O filho

Jo Nesbo · Capítulo 12 de 44

Páginas do PDF

O filho

Capítulo 12

 

Arild Franck estava à janela de seu escritório. Olhou para o relógio. A maioria dos fugitivos é capturada nas primeiras doze horas após a fuga. Ele tinha dito à imprensa que a maioria é encontrada em até 24 horas, pois dessa forma diriam que eles agiram com rapidez se a busca durasse mais de doze. Agora, no entanto, já começara a 25ª hora, e ainda não tinham nenhuma pista.

Acabara de vir do escritório grande. O escritório sem vista. O homem sem vista quisera uma explicação. O diretor estava de mau humor porque tivera que voltar mais cedo da conferência anual de presídios escandinavos, em Reiquiavique. No dia anterior, ao telefone, dissera que queria entrar em contato com a imprensa. Ele adorava falar com a imprensa. Franck tinha pedido mais um dia para procurar Lofthus sem estardalhaço, mas o diretor negou na hora. Disse que não podiam ocultar aquele tipo de coisa. Em primeiro lugar, porque Lofthus era um homicida, então o público deveria ser informado. Segundo, porque seria mais fácil encontrá-lo se sua foto estivesse nos jornais.

E em terceiro lugar, poderíamos colocar também sua foto, pensou Franck. Assim seus amigos políticos podem ver que você realmente trabalha, que não fica só boiando em lagoas azuis e bebendo Svartadaudir.

Franck tentara avisar ao diretor que uma foto de Sonny Lofthus não ajudaria muito, pois a que eles tinham fora tirada doze anos antes, e naquele tempo Sonny já usava barba e cabelo comprido. Além disso, a imagem das câmeras de segurança, depois que Sonny cortara o cabelo, era tão granulada que mal serviria. Mesmo assim, o diretor insistiu em jogar o nome da Staten pelo ralo.

— A polícia está procurando por ele, Arild. É só uma questão de horas até que alguém da imprensa telefone e me pergunte por que não divulgamos essa informação antes, e se há outros fugitivos sobre os quais não dissemos nada. Nesse caso, prefiro que seja eu a fazer a ligação.

Mais cedo, o diretor lhe perguntara quais rotinas de segurança Franck acreditava poder melhorar. E Franck sabia a razão: para que ele pudesse ir até os amigos políticos e apresentar as ideias como se fossem suas. As ideias que na verdade eram do homem com perspectiva. E mesmo assim Franck lhe deu todas as ideias: reconhecimento de voz em vez de impressões digitais e tornozeleiras eletrônicas com chips GPS Indestrutível. Afinal de contas, havia coisas que Franck valorizava mais que a si próprio. A Staten era uma delas.

Arild Franck olhou para o Ekebergåsen, banhado pela luz da alvorada. Aquele fora, muito tempo antes, o lado ensolarado de um bairro da classe trabalhadora. Franck sonhara em algum dia poder comprar uma pequena casa ali. Hoje ele morava em uma casa maior, em um bairro mais nobre, e ainda assim sonhava com essa casinha.

Nestor reagira à notícia da fuga com aparente serenidade, mas não era falta de serenidade o que preocupava Franck quando se tratava de Nestor e seu grupo. Muito pelo contrário, Franck suspeitava que eles sempre estivessem muito serenos quando tomavam decisões tão cruéis que lhe congelavam o sangue. Por outro lado, eram decisões tão simples, claras e práticas que Franck não podia deixar de admirá-las.

— Encontre-o — dissera Nestor —, ou faça com que ele nunca seja encontrado.

Caso o encontrassem, poderiam convencê-lo a confessar o homicídio da Sra. Morsand. Eles tinham seus métodos. Se o matassem, ele não poderia esclarecer a presença de provas periciais contra si mesmo na cena do crime, mas tampouco poderiam usá-lo no futuro. Era assim que as coisas funcionavam. Vantagens e desvantagens. Na verdade, era tudo uma simples questão de lógica.

— Simon Kefas aguarda na linha — avisou Ina ao interfone.

Franck bufou automaticamente.

Simon Kefas.

Esse sim era um que não colocava nada acima dos próprios interesses. Um pobre invertebrado que já passara por cima de muita gente por causa do seu vício em jogos. Diziam que tinha mudado depois de se casar com uma jovem. Porém, ninguém melhor que um diretor-adjunto de presídio para saber que as pessoas não mudam, e Franck já sabia o que precisava saber sobre Simon Kefas.

