém – exceto as (no máximo) três pessoas que cumprimento e pedem meu corretivo emprestado – reparou que eu não estava indo à escola. Quando voltei, um garoto me pediu a atividade do dia anterior, sendo que, cara, eu faltei por duas semanas. Venci a catapora e esperava no mínimo uma bronca dos professores, mas nem eles se deram conta de que eu tinha estado ausente. Inacreditável!

Ficar todo esse tempo no chão comparando a minha inexistente vida amorosa com as de Amor em atos me fez lembrar que Cadu já tem uma Rosa. Camila Dourado namora com Cadu desde o primeiro ano. Eu nem tive a chance de mostrar como fiquei quando tirei o aparelho, porque no primeiro dia de aula ela já estava lá flertando com ele na minha frente. Vou me formar e eles continuam juntos. Até a metade do segundo ano eu achava isso um afronte à minha existência. Mas, pouco a pouco, comecei a aceitar que eles até que formam um casal bonito e que vão acabar casando e vou receber um convite. Que espero que, assim como meu recibo de compras na Orégano’s Pizzaria (quase cinquenta pratas, nunca extrapolei tanto), a Margot mastigue para me poupar do sofrimento.

A vida real é realmente falha. É por isso que prefiro Amor em atos. Mas isso não significa que eu tenha aprovado o desfecho daquele capítulo.

Seria pedir demais que Wilson surgisse no meio da novela – vestido de preservativo – e entregasse um panfleto a Edgar?

Cara, essa novela tá mesmo mexendo comigo.