O Amor Não é Óbvio

Elayne Baeta · Capítulo 10 de 27

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O Amor Não é Óbvio

8 | Tchau, alien

TCHAU, ALIEN

 

 

Acontecem sempre as mesmas coisas nos corredores do Colégio São Patrique. Tipo, sério. Parece que os alunos aqui são meros robôs em modo repeat. Quero dizer, com as fofocas de Priscila Pólvora, os flertes subjetivos, alguém falando muito alto para algum amigo sobre alguma coisa extremamente pessoal... Sempre tem algum aluno rasgando um cartaz, sempre um professor pregando algo novo no quadro de avisos antes de ir pra sala, sempre um chiclete sendo cuspido na lixeira perto do meu armário.

Tudo do mesmo jeito. Todos tínhamos uma espécie de roteiro para seguir, ou alguma coisa assim (que com certeza não foi feito por Maritza, o que explica ser tão comum, monótono e sem graça).

No script de Cadu Sena, ele passava todos os dias abraçado com Camila Dourado, sendo escoltado – uns passos atrás – pelos colegas de time. No script de Camila Dourado, ela sempre era bajulada por alguém. E a mão dela sempre alisava a mão de Cadu, caída em um de seus ombros, como todas as manhãs em seu caminho para a sala de aula.

No roteiro do resto de nós, tinham as pessoas que gostavam das fofocas de Priscila Pólvora (presa no seu próprio roteiro) e que, logo depois das atualizações, propagavam por todos os cantos o que escutavam. Os alvos fáceis de chacota, como Wilson Zerla, somados aos isolados eram as únicas pessoas que gastavam um pouco da manhã lendo os avisos dos professores no quadro. Os irresponsáveis já chegavam com os trabalhos abertos nas mãos, tentando decorar o que deveriam ter feito sete dias antes.

Falando da visão de mundo são-patricense, as sub-celebridades, abre parênteses jogadores do time, galera do jornal, pessoas bonitas demais que deveriam fazer comerciais de pasta de dente fecha parênteses, têm, como roteiro, passar pelo corredor sendo cumprimentadas por todo mundo que tenha uma boca.

Já na minha cena, eu chego entediada, com um gosto do que comi na boca, ligeiramente atrasada. Me complico com o meu armário – que parece querer me sacanear todos os dias –, escuto um pouco das fofocas, procuro o livro da minha próxima aula, olho os adesivos que colo nessa porta de metal há três anos e também reparo nos adesivos e frases de “I. A.”.

Não sei se foi um garoto ou uma garota, não sei nada sobre I. A. Nada além dos rastros que essa pessoa deixou no meu armário antes de mim. Uns poemas, uns desenhos; uns adesivos de planetas, astronautas e do universo.

Polly sempre me encontra no meu roteiro. Temos uns scripts juntas. A gente se vê nos corredores e conversamos até a nossa sala (isso quando não comemos algo na lanchonete antes da aula).

Seja lá quem for o roteirista, acho que se atrapalhou ultimamente. Alguém trocou os papéis de todo mundo, sei lá, talvez um estagiário tenha distribuído os nossos scripts errado. Ou foi demitido e Maritza assumiu o seu lugar.

A maioria dos nossos papéis mudou. Nunca reparei no roteiro anterior de Édra Norr, mas agora é ela quem abraça Camila Dourado pelos corredores. Polly não participa mais das minhas cenas como antes, mas ela ainda surge de vez em quando. Cadu Sena sorri pra mim quando passa, como se me desejasse “bom dia” com os dentes irritantemente brancos.

E eu? Continuo observando todos os outros atores, digo, alunos, em seus respectivos atos.

Mas, nessa manhã em particular, não eram só os alvos de chacota, como Wilson Zerla, e os isolados que cercavam o quadro de avisos na parede. Parecia que todo mundo que atravessava o corredor congelava ali (ainda que por alguns segundos).

Nem preciso dizer que fui guiada pela minha curiosidade a ver o que estava acontecendo...

Ou preciso?

O cartaz era claro e pode ser resumido em: Feriado de São Patrique. Arrecadar dinheiro para a formatura. Show de talentos. Nota.

– Íris! – disse Polly, empolgada, atrás de mim enquanto eu fitava a parede.

