O filho
Capítulo 29
— É madrugada — disse o médico, e esfregou os olhos. — Não prefere ir para casa e dormir um pouco? Tratamos disso amanhã.
— Não — respondeu Simon.
— Está bem. — O médico fez um sinal para que se sentasse em uma das cadeiras alinhadas ao longo da parede do corredor sem decoração do hospital.
Quando o médico se sentou ao seu lado e fez uma pausa antes de se inclinar em sua direção, Simon entendeu que tinha más notícias.
— Sua esposa não tem muito mais tempo. Para que haja alguma possibilidade de que a operação seja bem-sucedida, é preciso que ela seja operada nos próximos dias.
— E não há nada que vocês possam fazer?
O médico suspirou.
— Normalmente não recomendamos que pacientes viajem ao exterior para se submeter a procedimentos caros e privados, ainda mais quando o resultado da operação é incerto. Mas neste caso...
— Está dizendo que eu tenho que levá-la à Clínica Howell agora?
— Não estou dizendo que vocês têm que fazer nada. Muitos cegos levam uma vida plena, mesmo com a deficiência.
Simon assentiu enquanto passava os dedos na granada, que ainda levava no bolso. Tentou pensar. Mas era como se seu cérebro fugisse, procurasse refúgio pensando se deficiente não era uma palavra politicamente incorreta. Agora o certo não era “pessoas com necessidades especiais”? Ou será que isso (assim como “abrigo”) também já não se dizia mais? Tudo acontecia com tanta rapidez que Simon não conseguia mais acompanhar, e as palavras no setor de saúde e assistência ficavam azedas mais depressa que leite.
O médico pigarreou.
— Eu... — começou Simon, mas ouviu seu celular dar um toque.
Resolveu ver o que era, estava precisando de uma pausa. Não conhecia o número do remetente da mensagem.
Era relativamente curta.
Você pode encontrar as prisioneiras do Nestor na rua Enerhaug, 96.
Vá rápido. O Filho.
O Filho.
Simon digitou um número.
— Olhe, Simon — disse o médico —, eu não tenho tempo para...
— Não faz mal — cortou Simon, e fez um sinal para que ele ficasse calado quando ouviu uma voz sonolenta ao telefone:
— Falkeid.
— Oi, Sivert, aqui é Simon Kefas. Preciso de uma ação da Tropa de Choque na rua Enerhaug, 96. Em quanto tempo vocês conseguem chegar lá?
— Está no meio da madrugada.
— Não foi isso que eu perguntei.
— Trinta e cinco minutos. Você tem autorização do comissário?
— Pontius não está disponível no momento — mentiu Simon —, mas fique tranquilo, há motivos de sobra. Tráfico de mulheres. E o tempo é um fator determinante. Podem ir, eu me responsabilizo.
— Espero que você saiba o que está fazendo, Simon.
Simon desligou e olhou para o médico.
— Obrigado, doutor, vou pensar sobre o que você disse. Mas agora tenho trabalho a fazer.
* * *
Betty escutou os barulhos de sexo logo que saiu do elevador da cobertura.
— É sério, isso? — perguntou Betty.
— É a TV — respondeu o segurança que a acompanhava.
Haviam recebido reclamações dos quartos vizinhos, e Betty, como de costume, fizera uma anotação no caderno da noite da recepção: “2h13. Reclamação por barulho na suíte 4.” Ligara para a suíte mas não obtivera nenhuma resposta. Depois, entrara em contato com a segurança do hotel.
Ignoraram o cartaz de “Não perturbe” e bateram na porta com força. Esperaram. Bateram novamente.
— Você parece nervosa — disse o segurança.
— Eu tenho a impressão de que esse homem está envolvido com... alguma coisa.
— Alguma coisa?
— Drogas, ou sei lá o quê.
O segurança abriu o botão de segurança do porrete e se endireitou, enquanto Betty inseria a chave mestra na fechadura. Abriu a porta.
— Sr. Lae?
