O filho
Capítulo 35
— Você se lembra da primeira vez que nos vimos? — perguntou Simon, e acariciou a mão de Else sobre o cobertor.
Os outros dois pacientes do quarto dormiam atrás de suas respectivas cortinas.
— Não. — Ela sorriu, e ele imaginou seus olhos azuis incrivelmente brilhantes cintilando sob o curativo. — Mas você lembra, então pode me contar como foi.
Em vez de sorrir, Simon riu baixinho para que ela ouvisse.
— Você trabalhava numa floricultura em Grønland. E eu entrei para comprar flores.
— Uma coroa — disse ela. — Você queria uma coroa de flores.
— Você era tão linda que eu prolonguei a conversa mais que o necessário. Mesmo você sendo jovem demais para mim. Mas, enquanto conversávamos, eu também fiquei mais jovem. No dia seguinte, voltei para comprar rosas.
— Você comprou lírios.
— Claro. Eu queria que você pensasse que eram para um amigo. Mas na terceira vez comprei rosas.
— E na quarta também.
— Meu apartamento estava tão cheio de rosas que eu quase não conseguia respirar.
— E eram todas para você.
— Não, eram todas para você. Eu só estava guardando as flores. Até que chamei você para sair. Nunca tive tanto medo em toda a minha vida.
— Você parecia tão nervoso que eu nem consegui dizer não.
— Esse truque funciona sempre.
— Não. — Ela riu. — Você estava nervoso. Mas eu também vi olhos tristes. Uma vida vivida. A melancolia da introspecção. Isso é irresistível para uma mulher jovem, sabia?
— Você sempre disse que se apaixonou pelo meu corpo atlético e minha capacidade de escutar.
— Mentira, eu nunca disse isso!
Else riu ainda mais alto, e Simon riu junto. Aliviado porque ela não podia vê-lo agora.
— A coroa de flores que você comprou na primeira vez — continuou ela, baixinho. — Você escreveu um cartão e ficou olhando para o papel, então o jogou fora e escreveu outro. Depois que você foi embora, eu o resgatei da lixeira e li. Estava escrito “Para o amor da minha vida.” Foi por isso que me interessei.
— Foi mesmo? Você não preferia um homem que pensava que ainda conheceria o amor da sua vida?
— Eu queria um homem que fosse capaz de amar, amar de verdade.
Ele assentiu. Ao longo dos anos, eles tinham repetido essa história tantas vezes que todas as respostas eram ensaiadas, as reações e também a aparente surpresa. Um dia eles prometeram contar tudo um para o outro, absolutamente tudo, e depois que o fizeram, depois que testaram quantas verdades o outro aguentava ouvir, essas histórias tinham se tornado as paredes e o teto que sustentavam seu lar.
Ela apertou-lhe a mão.
— E você realmente podia, Simon. Você era capaz de amar.
— Porque você me curou.
— Você mesmo se curou. Foi você que parou de jogar, não eu.
— Você foi meu remédio, Else. Sem você...
Simon respirou fundo. Esperava que ela não notasse o tremor em sua voz. Porque hoje ele não conseguiria, hoje não. Não conseguiria repetir a história do seu vício por apostas e das conseguintes dívidas, nas quais também a envolvera. Ele fizera o imperdoável. Tinha penhorado a casa sem o conhecimento dela. E perdido. E ela o perdoou. Não ficou furiosa, não o largou, não deixou que ele sofresse as consequências sozinho nem lhe deu um ultimato. Apenas acariciou seu rosto e disse que o perdoava. E ele chorou feito uma criança, e naquele momento a vergonha acabou com sua fome por uma vida na interseção entre a esperança e o medo, onde tudo está em jogo e se pode ganhar ou perder a qualquer instante, onde a possibilidade de uma derrota catastrófica e definitiva é quase — quase — tão excitante quanto a de ganhar. Era verdade, ele tinha parado naquele dia. E nunca mais apostara outra vez, nem mesmo uma cerveja, e isso o salvara. Salvara ambos. Isso, mais o fato de que eles contavam absolutamente tudo um ao outro. Pois saber que ele tinha autocontrole e a coragem de ser totalmente honesto com outra pessoa o transformara, o reerguera como homem e ser humano, e talvez o tivesse feito crescer ainda mais do que se nunca tivesse estado à mercê de seus vícios. E talvez fosse por isso que, em seus últimos anos como policial, ele deixara de ver cada criminoso como irrecuperável e incorrigível e passara a estar disposto a dar uma segunda chance para todos — contrariamente ao que sua vasta experiência lhe dizia.
