O filho
Capítulo 28
Hugo Nestor amava o Vermont, um dos poucos lugares que era, ao mesmo tempo, restaurante, bar e boate e cumpria todas as funções com êxito. A clientela era composta de ricos e bonitos, não bonitos e ricos, não ricos e bonitos, uma camada de celebridades, financistas meio que bem-sucedidos e pessoas que trabalhavam à noite no ramo de entretenimento, além de criminosos bem-sucedidos. Era lá, no Vermont, que a gangue Tveita, assim como pessoas envolvidas com lavagem de dinheiro, assaltos a bancos, correios e carros-fortes compravam litros e mais litros de Dom Perignon e — visto que as strippers norueguesas atualmente não tinham tanto esmero — encomendavam strippers diretamente de Copenhague para uma dança privada em seus quartos VIP. Usavam canudos para soprar cocaína em diversos orifícios das strippers e em seus próprios, enquanto garçons passavam com ostras, trufas Périgord e foie gras de gansos que tinham sido tão bem tratados quanto eles mesmos. Em suma, o Vermont era um lugar com estilo e tradição. Um lugar onde Hugo Nestor e seus homens podiam se sentar todas as noites à sua mesa isolada e ver o mundo ir para o buraco. Um lugar onde se podiam fazer negócios, e banqueiros e financistas podiam se misturar com criminosos sem que os policiais que frequentavam o Vermont se importassem muito.
Por isso o pedido do homem agora sentado à mesa não fora dos mais incomuns. Ele chegara, olhara ao redor e atravessara a multidão de gente na direção da mesa deles, mas foi parado por Bo quando tentou passar por cima da corda vermelha que os separava. Depois de trocar algumas palavras com Bo, este foi até Nestor e sussurrou no ouvido dele:
— Ele quer uma garota asiática. Disse que é para um cliente que paga muito bem.
Nestor inclinou a cabeça para o lado e tomou um gole de champanhe. Pensou em um provérbio que o Gêmeo dizia, do qual Nestor se apoderara: Dinheiro compra champanhe.
— Você acha que ele tem jeito de policial?
— Não.
— Eu também não. Ofereça uma cadeira.
O cara usava um terno que parecia caro, camisa bem passada e gravata. Sobrancelhas claras e óculos marcantes, exclusivos. Não, na verdade, não tinha sobrancelhas.
— Ela tem que ter menos de 20 anos.
— Não tenho a mínima ideia do que você está falando — disse Nestor. — Por que você está aqui?
— Meu cliente é amigo de Iver Iversen.
Hugo Nestor olhou para ele com mais atenção. Tampouco tinha cílios. Talvez tivesse alopecia universal, assim como o irmão de Hugo. Suposto irmão. Não tinha nenhum fio de cabelo no corpo. Então o cabelo desse cara devia ser peruca.
— Meu cliente trabalha no ramo de transporte marítimo. Paga em dinheiro e heroína que veio de navio. Vocês provavelmente sabem melhor do que eu o que isso significa quanto ao grau de pureza.
Menos paradas. Menos pessoas misturando a droga.
— Deixe-me ligar para Iversen primeiro — disse Nestor.
O cara balançou a cabeça.
— Meu cliente exige discrição total. Ninguém pode saber disso, nem Iversen. Se Iversen fala para os amigos mais próximos o que ele costuma fazer, é problema dele.
Que pode vir a ser problema nosso, pensou Nestor. Quem era aquele cara? Não aparentava ser garoto de recados. Talvez um protégé? Um advogado de família, altamente confiável?
— Eu naturalmente entendo que um pedido como esse, vindo de uma pessoa que vocês não conhecem, gera desconfiança e requer uma caução extra para garantir uma transação segura. Por isso, meu cliente e eu sugerimos um adiantamento para provar nossa seriedade. E aí, o que me diz?
— Eu digo quatrocentos mil — respondeu Nestor. — É apenas um número, pois ainda não tenho a mínima ideia do que você está falando.
— Claro que não — retrucou o cara. — Vamos providenciar.
— Para quando?
— Para hoje à noite.
— Hoje à noite?
— Eu volto a Londres amanhã cedo. O adiantamento está na minha suíte no Plaza.
Nestor trocou olhares com Bo. Então esvaziou a taça fina de champanhe num gole só.
— Ainda não entendi nenhuma palavra, mister. A não ser que você esteja nos convidando para uma taça de champanhe na sua suíte.
O cara abriu um sorriso breve.
— É exatamente isso.
