O Amor Não é Óbvio
12 | Mentirosa, hipócrita e de meias
MENTIROSA, HIPÓCRITA E DE
MEIAS
Eu estava há quase três horas encarando a tela azulada do meu computador, enquanto comia freneticamente uma mistura louca de pizza e pipoca de micro-ondas sabor bacon. Sim, eu gastei um pouco mais do meu dinheiro do vestido de formatura ligando pro Orégano’s e pedindo uma pizza de frango com catupiry tamanho médio. E o meu histórico do computador parecia, sei lá, algo que uma garota de treze anos pesquisaria.
“Querer beijar garotas é normal?”
“Como saber se eu gosto de garotas?”
“Misturar pizza e pipoca mata?”
E agora eu estava pesquisando “O que chama a atenção de garotas?”, sendo que, bom, eu acho que o meu computador deve ser heterossexual, porque ele me deu um guia do que chama atenção de garotas em um cara. Falava algo sobre caras com um “corpo saudável”, sorriso acolhedor, jeito chamativo, que consegue se destacar entre amigos tão bonitos e legais quanto ele. Ou seja, eu tive que ler tudo o que fazia Cadu Sena ser Cadu Sena. Tanto em traços físicos quanto em traços de personalidade.
Não julgueis o histórico da internet alheio, porque todo mundo tem curiosidades bizarras e eu só queria saber mais sobre essa coisa de, ah, cara, sei lá... Gostar de uma garota.
E foi a primeira coisa que fiz depois de ter dito “não, Dona Símia, obrigada. Fica pra próxima”. Eu simplesmente subi até o meu quarto, tirei meus sapatos, disquei o número do Orégano’s Pizza e esperei o meu computador ligar.
Cá estou eu: mentirosa, hipócrita e de meias.
Digitei trezentas vezes na janela de Cadu Sena, mas apaguei todos os caracteres. Eu meio que queria aproveitar esse tempo pelo qual ele estava me esperando para ver se algo de inacreditável aconteceria comigo. Eu não sei explicar. É como se eu sentisse que, no momento que respondesse a mensagem de Cadu Sena, eu estaria colocando um ponto final no meu experimento científico.
Porque, de verdade, depois que se beija a boca de alguém, só se beija pela segunda vez se você quer alguma coisa (mesmo que essa coisa não tenha um rótulo definido). Beijos só se repetem se você gosta deles. E quando eles começam a se repetir com frequência, você cria um vínculo com essa boca. E não sei se quero um vínculo com boca de Cadu Sena agora. Estou apavorada, confusa, mentirosa, hipócrita e de meias. É bem difícil decidir alguma coisa nesse fundo do poço que consegui alcançar.
Não é como se eu não gostasse mais de Cadu Sena nem como se ele beijasse mal, ou qualquer coisa do tipo. Na verdade, se eu fechar os olhos agora, consigo sentir a língua de Cadu Sena dentro da minha boca, com o jeitinho lento e preciso que ele tem de beijar. Mas, automaticamente, também sinto o nervoso que me deu. E a areia. E o vento. E a gota de água salgada que espirrou na minha perna quando Édra Norr passou por nós dois.
A memória inteira está conectada, como uma teia de aranha. Então meu primeiro beijo com Cadu Sena tem minha insegurança. E também tem Édra Norr.
Não é uma memória muito boa de primeiro beijo, apesar de não ter sido um beijo ruim. E ter sido largada sozinha, depois de um primeiro beijo, foi uma experiência horrível.
No final, é isso o que está arquivado na minha cabeça sobre meu beijo com Cadu. São todas essas pequenas sensações. Não é tão bom assim de lembrar, se posso ser sincera.
É difícil ser sincera quando você é tão mentirosa, hipócrita e de meias.
Eu só queria entender o que anda acontecendo com os meus hormônios e com os meus impulsos. Deus, eu estou perseguindo uma pessoa. Tipo, eu posso ser presa. E eu dormi na casa dela. E ela me salvou e cozinhou pra mim. E eu cheirei um abajur.
