O filho

Jo Nesbo · Capítulo 19 de 44

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O filho

Capítulo 19

 

— Quer dizer que você está na Homicídios? — perguntou Fredrik, e sorriu por trás dos óculos de sol.

O nome da marca na armação era tão pequeno que só alguém com o olhar de lince de Simon enxergaria, mas também era preciso alguém com um maior conhecimento de marcas para entender o quão exclusivos eram os óculos. Ele presumiu que fossem caros, considerando a camisa, a gravata, a manicure e o corte de cabelo de Fredrik. Mas terno cinza-claro com sapatos marrons? Talvez estivesse na moda.

— Sim — respondeu Simon.

Ele estreitou os olhos. Sentara-se de costas para o vento e o sol, mas a luz refletia na superfície de vidro do edifício novo, do outro lado do canal. A ideia de se encontrarem foi de Simon, mas foi Fredrik que sugeriu o restaurante japonês em Tjuvholmen. “Tjuvholmen” significa “ilha dos ladrões”, e Simon se perguntou se o nome era relacionado às empresas de investimentos que havia lá, entre elas a de Fredrik.

— E você agora investe o dinheiro de quem tem tanto que já nem se importa mais com o que acontece com ele?

Fredrik riu.

— Algo assim.

O garçom trouxera um pratinho de algo que parecia uma água-viva. Simon achava que talvez até fosse uma água-viva. Isso devia ser normal em Tjuvholmen. Sushi comum era apenas a pizza da classe média-alta.

— Você às vezes sente falta da Fraudes? — perguntou Simon, e tomou um gole de água.

Água que diziam ser dos glaciares de Voss, engarrafada, enviada aos Estados Unidos e reimportada para a Noruega. Livre de todos os minerais de que o corpo precisa; minerais que você encontra na água limpa, gostosa e gratuita das torneiras. Aquela ali custava sessenta coroas a garrafa. Simon desistira de tentar entender o mecanismo do mercado, com sua psicologia e seus jogos de poder. Mas Fredrik, não. Ele entendia. Jogava. Sempre jogara, desconfiava Simon. Era como Kari; tinha formação boa demais, era ambicioso demais, e sabia até bem demais o que era melhor para si, de forma que não conseguiram mantê-lo na polícia.

— Sinto falta dos colegas de trabalho e da emoção — mentiu Fredrik —, mas não da lentidão e da burocracia. Também foi por isso que você saiu?

Ele levou o copo à boca tão depressa que Simon não pôde observar seu rosto para ver se ele realmente não sabia o motivo de sua saída. Afinal, a confusão sobre a lavagem de dinheiro começara pouco depois de Fredrik anunciar sua migração para o que muitos da polícia consideravam o lado negro. Fredrik até trabalhara no caso. Mas podia ser que não tivesse mais contatos na polícia.

— Algo assim — murmurou Simon.

— Homicídios é mais direto ao ponto — comentou Fredrik, e olhou com discrição fingida para o relógio.

— Por falar em direto ao ponto — disse Simon —, marquei este encontro com você porque preciso de um empréstimo. É para minha esposa; ela precisa fazer uma cirurgia nos olhos. Você se lembra da Else?

Fredrik enfiou a água-viva na boca e fez um som que podia significar tanto “sim” quanto “não”.

Simon esperou que ele terminasse de mastigar.

— Desculpe, Simon, nós investimos o dinheiro dos nossos clientes apenas em ações públicas e papéis do governo. Não fazemos empréstimos ao mercado privado.

— Isso eu já sei. Se estou perguntando, é porque não tenho condições de ir pelas vias habituais.

Fredrik limpou a boca cuidadosamente e colocou o guardanapo sobre o prato.

— Eu realmente sinto muito não poder ajudá-lo. Cirurgia nos olhos? Parece sério.

O garçom veio, apanhou o prato de Fredrik e, percebendo que Simon nem tinha tocado no seu, o olhou intrigado. Simon fez sinal de que podia levá-lo.

— Não gostou? — perguntou Fredrik, e pediu a conta com algumas palavras que talvez fossem japonesas.

— Não sei, mas geralmente sou cético quanto a animais invertebrados. São muito escorregadios, se é que você me entende. Não gosto de jogar comida fora, mas parece que a comida ainda estava viva, então decidi prolongar um pouco sua existência.

Fredrik riu de forma exageradamente cordial. Devia estar aliviado por a segunda parte da conversa ter terminado. Apanhou a conta assim que veio.

— Deixe que eu... — começou Simon, mas Fredrik já havia posto seu cartão de crédito na máquina que o garçom trouxera e começava a digitar a senha.

— Foi ótimo ver você. Uma pena que não pude ajudar — disse Fredrik depois que o garçom foi embora, e Simon pôde ver que o homem já começava a levantar.

— Você leu sobre o homicídio da Sra. Iversen ontem?

— Li, sim. Meu Deus. — Fredrik balançou a cabeça, tirou os óculos de sol e esfregou os olhos. — Iver Iversen é nosso cliente. Que tragédia.

— Pois é. Ele já era seu cliente quando você trabalhava na Fraudes.

— Meu cliente?

— Desculpe. Quis dizer, suspeito. É uma pena que todos aqueles com nível superior tenham deixado o departamento. Com vocês na equipe, talvez tivéssemos conseguido levar o caso adiante. O setor imobiliário precisava de uma limpeza. Lembra que concordávamos quanto a isso?

Fredrik colocou novamente os óculos.

— Com você as apostas são sempre grandes, não é, Simon?

