O Amor Não é Óbvio

Elayne Baeta · Capítulo 15 de 27

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O Amor Não é Óbvio

13 | O sabor do chá

O SABOR DO CHÁ

 

Você já passou por algum momento decisivo? A grande final de um jogo, uma apresentação importante no colégio, a festa que você tanto esperou pra finalmente beijar quem você tanto queria... Nossa vida é feita de inúmeros momentos decisivos. E, quando passamos por eles, saímos com algum aprendizado. Momentos assim nos mudam em alguma coisa. Alguns são meio aterrorizantes, mas quando você finalmente passa por eles, você se dá conta do quão idiota foi ter se preocupado tanto. Em outros, você acha que vai tirar de letra e tudo termina em um completo desastre.

Eu estava passando por um momento decisivo da minha vida, contra a minha vontade. Se pudesse rebobinar a fita, jamais teria me metido nisso. Porque, bom, vamos recapitular tudo: Eu era Íris Pêssego, a pessoa que pegou catapora, faltou aula durante semanas e ninguém notou. A garota que assistia à novela escondida na casa da vizinha, que deu um primeiro beijo desastroso e ainda com o primo da melhor amiga. Alguém que não sabia manusear binóculos e que definitivamente não era salva por ninguém em lugar nenhum.

De repente, alguém pegou o meu roteiro e entregou nas mãos de Maritza, e minha vida deixou de ser um comercial sem graça de detergente a que ninguém assiste inteiro e virou a própria novela Amor em atos.

Desde quando eu passo por toda essa adrenalina? Desde quando persigo meus colegas de sala? Desde quando tenho dúvidas sobre qual tipo de pessoa me atrai? Desde quando fico na frente do fogão assistindo à água borbulhar para fazer chá?

– O que é isso? – Minha mãe apareceu com as mãos na cintura, deixando o roupão como uma capa de super-herói atrás dos seus braços. – Você fazendo chá? Desde quando você bebe chá?

– Desde quando você parece mais o Batman do que o próprio Batman? – resmunguei, vendo as bolhas se formar e se desfazer dentro da chaleira de alumínio. Elas, as bolhas, me olhavam de volta, como se duvidassem da minha coragem em fazer chá.

Sério.

– Eu ouvi castigo?! – Foi o que Irônica Pêssego (nome que a minha mãe deveria realmente ter) me deu como resposta.

– Engraçadinha. – Coloquei a língua pra fora, revirando os olhos.

Desliguei o fogo com muita dificuldade. Parecia que aqueles botões estavam superpesados, porque isto realmente me custou um grande esforço.

E eu fiquei em pé, olhando a água aquecida, que ainda borbulhava e soprava um vapor quente na minha cara.

Senti que, atrás das minhas costas, minha mãe me observava, esperando eu me mover e começar a fazer o chá. Aposto que ela, assim como as bolhas, duvidava da minha capacidade.

E eu simplesmente coloquei o pacote com sachês em cima da pia, dei meia volta e subi até o meu quarto.

Fechei a porta nas minhas costas e deslizei até o chão do quarto, sempre recebida por Margot, que lambeu meus pés. É claro que ela estava consolando o meu fracasso. Eu não consegui. E não faço ideia de por que tomar um simples chá significa tanto.

É como eu falei, alguns momentos decisivos simplesmente parecem aterrorizantes, ainda que sejam, na verdade, bem idiotas.

O que a maioria das pessoas não sabe (ou não aceita) é que não dá pra fugir de momentos decisivos. Eles sempre voltam pra nos atormentar. Porque a gente precisa passar por eles, justamente por causa do aprendizado que está guardado para nós e que só conseguiremos ver depois de vencer, digo, vivenciar o “momento decisivo” (mesmo que ele seja idiota, como tomar chá).

Eu estava vivendo um momento decisivo dividido em várias etapas. E sentia que descobrir o gosto do chá estava entre essas etapas.