Cara, essa é a chance perfeita.

– Íris, você não vai acreditar na oportunidade de ouro que caiu bem na nossa cara! – continuou Polly, sem aparecer no meu campo de visão. – Eu preciso muito gritar!

E eu preciso mostrar um cartaz desses pra Édra Norr.

As mãos de Polly agarraram meus ombros e me giraram de frente para ela, que me encarava com as sobrancelhas juntas na testa.

– Você pode prestar atenção em mim por três segundos?!

– Bom dia, Polly – respondi, respirando fundo. – Qual a ideia mirabolante dessa vez?

– Não é mirabolante – retrucou ela, revirando os olhos. – É genial.

– É sobre o quê? – Encarei seu rosto, analisando suas reações exageradas para cada palavra que ela dizia.

– Sobre a nossa virgindade! – exclamou Polly, um tanto quanto alto demais. – Quero dizer... – Olhou em volta, provavelmente percebendo que outras pessoas também perceberam. – Sobre perder a nossa virgindade – sussurrou.

Continuei fitando-a, muda. Fala sério, se tem uma coisa em que não preciso pensar (ainda mais depois do sonho dessa última noite) é justamente (perder) a minha virgindade. Ela precisa continuar aqui, e intacta.

– Vai ter uma festa na Praia da Sardinha, do time de futebol do colégio – Polly foi me arrastando pelo braço até o armário dela. Os cartazes foram se afastando pouco a pouco da minha vista e mais pessoas surgiram na frente deles, cobrindo-os por completo. – É a chance perfeita. Tanto o Cadu quanto o Luiz estarão lá. E, tipo, o clima vai surgir naturalmente depois de umas tequilas.

– Eu não sou acostumada com álcool, Pops – fui dizendo, observando Polly colocar a senha do armário. – A única coisa que vai surgir naturalmente depois de umas tequilas é vômito.

– Ai, Íris. – Ela revirou os olhos agarrando o livro de Biologia. – Você é tão desagradável. Acho que toda essa novela tá comendo a sua capacidade de interação social. Você é uma falha no sistema adolescente.

– Você é uma falha no sistema de melhores amigas. – Arfei. – Desde quando perder a virgindade é mais importante que nossos planos pra formatura?!

– Mas perder a virgindade faz parte dos nossos planos pra formatura. – Polly bateu o armário abruptamente. Os parafusos velhos rangeram em um som irritante. – Precisa acontecer, Íris. Me prometa que, se Cadu Sena te convidar, você vai aceitar. Mesmo que você saia virgem dessa festa.

– Eu não posso prometer uma coisa dessas, até porque, cara, Cadu não vai me convidar.

– Ele está vindo bem atrás de você. – Polly sorriu maliciosamente. – Diga Sim.

E saiu, agarrando o braço de Luiz, que passava se exibindo com a jaqueta do time de futebol, combinando com os outros garotos, inclusive com Cadu Sena, que me encarava com um sorriso nos lábios selados.

– O que você vai fazer no fim de semana? – Ele passou o braço por cima do meu ombro e fomos andando pelo corredor.

– Sem planos – eu disse, desconcertada. Estávamos andando... Abraçados... No corredor. – E o senhor? – tentei brincar, pra disfarçar o nervoso.

– Eu vou te levar pra sair. – Pude ver, pelo seu perfil, um sorriso malicioso se abrir. – Se você topar, é claro.

“Diga sim.”

– É que vai rolar uma festa na praia, vai colar uma galera do colégio e tudo mais – Cadu continuou explicando.

Diga: sim.

– Se você quiser ir comigo... – O braço de Cadu, que enrolava o meu pescoço, me puxou mais pra perto no momento em que Édra Norr e Camila Dourado passaram abraçadas, do mesmo modo como nós estávamos, do outro lado do corredor.

Eu e Édra nos encaramos por uma fração de segundos. Seu olhar deslizou pelo corpo de Cadu Sena, em seguida para a mão dele (caída sobre o meu ombro) e de volta para o meu rosto.

Só que, antes que eu pudesse fazer qualquer contato visual de volta, ela desviou.

Quando nossos corpos passaram, um ao lado do outro, em direções opostas, o cheiro de Édra Norr invadiu a minha atmosfera. E fui obrigada a seguir em frente, com aquele aroma impregnado no meu nariz: frutas, hortelã, shampoo e algum perfume masculino.