— Somos como Charles Chaplin e a florista em Luzes da cidade — disse Else. — Só que de trás para a frente.
Simon engoliu em seco. A florista cega que pensa que o vagabundo é um cavalheiro rico. Simon não se lembrava mais como, mas o vagabundo fazia com que a mulher recuperasse a visão, e depois disso ele não revela quem é porque tem certeza de que ela não vai querer nada com ele se souber. Mas, quando a florista descobre, ela o ama mesmo assim.
— Vou esticar as pernas um pouco — avisou ele, e se levantou.
Não havia mais ninguém no corredor. Ele olhou por um instante para a placa na parede, que mostrava um celular cortado por uma faixa vermelha. Mesmo assim pegou seu aparelho e achou o número. Muitas pessoas pensam que a polícia não consegue rastrear um número se enviarem um e-mail por um celular através de um endereço Hotmail. Errado. Foi fácil. Parecia que seu coração estava quase na garganta, era como se estivesse batendo atrás de sua clavícula. Não havia nenhum motivo para que ele atendesse.
— Alô?
Aquela voz. Estranha, mas também estranhamente familiar, como o eco de um passado distante; não, de um passado próximo. O Filho. Simon precisou pigarrear duas vezes antes de conseguir produzir um som com as cordas vocais.
— Precisamos nos encontrar, Sonny.
— Seria ótimo...
Ótimo? Mas não havia o menor sinal de ironia em sua voz.
— ... mas em breve não vou estar mais por aqui.
Aqui onde? Em Oslo? Na Noruega? Ou aqui entre nós, na terra?
— O que você vai fazer? — perguntou Simon.
— Acho que você sabe.
— Vai encontrar e punir os que estão por trás de tudo. Aqueles por cujos crimes você pagou. Os que mataram seu pai. E vai procurar o informante.
— Não me resta muito tempo.
— Mas eu posso ajudar você.
— Muito obrigado, Simon, mas o melhor que você pode fazer para me ajudar é continuar fazendo o que fez até agora.
— E o que seria isso?
— Não tentar me impedir.
Seguiu-se uma pausa. Simon tentou escutar sons de fundo que pudessem revelar onde o garoto se encontrava. Ouviu uma batida baixa e rítmica, acompanhada de gritos esporádicos.
— Acho que você quer a mesma coisa que eu, Simon.
Ele engoliu em seco.
— Você se lembra de mim?
— Tenho que ir agora.
— Seu pai e eu...
Mas ele já havia desligado.
* * *
— Obrigado por ter vindo.
— Imagina — disse Pelle, e olhou para o garoto no retrovisor. — Costumamos ficar com o taxímetro ligado durante menos de trinta por cento do dia, então foi bom, tanto para mim como para os negócios, que você tenha ligado. Para onde deseja ir hoje?
— Ullern.
O garoto lhe pedira seu cartão de visita depois da última corrida. Às vezes passageiros faziam isso, mas nunca ligavam. Era muito fácil conseguir outro táxi na rua ou por meio da central. Então Pelle não tinha a mínima ideia de por que o garoto queria que logo ele saísse de Gamlebyen para ir até Kvadraturen buscá-lo no duvidoso hotel Bismarck.
O garoto estava de terno, e Pelle a princípio nem o reconheceu. Algo estava diferente. Ele levava a mesma mochila vermelha de antes, assim como uma maleta. Pelle ouviu um barulho de metal quando o garoto jogou a mochila no banco de trás.
— Vocês parecem muito felizes na foto — disse o garoto. — É sua esposa?
— Ah, essa foto. — Pelle sentiu-se enrubescer.
Ninguém nunca tinha comentado a foto antes. Ele também a pusera em um lugar pouco visível, à esquerda e abaixo do volante, para que os passageiros não vissem. Mas ficou feliz porque o garoto vira na foto que eram felizes. Que ela era feliz. Ele não escolhera a melhor foto deles, mas a foto na qual ela parecia mais feliz. — Acho que ela vai fazer almôndegas hoje. Depois vamos dar uma volta no parque Kampen. Lá em cima tem uma brisa muito boa, que será muito bem-vinda num dia como esse.
— Parece uma excelente ideia — disse o garoto. — É uma sorte grande encontrar alguém com quem dividir a vida, não é?