Uma hora seu cérebro te dá um momento curto de clarividência e você percebe coisas que normalmente não perceberia no seu dia a dia, por negação ou burrice.

No fundo do fundo do nosso âmago, a gente sabe quando está fugindo de algo, na mesma intensidade que a gente sabe que uma hora terá que encarar isso.

E eu soube, quando escorreguei da porta até o chão, entre as lambidas de Margot pelos meus dedos tortos, que existia uma linha tênue entre o sabor do chá e o sabor da saliva de garotas.

Era verdade. E eu sabia que as bolhas na panela sabiam, talvez a minha mãe, Margot e as paredes do meu quarto também soubessem: Eu, Íris Pêssego, estou obcecada por garotas.

Não necessariamente por Édra Norr, mas por como funciona a cabeça de garotas que gostam de outras garotas.

Tá, um pouco por Édra Norr.

Mas só um pouco.

Sim, eu disse um pouco. Por avô Félix, se fosse muito eu falaria.

Deus, clarividência, cale a boca.

Independente de Édra Norr, eu preciso desvendar essa charada. Preciso passar por esse momento decisivo que é descobrir se eu sou uma garota que possivelmente se atrai por outras garotas. E não vou saber isso até vivenciar o meu momento decisivo. E, por alguma razão que está para além do meu alcance de compreensão, eu simplesmente sentia que a resposta para todas essas dúvidas estaria no Submundo. Necessariamente amanhã, às 22h, na “Noite Retrô”.

Eu preciso ir.

Na mesma proporção em que eu preciso beber o maldito chá.

Quando andei pelo corredor naquela manhã, entrei em um grande transe de pensamentos. Todas as pessoas estão passando por momentos decisivos o tempo inteiro. Vi Wilson Zerla entregar panfletos e lembrei da história entre ele e Polly, e o momento decisivo que os dois estavam vivendo, cada um de uma forma diferente. Tatiele e Priscila Pólvora, procurando aprovação dos rapazes, no próprio momento decisivo delas, já que o baile de formatura está chegando e elas estão secas atrás de um par. Gênesis e sua fé tão grande quanto seu desejo em vazar meu vídeo pros sete ventos, no momento decisivo dela, que ironicamente é acabar com a minha vida. Camila Dourado, passando com sua prancheta na mão, sendo escoltada por inúmeros estudantes, fazendo as perguntas mais aleatórias possíveis sobre a festa de formatura.

 

Entrei no auditório, ainda percebendo as coisas em uma velocidade mínima, em que eu podia jurar que conseguia notar até as partículas de poeira levantando com o ar, enquanto todos caminhavam para os lugares que deveriam ir.

Lulu Matias em seu momento decisivo de dividir todos os alunos em grupos, para ajudar na organização da nossa arrecadação de fundos para a festa. Cadu Sena conversando com os garotos enquanto carregavam caixas de papelão repletas de rolos de cartolina e todo tipo de material para a confecção dos nossos cartazes, banners e enfeites das barraquinhas que montaremos no feriado de São Patrique. Desviando o olhar quando me viu, já que, provavelmente, eu sou o momento decisivo dele. Inúmeros alunos espalhados pelo auditório, fazendo atividades em grupos, cada um em momentos decisivos que eu nem sequer faço ideia.

E Édra Norr, mastigando um sanduíche, escutando instruções de uma garota que nunca vi na vida, junto a um grupo de quatro pessoas.

Eu não faço a mínima ideia do seu momento decisivo. Não é injusto? Eu não ter nenhuma noção disso, nem sequer um palpite sobre o momento decisivo dela enquanto ela interfere diretamente no meu.

– Íris? – Lulu Matias surgiu à minha esquerda. – Íris Pêssego, não é? Você pode ficar com o grupo dos balões de papel hoje. Bem ali.

A mão de Lulu Matias, que segurava um piloto vermelho, apontava a direção. E o maldito piloto, aberto, traçava meu caminho até o grupo de pessoas em que Édra Norr estava.