Simon assentiu. Ou seja, ele sabia.

— Por falar em apostas, eu era apenas um policial mediano sem formação em economia, mas sempre que olhava as contas de Iversen me perguntava como é que a empresa não ia à falência. Eles faziam muitos negócios ruins com a compra e venda de propriedades. Perdiam muito dinheiro, e com frequência.

— Sim, mas eram bons na administração das propriedades.

— Graças à possibilidade de usar o déficit de um ano como dedução de imposto no ano seguinte. Assim a empresa praticamente não pagou impostos sobre os lucros de suas atividades nos últimos anos.

— Nossa, parece que você está de volta à Fraudes.

— Minha senha ainda dá acesso aos arquivos antigos. Ontem à noite os li no meu computador.

— Bem, isso não é ilegal. São apenas as regras dos impostos.

— É. — Simon apoiou o queixo na mão e olhou para o céu azul. — Isso você sabe muito bem. Foi você quem verificou as atividades de Iversen naquele tempo. Talvez Agnete Iversen tenha sido morta por um cobrador de impostos amargurado.

— O quê?

Simon deu um riso rápido e se levantou.

— Nada. Apenas coisa de velho bisbilhoteiro. Obrigado pelo almoço.

— Simon?

— Sim?

— Não quero lhe dar muitas esperanças, mas vou ver se consigo aquele empréstimo.

— Eu agradeço. — Ele abotoou a jaqueta. — Tchau.

Nem precisava se virar. Simon sabia que Fredrik o olhava de forma pensativa enquanto se afastava.

 

Lars Gilberg largou o jornal que tinha achado na lixeira do 7-Eleven e que seria seu travesseiro à noite. Escreveram página após página sobre o homicídio daquela senhora rica da área nobre da cidade. Se fosse um pobre coitado que tivesse tido uma overdose por droga envenenada ali no rio ou na rua Skipper, não falariam praticamente nada. Um cara jovem da Polícia Federal, um inspetor chamado Bjørnstad, dizia que concentrariam todos os recursos na investigação. Ah, é mesmo? Que tal prender primeiro esses assassinos em série que misturam drogas com arsênico e veneno para ratos? Gilberg espiou para além de seu mundo de sombras. A pessoa que se aproximava tinha a cabeça coberta por um capuz e parecia um daqueles que praticavam corrida ao longo do rio. Mas quando o viu, ele reduziu o passo, e Gilberg presumiu que fosse um policial ou um engomadinho à procura de anfetamina. Só quando estava embaixo da ponte é que Lars percebeu que era o garoto. Estava suado e ofegante.

Gilberg se levantou ansioso, quase feliz.

— E aí, garoto. Eu cuidei das suas coisas, viu? Ainda estão lá. — Ele apontou com o queixo na direção dos arbustos.

— Obrigado — o garoto se agachou e mediu a pulsação —, mas eu queria saber se você podia me fazer outro favor.

— Claro. Qualquer coisa.

— Obrigado. Quem é que vende Superboy por aqui?

Lars Gilberg fechou os olhos. Que inferno.

— Não, cara, por favor. Superboy, não.

— Por que não?

— Porque eu conheço três que morreram por causa dessa merda só nesse verão.

— Quem tem a parada mais pura?

— Não sei, eu não uso isso. Mas é simples, só tem uma turma em toda a cidade que vende Superboy. Eles trabalham sempre em duplas. Um deles recebe o dinheiro e o outro entrega. Estão sempre embaixo da ponte Nybrua.

— Como eles são?

— Varia, mas geralmente o homem do dinheiro é um sujeito atarracado, de cabelo curto e a cara cheia de espinha. Ele é o chefe, mas mesmo assim gosta de ficar na rua para receber o dinheiro. Um filho da mãe desconfiado. Não confia nem nos próprios vendedores.

— Atarracado e cheio de espinha?

— Sim, mas é mais fácil reconhecer o cara pelas pálpebras. É como se fossem meio frouxas, sabe? Parece que ele está sempre com sono.

— Está falando do Kalle?

— Você sabe quem é?

O garoto assentiu lentamente.

— Também sabe por que as pálpebras dele são assim?

— Você sabe que horas eles estão lá? — perguntou o garoto.

— Das quatro da tarde às nove, mais ou menos. Eu sei disso porque a maioria dos clientes deles começa a passar por aqui às três e meia. E os últimos passam pouco antes das nove, correndo desesperados, morrendo de medo de não dar tempo.

O garoto colocou o capuz novamente.

— Obrigado, companheiro.

— Lars. Meu nome é Lars.

— Obrigado, Lars. Você precisa de alguma coisa? De dinheiro?

Lars sempre precisava de dinheiro. Balançou a cabeça.

— E você, como se chama?

O garoto deu de ombros como quem diz “como é que você quer que eu me chame?”. Depois, continuou sua corrida.

 

Martha estava na recepção quando ele subiu as escadas e passou direto.

— Stig! — gritou ela.

Ele demorou demais a parar, mas podia ser por causa dos reflexos prejudicados. Ou talvez seu nome não fosse Stig. Estava suado; parecia que tinha corrido. Ela só torcia para que não estivesse correndo de encrenca.

— Eu tenho uma coisa para você — disse ela. — Espere!

Apanhou a caixa, avisou a Maria que voltaria em poucos minutos e foi rapidamente até ele. Tocou de leve seu ombro.

— Venha, vamos até o seu quarto.

