O filho

Jo Nesbo · Capítulo 43 de 44

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O filho

Capítulo 43

 

— O sangue para aqui. — Simon apontou para o asfalto.

O Gêmeo devia ter percebido que estava deixando um rastro de sangue e impediu que continuasse pingando no chão. O tipo de gente que sobrevive a um naufrágio.

Ele fitou a deserta Ruseløkkveien. Deixou que seu olhar passasse pela Catedral de São Paulo e pela pequena ponte, onde o caminho fazia uma curva e desaparecia de vista. Olhou para a esquerda e para a direita da Munkedamsveien. Nada.

Sonny bateu a Uzi na coxa, frustrado.

— Que infer...!

— Se ele tivesse seguido pela rua, poderíamos vê-lo — disse Simon. — Deve ter entrado em algum lugar.

— Mas onde?

— Não sei.

— Talvez ele tivesse um carro estacionado aqui.

— Talvez. Ei! — Simon apontou para o chão, entre os sapatos de Sonny. — Aqui tem outra mancha de sangue. Talvez ele...

Sonny balançou a cabeça e puxou o paletó. O lado da camisa limpa que Simon lhe dera estava vermelho.

Simon xingou mentalmente.

— Aquele maldito conseguiu reabrir a ferida?

Sonny deu de ombros.

Simon olhou novamente para cima. Não havia nenhum estacionamento. Nenhuma loja aberta. Apenas portões de quintais fechados. Para onde é que ele poderia ter ido? Tente ver as coisas por outra perspectiva, pensou. Compense os pontos cegos. Moveu o olhar. Suas pupilas reagiram a algo. O brilho incandescente dos raios de sol foi refletido em um pequeno pedaço de vidro que se moveu. Ou de metal. Cobre.

— Venha — chamou Sonny —, vamos tentar achá-lo no restaurante outra vez. Talvez ele tenha...

— Não — negou Simon, em voz baixa.

Maçaneta de cobre. Molas rígidas que ofereciam resistência e faziam com que a porta se fechasse devagar. Sempre aberta.

— Estou vendo ele.

— Mesmo?

— A porta daquela igreja lá em cima, está vendo?

Sonny olhou.

— Não.

— Ainda está se fechando. Ele entrou na igreja. Venha comigo.

Simon correu. Colocou um pé na frente do outro e correu. Era um movimento simples, um movimento que fizera desde criança. Correra mais e mais, um pouco mais rápido a cada ano que passava. E depois, cada vez mais devagar. Nem os joelhos nem o fôlego cooperavam como antes. Conseguiu acompanhar Sonny pelos primeiros vinte metros, depois o garoto tomou distância. Já estava pelo menos cinquenta metros à sua frente quando Simon o viu pular os três degraus, abrir a porta pesada e desaparecer lá dentro.

Simon reduziu o ritmo. Esperou o som. O estalo quase infantil que tiros de pistola fazem quando escutamos através de uma parede. Não ouviu nada.

Subiu as escadas. Abriu a porta pesada e entrou.

O cheiro. O silêncio. O peso da fé de tantas pessoas pensantes. As fileiras de bancos estavam vazias, mas Simon percebeu as velas acesas mais à frente, no altar, e lembrou que a missa matinal começaria em meia hora. As velas cintilavam sobre o Salvador na cruz. Então ouviu a voz baixa, como se entoasse um cântico, e virou-se para a esquerda.

Sonny estava sentado no compartimento aberto do confessionário, com a Uzi apontada para a tábua de madeira perfurada do outro compartimento, cuja cortina cobria quase toda a entrada. Havia apenas uma pequena fresta, mas através dela Simon podia ver a mão de alguém. E no chão de pedra, debaixo da cortina, uma poça de sangue crescia lentamente.

Simon se aproximou na ponta dos pés e ouviu o sussurro de Sonny:

— Todos os deuses da terra e do céu têm misericórdia de você e perdoam seus pecados. Você vai morrer, mas a alma do pecador penitente será levada ao paraíso. Amém.

Silêncio.

Simon o viu colocar o dedo no gatilho.

Simon guardou a pistola no coldre. Ela não faria nada, nem um ato sequer. O veredito do garoto seria pronunciado e executado. Seu próprio julgamento viria depois.

— É verdade, matamos seu pai. — A voz do Gêmeo parecia debilitada atrás da cortina. — Tivemos que matar. O informante nos disse que seu pai estava planejando matá-lo. Está ouvindo?

