O filho
Nota
* Entre 1624 e 1925, Oslo chamava-se Christiania, e entre 1877 e 1897, escrevia-se Kristiania. (N. do
T.)
34
A chuva golpeava o para-brisa quando Simon tirou a chave da ignição e se preparou para correr do estacionamento até o prédio do hospital. Viu uma pessoa loura de casaco na frente do carro. A chuva estava tão forte que quicava no capô, e o homem era apenas um borrão. A porta do lado do motorista foi aberta, e outro homem, de cabelo escuro, pediu que Simon os acompanhasse. Ele olhou para o relógio no painel. Quatro horas. Duas antes do prazo.
Os dois homens o levaram a Aker Brygge, uma zona com lojas, escritórios, alguns dos apartamentos mais caros da cidade e uns cinquenta restaurantes, cafés e bares. Andaram pelo calçadão junto à agua e viram os barcos de Nesoddtangen aportarem quando dobraram em uma das muitas vielas, e continuaram andando até alcançar uma escada de ferro estreita, que descia e levava a uma porta com uma vigia, e o lugar parecia ter algo a ver com frutos do mar. Ao lado da porta havia uma pequena placa com o nome “Restaurante Nautilus” escrito em letras incomumente discretas. Um dos homens segurou a porta, e eles entraram em um corredor apertado onde sacudiram os casacos molhados e os penduraram no cabideiro. Não havia uma pessoa sequer, e a primeira coisa que Simon pensou foi que aquele parecia o típico restaurante usado para lavagem de dinheiro. Não era grande demais, mas tinha um aluguel e uma localização que podiam justificar os lucros, caso alguém perguntasse. Mas ninguém perguntaria, pois lucros sobre os quais impostos são pagos não costumam chamar atenção.
Simon estava molhado. Quando mexia os dedos dos pés dentro dos sapatos, ouvia um borbulho. Mas não era por isso que sentia frio.
A sala de jantar era dividida por um aquário retangular grande, a única fonte de luz do local. Na mesa à frente dele, havia uma figura enorme, sentada de costas para o aquário.
Era por isso, o frio.
Simon nunca o vira em carne e osso antes, mas não teve um segundo de dúvida sobre quem era.
O Gêmeo.
Ele parecia preencher o local inteiro. Simon não sabia se era só por causa do tamanho físico e sua presença evidente, ou por causa do peso do poder e da riqueza que davam àquele homem a possibilidade de decidir o destino de tantos. Ou eram todas as histórias sobre ele que o tornavam ainda maior? Todas as mortes, a crueldade desnecessária e toda a destruição?
O homem apontou de forma quase imperceptível para a cadeira que estava puxada à sua frente. Simon se sentou.
— Simon Kefas — disse o homem, passando o indicador no queixo.
Homens grandes às vezes têm vozes surpreendentemente agudas.
O Gêmeo, não.
O grave ronco de sua voz provocou ondulações na superfície do copo de água em frente a Simon.
— Eu sei o que você quer, Kefas.
Seus músculos incharam-se sob o terno, cuja costura parecia que poderia explodir a qualquer momento.
— E o que eu quero?
— Dinheiro para a cirurgia de Else.
Simon engoliu um nó na garganta quando ouviu o nome de sua amada sair da boca do homem.
— A pergunta é: o que você tem para me oferecer em troca?
Simon pegou o telefone, abriu a caixa de entrada do e-mail, colocou o aparelho na mesa e apertou o play. Ouviu-se o som metálico do arquivo de áudio que ele recebera: “...qual conta bancária, e no nome de quem, Nestor enviava os pagamentos pelos seus serviços? Se eu fosse você, pensaria bem antes de responder.” Pausa, e em seguida outra voz: “A conta é de uma empresa. Dennis Limited, registrada nas Ilhas Cayman.” “E o número, qual é?” Nova pausa. “Oito. Três. Zero.” “Mais devagar, e com mais clareza.”
“Oito. Três. Zero. Oito...”
Simon apertou stop.
— Vou partir do princípio de que você sabe quem estava respondendo essas perguntas.
O grandalhão fez um pequeno gesto que podia significar qualquer coisa.
— É isso que você está oferecendo em troca?
— Recebi esta gravação de um endereço de Hotmail que não consegui rastrear, e na verdade nem tentei. Por enquanto, só eu sei deste arquivo. Uma prova de que o diretor...
— Diretor-adjunto.
— ... da Staten admite ter uma conta secreta, na qual recebe dinheiro de Hugo Nestor. Eu chequei o número da conta, e a informação confere.
— E por que isso teria algum valor para mim?
— O que tem valor para você é que eu não informe à polícia da existência deste arquivo e você perca um aliado importante. — Simon pigarreou. — Mais um aliado importante.
O grandalhão deu de ombros.
— Um diretor-adjunto penitenciário pode ser substituído. Além do mais, parece que Franck já não me serve para mais nada mesmo. O que mais você tem, Kefas?
Simon projetou o maxilar.
— Tenho provas de que você lavou dinheiro para a Iversen Empreendimentos. Também tenho o DNA que faz a ligação entre Iver Iversen e uma garota vietnamita que vocês traficaram e mataram, e por cujo crime vocês fizeram Sonny Lofthus cumprir pena.
O grandalhão passou dois dedos no queixo.
— É, ouvi dizer. Continue.
— Posso dar um jeito para que nenhum desses casos seja investigado, se eu receber o dinheiro para a cirurgia.
