O filho

Jo Nesbo · Capítulo 41 de 44

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O filho

Capítulo 41

 

Simon se sentou na cadeira, de frente para o garoto. Viu-o segurar o isqueiro sob a colher.

— Como você me encontrou?

— Seu telefone — respondeu Simon, sem tirar os olhos da chama. — E os sons de fundo quando você me ligou. Prostitutas trabalhando. Sabe quem eu sou?

— Simon Kefas. Reconheço das fotos. — O pó começou a se dissolver. Pequenas bolhas subiram à superfície. — Não vou resistir à prisão. Já ia mesmo me entregar mais tarde.

— É? Por quê? Sua cruzada já terminou?

— Não existe nenhuma cruzada — disse o garoto, pousando a colher com cuidado. Simon sabia que era para esperar que a heroína esfriasse. — Só o que existe é uma fé cega, aquela que nos ensinam quando somos crianças. Até o dia em que descobrimos que não é assim que o mundo funciona. Que somos lixo. Que todos são lixo.

Simon colocou a pistola na palma da mão e olhou para ela.

— Não vou levar você para a prisão, Sonny. Vou levar você para o Gêmeo. Você, a droga e o dinheiro que roubou dele.

O garoto o encarou enquanto abria a embalagem de uma seringa.

— Tudo bem. Tanto faz. Ele quer me matar?

— Sim.

— Quer jogar fora o lixo. Só me deixe primeiro injetar essa dose. — Ele colocou um pedaço de algodão na colher, enfiou a ponta da agulha e puxou o êmbolo. — Não conheço esse pó. Não sei se é puro — disse ele, explicando o uso do algodão.

E olhou para Simon para ver se ele entendia a ironia.

— Essa droga é do depósito de Kalle Farrisen — falou Simon. — Você estava com ela esse tempo inteiro e não se sentiu tentado a experimentar?

O garoto deu uma risada curta e áspera.

— Eu me expressei mal — Simon se corrigiu. — Esqueça a parte da tentação. O fato é que você resistiu. Como conseguiu?

O garoto deu de ombros.

— Eu sei como vícios funcionam — observou Simon. — A lista de coisas que nos fazem parar não é longa. Ou encontramos Jesus, ou o amor, ou filhos ou o Ceifador. No meu caso, foi o amor. E no seu?

O garoto não respondeu.

— Seu pai?

O garoto apenas examinou Simon como se tivesse descoberto alguma coisa.

Simon balançou a cabeça.

— Vocês são tão parecidos. Agora vejo isso ainda mais nitidamente do que nas fotos.

— Todos sempre disseram que não éramos nem um pouco parecidos.

— Seu pai, não. Você e sua mãe. Você tem os olhos dela. Ela se levantava assim que o sol nascia, antes de todos nós, tomava café e corria para o trabalho. Às vezes eu acordava cedo só para vê-la ali sentada, desarrumada, cansada, mas com aqueles olhos incrivelmente lindos.

O garoto estava completamente imóvel agora.

Simon virou a pistola de um lado para o outro, como se procurasse alguma coisa.

— Éramos quatro pessoas pobres dividindo um apartamento em Oslo, para ficar mais barato. Três garotos que frequentavam a academia de polícia, e sua mãe. Os três garotos se chamavam de troica, e eram melhores amigos. Seu pai, eu e Pontius Parr. Sua mãe estava procurando apartamento no jornal, achou nosso anúncio e ficou com o quarto livre. Acho que nos apaixonamos por ela assim que a vimos, todos os três. — Simon sorriu. — Ficávamos atrás dela, tentando conquistá-la em segredo. E éramos três caras bonitos, acho que ela não sabia bem quem escolher.

— Eu não sabia disso — disse o garoto. — Mas sei que ela escolheu mal.

— Verdade. Ela me escolheu.

Simon tirou os olhos da pistola e encontrou o olhar de Sonny.

— Sua mãe foi o amor da minha vida, Sonny. Eu quase afundei por completo quando ela me deixou para ficar com seu pai. Principalmente porque logo depois descobri que ela estava grávida. Os dois compraram uma casa em Berg. Ela estava grávida, ele era estudante e os dois não tinham onde cair mortos. Mas os juros eram baixos, e naquele tempo os bancos praticamente jogavam dinheiro em você.