Sonny não respondeu. Simon prendeu a respiração.

— Ele ia matar o informante naquela noite, nas ruínas medievais de Maridalen — contou o Gêmeo. — O informante nos disse que, de qualquer maneira, a polícia estava em seu encalço e que era apenas uma questão de tempo para que descobrissem quem era. Então queria que parecesse suicídio. Queria que parecesse que seu pai era o informante, para que assim a polícia parasse de procurar. Eu concordei. Tinha que proteger meu informante, não é?

Simon viu Sonny umedecer os lábios.

— E quem era ele?

— Não sei. Eu juro. Nos comunicávamos somente por e-mail.

— Então você nunca vai saber. — Sonny levantou a Uzi novamente e colocou o dedo no gatilho. — Está pronto?

— Espere! Você não precisa me matar, Sonny, vou sangrar até a morte aqui. Tudo o que eu peço é que eu tenha a chance de me despedir das pessoas que amo antes de morrer. Eu deixei seu pai escrever um bilhete dizendo que amava você e sua mãe. Não pode dar a mesma clemência para este pecador?

Simon viu o peito de Sonny subir e descer. Os músculos ondulavam ao longo da mandíbula.

— Não — disse Simon. — Não permita isso, Sonny. Ele...

Sonny se virou para ele. Havia uma brandura em seu olhar. A brandura de Helene. Ele já havia abaixado a Uzi.

— Simon, ele está apenas pedindo para...

Simon viu um movimento pela fresta da cortina, uma mão que se moveu. Uma pistola dourada, em formato de isqueiro. Naquele momento, Simon já sabia que era tarde demais. Tarde demais para alertar Sonny e para ele reagir, tarde demais para puxar a própria arma, tarde demais para dar a Else o que ela merecia. Estava sobre a grade de proteção da ponte do rio Aker, e a correnteza passava violentamente embaixo.

Mergulhou.

Mergulhou para fora da vida, para dentro da maravilhosa roleta de cassino. Não exigia intelecto ou coragem, apenas a imprudência do desgraçado que está disposto a apostar um futuro que não valoriza muito, porque sabe que tem menos a perder do que outras pessoas. Mergulhou no compartimento entre Sonny e a tábua de madeira perfurada. Ouviu o estrondo. Sentiu a mordida, a picada paralisante de frio ou de calor que rasgou seu corpo em dois, cortando as conexões.

Então veio o outro som. A Uzi. A cabeça de Simon estava no chão do compartimento, e ele sentiu lascas da tábua de madeira choverem no rosto. Ouviu o Gêmeo gritar; levantou a cabeça e o viu cambalear para fora do confessionário e desabar entre os bancos da igreja, viu as balas picarem as costas do seu terno como um enxame de abelhas iradas. Os cartuchos das balas da Uzi — ainda escaldantes — caíram sobre Simon, queimando-lhe a testa. O Gêmeo derrubou bancos em ambos os lados, caiu de joelhos, mas ainda se movia. Recusava-se a morrer. Isso não era normal. Quando Simon, muitos anos antes, descobrira que a mãe de um dos maiores procurados da polícia trabalhava lá como faxineira, isso foi a primeira coisa que ela disse: que Levi não era normal. Que ela, como mãe, obviamente o amava, mas que ele a aterrorizara desde o momento em que nascera, e não só pelo tamanho.

Ela lhe contou sobre quando seu pequeno grande filho foi ao trabalho com ela, porque não havia ninguém que pudesse cuidar dele em casa, e que ele fixou o olhar em seu reflexo em um balde de água no carrinho de limpeza e disse que tinha alguém lá dentro igual a ele. Sissel disse que eles podiam brincar juntos e foi esvaziar cestos de papel. Quando ela voltou, Levi tinha metido a cabeça no balde e batia as pernas no ar desesperadamente. Seus ombros ficaram presos dentro do balde, e ela teve que usar toda a força para conseguir puxá-lo. Ele estava encharcado e com o rosto todo azul. Mas ao invés de chorar, como a maioria das crianças teria feito, começou a rir. E disse que o Gêmeo tinha sido travesso e tentado matá-lo. Desde então, ela às vezes se perguntava de onde ele vinha, e disse que só se sentiu livre no dia em que ele foi embora de casa.

O Gêmeo.

Dois furos apareceram na dobra de gordura entre seu pescoço largo e a parte de trás de sua enorme cabeça, e os movimentos pararam abruptamente.