Quão bizarra eu consigo ser? Onde foram parar os meus sensores de limites?
Tudo isso precisa de uma explicação.
Uma explicação que, talvez, o meu histórico de internet consiga me dar. Mas que, sendo tão mentirosa, hipócrita e de meias, eu não consiga admitir por inteiro.
Meu Deus do céu, eu sinto alguma coisa por garotas? É isso? É por isso?
Será que eu precisei que um casal de garotas caísse bem em cima da minha cabeça, como uma bigorna cai em cima de desenhos animados, pra perceber que sinto alguma coisa por elas? Digo, não Camila Dourado e Édra Norr, mas por garotas no geral?
Será que eu sou a fim de garotas e nunca me dei conta disso?
“Como saber se já fui a fim de uma garota e nunca percebi”, pesquisar.
Novamente, fórum sobre homens querendo ser correspondidos por garotas.
Revirei os meus olhos, esticando o queijo da pizza.
Margot pulou no meu colo, tentando alcançar o balde de pipocas que eu abraçava com o braço esquerdo.
Você tem (2) novas mensagens de Édra Norr.
Expulsei Margot rapidamente, sacudindo minhas pernas para que ela saltasse. Soltei a pizza e a pipoca pra agarrar o celular, deslizando o dedo para desbloquear a tela.
Fingindo doença nível: ancião 00:42
Gargalhei como um porquinho com a foto da perna dela enfaixada errada com gaze. Édra tinha removido todos os curativos (escondida do pai dela) e estava indo contra todas as regras hospitalares. E, depois que nos adicionamos, ela mandava de hora em hora a foto de um curativo novo que ela tentava forjar.
Você vai ganhar um Harper Avery de medicina em curativos, como em Grey’s Anatomy 00:43
Eu sempre apago as mensagens em arquivo de foto, mas não consigo apagar as imagens que Édra Norr me envia. Tem uma foto que ela tirou errado e tá tudo embaçado, não dá pra ver absolutamente nada além de um borrão branco. E, mesmo assim, eu não consigo deletar isso. Também tem a sua selfie sorrindo com o band-aid no queixo e fazendo um joinha pra me mostrar sua réplica de mais um curativo. Ela estava profissional em forjar curativos e eu estava profissional em não conseguir me controlar, já que todas as vezes que seleciono essas fotos pra deletar, acabo cancelando tudo e mantendo todas. Inclusive o maldito borrão.
Fala sério, estou ficando sem espaço.
“Não consigo apagar as fotos de uma pessoa do meu celular. O que significa?”, pesquisar.
“Saiba como aprimorar o seu celular atualizando as funções! Siga esse manual completo do Club do Cyber!”
Arfei, revirando os olhos. Não fui feita pra internet.
Certo, garotas.
O que se tem pra reparar em garotas?
Decidi ir de ônibus para o colégio, só para que eu pudesse ser o meu próprio experimento científico do dia. Meu principal objetivo? Dividir-me em duas. Uma para reparar em garotas; a outra para testar com honestidade as minhas reações. E, do fundo do meu coração, ou escondido em qualquer parte entre os meus órgãos, eu esperava que isso funcionasse. Mas eu preciso ser um ser humano horrível e julgar as pessoas por coisas idiotas.
Odiei os brincos dessa garota. Não vou conseguir olhar pra ela de nenhum jeito que não seja com um “por Deus, garota, tire esses brincos”. É realmente assustador, porque são cabeças de bonecas sem olhos. E são seis da manhã, ninguém é tão sombrio pra fazer isso nesse horário. E ela me encarava de volta com desprezo, como se desejasse a minha morte por trás daquelas mil camadas de rímel. Certo, eu nunca beijaria cabeça de bonecas.
Tem essa outra garota, sentada aqui do meu lado, com fones de ouvido. Está ouvindo uma música com sons de piano e alguém cantando em alguma língua que não consigo identificar. Mas ela se parece muito com Polly, e Polly é como uma irmã pra mim.