A sala estava vazia. Os barulhos de sexo vinham de uma mulher com um espartilho vermelho de couro com uma cruz branca, que devia servir para indicar que era enfermeira. Betty apanhou o controle remoto na mesa de centro e desligou a televisão, e o segurança foi para o quarto. As maletas haviam sumido. Ela viu copos vazios e meio limão no bar. O limão estava ressecado, e a polpa tinha uma cor marrom estranha. Abriu as portas do guarda-roupa. O paletó, a mala grande e a mochila vermelha também haviam sumido. Era o truque mais velho do manual de caloteiros: pendurar o “Não perturbe” na porta e ligar a TV para parecer que ainda havia alguém no quarto. Mas ele tinha pagado adiantado. E ela já havia checado, não deixara nenhuma conta pendente no bar nem no restaurante.
— Tem um cara no banheiro.
Ela se virou para o segurança, que estava à porta. Entrou depois dele no quarto.
O homem no banheiro parecia abraçar a latrina. Depois de uma inspeção mais minuciosa, ela viu que ele estava amarrado pelos pulsos. Usava um terno preto, tinha cabelo louro e não parecia totalmente sóbrio. Estava drogado. Com as pálpebras pesadas, piscava sonolento para eles.
— Me soltem — pediu ele, com um sotaque que Betty não conseguiu identificar de onde era.
Ela fez um sinal para o segurança, que pegou um canivete suíço e cortou as braçadeiras.
— O que aconteceu? — perguntou ela.
O homem ficou de pé. Oscilou levemente. Tinha dificuldades em focar o olhar mareado.
— Foi só uma brincadeira boba — murmurou ele. — Eu vou embora agora...
O segurança ficou no meio do vão da porta e impediu-lhe a passagem.
Betty olhou ao redor. Nada fora quebrado. A conta estava paga. Tudo o que eles tinham eram reclamações por televisão muito alta. Mas poderiam vir a ter problemas com a polícia, confusão com a imprensa e uma má fama como local de encontro para elementos duvidosos, se resolvesse fazer algo a respeito. Seu chefe a elogiara por sua discrição e por sempre colocar os interesses do hotel em primeiro lugar. Dissera que ela poderia ir longe, que a recepção era apenas uma parada temporária para alguém como ela.
— Deixe-o ir.
Lars Gilberg acordou com o barulho nos arbustos. Virou-se. Viu o contorno de uma figura em meio aos galhos e folhas. Alguém estava tentando roubar as coisas do garoto. Gilberg saiu do seu saco de dormir sujo e ficou de pé.
— Ei, você!
A pessoa parou. Virou-se. O garoto estava diferente. Não era só o paletó. Era algo no rosto. Parecia meio inchado.
— Obrigado por cuidar das minhas coisas — disse o garoto, e acenou para a sacola que levava debaixo do braço.
— Hmm — fez Gilberg, e inclinou a cabeça para ver se conseguia identificar melhor o que tinha mudado. — Você não está encrencado, está, garoto?
— Estou, sim.
O garoto sorriu. Mas havia algo estranho no sorriso. Algo pálido. Seus lábios tremiam. Parecia que tinha chorado.
— Precisa de ajuda?
— Não, mas obrigado por perguntar.
— Hmm, ainda vamos nos ver novamente, não é?
— Acho que não. Tenha uma vida boa, Lars.
— Pode deixar. E você... — Ele deu um passo à frente e colocou a mão no ombro do garoto. — Tenha uma vida longa. Promete?
O garoto assentiu rapidamente.
— Dê uma olhada embaixo do seu travesseiro — disse ele.
Gilberg se virou automaticamente para sua cama embaixo da ponte. Quando se virou novamente, mal viu as costas do garoto antes de ele ser engolido pela escuridão.
Voltou ao seu saco de dormir. Notou que havia um envelope embaixo do travesseiro. Apanhou-o. “Para Lars”, dizia. Ele abriu o envelope.
Lars Gilberg nunca tinha visto tanto dinheiro em toda a sua vida.
— Não era para a Tropa de Choque já ter chegado? — perguntou Kari, bocejando, e olhou para o relógio.
— Era, sim — disse Simon, e olhou para fora.