Diga... Sim?

– Vamos? – perguntou Cadu quando paramos na frente da porta da sala dele.

Diga sim!

O som histérico da risada de Camila Dourado continuava audível, ainda que ela se afastasse com Édra, bem atrás das minhas costas. Revirei meus olhos.

– Sim – respondi. – Vamos.

 

Passei a aula tentando não olhar para Édra Norr, sério, hora nenhuma (o que foi uma coisa muito difícil de se fazer, considerando que ela estava sentada na cadeira bem ao lado da minha).

Eu simplesmente não podia. Estava com medo de corar, ou, sei lá, de deixar escapar qualquer detalhe sobre o meu sonho. Imagine se qualquer pessoa no planeta Terra (além de mim) soubesse de alguma coisa dessas?! A minha cabeça iria parar na guilhotina de Camila Dourado e sua trupe, ou pior... Trancafiada na masmorra de Polly e Cadu Sena.

É claro que eu tinha que falhar miseravelmente na minha missão de não olhar pra Édra Norr. Quando menos esperei, entre as anotações do quadro no meu caderno, fui acertada por uma bolinha de papel que vinha de sua direção.

Levantei a cabeça, vendo-a acenar e apontar em direção à bolinha no meu colo.

“Essa é minha segunda tentativa de não ser um fantasma no trabalho de literatura, Íris. Tô escrevendo por carta, já que você não anotou o meu número.”

Voltei a encará-la. “Desculpa” foi o que sibilei, para que ela entendesse. “Eu esqueci.”

Édra balançou a cabeça negativamente e voltou a escrever no caderno, destacando a folha logo em seguida e amassando outra bolinha.

Essa eu peguei no ar.

Estávamos em uma das piores aulas da face da Terra. Isso porque o professor Cabral é realmente o ser humano mais ranzinza que já habitou esse mundo. Há rumores de que ele é um dinossauro.

Sério, eu consigo sentir seu corpo decompondo de tão velho. É cientificamente impossível que ele não tenha pelo menos quatrocentos anos, com aquela pele. Eu sei disso, eu sou cientista.

“A gente precisa decidir os livros do trabalho. Pode ser no Leoni’s. Derruba alguma coisa se você concordar. E a gente se encontra no bicicletário.”

Deixei minha caneta cair propositalmente, olhando para Édra o tempo todo, enquanto ela (a caneta destampada) deslizava cadeira abaixo. A movimentação fez com que, estranhando o barulho, o professor Cabral se virasse. Ele olhou de um lado pro outro, voltando a anotar coisas no quadro. O silêncio voltou a prevalecer.

Édra tentou segurar uma risada, e não pude evitar um sorriso.

Me abaixei para recolher a minha caneta e ela chutou uma nova bolinha de papel, que parou de rolar quando encostou na minha mão.

“Ele não parece aquele bebê da família dinossauro, só que velho?”

Certo, não dava pra não rir.

– Algum problema, Pêssego?! – O professor Cabral se virou para mim, tossindo, como sempre.

– Não, professor. – Tentei ficar séria. E, olhando para Édra (que me fitava de canto de olho, com um sorriso cínico na boca), continuei: – Nenhum.

 

Certo, eu preciso mesmo parar de fazer isso.

Mas é tão inevitável.

As costas de Édra eram a minha visão naquele momento. Não deveriam ser, até porque, assim como ela, eu deveria estar procurando livros que servissem como inspiração pro trabalho de literatura. Só que, como eu disse, é tão, mas tão inevitável. Como se existisse um ímã nos meus olhos e outro ímã no corpo de Édra Norr. E isso era um saco – mesmo considerando que eu realmente devia observá-la, já que ela é o meu atual objeto de estudo – pelo simples fato de que nem sempre eu quero olhar pra ela.

E eu simplesmente não consigo parar.

– É essa a namoradinha da Carniça Dourado?! – Maurício encostou em mim, tentando disfarçar enquanto fingia varrer o chão.