Quando entraram, depararam-se com uma visão inesperada. As cortinas estavam abertas, iluminando todo o cômodo. Johnny não se encontrava, e o ar estava fresco. As janelas estavam abertas até onde a tranca permitia. O município os obrigara a colocá-las em todos os quartos após vários episódios nos quais pedestres quase foram atingidos por objetos grandes e pesados arremessados das janelas do centro. Rádios, caixas de som, um ou outro televisor. Tratava-se, principalmente, de objetos eletrônicos, mas foi material orgânico que deu origem à ordem. Devido à fobia social que é comum entre os moradores do centro, era comum que alguns deles tivessem certa relutância quanto ao uso do banheiro coletivo. Por isso alguns tinham permissão para ter um balde no quarto, que costumavam esvaziar com regularidade — mas, infelizmente, nem sempre. Um deles colocava o balde no parapeito da janela para aliviar o mau cheiro. Um belo dia, um dos funcionários do centro abriu a porta e a corrente de vento derrubou o balde. Isso ocorreu durante a reforma da nova pâtisserie, e quis o destino que um dos pintores se encontrasse em uma escada bem embaixo da janela. Ele não sofreu nenhuma lesão física permanente, mas Martha (que foi a primeira a chegar ao local e ajudou o pobre pintor em estado de choque) sabia que o incidente deixaria cicatrizes psicológicas.

— Sente-se — pediu ela, apontando para a cadeira — e tire os tênis.

Ele obedeceu. Ela abriu a caixa.

— Eu não queria que os outros vissem — continuou a dizer, e apanhou um par de sapatos de couro macio. — Eram do meu pai. Vocês calçam mais ou menos o mesmo tamanho. — Ela lhe deu os sapatos.

Ele ficou tão estupefato que ela enrubesceu.

— Não podemos deixar que você vá para uma entrevista de emprego com tênis de corrida — ela apressou-se a justificar.

Martha olhou em volta enquanto ele calçava os sapatos. Não tinha certeza, mas achava que sentia o cheiro de detergente. Até onde sabia, as faxineiras não tinham vindo hoje. Ela foi até a fotografia presa na parede com uma tachinha.

— Quem é esse?

— Meu pai — respondeu ele.

— Sério? Policial?

— Sério. Pronto, veja.

Ela se virou. Ele se levantara e agora pressionava alternadamente o pé esquerdo e o direito no chão.

— E então?

— Coube perfeitamente. — Ele sorriu. — Muito obrigado, Martha.

Ela levou um susto quando ele falou seu nome. Não porque não estivesse acostumada a ouvi-lo, pois os outros moradores diziam seu primeiro nome o tempo inteiro. O sobrenome, endereço e nome dos familiares é que eram confidenciais. Afinal, os funcionários eram testemunhas diárias de tráfico. Na verdade, foi a forma como ele falou. Como se fosse um toque. Cuidadoso e inocente, mas um toque verdadeiro. Ela se deu conta de que era um pouco inapropriado estar sozinha com ele no quarto, mas partira do princípio de que Johnny também estaria. Não fazia ideia de onde o outro morador do quarto estava. As únicas coisas que o tiravam da cama eram droga, banheiro e comida. Nessa ordem. Mas mesmo assim ela permaneceu no quarto.

— Que tipo de trabalho você está procurando? — Ela percebeu que estava levemente ofegante.

— Alguma coisa no sistema judicial — respondeu ele seriamente. Havia algo doce em sua seriedade. Como se fosse precoce.

— Ah, mais ou menos como seu pai?

— Não, policiais trabalham para o Poder Executivo. Eu quero o Judiciário.

Ela sorriu. Ele era tão diferente. Talvez fosse por isso que pensasse tanto nele. Porque era muito diferente de todos os outros que ela conhecia. Totalmente diferente de Anders, por exemplo. Anders parecia ter um autocontrole de aço, já Stig parecia muito aberto e vulnerável. Anders era muito desconfiado e repelia as pessoas que não conhecia; Stig era amigável e gentil, quase ingênuo.

— Tenho que ir — disse ela.

— Está bem.

Ele se apoiou na parede. Tinha baixado o zíper do moletom. Sua camiseta estava coberta de suor e colada ao corpo.

No momento em que ele ia dizer algo, o rádio dela começou a dar estalidos.

Martha o levou à orelha.

Era visita para ela.

— O que você ia dizer? — perguntou ela depois de ouvir a mensagem.

— Não tem pressa — disse ele, e sorriu.

 

Era o policial mais velho novamente.

Estava esperando por ela na recepção.

— Me deixaram entrar — explicou ele, em tom de desculpas.

Martha fez cara feia para Maria, que abriu os braços em um gesto de “o que é que tem?”.

— Tem algum lugar onde a gente possa...?

Martha o levou à sala de reuniões, mas não ofereceu café dessa vez.

— Você sabe o que é isso? — perguntou Simon, e mostrou-lhe a tela do celular.

— Uma foto de terra?

— É uma pegada. Pode ser que não signifique muita coisa para você, mas eu mesmo passei um tempão me perguntando por que essa pegada me era tão familiar. Então entendi que era porque essa mesma pegada aparece em várias cenas de crime em potencial. Você sabe, lugares onde encontramos gente morta. Por exemplo, marcas na neve em um porto de contêineres, pontos de consumo de narcóticos, o quintal de um traficante, um bunker da Segunda Guerra Mundial usado para injetar heroína. Resumindo...

— Resumindo, lugares frequentados pelos nossos moradores. — Martha suspirou.

