O filho
Capítulo 42
Às 6h35, Beatrice Jonasen, recepcionista do escritório de advocacia Tomte & Øhre, conteve um bocejo enquanto tentava lembrar o nome do filme em que o trench coat da mulher à sua frente a fazia pensar. Algum com Audrey Hepburn. Bonequinha de luxo? Ela também usava echarpe de seda e óculos de sol que lhe davam um visual dos anos 1960. A mulher colocou uma sacola no balcão, disse que era para Jan Øhre e se foi.
Meia hora depois, o sol refletia nas janelas da fachada de tijolos vermelhos da prefeitura de Oslo, e os primeiros barcos desembarcavam no cais de Aker Brygge, onde os viajantes habituais vindos de Nesoddtangen, Son e Drøbak chegavam à terra firme e iam para seus trabalhos. Seria mais um dia de céu limpo, mas havia certa aspereza no ar, algo que dizia que esse verão tampouco duraria para sempre. Dois homens andavam lado a lado ao longo do calçadão entre os píeres, passando por restaurantes cujas cadeiras ainda se encontravam sobre as mesas, lojas de roupa que só abririam dali a algumas horas e vendedores de rua abrindo suas bolsas e se preparando para as últimas arremetidas contra os turistas da capital. O homem mais jovem vestia um elegante paletó cinza, porém amarrotado e com algumas manchas; o mais velho, um blazer xadrez, comprado em liquidação na Dressmann, e calça que só combinava em preço. Usavam óculos de sol idênticos, comprados numa loja de conveniência vinte minutos antes, assim como levavam maletas idênticas.
Os dois dobraram em uma viela vazia. Depois de cinquenta metros, desceram por uma escada de ferro estreita que levava à porta modesta do restaurante, que, a julgar pelo nome (escrito em letras discretas), devia servir frutos do mar. O mais velho puxou a porta, mas estava trancada. Bateu. Um rosto distorcido como o reflexo de um espelho de um parque de diversões apareceu do outro lado, através da vigia. Sua boca se mexeu, e as palavras soavam como se viessem de baixo da água:
— Mãos para cima, para que eu possa vê-las.
Eles assim fizeram, e a porta se abriu.
O homem era louro e atarracado. Notaram a pistola que ele apontava para os dois.
— É um prazer revê-lo — disse o mais velho, o de blazer xadrez, e levantou os óculos na cabeça.
— Entrem — falou o louro.
Eles entraram, e dois homens de terno preto logo começaram a revistá-los, enquanto o louro recostava-se, relaxado, no balcão do bengaleiro, mas sem abaixar a arma. Pegaram uma pistola do coldre de ombro do homem mais velho e a entregaram ao louro.
— Esse outro está limpo. — O outro sujeito de terno preto indicou o jovem. — Mas tem umas ataduras pelo corpo.
O louro olhou para o jovem.
— Ah, então é você o tal do Buda com a Espada? O Anjo do Inferno? Não é? — O jovem não respondeu. O louro cuspiu no chão, na frente dos seus sapatos pretos e brilhantes. — É um bom apelido, porque parece que alguém costurou uma maldita cruz na sua testa.
— Na sua também.
O louro franziu a testa.
— Como é que é, Buda?
— Não está sentindo?
O louro deu um passo para a frente e se ergueu na ponta dos pés, de modo que ficaram quase nariz com nariz.
— Calma aí, pessoal — pediu o mais velho.
— Cala a boca, vovô. — O louro puxou o paletó do mais jovem para o lado e ergueu a camisa. Passou os dedos lentamente na atadura em volta da cintura dele. — É aqui? — perguntou quando sua mão chegou à lateral do corpo.
Duas pérolas de suor apareceram na testa do mais jovem, acima dos óculos de sol. O louro cutucou a atadura. O jovem abriu a boca, mas não saiu nenhum som.
O louro mostrou os dentes.
— Ah, muito obrigado. É aqui mesmo.
Ele enfiou os dedos, espremeu a carne e puxou-a.
Um barulho rouco veio do jovem.
— Bo, ele está esperando — lembrou um deles.
— Tudo bem, tudo bem — disse o louro, sem tirar o olhar do jovem, que respirava forte.
O louro apertou com mais força. Uma lágrima solitária desceu pelas bochechas pálidas do jovem, sob os óculos de sol.