Eu ri do trocadilho. Fazia todo o sentido, se você considerar o fato de que Camila Dourado fez tudo o que estava ao alcance dela para transformar o emprego de Maumau num inferno durante todas as férias que o colégio concebeu nos últimos dois anos. Sim, por pura implicância mesmo. Tanto ela quanto a irmã, Renata, eram extremamente insuportáveis com Maurício. Assim, de graça, sabe?! Maumau nunca fez absolutamente nada contra nenhuma delas. Inclusive, ele já tentou uma aproximação. Mas, no fim das contas, Renata e Camila fizeram com que ele dirigisse o carro enquanto elas se acabavam em compras de supérfluos pela cidade. O que fez com que Maurício percebesse que elas sempre o enxergariam como um funcionário, não importava o que ele fizesse. Então eu não consigo julgá-lo. Daria a ela um apelido pior se eu fosse o alvo de todas as piadas e assédios moral sofridos por Maurício.

– É. – Suspirei, retirando um livro aleatório da prateleira. Só pra não parecer que eu não estava fazendo nada além de analisar Édra Norr, umas estantes a minha frente.

Édra tinha um jeito engraçado de procurar livros. Ela sentia a capa, cheirava as folhas, abria uma página aleatória e lia por um ou dois minutos. E aí, pronto, devolvia o livro de volta para a prateleira. Eu queria muito poder ver a cara dela enquanto fazia isso, mas só conseguia vê-la de costas. Com aqueles cabelos grudados na nuca e numa pose meio torta.

– Ela é linda, né? Misericórdia... – Maurício me deu uma cotovelada de leve. – Pode admitir, você anda meio lésbica ultimamente.

– É. – Suspirei de novo. – Ela é bonita.

– Eu sabia. – Maurício riu da minha cara. Na minha cara. – Íris, posso te perguntar uma coisa, assim, só por curiosidade?

Ai meu Deus, ele sabe o que eu sonhei. Eu tenho certeza. Ele é intuitivo.

– Pode – respondi, querendo ser microscópica e me enfiar dentro de um livro.

– Você não tá a fim dessa menina, nem nada do tipo não, né? – indagou ele, me analisando.

– É claro que não, Maurício... – Abri um livro qualquer, arfando. – Fala sério, que pergunta.

– Ai, amiga, sei lá, você tá há trezentas horas olhando essa menina escolher livro com a maior cara de idiota – Ele tentou se explicar, varrendo mais um pouco para disfarçar que estava conversando comigo. – Não adianta se apaixonar por quem já tá apaixonado, Íris. Conselho de amigo, viu? E experiência própria.

Maumau respirou fundo, se apoiando na vassoura. Tracei o caminho que seu olho fez entre as cadeiras e tábuas de madeira, até a caixa registradora, no andar de baixo, onde Léon fazia anotações e contava o dinheiro.

– Tá, Mau, mas eu não preciso desse conselho. – Ri de nervoso. – Eu até precisaria uns meses atrás, mas agora eu tô apaixonada por uma pessoa finalmente livre. E que, falando nisso, é um cara.

– Então tá, né? – Pude sentir o sarcasmo em seu tom de voz. – Se você tá dizendo...

Cara, sério, que absurdo o Maurício achar isso. Nada a ver mesmo ele confundir as coisas nesse ponto. Eu não olho pra Édra Norr desse jeito. Tá, ela é bonita e charmosa na maioria das coisas que faz. Ela também é engraçada e inteligente. E eu também acho muito fofo o jeito como ela coça a nuca quando tá indecisa. Nem preciso mencionar aquele quarto e as aulas pras crianças. Só que não é como se eu fosse apaixonada por ela, ou coisa assim.

Eu sou apaixonada por Cadu Sena. Completamente. Desde a oitava série. E não tenho dúvidas disso, ainda que ele tenha falado só sobre ele mesmo durante todo o nosso primeiro encontro.

Finalmente eu tenho a chance. E eu disse sim.

Então, por favor... Urgh, Édra Norr...

Não.

– Curti esse aqui. – Édra surgiu do meu lado com um livro de capa vinho na mão. – Mas falta o seu, né? Mesmo sendo em dupla, cada uma precisa de um livro pra se basear na hora de construir o poema. – Apertou os olhos, me analisando. – Teria te explicado melhor... – Foi entrando na minha frente, se apoiando na prateleira que eu remexia. – Se você tivesse adicionado o meu número.

