O Amor Não é Óbvio

Elayne Baeta · Capítulo 7 de 27

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O Amor Não é Óbvio

5 | O submundo

O SUBMUNDO

 

Eu não esperava chegar em casa e encontrar um spa. Acho que alguém (Jade Pêssego) está meio obcecada com os conselhos de outro alguém (Sandra Rios). Eu mal tinha fechado a porta da sala e pude escutar uma gargalhada. Minha mãe estava fazendo as unhas com uma manicure que parecia ter a minha idade, enquanto uma mulher mais velha prendia seus cabelos em bobes. Será que no lugar de “a senhora deveria procurar um psicólogo” ela escutou “alugue um spa e traga-o pra casa”?

Eu revirei os olhos e tentei sair de fininho, mas, como sempre...

– Íris Pêssego! – ouvi sua voz autoritária chamar por mim. Me virei, para dar de cara com ela, agora comendo rodelas de pepino.

– Isso é nos olhos, senhora – disse a manicure, olhando com reprovação para minha mãe. Tudo bem, porque eu a estava olhando da mesma forma.

– Você não vai pro aniversário do supermercado nesse estado. – Mamãe me encarou, erguendo as sobrancelhas. – Olha o seu rosto!

– Desculpa, mas a senhora só me deu esse.

– Engraçadinha essa minha filha, né? – Ela se virou para a mulher que cuidava do cabelo. E, voltando a me encarar de forma ameaçadora, apertou os olhos: – Senta já aí.

Deus, as coisas que eu tenho que passar com essa família.

 

Horas depois e nem pude acreditar. De verdade, eu não queria sair do meu quarto. Estava me encarando no espelho fazia quase meia hora. E Margot, dessa vez, pra variar, decidiu me ignorar. Então nem pude falar com ela pra saber se eu tava mesmo bonita ou desprezível.

Eu não cabia direito dentro daquele vestido. Acho que posso culpar Amor em atos por isso também. Não consigo contar a quantidade de pipoca e biscoitinhos que como no sofá da Dona Símia enquanto assisto à novela. Mas, falando sério, ele não estava tão apertado assim. O fato é que sempre vou implicar com vestidos. Prefiro minhas calças jeans. E tênis. Só que, por algum motivo do além, esse aniversário do Pêssego’s parecia ser mais importante que os outros. Papai falou algo sobre receber gente chique e grandes investidores. E no meio disso tudo não cabiam nem meu tênis, nem meus jeans.

E não consigo distinguir se estou bonita ou horrorosa, porque, sério, que experiência eu tenho com essas coisas? Não é como se eu fosse a Cleo Pires dos meus pais.

Mas pelo menos eu sei o que me espera. Como todos os anos, papai vai na frente com os investidores. Eles visitam o mercado e observam toda a estrutura enquanto ouvem os futuros planos do meu pai sobre expandir a loja e essas coisas. Ele é quem acende e assopra uma vela, sozinho, nos fundos do Pêssego’s. Depois, todo mundo se encontra na festa, que sempre acontece no mesmo salão desde que eu só tinha dentes de leite. Para minha família, o aniversário do Pêssego’s é tão tradicional quanto o Natal. Especialmente para papai. Ele dá muito duro por esse mercado. Só por isso topei entrar nesse vestido novo que mamãe comprou em uma de suas saídas com Sandra Rios. Apenas pra que ele se alegre em me ver vestida desse jeito, sem tênis, numa ocasião bastante especial.

Minhas unhas estavam pintadas de preto, combinando com o vestido, que era da mesma cor. Até que gosto desse modelo tubinho, acho bem elegante. É claro que isso é por causa da Rosa. Fala sério, ela vive usando vestidos nesse modelo em tantas cenas, que mal posso contar. Só que eu não sou uma atriz linda interpretando um papel fantástico e sendo favorecida por milhões de ângulos perfeitos em filmagens. Eu sou Íris Pêssego, e com essa roupa acho que me pareço, no máximo, com um sushi.