— Diga que não estou.

— Ele gostaria de encontrá-lo mais tarde. É sobre Per Vollan.

Vollan? Esse caso não estava arquivado havia muito tempo? Franck suspirou fundo e olhou para o jornal em cima da mesa. Divulgaram a fuga, mas pelo menos não estava na primeira página. Presumivelmente, porque a editoria não tinha conseguido uma boa foto do fugitivo. Os abutres provavelmente esperariam até que tivessem um retrato falado no qual o fugitivo parecesse bastante maligno. Dessa vez, ficariam decepcionados.

— Arild?

Era uma regra tácita que ela podia utilizar seu primeiro nome quando outros não estivessem presentes.

— Arranje um espaço na agenda, Ina, mas não lhe dê mais do que meia hora.

Franck olhou para a mesquita. A 25ª hora já terminava.

 

Lars Gilberg se aproximou.

O garoto estava deitado em um papelão, coberto por um casaco comprido. Viera no dia anterior e havia encontrado um lugar atrás dos arbustos que cresciam entre o caminho e os prédios ao longo dele. Sentara-se lá, quieto e imóvel, como se brincasse de esconde-esconde com alguém que nunca vinha. Quer dizer, vieram dois policiais, que olharam alternadamente para Gilberg e para a foto que tinham em mãos e foram embora.

Mais tarde, quando começou a chover, o garoto veio e se deitou embaixo da ponte, sem pedir autorização. Não que Gilberg pretendesse impedi-lo, mas o problema era ele nem ter pedido. E havia outro problema: usava um uniforme. Lars Gilberg não sabia ao certo que tipo de uniforme, fora dispensado do Exército antes mesmo de ver o verde dos oficiais. “Inadequado”, foi o motivo um tanto vago que lhe deram. Lars Gilberg às vezes se perguntava se de fato havia algo para o qual se adequava, e se algum dia descobriria o que era. Talvez só mesmo para arranjar dinheiro para droga e morar embaixo da ponte.

Como agora.

O garoto dormia, respirando tranquilamente. Gilberg se aproximou mais um pouco. Pelo jeito de andar e pela cor da pele, era usuário de heroína. Talvez tivesse um pouco.

Gilberg estava agora tão perto que via suas pálpebras tremularem de leve, como se seu globo ocular estivesse virando de um lado para o outro. Agachou-se, levantou o casaco com cuidado e tentou enfiar os dedos no bolso do peito.

Tudo aconteceu tão depressa que Gilberg nem viu. O garoto agarrou seu pulso, e, antes de se dar conta, Gilberg estava de joelhos, a cara no solo molhado de chuva, o braço torcido às costas.

Uma voz sussurrou em seu ouvido:

— O que você quer?

A voz não parecia zangada, agressiva ou assustada. Era educada, quase como se o garoto realmente quisesse saber como poderia ajudá-lo. Gilberg fez o que sempre fazia quando percebia que tinha perdido: confessou antes que a situação piorasse.

— Queria roubar sua droga. Ou seu dinheiro, se você não tiver droga.

O método do garoto para segurá-lo era conhecido. O pulso para dentro, aplicando pressão na parte de trás do cotovelo. Era o método da polícia. Mas Gilberg sabia como policiais infiltrados andavam, falavam e cheiravam, e aquele garoto definitivamente não era um deles.

— Qual é a droga que você costuma usar?

— Morfina.

— Quanto dá para comprar com cinquenta coroas?

— Só um pouco.

O garoto afrouxou a pegada e Gilberg logo puxou o braço.

Olhou para o garoto. Piscou para a nota que ele estendia.

— Desculpa, eu só tenho isso.

— Eu não tenho nada para vender, cara.

— O dinheiro é para você. Eu parei.

Gilberg estreitou um dos olhos como que para ver melhor. O que era mesmo que diziam? Se algo é bom demais para ser verdade, não deve ser verdade. Se bem que aquele cara podia ser simplesmente pirado. Ele fisgou a nota de cinquenta coroas e a colocou no bolso.

— Digamos que é pelo aluguel do lugar onde você dormiu.