Revistaram o cara assim que chegaram ao estacionamento. Bo o segurou enquanto Nestor procurava armas ou microfones. O cara permitiu sem nenhum protesto. Não tinha nada.
Bo dirigiu a limusine até o Plaza, e eles caminharam do estacionamento atrás da Arena Spektrum até o alto prisma de vidro que era o hotel. Dentro do elevador panorâmico, olharam para a cidade, e Nestor pensou que era como uma metáfora, que as pessoas lá embaixo ficavam cada vez menores enquanto ele subia.
Bo apanhou a pistola assim que o cara abriu a porta da suíte para eles. Não havia nenhuma razão aparente para uma emboscada. Até onde ele sabia, Nestor não tinha nenhum inimigo vivo, tampouco disputas mal resolvidas no mercado, e a polícia, se quisesse, podia até prendê-lo, mas não tinha nenhuma prova contra ele. Mesmo assim, sentia uma leve inquietação e não sabia bem por quê. Quer dizer, convenceu-se de que era um estado de alerta profissional, não baixar a guarda, algo que outras pessoas do ramo deveriam aprender. Não era à toa que chegara aonde chegara.
A suíte até que era boa. Tinha uma vista incrível, isso ele precisava admitir. O cara havia posto duas maletas na mesa de centro. Enquanto Bo verificava os outros cômodos, o cara foi até o bar e começou a preparar uns drinques.
— Aqui está — disse ele, apontando para as maletas.
Nestor parou ao lado da mesa e abriu uma, depois a outra.
Havia mais de quatrocentos mil. Só podia ser mais.
E se a droga na outra maleta fosse tão pura quanto o cara tinha falado, era mais do que suficiente para comprar um pequeno vilarejo, cheio de garotas asiáticas.
— Você se importa que eu ligue a TV? — indagou Nestor, e pegou o controle remoto.
— Fique à vontade — disse o cara, que estava preparando os drinques, algo que não parecia ter o costume de fazer, mas pelo menos estava cortando rodelas de limão para três copos de gim-tônica.
Nestor apertou o botão da TV a cabo, passou pelos canais infantis e de família até chegar aos dos filmes pornográficos, escolheu um e aumentou o volume. Depois, foi até o bar.
— Ela tem 16 anos e vai ser entregue no estacionamento de Ingierstrand à meia-noite de amanhã. Você para no meio do estacionamento e não sai do carro. Um dos nossos vai até o carro, senta no banco de trás e conta o dinheiro. Depois, ele leva o dinheiro e outra pessoa traz a garota. Entendido?
Ele assentiu.
O que Nestor não disse, porque não precisava ser dito, era que a garota não estaria no mesmo carro que ia pegar o dinheiro. O dinheiro sairia do local antes de a garota chegar. O mesmo princípio usado no tráfico de drogas.
— E o dinheiro...
— Outros quatrocentos mil — disse Nestor.
— Tudo bem.
Bo voltou do quarto e ficou parado olhando para a TV. Parecia gostar do que via. A maioria gostava. Nestor apenas os achava úteis, pois tinham uma trilha sonora previsível e constante de gemidos, que impossibilitava que escutassem a conversa com algum microfone escondido.
— Amanhã à meia-noite, em Ingierstrand — repetiu Nestor.
— Que tal um brinde para comemorar? — sugeriu o cara, oferecendo dois copos.
— Obrigado, mas estou dirigindo — disse Bo.
— Ah, claro. — O cara sorriu e bateu com a mão na testa. — Coca?
Bo deu de ombros. O cara abriu uma lata de Coca-Cola, serviu-a em um copo e cortou uma nova rodela de limão.
Eles brindaram e se sentaram em volta da mesa. Nestor fez sinal para Bo, que tirou a primeira pilha de dinheiro da maleta e começou a contar em voz alta. Ele trouxera uma sacola do carro, que agora usava para pôr o dinheiro. Nunca levavam o dinheiro nas maletas dos clientes, pois podiam conter sensores que mostrariam para onde o dinheiro era levado. Quando Nestor percebeu que Bo estava contando mal, soube que havia alguma coisa errada. Só não tinha certeza do quê. Olhou ao redor. Será que as paredes haviam mudado de cor? Olhou para seu copo vazio. Olhou para o copo vazio de Bo. Depois, olhou para o copo do advogado.
— Por que é que não tem limão no seu copo? — perguntou Nestor. Parecia que sua própria voz estava bem distante.
A resposta também veio de longe:
— Tenho intolerância a frutas cítricas.
Bo tinha parado de contar, sua cabeça pendia sobre as cédulas.