— Exatamente. Na maior parte dos casos, a morte é autoinfligida, mas, seja como for, a mesma pegada aparece vez após outra. Os tênis do Exército, que, devido à Missão Urbana e ao Exército de Salvação, se tornaram o calçado mais usado por usuários de drogas e moradores de rua do país. E por isso são inutilizáveis como prova, pois estão nos pés de muitos que já têm condenações anteriores.

— Então o que veio fazer aqui, inspetor Kefas?

— Os tênis saíram de produção, e os que ainda são usados estão desgastados. Mas se você olhar para a foto com atenção, vai ver que essa pegada ainda tem um molde claro, como se vê em tênis novos. Entrei em contato com o Exército de Salvação, e eles me disseram que a última remessa existente dos tênis azuis de corrida foi enviada para vocês em março deste ano. Então minha simples pergunta é se você já deu algum par desses tênis desde a primavera. Tamanho 43.

— A resposta é sim, claro.

— Para...

— Muitos.

— E o tamanho era...

— Tamanho 43 é o mais comum entre homens ocidentais, incluindo usuários de drogas. Mais do que isso, eu não posso nem quero dizer. — Martha olhou para ele com os lábios cerrados.

O policial suspirou.

— Eu respeito sua solidariedade com os moradores do centro, mas este é um caso sério. Não se trata de um grama de anfetamina, mas de homicídio. Achei essa pegada no lugar onde uma mulher foi morta, em Holmenkollåsen. Agnete Iversen.

— Iversen?

Martha percebeu que estava ofegante outra vez. Estranho, mas o psicólogo que a diagnosticara com compassion fatigue pedira que ela ficasse atenta a sintomas de estresse.

O inspetor Kefas a observou com a cabeça um pouco inclinada.

— É, Iversen. Foi bastante noticiado pela mídia. Ela foi baleada na entrada da própria casa.

— Ah, foi. Eu vi manchetes sobre algo do tipo, mas nunca leio esses casos. Já convivo com bastante tristeza no trabalho, se é que o senhor me entende.

— Entendo. Enfim, ela se chamava Agnete Iversen. Tinha 49 anos. Foi ativa no mercado de trabalho, mas ultimamente era dona de casa. Casada, com um filho de 20 anos. Presidente do conselho beneficente local. Dava contribuições generosas à Secretaria de Turismo. Provavelmente alguém que se podia chamar de pilar da sociedade.

Martha tossiu.

— E como o senhor sabe que essa pegada é do autor do crime?

— Não sabemos, mas encontramos uma parte de uma pegada manchada de sangue no quarto de casal. Pode se tratar da mesma.

Martha tossiu mais. Talvez devesse ir ao médico.

— Mas e se eu me lembrasse do nome daqueles que receberam esses tênis tamanho 43, como é que vocês saberiam qual dos tênis é o da cena do crime?

— Não sei se isso seria possível, mas, aparentemente, o assassino pisou em sangue. Se tiver coagulado, pode ser que ainda tenha resquícios de sangue na sola.

— Entendi.

Simon aguardou que ela dissesse algo mais.

Ela se levantou.

— Infelizmente, não posso ajudá-lo. Mas perguntarei aos outros funcionários se eles se lembram de alguém que calce 43, é claro.

O policial continuou sentado, como que para lhe dar a chance de mudar de ideia e contar algo mais. Por fim, também se levantou e entregou a ela seu cartão.

— Obrigado. Realmente agradeço. Pode ligar a qualquer hora, dia ou noite.

Depois que o policial foi embora, Martha permaneceu sentada na sala de reuniões. Mordeu o lábio. O que tinha dito era verdade — 43 era, de fato, o tamanho mais comum entre os homens.

 

— Já encerramos — disse Kalle.

Eram nove horas e o sol já havia se posto atrás das casas à beira do rio. Ele apanhou as últimas notas de cem e as guardou na doleira. Ouvira dizer que em São Petersburgo era tão comum roubar o traficante responsável pelo dinheiro que eles andavam com cintos de aço soldados na cintura. Tinham uma fenda estreita por onde inseriam as cédulas e eram equipados com um cadeado eletrônico cujo código somente a pessoa no escritório sabia. Dessa forma, o homem do dinheiro não podia ser torturado para dar a senha aos assaltantes. Tampouco teria a tentação de ficar com o dinheiro para si. Eles tinham que dormir, comer, defecar e transar com o cinto soldado na cintura, mas mesmo assim Kalle já havia levado a ideia em consideração. Não aguentava mais ficar ali todas as noites.

— Por favor!

Era uma daquelas viciadas magricelas, só osso, a pele esticada na cabeça como se estivesse no holocausto.

— Amanhã — disse Kalle, já indo embora.

— Mas eu preciso!

— Acabou — mentiu ele, e sinalizou para Pelvis, que levava a droga, que era hora de ir.

Ela começou a chorar. Kalle não tinha pena. Esses junkies tinham que aprender que a venda encerrava às nove, que não adiantava aparecer dois minutos depois. Claro, ele podia ficar mais dez ou quinze minutos e vender para aqueles que não conseguiram arranjar dinheiro a tempo, mas tudo era uma questão de qualidade de vida, de saber que horas você vai voltar para casa. Tampouco deixariam de ganhar por causa disso, pois tinham o monopólio da venda de Superboy na cidade. Amanhã ela seria a primeira a chegar.

Ela o agarrou pelo braço, e Kalle a empurrou. A garota cambaleou na grama e caiu de joelhos.