– Eu esqueci – repeti desconcertada, tentando não olhar nos olhos dela. – Qual foi o livro que você escolheu pra se inspirar? Vai que o seu me ajuda a decidir o meu.

Tentei parecer o mais amigável possível, tendo em vista que Maumau, agora, limpava livros perto de nós duas.

– Lapsos de desejo – respondeu Édra, me olhando assim por cima, por causa da inclinação do seu corpo na prateleira. Foi curta e direta. Como tirar um band-aid.

E isso pareceu o suficiente para Maurício tentar conter o riso do outro lado.

Eu precisava consertar a situação. Para que não parecesse o que Maurício queria que parecesse.

– Hum. – Folheei um livro qualquer. – E é sobre o quê? Um romance?

– Eu acho que sim – respondeu Édra, pro meu alívio. – Mas eu peguei esse só por causa do sexo mesmo.

Subi mais o livro para o meu rosto. Deus, eu não posso ficar vermelha agora.

– É um tema mais fácil de escrever – continuou Édra, em um tom de voz embargado. – Pra mim, pelo menos.

– Eu não sei nada sobre esse tema – respondi, em um tom convincente. Tentei não olhar nem pra ela, nem pra Maurício enquanto falava.

Meus olhos passavam pelas palavras do livro que eu folheava, mas, na verdade, eu não estava lendo nada. E nem conseguiria, mesmo se tentasse.

Meu desespero só aumentou quando o livro escapou dos meus dedos, puxado pelas mãos de Édra, que me olhou certeira, com as sobrancelhas juntas na testa.

– Você é virgem? – perguntou, me atravessando com aqueles olhos.

Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, meu rosto ficou mais quente que qualquer outra coisa. Meu corpo também borbulhou, como água no fogão. Não que eu soubesse o que responder, é claro. Ainda mais depois daquele sonho. Eu não deveria sonhar essas coisas se não sei exatamente como elas são, certo?

Certo.

As sobrancelhas de Édra foram se erguendo e um sorriso – que eu só pude classificar como lascivo – foi se abrindo (mais torto pro lado esquerdo) em sua boca.

– Você é virgem.

– E daí?! – Revirei os olhos, capturando o meu livro de volta. – Não é como se eu fosse um alienígena por isso.

– Eu não disse isso – explicou Édra, cautelosa.

Mesmo com a voz suave e cuidadosa, o olhar continuava faminto. Isso era muito confuso. Não importava a expressão facial que tentasse fazer, ou o tom de voz que usasse... Nos seus olhos sempre haveria fome. Mas é claro que essa é só uma observação como outra qualquer. Não estou observando Édra Norr como Maurício acha que estou. São coisas necessárias de pontuar, sei lá. Podem ter uma utilidade depois. Não se deve questionar as inclinações científicas.

Ótimo. Agora eu vou ficar paranoica com isso.

Nossa, que saco essa história toda.

Édra pegou o celular que vibrava, iluminando o bolso de sua calça jeans preta.

– Eu achei uma gracinha, até. Nunca conheci ninguém que fosse virgem no terceiro ano – disse ela, sem me olhar, porque prestava atenção na tela do celular. – Nossa geração anda meio precoce.

– Prazer, o alien virgem do terceiro ano. – Fechei o livro que eu folheava minutos antes, sem nem saber sobre o que era. Decidi olhar a capa.

Descobrindo o amor.

– Prazer, alien virgem – disse Édra entre risos, digitando no celular com uma cara apreensiva. – Eu sou o alien pervertido do terceiro ano. – Ela levantou os olhos para me ver, por poucos segundos, deixando-os cair sobre a tela do celular novamente.

– Aconteceu alguma coisa aí, alien pervertido? – perguntei, curiosa e preocupada.

– Nada de mais. – Ela enfiou o celular para dentro do bolso onde estava antes. – Camila tá me enchendo o saco pra ir com ela no shopping. Mas qualquer coisa eu saio daqui correndo e encontro com ela lá. Eu tô de bike, é tranquilo.

– Acho que escolhi o meu livro. – Eu sorri para a capa de Descobrindo o amor.

– Por que você é virgem ainda? – Édra voltou pro assunto anterior, se sentando no chão de madeira.

– É meio idiota falar isso nesse século... – Me deixei deslizar para o lado dela. – Mas estou esperando a pessoa.