O ônibus parou perto da loja de CDs que vi quando segui Édra Norr naquele dia. E subiu uma garota meio parecida com ela. Digo, por não ser assim feminina. Só percebi quando ela já estava passando pela roleta, apressada. Usava uma jaqueta jeans meio surrada, uma blusa com alguns escritos que não deu pra ler, uns óculos escuros meio quadrados e tinha a cabeça raspada. Tentei reparar em mais que isso. Só sabia que era uma garota porque consegui ver o contorno dos seios desenhado na blusa. Não vi direito porque ela sentou bem atrás da minha cadeira. Então, não tinha como eu simplesmente entortar a cabeça.
Meu desespero foi aumentando tanto quando o ônibus começou a chegar perto do colégio que eu simplesmente olhei pra uma mulher que poderia ser a minha mãe. Ela tinha um sorriso muito bonito enquanto digitava no celular, aí deu uma risada de porquinho, parecida com a minha. Acabei rindo também, pra dentro, lembrando da minha conversa na cozinha de Édra Norr.
Desci do ônibus meio decepcionada. Não sei explicar. Sei lá, só queria sentir alguma coisa. Qualquer coisa.
Fui andando pelo passeio com umas trezentas pessoas usando fardas idênticas às minhas, como um grande formigueiro. Passei por rostos conhecidos e desconhecidos. Reparei em várias meninas em frações de segundos, passo por passo. Loiras, morenas, altas, baixas, negras, brancas, amareladas, bronzeadas, com óculos de grau, sem óculos de grau, com o cabelo preso, solto, em um coque no topo de cabeça. Elas riam, conversavam, tomavam suco, mastigavam chiclete, digitavam no celular, folheavam algum livro, flertavam com garotos.
E eu olhava pra todas elas, como um grande processador de garotas. Tentando sentir qualquer coisa que fosse.
Achei algumas bonitas; gostei de alguns sorrisos, alguns cabelos, alguns olhos, alguns jeitos de ficar em pé. Gostei de alguns cheiros, algumas bocas, alguns narizes, algumas vozes.
Tudo enquanto caminhava para dentro do Colégio São Patrique num andar vagaroso, tentando absorver um pouco de cada uma delas, desacelerando o tempo nos meus olhos, para que elas passassem em câmera lenta e eu pudesse ver coisas mínimas, como sardas, espinhas, sinais de nascença.
Mas eu não senti nada.
– Ei, bom dia! – Wilson Zerla me parou quando eu estava prestes a cruzar o corredor. – Falta quase uma semana para o feriado de São Patrique! A secretaria deu passe livre pra gente se organizar no auditório, no primeiro horário durante todos os dias de aula até o feriado. – Ele sorriu, entregando uma folha pra mim.
Olhei para a folha rapidamente, com os meus novos horários de aula. Todos os primeiros horários marcados como “Reunião Preparativa para o feriado”.
Tive vontade de ser sincera e dizer a Wilson Zerla o quanto eu acho ele mais legal que todos os caras idiotas do time de futebol. Senti que devia ser sincera com meus sentimentos, pelo menos de vez em quando. Já que hoje eu sou meu próprio experimento, e às vezes cansa ser tão mentirosa, hipócrita e de meias.
– Ei, Wilson. – Voltei uns passos, para onde ele estava. – Você é um cara muito legal.
Wilson Zerla sorriu para mim como se tivesse ganhado o dia e acenou positivamente com a cabeça, os lábios selados. Como se dissesse “dever cumprido” ou “alguém finalmente notou”. Como se ele soubesse que era um cara legal e tudo o que faltava era alguém reparar nisso.
– Obrigado, Íris – agradeceu ele, dentro de um suspiro. E fui andando em ré, me sentindo muito bem por ter dito aquilo. Wilson Zerla se virou, estendendo outra folha. – Ei, bom dia, falta quase uma semana para o feriado de São Patrique!