Tudo bem, vou respirar fundo. Preciso sair desse quarto. Por papai.

Afinal, o que pode acontecer de tão chocante assim? É uma festa anual onde, além dos investidores, eu conheço basicamente todas as pessoas que vão. E como a maioria delas tem a faixa etária do meu pai, não preciso socializar. Só tenho que sorrir e fingir que sou uma filha excelente, embora eu investigue pessoas no meu tempo livre.

Não vai acontecer nada de mais. É uma noite. Dá pra sobreviver.

 

Alguém, por favor, arranque a minha língua fora. Que boca, cara! Que boca! Não estou acreditando nisso. Deus, de todas as pessoas, por que eu? Sério, eu sempre pego folhetos sobre o senhor na rua, cara. Não faz isso.

Por favor, não me olhe. Por favor, não me olhe.

– Então, essa é a sua filha? – O cara altíssimo de cabelo grisalho bateu nos ombros de papai, que se apoiava em mim.

– Sim, essa aqui é a grande herdeira. – Meu pai sorriu, sem graça.

Por favor, não me enxergue aqui. Eu não estou aqui.

– Sorte sua que ela se preocupa com seus negócios. A minha é um caso perdido. – O homem sorriu, e seus dentes eram tão brancos que doíam meus olhos. – Eu tento fazer com que ela se inclua mais nas coisas, mas ela é completamente largada.

– Mesmo? – Papai virou um pouco do champanhe. – A minha Íris é excelente.

– Ela também participou do projeto Jovem Intercambista? Foi a única coisa que consegui fazer com que a minha concordasse. É bom para o currículo.

– Bom, a minha Íris...

– Não falo inglês. – Deixei escapar de nervoso.

Rimos os três completamente desconfortáveis.

– Você tem uma menina muito simpática, Ermes. – Ele balançou a cabeça negativamente. – A minha filha é muito orgulhosa, gosta de implicar e ser do contra. É difícil criar um laço com ela. Acho que a perda da figura materna fez com que ela crescesse muito rebelde.

– Eu sinto muito pela perda de vocês e por como sua filha tem reagido. Isso é lamentável, estamos perdendo nossos jovens – disse papai em um tom cabisbaixo. – A Íris, pelo menos, sei que não vai me decepcionar.

Não tenha tanta certeza disso. Foi o que pensei, mas sorri, falsa.

– Ela adora o mercado. – A mão de papai apertou o meu ombro.

– Especialmente o boné – falei, sem deixar de sorrir com os dentes trincados.

– A minha não se interessa pelos negócios de jeito nenhum. Tento enfiar minhas ambições na cabeça dela, mas só perco meu tempo. Ela costuma dizer que meu dinheiro é amaldiçoado. Comprei um carro importado pra ela e até isso ela rejeitou. Prefere ficar por aí com a bicicleta da mãe. Não se desfaz daquilo por nada.

Eu não sou pobre, mas nunca ganharia um carro importado! Aquilo foi tão surreal que cheguei a tossir e engasgar com a informação nova.

– Que falta de educação a minha! – O homem se virou abruptamente, procurando em volta. Os olhos dele pararam onde os meus estavam há muito tempo.

Em Édra Norr, sentada sozinha ao lado da mesa de doces, com uma bebida na mão, mexendo no celular. Papai sempre contratava um rapaz pra fazer coquetéis. Era o único dia do ano, depois do ano-novo, que eu podia colocar algo levemente alcoolizado na boca. Me perguntei se Édra também tinha alguma política sobre bebidas e festas com o pai dela. Se ela gostava de beber. E o que ela tinha achado do coquetel de morango, que é o meu favorito. Não sei bem o porquê de ter me feito a última pergunta. E meu devaneio não durou muito. Meu corpo estava desgovernado e eu só queria fingir um desmaio.

Deus, cara, foram tantos folhetos...