— Foi um bom dia — observou Pelvis, enquanto eles andavam rapidamente pelo caminho. — Quanto você acha que a gente vendeu?

— Quanto eu acho?

Aqueles idiotas não sabiam nem multiplicar a quantidade de embalagens pelo preço unitário. Era difícil achar mão de obra qualificada nesse ramo de comércio.

Antes de atravessarem a ponte, ele se virou para conferir se não estavam sendo seguidos. Era um movimento automatizado, resultado de uma dura lição que aprendera por ser traficante e carregar muito dinheiro, ou seja, uma vítima de roubo que nunca vai dar parte na polícia. Uma dura lição que aprendera naquele dia tranquilo de verão em que não conseguiu manter os olhos abertos e dormiu no banco da praça com uma quantidade de heroína avaliada em trezentas mil coroas, que ia vender para o Nestor. Quando acordou, a mercadoria, obviamente, tinha sumido. No dia seguinte, Nestor disse que o chefão era tão generoso que lhe daria uma escolha: perder os dois polegares, por ter sido tão relapso, ou perder as duas pálpebras, por ter dormido. Kalle escolheu as pálpebras. Dois caras de paletó, um moreno e um louro, o seguraram enquanto Nestor puxava a pele e a cortava com aquela faca árabe dele, feia e torta. Em seguida, deu dinheiro para que fosse ao hospital de táxi — o que também fora uma instrução do chefe. Os cirurgiões explicaram que, para que lhe dessem novas pálpebras, precisariam retirar pele de outro lugar, e que ele tinha sorte de não ser judeu e não ter sido circuncidado. Aparentemente, a pele do prepúcio é a que mais se assemelha à das pálpebras. A operação até que correu bem, e a resposta que Kalle dava aos que perguntavam era que sofrera um acidente com ácido e que a nova pele fora tirada da perna. Da perna de outra pessoa, diria ele, se quem perguntasse fosse uma mulher na sua cama que pedisse para ver a cicatriz. E que ele tinha uma distante ascendência judia, caso ela também tivesse curiosidade sobre o resto.

Por um bom tempo ele até acreditou que seu segredo estivesse bem guardado. Até o dia em que o cara que assumira seu antigo trabalho perguntou, para todo mundo ouvir, se ele sentia cheiro de sebo de pica quando esfregava os olhos de manhã. O cara e os amigos dele riram bastante. Então Kalle quebrou a garrafa de cerveja no balcão e a enfiou na cara dele. Depois a retirou e a enfiou novamente. Continuou a fazer isso até ter a certeza de que o cara não tinha mais nenhum olho para esfregar.

No dia seguinte, Nestor disse a Kalle que o chefão ouvira a história e que lhe estava oferecendo seu antigo emprego de volta. Afinal, a vaga agora estava livre, e, além disso, ele tinha gostado da reação de Kalle. Desde aquele dia, Kalle nunca mais fechava os olhos até ter certeza absoluta de que estava tudo sob controle. Agora, a única coisa que ele via era aquela mulher na grama e um cara correndo de capuz.

— Duzentos mil? — chutou Pelvis.

Idiota.

Depois de caminharem por quinze minutos pelo lado leste do centro de Oslo e pelas ruas mais suspeitas de Gamlebyen, que, no entanto, são boas para a formação de caráter, passaram pelo portão aberto de uma fábrica abandonada. Não devia demorar mais do que uma hora para fechar as contas. Além deles, só Enok e Syff estavam lá. Tinham vendido anfetamina em Elgen e na rua Tollbu, respectivamente. Depois, era só cortar, misturar e embalar novas porções para o dia seguinte. Então ele poderia ir para casa, para Vera. Ela andava de mau humor. Não foram a Barcelona, como ele prometera, porque ele passou a primavera muito ocupado no trabalho. Depois, ele lhe prometeu uma viagem para Los Angeles em agosto, mas não conseguiu visto de entrada devido ao seu histórico criminal. Kalle sabia que mulheres como Vera não tinham muita paciência, pois tinham alternativas. Para mantê-las, era necessário satisfazê-las na cama, e seus gananciosos olhos cor de amêndoa também precisavam ver muito brilho. Tudo isso demandava tempo e energia. Mas também custava dinheiro, por isso ele precisava trabalhar muito. Ou seja, estava entre a cruz e a espada.

Passaram por uma área aberta onde havia um caminho de cascalho manchado de óleo, grama alta e dois caminhões sem pneu que estavam permanentemente estacionados em dois tijolos e pularam para uma rampa de carregamento na frente de um edifício de tijolinhos vermelhos. Kalle digitou a senha de quatro dígitos, ouviu o zumbido da porta e a abriu. Foram recebidos por um som estrondoso de bateria e baixo. A prefeitura transformara o térreo do prédio de dois andares em local de ensaio para bandas jovens. Kalle alugava um local no primeiro andar por uma mixaria, sob o pretexto de fazer agenciamento e gestão de bandas. Ainda não haviam conseguido show para nenhuma, mas todos sabiam que eram tempos difíceis para as artes e a cultura. Kalle e Pelvis seguiram pelo corredor em direção ao elevador enquanto a porta da entrada se fechava lentamente graças às molas rígidas. Em meio a todo o barulho, Kalle acreditou ouvir passos apressados no cascalho lá fora.

Pelvis tentou de novo:

— Trezentos mil?

Kalle balançou a cabeça e chamou o elevador.

 

Knut Schrøder deitou a guitarra em cima do amplificador.