Tinham estacionado a cinquenta metros do número 96, do outro lado da rua. Era uma casa de madeira branca, de dois andares, uma das que tinham sido preservadas quando, nos anos 1960, as residências pitorescas da rua foram demolidas para dar lugar a quatro prédios residenciais. A casinha parecia tão sossegada e pacífica na noite de verão que Simon tinha dificuldades para imaginar que havia pessoas em cativeiro lá dentro.
— Estamos com a consciência um pouco pesada — disse Simon —, mas acho que cimento e vidro são mais apropriados para as pessoas de hoje em dia.
— Hã?
— Foi o que o diretor da construtora OBOS disse em 1960.
— Ah, sim. — Kari bocejou novamente. Simon perguntou-se se ele também deveria estar com a consciência um pouco pesada por tê-la tirado da cama no meio da madrugada. Afinal, não se podia dizer que ela era indispensável para aquela ação policial. — Por que é que a Tropa de Choque ainda não chegou?
— Não sei — disse Simon, e no mesmo instante o interior do carro foi iluminado pela tela do celular, que estava entre os assentos. Ele olhou para o número. — Mas logo saberemos. — Levou o telefone à orelha, devagar. — Pois não?
— Sou eu, Simon. Ninguém vai aparecer.
Simon ajeitou o retrovisor. Um psicólogo talvez pudesse explicar o que isso significava, mas fora uma reação automática à voz do outro. Simon fixou a vista no espelho, olhou para o que estava atrás.
— Por que não?
— Porque não há razão para autorizar a ação, não foi mostrada a necessidade, tampouco feita a tentativa de entrar em contato com as autoridades que podem autorizar o uso da Tropa de Choque.
— Mas você pode autorizar, Pontius.
— Posso. E já disse que não vou.
Simon xingou em silêncio.
— Escute aqui...
— Não, escute você. Já avisei para Falkeid cancelar a ação e disse que ele e sua equipe voltassem para a cama. O que está aprontando, Simon?
— Tenho motivo para crer que há pessoas mantidas em cativeiro na rua Enerhaug, 96. Honestamente, Pontius, isso é...
— Honestidade é bom, Simon. Lembre-se disso antes de ligar para o comandante da Tropa de Choque.
— Não havia tempo para discutir. Não há tempo. Você costumava confiar nas minhas decisões.
— Seu uso do pretérito é correto, Simon.
— Quer dizer que não confia mais em mim?
— Você apostou todo o seu dinheiro e perdeu, já esqueceu? Perdeu até o dinheiro da sua esposa. O que acha que isso diz sobre as suas decisões?
Simon cerrou os dentes. Houvera um tempo em que não era tão fácil prever qual dos dois ganharia uma discussão, tiraria as melhores notas ou ficaria com a garota mais bonita. A única certeza era que estavam juntos, atrás do terceiro homem da troica. Mas agora este estava morto. E, embora Simon pensasse melhor e mais rápido, Pontius Parr sempre tivera uma vantagem: pensava a longo prazo.
— Tratamos disso amanhã cedo — disse o comissário de polícia, com a autoconfiança que fazia com que as pessoas hoje em dia pensassem que Pontius sabia mais. Inclusive ele próprio. — Se você recebeu uma denúncia de tráfico nesse endereço, ainda vão estar aí amanhã. Agora, é melhor ir dormir.
Simon abriu a porta do carro, saiu e sinalizou para Kari permanecer sentada. Fechou a porta e andou alguns metros. Falou ao telefone em voz baixa:
— Não posso esperar. É urgente, Pontius.
— Por que você acha isso?
— A denúncia.
— E de onde veio a denúncia?
— Foi uma mensagem... anônima. Eu vou entrar.
— O quê? Nem pensar! Pare, Simon. Alô, você está ouvindo?
Simon olhou para o telefone. Levou-o à orelha novamente.
— Decisão tomada por policial presente no local. Lembra que aprendemos isso, Pontius? Que a decisão tomada no local sempre supera a ordem de quem não está presente?