Sonny não tinha piscado uma só vez. Simon pigarreou.

— Foi mais ou menos nessa época que comecei a apostar. Eu já devia dinheiro, e comecei a apostar em cavalos. Muito dinheiro. Era quase libertador, estar à beira do abismo e saber que, não importando o que acontecesse, eu sairia de onde me encontrava. Para cima ou para baixo, quase não importava. Naquele tempo, seu pai e eu tínhamos nos afastado. Acho que eu não suportava ver a felicidade dele. Pontius e ele tinham ficado bastante próximos, e a troica estava dissolvida. Inventei uma desculpa quando seu pai perguntou se eu queria ser seu padrinho, mas entrei de fininho na igreja quando você foi batizado. Você foi o único bebê que não chorou. Apenas olhou para cima e sorriu tranquilo para o capelão, que era novo e estava um pouco nervoso, como se fosse você que o estivesse batizando, e não o contrário. Então saí da igreja e apostei treze mil num cavalo que se chamava Sonny.

— E...?

— E você me deve treze mil.

O garoto sorriu.

— Por que você está me contando tudo isso?

— Porque às vezes eu pensava se tudo poderia ter sido diferente. Se eu poderia ter feito escolhas diferentes. Ou Ab. Você. Einstein uma vez disse que insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes. Mas será que é possível que exista outra coisa, uma inspiração divina que nos leve a fazer escolhas diferentes na próxima vez?

O garoto amarrou a tira de borracha no braço.

— Você fala como uma pessoa religiosa, Simon Kefas.

— Não sei, só fico me perguntando. O que eu sei é que seu pai tinha boas intenções, por mais severamente que você o julgue. Sei que ele queria uma vida melhor, não para ele, mas para vocês três. O amor foi sua ruína. E agora você também está se julgando da mesma forma porque acha que são iguais. Mas você não é seu pai. Só porque ele falhou moralmente, não significa que você também vá falhar. A responsabilidade dos filhos não é ser exatamente como os pais, mas ser melhor que eles.

O garoto mordeu a ponta da tira de borracha.

— Pode ser, mas que importa isso agora? — perguntou ele com o canto da boca, e puxou a cabeça de modo que a tira se apertou e as veias do antebraço apareceram.

Segurou a seringa com a mão, com o polegar sobre o êmbolo e a agulha descansando na parte interna do dedo médio. Como um jogador chinês de tênis de mesa, pensou Simon. Segurava a seringa com a mão direita, apesar de ser canhoto. Mas Simon sabia que viciados aprendiam a injetar com ambas as mãos.

— Importa porque agora é a sua vez de escolher, Sonny. Quer injetar a agulha? Ou quer me ajudar a pegar o Gêmeo? E o verdadeiro informante?

Uma gota brilhou na ponta da agulha. Da rua vinham risadas e o barulho do tráfego; do quarto vizinho, uma conversa pós-sexo. A cidade com seu ritmo tranquilo de verão.

— Quero arranjar um encontro em que tanto o Gêmeo quanto o informante estejam presentes. Mas só posso fazer isso se você estiver vivo, porque você vai ser a isca.

O garoto não parecia ouvir; estava se preparando para ficar chapado, a cabeça inclinada, praticamente todo curvado em volta da seringa. Simon se preparou para o que estava por vir. E se surpreendeu quando ouviu a voz dele:

— Quem é o informante?

— Você vai saber se vier. Antes, não. Sei pelo que você está passando, Sonny. Mas um dia sempre chegamos a um ponto na vida em que não podemos mais adiar as coisas, não podemos ser fracos por mais um dia e dizer que a partir de amanhã começaremos uma vida nova.

Sonny balançou a cabeça.

— Não vai haver uma vida nova.

Simon olhou para a seringa e se deu conta de que era uma overdose.

— Você quer mesmo morrer sem saber, Sonny?

O garoto ergueu o olhar para Simon.

— Veja aonde cheguei por querer saber a verdade, Kefas.

— É aqui? — perguntou Åsmund Bjørnstad, inclinando-se sobre o volante, e leu a placa na entrada: — Hotel Bismarck.

— É — confirmou Kari, e tirou o cinto de segurança.

— Tem certeza de que ele está aqui?