— Pausa para o cigarro — disse ele, dirigindo-se à porta.

Sabia que os colegas de banda estavam se entreolhando com impaciência. Outra pausa para fumar? Eles tinham um show no centro juvenil em três dias, e era preocupante que precisassem ensaiar como loucos só para não passarem vergonha. Malditos filhinhos de papai, pensava Knut. Não fumam, quase não bebem e nunca viram um baseado na vida. Desse jeito não tem rock ‘n’ roll.

Ele fechou a porta e ouviu que recomeçaram a música do início, sem ele. Até que não soava mal, mas faltava soul. Com ele era outra coisa. Ele sorriu ao pensar isso enquanto passava pelo elevador e pelos outros locais vazios no corredor que levava à saída. Era exatamente como na melhor parte do DVD Hell Freezes Over dos Eagles (que Knut jamais admitiria que gostava) quando estão ensaiando com a Orquestra Filarmônica de Burbank, e a orquestra toca “New York Minute” direitinho, todos bastante concentrados, e Don Henley se vira para a câmera, franze o nariz e diz: “... mas eles não têm o blues...”

Knut passou pelo local de ensaio, que só vivia de porta aberta, porque a tranca estava quebrada, e as dobradiças, retorcidas, e não se podia fechá-la. Parou. Havia um homem lá dentro, de costas para ele. Antigamente havia sempre uns caras que arrombavam a porta do prédio para roubar equipamento musical que poderiam facilmente trocar por droga, mas isso tinha parado desde que a agência se instalara no primeiro andar e providenciara uma porta nova, bastante sólida, com cadeado eletrônico.

— Ei, você! — chamou Knut.

O homem se virou. Era difícil dizer o que ele era. Um corredor? Não. Sim, vestia moletom com capuz e calças esportivas. Mas e os sapatos pretos de couro? Não podia ser. Só drogados se vestiam tão mal. Mas Knut não tinha medo. Por que teria? Era alto como Joey Ramone e tinha a mesma jaqueta de couro.

— O que você está fazendo aqui, cara?

O homem sorriu. Ou seja, não era roqueiro.

— Só dando uma arrumada.

Pareceu plausível. Era o que acontecia com aqueles locais de ensaio do município. Tudo era roubado, destruído, e ninguém se responsabilizava por nada. A janela ainda estava coberta com chapas para isolar o som, mas, afora isso, a única coisa que restava no local era um bumbo surrado em cuja pele alguém tinha escrito “The Young Hopeless” com letras góticas. No chão, entre bitucas de cigarro, cordas de guitarra, uma baqueta solitária e um rolo de fita isolante, havia um ventilador de mesa que o baterista provavelmente usava para aliviar o calor. Também havia um cabo para guitarra, que Knut até poderia ver se funcionava, mas era óbvio que não. Se bem que cabos não valiam a pena. O futuro era wireless. Sua mãe lhe prometera comprar um sistema wireless para a guitarra se ele parasse de fumar, o que o inspirara a escrever a música “Com ela é difícil negociar”.

— Não está muito tarde para um funcionário ainda estar por aqui? — perguntou Knut.

— Estamos pensando em voltar a ensaiar.

— Vocês quem?

— The Young Hopeless.

— Ah, você é da banda?

— Fui o penúltimo baterista. Pensei que tinha visto os outros dois da banda, de costas, quando cheguei, mas eles pegaram o elevador.

— Não. Aqueles caras são da agência de bandas.

— Ah, é? De repente eles ajudam a gente.

— Acho que não querem ninguém novo. Já batemos na porta para falar com eles, mas nos mandaram à merda.

Knut sorriu, apanhou um cigarro e o colocou entre os lábios. Talvez aquele cara quisesse fumar um cigarro com ele lá fora. Podiam trocar uma ideia sobre música. Ou sobre equipamentos.

— Acho que vou lá falar com eles mesmo assim.

Na verdade, o cara parecia mais vocalista do que baterista. Knut achou que era possível que ele conseguisse falar com o pessoal da agência. Parecia ter carisma. E, se abrissem a porta para ele, quem sabe Knut pudesse entrar também...

— Eu vou com você para mostrar onde é.

O cara pareceu hesitar por um momento, mas depois assentiu.

— Obrigado.

O elevador grande de carga era tão lento que num trajeto de apenas um andar Knut pôde explicar por que o amplificador Mesa Boogie era tão perfeito e tinha o som ideal para rock.

Saíram do elevador. Knut dobrou à esquerda e apontou para a porta azul de metal, a única no andar. O cara bateu na porta. Após uns poucos segundos, uma janelinha na altura dos olhos se abriu, e um par de olhos vermelhos apareceu, assim como quando Knut estivera lá da última vez.

— O que é que você quer?

O cara se inclinou para bem perto da janelinha. Parecia que queria ver o que havia atrás do homem, do outro lado da porta.

— Vocês teriam interesse em arranjar uns shows para nós, The Young Hopeless? Somos uma das bandas que ensaiam no térreo.

— Vão para a puta que os pariu e não apareçam mais aqui. Capisce?

O cara permaneceu em frente à porta. Knut notou que seus olhos iam de um lado a outro.

— Mas a gente toca bem. Vocês gostam de Depeche Mode?

Uma voz soou no local, atrás dos olhos vermelhos:

— Quem é, Pelvis?

— Uma das bandas.

— Manda ele à merda, porra! E anda logo com isso, que eu quero chegar em casa antes das onze.

— Vocês ouviram o chefe, rapaziada.

A janelinha se fechou.

