O filho

Jo Nesbo · Capítulo 18 de 44

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O filho

Capítulo 18

 

No começo da tarde, o tempo chuvoso enxaguou a cidade sem que esfriasse de forma perceptível. Quando o sol conseguiu passar por entre a camada de nuvens que o escondia, era como se quisesse compensar o tempo perdido; escaldou a capital com uma luz branca que fez com que o mormaço subisse dos telhados e das ruas.

Louis acordou quando o sol estava tão baixo que os raios atingiram seus olhos. Olhou atentamente para o mundo. Para as pessoas e os carros que passavam de um lado para o outro em frente a ele e sua caneca de esmolas. Os negócios iam bem, até alguns anos antes, quando os ciganos começaram a vir da Romênia. Depois, vieram mais. E depois muitos mais, até haver um enxame deles. Uma praga de mendigos, trapaceiros e ladrões. E, assim como gafanhotos, deveriam ser combatidos com todos os meios necessários. Essa era a simples opinião de Louis: que mendigos noruegueses — assim como empresas de transporte marítimo norueguesas — deveriam ter certa proteção do Estado contra a concorrência internacional. Do jeito que as coisas estavam, ele tinha que recorrer a assaltos com cada vez mais frequência. Algo que não somente era cansativo, como também abaixo de sua dignidade.

Suspirou e empurrou a caneca de esmolas com o dedo sujo. Ouviu um barulho, indicando que havia algo ali. Não eram moedas. Cédulas? Era melhor apanhá-las logo, antes que um dos ciganos roubasse. Olhou para dentro da caneca. Piscou duas vezes, surpreso. Então pegou o objeto. Era um relógio. Parecia feminino. Rolex. Só podia ser falsificado. Mas era pesado. Muito pesado. Será que tinha gente que realmente andava por aí com uma coisa tão pesada no pulso? Ouvira dizer que relógios Rolex funcionavam até cinquenta metros de profundidade, o que poderia vir a ser útil para alguém que fosse nadar com um relógio. Será que era mesmo...? Era possível. Tem louco para tudo, sem dúvida. Ele conhecia o relojoeiro no fim da rua, tinham sido colegas de classe. Talvez ele pudesse...

Louis se levantou com as pernas bambas.

 

Kine estava fumando ao lado do seu carrinho de compras. Mas quando o sinal de pedestres ficou verde e as pessoas ao seu lado começaram a andar, continuou parada. Mudou de ideia. Não iria atravessar a rua hoje. Então ficou ali e terminou de fumar seu cigarro. O carrinho, ela tinha roubado da Ikea fazia muito, mas muito tempo. Apenas o levou da loja e o colocou na van, no estacionamento. Levou o carrinho, uma cama Hemnes, uma mesa Hemnes e algumas prateleiras Billy para o lugar onde ela acreditava estar o futuro deles. O futuro dela. Ele montou os móveis, e em seguida os dois injetaram juntos. Ele agora estava morto, ela não. Não era mais viciada, e acreditava que conseguiria se manter assim. Mas já não dormia na cama Hemnes fazia muito tempo. Pisou na bituca do cigarro e agarrou a alça do carrinho da Ikea novamente. Percebeu que alguém — provavelmente um dos outros pedestres — pusera uma bolsa de plástico em seu cobertor de lã sujo, que estava no topo do carrinho. Irritada, ela apanhou a bolsa. Não era a primeira vez que confundiam o carrinho que continha seus bens pessoais com uma lata de lixo. Ela se virou, pois sabia a localização de todas as lixeiras de Oslo, e sabia que havia uma logo ali atrás. Mas então hesitou. O saco estava tão pesado que a deixou curiosa. Ela o abriu. Colocou a mão dentro e levantou seu conteúdo na luz da tarde. Tudo brilhava e cintilava. Eram joias. Colares e um anel. Os colares eram de diamantes, e o anel, de ouro. Ouro de verdade. Diamantes de verdade. Kine tinha quase certeza, pois já vira aquele tipo de coisa. Afinal, tinha nascido em berço de ouro.

