O Amor Não é Óbvio

Elayne Baeta · Capítulo 25 de 27

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O Amor Não é Óbvio

Epílogo

Nem sempre as coisas saem como planejamos. E tá tudo bem nisso. Algumas coisas na vida vêm para nos surpreender, para nos ensinar e até mesmo para deixar algo marcado dentro de nós para sempre. Édra Norr seria a minha garota, meu primeiro amor de verdade, despido do que o mundo tentou me fazer amar (desculpa, Cadu Sena, mas você é muito melhor sendo só meu amigo). E isso, sobre mim e Édra Norr, não iria mudar nem em um milhão de anos. Nem se mil oceanos nos separassem. Eu a amo. E agora estamos conectadas para sempre. Temos uma memória de despedida.

Apesar disso tudo, não acho justo comigo que eu só tenha descoberto a minha sexualidade no fim do terceiro ano. Se alguma coisa tivesse me dado qualquer pista antes, eu poderia pelo menos ter sido apresentada a escolhas diferentes de “ser uma garota hétero perfeita”. Só que tudo me empurrou apenas para isso. Todos os meus livros preferidos, as princesas de que eu mais gosto, os filmes, os desenhos animados, os bonecos musculosos desenvolvidos para serem namorados das minhas bonecas Sally (que custavam uma fortuna), as letras das minhas músicas preferidas e, claro, absolutamente todas as minhas novelas. O mundo só havia me ensinado como ser hétero. Precisei de Édra Norr para saber que podia sentir algo diferente do óbvio e me conhecer de verdade.

Eu podia ter me descoberto muito antes se alguma coisa, qualquer coisa que fosse, tivesse sido meu grande pontapé para isso.

E é com esse pensamento que estou disposta a seguir o que agora acredito ser o meu destino: trabalhar com novelas e grandes roteiros. E só vou parar quando duas garotas se beijarem num horário nobre na TV aberta. Que se explodam todas as novelas que nunca fizeram isso antes!

Estar num avião indo sozinha para Nova Sieva me dá, sim, calafrios imensuráveis. Mas não quero ver as coisas de uma perspectiva negativa. Passei para a Faculdade de Cinema na UNS (Universidade de Nova Sieva) e estou mais do que ansiosa para começar. Tão ansiosa que posso vomitar. Aqui mesmo, no avião. Meu Deus, o que eu estou fazendo? Eu quero descer. Eu quero os meus pais. Eu quero os meus amigos. Eu quero a minha vizinha idosa.

Meu celular começou a vibrar dentro da minha bolsa.

– Ei, você precisa colocar todos os aparelhos em modo avião – disse a aeromoça ao meu lado, repousando a mão no meu ombro.

Tudo bem, eu consigo.

É claro que eu consigo.

Eu já sobrevivi a coisas muito piores.

Nem tudo nessa vida é laranja-forte.

Você tem (1) nova mensagem de Édra Norr.

Mas ainda bem que algumas coisas são.

Não sei exatamente como começar a escrever isso. Porque eu nunca escrevi uma carta de amor antes. Uma que realmente fosse sobre algo puro que eu sinto, despido das influências externas do mundo.

Bom, pelo jeito rebuscado que eu tô escrevendo, esse não vai ser só o meu trabalho de literatura. Isso é realmente uma carta de amor. E já que preciso escrever uma de qualquer maneira, vou abrir o meu peito.

Tá.