Knut cruzou os quatro passos de volta ao elevador e apertou o botão. As portas se abriram com certa relutância, e ele entrou. Mas o cara ficou lá. Ele olhou para o espelho que o pessoal da agência pusera no alto da parede à direita do elevador. Refletia a porta de metal deles, sabe-se lá por quê. Tudo bem, aquele não era o bairro mais tranquilo de Oslo, mas eles eram paranoicos demais, até mesmo para uma agência. Mas talvez guardassem um montão de dinheiro dos shows ali no escritório. Knut ouvira dizer que as bandas mais famosas da Noruega ganhavam meio milhão de coroas por show em grandes festivais. Era só ele ensaiar mais. Mas tinha que arranjar o sistema wireless primeiro. E outra banda. Que tivesse soul. Talvez pudesse formar uma banda com aquele cara. Ele havia finalmente entrado no elevador, mas esticou o braço para que a porta não fechasse. Então puxou o braço de volta e analisou a lâmpada fluorescente no teto do elevador. Pensando bem, melhor não. Chega de gente doida.

Ele saiu para fumar enquanto o cara voltava ao local de ensaio para continuar a arrumar as coisas.

Quando o cara saiu do prédio, Knut estava sentado na caçamba de um dos caminhões avariados.

— Pelo jeito os outros vão se atrasar, mas não consigo falar com eles. Estou sem bateria — explicou ele, e mostrou um celular que parecia ser bem novo. — Vou comprar uns cigarros.

— Toma um — ofereceu Knut, estendendo o maço. — Qual é a marca da sua bateria? Não, espera, deixa eu adivinhar. Você parece do tipo old school. Ludwig?

O cara sorriu.

— Muito obrigado pela gentileza, mas eu só fumo Marlboro.

Knut deu de ombros. Ele respeitava quem era fiel às suas marcas, de baterias ou de cigarros. Mas Marlboro? Sério? Era como a pessoa dizer que só dirigia Toyota.

— Beleza, irmão — disse Knut. — A gente se fala.

— Obrigado pela ajuda.

Knut o viu se afastar pelo caminho de cascalhos, mas de repente o cara se virou e voltou.

— Acabei de lembrar que eu anotei a senha da porta no meu celular — disse ele, com um sorriso levemente acanhado. — Mas...

— Descarregou, não é? É 666S. Fui eu que inventei. Sabe o que significa?

O cara assentiu.

— O código da polícia do Arizona para suicídio.

Knut demorou alguns instantes para perguntar:

— Sério?!

— Sim. É “S” de suicídio. Meu pai que me ensinou.

Knut viu o cara desaparecer pelo portão para a noite clara de verão. O vento fazia com que a grama alta balançasse de um lado a outro, como o público ouvindo uma balada romântica em um show. Suicídio, que foda! Era muito melhor que 666 Satã!

 

Pelle olhou pelo retrovisor e esfregou o pé ruim. Tudo estava ruim, na verdade. O movimento, seu humor e o endereço que o passageiro no banco de trás tinha acabado de lhe dar. Centro Ila. Então, por enquanto, continuavam parados no ponto relativamente fixo de Pelle em Gamlebyen.

— O abrigo?

— Sim, mas agora eles chamam... Sim, o abrigo.

— Para lá eu só vou se pagar adiantado. Desculpe, mas é que já tive experiências ruins.

— Claro, eu não tinha pensado nisso.

Pelle observou seu passageiro, ou melhor, possível passageiro, mexer no bolso da calça. Estava trabalhando fazia treze horas, mas ainda faltavam algumas até que voltasse para seu apartamento na rua Schweigaard, estacionasse, subisse as escadas penosamente com as muletas dobráveis que guardava embaixo do assento, desabasse na cama e dormisse. De preferência, sem sonhar. Ou não. Dependia do sonho. Podia ser uma maravilha ou um inferno, não tinha como saber. O passageiro lhe deu uma nota de cinquenta coroas e um punhado de moedas.

— Aqui só tem pouco mais de cem. Ainda falta.

— Vai sair por mais de cem? — perguntou o já não tão potencial cliente, com um espanto que parecia sincero.

— Faz tempo que você não anda de táxi?

— Sim. Eu não tenho mais nada. Você pode dirigir até onde o dinheiro der?

— Tudo bem.

Percebendo que o cliente não tinha cara de quem ia pedir recibo, ele colocou o dinheiro no porta-luvas e pisou no acelerador.

 

Martha estava sozinha no quarto 323.

Quando estava na recepção, vira primeiro Stig, depois Johnny saírem. Stig calçava os sapatos que ela lhe dera.

De acordo com o regulamento, podia haver revista nos quartos sem aviso prévio e sem necessidade de permissão dos moradores, em caso de suspeita de posse de armas. Mas o regulamento também dizia que a revista normalmente tinha que ser feita por dois funcionários. Normalmente. Aquela era uma ocasião normal? Ela olhou para a cômoda. Depois, para o armário.

Começou pela cômoda.

Roupas. Só as de Johnny. Ela sabia o que Stig vestia.

Abriu as portas do armário.

A cueca que ela dera a Stig estava dobrada com esmero em uma das prateleiras; o casaco, pendurado num cabide. Na prateleira superior estava a mochila vermelha com a qual ela o tinha visto chegar. Quando esticou as mãos para apanhá-la, viu o tênis azul no piso do armário. Soltou a mochila, agachou-se e pegou o tênis. Respirou fundo. Prendeu a respiração. Tinha que procurar sangue coagulado. Virou as solas para cima.