 

* * *

 

Johnny Puma arregalou os olhos, sentiu o pavor se aproximando e se virou na cama. Não escutou ninguém entrar no quarto, mas agora ouvia a respiração ofegante. Será que era Coco? Se bem que aquele ofegar parecia mais alguém transando do que alguém que viera para cobrar dívidas. Uma vez havia um casal que morava junto no centro. A direção devia acreditar que eles precisavam tanto um do outro que abriram uma exceção para a regra de que só eram permitidos homens. Ele, pelo menos, com certeza precisava dela. Era ela que ia de quarto em quarto para financiar o consumo de drogas dos dois, até o dia em que a direção descobriu e a expulsou.

Era o morador novo. Estava deitado no chão, de costas para Johnny, e Johnny ouvia um pouco do som que vinha dos seus fones de ouvido: uma faixa de ritmo sintética e uma voz robótica e monótona. O garoto estava fazendo flexões. Em seus dias de glória, Johnny podia fazer centenas delas, com um braço só. O garoto era forte, sem dúvida, mas lhe faltava força, já estava deixando as costas caírem. Na luz que penetrava o quarto por entre as cortinas e batia na parede, Johnny viu uma foto que o garoto devia ter pregado. Um homem em uniforme de polícia. Também viu outra coisa, no parapeito da janela. Um par de brincos. Pareciam caros. Onde será que ele os tinha roubado?

Se eram mesmo tão caros quanto pareciam, poderiam solucionar seus problemas. Corriam boatos de que Coco sairia do centro amanhã e que seus capangas estavam cobrando a dívida de todos. Johnny não teria muito tempo para conseguir dinheiro. Tinha pensado em arrombar uma das casas em Bislett, pois havia muita gente de férias. Bastava tocar a campainha e ver quem não atendia. Mas isso exigia muito esforço. Roubar os brincos era mais fácil e mais seguro.

Ele ponderou sair da cama sorrateiramente e pegá-los, mas logo mudou de ideia. Com força ou não, corria o risco de levar uma surra. Doía só de pensar. Mas podia tentar distraí-lo, fazer com que saísse do quarto e aproveitar para pegar os brincos. De repente, eles trocaram olhares. O garoto tinha se virado e estava fazendo abdominais. Ele sorriu.

Johnny sinalizou que queria dizer algo, e o garoto tirou os fones. Johnny ouviu as palavras “... now I’m clean” na música antes de começar:

— Você pode me ajudar lá no refeitório? Aliás, você precisa comer depois de treinar. Se o corpo não tiver gordura nem carboidrato para queimar, vai começar a consumir proteína. E todo esse esforço será em vão.

— Obrigado pela dica, Johnny. Vou só tomar um banho primeiro, mas pode ir se preparando.

O garoto se levantou, colocou os fones no bolso e saiu em direção aos chuveiros coletivos.

Merda! Johnny fechou os olhos. Será que tinha energia para isso? Tinha que ter. Só dois minutinhos. Ele contou os segundos. Sentou-se no canto da cama. Tomou impulso. Levantou-se. Apanhou a calça na cadeira. Estava se vestindo quando bateram na porta. O garoto devia ter esquecido a chave. Johnny foi mancando até a porta e a abriu.

— Eu já falei que você...

Um punho cerrado com um soco-inglês aterrissou na testa de Johnny e ele caiu para trás. A porta se abriu, e Coco e dois dos seus capangas entraram. Os capangas o levantaram, e Coco deu-lhe uma cabeçada, fazendo com que Johnny batesse com a nuca no beliche. Quando olhou para a frente outra vez, deu de cara com os olhos feios e cheios de rímel de Coco, e para a ponta reluzente de um canivete.