– Édra! – gritou o homem. Ela, de lá, olhou por cima do celular. – Vem aqui, um minuto.

Agora a blusa social fazia sentido. Ninguém se veste daquele jeito pra ir no Banana Club. Como eu tinha constatado: não fazia sentido. Ela tinha se arrumado pra festa no Pêssego’s. A diferença é que passou pra ver Camila primeiro.

Édra levantou completamente indisposta da cadeira. O olhar semicerrado fuzilava o homem que, a esse ponto, pelo andar da conversa, eu tinha acabado de perceber que é um dos investidores do papai. Ótimo.

– Essa é a arquiteta das confusões que eu estava te contando agora, Ermes. – Ele a abraçou como o meu pai me abraçava. Não acredito que ele é o pai dela. E quem tem um carro e prefere andar de bicicleta? Pelo amor de Deus. (Apesar de ter achado bonita a história sobre a mãe dela. Aposto que ela está em algum lugar do céu, sentindo pena daquelas pernas pedalando tanto.)

Acho que andei reclamando tanto que a minha vida não parecia uma novela que ela passou a virar uma. Isso é surreal demais pra acontecer comigo. Nada acontece comigo. Tipo, nunca.

Eu e Édra nos olhamos por alguns segundos, tempo suficiente pra que eu decidisse encarar o salto alto estúpido nos meus pés. Claro que só fiz isso pra não ter que olhar diretamente pra ela. Fala sério, eu meio que sei o que existe embaixo dessa camisa. E não consigo disfarçar nada. Se me perguntarem algo, é capaz d’eu responder com um “Sim, eu segui Édra o dia inteiro”, independente da pergunta. Esse é o meu nível expert em esconder coisas quando estou extremamente nervosa. Não é como se fosse a Polly, que facilmente acredita nas minhas desculpas (ou eu deveria dizer mentiras?).

– Vocês se parecem muito... – disse papai, e eu pude perceber que ele estava confuso. – Até no jeito de se vestir. – Ele sorriu sem graça.

Acho que papai nunca viu uma garota como Édra na vida. Ele nem vê TV, e a maioria das pessoas que compram no mercado são pacatos cidadãos são-patricenses. Ninguém com a audácia de Édra em não se parecer com uma garota convencional. Eu podia jurar que os olhos dele procuravam adereços femininos em Édra pra entender o que ele estava olhando naquele exato momento.

Deus, Ermes, não me mate de vergonha, eu me vesti de sushi por sua causa.

Quando voltei a olhar para Édra, ela estava com um sorriso sem graça, desconfortável e forçado nos lábios carnudos. É claro que, como sempre, ela chegou trazendo aquele cheiro forte de shampoo e perfume. E, apesar de estar me sentindo na pior situação possível, eu estava adorando poder senti-lo de novo. Que cheiro bom.

– A última vez que vi essa mocinha aqui de vestido foi na formatura da alfabetização. – O homem riu, apertando Édra contra o corpo. – Mas ela sempre odiou, desde pequena. Antes eu implicava, mas fazer o quê? Não aceita o carro, mas aceita os ternos.

“Não aceita o carro.” Meu Deus, gente rica nunca percebe quando está sendo desnecessária ao esfregar as aquisições na nossa cara.

– Menos – foi o que Édra disse em resposta. Tentando segurar o sorriso no rosto, que foi se desmanchando aos poucos.

 

Apesar da festa estar divertida, eu não conseguia me distrair. Não importava a que lugar eu fosse, meus olhos sempre encontravam Édra Norr. Assisti a ela se servir dos docinhos, beber mais uns cinco coquetéis, sumir para o banheiro com o telefone grudado na orelha e voltar com um sorriso no rosto. Agora ela estava discutindo com o pai num canto isolado, longe da agonia de pessoas conversando, brindando e comendo. Ele estava apontando para o rapaz dos coquetéis e para o próprio relógio no pulso.