— Com os cumprimentos de Sylvester e Evgeni — sussurrou o louro. Então ele soltou a cintura do mais jovem e se virou para os outros. — Peguem as maletas deles e levem os dois para dentro.
Eles entregaram suas maletas e foram para o salão.
O mais velho diminuiu a velocidade automaticamente.
A silhueta de um homem, um homem grande, desenhou-se contra a luz verde de um aquário, onde peixes coloridos nadavam de um lado para o outro e um cristal brilhava sobre uma grande pedra branca, com longos fios de grama que se agitavam na correnteza das bolhas. No fundo havia lagostas cujas garras estavam amarradas com arame.
— Como prometido — sussurrou o mais velho —, aqui está ele.
— Mas não estou vendo o informante — disse o mais jovem.
— Confie em mim, ele virá.
— Inspetor-chefe Kefas — trovejou o grandalhão. — E Sonny Lofthus. Esperei muito tempo por isso. Venham, sentem-se.
O jovem se movimentava com menos flexibilidade do que o velho quando seguiram adiante e sentaram-se nas cadeiras em frente ao grandalhão.
Outro homem veio silenciosamente da porta vaivém da cozinha. Tinha os ombros largos e o pescoço grosso, assim como os outros três.
— Vieram sozinhos — informou ele, e se juntou ao comitê de boas-vindas, de maneira que estavam em formato de meio círculo atrás do jovem e do velho.
— Está muito claro aqui dentro? — perguntou o grandalhão para o jovem, que ainda usava os óculos escuros.
— Consigo ver o que eu quero — disse o jovem, sem emoção.
— Boa resposta, queria eu ter seus olhos jovens e saudáveis. — O grandalhão apontou para os próprios olhos. — Sabia que a nossa capacidade de receber a luz é reduzida em trinta por cento antes mesmo dos 50 anos? Dessa forma, podemos dizer que a vida é uma caminhada rumo à escuridão, e não à luz. Não é nenhum trocadilho no que diz respeito à sua esposa, inspetor Kefas, mas é por isso que precisamos, o quanto antes, aprender a transitar pela vida sem enxergar. Precisamos adquirir a habilidade das toupeiras de utilizar outros sentidos para ver quais obstáculos e ameaças temos pela frente, não é?
Ele estendeu os braços. Era a mesma coisa que olhar para uma máquina escavadeira com duas caçambas.
— Ou, é claro, comprar uma toupeira que possa ver por nós. O problema com as toupeiras é que elas passam a maior parte do tempo debaixo da terra, então são fáceis de perder. Assim como eu perdi a minha, o meu informante. Não sei o que aconteceu com ele. Pelo que eu soube, você também está atrás dele, não é?
O mais jovem deu de ombros.
— Deixe-me adivinhar. Kefas disse que você conheceria o informante se viesse com ele, não é?
O mais velho pigarreou:
— Sonny veio voluntariamente. Quer fazer um trato. Ele acha que o pai já está vingado e que agora cada um pode cuidar da própria vida. Para provar que está falando sério, ele devolverá o dinheiro e a droga que roubou. E, em troca, vocês o deixam em paz. Podem trazer as maletas, por favor?
O grandalhão acenou para o louro, que colocou as duas maletas sobre a mesa. O mais velho ia abrir uma delas, mas o louro empurrou sua mão.
— Fique à vontade. — O mais velho levantou os braços. — Só queria mostrar que o Sr. Lofthus trouxe um terço da droga e do dinheiro. O resto vocês receberão quando nos prometerem trégua e sairmos vivos daqui.
Kari desligou o carro. Olhou para o sinal de neon do antigo estaleiro, que continha letras vermelhas formando A-k-e-r B-r-y-g-g-e. Pessoas desembarcavam da barca que acabara de chegar.
— Tem certeza de que é seguro o comissário de polícia se encontrar com criminosos sem reforços?
— Como um amigo meu costumava dizer — Pontius Parr checou sua pistola, antes de recolocá-la no coldre no ombro —, quem não arrisca, não petisca.
— Isso parece algo que Simon diria — comentou Kari, e olhou para o relógio na torre da Prefeitura: 7h10.
— Correto — disse Parr, sorrindo. — E quer saber, Adel? Tenho o pressentimento de que este dia nos trará muitos louros. Quero que você me acompanhe à coletiva de imprensa mais tarde. O comissário e a jovem inspetora. — Ele estalou os lábios como que para sentir o sabor das palavras que acabara de dizer. — É, acho que eles vão gostar.