Fui caminhando para dentro do corredor como se algo incrível tivesse acontecido. E realmente tinha. Fui sincera sobre o que eu estava sentido. Tipo, cara, isso é libertador.
Não vejo a hora de agradecer a Édra Norr direito por ter me salvado de um grande idiota. Aquilo significou tanto pra mim e eu nem disse nada. Nada do que eu queria ter dito. Nem sequer dei um abraço nela pra mostrar o quanto fiquei agradecida. Ninguém nunca fez algo tão legal por mim antes. E ela fez, sem nem me conhecer direito.
Caminhei até o auditório com toda aquela euforia inchando o meu peito e escalando até a minha garganta. Minha mão começou a suar frio.
Eu não sabia exatamente o que deveria falar, nem como deveria falar. Não queria parecer mais estranha do que a Íris Pêssego consegue parecer. E senti, no meu âmago, que aquele seria o primeiro grande passo para algo incrível. Eu realmente poderia, sei lá, me oferecer parar tirar a virgindade de pizza que Édra Norr ainda tinha. Sabe, para agradecer, já que ela tirou a minha virgindade de ser salva por alguém.
Ah, claro, ainda tem isso. Ainda tem o fato de que talvez hoje seja o velório da minha vida social nesse colégio e eu, no meu mundo da lua em históricos de internet altamente duvidosos, nem reparei se as pessoas estavam falando nas minhas costas sobre o ocorrido.
Não, espere. Não posso perder o foco.
Foco, Íris. Foco.
Independente das pessoas me acharem uma ladra de namorados ou não, Édra Norr precisa ser recompensada por ser tão incrível e de graça. O oposto das pessoas desse colégio, que sempre cobram pelas coisas boas que fazem.
O que eu vou falar?
Deus, não sei fazer essas coisas.
Desviei de algumas pessoas mais altas que eu, que bloqueavam a minha visão do que estava acontecendo lá dentro. Tinha muita gente saindo e entrando do auditório ao mesmo tempo. Estava uma confusão. Uma grande euforia em oitenta tons de voz diferentes que se sincronizavam a barulhos que vinham ecoados do salão, como cadeiras sendo arrastadas e passos de todo tipo de calçados.
Levei algumas pisadas no pé até me ver entre as cadeiras vermelhas do auditório. E, para além da minha vista, uma centena de cadeiras à minha frente, sentada em cima do palco, na borda, balançando as pernas no ar... estava Édra Norr. Recortando uma letra “S” de uma cartolina azul-marinho. Concentrada, como se não pudesse errar naquilo.
As sobrancelhas juntas na testa conforme ela dizia algo para Marina Tuli, sentada ao lado dela, fazendo a mesma coisa. Nada que eu pudesse ouvir, claro, com o barulho absurdo que aquelas pessoas todas faziam conversando. E com os ecos de Lulu Matias, dando ordens e dividindo as pessoas em grupos de tarefas.
“Ei, Édra Norr, você quer comer pizza?”
Não; muito óbvio, convidativo e sem graça.
“Ei, Édra, chegou a sua vez de perder a virgindade de pizza!”
Não.
Édra abriu um sorriso para alguma coisa que Marina Tuli disse e exibiu o seu gigante “S” recém-cortado, como se fosse um troféu. Consegui sentir a prepotência em seu olhar, como quem sabe que fez um bom trabalho. Marina deu uma cotovelada no braço dela, o que fez com que ela risse mais ainda. Exibindo aqueles dentes insuportavelmente bonitos.
Certo, eu preciso ir lá. Eu preciso dizer. Não é tão difícil assim, sabe, vai ser como fiz com Wilson Zerla.
Eu só precisava de 5 segundos de pura coragem.
– Ela é uma gracinha, não é? – Camila Dourado surgiu do meu lado, repentinamente. As longas unhas vermelhas brilhavam na cor marrom-fosco da prancheta que ela segurava.
Me senti desconfortável. Como se tivesse sido flagrada fazendo alguma coisa muito ruim.