– Você tem certeza que... – tentei contra-argumentar, pra não ter que lidar com a tensão que seria aquilo. Mas eu tinha sido largada sozinha entre todas aquelas pessoas que circulavam pelo auditório como formigas.

Rastejei até o grupo de Édra Norr, tentando soar o menos desesperada e desconfortável possível.

Quando ela me viu, continuou mastigando o sanduíche com agressividade, como se estivesse vários dias sem comer. E desviou o olho, como se não quisesse me olhar.

– Então, já entenderam, né? – a garota perguntou para a turma quando eu cheguei. – Você vai ficar nesse grupo dos balões de papel? – Ela se virou pra mim, inclinando a cabeça. Acho que ela, assim como todo mundo, percebeu que eu estava completamente aérea e perdida.

Eu só queria limpar o canto da boca de Édra Norr, sujo de farelos de pão. Pra que ela ficasse completamente impecável como sempre.

– Sim. – Acenei com a cabeça, observando a mastigação de Édra, que não me olhava de volta.

– Alguém pode explicar pra ela como fazer os balões? Acho que todo mundo entendeu, né? – A garota sorriu apressada. – Qualquer coisa me chamem.

– Então... – suspirou um garoto com os óculos desproporcionalmente grandes comparados ao seu rosto, fino como um peixe. – Por onde a gente começa?

E todo o nosso grupo se dispersou, cada um indo para um canto aleatório e agarrando as tesouras por conta própria.

Sobramos eu e Nemo, digo, o garoto com cara de peixe, sozinhos de pé.

Balancei a cabeça negativamente, arfando com um ar pesado. É claro que eu estava chateada. Ela simplesmente estava fingindo que eu não existia.

– Você vai mesmo ter essa atitude? – Minhas sobrancelhas franziram quando eu alcancei Édra Norr. Ela estava jogando o guardanapo do sanduíche na lixeira.

Édra continuou calada e seguiu caminhando em direção a... Não faço ideia. Até porque eu estava andando de ré na frente dela, tentando fazer com que ela me olhasse.

– Sério? – Eu parei, para que ela também parasse, já que me fiz de obstáculo no caminho.

– Sério o quê? – Foi quando os abismos castanhos me miraram.

O que durou segundos, já que ela desviou o corpo e seguiu o caminho para a mesa repleta de tesouras, cola e todo tipo de material para confecção dos balões.

– Você sabe do que eu tô falando, cara – eu disse incrédula, agarrando da mesa os mesmos materiais que ela. Para que aquilo não parecesse muito estranho sendo visto de fora. – Você sabe o que tá fazendo – sussurrei.

– Desculpa – ouvi seu tom de voz irônico, que parecia ter sido dito pelas suas costas, já que era tudo o que eu conseguia ver enquanto ela fugia de mim. – Eu não tô num dia bom.

– Denguinho – outra voz, dessa vez insuportavelmente fina, ganhou a atmosfera, com a presença de Camila Dourado e seu perfume tão doce que eu senti ânsia de vômito assim que ela ficou de pé a alguns passos de mim, de frente para Édra. – Eu tava te procurando, temos umas coisas pra fazer depois da aula.

Tentei ao máximo não revirar os olhos, ao mesmo tempo que eu quis desaparecer, já que a ameaça de Camila estava bem fresca na minha memória.

– Sua boca tá sujinha. – Ela sorriu, de um jeito histérico, conforme Édra arrastava uma cadeira aleatória, perdida no meio do auditório, para se sentar.

Camila se inclinou, limpando a boca de Édra com um lenço de papel que estava no bolso da sua calça jeans.

A cena toda foi a coisa mais ridícula que já vivenciei naquele auditório.

Quando Camila Dourado percebeu a minha presença, em pé, segurando uma tesoura e um rolo de papel machê, ela simplesmente foi de angelical para diabólica.

– Oi? – indagou ela, sem piscar os olhos, como se fosse um serial killer de filme. – Posso te ajudar em alguma coisa, querida? Você tá perdida? – Camila abriu um sorriso com os lábios selados.