Ele abriu a porta do passageiro e saiu.
Kari quase tinha que correr para poder acompanhá-lo enquanto caminhavam pelo calçadão.
— E então? O que acham do acordo? Vocês recebem de volta o que lhes foi tomado, e Lofthus recebe passe livre para desaparecer do país.
— E você recebe uma pequena comissão pela mediação de paz, não é? — O grandalhão sorriu.
— Exatamente.
— Hum. — O grandalhão olhou para Simon como se estivesse procurando por algo. — Bo, abra as maletas.
O louro deu um passo à frente e tentou abrir a primeira.
— Está trancada, chefe.
— Um — disse o mais jovem, com uma voz suave, quase sussurrante —, nove, nove, nove.
O louro girou os cilindros de metal. Levantou a tampa. Virou a maleta para o chefe.
— Olha só. — O grandalhão ergueu uma das sacolas brancas. — Um terço. Onde está o resto?
— Em um lugar secreto — disse o mais velho.
— Claro. E o código da maleta do dinheiro, qual é?
— O mesmo — respondeu o mais jovem.
— 1999. É o ano que seu pai se foi, não é?
O mais jovem não respondeu.
— Então, tudo certo? — perguntou o mais velho, com um sorriso forçado, e bateu com as palmas das mãos. — Podemos ir agora?
— Achei que pudéssemos comer juntos — disse o grandalhão. — Vocês gostam de lagosta, não gostam?
Nenhuma reação.
Ele suspirou pesado.
— Para falar a verdade, eu também não. Mas quer saber? Como mesmo assim. Sabem por quê? Porque é o que se espera de alguém na minha posição. — Seu paletó se afastou de seu imenso tórax quando ele esticou os braços. — Lagostas, caviar, champanhe. Ferraris sem peças de reposição, ex-modelos que exigem acordos de divórcio. A solidão de um iate, o calor em Seychelles. Fazemos muitas coisas que não queremos, não é? Mas tudo isso é necessário para manter a motivação em alta. Não a minha, mas a dos meus homens. Eles gostam de ver esses símbolos de sucesso. De tudo que conquistei. Daquilo que eles próprios podem conquistar se trabalharem direito, não é? — O grandalhão colocou um cigarro, que parecia incrivelmente pequeno em relação à cabeça, entre os lábios carnudos. — Mas esses símbolos de status também são importantes para mostrar meu poder a possíveis rivais e concorrentes. Com violência e brutalidade, é a mesma coisa. Não é algo que me dê prazer, mas às vezes também é necessário para manter a motivação em alta. Para motivar os devedores a me pagarem o que devem. Motivá-los a não trabalharem contra mim... — Ele acendeu o cigarro com um isqueiro em formato de pistola. — Por exemplo, havia uma pessoa que modificava armas para mim. Ele se aposentou. Eu até aceito que alguém prefira consertar motos a fazer armas. O que eu não aceito é que ele dê uma Uzi para quem já matou muitos dos que trabalham para mim.
O grandalhão bateu levemente no vidro do aquário com o dedo.
Os olhares do jovem e do velho seguiram seu dedo. O mais jovem deu um pulo na cadeira. O mais velho apenas olhou.
A pedra branca com longos fios de grama que se agitavam na correnteza. Não era uma pedra. E não era um cristal que brilhava na pedra: era um dente de ouro.
— Alguns podem até achar que seja um exagero decapitar alguém, mas às vezes é preciso utilizar alguns meios extremos para incentivar a lealdade. Tenho certeza de que concorda comigo, inspetor.
— Como é? — indagou o mais velho.
O grandalhão inclinou a cabeça de lado para analisá-lo.
— Problemas de audição, inspetor?
O mais velho olhou do aquário de volta ao grandalhão.
— Temo que seja a velhice. Então se você pudesse falar um pouquinho mais alto, seria melhor.
O Gêmeo riu, surpreso.
— Mais alto? — Ele deu um trago no cigarro e olhou para o louro. — Vocês checaram se eles estão usando grampo?
— Sim, chefe. Tanto eles como o restaurante.
— Então você está ficando surdo, Kefas? Como é que vai ser agora, com você e sua mulher, agora que ela... como é mesmo que dizem? O cego vai conduzir o surdo?