Quando eles terminaram de discutir, Édra caminhou para fora do salão, discando algum número no celular enquanto o pai dela voltava para a festa como se nada tivesse acontecido.

Como se não bastasse tê-la seguido o dia inteiro, meu corpo (por impulso) decidiu fazer o mesmo mais uma vez. E fui, na ponta dos pés, até a saída do salão, para ver o que estava acontecendo.

Não quis me aproximar, não queria ser vista por ela. Fiquei encostada no portão, olhando de longe.

Meu coração ficou apertado, eu tinha certeza que aqueles olhos escuros estavam quebrados e vermelhos de choro. Os meus ficavam iguaizinhos quando alguma coisa em Amor em atos dava errado. E, para provar o que eu pensava, ela passou a manga da blusa no olho esquerdo.

Eu pensei mesmo em me aproximar, inclusive já estava fazendo isso.

Mas Édra digitou alguma coisa no celular e falou “que se foda!” para o vento.

Depois disso ela guardou o aparelho, ajeitou a gola da camisa social e saiu andando sozinha dentro da noite.

E eu, obviamente, fui atrás.

Deus, pelos folhetos, por favor... Me pare.

Tentei fazer o mínimo de barulho possível, mas meu salto estalava demais contra o chão. O que me obrigou a andar a uns milhões de passos de distância de Édra, pra que ela não me ouvisse. Eu não saberia o que dizer se ela olhasse pra trás e me notasse. Então, fui o caminho inteiro pelo passeio oposto, me escondendo entre as poucas pessoas que passavam e atrás de todos os carros estacionados que fui encontrando.

 

Não demorou muito para que chegássemos ao destino e eu escutasse um som de música abafado no ar. E só percebi que conhecia aquela rua apertada quando vi a Livraria & Café Leoni’s do outro lado.

Édra furou a fila de umas onze pessoas, cumprimentou dois seguranças (um cara e uma mulher que pareciam dois guarda-roupas de tão altos e robustos) e sumiu dentro daquele estabelecimento preto fosco, com três interrogações cintilando em luz néon rosa, roxa e azul.

Aquilo com certeza era uma festa, só não consegui codificar exatamente de quê. Fui pra fila como quem não quer nada e fingi que sabia o que estava fazendo. Ainda que eu não fizesse um pingo de ideia.

Mofei na fila por alguns minutos e fui surpreendida por um rapaz que usava uma maquiagem extremamente chamativa, tinha a cabeça raspada e barba cor-de-rosa, que entrava em um contraste muito bonito com sua pele negra. O rapaz se parecia muito com Polly, não só no tom de pele (negra, reluzente e meio dourada, parecendo ao mesmo tempo ter sido feita de veludo e de caramelo), mas também nos olhos esticados e no sorriso cheio de expectativas. Num devaneio, me perguntei o que – naquele momento – Polly poderia estar fazendo e o que ela iria achar se eu contasse os detalhes mais sórdidos sobre o meu dia inteiro e onde eu estava.

– Qual é a senha? – me perguntou o rapaz, sem me olhar. Ele estava anotando algo na prancheta em sua mão. Pude perceber unhas postiças imensas pintadas de azul.

E eu não soube o que responder.

Ele voltou a me olhar e inclinou o pescoço pro lado, como se estivesse prestes a me pegar no flagra.

– Próximo! – Foi o que ele gritou para o meu silêncio.

Eu não acredito que andei isso tudo pra nada.

– Deve ter algum engano – me peguei dizendo, por impulso. – Eu realmente vim trabalhar. Eu devo estar esquecendo alguma coisa, mas...

– Ah. – Ele revirou os olhos. – Você é uma das garotas novas que está escalada pro show da Mamma Mia?! – indagou ele, impaciente. Eu fiz que “sim” com tanta força que quase desloquei o pescoço.

– Girl, por favor, entre logo. Vocês são muito irresponsáveis. Só dificultam meu trabalho, Jesus Christ...