Não sei que cheiro era pior: daquele perfume antipaticamente doce, ou de todo aquele cinismo disfarçado de simpatia.

– Nada. – Forcei um sorriso de volta quando percebi que Édra nos observava de sua cadeira. – Eu só vim perguntar pra Édra sobre o trabalho de literatura, mas já vou voltar pro meu grupo.

Minha risada saiu tão falsa quanto aquelas unhas vermelhas brilhantes dela.

– O dever chama! – brinquei. Desejando que teletransporte existisse.

 

Maurício estava me encarando boquiaberto fazia quase dois minutos. E quanto mais ele me encarava, mais os olhos dele apertavam. Como se, dentro da cabeça dele, ele estivesse juntando várias peças de um quebra-cabeça. Ou, assim como eu, ele também tivesse acabado de entrar em um momento de clarividência e chegado à conclusão de que, bom...

– Você é cínica – disse ele abruptamente para mim, sentada do outro lado da mesa, segurando meu copo de café bem embaixo do meu nariz enquanto soprava o vapor, tentando esfriá-lo. – Eu sabia. Eu sempre soube. Deus, como você é cínica, Íris.

– Em momento algum eu disse que gostava de garotas – tentei corrigi-lo antes que ele se “empolgasse demais”. Mesmo ciente de que ele já tinha se empolgado “demais”. – Eu só disse que tô meio curiosa sobre isso.

– Todo mundo começa com essa curiosidade, meu anjo – Maurício rebateu, cínico, se inclinando por cima da mesa para sussurrar: – Ou você acha que eu já saí do útero flertando com meu médico?

Minha risada ecoou pela livraria inteira. Com exceção do velhinho que lia um jornal enquanto bebericava um café expresso na mesa 6, estávamos completamente sozinhos. Talvez eu nem devesse contar o velhinho. Ele com certeza não estava dando a mínima para nós dois. Sem Léon, sem clientes, sem afazeres... Estávamos livres para falar sobre qualquer coisa.

– Como você soube que você... – hesitei, olhando para o velhinho por cima do ombro de Maurício – gostava de garotos – completei, falando bem baixo.

– Cara, eu passei um fim de semana inteiro na casa de praia dos meus tios – disse ele, abrindo um sorriso. – E eu era péssimo em jogar videogame. Então, meu primo mais velho, Raíque, foi obrigado a me ensinar. Meus tios meio que mandaram ele me dar atenção. E Raíque era, tipo, o garoto mais antissocial da face da Terra.

– E aí? – Meus olhos arregalaram enquanto eu aproximava minha boca da borda do copo.

– E aí que depois desse fim de semana eu nunca mais parei de pensar no Raíque. – Maumau deu de ombros, ainda com um sorriso na boca. – Eu adorava o jeito atrapalhado que ele tinha de conversar e de explicar as coisas.

– E aí? – perguntei novamente, dando um gole no café que ele tinha preparado pra mim de graça.

– E aí que nada, né? Ele era meu primo e obviamente não me enxergava do mesmo jeito. – Maurício ergueu as sobrancelhas. – Mas ele foi a minha porta de entrada pra outros garotos. Depois que você começa a sentir, não dá pra parar.

– E aí? – insisti, sem tirar o copo da minha boca. Como se eu quisesse me esconder atrás dele.

– E aí que eu fugi muito no início e tive muito medo, mas depois que beijei o namorado da minha melhor amiga na oitava série, eu soube que não tinha como voltar atrás.

Larguei o copo na mesa, em choque.

– Você beijou o namorado da sua melhor amiga? – indaguei, falando um pouco mais alto do que deveria.

Sei disso porque o velhinho parou de ler o jornal por alguns segundos para olhar a nossa mesa, com uma expressão confusa.

– Na verdade, ele me beijou. – O sorriso de Maurício era tão cínico quanto ele.

– E aí?! – minha boca virou um “O” perfeito.