— Tenho tempo sobrando não, Johnny — disse Coco, em seu norueguês ruim. — Uns têm dinheiro, não pagam. Você, sei que não tem. Vai servir de exemplo.

— E-exemplo?

— Eu sou bom, Johnny. Só um olho.

— Mas... Por favor, Coco! Não...

— Não se mexe, senão estraga o olho. Vamos mostrar pros outros vagabundos daqui. Eles têm que ver que é real, entende?

Johnny começou a gritar, mas o grito logo foi interrompido pela mão de um dos capangas sobre sua boca.

— Calma, Johnny. Pouco nervo no olho. Vai doer pouco. Prometo.

Johnny sabia que o medo deveria lhe dar forças para resistir, mas, ao invés disso, apenas o deixou dormente. Johnny Puma, que um dia levantara carros, apenas olhava apático para a ponta do canivete que se aproximava.

— Quanto? — A voz soou suave, quase como um sussurro.

Eles se viraram para a porta. Ninguém o ouvira entrar. Seu cabelo estava molhado, e usava apenas uma calça jeans.

— Fora daqui! — exigiu Coco em voz baixa porém agressiva.

O garoto ficou parado.

— Quanto ele deve?

— Agora! Senão, canivete para você primeiro.

Ainda assim, o recém-chegado não se mexeu. O capanga que estava tapando a boca de Johnny foi na direção dele.

— Ele... ele roubou os meus brincos — disse Johnny. — É verdade! Estão no bolso da calça dele! Eu roubei para pagar minha dívida, Coco. É só revistar ele, você vai ver! Por favor, Coco!

Johnny podia ouvir a própria voz de choro, mas não se importou. E Coco parecia nem estar ouvindo, apenas olhava para o garoto. Parecia estar gostando do que via, o pervertido. Coco fez um sinal para que seu capanga parasse e perguntou baixinho:

— É verdade o que o Johnny está dizendo, bonitão?

— Você pode tentar descobrir — disse o garoto —, mas, se eu fosse você, diria quanto ele deve. Assim teremos menos problemas, e menos bagunça.

— Doze mil — respondeu Coco —, mas por que...

Ele parou de falar quando o garoto enfiou a mão no bolso da calça, pegou um pequeno maço de cédulas e começou a contar alto. Quando chegou a doze, deu as notas para Coco e guardou o restante de volta no bolso.

Coco hesitou em recebê-las. Como se houvesse algo errado com o dinheiro. Em seguida, riu. Abriu a boca e revelou o ouro que tinha colocado para substituir dentes perfeitamente saudáveis.

— Porra, cara. Porra!

Então pegou o dinheiro. Contou.

— Tudo certo? — perguntou o garoto, não com aquela cara petrificada dos traficantes de hoje em dia, que viram muitos filmes. Pelo contrário, ele estava sorrindo. Sorrindo como garçons costumavam sorrir para Johnny no tempo em que ele comia em bons restaurantes e lhe perguntavam se estava satisfeito com a refeição.

— Tudo certo — disse Coco.

Johnny se deitou na cama e fechou os olhos. Ainda pôde ouvir a risada de Coco muito depois de fecharem a porta e desaparecerem pelo corredor.

— Não se preocupe, Johnny — disse o garoto. Johnny conseguia ouvi-lo apesar de tentar bloquear sua voz. — Eu faria a mesma coisa se fosse você.

Mas você não é, pensou Johnny, e o choro ainda estava lá, em algum lugar entre o pescoço e o peito. Você não foi Johnny Puma, e depois deixou de sê-lo.

— Vamos lá no refeitório, Johnny?