— Você nos drogou — disse Nestor, e tentou pegar a faca no coldre da perna.
Ele ainda teve tempo de perceber que estava procurando na perna errada, antes que a base do abajur viesse em sua direção. Então tudo ficou escuro.
* * *
Hugo Nestor sempre gostara de música. Não desse tipo de barulho ou sequências de tons infantis que as pessoas chamavam de música, mas música para adultos pensantes. Richard Wagner. Escala cromática. Doze notas com intervalos de semitons entre uma e outra, baseadas na 12ª raiz de 2. Matemática pura, harmonia, ordem alemã. Mas o som que ouvia agora era o oposto de música. Desordem, nada a ver com nada, caos. Quando recuperou a consciência, nauseado e tonto, percebeu que estava em algum tipo de recipiente grande. Suas mãos e pés estavam amarrados por algo afiado, que lhe cortava a pele. Provavelmente braçadeira de náilon; ele usava o mesmo nas garotas. Depois que o carro parou, ele foi retirado e deu-se conta de que estava dentro de uma mala grande, com rodinhas. Meio deitado, meio em pé, foi empurrado e puxado por um terreno acidentado. Ouvia a respiração ofegante de quem puxava a mala. Nestor havia gritado e oferecido dinheiro para que o soltasse, mas não obtivera nenhuma resposta. A única coisa que ouvia era uma barulheira dissonante e atonal que ficava cada vez mais forte. Barulheira que ele reconhecera havia muito tempo, antes de estar deitado de costas no chão e — porque sabia onde estava — de saber que a água fria que atravessava o tecido da mala e do paletó era água de pântano. Cachorros. Os latidos curtos de dogos argentinos.
O que ele não sabia era do que se tratava aquilo. Quem era aquele cara e por que estava fazendo aquilo? Será que era um concorrente querendo tomar o mercado deles? Era o mesmo cara que tinha matado o Kalle? Mas por que fazê-lo dessa forma?
O zíper foi aberto e Nestor fechou os olhos, ofuscado pela luz da lanterna apontada para o rosto dele.
A mão de alguém agarrou-lhe o pescoço e o colocou de pé.
Ele abriu os olhos e encarou a pistola que brilhava meio opaca na luz. Os latidos tinham parado de repente.
— Quem era o informante? — perguntou a voz atrás da lanterna.
— O quê?
— Quem era o informante? Aquele que a polícia achava que era Ab Lofthus.
Hugo Nestor encarou a luz com os olhos apertados.
— Não sei. Pode atirar logo, porque eu não sei.
— E quem sabe?
— Ninguém. Pelo menos nenhum de nós. Talvez alguém da polícia.
A luz foi abaixada, e Nestor viu que era o tal do advogado. Tinha tirado os óculos.
— Você tem que pagar pelos seus erros — disse ele. — Quer aliviar a consciência primeiro?
Do que ele estava falando? Ele falava como um capelão. Será que tinha alguma coisa a ver com o capelão que mataram? Era apenas um pedófilo corrupto, não era possível que alguém quisesse vingá-lo.
— Não me arrependo de nada — retrucou Nestor. — Acabe logo com isso.
Sentia-se estranhamente tranquilo. Talvez fosse o efeito da droga. Ou talvez porque já pensara nisso muitas vezes, que provavelmente terminaria assim, com uma bala no meio da testa.
— Nem de ter deixado aquela garota ser atacada por um cachorro antes de cortar a garganta dela? Com esta faca...
Nestor piscou contra a luz que reluzia na faca curva. Sua própria faca.
— Não me...
— Onde vocês escondem as garotas, Nestor?
As garotas? Era isso que ele queria? Tomar o tráfico de mulheres? Nestor tentou se concentrar, mas era difícil. Seu cérebro estava meio nebuloso.
— Promete não atirar em mim se eu contar? — perguntou ele, mesmo sabendo que um “sim” teria mais ou menos o mesmo valor de um marco alemão em 1923.
— Prometo.
Então por que Nestor acreditou nele? Por que acreditou na promessa de um cara que não tinha feito outra coisa além de mentir, desde que aparecera no Vermont? Devia ser apenas seu cérebro burro que queria se agarrar àquela última chance. Pois não existia nenhuma outra, apenas esta esperança idiota, naquela noite em um canil no meio da floresta: a esperança de que aquele que o sequestrara estivesse falando a verdade.
— Rua Enerhaug, número 96.
— Muito obrigado — disse o cara, e colocou a pistola no cós da calça.