Eu estou dentro?! Meu Deus, eu consegui?!

Passei por várias cortinas de miçangas, em um corredor que parecia não acabar mais. Tinha várias fotos de mamilos pregadas na parede. Sério. Mamilos. E alguns cartazes que eu não consegui parar para ler, porque eu estava muito empolgada pra cruzar aquele corredor, que parecia um portal. A música ia ficando cada vez mais ensurdecedora. Pude ouvir muitos barulhos aleatórios em segundo plano para aquela batida viciante. Entre eles, risadas, sons de estalos (o que me lembrava beijos), copos brindando e muitas (mas muitas!) vozes misturadas em infinitos tons diferentes.

Quando finalmente cruzei a última cortina, pude ter a visão formada do que os meus ouvidos captaram. Tinha tantas pessoas diferentes. Homens maquiados e vestidos com perucas gigantescas, pessoas que eu não sabia distinguir entre garoto ou garota, mulheres como eu, mulheres como Édra, mulheres até como a Dona Símia, só que mais modernas. Um mundo de cabelos coloridos em tons hipnóticos, como a barba do rapaz na entrada. Pessoas que se beijavam em grupo, pessoas que só conversavam, pessoas que sorriam, pessoas que encaravam as outras com um olhar enciumado. Pessoas dançando no – e fora do – ritmo. E que batida gostosa!

Eu só não conseguia encontrar Édra no meio de tanta gente.

Fui andando, me sentindo uma formiga no meio daquilo tudo. Vários balões transparentes pulavam de pessoa em pessoa, e só pude perceber isso quando um deles atingiu a minha cabeça. Uma idosa de jaqueta de couro e óculos escuros me perguntou “Cadê seu espírito, garota?”.

Eu não sabia onde estava, mas não queria sair dali nunca mais.

Vi incontáveis corpos que beijavam outros incontáveis corpos do mesmo gênero. Vi muitos beijos que terminavam em sorrisos. E notei um que terminou em tapa na cara.

O lugar continuava parecendo mágico, e os refletores em luzes néon rosa, roxa e azul (que pareciam brigar para ver qual prevaleceria) só tornavam tudo mais fantasioso. Não dava pra acreditar que eu estava vendo tudo aquilo. Parecia tão afrodisíaco. Parecia coisa de novela! Ou melhor, vou me arriscar a dizer isso: parecia melhor que novela!

Esbarrei no balcão do bar acidentalmente, porque estava andando enquanto olhava para todos os lados, menos para a frente. O choque no meu joelho me trouxe pro mundo.

– Perdida? – a voz surgiu com um rosto amigável. Eu não sabia identificar se se tratava de um garoto ou de uma garota. Mas parecia uma garota pra mim. – Sua primeira vez aqui, né?!

– Ah, oi – respondi, meio atordoada. A música estava realmente muito alta. – Sim! Tava procurando uma amiga.

– Que bonitinha! – A pessoa riu, mostrando dentes lindos, separadinhos no meio. Como a minha atriz “naturalmente” francesa preferida, Jané, que interpreta Carlota em Amor em atos. Mesmo a novela sendo mexicana. – Como é a sua amiga? Eu conheço todo mundo daqui. Meu nome é Nicole.

Ah, então era uma garota. Olhei para os seios só pra confirmar, mas a blusa cropped parecia não ter nenhum volume. Agora eu estava definitivamente confusa.

– É, isso aqui eu ainda pretendo resolver. – Ela deu de ombros, olhando para o decote do cropped. – É que ainda estou em processo de transição. Mas vai chegar a minha vez de brilhar!

– Transição? – perguntei, curiosa. Sentei na banqueta giratória presa na frente do balcão.

– Ah, você não faz ideia do que eu estou falando, né? Nem te culpo, essa cidade é atrasada. – Ela riu de mim. – Eu sou trans. Uma mulher no corpo de um homem. Não me identifico com isso aqui, mas tudo bem, porque é só uma carcaça que precisa de ajustes.