 

O brilho do monitor do computador era a única luz no cômodo. Os sons vinham do outro lado da porta, que Simon tinha deixado entreaberta. Um rádio com o volume baixo na cozinha, e Else, que não parava quieta. Ela havia crescido no campo; sempre tinha alguma coisa para arrumar, lavar, organizar, mudar de lugar, plantar, costurar ou assar. O trabalho nunca terminava. Não importava o quanto ela fizesse em um dia, o outro dia sempre estava cheio de afazeres. Por isso era importante trabalhar com constância, sem pressa, para não machucar as costas. Era o som tranquilizante de alguém que dá significado às suas atividades e sente prazer em fazê-las. O som de pulsação tranquila e de contentamento. De certa forma, ele a invejava. Mas também estava atento para ver se ouvia outros sons; passos vacilantes e coisas caindo no chão. Se isso acontecesse, esperaria para ver se ela tinha tudo sob controle. E se ouvisse que tudo deu certo, não perguntaria o que aconteceu. Deixaria que ela acreditasse que ele não ouvira nada.

Estava lendo os arquivos de Per Vollan na rede interna do Departamento de Homicídios. Kari escrevera uma quantidade impressionante, era muito eficiente. Mas mesmo assim, enquanto os lia, achava que faltava algo. Em linhas gerais, mesmo os relatórios policiais mais burocráticos e formais não conseguiam esconder a paixão de um inspetor entusiasmado. Os relatórios dela eram um exemplo de como um relatório policial deveria ser: objetivo e imparcial. Nenhuma afirmação tendenciosa ou preconceito por parte do autor. Eram frios e sem vida. Simon leu os interrogatórios para ver se surgia algum nome interessante entre eles. Nada. Olhou para a parede. Pensou em duas palavras. Nestor. Arquivado. Em seguida, procurou o nome de Agnete Iversen no Google.

As manchetes sobre o homicídio apareceram na tela:

FAMOSA EMPRESÁRIA BRUTALMENTE ASSASSINADA BALEADA E ROUBADA

NA PRÓPRIA CASA

 

Clicou em uma das matérias. Havia uma citação do inspetor Åsmund Bjørnstad, da coletiva de imprensa da polícia, em Bryn. “Nossa equipe descobriu que, apesar de Agnete Iversen ter sido encontrada na cozinha, provavelmente foi baleada na entrada da casa.” E mais embaixo: “Diversos fatos indicam que se trata de um roubo, mas é muito cedo para excluir outras possibilidades.”

Simon direcionou o cursor do mouse para as notícias mais antigas. Quase todas eram referentes ao setor financeiro. Agnete Iversen era filha de um dos maiores donos de propriedades de Oslo, tinha MBA em economia pela Faculdade de Wharton, na Filadélfia, e assumira a gestão e o portfólio da empresa ainda relativamente jovem. Depois de se casar com Iver Iversen, que também era economista, deixou que ele dirigisse a empresa. Um dos jornalistas financeiros a descrevia como uma verdadeira gestora, refinada, que administrava os bens de maneira eficiente e lucrativa. Já seu marido tinha um estilo mais agressivo, comprava e vendia com maior frequência, o que envolvia mais riscos, porém lucros maiores. Outra matéria, de dois anos antes, mostrava uma foto de Iver Jr. com a manchete: HERDEIRO MILIONÁRIO E SUA VIDA JET SET EM IBIZA. Bronzeado, sorriso no rosto, dentes brancos e olhos vermelhos do flash da câmera, suado, com uma garrafa de champanhe em uma das mãos e uma loura igualmente suada na outra. Outra matéria do setor financeiro, esta de três anos antes: Iver trocando um aperto de mãos com o secretário da Fazenda de Oslo, quando foi anunciado que a Iversen Empreendimentos Imobiliários havia comprado um bilhão de coroas em propriedades da prefeitura.

Simon ouviu abrirem a porta. Uma xícara fumegante de chá foi posta na frente dele.

— Como está escuro aqui — comentou Else.

Ela pôs a mão nos ombros dele para massageá-lo. Ou apenas para se apoiar.

— Ainda estou esperando que me conte o resto — disse Simon.

— O resto de quê?

— Do que o médico falou.