— Simon! A cidade já está muito caótica do jeito que está. O governo e a imprensa estão nos pressionando por causa desses homicídios. Não dê um passo maior que a perna, Simon, ouviu? Simon!
Simon encerrou a ligação, desligou o celular e destrancou o porta-malas. Abriu a caixa de armas. Apanhou a espingarda, a pistola e as caixas de munição. Pegou os dois coletes à prova de balas que estavam soltos no bagageiro e voltou para dentro do carro.
— Vamos entrar — disse ele, e deu a espingarda e um colete para Kari.
Ela hesitou.
— Era o comissário ao telefone?
— Era — respondeu Simon, e verificou se o carregador da Glock-17 estava cheio. Colocou-o de volta no lugar. — Pode me dar a granada de atordoamento e as algemas que estão no porta-luvas?
— Granada?
— Fruto da ação da Tropa de Choque no Centro Ila.
Ela lhe deu suas algemas Peerless e a granada.
— E ele permitiu que a gente entre?
— Digamos que ele foi informado — disse Simon, e vestiu o colete de chumbo.
Kari abriu a espingarda e colocou os cartuchos com movimentos rápidos e experientes.
— Caço faisão desde os 9 anos. — Pelo visto, ela havia percebido o olhar de Simon. — Mas prefiro rifle. Então, como vamos fazer?
— No três — disse Simon.
— Quis dizer como é que vamos...
— Três. — Simon abriu a porta do carro.
O hotel Bismarck ficava bem no centro de Oslo. O pequeno estabelecimento estava localizado em Kvadraturen, berço da cidade, no cruzamento entre o mercado de drogas e o de prostituição. E alugava quartos por hora. O preço incluía toalhas, que já estavam rígidas de tanta lavagem. Os quartos não haviam sido redecorados desde que o novo dono assumira o local, dezesseis anos antes, mas as camas precisavam ser trocadas, em média, todo ano, em razão de danos provocados pelo uso constante.
Então quando Ola, que era filho do dono e trabalhava na recepção desde os 16 anos, tirou os olhos do monitor e viu, às 3h02, o homem que estava ao balcão, foi apenas normal que ele tenha imaginado que o homem estivesse no endereço errado. Não somente porque estava vestindo um terno bonito, tinha duas maletas e uma mochila vermelha, mas porque não estava acompanhado de nenhuma mulher, nem homem. No entanto, ele insistiu em pagar adiantado por uma semana, recebeu a toalha com as duas mãos e agradeceu quase que humildemente, antes de se dirigir ao quarto do segundo andar.
Então Ola voltou a ler o site do jornal Aftenposten sobre a onda de homicídios em Oslo, especulações sobre uma guerra de gangues e como isso podia estar relacionado com o prisioneiro que fugira da Staten. Parou e observou a foto por um instante. Clicou em outra página.
Simon parou na frente da escada da casa e sinalizou para Kari, indicando que deveria estar com a arma pronta e olhar para a janela do primeiro andar. Em seguida, subiu os três degraus e bateu de leve na porta com o nó do dedo indicador. Sussurrou “polícia”. Depois, olhou para Kari para se assegurar de que ela podia testemunhar que ele seguira o procedimento. Bateu de leve mais uma vez. Sussurrou “polícia” novamente. Então agarrou o cano da pistola com firmeza e se inclinou para quebrar o vidro da janela ao lado da porta. Estava com a granada pronta na outra mão. Tinha um plano. Claro que tinha um plano. Pelo menos um tipo de plano. Um plano que dizia que surpresa e rapidez eram tudo. Um plano que apostava tudo em uma carta só. Como sempre fizera. E isso, o jovem psicólogo explicara, sempre fora o problema dele. Pesquisas mostravam que as pessoas sistematicamente exageram a probabilidade de algo improvável acontecer. Como um acidente de avião, por exemplo. Ou que seu filho seja estuprado ou sequestrado a caminho da escola. Ou que o cavalo no qual você apostou todas as economias da sua esposa chegue em primeiro lugar pela primeira vez na carreira. O psicólogo dissera que havia algo no inconsciente de Simon que era mais forte que a razão, que bastava identificar e depois entrar em diálogo com a doença, com o ditador maluco que aterrorizava e destruía sua vida. Que ele precisava procurar algo que fosse importante na sua vida. Mais importante que o ditador. Algo que amasse mais do que ao jogo. Era isso. Era Else. E ele tinha conseguido. Havia enfrentado a fera e a domara. Nunca mais tivera nenhum deslize. Pelo menos não até agora.