– Sabe, eu tenho muitos contatos nesse colégio, Íris. – Ela sorriu para mim, mas os seus olhos não sorriram junto. Ela me olhava como uma lagartixa furiosa. Com aquele rosto simetricamente perfeito, quase de plástico. E aqueles cabelos dourados presos num rabo de cavalo que, mesmo bagunçado, não tinha um defeito. Como se tivesse sido bagunçado propositalmente.
Quando eu faço um rabo de cavalo, posso cobrar por anúncios na minha testa. E até nisso Camila Dourado era impecável. Sua testa era tão pequena e perfeita que chegava a ser irritante.
Eu queria chutar a cabeça dela.
– Não é fácil abafar alguma coisa – Seu tom de voz foi de simpático para atroz. – Mas é fácil fazer com que a cidade inteira saiba.
– Quê?! – indaguei, sentindo a atmosfera pesar. Mesmo que eu fizesse um pouco de ideia do que ela estava falando.
– Não se faça de desentendida. Eu tô cansada de todas vocês sempre quererem a pessoa com quem eu escolho estar. Antes, era Cadu. De repente, todo mundo quer Édra Norr. Você não percebe quão desrespeitoso é você ficar pra cima e pra baixo com a minha namorada? – Camila Dourado estendeu o celular dela para que eu o visse. – Se você continuar tentando ter algo em segredinho com a minha namorada, eu te tiro à força de dentro do armário. – Ela semicerrou os olhos para mim, tocando em uma tecla.
O meu celular vibrou no bolso. E, no mesmo momento, Camila me deu as costas, descendo rumo ao palco, onde Édra estava recortando letras.
Você tem (1) nova mensagem de Número Desconhecido.
Diminuí todo o volume do meu celular, como se minha vida dependesse daquilo, e dei play no vídeo que recebi. Provavelmente tinha sido enviado por Camila Dourado, que conseguiu o meu número de alguma forma. Na verdade, o que é que alguém como Camila Dourado não consegue?
O vídeo só tinha seis segundos, mas dava para me ver bem nele. Não só eu, como Édra Norr, segurando a minha mão e me puxando para o meio de várias pessoas. Diretamente para fora da Praia da Sardinha, quando ela me salvou.
Na mesma noite em que eu não fui honesta com os meus pais, com a minha melhor amiga e com Cadu Sena.
Aquele vídeo podia acabar com toda a minha vida com apenas um clique na opção de “Enviar para todos os contatos”.
Foi o que me fez apagar a tela do celular abruptamente, para que nem eu mesma pudesse chegar perto desse botão no aplicativo.
Meu coração começou a acelerar muito.
E, diante de todas as cadeiras, eu vi Édra Norr pular do palco para beijar o topo da cabeça de Camila Dourado com os braços afastados, já que uma mão segurava a tesoura e a outra, um pedaço consideravelmente grande de cartolina.
Camila se virou para onde eu estava e me olhou por poucos segundos, como se quisesse ter certeza de que eu estava assistindo, enquanto ela agarrava o rosto de Édra Norr com suas unhas vermelhas brilhantes. Depois disso, sem me olhar, amassou as bochechas de Édra, dando um selinho em sua boca.
Dei meia volta de imediato, atropelando todas as pessoas que tentavam entrar de uma só vez no auditório. Passei por todas elas com máxima velocidade e aproveitei a minha altura para conseguir me enfiar entre algumas, encurtando meu caminho. Apressei meus passos, de cabeça baixa, quando passei pelo corredor.
E me enfiei na minha carteira, com a sala completamente vazia, torcendo para que ninguém aparecesse. Fiz um casulo com meus braços e escondi a minha cabeça lá dentro. Já que hoje é o dia da sinceridade... Eu quis chorar, mas engoli bem fundo e, no meio disso tudo, depois de ter ido dormir supertarde pesquisando coisas na internet, simplesmente apaguei ali mesmo.