— Eu já falei ao telefone. Você já começou a ficar esquecido, querido?

Ela riu baixinho e lhe deu um beijo leve na cabeça. Ele suspeitava que ela o amava.

— Você disse que ele não podia fazer muita coisa.

— Foi.

— E...?

— E o quê?

— Eu conheço você muito bem, Else. Ele disse algo mais.

Ela se afastou. Manteve apenas uma das mãos no ombro dele. Simon esperou.

— Ele disse que está surgindo um novo tipo de cirurgia nos Estados Unidos. Que há esperança para os que vierem depois de mim.

— Depois?

— Quando o procedimento e os equipamentos forem padronizados. Mas pode levar alguns anos. Hoje em dia a cirurgia é complicada e custa uma fortuna.

Simon girou na cadeira tão depressa que ela teve que dar um passo para trás. Ele segurou suas mãos.

— Mas isso é uma notícia fantástica! Quanto custa?

— Mais do que uma mulher com bolsa por deficiência e um homem com salário de policial podem pagar.

— Else, escute. Não temos herdeiros. Esta casa é nossa, e não temos mais nada com que gastar nosso dinheiro. Somos econômicos...

— Pare, Simon. Você sabe muito bem que não temos dinheiro. E a casa ainda não está quitada.

Simon engoliu em seco. Ela não mencionou por que a casa ainda não estava quitada: as dívidas que ele acumulara em jogos. Como de costume, tivera a consideração de não lembrá-lo de que ainda pagavam pelos pecados dele. Simon apertou as mãos dela.

— Vou pensar em alguma coisa. Tenho amigos que podem nos emprestar dinheiro. Confie em mim. Quanto custa?

— Você tinha amigos, Simon, mas nunca mais falou com eles. Eu já disse, é preciso alimentar a relação. Senão, perdemos contato com as pessoas.

Simon suspirou. Deu de ombros.

— Eu tenho você.

Ela balançou a cabeça.

— Eu não sou suficiente, Simon.

— É, sim.

— Eu não quero ser suficiente. — Ela se curvou e deu-lhe um beijo na testa. — Estou cansada, vou me deitar.

— Ok, mas quanto cust...

Ela já havia saído.

Simon ficou olhando para ela. Por fim, desligou o computador e apanhou o celular. Percorreu a lista de contatos. Velhos amigos. Velhos inimigos. Alguns eram úteis, a maioria, não. Digitou o número de um que pertencia à segunda categoria. Inimigo. Porém útil.

Como esperado, Fredrik Ansgar se surpreendeu com a ligação, mas fingiu alegrar-se e concordou em encontrá-lo. Nem tentou fingir que não tinha tempo.

Depois que desligaram, Simon permaneceu no escuro, olhando para o telefone. Pensou no sonho. Daria sua visão para ela. Depois, percebeu para o que estava olhando. A foto de uma pegada no canteiro de flores.

 

— O rango está bom — disse Johnny, e limpou a boca. — Você não vai comer?

O garoto sorriu e balançou a cabeça.

Johnny olhou ao redor. O refeitório era um lugar com cozinha aberta, balcões onde a comida era servida, uma seção de self-service e algumas mesas, todas ocupadas no momento. Normalmente fechava cedo, mas, devido à reforma do Local de Encontro, a cafeteria da Missão Urbana para usuários de drogas, na rua Skipper, tinham estendido o horário de funcionamento. Portanto, nem todos os que estavam ali eram moradores do Centro Ila, mas a maioria já havia sido, por isso Johnny reconhecia todos os rostos.

