O filho

Jo Nesbo · Capítulo 10 de 44

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O filho

Capítulo 10

 

 

Johannes despejou a água suja na pia e guardou o esfregão no armário. Tinha limpado todos os corredores do primeiro andar, assim como a sala de controle, e estava ansioso para ler o livro que o aguardava em sua cela. As neves do Kilimanjaro. Era uma coletânea de contos, mas ele sempre lia o mesmo, vez após vez. O conto sobre um homem que tem gangrena no pé e sabe que vai morrer; e ter noção de que vai morrer não o transforma em uma pessoa melhor nem pior, apenas mais perspicaz, mais honesta e menos paciente. Johannes nunca fora nenhum rato de biblioteca, o livro tinha sido presente do bibliotecário da prisão, e, visto que se interessava pela África desde que fora de navio até a Libéria e a Costa do Marfim, acabou lendo aquelas poucas páginas sobre esse homem aparentemente inocente que está prestes a morrer em uma tenda na savana. Na primeira vez, só folheara um pouco, mas agora lia lentamente, palavra por palavra, à procura de algo que nem sabia ao certo o que era.

— Oi.

Johannes se virou.

O “oi” de Sonny tinha sido apenas um sussurro, e aquela figura de face encovada e olhos arregalados à sua frente estava quase transparente de tão pálida. Como um anjo, pensou Johannes.

— Oi, Sonny. Ouvi dizer que você foi parar na solitária. Como você está?

Sonny deu de ombros.

— Você tem uma boa esquerda, garoto. — Johannes sorriu e apontou para o buraco deixado pela ausência de um dente frontal.

— Espero que você possa me perdoar.

Johannes engoliu um nó na garganta.

— Sou eu quem precisa de perdão, Sonny.

Eles se entreolharam. Johannes percebeu que Sonny olhava de um lado para o outro do corredor. Ele esperou.

— Você fugiria da prisão por mim, Johannes?

Johannes ponderou sem pressa. Tentou embaralhar as palavras e reorganizá-las para ver se assim faziam mais sentido.

— Como assim? Eu não quero fugir. Além do mais, não tenho para onde ir. Eles me achariam e me trariam de volta num instante.

Sonny não respondeu, mas o desespero em seus olhos era tão sombrio que fez com que Johannes entendesse.

— Você quer... quer que eu fuja para comprar Superboy para você, não é?

Sonny continuou em silêncio e manteve seu olhar intenso e selvagem cravado nos olhos do velho. Pobre garoto, pensou Johannes. Maldita heroína.

— Por que eu?

— Porque você é o único que tem acesso à sala de controle. Só você pode fugir.

— Errado. Eu sou o único que tem acesso à sala de controle, e por isso sei que não tem como fugir. As portas só podem ser abertas com biometrias cadastradas. E tenho a impressão de que a minha não está, meu caro. Nem pode ser incluída sem a aprovação de um requerimento em quatro vias. Eu já vi...

— Todas as portas podem ser abertas e fechadas a partir da sala de controle.

Johannes balançou a cabeça e olhou em volta para conferir se ainda estavam sozinhos no corredor.

— Mesmo que eu consiga sair, a guarita do portão de saída do estacionamento é vigiada. O guarda verifica a identidade de todos que entram e saem.

— Todos?

— Sim, a não ser durante a troca de guarda às manhãs, tardes e noites, quando eles deixam passar carros e rostos conhecidos.

— E os guardas uniformizados?

— Também.

— E se você conseguisse um uniforme e fugisse durante a troca de guarda?

Johannes levou a mão ao queixo. O maxilar ainda doía.

— Onde eu conseguiria um uniforme?

— No armário do Sørensen, no vestiário.

Sørensen era um dos agentes penitenciários. Estava doente fazia quase dois meses. Tinha surtado. Johannes sabia que isso tinha outro nome hoje em dia, mas era a mesma coisa, um emaranhado louco de sentimentos. Ele sabia muito bem como era.

Johannes balançou a cabeça.