Quando abri meus olhos, o nosso professor já estava com metade da lousa coberta de anotações em piloto preto e vermelho. E no meu colo (também ao redor do meu pé) tinha umas seis bolinhas de papel.
Eu sabia de quem era, mas me recusei a olhar pro lado. Porque eu sabia que ela estaria lá.
Cocei os meus olhos por baixo dos óculos e bocejei, ajeitando o cabelo.
– Gênesis – chamei, já que era a pessoa mais próxima de mim. – O que tá acontecendo nessa aula?
– Desculpa, Íris. – Ela me olhou com uma cara enojada e piedosa. – Eu não posso falar com lésbicas.
Revirei os olhos, trincando os dentes.
– Cara, eu não sou lés... – hesitei, percebendo que outras pessoas se esticavam em suas cadeiras para escutar nossa conversa.
– Camila Dourado não pode me comprar – sussurrou ela para mim. – Nada corromperá os meus princípios.
– Do que você tá falando?! – indaguei, olhando em volta.
– Do seu vídeo. – Gênesis ergueu as sobrancelhas. – Quando eu conseguir esse vídeo de novo, tenha certeza que nada vai me impedir de entregá-lo a seus pais. Eu trabalho apenas pra Deus e em nome Dele, não pra vocês.
Voltei a olhar pra lousa, me concentrando o máximo para não explodir. Era oficial: todo mundo queria acabar com a minha vida social nesse colégio.
Minhas mentiras iniciaram uma guerra contra mim mesma e, no momento que isso vazar, serei uma pessoa morta. Pelos meus pais, por Polly e por Cadu Sena, que com certeza vai pensar que eu fiz com ele o mesmo que Camila Dourado.
Eu era definitivamente uma mentirosa, hipócrita e de meias.
Como eu me tornei esse tipo de pessoa?
Uma nova bolinha de papel caiu no meu colo.
Deus, eu estou tão ferrada.
– Íris? – Wilson Zerla me chamou num canto, quando me viu passar pelo corredor, na hora do intervalo. – Foi bom você ter falado comigo mais cedo. É que preciso muito conversar contigo sobre uma coisa que aconteceu.
Eu estava ocupada mexendo no celular, tentando silenciar as notificações.
Você tem (6) novas mensagens de Édra Norr.
Ótimo.
– Íris? – Wilson me chamou novamente. Carregava uma pilha de folhetos entre os braços cobertos por uma jaqueta do time de futebol da escola.
– O que você tá fazendo com a jaqueta do time de futebol? – perguntei, tirando meus olhos da tela do celular e seguindo pelo corredor ao lado dele. – Eu não sabia que você jogava.
– É do meu melhor amigo, Luiz. – Wilson sorriu. – Meio que não cabe mais nele, e como eu sou muito fã do time, ele me emprestou.
– Quê? – Minha boca virou um “O” perfeito. – Você é melhor amigo do Luiz? Digo, ele é seu melhor amigo?
É claro que eu estava chocada. Luiz é tipo, meu Deus, o líder da turminha que zoa o Wilson por tudo o que ele faz dentro desse colégio.
– É. – Ele olhou para os próprios pés enquanto caminhávamos. – A gente sempre jogou videogame juntos, desde criança.
– Entendo. – Arregalei os olhos, me sentindo desconfortável em estar conversando com Wilson Zerla sobre o novo namoradinho de Polly. Que, nas horas vagas, é a minha melhor amiga.
– Só que eu acho que ele nunca mais vai querer olhar na minha cara – disse Wilson de uma vez, nervoso, apertando os folhetos contra o peito.
– Por quê? – Meus olhos só faltaram pular da minha cara.
– Eu beijei Poliana Rios na praia da Sardinha – sussurrou Wilson. – Eu não sei se alguém viu, mas... Eu tava meio bêbado. Nem lembro de tudo que aconteceu direito.
– Quê?! – Parei de caminhar na hora. – Poliana? A minha Polly?!