Johnny tomou um gole de café. Viu que todos no local se observavam. Era sempre a mesma história: a caça e a paranoia. Era como em um poço natural na savana, eles eram todos animais; ora predadores, ora presas. Com exceção desse garoto. Parecia tranquilo. Até agora. Johnny seguiu seu olhar até a porta atrás da cozinha, de onde Martha saía da sala dos funcionários. Ela havia vestido o casaco, estava obviamente a caminho de casa. Johnny viu que as pupilas do garoto se dilataram. Observar pupilas era algo que usuários de drogas faziam automaticamente. Será que ele é usuário, está sob efeito da droga, é perigoso? Da mesma maneira como se observa onde as mãos dos outros estão. Mãos que podem roubar ou puxar uma faca. Ou mãos que, em uma situação de perigo, automaticamente protegem o lugar onde a droga ou o dinheiro estão guardados. Agora mesmo, as mãos do garoto estavam no bolso da calça. O mesmo bolso em que tinha posto os brincos. Johnny não era idiota. Bom, na verdade era, sim, mas só no que dizia respeito a algumas coisas. Martha entra, pupilas se dilatam. Mãos no bolso. Brincos.

A cadeira arrastou no chão quando o garoto se levantou de repente com um olhar febril fixado nela.

Johnny pigarreou.

— Stig...

Mas era tarde demais. Ele já dera as costas para Johnny e começara a andar na direção dela.

Naquele mesmo momento a porta se abriu e entrou um homem que se distinguia completamente dos outros ali presentes. Jaqueta de couro preta e curta, cabelo curto e escuro. Ombros largos e olhar focado. Com um movimento irritado, ele empurrou um morador do centro que estava parado no meio do caminho, curvado na posição típica de viciado. Acenou brevemente para Martha, que retribuiu o aceno. Johnny viu que o garoto tinha percebido isso. Notou que o garoto parou, como se tivesse perdido o vento de suas velas, enquanto Martha continuava em direção à porta. Viu que o homem em frente à porta pôs as mãos no bolso da jaqueta e virou o cotovelo para que ela pudesse enfiar o braço no dele. O que ela fez. O tipo de movimento ensaiado que se vê em pessoas que já estão juntas há um bom tempo. Eles desapareceram na ventania da noite, que de repente tinha ficado fria.

O garoto ficou paralisado no meio do refeitório, como se precisasse de tempo para digerir a informação. Johnny viu que todas as cabeças se viraram e o analisaram. Ele sabia o que estavam pensando.

Uma presa.

 

Johnny acordou com o barulho de choro.

Por um momento pensou na assombração, no bebê. Pensou que estava lá.

Depois percebeu que o choro vinha da cama de cima. Virou-se de lado. A cama começou a tremer. O garoto chorava tanto que soluçava.

Johnny se levantou e ficou na frente da cama. Colocou a mão nos ombros do garoto, que tremia como uma folha. Johnny acendeu a luz de leitura na parede. A primeira coisa que viu foram os dentes brancos, cravados no travesseiro.

— Dói, não é? — Foi mais uma constatação do que uma pergunta.

Um rosto pálido como o de um defunto, suado e com os olhos encovados, olhou para ele.

— Heroína?

O rosto acenou que sim.

— Quer que eu arranje para você?

A cabeça balançou.

— Você sabe que está no lugar errado para quem está tentando parar, não sabe?

O rosto acenou novamente.

— Então o que posso fazer por você?

O garoto umedeceu os lábios com uma língua branca. Sussurrou.

— Hã? — disse Johnny, e se aproximou. Sentiu o hálito podre do outro. Quase não conseguiu decifrar as palavras. Em seguida, endireitou-se e fez que sim. — Como quiser.

Voltou a se deitar e ficou olhando para a face inferior do colchão acima. Era coberto com plástico, para proteger de fluidos corporais. Ouviu o barulho eterno do Centro Ila: a caça constante, passos apressados no corredor, xingamentos, música estrondosa, risadas, portas batendo, gritos desesperados e tráfico agitado ocorrendo logo em frente às portas dos quartos. Mas nada disso abafou o som do choro silencioso e das palavras que o garoto tinha sussurrado:

Não me deixe sair se eu tentar.