— É, sim. — Pelle olhou pelo retrovisor. — Com certeza.
Geralmente ele deixava a conversa por conta dos passageiros. Gostava disso, de participar da vida de alguém durante a curta corrida. Filhos e matrimônio. Trabalho e aluguel. Pedir emprestadas as alegrias e preocupações de uma família por um instante. Não ter que falar sobre si mesmo, como ele sabia que muitos taxistas adoravam fazer. Mas, de alguma forma, havia surgido certa intimidade entre eles; simplesmente gostava de falar com aquele jovem.
— E você? — perguntou Pelle. — Já arranjou uma namorada?
O garoto balançou a cabeça, sorrindo.
— Não? Ninguém que faça seu coração bater mais forte?
O garoto assentiu.
— É mesmo? Que bom para você, companheiro. E para ela também.
Os movimentos da cabeça mudaram de direção.
— Não? Não me diga que ela não quer nada com você? É verdade que, naquele dia que você estava vomitando, você não parecia lá essas coisas todas, mas hoje, com terno e tudo mais...
— Obrigado — disse o garoto. — Mas acho que não posso ficar com ela.
— Por que não? Você não se declarou?
— Não. Deveria?
— Sempre. Várias vezes por dia. É como se fosse oxigênio; nunca deixa de ser bom. Eu te amo, eu te amo. Tente, e vai entender o que eu quero dizer.
Houve silêncio no banco de trás. Em seguida, uma tosse.
— E como... como você sabe que alguém ama você?
— A gente sabe. É a soma de todas as pequenas coisas cuja essência você não consegue identificar. O amor nos rodeia como o vapor no chuveiro. Não podemos ver cada gota, mas ficamos quentes. E molhados. E limpos.
Pelle riu, envergonhado e quase orgulhoso de suas palavras.
— E você continua a se banhar no amor dela e dizer todos os dias que a ama?
Pelle teve a impressão de que aquelas perguntas não eram espontâneas, que era um assunto sobre o qual ele queria falar com Pelle, que tinha a ver com a foto dele e de sua esposa, que o garoto devia tê-la visto em uma das outras duas corridas.
— Com certeza.
Pelle sentiu que tinha algo na garganta, migalhas ou algo assim. Tossiu com força e ligou o rádio.
A corrida até Ullern durou quinze minutos. O garoto lhe passou um endereço em um dos caminhos que subiam a colina, entre gigantescas construções de madeira, que mais pareciam fortes do que casas. O asfalto já havia secado depois da chuva que caíra mais cedo.
— Pode parar aqui por um instante, por favor?
— O portão é ali.
— Mas aqui está bom.
Pelle parou junto ao meio-fio. A propriedade era rodeada por um muro branco e alto, com cacos de vidro no topo. A enorme casa de tijolinhos, de dois andares, ficava empoleirada num jardim grande. Uma música vinha da varanda da frente, e todas as janelas estavam iluminadas. Havia holofotes no jardim. Na frente do portão havia dois homens largos, de terno preto. Um deles segurava um enorme cachorro branco na coleira.
— Você vai para uma festa? — perguntou Pelle, e esfregou seu pé ruim. Às vezes as dores voltavam de repente.
O garoto balançou a cabeça.
— Acho que não fui convidado.
— Você conhece as pessoas que moram aqui?
— Não. Me deram o endereço quando eu estava na prisão. O Gêmeo. Já ouviu falar dele?
— Não — respondeu Pelle —, mas já que você não conhece a pessoa, vou me dar a liberdade de dizer que não é certo alguém ter tanto. Olhe só para essa casa! Estamos na Noruega, não nos Estados Unidos ou na Arábia Saudita. Somos um monte de pedra congelada no norte, mas pelo menos sempre tivemos algo que outros países não tinham. Certa igualdade. E agora estamos destruindo isso.
Ouviu-se o latido de cães no jardim.
— Acho que você é um homem sábio, Pelle.
— Ah, não sei não. Por que você esteve na prisão?
— Para encontrar paz.
Pelle analisou o rosto do garoto no espelho. Era como se já o tivesse visto em outro lugar, não só no carro.
— Vamos sair daqui — sugeriu o garoto.
Quando Pelle voltou a olhar para a frente, viu que o homem com o cachorro vinha em sua direção. Ambos encaravam o carro, e ambos tinham tantos músculos que andavam gingando.