— Durante a troca de guarda o vestiário fica cheio. Eles me reconheceriam.

— Mude a sua aparência.

Johannes riu.

— Digamos que eu consiga um uniforme. Como é que eu, velhote, vou ameaçar um monte de guardas para que me deixem sair?

Sonny levantou a camisa branca comprida que vestia e puxou um maço de cigarros do bolso da calça. Pôs um cigarro entre os lábios secos e o acendeu com um isqueiro em formato de pistola. Johannes acenou lentamente com a cabeça.

— Você não quer droga. Você quer que eu faça outra coisa lá fora, não é?

Sonny tragou o cigarro e exalou fumaça. Estreitou os olhos.

— Você faria isso por mim? — perguntou, numa voz cálida e suave.

— Você me concede a remissão dos meus pecados?

 

Arild Franck os viu quando virou o corredor. Sonny Lofthus tinha posto a mão na testa de Johannes, que estava com a cabeça baixa e de olhos fechados. Pareciam dois malditos veados. Ele os vira nos monitores da sala de controle, conversando por um tempo. Às vezes se arrependia de não ter posto microfone em todas as câmeras de segurança, pois, pelos olhares dos dois, estava claro que o assunto não era a loteria esportiva. Em seguida, Sonny tinha tirado algo do bolso. Com o garoto de costas para a câmera, era impossível ver o que era, até a fumaça subir acima de sua cabeça.

— Ei, é proibido fumar aqui dentro!

A cabeça grisalha de Johannes se ergueu e Sonny baixou os braços. Franck foi na direção deles e apontou com o polegar para trás.

— Vai esfregar o chão em outro lugar, Halden!

Franck esperou até que o velho estivesse longe o suficiente para não ouvir.

— Sobre o que vocês estavam conversando?

Sonny deu de ombros.

— Ah, já sei. Confidencialidade da confissão, não é? — Franck deu uma gargalhada. O som reverberou pelas paredes nuas do corredor. — E então, Sonny, já mudou de ideia?

O garoto apagou o cigarro no maço, pôs ambos no bolso e esfregou o braço.

— Está coçando muito?

O garoto não respondeu.

— Imagino que haja coisas piores do que coceira. Piores até que síndrome de abstinência. Sabe aquele cara da cela 121? Estão achando que ele foi se enforcar no bocal da lâmpada, mas que se arrependeu depois que chutou a cadeira. Que foi por isso que rasgou o pescoço todo com as unhas. Qual era mesmo o nome dele? Gomez? Diaz? Trabalhava para o Nestor. Havia certo receio de que ele falaria com a polícia. Nenhuma prova, só uma leve apreensão. Bastou isso. Não é estranho pensar que você pode estar na cama no meio da noite, numa prisão, e que seu maior medo é que a porta da cela não esteja trancada? Que basta um discreto toque de teclas na sala de controle e uma prisão cheia de assassinos terá acesso à sua cela?

O garoto estava de cabeça baixa, mas Franck via as gotas de suor na sua testa. Ele ia cair em si. Era melhor assim. Franck não gostava de mortes em sua prisão, pois mortes sempre chamam atenção, por mais plausíveis que pareçam.

— Sim.

A resposta veio tão baixa que Franck inconscientemente se inclinou para a frente.

— Sim? — repetiu.

— Amanhã. Vocês vão ter minha confissão amanhã.

Franck cruzou os braços e se balançou nos calcanhares.

— Muito bem. Nesse caso, trarei o Sr. Harnes amanhã cedo. E não invente nenhuma gracinha dessa vez. Aconselho que você dê mais uma boa olhada no bocal da lâmpada quando for se deitar hoje à noite, entendeu?

O garoto ergueu a cabeça e olhou nos olhos do diretor-adjunto. Havia muito Franck tinha descartado a asserção de que os olhos são o espelho da alma, pois já tinha visto muitos presos fazerem olhar de inocência enquanto mentiam descaradamente. Além disso, era uma expressão estranha. Espelho da alma? Se fosse assim, você veria sua própria alma quando olhasse nos olhos de outra pessoa. Será que era por isso que era tão desconfortável olhar para o garoto? Franck se virou. O importante agora era se concentrar no que realmente importava, e não ficar matutando sobre coisas que não levavam a nada.