– E aí que chega de E aís. – Maumau levantou da mesa, arrastando a cadeira de volta. – E aí que o tema da conversa nem deveria ser eu. Você acha que eu não te conheço, mas eu te conheço. E você vive fugindo, Íris Pêssego.

Meus olhos o acompanharam conforme ele caminhava até a caixa registradora do Leoni’s.

– Eu não vivo fugindo – retruquei, encolhendo meus ombros.

– Ah, é?! – Ele me olhou através da vidraça, coberta de anúncios de recarga para celular e um baleiro logo embaixo. – Já que você não vive fugindo, vamos sair comigo mais tarde. E aí você mesma encontra a resposta pras suas perguntas lá.

– Sair pra onde?! – Virei o resto do meu café, já imaginando a resposta.

– Noite Retrô – expliquei, sendo analisada pelos olhos miúdos de Dona Símia. – Por isso eu preciso mesmo de um vestido da senhora emprestado. Juro que vou devolver em bom estado.

Dona Símia teve mais uma crise de tosse antes que conseguisse me responder.

– Não sei se meus vestidos antigos vão caber em você, mas a gente pode tentar resolver isso. – Ela sorriu, tossindo mais logo em seguida.

Pela primeira vez, eu fui até o andar de cima da casa de Dona Símia e, por mais inacreditável que pareça, ela tinha um closet. Pois é, um closet. Eu nem preciso dizer que dei muitos gritos histéricos por dentro quando ela deslizou a porta sanfonada e me deu a visão de vários vestidinhos pendurados em araras e sapatinhos enfileirados. Fora o espelho de corpo inteiro e o pisca-pisca de lâmpadas pregado na parede, que corria por todo aquele quartinho minúsculo. O papel de parede era rosê e o carpete tinha uma cor creme.

– Acho que tenho o vestido perfeito pra você. – Dona Símia arrastou os chinelos até as araras, revirando os cabides. – E, a propósito, quanto você calça, querida?!

Certo, eu estava parecendo uma garota recém-saída de um videocassete, daqueles que vovó sempre repetia com aqueles filmes que eu adorava a trilha sonora. E Dona Símia ainda me convenceu a colocar bobes no cabelo, o que me deu cachos volumosos e impecáveis. Ela ajeitou tudo com grampos e muito spray de cabelo. Eu não podia acreditar que Dona Símia sabia fazer todas aquelas coisas e tinha tudo aquilo. Ela parecia a fada madrinha da Cinderela. Mas é claro que eu não pude contar o verdadeiro motivo pelo qual eu queria tanto ir para aquela festa em um dia de semana banal.

 

Eu não podia simplesmente falar “Nossa, Dona Símia, eu preciso mesmo colocar meus pensamentos sobre garotas à prova. Me empresta uma roupa?”.

Tudo bem, nem todo mundo precisa saber de tudo.

Muito menos meus pais. Pra eles, eu disse que preciso ensaiar pra apresentação de um trabalho na casa da Polly. No mundo ideal era o que eu realmente estaria fazendo, jogando conversa fora e comendo brigadeiro queimado. Mas, na vida real, Polly e eu estamos cada vez mais distantes. Fui trocada por um saco gigante de testosterona com uma jaqueta do time de futebol. Usar Polly como desculpa não é necessariamente uma mentira. É uma retratação.

O importante era que eu estava mesmo muito bonita, como se tivesse sido abduzida de antigamente. Ou como se tivesse viajado através de uma máquina do tempo.

E Maurício concordou com isso, quando me estendeu o braço para que a gente entrasse no Submundo juntos, depois que eu paguei vinte pratas em um táxi até lá. Combinamos de nos encontrar na frente do Leoni’s, e ele passou todo o caminho até a fachada do Submundo elogiando a minha roupa. Pediu muito que eu contasse onde tinha arranjado, mas eu só disse que foi um achado do guarda-roupa de mamãe.