Ele olhou ao redor com as sobrancelhas levantadas, e os quatro homens começaram imediatamente a rir.
— Eles riem porque têm medo de mim — comentou o grandalhão para o jovem. — Você não tem medo, garoto?
O jovem não respondeu.
O mais velho olhou para o relógio.
Kari olhou para o relógio: 7h14. Parr dissera que tinham sido avisados para serem pontuais.
— É aqui — indicou ele, e apontou para o nome na fachada.
Ele foi em direção à porta do restaurante e segurou-a para que Kari entrasse.
Estava escuro e silencioso no vestíbulo, mas ela ouviu uma voz mais para o interior do local.
Parr tirou a pistola do coldre e sinalizou para Kari que fizesse o mesmo. Ela sabia que corriam histórias sobre sua ação com a espingarda em Enerhaugen e, por isso, esclarecera para o comissário que, apesar disso, ainda era novata no que diz respeito a ações com armas de fogo. Mas explicara que Simon insistira que ela — e somente ela — deveria acompanhá-lo, e que ele também dissera que, em nove de cada dez ações, era suficiente mostrar o distintivo da polícia. E que em 99 de cada cem casos era suficiente mostrar o distintivo e a arma juntos. Mesmo assim, o coração de Kari batia descompassado quando entraram no restaurante.
A voz caiu em silêncio quando eles surgiram no salão.
— Polícia! — disse Parr, e apontou a pistola para os homens sentados à única mesa ocupada do local.
Kari tinha dado dois passos para o lado e mantinha a mira no maior deles. Por um momento, tudo ficou em silêncio, com exceção da voz de Johnny Cash cantando “Give my Love to Rose” no pequeno alto-falante preso na parede, entre o buffet e a cabeça empalhada de um touro de chifres longos. Tratava-se de um restaurante de carnes que também servia café da manhã. Os dois homens à mesa, ambos de terno cinza-claro, olharam surpresos para eles. Kari percebeu que, afinal, não eram os únicos clientes naquele ambiente iluminado; havia também um casal de idosos à mesa em frente à janela, com vista para o cais, que aparentava estar sofrendo de um infarto simultâneo. Tinham vindo ao lugar errado, pensou Kari. Este não podia ser o restaurante ao qual Simon queria que eles fossem. Mas logo depois o mais baixo dos dois homens limpou a boca com o guardanapo e disse:
— Obrigado por vir pessoalmente, comissário Parr. Garanto que não estamos armados nem temos más intenções.
— Quem são vocês? — trovejou Parr.
— Meu nome é Jan Øhre, sou advogado e represento o senhor Iver Iversen.
Øhre estendeu a mão na direção do homem ao seu lado, o mais alto dos dois, e Kari viu imediatamente a semelhança de Iversen com o filho.
— O que estão fazendo aqui? — perguntou Parr.
— A mesma coisa que o senhor, presumo.
— É mesmo? Vim porque me prometeram servir criminosos para o café da manhã.
— Uma promessa que pretendemos cumprir.
* * *
— Bem — disse o grandalhão —, você deveria estar com medo.
Ele acenou para o louro, que puxou do cinto uma faca estreita, com a lâmina longa, deu um passo à frente, colocou o braço em volta da testa do jovem e pressionou a faca em sua garganta.
— Você pensava mesmo que eu me importaria com essa mixaria que você roubou, Lofthus? Por mim, o resto pode ficar lá, onde quer que esteja. Prometi para Bo que ele teria a oportunidade de cortar você em pedacinhos, e o dinheiro e a droga que não receberei, considero um investimento bom e barato. Um investimento em motivação, não é? Obviamente, há várias maneiras de matar, mas a maneira menos dolorosa será se você me contar o que fez com Sylvester, para que possamos lhe dar um velório cristão. E então, o que me diz?
O jovem engoliu em seco, mas não respondeu.
O grandalhão deu um soco na mesa, fazendo os copos pularem.
— Você também ouve mal?
— Acho que sim — disse o louro, cujo rosto estava bem ao lado da orelha do jovem, debaixo do antebraço que colocara em volta da sua testa. — Acho que o Buda está usando tampão de ouvido.
Os outros riram.
O grandalhão balançou a cabeça, desalentado, enquanto colocava a senha da outra maleta.