Você é a pessoa mais incrível que eu já conheci na minha vida inteira. Eu nunca me deparei com uma pessoa tão bonita, extraordinária, inteligente e contagiante quanto você. Ninguém é como você e ninguém poderia ser. Você é única. Senti vontade de gritar o quanto você é especial na sua cara em tantos momentos… Eu sinto muito por ser o saco de batatas que eu sou e nunca ter dedicado tempo para te dizer essas coisas pessoalmente. Te dizer o quanto você tem os olhos mais adoráveis do mundo. O quanto você é bonita explicando algo. E o quanto suas palavras me tocaram profundamente e me ajudaram a me reconhecer hoje. A descobrir quem eu realmente sou. Agora estamos longe uma da outra e sei que fizemos inúmeras promessas. Sei que você vai ficar bem sem mim e me sinto meio egoísta em desejar que – só em alguma coisa – você se lembre de mim e sinta minha falta. Mas não quero que você fique triste. Às vezes eu choro. Porque eu sou sentimental, não é necessariamente de tristeza. Apesar de ser extremamente irresponsável com você mesma e com a sua saúde, tenho certeza que você sabe se cuidar e que está bem (o que já é motivo suficiente pra me deixar feliz). Eu só choro porque, bom, você sabe. Estar num lugar novo é assustador. Estar longe de toda minha zona de conforto e dos meus amigos é assustador.

A propósito, eu contei a meus pais que eu sou lésbica. E eu nunca vi Ermes Pêssego mais feliz na vida. Sei que as razões dele para isso são totalmente superprotetoras e extremamente duvidosas. Mas ele se sente mais seguro em saber que eu gosto de garotas do que em me ver por aí com um dos jogadores de futebol do Colégio São Patrique (que equilibram os lucros do supermercado comprando preservativos como animais em eterno cio). Não que você queira saber dessa parte.

Quanto a minha mãe, bom, tivemos uma longa conversa de madrugada porque ela se desesperou sobre querer ter netos. E eu tive que explicar que estamos em dois mil e dezenove e não no século quinze. Falei sobre métodos científicos de se ter um bebê sendo lésbica (ela não entendeu nada, apesar dos meus esforços) e também falei dos métodos mais banais, como adoção, e ela sorriu. Fui contando sobre cada coisa pra ela, inclusive sobre minha experiência com Cadu Sena. Depois de algumas risadas bebendo um vinho velho de geladeira, ela até me contou sobre uma vez que deu um selinho em uma garota num jogo. E sobre como isso deixou ela nervosa, mas não tão nervosa quanto Ermes Pêssego de macacão jeans no terceiro ano. Eu deixei claro pra ela que nenhum garoto me deixaria nervosa em um macacão jeans… Ou qualquer outro tipo de roupa. Não depois de tudo o que aconteceu e que você sabe muito bem, porque viveu isso comigo.

Vivemos isso juntas.

E eu não vou te esquecer nem um dia sequer.

Eu prometo lembrar de você o tempo inteiro.

Porque eu te amo.

E eu sempre tive certeza disso.

Em todos os momentos em que rimos juntas, durante todas as nossas conversas. Meu amor por você sempre esteve ali…

Do seu lado até tarde assistindo a novela, ouvindo suas histórias de “quando você era menina”, recusando pela trigésima vez suas delicadas xícaras de chá.

Quando eu olhar pela minha nova janela, verei uma cidade grande e agitada. Funcionando a todo vapor. Vou fechar as cortinas com os meus olhos bem apertados e torcer pra que, quando eu abrir de novo, o que esteja por trás do vidro esperando por mim seja a sua sutil, minúscula e aconchegante casa. Onde vivemos boa parte de nossas aventuras.

Eu vou guardar esses momentos pra sempre.

Foram melhores do que todas as novelas do mundo.

Obrigada por tudo, Ana Símia.

Eu te amo.

P.s.: Lembra daquela novela em que o casal ficava se falando pela internet e marcando viagens pra se encontrar de vez em quando? Sua neta também deve ter assistido.

Ela quer me convencer a ter um namoro à distância.

Disse que todas as garotas lésbicas passam por isso.

Por Deus!

Eu quero esganar a sua neta.

Mas isso é assunto pra uma outra carta.

P.p.s.: Estou te enviando um boxe com todos os capítulos de Amor em atos gravados. Espero que você esteja se divertindo com a sua família. Mas, por favor, não se esqueça da sua melhor amiga.