 

— Ali tem assombração. É por isso.

Lars Gilberg levou o fino toco de cigarro aos lábios com os dedos encardidos e olhou para os dois policiais diante dele.

Simon e Kari precisaram de três horas para encontrá-lo ali, embaixo da ponte Grüner. Começaram a procurá-lo no Centro Ila, onde não era visto havia mais de uma semana, continuaram pela cafeteria Bymisjonens na rua Skipper, passaram pela Christian Frederiks, a praça conhecida por Plata, ao lado da Estação Central, que ainda servia como mercado de heroína e de outras drogas, até, finalmente, chegarem ao centro de atendimento do Exército de Salvação, na rua Urte, onde a informação que receberam os levou em direção ao rio ao lado de Elgen, uma estátua que marcava a divisão entre a venda de anfetamina e heroína. No caminho, Kari explicara a Simon que no momento eram os albaneses e norte-africanos que comandavam o tráfico de anfetamina e metanfetamina ao longo do rio, ao sul de Elgen, até a ponte Vaterland. Quatro somalianos estavam em pé ao redor de um dos bancos, o capuz escondendo o rosto, no sol da noite; pareciam esperar algo. Um deles fez que sim quando Kari mostrou a foto a eles, e apontou para o norte, em direção à região da heroína. Em seguida, perguntou com um piscar de olhos se eles não queriam um grama de metanfetamina para a jornada. As gargalhadas seguiram Simon e Kari enquanto caminhavam rumo à ponte Grüner.

— Você não queria morar no Centro Ila porque acha que o lugar é mal-assombrado? — perguntou Simon.

— Eu não acho, cara. Eu tenho certeza! Não dava para dormir naquele quarto. Já estava ocupado. Você percebia assim que entrava lá. Eu acordava no meio da noite, e é óbvio que não tinha ninguém no quarto, mas era como se tivesse alguém respirando na minha cara o tempo inteiro. E não era só no meu quarto, pode perguntar para qualquer um que mora ali.

Gilberg olhou para o toco do cigarro com desaprovação.

— Então você prefere acampar aqui? — perguntou Simon, e ofereceu sua caixa de fumo.

— Para ser sincero, com assombração ou não, eu não aguento ficar enclausurado. E isso aqui — Gilberg abriu os braços, indicando sua cama de jornais e o saco de dormir esburacado ao lado — é uma bela casa de veraneio, não acham? — Ele apontou para a ponte. — Teto sem goteira. Vista para o mar. Não pago condomínio, e tem mercado e transporte perto. O que mais alguém pode querer?

Ele pegou três porções de fumo, pôs uma na boca e as outras duas no bolso.

— Você trabalha como capelão? — perguntou Kari.

Gilberg inclinou a cabeça e olhou para Simon.

— Esse colarinho que você está usando. Como você deve ter lido aí nos seus jornais, um capelão foi encontrado morto no rio, bem perto daqui.

— Não sei nada sobre isso.

Gilberg tirou as porções de fumo do bolso, colocou-as de volta na caixinha e a devolveu.

— Os peritos vão levar uns vinte minutos para confirmar que esse colarinho aí é o do capelão morto. E você vai levar vinte anos de pena por assassinato.

— Assassinato? Ninguém falou nada de...

— Ah, então você lê a seção policial? Ele foi morto antes de ser jogado no rio. Dá para ver pelas marcas na pele. O corpo bateu nas pedras, e as marcas são diferentes quando infligidas a pessoas mortas, entendeu?

— Não.

— Quer que eu explique melhor? Ou prefere que eu explique como você vai ficar enclausurado numa cela?

— Mas eu não...

— Mesmo somente como suspeito, você vai ficar pelo menos uma semana na delegacia. Onde as celas são ainda menores.

Gilberg olhou pensativo para eles e chupou o fumo com força algumas vezes.