— Simon queria saber quais hotéis em Kvadraturen tinham hóspedes que pagavam em dinheiro. Imaginei que ele devia saber de alguma coisa, então liguei para os seis hotéis e enviei fotos de Sonny Lofthus para eles.

— E teve sorte com o Bismarck?

— O recepcionista confirmou que o homem da foto está hospedado no quarto 216. Disse que um policial já havia estado aqui e obtido acesso ao quarto. Que o hotel já havia feito um acordo com esse policial e que eles esperam que respeitemos esse acordo.

— Simon Kefas?

— Temo que sim.

— Ok, vamos dar início à ação. — Åsmund Bjørnstad pegou o rádio. — Delta, responda.

O alto-falante do carro estalou.

— Aqui fala Delta. Câmbio.

— Podem entrar. O quarto é o 216.

— Positivo. Vamos entrar. Câmbio e desligo.

— Quais são as instruções? — perguntou Kari, sentindo a blusa apertada.

— Priorizar a própria segurança e atirar para matar, caso seja necessário. Aonde você vai?

— Preciso de um pouco de ar.

Kari atravessou a rua. Na frente dela, policiais de preto corriam com metralhadoras MP5. Alguns entraram pela recepção, outros, pelo quintal, onde as escadas dos fundos e a saída de incêndio estavam localizadas.

Ela passou pela recepção, e estava no meio das escadas quando ouviu a porta ser arrombada e o estrondo oco das granadas de atordoamento. Seguiu pelo corredor e ouviu um rádio estalar.

— A área está revistada e segura.

Ela abriu a porta do quarto.

Quatro policiais: um no banheiro, três no quarto. Todas as janelas e as portas do guarda-roupa estavam abertas.

Ninguém mais. Nenhum pertence deixado para trás. O hóspede tinha feito checkout.

Markus estava agachado procurando sapos na grama quando viu o Filho sair da casa amarela e ir em sua direção. O sol da tarde, sobre o teto da casa, estava tão baixo que, quando o Filho parou na frente de Markus, parecia brilhar na sua cabeça. O Filho sorriu, e Markus ficou feliz em ver que não parecia mais tão triste como pela manhã.

— Adeus, Markus.

— Você já vai?

— Sim, tenho que ir.

— Por que vocês sempre têm que ir embora? — As palavras simplesmente escaparam.

O Filho se agachou e colocou a mão no ombro de Markus.

— Eu me lembro do seu pai, Markus.

— Sério? — perguntou Markus, que parecia não acreditar.

— Sim. E, independentemente do que sua mãe diga ou pense, ele sempre foi gentil comigo. Uma vez ele afugentou um alce macho enorme que tinha se perdido e andava por aqui.

— Foi mesmo?

— Sozinho.

Markus viu algo estranho. Atrás da cabeça do Filho, nas janelas abertas do quarto, as cortinas brancas e finas tremulavam com força, embora não ventasse nem um pouco.

O Filho se levantou, passou a mão no cabelo de Markus e começou a andar pelo caminho. Balançava uma maleta, assobiava. Algo chamou a atenção de Markus, que se virou para a casa amarela novamente. As cortinas estavam em chamas. E agora ele via que as outras janelas também estavam abertas. Todas.

Um alce macho, pensou Markus. Meu pai afugentou um alce macho.

A casa fez um barulho, como se estivesse sugando ar. O som adquiriu tons estrondosos, e em seguida vieram sons de canto, que logo ficaram mais fortes e se tornaram uma música triunfante e ameaçadora. Agora elas pulavam e giravam por trás das cortinas pretas, as bailarinas amarelas, que já festejavam a perdição, o Dia do Juízo Final.

 

Simon colocou o carro em ponto morto e deixou o motor ocioso.

Mais à frente, diante da casa dele, havia um carro. Um Ford Mondeo novo, azul. Com vidros fumê. Igual ao que ele vira perto da entrada da ala de oftalmologia do hospital. Claro que podia ser uma coincidência, mas a polícia de Oslo comprara oito Ford Mondeos no ano anterior. Com os vidros traseiros fumê, para que não se pudesse ver a luz azul, que ficava atrás do encosto para pescoço.

Simon pegou o celular no banco de passageiro.

A chamada foi atendida antes do segundo toque.