Lógico, pensou Simon. Um filho único, perfeitamente normal.

E sabia que o grandalhão estava morto antes de ele cair para a frente e sua testa atingir o chão de pedra com uma pancada suave.

Simon fechou os olhos.

— Simon, onde...

— No peito.

Simon tossiu. Pela consistência, era sangue.

— Vou chamar uma ambulância.

Simon abriu os olhos. Olhou para baixo. Viu a mancha de cor vinho se espalhar na camisa.

— Não vou sobreviver, deixe estar.

— Vai, sim.

— Escute. — Simon pôs a mão sobre o celular que Sonny pegara. — Eu conheço ferimentos a bala bem até demais, ok?

Sonny colocou a mão no peito de Simon.

— Não adianta — disse ele. — Agora você tem que fugir. Está livre, já fez o que tinha que fazer.

— Não, não fiz.

— Fuja por mim. — Simon agarrou a mão do garoto. Parecia tão morna e familiar, como se fosse sua própria. — Seu trabalho está terminado.

— Fique deitado, quieto.

— Eu disse que o informante estaria aqui hoje, e ele estava. E agora ele está morto. Fuja.

— A ambulância já está a caminho.

— Por que você não escuta...

— Se você parasse de falar...

— Era eu, Sonny. — Simon olhou nos olhos claros e suaves do garoto. — Eu era o informante.

Simon esperava que o choque fizesse com que as pupilas do garoto se dilatassem, que o preto deslocasse a íris verde e reluzente. Mas isso não aconteceu. E ele entendeu por quê.

— Você já sabia. — Simon tentou engolir, mas teve que tossir novamente. — Você sabia que era eu. Como?

Sonny limpou o sangue da boca de Simon com a manga da camisa.

— Arild Franck.

— Franck?

— Depois que eu cortei o dedo dele, ele começou a falar.

— Falar? Mas ele não sabia quem eu era. Ninguém sabia que Ab e eu éramos os informantes. Ninguém.

— Não, mas Franck contou o que sabia. Que o informante tinha um codinome.

— Ele disse isso?

— Disse. Era Mergulhador.

— Ah, o Mergulhador. Esse era o nome que eu usava quando entrava em contato com o Gêmeo. Havia uma pessoa que me chamava assim naquele tempo. Só uma. Então como é que você sabia que...?

Sonny buscou uma coisa no bolso da jaqueta. Mostrou-a para Simon. Era uma fotografia. Tinha manchas de sangue coagulado e mostrava dois homens e uma mulher, todos jovens e sorridentes, na frente de um montinho de pedras.

— Quando eu era pequeno, folheava nosso álbum de fotos muitas vezes, e lá achei esta foto tirada nas montanhas. Perguntei para minha mãe quem ele era, o fotógrafo misterioso com o nome emocionante, o Mergulhador. E ela me contou. Disse que era Simon, o terceiro de um grupo de melhores amigos. Disse que o chamava de Mergulhador porque ele mergulhava onde ninguém mais se atrevia.

— É, dois mais dois...

— Franck não sabia que havia dois informantes. Mas o que ele contou fez as peças se encaixarem. Meu pai ia expor você, então você o matou antes.

Simon piscou, mas a escuridão continuou a rastejar para dentro das bordas do seu campo de visão. No entanto, ele nunca vira com mais clareza.

— Então você planejou uma armadilha para me matar. Foi por isso que entrou em contato comigo. Queria ter certeza de que eu o encontraria, e estava só esperando por mim.

— Sim — assentiu Sonny —, até que eu descobri o diário do meu pai, e me dei conta de que ele era cúmplice. Que vocês dois eram traidores.

— Então tudo desabou e você abandonou o projeto. Não havia mais nenhuma razão para matar.

Sonny assentiu.

— Então o que fez você mudar de ideia?

Sonny olhou para ele por bastante tempo.

— Algo que você disse. Que a tarefa do filho não é ser como o pai, mas...

— ... ser melhor que ele. — Simon ouviu sirenes à distância. Sentiu a mão de Sonny em sua testa. — Seja melhor que seu pai, Sonny.

— Simon?

— Sim?

— Você está morrendo. Tem alguma coisa que deseja?

— Desejo que ela receba minha visão.

— E perdão, você quer?

Simon fechou os olhos novamente, com força, e balançou a cabeça.

— Não posso... não mereço.

— Ninguém merece. Errar é humano, mas perdoar é divino.