Maumau vestia um terno acinzentado e usava um monóculo. Ele também penteou o bigode para que parecesse pontudo de ambos os lados. Estava uma gracinha!

Ele praticamente tinha credencial do lugar, de tanto que ia lá. Quando chegamos perto do segurança, Maumau foi logo dizendo:

– Essa é uma das dançarinas, tá atrasada! Precisa entrar logo.

Cruzamos o longo corredor até a boate e eu pude ver, na entrada, que o cara da barba cor-de-rosa estava vestido como na era disco, com aquelas calças boca de sino e essas coisas.

As roupas das pessoas eram de anos completamente aleatórios. E um rapaz estava até usando uma réplica da farda do Exército na época da Segunda Guerra Mundial. Tínhamos todos saído de uma grande máquina do tempo ou de videocassetes, o que deixava tudo com um clima de magia incrível. O Submundo é definitivamente o melhor lugar (e o mais incrível) que eu já pisei.

Maurício foi desviando das pessoas para alcançar a pista de dança, e eu, agarrada no braço dele, fui sendo sugada por entre a multidão. Muitos cheiros misturados na atmosfera, garçons vestidos de décadas diferente e a batida de música dos anos 1980 tocando a todo vapor.

Meus pés apertavam muito dentro do microssalto alto de Dona Símia, mas eu tentei fingir que aquilo não estava me incomodando. Apesar de querer morrer a cada passo que eu dava.

– Chegamos – disse Maurício, me desprendendo do braço dele, quando estávamos no meio exato da pista de dança. – É o seguinte... Você só precisa agir naturalmente. As garotas vão chegar em você.

– Ai, Maumau... – gemi, me envolvendo com meus braços. Nós mudávamos de cor conforme o piso, embaixo dos nossos pés, também mudava. Rosa fluorescente, azul fluorescente e vermelho... Latejando em flashes de luz e nos pisos iluminados.

– Eu queria caber nesse vestido. – Maurício me olhou com uma cara de cão sem dono. – Acho que você é a menina mais bonita na festa, Íris. Sério. Então, cara, se solta! Aja como tal!

– Eu não consigo! – balancei negativamente a cabeça, sentindo meu pé explodir e o meu corpo inteiro ficar rosa fluorescente.

– Espera, não saia daqui – pediu ele, erguendo a cabeça. Parecia procurar por algo ou alguém. E a minha testa virou um ponto de interrogação tentando entendê-lo.

– O que você vai fazer? – indaguei, tentando olhar para a mesma direção que ele. Só que, mesmo usando esse maldito salto alto, eu continuava baixa.

– Eu vou te dar coragem – disse Maurício, desaparecendo entre as pessoas.

Comecei a balançar minha cintura de um lado pro outro, bem de leve. Só para não parecer um completo alienígena virgem de pista de dança. (Embora eu, de verdade, não fosse.)

Reconheci as amigas de Édra Norr do outro lado da pista, no mesmo lugar que da última vez. E, como eu já imaginava, Édra também estava entre elas. Mas eu não conseguia vê-la direito, só a parte de trás de seu corpo. Édra se balançava no ritmo da música, usando uma calça verde-musgo, uma blusa social branca por dentro da calça, as mangas dobradas até os cotovelos, e um suspensório preto, que fazia um x perfeito em suas costas.

Olhei seu corpo de cima a baixo, tentando absorver todos os detalhes que eu conseguia. E fazer isso, obviamente, me deu um arrepio diretamente na nuca.

Eu não sabia se queria ou não que ela me visse.

Eu não sabia se ela queria ou não me ver.

Mas eu sabia que adorava observá-la sem que ela soubesse.

Édra Norr dançava de um jeito muito bonitinho. Porque ela se balançava, mais os ombros que a cintura, e os braços tentavam acompanhar o movimento, soltos no ar. E ela parecia estar conversando enquanto o fazia, ainda de costas pra mim.

Dei o máximo de zoom que pude com o meu olho, para captar os microcabelos grudados na nuca. Suados, de quem já tinha chegado por ali muito antes de mim.