— O que você quer?

— Oi, Pontius. Não é frustrante que meu telefone esteja em constante movimento?

— Pare com essa idiotice agora, Simon, e eu prometo que não haverá consequências.

— Nenhuma?

— Se você parar imediatamente, não. Nenhuma. Estamos de acordo?

— Você sempre quis fazer acordos, Pontius. Pois bem, tenho um acordo para você: amanhã de manhã, num restaurante.

— Ah, é? O que é que vai ser servido?

— Um par de criminosos, cuja captura será marcante para sua carreira.

— Pode me dar mais detalhes?

— Não, mas posso lhe dar um horário e um endereço, caso você me prometa que levará somente uma pessoa. Minha colega Kari Adel.

Fez-se silêncio por um instante.

— Você está planejando uma cilada, Simon?

— Por acaso eu já fiz isso? Lembre-se de que você tem muito a ganhar. Ou melhor, tem muito a perder, caso deixe que eles escapem.

— Tenho sua palavra de que não é nenhum tipo de armadilha?

— Tem. Você acha que eu deixaria que alguma coisa acontecesse a Kari?

Pausa.

— Não. Você nunca foi assim, Simon.

— Talvez seja por isso que nunca me tornei comissário.

— Muito engraçado. Onde e quando?

— Sete e quinze. Aker Brygge, número 86. Até lá.

Simon abriu a janela do carro e jogou o telefone fora. Viu que ele passou por cima da cerca do vizinho e desapareceu no jardim. Ouviu as sirenes distantes do Corpo de Bombeiros.

Passou a marcha e acelerou.

Dirigiu para oeste. Em Smestad, pegou a saída para Holmenkollåsen. Subiu em zigue-zague até o mirante, onde sempre ia para organizar os pensamentos.

O Honda já havia sido retirado havia muito tempo e o trabalho dos peritos tinha terminado. Afinal, não era mais uma cena de crime.

Pelo menos não de homicídio.

Simon estacionou em um lugar com vista para o fiorde e para o pôr do sol.

Conforme escurecia, Oslo começava a se parecer cada vez mais com uma fogueira que se apagava, com brasas vermelhas e amarelas a arder. Simon puxou a gola do casaco e inclinou o banco para trás. Precisava tentar dormir. Amanhã seria um grande dia.

O maior de todos.

Se a sorte estivesse ao lado deles.

 

— Experimente esta — disse Martha, oferecendo uma jaqueta para o jovem rapaz.

Era relativamente novo, ela o vira ali apenas uma vez. Talvez tivesse apenas 20 anos, e com sorte chegaria aos 25. Pelo menos era isso que os outros funcionários do Centro Ila achavam.

— Ficou ótima! — Ela sorriu. — Talvez fique boa com essa aqui.

Ela lhe deu uma calça jeans quase nova. Percebendo que havia alguém às suas costas, se virou. Ele devia ter entrado pelo refeitório, e talvez já estivesse ali à porta havia algum tempo, olhando para ela. O paletó e a atadura na cabeça eram bastante evidentes, mas era como se Martha nem visse isso.

Só via seu olhar intenso e faminto.

Era tudo que ela não queria. E tudo que queria.

 

Lars Gilberg virou-se em seu saco de dormir novinho em folha. O vendedor da loja de artigos esportivos olhara descrente para a nota de mil antes de aceitá-la e lhe entregar aquela maravilha de produto. Ele piscou.

— Você voltou. Meu Deus, virou hinduísta? — Sua voz ecoou forte sob a arcada da ponte.

— Talvez. — O garoto, que estava sentado ao lado dele, trêmulo, sorriu. — Preciso de um lugar para dormir hoje.

— Fique à vontade. Apesar de parecer que você tem dinheiro para dormir em um hotel.

— Em um hotel vão me encontrar.

— Aqui tem espaço suficiente e ninguém vigiando.

— Pode me emprestar alguns jornais? Mas só se já tiver terminado de ler.

Gilberg riu.

— Você pode ficar com o meu bom e velho saco de dormir. Eu uso como colchão agora. — Ele tirou o saco sujo e esburacado de baixo de si. — Quer saber? Pode dormir no novo. Hoje à noite eu durmo no velho. É como se tivesse uma parte de mim nele.