— Eu vi que a polícia passou por aqui ontem — disse o garoto. — Eles sempre vêm aqui?

— De vez em quando, mas tem vindo uma porção deles nos últimos dias.

— E você por acaso sabe de algum lugar onde não haja uma porção deles?

Gilberg analisou o garoto.

— Para se ver livre mesmo, vá para o Centro Ila. Lá eles são proibidos de entrar.

O garoto olhou pensativo para o rio. Em seguida, assentiu devagar.

— Obrigado pela ajuda, amigo.

— Foi um prazer — murmurou Gilberg, perplexo.

É, era um pirado mesmo.

E, como que para confirmar suas suspeitas, o garoto começou a tirar a roupa. Gilberg deu dois passos para trás, só por precaução. Só de cueca, o garoto começou a dobrar o uniforme e enrolá-lo em volta dos sapatos. Gilberg estendeu-lhe a sacola de plástico que ele pediu emprestada, e ele pôs as roupas e os sapatos dentro. Em seguida, colocou a sacola embaixo de uma pedra que estava nos arbustos onde passara o dia anterior.

— Pode deixar que ninguém vai achar — garantiu Gilberg.

— Obrigado. Eu confio em você.

Sorrindo, o garoto abotoou o casaco até o último botão, de modo que não dava para ver seu peito nu.

E seguiu pelo caminho de onde viera. Gilberg o observou se afastar, viu seus pés descalços espirrarem água das poças no asfalto.

Eu confio em você?

Era mesmo louco. Completamente.

 

* * *

 

Martha estava na recepção observando as imagens das câmeras de segurança pela tela do computador. Mais precisamente, observando o homem que olhava para a câmera na entrada. Ele ainda não tinha tocado a campainha. Ainda não descobrira o pequeno buraco feito na chapa de acrílico que a cobria. A chapa precisara ser colocada devido a uma reação relativamente comum entre as pessoas que tinham o acesso negado ao centro: quebrar a campainha. Martha apertou o botão do microfone.

— Posso ajudar?

O garoto não respondeu. Martha já constatara que não era um dos 76 moradores. Embora tivesse havido uma rotatividade de mais de cem nos últimos quatro meses, ela se lembrava do rosto de cada um deles. Mas também constatou que ele pertencia mesmo ao público-alvo do Centro Ila: usuários de drogas. Não que parecesse estar sob o efeito de alguma delas no momento; não parecia, mas era algo na magreza do rosto, o tique nos cantos da boca e o pavoroso corte de cabelo. Martha suspirou.

— Você precisa de um quarto?

O garoto fez que sim, e ela girou a chave do interruptor que abria a porta. Chamou Stine, que estava na cozinha, atrás da recepção, fazendo um sanduíche para um dos moradores, e pediu que se encarregasse do lugar. Em seguida, correu escada abaixo para o portão de ferro que eles podiam fechar a partir da recepção, se por acaso algum intruso conseguisse passar pela porta da frente. O garoto estava junto à porta. Usava um casaco abotoado até o pescoço e que ia até os tornozelos. Estava descalço, e ela notou uma mancha de sangue na marca de umidade de seus passos, em frente à porta. Mas Martha já havia visto de tudo, então o que mais lhe chamou a atenção foi o olhar dele. O garoto realmente olhava para ela. Não sabia como explicar isso de outra maneira. Ele tinha o olhar voltado em sua direção, e ela podia ver que naquele momento ele estava processando o estímulo visual de sua aparência. Talvez não fosse muito, mas de qualquer forma era mais do que Martha estava acostumada no Centro Ila. Naquele instante, passou por sua cabeça que o garoto talvez nem fosse usuário, mas descartou esse pensamento tão depressa quanto ele viera.

— Oi. Venha comigo.

Ele a seguiu até o primeiro andar e os dois entraram na sala de reuniões, em frente à recepção. Ela deixou a porta aberta, como de costume, para que Stine e os outros pudessem vê-los, então pediu que se sentasse e pegou os papéis para a entrevista obrigatória que precedia a admissão de novos moradores.

— Nome?

Ele hesitou.

— Eu preciso escrever algum nome aqui, entendeu? — disse ela, dando a brecha de que muitos precisavam.

— Stig — respondeu ele, hesitante.

— Stig, está bem. De quê?

— Berger?