– Eu realmente não acho essa coisa toda ser virgem, porque... – Édra abriu seu livro, Lapsos de desejo. – Se você for parar pra pensar, todo mundo é virgem de alguma coisa.

– Você é virgem de quê? – indaguei, me sentindo menos um alienígena.

– Eu sou virgem de, bom, garotos... – Ela riu brevemente e começou a folhear as páginas do livro. Pude ver algumas gravuras de mulheres nuas. – De pular de paraquedas, de pizza...

– Que absurdo ser virgem de pizza! – exclamei, incrédula.

Eu gasto todo o meu dinheiro em pizza, é óbvio que eu acharia isso surreal. Quem não gosta de pizza?! Quem nunca comeu pizza?!

– Eu não sou um alienígena por isso – ela brincou, me olhando de lado.

– É. – Sorri. – As pessoas costumam achar um absurdo quando digo que sou virgem de sexo. Deve ser a mesma sensação.

– Pois é. – Ela estirou a mão pra mim. – Prazer, alien virgem de pizza.

Eu ri até morder os lábios. Nossa pele foi se encostando. A minha mão parecia menor na mão de Édra (e era uma pele tão macia).

A minha mão com certeza estava suada... e trêmula. A mão dela, mesmo macia, parecia firme enquanto apertava a minha.

– Nossas mãos acabaram de perder a virgindade uma da outra. – Édra sorriu, e seus dedos foram me soltando com cuidado. – Viu? Tem virgindade pra tudo.

– Você precisa perder a virgindade de pizza! – disse, empolgada.

Na verdade, estava tentando não parecer nervosa. Meu coração tinha acelerado involuntariamente com o que ela tinha acabado de falar.

– Eu preciso.

Então, seu celular começou a vibrar contra o piso de madeira, fazendo um barulho muito alto, que ecoava por toda a livraria.

Fiquei imóvel, observando enquanto ela digitava e respirava fundo, agoniada.

– Tenho que correr até o shopping. – Édra se levantou, abruptamente. – Pedalar, no caso. – Forçou um riso, colocando a mochila novamente nas costas.

– Tudo bem, a gente vai se falando. – Me apoiei na estante para levantar também.

– Tchau, alien. – Ela sorriu torto pra mim, me olhando com aqueles olhos.

– Tchau, alien.

Fiquei ali em pé, observando Édra Norr descer as escadas de madeira com a pressa do mundo inteiro. Rangendo as tábuas a cada passo. Ela falou alguma coisa com o Léon e saiu, deixando apenas o tilintar do sino pendurado na porta do Leoni’s.

Não consegui conter a vontade de cheirar a minha mão não virgem de Édra Norr. Parecia que uma parte do cheiro dela tinha grudado ali.

– “Alien”, né?! – Maurício surgiu, com os braços cruzados.

Fui recolhendo minhas coisas como uma fugitiva. Precisava evaporar dali. Percebi que Édra tinha deixado o livro caído no chão. Droga.

– Eu não sei do que você tá falando, Maurício – respondi rispidamente, colocando a minha mochila nas costas e abraçando Lapsos de desejo.

– Íris, sério. – Maurício foi me puxando para dentro das estantes. – Eu venho trabalhar todos os dias porque é o único emprego bom que eu achei nessa cidade. – E, passando a falar em um tom de voz baixo, completou: – Mas é como se fosse uma prisão. É tortura, cara. Léon me pede opinião “de homem pra homem” sobre que gravata usar pra sair com a Renata quando o expediente acaba.

– Quê?!

– É – Maumau parecia cabisbaixo e frustrado. – Pois é. A gente não tem como prever por quem se apaixona, nem impedir. Você acha que eu queria isso? Cai na realidade, garota, até as tábuas sabem que eu sou apaixonado pelo Léon.

– Mas eu não estou apai...

– Mas pode ficar, Íris! – Ele me segurou pelos ombros. – Em nome de Cher, cai fora. Sério. A pior sensação do mundo, depois de arrancar um dente, é se apaixonar por uma pessoa com quem você, sei lá, nunca vai perder todas as suas virgindades.

Engoli seco.

– Você tá entendendo o que eu quero dizer?! – Maurício inclinou toda a sua altura para me olhar nos olhos, liberando os meus ombros de suas mãos.