— O que é que vocês querem?

Simon se agachou em frente a Gilberg. O hálito do mendigo não tinha só cheiro, tinha sabor. Um sabor doce e podre, que lembrava fruta caída do pé e morte.

— Quero que você nos conte o que aconteceu.

— Mas eu já falei que não sei.

— Você não falou nada, Lars. E parece que não falar nada é muito importante para você. Por quê?

— Mas foi só um colarinho. Eu vi flutuando na beira do rio e...

Simon se levantou e agarrou Gilberg pelo braço.

— Venha comigo.

— Espere!

Simon o soltou.

Gilberg abaixou a cabeça. Respirou fundo.

— Foi o pessoal do Nestor, mas eu não posso... Você sabe o que eles fazem com quem...

— Sim, eu sei. E você sabe que ele vai acabar sabendo se você for registrado no protocolo de interrogatório da polícia. Por isso sugiro que conte tudo o que sabe aqui e agora, e eu vou pensar se posso deixar por isso mesmo.

Gilberg balançou a cabeça lentamente.

— Agora, Lars!

— Eu estava sentado no banco embaixo das árvores, ali onde o caminho passa por baixo da ponte Sanner. Estava só a uns dez metros deles, então deu para ver bem, mas acho que eles não me viram. A folhagem é bem densa no verão, sabe como é que é? Eram dois. Um deles segurava o capelão, e o outro colocou os braços ao redor da testa dele. Eu estava tão perto que via o branco dos olhos do capelão. Aliás, só tinha branco, como se o olho tivesse virado para dentro do crânio, sabe como é que é? Ele não dava um pio, como se soubesse que não adiantava. Então o cara virou a cabeça dele para trás, como se fosse um quiroprata. Eu ouvi quando quebrou. Sem brincadeira, foi que nem um galho na floresta. — Gilberg apertou o lábio superior, piscou duas vezes e olhou para a frente, encarando o vazio. — Aí eles olharam em volta. Porra, acabaram de matar um cara no meio da ponte e pareciam estar na maior tranquilidade! Mas é estranho como a cidade fica vazia no verão, sabe como é que é? Então jogaram o homem por cima da mureta, ali onde as grades de proteção terminam.

— É onde as pedras são visíveis fora da água — disse Kari.

— Ele ficou caído em cima das pedras por um bom tempo, até que a água arrastou o corpo mais para a frente. Eu fiquei sentado em silêncio sem nem me mexer. Se eles percebessem que eu tinha visto...

— Mas você os viu — cortou Simon —, e estava tão perto que até poderia identificá-los se os visse novamente.

Gilberg balançou a cabeça.

— Nem pensar. Já nem me lembro de mais nada. Esse é o problema de usar qualquer droga que apareça pela frente. A gente fica muito esquecido.

— A vantagem, você quer dizer. — Simon passou a mão pelo rosto.

— Como você sabia que era pessoal do Nestor? — Kari parecia inquieta, sem conseguir ficar totalmente parada.

— Os ternos eram iguais — respondeu Gilberg —, como se eles tivessem roubado um carregamento de ternos pretos de uma funerária. — Ele empurrou o fumo com a língua. — Sabe como é que é?

 

* * *

 

— Vamos priorizar o caso — disse Simon para Kari dentro do carro, quando voltavam para a sede. — Quero que você investigue todos os passos de Vollan nos dois dias antes da morte, e que consiga uma lista de todos, absolutamente toda e qualquer pessoa com quem ele falou.

— Tudo bem.

Passaram pelo bar e casa de shows Blå e pararam para que um grupo de pedestres atravessasse a rua. Hipsters a caminho de um show, pensou Simon, e olhou para o parque Kuba, mais adiante, para a grande tela acima de um palco ao ar livre, enquanto Kari ligava para o pai para avisar que não chegaria a tempo do jantar. Um filme preto e branco estava sendo exibido na tela. Imagens de Oslo. Pareciam ser da década de 1950. Simon se lembrou da própria infância. Para os hipsters, aquilo era somente um mundo peculiar, que pertencia ao passado, algo inocente e talvez charmoso. Ele ouviu risadas.