Respirou fundo. Já ia quebrar a janela com a pistola quando a porta se abriu.
Simon girou desorientado com a pistola na frente de si. Não foi tão rápido como costumava ser. Não tinha nem chance. Não teria nenhuma chance se o homem à porta tivesse uma arma.
— Boa noite — foi só o que o homem disse.
— Boa noite — disse Simon, e tentou se recompor. — Polícia.
— Em que posso ajudá-los?
O homem abriu a porta inteira. Ele estava completamente vestido. Calça jeans justa. Camiseta. Descalço. Nenhum lugar onde pudesse esconder uma pistola.
Simon colocou a granada no bolso e mostrou-lhe o distintivo.
— Tenho que pedir que saia e se coloque contra essa parede aqui. Agora.
O homem deu de ombros, tranquilamente, e fez como Simon mandou.
— Além das garotas, quantas pessoas estão na casa? — perguntou Simon, revistando o homem rapidamente e comprovando que estava desarmado.
— Garotas? Estou sozinho aqui. O que vocês querem?
— Me mostre onde estão.
Ele algemou o homem, empurrou-o para dentro e sinalizou para Kari entrar também. O homem disse algo.
— O quê?
— Eu disse que sua colega pode entrar também. Não tenho nada a esconder.
Simon ficou parado atrás do homem. Fixou o olhar em sua nuca. Viu uma leve contração muscular, como em um cavalo nervoso.
— Kari? — chamou Simon.
— Sim?
— Pensando bem, é melhor você ficar aí fora. Vou entrar sozinho.
— Ok.
Simon colocou a mão no ombro do homem.
— Comece a andar e não faça nenhum movimento brusco, pois estou com uma pistola nas suas costas.
— O que vocês...
— Aceite que eu, por enquanto, acredito que você seja um criminoso e posso atirar em você; depois você pode vir a receber meu incondicional pedido de desculpas.
O homem entrou no corredor sem mais protestos. Simon constatou automaticamente coisas que podiam lhe dizer algo sobre o que havia na casa. Quatro pares de sapato no chão. Ou seja, o homem não morava sozinho. Uma tigela de plástico com água e um tapete ao lado da porta da cozinha.
— O que aconteceu com o cachorro? — perguntou Simon.
— Que cachorro?
— É você que bebe daquela tigela?
O homem não respondeu.
— Cachorros costumam latir quando estranhos se aproximam da casa. Então, ou é um péssimo cão de guarda, ou...
— Ele está no canil. Para onde é que vamos?
Simon olhou ao redor. Não havia grades nas janelas, a porta da frente tinha apenas uma fechadura simples com a maçaneta do lado de dentro. Elas não estavam presas ali.
— Para o porão — respondeu Simon.
O homem deu de ombros. Seguiu pelo corredor. Simon sabia que tinha acertado na mosca quando viu o homem abrir a porta do porão. Tinha dois cadeados.
Sentiu o cheiro quando estava descendo a escada, o que confirmou o que já sabia. Que havia pessoas presas ali. Muitas. Segurou a pistola com mais força.
Mas não havia ninguém.
— Para que isso é usado? — perguntou Simon enquanto passavam por celas separadas por redes de aço, em vez de paredes.
— Nada de mais — disse o homem. — O cachorro fica aqui. E também guardo colchões, como você pode ver.
O cheiro era ainda mais forte ali embaixo. As garotas deviam ter estado ali fazia pouco tempo. Droga, tinham chegado tarde demais. Mas devia ser possível achar DNA nos colchões. Tudo bem, mas o que isso provava? Apenas que alguém havia estado em um colchão agora guardado num porão.
Seria estranho se não achassem DNA em colchões velhos. Eles não tinham nenhuma prova. Apenas uma entrada não autorizada. Merda, merda.