— Ok, Stig Berger. Data de nascimento?

Ele disse uma data, e ela calculou rapidamente que ele tinha 30 anos. Parecia bem mais jovem. Isso era uma das coisas muito estranhas a respeito de usuários. Era muito fácil errar a idade deles, para mais e para menos.

— Você veio por recomendação de alguém?

Ele balançou a cabeça.

— Onde dormiu esta noite?

— Embaixo de uma ponte.

— Então vou partir do princípio de que você não tem endereço fixo nem sabe qual das agências de Seguridade Social é a sua. Vou escolher o número 11, o dia do seu aniversário, e assim... — ela verificou a lista — ... você faz parte da Agência de Alna. Esperemos que eles, com toda a sua misericórdia, paguem por sua estadia aqui. Que tipo de drogas você usa?

Ela estava com a caneta pronta para anotar, mas ele não respondeu.

— Basta que você me diga seu prato predileto.

— Eu parei.

Ela soltou a caneta.

— O Centro Ila é destinado somente a usuários ativos. Eu posso telefonar e perguntar se há um lugar para você no centro da rua Sporvei. Inclusive, lá é até mais agradável do que aqui.

— Você quer dizer que...

— Sim, é isso mesmo. Só quem é usuário frequente pode ficar aqui. — Ela esboçou um sorriso cansado.

— E se eu disser que menti porque achava que era mais fácil conseguir um quarto se dissesse que não usava?

— Nesse caso eu diria “resposta correta”, mas agora não pode mais errar nenhuma, meu amigo.

— Heroína.

— E o que mais?

— Só heroína.

Ela marcou a resposta no formulário, mas duvidava que fosse verdade. Não existia praticamente mais ninguém em Oslo que usasse só heroína, pelo simples fato de que se você misturar a heroína de rua, que já é misturada, com benzodiazepinas, como, por exemplo, Rohypnol, você aproveita melhor o seu dinheiro, porque o efeito é mais intenso e dura mais.

— O que você deseja com sua estadia aqui?

Ele deu de ombros.

— Um teto.

— Alguma doença ou medicamentos especiais?

— Não.

— Você tem algum plano para o futuro?

Ele olhou para ela. O pai de Martha Lian dizia que o passado de uma pessoa está escrito em seus olhos, e que é possível aprender a lê-los. O futuro, não. Este, sim, é incerto. Apesar disso, no futuro Martha se lembraria daquele momento, e se perguntaria se teria conseguido, se deveria ter conseguido ler os planos futuros daquele homem chamado Stig Berger.

Ele negou, e continuou a balançar a cabeça enquanto Martha lhe fazia perguntas sobre trabalho, ensino, overdoses, doenças somáticas, infecções e problemas psiquiátricos. Por fim, ela disse que eles tinham uma cláusula de confidencialidade e que não contariam a ninguém que ele estava hospedado ali, mas que, se quisesse, poderia preencher um formulário de consentimento com o nome de algumas pessoas que poderiam ser informadas caso entrassem em contato com o centro à sua procura.

— Para que, por exemplo, seus pais, amigos ou namorada possam falar com você.

Ele sorriu melancolicamente.

— Não tenho ninguém.

Martha Lian ouvia essa resposta com frequência. Com tanta frequência, aliás, que já nem se impressionava mais. Seu psicólogo disse que ela sofria de compassion fatigue, fadiga por compaixão, e explicou que a maioria das pessoas em seu campo de trabalho seria, mais cedo ou mais tarde, afetada por isso. O que a preocupava era que ela parecia não melhorar. Obviamente, sabia que, se uma pessoa se preocupava com o próprio distanciamento, era porque esse distanciamento não era tão forte assim, mas a empatia sempre fora seu combustível. A compaixão. O amor. E esse poço estava prestes a secar. Por isso ela se assustou quando percebeu que as palavras não tenho ninguém a tocaram tanto, como uma agulha que faz com que um músculo atrofiado se contraia.

Juntou os papéis, colocou-os numa pasta, deixou-a na recepção e levou o novo hóspede ao depósito de roupas, no térreo.

— Espero que você não seja do tipo paranoico que não veste roupas que já pertenceram a outras pessoas — comentou ela, e ficou de costas enquanto ele tirava o casaco e vestia as roupas que recebera.