Muito obrigado?
O cara pegou o celular e começou a digitar algo que estava anotado em um post-it amarelo, que devia ser um número de telefone. O display iluminou seu rosto, e ocorreu a Nestor que talvez fosse mesmo um capelão. Um capelão que não mentia. Algo que era obviamente paradoxal, mas ele estava convencido de que havia pelo menos alguns capelães que não sabiam que mentiam. O cara ainda estava digitando. Devia ser uma mensagem. Enviou com um toque final. Então guardou o aparelho no bolso e olhou novamente para Nestor.
— Você fez uma boa ação, Nestor, talvez elas ainda sejam salvas — disse ele. — Achei que você talvez quisesse saber disso antes de...
Antes de quê? Nestor engoliu em seco. Quando o cara prometeu que não o mataria, ele tinha acreditado. Espera! Ele prometeu que não atiraria em Nestor. A luz da lanterna estava apontada para a jaula dos cachorros. A chave deslizou para dentro do cadeado. Agora ele podia ouvir os cachorros. Nenhum latido, apenas um som grave e harmônico, quase inaudível. Um rosnado comedido, que vinha do fundo do estômago e que aumentava em volume e em timbre, de forma lenta e controlada, assim como os contrapontos de Wagner. E agora não havia nenhuma droga capaz de suprimir seu temor. Temor que ele sentia como se fosse a água gelada de uma mangueira. Se a pressão da água pudesse pelo menos empurrá-lo embora, mas o homem estava do lado de dentro, dentro dele, e lavava a parte de dentro de sua cabeça e de seu corpo. Não era possível escapar. Era ele mesmo, Hugo Nestor, que segurava a mangueira.
Fidel Lae estava sentado no escuro, olhando para o nada. Não havia se mexido, não tinha feito um barulho sequer. Apenas se encolhera para tentar se aquecer e controlar o tremor. Reconhecera a voz dos dois homens. Um deles era o cara que tinha vindo do nada e o trancara ali dentro fazia mais de um dia. Fidel não havia comido quase nada, apenas bebido água. E sentido muito frio. Mesmo durante as noites de verão o frio invade o corpo, petrifica e persegue a pessoa. Gritara por ajuda durante algum tempo, até que sua garganta ficou seca e ele perdeu a voz. Não era mais saliva, mas sangue, o que umedecia sua garganta, e a água que ele bebia já não mais aliava; ardia e queimava como álcool.
Quando ouviu o carro, começou a gritar novamente. Começou a chorar quando sua voz não emitiu nenhum som, apenas rangia, como quando não se passa a marcha direito.
Pelo latido dos cachorros, alguém se aproximava. Rezou com esperança. Por fim, viu sua silhueta contra o céu da noite de verão. Viu que ele tinha voltado. O homem que caminhara sobre o pântano no dia anterior, agora ele andava encurvado e puxava algo atrás de si. Uma mala. Com uma pessoa viva dentro. Uma pessoa com as mãos e pés amarrados tão apertados que tinha dificuldade para ficar em pé onde estava agora, na frente do portão da jaula dos cachorros, ao lado de Fidel.
Hugo Nestor.
Estavam a apenas quatro metros de Fidel, mas mesmo assim ele não ouvia nada do que diziam. O homem abriu o cadeado e colocou a mão na cabeça de Nestor como se quisesse abençoá-lo. Disse algo. Depois, deu-lhe um pequeno empurrão na cabeça. O homem roliço de paletó deu um grito curto e caiu para trás sobre o portão, que se abriu para dentro. Os cachorros recuaram. O homem empurrou os pés de Nestor rapidamente para dentro e depois fechou o portão. Os cachorros hesitaram. De repente, Caça-Fantasma começou a se mover. Fidel viu os animais brancos se jogarem sobre Nestor. Eram tão silenciosos que Fidel ouvia o mastigar das mandíbulas, o som de carne sendo rasgada, o grunhido quase alegre dos animais e os gritos de Nestor. Um tom simples, trêmulo, estranhamente puro, subiu ao céu nórdico, onde Fidel podia ver os insetos dançando. Então o tom foi interrompido, e Fidel viu outra coisa se erguer; parecia um enxame que ia em sua direção, e ele sentiu uma chuva de pequenas gotas mornas. Fidel sabia o que era, pois já havia cortado a artéria de um alce vivo durante uma viagem de caça. Limpou o rosto com a manga do casaco e se virou para o outro lado. Viu que o homem do lado de fora da jaula também se virou. Viu que seus ombros tremiam. Como se chorasse.