— Tem certeza?

— Tenho. E o velho está com saudade de mim.

— Muito obrigado, Lars.

Gilberg apenas sorriu como resposta.

E quando se deitou, sentiu um calor gostoso que não vinha do saco de dormir. Vinha de dentro de si.

 

Foi como se os corredores dessem um suspiro coletivo quando todas as celas da Staten foram trancadas simultaneamente à noite.

Johannes Halden se sentou na cama. Não importava como estivesse. Sentado, deitado ou em pé, as dores eram as mesmas. E ele sabia que não iriam embora, pelo contrário, ficariam cada vez piores a cada dia. Agora a doença também era visível. Além de câncer no pulmão, ele tinha um tumor na virilha, do tamanho de uma bola de golfe.

Arild Franck mantivera sua promessa. Como sanção por ter ajudado o garoto a fugir, Johannes seria devorado pelo câncer sem supervisão médica nem analgésicos. Talvez Arild o enviasse para a enfermaria quando achasse que já havia sofrido demais e poderia morrer a qualquer momento, somente para evitar a estatística de um detento morto na cela.

Tudo estava em silêncio. Em silêncio e vigiado por câmeras. Antes os agentes andavam pelos corredores depois de as celas serem todas trancadas, e era bastante tranquilizante ouvir seus passos. Em Ullersmo, havia um agente velho e religioso, chamado Håvelsmo, que costumava cantar enquanto andava. Salmos antigos com uma voz grave de barítono. Era a melhor canção de ninar que um prisioneiro veterano poderia ter, e até os mais psicóticos paravam de gritar quando ouviam Håvelsmo passar pelos corredores. Johannes Halden queria que Håvelsmo estivesse ali agora. Queria que o garoto também estivesse ali. Mas não podia reclamar. O garoto lhe dera o que Johannes queria. Perdão. E uma canção de ninar, para completar.

Ele levantou a seringa contra a luz.

A canção de ninar.

O garoto lhe contara que a recebera dentro da Bíblia, do capelão da prisão, o falecido Per Vollan — que sua alma atormentada descansasse em paz —, e que era a heroína mais pura que se podia conseguir em Oslo. Depois, ele lhe mostrara o que fazer quando chegasse a hora.

Johannes encostou a agulha no braço, sobre uma veia grossa e azul. Respirou fundo, tremendo.

Então isso era tudo, era a vida. Uma vida que poderia ter sido tão diferente se ele não tivesse dito sim para levar as duas sacolas grandes do porto de Songkhla. Que estranho. Será que diria sim hoje em dia? Não. Mas o homem que ele era à época disse. Vez após outra. Então não poderia ter sido diferente.

Pressionou a agulha no braço e estremeceu de leve quando viu a pele se render à entrada dela. Depois, empurrou o êmbolo. Uniformemente e com calma. Tinha que injetar tudo. Isso era importante.

A primeira coisa que aconteceu foi que as dores desapareceram. Como num passe de mágica.

Depois aconteceu a segunda coisa.

Ele finalmente entendeu aquilo de que os usuários sempre falavam. A viagem. A queda livre. O abraço. Será que era mesmo tão simples que, durante todo aquele tempo, tudo isso estivesse a uma mera injeção de distância? Que ela estava a uma injeção de distância? Sim, pois ela estava ali agora, o vestido de seda, o cabelo preto, brilhoso, os olhos amendoados. A voz meiga que sussurrava as difíceis palavras inglesas com suaves lábios de framboesa. Johannes Halden fechou os olhos e desabou na cama.

Seu beijo.

Era tudo o que ele sempre quisera.

 

Markus olhou para a televisão.

Falavam de todos que tinham sido mortos nas últimas semanas. Estava na TV e no rádio o tempo inteiro. Sua mãe dissera que ele não deveria ver muito aquele tipo de coisa, que lhe daria pesadelos. Mas ele não tinha mais pesadelos. E agora ele estava na TV, e Markus o reconhecera. Estava sentado a uma mesa repleta de microfones, respondendo perguntas, e Markus o reconhecera pelos óculos retangulares. Não sabia o que significava aquele evento nem qual era o contexto. Só sabia que, agora que a casa tinha se incendiado, aquele homem não precisava mais vir para ligar a calefação na casa amarela.