— Mas não sou ninguém para você. Sou apenas um estranho que lhe tirou quem você amava.

— Você é alguém. É o Mergulhador, aquele que sempre esteve com eles, mas não estava na foto. — O garoto levantou o blazer de Simon e colocou a foto no bolso interno. — Leve com você na sua jornada. São seus amigos.

Simon fechou os olhos. Pensou: tudo bem. Não faz mal.

As palavras do Filho ecoaram no espaço vazio da igreja:

— Todos os deuses da terra e do céu têm misericórdia de você e perdoam...

Simon olhou para uma gota de sangue que acabara de cair de dentro do paletó do garoto, no chão da igreja. Moveu o dedo até a superfície vermelha e dourada. Viu que a gota parecia prender-se a seu dedo indicador, levou o dedo aos lábios e fechou os olhos. Olhou para a cachoeira branca. Água. Um abraço gélido. Silêncio, solitude. E paz. E dessa vez ele não voltaria à superfície.

 

No silêncio que seguiu a segunda vez que a gravação foi reproduzida, Kari ouviu os pássaros que cantavam tranquilos do lado de fora da janela entreaberta do restaurante especializado em carne.

O comissário de polícia olhava para a tela do computador, ainda sem acreditar.

— Tudo certo? — perguntou Øhre.

— Sim — disse Parr.

O advogado Jan Øhre retirou o cartão de memória e deu-o para Parr.

— Você reconheceu a voz?

— Sim — respondeu Parr. — É Arild Franck. É quem, na prática, comanda a Prisão de Segurança Máxima Staten. Adel, você pode checar se essa conta nas Ilhas Cayman existe mesmo? Se o que ele diz for verdade, estamos diante de um escândalo enorme.

— Sinto muito — disse Øhre.

— Imagine. Desconfio disso há muitos anos — confessou Parr. — Recentemente, um policial corajoso de Drammen nos informou que tudo indica que Lofthus obteve saída temporária para que pudesse ser utilizado como bode expiatório no homicídio da Sra. Morsand. Até agora, mantivemos essa informação em sigilo até estarmos seguros de que tínhamos provas sólidas contra Franck, mas com essa gravação temos munição mais do que suficiente. Só mais uma coisa antes de irmos...

— Sim?

— O inspetor Kefas disse por que queria que vocês se encontrassem conosco? Por que não com ele mesmo?

Iversen trocou olhares com Øhre, depois deu de ombros.

— Ele disse que estava ocupado com outras coisas. E que vocês eram os únicos em quem confiava cem por cento.

— Entendo. — Parr se levantou.

— Tem mais uma coisa... — Øhre pegou seu telefone. — Meu cliente deu meu nome para o inspetor Kefas, que entrou em contato comigo para perguntar se eu poderia organizar o transporte e o pagamento de uma cirurgia ocular que ele agendou na Clínica Howell, em Baltimore, amanhã. Eu concordei. E acabei de receber uma mensagem da minha recepcionista informando que, há uma hora, uma mulher chegou ao nosso escritório e entregou uma mochila vermelha. A mochila contém uma quantia considerável de dinheiro. Só queria saber se isso é algo que a polícia gostaria de investigar.

Kari ouviu que o canto dos pássaros havia se silenciado e fora substituído por sirenes distantes. Várias sirenes. Carros de polícia, no plural.

Parr pigarreou.

— Não vejo qual seria a relevância dessa informação para a polícia. E, visto que essa pessoa pode ser considerada seu cliente, vocês têm, até onde sei, uma relação de confidencialidade, que não poderia ser quebrada nem que eu pedisse.

— Muito bem, então temos o mesmo entendimento quanto a isso. — Øhre fechou a pasta.

Kari sentiu o telefone vibrar no bolso. Levantou-se rapidamente, afastou-se da mesa e o pegou. Ouviu a bola de gude, que veio junto com o celular, cair no chão com uma pancada suave.

— Adel.

Ela fixou o olhar na bola de gude, que parecia hesitar, sem saber se deveria se mover ou ficar parada. Então, após certa indecisão, cambaleou lentamente, ainda um pouco indecisa, para o sul.

— Obrigada — disse ela, e guardou o celular de volta no bolso. Virou-se para Parr, que estava se levantando. — Há quatro mortos em um restaurante de frutos do mar chamado Nautilus.

O comissário de polícia piscou quatro vezes atrás das lentes dos óculos, e Kari se perguntou se isso era algum tipo de ação compulsiva, piscar uma vez para cada morto que aparecia no seu distrito policial.