Ela foi se virando, rindo de alguma coisa, com um cigarro apagado entre os lábios.

E, quando me viu, parou de sorrir.

– Aqui! – gritou Maurício, estendendo um copo para mim. Eu pude ver o reflexo de seu braço e ouvir sua voz, mas continuava encarando Édra Norr, do outro lado. Estávamos imóveis e nossos olhos nem sequer piscavam. – Beba de vez! – aconselhou Maumau, apertando a minha mão contra o copo.

Virei a bebida toda, ainda sem tirar os olhos dela.

Ela também escutava as amigas falarem ao redor, mas não tirava os olhos dos meus nem se movia. Acho que estava confusa em me ver ali, já que suas sobrancelhas foram se juntando aos poucos bem no centro de sua testa suada.

Uma música muito lenta começou a tocar, e a bebida quente na minha garganta me guiou a dançar no ritmo exato.

Pude sentir, num milésimo de segundos, Júlia assumir o controle pelo nosso corpo. E fui, sem tirar os olhos de Édra Norr, subindo a barra do meu vestido até a minha coxa. A outra mão arrancou um dos saltos do meu pé e fiquei desequilibrada. Zonza, por ter bebido tudo de uma vez. Tirei o outro salto. Segurei ambos com a mão esquerda, conforme a direita brincava de subir e abaixar a barra do vestido, deixando minhas pernas à mostra.

Édra inclinou a cabeça pro lado, como quem estudava o meu atrevimento. E vi seus olhos castanhos deslizarem para baixo, até as minhas coxas.

Metade de mim a olhava como quem implora por aproximação, enquanto a outra metade não estava acreditando no que estava acontecendo.

Eu quis chorar. Quis pedir desculpa. Quis que ela olhasse para as minhas pernas. Quis que ela quisesse.

Fui rebolando contra e a favor da minha vontade.

Senti o meu peito inflar e esvaziar, com a minha respiração ofegante. E não era pela música. Deus, não era mesmo pela música. Nem por estar dançando.

O rosto de Édra Norr parecia confuso e furioso ao mesmo tempo. Vi suas sobrancelhas arqueadas e juntas, seus olhos apertados e sua testa franzida. Eu não soube identificar o que aquilo significava. Ela arrancou o cigarro da boca e vi, em sua garganta, ela engolir em seco vagarosamente.

Fui me virando devagar enquanto rebolava. Tentei olhá-la por cima do meu ombro, até ficar completamente de costas.

Fui descendo até o chão... Rosa, azul, vermelho fluorescente.

E agora, de frente para mim e a alguns bons passos de distância, uma garota com os cabelos curtos, encaracolados e dourados me observava, encostada na grade de fumantes, enquanto folgava a gravata.

Ela parecia um anjo caído com aqueles cabelos. E me olhava como se estivesse completamente hipnotizada.

Fui levantando, me sentindo envergonhada pelo jeito como ela me olhava. E quando me virei para olhar Édra Norr mais uma vez, ela simplesmente não estava mais lá.

– Eu não acredito que a minha amiga é a própria Madonna em “Like a Virgin”! – berrou Maurício, quando eu estava completamente de pé.

– É, e não adiantou de nada. – Respirei fundo, decepcionada porque Édra Norr não teve coragem de ficar e me ver. – Preciso beber mais alguma coisa. – Revirei os olhos, saindo da pista de dança.

 

Caminhei descalça até o bar e forcei um sorriso para Nicole quando a vi. Estava ajeitando meu vestido para sentar e pedir, sei lá, qualquer coisa que me fizesse esquecer o que eu tinha acabado de fazer.

Senti uma presença do meu lado e, quando me virei, a garota que parecia um anjo, com os cabelos encaracolados e loiros, estava sentada do meu lado, com um sorriso na boca.

– Você dança muito bem – disse ela, com um tom de voz sereno.