– Maurício... – Eu o encarei de volta, apertando Lapsos de desejo contra o meu peito. – Não faço ideia do que você tá falando.

 

Pedalei muito rápido até o colégio, o que me deixou meio enjoada. Eu tinha acabado de almoçar com os meus pais e minha mãe me obrigou a ajudá-la com as caixas de produtos novos para o consultório. Menti que precisaria voltar no colégio pra assistir uma aula extra. Na verdade, eu estava indo lá com o intuito de cometer um crime.

Mas, calma, eu posso explicar.

Mentira, não posso.

Deus, estou muito estranha ultimamente. Primeiro eu roubo um binóculo, agora falsifico uma assinatura. Quem sou eu?!

Rebobinando a fita, eu sabia que Édra Norr nunca participaria do Show de Talentos. Isso é óbvio, se formos considerar que ela nem cantou na minha frente por timidez. Mas, sei lá, eu quero muito que ela “perca a virgindade” do palco. Ela parece ser extremamente talentosa. Posso sentir isso.

Fala sério, só estou tentando ajudar.

E se os diretores do curso de música para crianças pudessem ver que ela é mesmo talentosa, independente de estar no terceiro ano?! Sem precisar de uma formação universitária, ou coisa assim. Não desmerecendo quem estuda anos pra essas coisas, mas existem pessoas com dons. Sabe, tudo isso deveria ser levado em consideração. Não deveria ser apenas um pedaço de papel que comprova se você é bom ou não em alguma coisa. Existem exceções.

Édra é uma excelente professora de música para criancinhas. O mundo precisa reconhecer isso. As pessoas precisam perder a virgindade do talento dela.

Certo, estou obcecada por virgindade igual a Polly. Me recuso.

Não, não me recuso. Não é só sobre sexo. É a virgindade das coisas.

É um crime perdoável. Édra Norr vai me perdoar.

“O número que você chamou está fora de área ou desligado. Deixe seu recado, você só será tarifado após o sinal...”

– Ei, alien! Você esqueceu o livro lá no Leoni’s. Eu posso te entregar amanhã, ou mais tarde. Calma, vou digitar uma mensagem pra você parar de encher o meu saco.

Desliguei o celular, ainda encarando o pôster cheio de assinaturas.

 

Ei, alien virgem de pizza, me responde onde posso entregar o livro. Não me faça perder ponto nessa matéria! >:[ 13:13

 

Fui pra casa e demorei o dobro do tempo pra chegar. Não consegui passar pela Avenida Principal. Estava uma agitação, cheia de repórteres, como se uma celebridade tivesse parado por lá ou coisa assim. Provavelmente os famosos estão vindo fazer suas reservas para o feriado. Alguns atores já passaram o feriado por aqui. Vi o carro do telejornal da cidade, então cortei o caminho.

Tomei um banho e...

“O número que você chamou está fora de área ou desligado. Deixe seu recado, você só será tarifado após o sinal...”

Droga.

Respondi a mensagem da Polly, perguntando se Cadu tinha me convidado pra festa na praia que aconteceria no fim de semana. Ela surtou, me mandando um bilhão de emojis de garota dançando e fogos de artifício.

Só me resta fazer uma coisa agora pra passar o tempo...

 

– Quer chá?! – Dona Símia perguntou, como de costume, assim que fechou a porta atrás de mim.

Afundei no sofá, entre Lanterna e Loriel, pensando no quanto eu tinha extrapolado todos os limites quando assinei o nome de Édra nas inscrições para o Show de Talentos sem autorização.

– Não, obrigada – repeti, como mandava nosso script de sempre.

– Tudo bem, um dia você aceita. – Ela sorriu, sentando do meu lado. Chá numa mão, controle na outra.

A sala, antes escura, foi iluminada por um raio de luz azulada que clareou tudo em seu tom fluorescente, até ganhar outras nuances do comercial de sabonetes que estava passando. A mão de Dona Símia, sempre trêmula, foi trocando os canais.

Talvez um dia eu perca a minha virgindade de chá, pensei.

Vi que o lugar onde o binóculo do falecido marido de Dona Símia ficava ainda estava vazio. Graças a mim. O que me deu um nervosismo.