— Está bem. — Pelle ligou a seta. — Para onde vamos?
— Você teve a oportunidade de se despedir dela?
— De quem?
— De sua esposa.
Pelle ficou surpreso. Viu que o homem e o cachorro se aproximavam. A pergunta o atingiu como um soco no estômago. Ele olhou novamente para o garoto no retrovisor. Onde é que o vira antes? Ouviu o rosnado. O cachorro se preparava para atacar. O garoto já estivera no táxi antes. Devia ser por isso. A lembrança de uma lembrança. Assim como ela.
— Não — respondeu Pelle, e balançou a cabeça.
— Então não foi doença?
— Não.
— Foi um acidente?
Pelle engoliu em seco.
— Foi. Acidente de carro.
— Ela sabia que você a amava?
Pelle abriu a boca, mas se deu conta de que não conseguiria dizer nada, então apenas assentiu.
— Lamento que ela tenha sido tomada de você, Pelle.
Ele sentiu a mão do garoto no ombro. Foi como se uma corrente de calor se irradiasse até seu peito, barriga, braços e pernas.
— Acho que é melhor irmos agora, Pelle.
Só então ele percebeu que tinha fechado os olhos e, quando os abriu novamente, viu que o homem e o cachorro já estavam ao lado do carro. Acelerou e soltou a embreagem. Ouviu o cachorro latir furiosamente atrás deles.
— Para onde vamos?
— Vamos visitar um homem que é culpado de assassinato — disse o garoto, e puxou a mochila vermelha mais para perto de si. — Mas primeiro vamos fazer uma entrega.
— Para quem?
O garoto deu um sorriso estranho e triste.
— Para alguém que eu gostaria de ter numa foto no painel do carro.
Martha estava à bancada da cozinha enchendo a garrafa térmica de café. Tentava não escutar a voz da futura sogra. Tentava ouvir os outros convidados, na sala. Mas era impossível, a voz dela era muito insistente, muito exigente.
— Anders é um garoto sensível, entende? Muito mais sensível que você. Você é forte, e é por isso que tem que assumir o comando e...
Um carro apareceu e parou na frente do portão. Um táxi. Um homem com um terno elegante saiu, e trazia uma maleta.
Foi como se o coração dela parasse. Era ele.
Ele abriu o portão e pegou o curto caminho de cascalho que levava à porta.
— Com licença. — Martha bateu com força a garrafa térmica na pia da cozinha e saiu, tentando fazer parecer que não estava se apressando.
Eram poucos metros, mas mesmo assim ela estava esbaforida quando abriu a porta, antes que ele tocasse a campainha.
— Estamos dando uma festa agora. — Martha arquejou, a mão no peito. — E você é procurado pela polícia. O que está fazendo aqui?
Sonny a fitou com aqueles malditos olhos verdes límpidos. Tinha raspado as sobrancelhas.
— Quero pedir perdão — disse baixinho, tranquilo. — E lhe dar isto. É para o Centro Ila.
— O que é? — perguntou ela, olhando para a maleta.
— É para pagar a reforma do centro. Pelo menos uma parte...
— Não! — Ela olhou para trás e baixou a voz. — Qual é o seu problema? Você acha mesmo que vou aceitar esse dinheiro sujo? Você matou pessoas. E os brincos que me deu... — Martha engoliu em seco, balançou a cabeça com força e sentiu pequenas lágrimas de ódio caírem. — Eles pertenciam... a uma mulher que você assassinou!
— Mas...
— Vá embora!
Sonny assentiu. Deu um passo para trás e desceu um degrau.
— Por que você não me entregou à polícia?
— Quem disse que não fiz isso?
— Por que não, Martha?
Ela hesitou. Ouviu o ranger de uma cadeira na sala.
— Talvez porque eu queira que você me diga por que matou aquelas pessoas.
— Faria alguma diferença, se você soubesse por quê?
— Não sei. Faria?
Ele deu de ombros.
— Se quiser me entregar, vou estar na casa do meu pai hoje à noite. Depois, vou sumir.
— Por que está me contando isso?
— Porque quero que você venha comigo. Porque eu te amo.
Ela ficou paralisada por um instante. O que é que ele tinha dito?
— Eu te amo — repetiu Sonny lentamente, como se sentisse o gosto das próprias palavras, com surpresa.
— Meu Deus — grunhiu ela, perturbada. — Você é louco!