— Fique à vontade, Bo. Pode cortá-lo todo.
Quando o grandalhão abriu a maleta, soou um som metálico, mas os homens estavam todos atentos à faca de Bo e não perceberam o pequeno pino de metal que caiu de dentro da maleta e saltou pelo chão de pedra.
— Sua mãezinha, tão pequena e esperta, tem razão sobre muitas coisas, mas está errada no que diz respeito a você — falou Simon. — Ela nunca deveria ter deixado o filho do diabo mamar em seus seios.
— Que mer... — disse o grandalhão.
Os homens do seu bando se viraram. Na maleta, ao lado de uma pistola e de uma Uzi, havia um objeto cor de azeitona que parecia o manete do guidão de uma bicicleta.
O grandalhão olhou para cima novamente, ainda a tempo de ver o mais velho abaixar os óculos de sol da testa.
* * *
— É verdade que eu combinei com o inspetor-chefe Kefas que eu e meu cliente nos encontraríamos com vocês aqui — disse Jan Øhre após ter mostrado para Pontius Parr um documento comprovando ser advogado. — Ele não falou nada para vocês?
— Não — respondeu Parr.
Kari podia ver confusão e raiva no rosto dele.
Øhre trocou olhares com seu cliente.
— Quer dizer que vocês tampouco sabem do acordo?
— Que acordo?
— Acordo de pena reduzida.
Parr balançou a cabeça.
— Tudo que Kefas me contou foi que me serviriam um par de criminosos de bandeja. Do que se trata isso?
Øhre abriu a boca para responder, mas Iver Iversen inclinou-se e sussurrou algo em seu ouvido. Øhre assentiu, e Iversen fechou os olhos. Kari olhou para ele. Parecia um homem acabado. Exausto, resignado.
Øhre pigarreou.
— O inspetor Kefas disse que tem algumas... hmm... provas contra meu cliente e sua falecida esposa. Trata-se de uma série de transações imobiliárias que fizeram com uma pessoa chamada Levi Thou. Talvez mais conhecido pelo seu apelido, o Gêmeo.
Thou, pensou Kari. Não era um nome comum, mas ela o ouvira nos últimos dias. Alguém que cumprimentara. Alguém na sede da polícia. Não devia ser nada importante.
— Kefas também afirma ter provas quanto a um homicídio encomendado, segundo ele, por Agnete Iversen. Kefas disse que, em consideração ao filho de Iversen, deixaria de apresentar as provas deste último caso e, no que se trata das transações imobiliárias, meu cliente teria a pena reduzida se confessasse e testemunhasse contra Thou, codinome Gêmeo, em um tribunal.
Pontius Parr tirou os óculos retangulares e limpou-os com o lenço. Kari ficou surpresa com os olhos dele, azuis e cheios de vida.
— Parece razoável.
— Muito bem. — Øhre então abriu a maleta que estava na cadeira ao seu lado, tirou um envelope de dentro e empurrou-o sobre a mesa, na direção de Parr.
— Aqui estão todos os detalhes das transações que foram feitas para lavar dinheiro para Levi Thou. Iversen também está disposto a testemunhar contra Fredrik Ansgar, que trabalhava no Departamento de Fraudes e se encarregava de que as transações não fossem investigadas.
Parr pegou o envelope. Apalpou-o.
— Tem algo duro aqui dentro — disse ele.
— É um cartão de memória. Contém um arquivo de áudio que Kefas enviou de um telefone ao meu cliente. Ele pediu que também o entregássemos a vocês.
— Vocês sabem o que é?
Øhre trocou olhares com Iversen novamente. Iversen pigarreou:
— É uma gravação. Kefas disse que vocês saberiam de quem é.
— Trouxe um laptop, caso queiram escutar imediatamente — disse Øhre.
A maleta aberta. As armas. A granada cor de azeitona.
O inspetor Simon Kefas conseguiu fechar os olhos e tapar os ouvidos a tempo. O clarão foi como uma língua de fogo no rosto, e o estrondo, como um soco na barriga.