— Eu estava pensando — começou Kari, e Simon se deu conta de que ela não estava mais falando ao telefone. — Você disse que o Nestor saberia se levássemos o Gilberg para interrogá-lo. Você falou sério?

— O que você acha? — disse Simon, e acelerou em direção à rua Hausmann.

— Não sei, mas você parecia estar falando sério.

— Nem eu sei ao certo. É uma longa história. Por muitos anos se falou sobre a possibilidade de alguém estar vazando informações na polícia, alguém que tinha contato direto com uma pessoa que comandava a maior parte do tráfico de drogas e de mulheres em Oslo. Mas isso já faz muito tempo e, apesar dos fortes boatos, nunca se provou se esse informante ou essa certa pessoa realmente existiam.

— Que pessoa é essa?

Simon olhou pela janela.

— Chamávamos de Gêmeo.

— Ah, o Gêmeo — disse Kari. — Também falavam dele na Narcóticos. Mais ou menos da mesma forma que Gilberg falou de assombrações no Centro Ila. Ele é mesmo real?

— Ah, o Gêmeo é real, sim.

— E esse informante?

— Bom, foi encontrada uma carta de suicídio de Ab Lofthus em que ele confessava.

— E isso não é prova?

— Para mim, não.

— Por que não?

— Porque Ab Lofthus é a pessoa menos corrupta que já trabalhou na polícia de Oslo.

— Como é que você sabe?

Simon parou no sinal da rua Stor. Era como se a escuridão fluísse da fachada dos prédios em volta, e juntamente com a escuridão apareceram as criaturas da noite. Elas andavam com passos arrastados, recostavam-se nas paredes de lugares de onde a música estrondeava, ou se sentavam com o cotovelo apoiado para fora do carro. Caçadores, com olhares famintos e cobiçosos.

— Porque ele era o meu melhor amigo.

 

Johannes olhou para o relógio. Dez e dez. Dez minutos após o trancamento. Os outros já estavam todos em suas celas. Ele seria trancado manualmente depois que terminasse a limpeza, às onze. Era estranho. Quando você já está na prisão há muitos anos, os dias parecem horas, e as mulheres no calendário da sua cela não conseguem acompanhar o ritmo dos meses que passam. Mas a última hora tinha demorado um ano. Um ano longo e terrível.

Ele entrou na sala de controle.

Havia três pessoas vigiando os monitores lá dentro. Uma a menos do que durante o dia. As molas da cadeira rangeram quando um deles se virou.

— Oi, Johannes.

Era Geir Goldsrud. Ele empurrou a lixeira que estava embaixo da mesa com o pé. Um movimento automático. O jovem chefe da guarda que ajudava o velho faxineiro com as costas ruins. Johannes sempre gostara dele. Johannes pegou a pistola do bolso e a apontou para o rosto de Goldsrud.

— Que legal! Onde você arranjou isso? — Era um dos outros guardas, um homem louro que jogava futebol de terceira divisão em Hasle-Løren.

Johannes não respondeu, apenas manteve a mira em um ponto imaginário entre os olhos de Goldsrud.

— Acende esse aqui para mim! — O terceiro guarda pôs um cigarro na boca.

— Solte isso, Johannes. — Goldsrud falou baixo e sem piscar. Ele tinha se dado conta de que não se tratava de um isqueiro divertido.

— Artefato estilo James Bond, hein, cara? Quer quanto por ele? — O jogador de futebol tinha se levantado e ia em direção a Johannes para ver melhor.

Johannes apontou a pequena pistola para um dos monitores logo abaixo do teto e puxou o gatilho. Não sabia bem o que esperar. Por isso ficou tão impressionado quanto os outros quando ouviu um estouro, o monitor explodiu e cacos de vidro voaram para todos os lados. O jogador de futebol congelou.

— Todo mundo no chão!

Johannes fora abençoado com uma voz de barítono, mas ele mesmo notou como sua voz soou fina e estridente, como a de uma velha histérica.