— Onde fica isso?

— Aqui.

— Aqui?

— Aqui em Aker Brygge. A pouco mais de cem metros.

Seu olhar encontrou a bola de gude novamente.

— Vamos.

Ela queria correr para pegá-la.

— O que está esperando, Adel? Vamos logo!

A bola de gude adquirira um rumo firme e uma velocidade maior. Se Kari não se decidisse logo, a perderia.

— Ok — concordou ela, e seguiu Parr apressadamente.

As sirenes estavam mais altas agora, o barulho crescendo e diminuindo, cortando o ar como uma foice.

Eles saíram correndo para a luz branca do sol, para uma manhã cheia de promessas, para a cidade azul. Continuaram a correr, e o rush matinal de pessoas se dividia à sua frente. Rostos resplandeciam dentro e fora do campo de visão de Kari. E alguma parte de seu cérebro reagiu à presença de um deles. Óculos escuros e terno cinza. Parr corria direto para a viela, onde viram vários policiais de uniforme entrarem correndo. Kari parou, virou-se e viu o homem de terno cinza subir na barca para Nesoddtangen, que estava prestes a partir. Então se virou novamente e continuou a correr.

Martha baixara a capota do conversível e estava com a cabeça encostada no banco. Olhou para uma gaivota que pairava no ar entre o céu azul e o fiorde azul, equilibrando as forças, as próprias e as externas, enquanto procurava comida. Martha respirava fundo, calmamente, mas seu coração batia forte. Pois a barca estava prestes a atracar. Não eram muitos os que viajavam de Oslo para Nesoddtangen de manhã cedo, então não seria difícil vê-lo. Se ele tivesse conseguido. Se. Ela murmurava a prece que havia repetido desde que saíra do escritório da Tomte & Øhre, uma hora e meia antes. Ele não aparecera na última barca, que chegara havia meia hora, mas ela havia dito a si mesma que isso não era mesmo de se esperar. Mas se ele não estivesse nessa... E aí? Ela não tinha nenhum plano B. Nem queria ter.

Os passageiros apareceram. Não havia muitos. As pessoas estavam indo para a cidade, não voltando. Ela tirou os óculos Ray Ban Wayfarer. Sentiu o coração bater forte quando viu um terno cinza. Mas não era ele. Seu coração ficou pequeno.

Mas depois apareceu outro terno cinza.

Ele andava meio enviesado, como um barco em que a água entrou e o fez emborcar.

Sentiu o coração crescer no peito e o choro subir à garganta. Talvez fosse só por causa da luz da manhã contra o terno claro, mas era como se ele estivesse brilhando.

— Obrigada — sussurrou ela. — Obrigada, obrigada.

Ela se olhou no retrovisor, enxugou as lágrimas e ajustou o lenço na cabeça. Então acenou. E ele acenou de volta.

E enquanto ele caminhava até o carro, ocorreu-lhe que era bom demais para ser verdade. Que ela estava vendo uma miragem, um fantasma, que ele estava morto, baleado, que ele agora mesmo estava pendurado em um farol, crucificado, e que era sua alma que ela estava vendo.

Ele entrou com dificuldade no carro e tirou os óculos de sol. Estava pálido. E ela notou, pelos olhos vermelhos, que ele também tinha chorado. Então ele a abraçou e a puxou para si. Primeiro pensou que fosse ela mesma, mas depois percebeu que era ele quem tremia.

— Como...

— Bem — respondeu ele, sem soltá-la. — Tudo correu bem.

Eles ficaram sentados assim, em silêncio, agarrados como duas pessoas cujos únicos pontos de apoio são elas mesmas. Ela queria fazer perguntas, mas não agora. Teriam bastante tempo para isso mais tarde.

— E agora? — sussurrou ela.

— Agora... — disse ele, soltando-a cuidadosamente e ajeitando-se no assento com um gemido baixo. — Agora é que tudo começa. Que mala grande.

Ele apontou com o queixo para o banco de trás.

— Trouxe só o necessário. — Ela sorriu, empurrou o CD no player e entregou-lhe o celular. — Vou dirigir o primeiro pedaço. Você acompanha pelo mapa?

Ele olhou para o display do celular enquanto a voz robótica entoava: “Seu... trajeto...”

— Mil e trinta quilômetros — disse ele. — Tempo estimado: doze horas e 51 minutos.