Então voltou a abrir os olhos, inclinou-se rapidamente, apanhou a pistola de dentro da maleta e se virou. O louro estava petrificado, como se tivesse acabado de olhar para a Medusa, ainda com o braço envolvendo a cabeça de Sonny e a faca na mão. E agora Simon via que Sonny tinha razão. O cara tinha mesmo uma cruz na testa. A mira da pistola. Simon disparou e viu o buraco que a bala fez sob a franja loura. Enquanto ele caía, Sonny apanhou a Uzi. Simon explicara que eles teriam no máximo dois segundos antes que a paralisia temporária causada pela granada passasse. Tinham treinado exatamente isso no quarto do hotel Bismarck: pegar as armas e disparar. É claro que não podiam prever todos os detalhes dos acontecimentos, e pouco antes de o Gêmeo abrir a maleta e ativar a granada, Simon pensara que tudo iria por água abaixo. Mas, quando viu Sonny puxar o gatilho e dar uma pirueta com um pé só, soube que o Gêmeo não voltaria para casa feliz depois daquele dia de trabalho. As balas voavam da arma gaga, que nunca conseguia passar da primeira sílaba. Dois dos homens já haviam caído, e o terceiro só teve tempo de colocar a mão no bolso, antes que um jato de balas fizesse uma linha pontilhada em seu peito. Ele se manteve em pé por um momento, até que os joelhos receberam o recado de que estava morto. Simon já havia se virado em direção ao Gêmeo, e olhou espantado para a cadeira vazia. Como é que um homem tão grande conseguia se movimentar tão...
Viu-o na ponta do aquário, logo ao lado da porta para a cozinha.
Simon mirou e apertou o gatilho três vezes, em rápida sucessão. Viu que uma bala passou de raspão no paletó dele, mas logo depois o vidro do aquário quebrou. Por um momento, parecia que a água permaneceria em sua forma cúbica, fosse por costume ou por alguma força desconhecida, antes de desabar na direção de Simon como uma parede verde. Ele tentou pular para o lado, mas foi lento demais. Pisou em uma lagosta crocante, sentiu os joelhos cederem e caiu deitado na maré. Quando olhou para cima novamente, não viu mais o Gêmeo, apenas a porta da cozinha balançando.
— Você está bem? — perguntou Sonny, oferecendo a mão para ajudá-lo a se levantar.
— Nunca estive melhor — gemeu Simon, empurrando a mão de Sonny. — Mas, se o Gêmeo escapar agora, ele vai desaparecer para sempre.
Simon correu até a porta da cozinha, empurrou-a com o pé, e entrou segurando a pistola na frente do corpo. O cheiro rançoso de uma cozinha comercial. Seu olhar passou rapidamente pelas bancadas e fogões de metal fosco, pelas fileiras de panelas, conchas e espátulas penduradas no teto baixo, obstruindo sua visão. Simon agachou-se para procurar sombras ou algum movimento.
— No chão — avisou Sonny.
Simon olhou para baixo. Manchas vermelhas em azulejos azuis, meio cinzentos. Ele tinha visto bem, realmente atingira o Gêmeo.
Ouviu uma porta se fechar ao longe.
— Venha comigo.
As manchas de sangue os conduziram para fora da cozinha, através de um corredor escuro, onde Simon arrancou os óculos de sol, e dali para uma escada e por outro corredor que terminava em uma porta de metal. Exatamente o tipo de porta que faria o barulho que eles tinham acabado de ouvir. Mesmo assim, Simon abriu todas as portas laterais que estavam no caminho, sempre olhando para dentro. Nove de cada dez homens que fugiam de dois homens e uma Uzi escolheriam a saída mais próxima e óbvia, mas o Gêmeo era o décimo. Sempre frio, sempre racional e calculista. O tipo de cara que sobrevive a um naufrágio. Ele podia ter aberto e fechado aquela porta só para despistá-los.
— Vamos perdê-lo — disse Sonny.
— Calma. — Simon abriu a última porta lateral.
Nada. Agora as manchas de sangue eram inequívocas. O Gêmeo estava atrás da porta de metal.
— Pronto? — perguntou Simon.
Sonny assentiu e apontou a Uzi para a porta.
Simon pressionou as costas contra a parede ao lado da porta e abriu a porta de metal.
Viu Sonny ser atingido pela luz do sol.
Passou pela porta. Sentiu o vento no rosto.
— Merda...
Olhavam para uma rua vazia e banhada pelo sol. A Ruseløkkveien, que fazia interseção com a Munkedamsveien e subia em direção ao parque do Palácio Real. Nenhum carro. Nenhuma pessoa.
Nenhum Gêmeo.