Mas deu certo. Saber que há um homem desesperado com uma arma mortal à sua frente parece funcionar melhor do que uma voz de comandante. Todos os três ficaram de joelhos e puseram as mãos atrás da cabeça, como se aquilo fosse um treinamento; como se realmente tivessem sido orientados sobre como reagir caso fossem ameaçados com uma pistola. E talvez tivessem mesmo. Haviam aprendido que rendição total é a única alternativa. Seguramente, a única aceitável para sua faixa salarial.

— Deitados! Nariz no chão!

Eles obedeceram. Era quase como mágica.

Johannes olhou para o painel de controle à sua frente. Encontrou o botão que abria e fechava as celas, em seguida o que abria a passagem de segurança e as duas entradas principais. Finalmente, achou o grande botão vermelho, o que abria todas as portas e deveria ser utilizado somente em caso de incêndio. Apertou. Um longo sinal sonoro indicou que a prisão estava aberta. Foi nesse momento que um pensamento engraçado lhe passou pela cabeça. Ele finalmente estava onde sempre quis estar. Era o capitão na ponte de comando do navio.

— Continuem olhando para baixo. — Sua voz já soava mais segura. — Se algum de vocês tentar me parar, eu e meus companheiros vamos atrás de vocês e das suas famílias. Não esqueçam que sei tudo sobre vocês, garotos. Trine, Valborg...

Enquanto olhava para os monitores, continuou a enumerar o nome das esposas e filhos, onde estudavam, quais hobbies tinham, em que parte da cidade moravam, enfim, toda a informação acumulada ao longo de vários anos. Depois que terminou, saiu e começou a correr. Passou pelo corredor e foi às escadas que levavam ao térreo. Puxou a primeira porta. Aberta. Continuou através do corredor. Seu coração já estava batendo forte demais, ele não tinha se exercitado como deveria, não se mantivera em forma. Pretendia começar agora. Outra porta, também aberta. Suas pernas já não queriam mais correr. Talvez fosse o câncer, talvez já tivesse alcançado seus músculos e enfraquecesse seu corpo. A terceira porta levava à passagem de segurança. Ele esperou até que a porta atrás de si se fechasse, com um pequeno zumbido. Contou os segundos. Olhou para o corredor que levava aos vestiários. Quando finalmente ouviu a porta de trás se fechar, agarrou a maçaneta da segunda. Puxou a porta.

Trancada.

Merda! Tentou outra vez. A porta não cedeu.

Ele olhou para a placa branca ao lado da porta e posicionou o dedo no sensor. Uma luz amarela piscou por alguns segundos, em seguida uma vermelha se acendeu. Johannes sabia que isso significava que sua impressão digital não tinha sido autorizada, mas tentou a maçaneta mesmo assim. Trancada. Derrotado. Johannes caiu de joelhos em frente à porta. Naquele momento, ouviu a voz de Geir Goldsrud:

— Sinto muito, Johannes.

A voz veio do alto-falante no alto da parede e soava tranquila, quase reconfortante.

— É só o nosso trabalho, Johannes. Se deixássemos de fazê-lo cada vez que nossa família é ameaçada, não sobraria nenhum agente penitenciário na Noruega. Relaxe, nós vamos buscá-lo. Quer empurrar a arma por entre as grades ou prefere que usemos o gás em você?

Johannes olhou para as câmeras. Será que eles podiam ver o desespero em seus olhos? Ou o alívio? O alívio pois tudo acabava ali e a vida continuaria a ser como antes. Mais ou menos como antes. Provavelmente não poderia mais limpar o chão do primeiro andar.

Ele empurrou a pistola por entre as grades. Em seguida, deitou-se no chão, pôs as mãos atrás da cabeça e se encolheu como uma vespa que aplicou seu primeiro e único ferrão. Mas quando fechou os olhos não ouviu hienas nem estava a bordo de um avião a caminho do cume do Kilimanjaro. Ainda estava vivo, em lugar nenhum. Estava ali.