Esperou que ele tossisse para indicar que estava vestido e se virou. De alguma forma o garoto parecia mais alto e alinhado com um suéter azul-claro e uma calça jeans. Tampouco era tão magro quanto parecera com o casaco. Ele olhou para os tênis azuis lisos.

— É, eu sei — disse ela. — Tênis de morador de rua.

Na década de 1980, o Exército havia dado a instituições de caridade um grande número de tênis azuis, que tinham em excesso nos depósitos. Desde então, eles viraram uma característica marcante de desabrigados e viciados.

— Obrigado — disse ele, baixinho.

Esse foi o motivo para ela ter ido ao psicólogo pela primeira vez. Um morador que não tinha agradecido. Foi só mais um mal-agradecido da série de pessoas mal-agradecidas e autodestrutivas que só continuavam vivos graças ao Estado e às variadas instituições sociais que eles passavam boa parte do tempo xingando. Ela perdeu a paciência. Mandou que ele fosse para o inferno, e que se não gostava da espessura das agulhas descartáveis que recebia de graça, que voltasse ao seu quarto, pelo qual o governo pagava seis mil coroas por mês, e que injetasse lá a droga que comprara com o dinheiro de bicicletas que roubara no bairro. Ele apresentou uma queixa formal com quatro folhas anexas que contavam a história de sua vida de grande sofrimento. Ela teve que pedir desculpas.

— Vou levar você ao seu quarto.

A caminho do segundo andar, ela lhe indicou os chuveiros e os toaletes. Alguns homens passaram por eles a passos rápidos e com um olhar de drogado.

— Bem-vindo ao melhor centro comercial de drogas de Oslo — disse Martha.

— Aqui dentro? — perguntou o garoto. — É permitido traficar aqui?

— Não de acordo com as regras. Mas todos que usam têm drogas em sua posse. Só estou falando isso porque é bom saber, mas não nos importamos se você tem um grama ou um quilo no quarto. Não nos intrometemos com o que acontece nos quartos. Só entramos se houver suspeita de armas.

— E costuma haver?

Ela o olhou de soslaio.

— Por que você quer saber?

— Só quero saber se é perigoso morar aqui.

— Todos os traficantes daqui têm capangas que trabalham para eles. Usam de tudo para cobrar as dívidas, desde taco de beisebol até arma de fogo. Na semana passada achei um arpão embaixo de uma cama.

— Um arpão?

— É. Um Sting 65 carregado.

Ela mesma se surpreendeu quando riu, e ele sorriu. Ele tinha um sorriso agradável. Muitos deles tinham.

Ela destrancou a porta do quarto 323.

— Tivemos que fechar vários quartos por causa de um incêndio, então vocês vão ter que dividir até terminarmos o reparo. Seu companheiro de quarto se chama Johnny. Os outros o chamam de Johnny Puma. Ele tem síndrome de fadiga crônica e passa a maior parte do dia na cama, mas é um cara na dele, tranquilo. Acho que vocês não terão problemas.

Ela abriu a porta. Com as cortinas fechadas, estava muito escuro no quarto. Martha acendeu a luz. As lâmpadas fluorescentes piscaram duas vezes antes de se acenderem.

— É muito bom — comentou o garoto.

Martha olhou para o quarto. Ela nunca ouvira ninguém dizer seriamente que achava um quarto do Centro Ila bom, mas de certa forma ele tinha razão. Tudo bem, o chão de linóleo estava desbotado e as paredes azul-claras estavam tão cheias de buracos e desenhos que nem lixívia limparia, mas era de fato limpo e claro. O mobiliário consistia em um beliche, uma cômoda e uma mesa arranhada com a pintura descascada, mas tudo estava inteiro e funcionava bem. O ar ali dentro tinha o cheiro do homem que dormia na cama de baixo. O garoto havia dito que nunca sofrera overdose, então podia dormir na de cima. As camas de baixo eram destinadas a moradores mais propensos a overdoses, para facilitar colocá-los na maca caso estivessem inconscientes.

— Aqui está. — Martha entregou-lhe a chave. — Eu vou ser seu contato, o que significa que você deve falar comigo se precisar de alguma coisa, está bem?

— Obrigado. — Ele pegou o chaveiro com a etiqueta de plástico azul. — Muito obrigado mesmo.