Eu sabia tão pouco sobre pessoas diferentes do que eu acreditava ser normal, talvez eu fosse mais atrasada que São Patrique. Era inacreditável. Apesar de que eu sempre fui atrasada em tudo. Devo ser a única pessoa jovem aqui que não fica na internet ou nas redes sociais. Eu assisto a novelas com uma senhorinha de idade. Nas novelas a que a gente costuma assistir não se vê muita diversidade. Eu não sei sobre quase nada. Mas quero descobrir tudo.

– Eu te achei muito bonita – elogiei, sorrindo. – E o meu nome é...

Eu deveria dizer o meu nome verdadeiro por aqui?!

– Júlia – disse, abrindo um sorriso maior ainda. Agora não existia vestígios de mim naquele lugar, e ninguém poderia me dedurar no futuro.

– Júlia, você é uma gracinha. – Ela se virou, remexendo nas garrafas do bar. – Eu daria em cima de você, mas já tenho namorada.

Me peguei rindo. Senti o meu rosto ficar muito quente. Provavelmente tão vermelho quanto os morangos que ela colocou num copo e arrastou para o meu lado do balcão.

– Tome, por conta da casa. – Nicole piscou um dos olhos pra mim. – Essa bebida se chama “amor à primeira vista”, e costumam pedir muito quando chegam aqui de primeira.

Incrível.

– Nem sei o que dizer – tentei agradecer. Cara, eu tava mesmo me sentindo importante. E pra uma pessoa completamente desconhecida. Se metade dos alunos do São Patrique fossem assim...

– Bem-vinda ao Submundo, Ju. – O sorriso de Nicole se abriu pra mim de novo e ela foi atender um grupo de amigos que tinha acabado de chegar, bem do meu lado.

Girei o canudo dentro do copo, brincando com os morangos picados. Olhei em volta, mas nada de Édra.

Comecei a sugar a bebida, acho que mais rápido do que deveria. Minhas pernas sacudiam no banco. Eu estava ansiosa demais pra achar aquela garota e saber o que ela estava fazendo. E, obviamente, como ela agia nesse universo.

Não demorou muito para que a bebida me desse coragem pra ir me balançando até a pista de dança. Falando sério, não tenho costume de beber. Então, qualquer coisa me deixa com carga extra de bateria, se é assim que posso dizer. Eu sabia que não era algo certo a se fazer. Não só a bebida, que, a essa altura, era o menor dos meus problemas. Mas essa coisa de seguir uma pessoa. Isso é crime, cara. Mas olha essas luzes, que incríveis. Tanto faz.

Fui me balançando no ritmo da música e ganhei um leque estampado com bolinhas de uma mulher vestida de anjo assim que cruzei meu caminho para o centro da pista de dança (onde as pessoas realmente se sacudiam). Alguma coisa possuiu meu corpo. Naquele momento, eu era Júlia. E ser Júlia era tão ousado e divertido. Mesmo considerando que não sei dançar direito, eu estava me balançando entre várias outras pessoas. E aquele calor diferente foi subindo. E que música!

– Você vem sempre aqui? – Uma garota se aproximou de mim. Ela tinha um cabelo lilás muito bonito. – Oi?!

– Ei! – respondi, meio zonza. – É a minha primeira vez aqui! – Me peguei rindo, não sabia exatamente do quê, mas estava engraçado.

– A primeira vez a gente nunca esquece, né? – A garota mordeu os lábios olhando pra mim. Me virei de costas pra ela e continuei dançando. Eu não sabia como deveria reagir a isso. Deus, acho que estou meio bêbada.

– Você é muito bonita, sabia?!

Foi o que a garota disse, no meu ouvido. Tipo, ela estava colada no meu pescoço. Meu... Deus... Do céu. Não sei se estou pronta pro que vem depois disso. Queria evaporar numa nuvem de fumaça. Acho que devo ter deixado tudo isso bem claro com a minha expressão facial. A garota parecia confusa, mas um certo alguém me conhecia bem demais.