– Por favor, Íris. – Wilson olhou em volta, com uma cara de cachorro abandonado. – Se ela comentar alguma coisa com você, por favor, peça desculpas por mim.
Wilson saiu a passos largos, como se tivesse visto um monstro vindo atrás dele. Me largando, completamente sozinha e imóvel, com aquela bomba nos braços. Bem ali, no corredor.
– Íris, eu preciso muito te contar uma coisa. – Polly me puxou pelos braços. – Eu deveria ter te contado antes, mas não quis estragar o seu clima perfeito com o Cadu Sena. Sabe?!
Paramos no refeitório, quando Polly arrastou uma cadeira pra mim e outra pra ela.
Eu me sentei, tentando absorver tudo o que estava acontecendo ao meu redor.
– Cara, acho que eu fiquei com outro jogador do time de futebol – contou ela, desesperada. – Tipo, amiga, eu lembro bem da jaqueta, sabe? Mas não lembro do rosto dele. O time inteiro provavelmente já tá sabendo. E o pior de tudo é que eu acho que não foi só um beijo, sabe? Eu só sei que alguém me beijou tão bem, foi o melhor beijo da minha vida. E eu agarrei a pessoa logo em seguida, porque o beijo me deixou louca! Eu tô o dia inteiro ouvindo música romântica e nem sei quem foi que me fez sentir tudo o que eu senti naquela noite. Me sinto aquele clichê idiota que se apaixona na primeira vez.
Deus, ela não lembra que foi o Wilson Zerla.
– Meu Deus, Polly! – tentei fingir que estava chocada. E eu meio que estava mesmo. Não pelo que ela tinha contado, mas por ela não se lembrar. – Você bebeu o que pra chegar nesse nível?
– Tava tudo tão doce, Í, eu achei que tivesse fraco! – Polly fez um beicinho, levando as mãos até o rosto. – Eu quero morrer.
– Calma, Polly – tentei dizer, alisando seu ombro. – Pra tudo tem um jeito. Pelo menos nenhum fanático religioso te filmou e está te ameaçando, né?
– Como assim?! – Polly interrompeu os soluços, falando sério. Me olhou de forma analítica, tentando assimilar o que eu tinha acabado de falar.
– Nada – respondi, e a abracei abruptamente, pra que ela não percebesse nada. – Vai ficar tudo bem – completei, dando uns tapinhas leves em suas costas.
Minha boca grande ainda me ferra.
São realmente inacreditáveis as situações que a vida tem me colocado. E eu tive que, da janela do ônibus, assistir a Édra Norr dirigindo seu carro preto, bem do meu lado, com um olhar extremamente impaciente no rosto. Era normal que ela seguisse o ônibus na volta pra casa, até porque meu ônibus faz o mesmo trajeto que o dela. Então os veículos só se acompanharam no tráfego.
Pelo menos, era isso o que eu achava, até descer do ônibus e notar que Édra Norr estava encostada no lado de fora do carro, com os braços cruzados, na frente do ponto em que eu costumo descer.
Édra não estava seguindo o ônibus porque ela estava indo pra casa. Ela estava seguindo o ônibus porque eu estava dentro dele. Ou seja, por ironia do destino, Édra Norr estava me seguindo. E me esperando descer. Para me olhar com um olhar furioso e me encurralar.
– Eu posso saber qual é o seu problema? – perguntou ela, por cima de seus braços cruzados, me olhando enquanto eu seguia pelo passeio. – Sério que você vai continuar andando?
– Eu não tô em um dia bom – disse, olhando pros meus próprios pés que, corajosos, continuavam andando. Apesar da voz de Édra Norr me deixar completamente fora de controle. Como se eu não mandasse mais no meu próprio corpo quando ela me olha com aquela cara.
– Isso não é motivo pra fingir que eu não existo. – Ela começou a andar do meu lado. – Por que você tá me ignorando?
– Porque eu não tô em um dia bom. – Eu dei de ombros, tentando não parecer uma mentirosa, hipócrita e de meias.