Eu ando muito criminosa ultimamente.

– Onde tá sua cabeça agora? – perguntou Dona Símia, ainda trocando os canais.

Me ajeitei no sofá, tentando parecer menos aérea do que eu estava. O lado bom de ter uma melhor amiga idosa é que você não precisa mentir pra ela. Não sobre tudo.

– O fim de ano tá me deixando meio doida da cabeça. – Respirei fundo. – Parece que tá tudo acontecendo ao mesmo tempo.

– Que saudade da minha época de escola, viu?! – disse ela, tossindo. – Você devia aproveitar, depois vai fazer falta.

– Como foi sua formatura, Dona Símia?

– Ah, eu não tive uma formatura. – Ela balançou a cabeça negativamente, com aquele olhar de juventude que ela tinha, mesmo naquele corpo que dizia o contrário. – Queria ter ido. Todo mundo foi, mas fiquei em casa. Meus pais eram muito religiosos. Eu costurei um vestido por semanas. Ficou foi bonito...

– E aí?! – Meus olhos arregalaram.

– Meu pai rasgou o vestido inteiro quando viu, achou vulgar, disse que eu estava andando demais com as moças da cidade. Ele me proibiu de ir pra formatura e acabei ficando em casa mesmo, sabe?

– Poxa, Dona Símia... – Fui tentando desfazer meu nó na garganta. – Eu sinto muito por isso.

– Não sinta pelo que ele fez. Eu devia era ter fugido! Sinta muito por eu não ter tido coragem. Porque, por isso, até eu sinto. – Ela me olhou de lado, repousando o controle no colo e girando a colher na xícara de porcelana. Pude ouvir a abertura de Amor em atos começando. – A gente precisa parar de viver pensando no que os outros vão achar da gente.

– Eu me sinto de outro mundo às vezes. – Alisei a cabeça de Lanterna, me ajeitando no travesseiro.

– Não tem problema nenhum em ser de outro mundo. – Ela tossiu, voltando a olhar para a televisão. – Só não deixe ninguém rasgar o seu vestido.

 

Voltei pra casa naquela noite pensando em todas as vezes que eu deixei que alguém rasgasse o meu vestido e isso foi me apertando o peito.

Também pensei no que Dona Símia disse sobre aproveitar agora, já que depois me faria falta. E depois de muito relutar, criei coragem pra convidar Édra Norr pra tirar a virgindade dela de pizza. Acho que seria legal fazer isso, já que, mesmo me chamando de alien, ela fez com que eu me sentisse menos alien. Ou, sei lá, uma alienígena menos sozinha.

Mas...

“O número que você chamou está fora de área ou desligado. Deixe seu recado, você só será tarifado após o sinal...”

Fui subindo as escadas quase que em câmera lenta, desanimada e arfando.

– Ei, filha – A voz do meu pai me interrompeu no quinto degrau. – Vem ver o jornal, aconteceu alguma coisa com um aluno do seu colégio.

Desci correndo.

– Quê?! – Fui sentindo o aperto no peito e um embrulho no estômago, até dar de cara com meus pais abraçados no sofá e a televisão ligada, com a repórter do Boa Noite, São Patrique ao vivo da avenida que eu tinha evitado mais cedo.

“A estudante foi identificada como Édra Norr, filha do empresário Augustus Norr, conhecido por investir em boa parte das pequenas empresas da cidade. O acidente aconteceu no início da tarde, mas repercutiu durante o dia inteiro, parando todo o trânsito da Avenida Principal. Segundo informações, a estudante se acidentou enquanto manobrava entre os carros, aqui na avenida. Depois de colidir com um carro, a vítima foi arremessada a dois metros de onde estava. Câmeras de vídeo dos estabelecimentos locais mostram o momento em que tudo aconteceu. Nos vídeos, Édra Norr arrasta a bicicleta da rua até o passeio, mas desmaia no local. O motorista responsável não foi identificado ainda, e as filmagens já estão sendo averiguadas pela polícia. O estado da estudante ainda não foi revelado. Estamos aguardando um posicionamento do Hospital Hector Vigari. Eu sou Alícia Boaventura, ao vivo da Avenida Principal. Agora é com você, Fábio.”

Meu celular escapou por entre os meus dedos no tapete da sala.

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