– Desculpa, ela tem namorado. – Uma segunda voz surgiu do outro lado do meu pescoço (que nunca tinha recebido tantas visitas na vida). Me virei abruptamente e dei de cara com ninguém mais, ninguém menos que... Maurício.

– Héteros no Submundo?! – A garota revirou os olhos. – Fala sério.

– Amor, você acabou de descobrir a bissexualidade, eu tô muito emocionado. – Maurício forçou todo seu deboche, passando o braço por cima do meu ombro e me raptando. Quando ficamos frente a frente, ele cruzou os braços.

– Primeiro você perde a virgindade e não me conta. Agora você também gosta de garotas, Íris?! – indagou, com as sobrancelhas juntas na testa.

– Shhhh! – Puxei-o para uma parte mais tranquila da pista (se é que eu posso usar essa palavra). – Eu menti o meu nome pra conseguir entrar. Maumau, sério, é uma história muito longa e não sei se eu posso te contar.

– Tá procurando quem aqui, Íris?!

Maldita intuição “mauriciana”.

– Ninguém – eu disse, tentando disfarçar.

Só que como o destino gosta muito de me sacanear, um segundo depois d’eu ter fechado a boca, avistei Édra Norr dançando na pista. A camisa social, antes intacta, agora estava amassada e com uns botões abertos. O cabelo tinha umas pontas molhadas, que caíam suadas por cima das sobrancelhas.

Ela estava cercada por algumas pessoas, segurava no alto um copo com uma bebida azul e, com os olhos fechados, dublava a música que estava tocando na pista.

Édra se movia de um lado pro outro no ritmo das batidas. Ela estava cercada por amigas. Uma garota, que parecia um pouco com ela, se inclinou em seu ouvido e disse algo que a fez parar de sibilar a canção para rir. Foi quando ela abriu os olhos e inclinou a cabeça para olhar na direção que a garota apontava. Elas conversavam alguma coisa engraçada, provavelmente sobre alguém ou algo que estava acontecendo naquele canto da festa. Eu não tinha a menor curiosidade para olhar em outra direção. Captei cada detalhe. Ela passou os dedos entre os cabelos molhados de suor (formando o penteado pós-banho que eu tinha visto). Não durou muito, o penteado foi, fio a fio, se desmanchando e caindo no mesmo lugar de antes... Perfeitamente. O cabelo dela costumava ser bagunçado pra cima, só que, com absoluta certeza, o suor estava pesando os fios, e jamais deixaria que eles ficassem do mesmo jeito que vejo no colégio.

– Maurício, preciso ir embora daqui – comentei, porque me deu alguma coisa. Me senti meio desconfortável. Provavelmente foi a bebida. Fiquei meio enjoada, meu estômago estava revirando de forma esquisita. E minhas mãos suavam demais.

– Ué?! – Maurício arregalou os olhos. – Não tô entendendo nada.

– Te conto uma outra hora – eu disse, tentando não olhar pra mesma direção de antes.

Principalmente porque Camila Dourado tinha acabado de surgir em cena. E não levou três segundos para que ela enfiasse a língua dentro da boca de Édra Norr. Enrolando-a pela nuca com os braços magricelos.

Voltei a encarar Maurício.

– Você pode chamar um táxi pra mim?! – perguntei, me abraçando. Estávamos bem embaixo de um aparelho de ar-condicionado. E comecei a sentir frio, por causa do vestido.

– Claro! Vamos saindo, lá fora eu ligo. Depois eu volto pra cá – disse ele, num tom preocupado e atencioso. Eu já estava muito grata só por ele ser o meu salvador e me arrancar daquele lugar. – Me espera só avisar a uns amigos – pediu, sumindo entre as pessoas.

Quando (contra a minha vontade) voltei a olhar na direção onde Édra estava, não havia mais nenhum sinal dela.