– E custava me dizer isso antes? – Édra parou na minha frente, bloqueando meu caminho. – Eu tentei falar com você hoje umas cem vezes.
– Eu... não estou... em um dia... bom – repeti, pausadamente, encarando-a de volta e desviando de seu corpo, ereto na minha frente.
– O que aconteceu, Íris? – Ela continuou andando do meu lado. – Existem paradas que você precisa fazer, mesmo quando teu dia tá um lixo. Tipo o trabalho de literatura. Cadê a sua parte?
– Vou fazer – respondi, rispidamente.
– Vai fazer? – indagou ela, num tom embargado.
– É – eu disse, agarrando as alças da minha mochila.
– Então você vai mesmo continuar me evitando?
Édra Norr parou novamente na minha frente, me fazendo frear. Pude sentir sua respiração encher e esvaziar seu peito por dentro da farda. Estávamos tão perto.
– Quantas vezes eu preciso dizer que só não estou num dia bom? – perguntei, me atrevendo a olhá-la nos olhos.
Suas sobrancelhas foram se juntando lentamente. E ela acenou positivamente com a cabeça para mim.
– Beleza – falou ela, andando para o lado oposto ao que eu seguia.
Escutei o som da porta do seu carro destravando.
Me virei, com o coração na garganta.
– Eu te mando a minha parte do trabalho depois – disse alto, para que ela ouvisse. E observei as costas dela, engolindo um nó que se juntou na minha garganta.
– Não precisa. – Édra abriu a porta do carro.
Ela hesitou antes de entrar. E eu quis muito dizer alguma coisa antes que ela entrasse. Mas nenhuma palavra saiu da minha boca, e ela sumiu para dentro do carro, batendo a porta com força.
Todo o ar que estava preso no meu peito (o ar covarde que não teve coragem de virar palavras) foi se esvaindo. E só sobrou o som do pneu arranhando na calçada, conforme ela manobrava e acelerava.
Loriel e Lanterna estavam competindo para ver quem me faria passar vergonha primeiro pelas calçadas de São Patrique. Era óbvio que eu andava ausente no quesito melhor amiga da minha vizinha idosa. Então decidi que levaria os filhos de Dona Símia para passear, já que essa é a minha obrigação, se eu ainda quiser um vestido de formatura. A verdade é que já juntei dinheiro pra comprar esse maldito vestido, e a quantia que juntei dava para três looks diferentes. Mas não, eu precisava gastar tudo com comida.
Sinceramente, não sei se passear com Loriel e Lanterna até o fim do ano letivo vai me render alguma grana pra compensar o valor que gastei em pizzas de frango com catupiry. Só que ajudar Dona Símia vai muito além do meu interesse em algumas notas da aposentadoria dela. Eu realmente adoro Loriel e Lanterna. E toda vez que passeamos parece que são eles que me levam para passear.
Acho que me divirto mais que os dois juntos.
Passamos pela porta de algumas lojas e Loriel latiu para alguns cães na rua. Lanterna, como sempre, estava mais interessado em comer qualquer coisa que ele farejasse por mais de cinco segundos.
E só me dei conta de que tinha me afastado demais quando Lanterna parou abruptamente para lamber um cigarro apagado, amassado e sujo de batom no chão da calçada. É claro que eu corri para arrancar aquilo da boca dele. E, quando me levantei do chão, percebi exatamente onde eu tinha ido parar.
Submundo.
Vi vários cartazes grudados na parede preta.
“Noite Retrô” era o que divulgavam.
Fui me dando conta de que não era a internet que poderia me dar as respostas que eu procurava. E nem era no ônibus que eu iria descobrir o que se tem para reparar em garotas. Eu estava fazendo tudo de um jeito errado. Completamente errado. E se quisesse mesmo descobrir o que eu queria tanto saber, só existia um lugar em São Patrique que eu poderia visitar.
Não dava pra desvendar tudo isso sendo uma mentirosa, hipócrita e de meias.
Estava na hora de acordar Júlia.