Simon viu um pequeno tênis sem cadarço no chão, ao lado de uma porta.
— Para onde é que aquela porta leva?
O homem deu de ombros.
— Só para a garagem.
Só. Ele tentara enfatizar a irrelevância da porta. Da mesma forma que enfatizara que Kari também poderia entrar.
Simon foi até a porta e a abriu. Viu a lateral de uma van branca que estava no caminho asfaltado entre a casa e a cerca da casa vizinha.
— Para que a van é utilizada? — perguntou Simon.
— Sou eletricista — respondeu o homem.
Simon deu alguns passos para trás. Agachou-se e apanhou o tênis do chão. Tamanho 36. Menor que o número que Else calçava. Colocou a mão dentro. Ainda estava morno. Não podiam ter se passado mais do que poucos minutos desde que alguém o tinha perdido. Naquele mesmo momento ele ouviu um som. Abafado, silenciado, mas inconfundível. Um latido. Olhou para a van. Já ia se levantar, mas levou um chute na lateral do corpo e caiu enquanto ouvia o homem gritar:
— Vai, vai! Acelera!
Simon conseguiu se virar e apontou a pistola para o homem, mas ele já estava de joelhos com as mãos atrás da cabeça, completamente rendido. O motor do carro foi ligado, com rotação tão alta que guinchava. Simon se virou para o outro lado e viu cabeças nos bancos da frente; as garotas haviam se escondido no veículo.
— Parem! Polícia!
Simon tentou se levantar, mas sentia muita dor. O homem devia ter quebrado sua costela. Antes que pudesse apontar a arma, a van já estava partindo, sumindo de vista. Mas que merda!
Ouviu-se um estrondo e o barulho de vidro quebrado.
O guincho do motor se calou.
— Fique aqui — ordenou Simon, que se levantou com um gemido e saiu da casa, meio cambaleante.
A van estava parada. Ouvia gritos e latidos frenéticos vindo de dentro.
Mas foi daquilo que viu na frente da van que Simon tirou uma foto mental para seu livro de recordações. Kari Adel com um sobretudo preto de couro, iluminada pelos faróis de uma van sem para-brisas, o cabo da espingarda apoiado logo abaixo do ombro e a mão embaixo do cano da espingarda, de onde ainda saía fumaça.
Simon foi até a lateral da van e abriu a porta do motorista.
— Polícia!
O homem ao volante não respondeu, apenas olhava para a frente em estado de choque, o sangue escorrendo da testa. Seu colo estava cheio de vidro quebrado. Simon deixou a própria dor de lado, arrancou o homem do carro e o levou ao chão.
— Nariz no asfalto e mãos atrás da cabeça! Agora!
Então contornou a van e deu o mesmo tratamento ao homem no banco do passageiro, que estava tão apático quanto o motorista.
Depois disso, Simon e Kari foram para a porta do compartimento de carga. Ouviam o cachorro latir e rosnar lá dentro. Simon agarrou a maçaneta, e Kari foi para a porta lateral, a espingarda em posição.
— Parece que ele é grande — comentou Simon. — Talvez seja melhor você ir mais para trás.
Ela assentiu e fez como ele disse. Então ele abriu a porta.
O monstro branco disparou de dentro do carro e voou direto para Kari, a boca aberta, rosnando. Aconteceu tão rápido que ela nem teve tempo de atirar. O animal caiu no chão, na frente dela, e ali ficou.
Simon olhava estupefato para a própria pistola fumegante.
— Obrigada — agradeceu-lhe Kari.
Eles se viraram para a van. No compartimento de carga, olhos arregalados e amedrontados os encaravam.
— Police — disse Simon. Quando percebeu que as expressões faciais não indicavam que tinham escutado boas notícias, acrescentou: — Good police. Vamos ajudar vocês.
Pegou o celular e ligou. Pôs o aparelho contra a orelha e olhou para Kari.
— Você pode ligar para a central de operações e pedir para mandarem carros de patrulha?
— E para quem você está ligando?
— Para a imprensa.