Respirou aliviada, com o coração leve.

As solas estavam completamente limpas. Nem sujeira havia.

— O que você está fazendo?

Martha se virou com o coração na boca. Levou a mão ao peito.

— Anders! — Ela se curvou e riu. — Você quase me mata de susto.

— Estava lá embaixo esperando por você — reclamou ele, zangado, e colocou as mãos nos bolsos da jaqueta de couro. — Já são quase nove e meia.

— Desculpe. Perdi a noção do tempo. Fomos informados de que um dos moradores daqui tinha uma arma guardada no quarto, e temos o dever de verificar. — Estava tão nervosa que a mentira veio por si só.

— Dever? — Anders bufou. — Talvez seja mesmo hora de começar a pensar em dever. A maioria das pessoas pensa em família e lar quando o assunto é dever, não em lugares como esse.

Martha suspirou.

— De novo não, Anders, por favor.

Mas já dava para ver que ele não desistiria. Como sempre, bastaram poucos segundos para que ele se irritasse.

— Você sabe que tem um trabalho esperando por você na galeria da minha mãe a hora que quiser. E eu concordo com ela: seria bom para o seu desenvolvimento pessoal conviver com pessoas mais estimulantes do que esse lixo humano daqui.

— Anders! — Martha levantara a voz, mas depois percebeu que estava muito cansada, sem energia para discutir. Foi até ele e tocou-lhe o braço. — Você não tem o direito de chamá-los de lixo. E, como eu já disse, sua mãe e os clientes dela não precisam de mim.

Anders puxou o braço.

— Essa gente daqui não precisa de você. O que eles precisam é que a sociedade deixe de paparicá-los. Esse país trata drogados como se fossem vacas sagradas.

— Não estou com cabeça para ter esta discussão novamente. Por que você não vai logo para casa? Depois eu pego um táxi, quando terminar aqui.

Mas Anders cruzou os braços e se apoiou na moldura da porta.

— E quando você vai estar com cabeça para alguma discussão, Martha? Já falei, é só marcar uma data...

— Agora, não.

— Agora, sim! Minha mãe quer planejar o verão e...

— Já falei que agora não.

Ela tentou passar, mas ele não se moveu. Colocou o braço na frente para impedi-la.

— Que tipo de resposta é essa? Se eles vão pagar, então...

Martha passou por baixo do braço dele e seguiu pelo corredor.

— Ei!

Ela ouviu que Anders bateu a porta e começou a correr atrás dela. Agarrou seu braço e a girou, puxando-a para si. Ela sentiu o cheiro da loção pós-barba cara que a mãe dele dera de Natal, e que Martha não suportava. Seu coração quase parou quando viu o olhar sombrio e vazio dele.

— Você não se atreva a me deixar falando sozinho — rosnou ele.

Ela levantou a mão para proteger o rosto e viu a surpresa no olhar dele.

— O que foi isso? — sussurrou ele, com a voz gélida. — Acha que eu vou bater em você?

— Eu...

— Duas vezes — sibilou, e ela sentiu o hálito quente no rosto. — Duas vezes em nove anos, Martha. E você me trata como se eu saísse espancando mulher.

— Me solte, você está...

Ela ouviu uma tosse atrás de si. Anders a soltou, olhou furioso por cima dos ombros dela e praticamente cuspiu as palavras:

— E aí, vai passar ou não, seu drogado?

Ela se virou. Era ele. Stig. Ele ficou lá, aguardando. Seu olhar calmo foi de Anders para ela. O olhar fazia uma pergunta, que ela respondeu assentindo: sim, estava tudo bem.

Ele respondeu da mesma forma e passou pelos dois. Os dois homens se entreolharam quando se cruzaram. Tinham a mesma altura, mas Anders era mais largo, mais forte.

Ela ficou vendo Stig se afastar pelo corredor.

Então olhou para Anders novamente. Ele a encarava com aquela expressão hostil que vinha se tornando cada vez mais frequente, mas que ela atribuía à frustração que ele sentia por não receber o reconhecimento que julgava merecer no trabalho.

— Que porra é essa?

Antes ele também não xingava.

— O quê?

— Vocês dois... se comunicaram! Quem é esse cara?

Ela respirou quase aliviada. Ciúme. Pelo menos isso era território que ela conhecia. Não havia mudado nada desde que eram adolescentes, então ela já sabia como lidar. Colocou a mão no ombro dele.

— Não seja bobo, Anders. Vamos lá comigo pegar meu casaco. Depois vamos para casa. E em vez de brigarmos, fazemos o jantar juntos.

— Martha, eu...

— Shh — fez ela, mas sabia que tinha a situação sob controle. — Ou melhor, você faz o jantar enquanto eu tomo banho. Amanhã falamos sobre o casamento. Combinado?

Ela viu que ele queria protestar, mas levou o dedo aos lábios dele. Os lábios carnudos pelos quais se apaixonara. Passou o dedo na barba escura e bem aparada. Ou será que se apaixonara pelo jeito ciumento dele? Não lembrava mais.

Ele já estava mais tranquilo quando entraram no carro. Uma BMW que ele comprara contra a vontade dela. Anders disse que ela ia gostar quando percebesse como era confortável, principalmente para longas distâncias. Além do mais, era confiável. Quando ele ligou o carro, ela viu Stig novamente. Ele saiu do centro, atravessou a rua rapidamente e foi andando apressado no sentido leste. Levava a mochila vermelha no ombro.