— Vou embora.
Ele se virou para o táxi que o aguardava com o motor ligado.
— Espere! Para onde você vai?
Sonny se virou apenas um pouco e esboçou um sorriso.
— Alguém me contou de uma cidade agradável mais ao sul do continente. É um caminho longo para dirigir sozinho, mas...
Ele parecia querer dizer mais, e ela esperou. Esperou, pois queria que ele dissesse. O quê, não sabia; só sabia que se Sonny dissesse a coisa certa, a palavra certa, seria libertada. Mas era ele que tinha que fazê-lo, ele que tinha que saber o que precisava dizer.
Mas Sonny se curvou ligeiramente, virou-se e seguiu em direção ao portão.
Martha queria chamá-lo, mas o que diria? Aquilo era loucura. Devaneios tolos. Algo que não existia. Algo que não podia existir na vida real. A vida real era lá dentro, do outro lado, na casa atrás dela. Fechou a porta e se virou. E deu de cara com o rosto furioso de Anders.
— Saia da frente.
— Anders, não...
Ele a empurrou para o lado, praticamente arrancou a porta e saiu como um louco.
Martha se levantou e saiu bem a tempo de ver Anders alcançá-lo e tentar dar um soco em sua cabeça, por trás, mas Sonny devia tê-lo ouvido, pois se agachou, girou em uma espécie de pirueta e imobilizou Anders.
— Vou matar você! — gritou Anders, furioso, enquanto tentava se soltar. Mas seus braços estavam presos, e ele não conseguia se mexer.
De repente, Sonny o soltou. Anders olhou estupefato para o homem à sua frente, passivo, os braços largados ao lado do corpo. Levantou a mão para lhe dar um soco. E o atingiu. Levantou a mão para um novo soco. E o atingiu de novo. Não fez muito barulho. Apenas o som oco de juntas contra carne e osso.
— Anders! — gritou Martha. — Anders, pare!
No quarto soco, a pele do malar de Sonny se abriu. No quinto, ele caiu de joelhos.
A porta do motorista do táxi se abriu, e o taxista fez menção de sair, mas Sonny fez um gesto para impedi-lo.
— Covarde maldito! — gritou Anders. — Fique longe da minha noiva!
Sonny levantou a cabeça como que para lhe dar um melhor ângulo para bater, oferecendo a outra face. Anders chutou. A cabeça dele saltou para trás, e Sonny caiu de joelhos, os braços para os lados, como um jogador de futebol que desliza no gramado depois de fazer um gol. A testa devia ter sido atingida pela sola afiada do sapato de Anders, pois o sangue jorrava de um corte longo bem abaixo da linha do cabelo. E quando os ombros de Sonny bateram no cascalho e seu casaco se abriu, Martha viu Anders parar quando estava tomando impulso para um novo chute. Notou que ele olhou para o cinto de Sonny e viu a mesma coisa que ela. Uma pistola. Uma pistola prateada, o cano enfiado no cós da calça, que estivera lá o tempo inteiro, sem que fosse tocada.
Ela colocou a mão no ombro de Anders, e ele deu um pulo, como se tivesse acabado de acordar.
— Entre — ordenou ela. — Agora!
Ele piscou várias vezes, confuso. Obedeceu. Passou por ela, em direção à escada, onde os outros convidados já estavam reunidos.
— Para dentro! — gritou Martha para eles. — É um morador do Centro, e sou eu que vou tratar disso. Entrem agora, todos vocês!
Martha se agachou ao lado de Sonny. O sangue escorria da testa, passando pelo nariz. Ele respirava de boca aberta.
Ouviu uma voz insistente e exigente, vindo da escada:
— Martha, querida, isso é mesmo necessário? Afinal, você vai pedir demissão depois que você e Anders...
Martha fechou os olhos e contraiu os músculos do abdômen.
— Cale a boca e entre você também!
Quando abriu os olhos novamente, viu que ele sorria. Com os lábios ensanguentados, Sonny sussurrou algo tão baixo que ela precisou se abaixar para ouvir.
— Ele tem razão, Martha. O amor pode mesmo nos limpar completamente.
Então se levantou e oscilou por um instante, antes de sair cambaleante, cruzar o portão e entrar no táxi.
— Espere! — gritou Martha, e pegou a maleta caída no cascalho.
Mas o táxi já seguia pela estrada, em direção à escuridão no fim da área residencial.