Parecia ser um pouco mais velha que eu e tinha umas sardas espalhadas pelo nariz. O rosto dela também era muito angelical, mas o olhar dela não era. Nem um pingo.

– É – respondi, nervosa. – Não que tenha servido de alguma coisa – pensei alto.

– Talvez não tenha servido pra quem você queria que servisse. – Ela apoiou os cotovelos em cima do balcão, me olhando de canto de olho. – Mas isso é normal, a gente é que precisa parar de querer ser o sol para quem só nos enxerga como um grão de poeira.

– Já ouvi isso em algum lugar. – Apertei os meus olhos.

Mas eu não conseguia me lembrar. Talvez fosse a bebida, que fiz a burrice de virar de uma só vez. Eu estava muito zonza. Mas precisava ficar um pouco mais, se quisesse esquecer que fiz a loucura de dançar para Édra Norr.

– Mas relaxa, eu não quero ser o sol de ninguém. Ainda mais de alguém que me enxerga como um grão de poeira – arfei, balançando a cabeça negativamente.

A garota sorriu para mim, dócil.

E eu pude ver, por cima do ombro dela, Édra Norr se aproximando acompanhada de uma amiga enquanto conversava sobre alguma coisa.

Meus olhos se arregalaram instantaneamente e minha respiração ficou completamente desconcertada.

– Aham. – A garota balançou a cabeça negativamente. – Disse a poeira.

– Do que você tá falando? – perguntei, tentando disfarçar. Na verdade, eu sabia exatamente do que ela estava falando.

– Você não tira os olhos daquela menina, desde a pista de dança. – Ela deu de ombros, olhando para Édra Norr, parada do outro lado, um pouco distante de nós duas.

– Vocês vão querer alguma coisa? – Nicole se aproximou, estendendo o cardápio de bebidas.

– O mesmo de sempre, Nic. – A garota sorriu para Nicole, como se já a conhecesse.

– Eu quero qualquer coisa que tenha muito álcool – pedi, desesperada.

– É pra já! – Nicole deu um riso breve, nos deixando sozinhas no balcão mais uma vez.

– Ela é o seu sol e você é o grão de poeira dela – disse a garota, ríspida.

– Acho que você entendeu tudo errado. Eu não tenho um “sol” nem sou o “grão de poeira” de ninguém – resmunguei, tentando coçar meus dedos enquanto segurava os saltos que Dona Símia tinha me emprestado.

– Prove – insistiu ela, se aproximando.

Você já passou por algum momento decisivo?

A grande final de um jogo, uma apresentação importante no colégio, a festa que você tanto esperou pra finalmente beijar quem você tanto queria... Nossa vida é feita de inúmeros momentos decisivos. E, quando passamos por eles, saímos com algum aprendizado. Momentos assim nos mudam em alguma coisa. Alguns são meio aterrorizantes, mas quando você finalmente passa por eles, você se dá conta do quão idiota foi ter se preocupado tanto. Em outros, você acha que vai tirar de letra e tudo termina em um completo desastre.

– Do que você tá falando? – tornei a perguntar, engolindo seco. Meu coração começou a acelerar dentro do meu peito.

– Se ela não é o seu sol – disse a garota, se inclinando para perto de mim sem se levantar do seu banco. – E se você não é mesmo o grão de poeira dela... – Ela foi chegando perto da minha boca. – Prove.

Nossos lábios estavam separados por alguns centímetros de distância.

E eu pude sentir sua respiração quente encostando na minha boca.

Olhei para Édra Norr, conversando com sua amiga do outro lado.

Olhei para Nicole, trazendo nossos drinks.

Olhei para a garota com cabelo de anjo e olhar de diabo, bem na minha frente.

E ela me olhava de volta.

– Ira? – chamou Nicole. – Seu drink.

A garota não parou de me encarar, nem moveu sequer um dedo.

Respirei fundo.

Eu estava passando por um momento decisivo da minha vida.

Exatamente agora.

– Prove – sussurrou ela, para a minha boca.

E eu fechei os meus olhos.