— De quanto estamos falando?
— Dois milhões de coroas.
— Você podia chantagear Iversen para obter esse dinheiro. Por que veio até mim?
— Porque eu quero mais do que dinheiro.
— O que mais você quer?
— Quero que deixe o garoto em paz.
— O filho de Lofthus? Por quê?
— Porque Ab Lofthus era meu amigo.
O grandalhão olhou para Simon por um instante. Então inclinou a cadeira para trás e bateu com o dedo no vidro do aquário.
— Parece um aquário comum, não é? Mas você sabe quanto custa aquele peixe cinza, que parece uma espadilha, Kefas? Não, não sabe, porque não quero que o Departamento de Fraudes saiba que alguns colecionadores estão dispostos a pagar milhões de coroas por ele. Não é um peixe impressionante nem muito bonito, mas é incrivelmente raro. O preço é determinado por quanto ele vale para um indivíduo. Quem oferece mais.
Simon se ajeitou na cadeira.
— A questão — prosseguiu o grandalhão — é que eu quero o garoto Lofthus. Ele é um peixe raro e tem um valor para mim maior do que para outros compradores. Porque ele matou minhas pessoas e roubou meu dinheiro. Você acha que eu comandaria essa cidade por vinte anos se deixasse as pessoas se safarem por esse tipo de coisa? Ele se tornou um peixe que eu simplesmente preciso ter. Sinto muito, Kefas. Podemos lhe dar o dinheiro, mas o garoto é meu.
— O garoto só quer o informante que traiu o pai dele. Depois disso, ele desaparece.
— Por mim, ele pode pegar aquela toupeira. Não preciso mais do informante, e ele já deixou de operar há doze anos. Mas nem eu descobri quem era. Trocávamos dinheiro por informação em anonimato. E por mim estava tudo bem, pois recebia pelo que pagava. E você também pode receber, Kefas. A visão de sua esposa, não é?
— Como queira — retrucou Simon, e se levantou. — Se você continuar a perseguir o garoto, vou procurar meu dinheiro em outro lugar.
O grandalhão deu um suspiro pesado.
— Acho que você não entendeu muito bem esta negociação aqui, Kefas.
Simon viu que o homem louro também tinha se levantado.
— Como um apostador experiente, você deveria saber que primeiro se deve analisar as cartas cuidadosamente antes de decidir jogar — comentou o grandalhão. — E que depois é tarde demais.
Simon sentiu a mão do louro no seu ombro. Resistiu ao impulso de empurrá-la. Sentou-se novamente. O grandalhão inclinou-se sobre a mesa. Tinha cheiro de alfazema.
— Iversen me contou que você falou para ele do DNA. E agora você também tem esse arquivo de áudio. Isso significa que você tem contato com o garoto, não é? É você que vai nos ajudar a apanhá-lo. Ele, e o dinheiro que roubou de nós.
— E se eu me recusar?
O grandalhão suspirou novamente.
— Do que temos mais medo, Kefas? De morrer sozinho, não é? A verdadeira razão para você estar fazendo isso é sua mulher, é porque você quer que ela o veja morrer. Pois nos convencemos de que assim a morte é menos solitária, não é? Então imagine uma morte ainda mais solitária do que ao lado de uma mulher cega, mas que pelo menos está viva...
— O quê?
— Bo, mostre para ele.
O louro segurou o telefone na frente de Simon. Era uma foto. Ele reconheceu o quarto de hospital. A cama. A mulher dormindo na cama.
— O mais interessante não é que sabemos onde ela se encontra agora — observou o grandalhão —, mas que a encontramos, não é? Apenas uma hora depois que Iversen entrou em contato conosco. Isso significa que a encontraremos onde quer você tente escondê-la.
Simon pulou da cadeira com a mão direita a caminho do pescoço do grandalhão, mas terminou em um punho que a segurou com tanta facilidade como se fosse uma borboleta. E agora o punho se fechava lentamente ao redor da mão dele.
— Você vai ter que decidir quem valoriza mais, Simon. A mulher com quem divide sua vida ou esse vira-lata que você adotou.
Simon engoliu em seco. Tentou ignorar as dores, o som das juntas da mão sendo moídas, mas sabia que as lágrimas de dor o denunciavam. Piscou uma vez. Duas. Sentiu uma lágrima morna descer pelo rosto.
— Ela tem que ir para os Estados Unidos dentro de dois dias — sussurrou ele. — Preciso ter o dinheiro para pagar à vista antes de ela embarcar.
O Gêmeo soltou sua mão, e Simon ficou tonto quando o sangue voltou a circular, apenas intensificando a dor.
— Ela estará em um avião assim que você entregar o garoto e o que ele roubou — disse o grandalhão.
O louro acompanhou Simon até a saída. Havia parado de chover, mas o ar ainda estava pesado e úmido.
— O que vão fazer com ele? — perguntou Simon.
— Você não quer saber. — O louro sorriu. — Foi um prazer fazer negócios com você.
A porta foi fechada e trancada na frente de Simon.
Ele saiu da viela. Tinha começado a escurecer. Pôs-se a correr.
Martha estava sentada com o rosbife à sua frente. Seu olhar passou por cima das taças altas de vinho, das cabeças do outro lado da mesa, das fotos de família na mesa em frente à janela, das macieiras no jardim, molhadas de chuva, e em direção ao céu, para a escuridão que estava a caminho.
O discurso de Anders foi bonito, sem dúvida. Ela viu que uma das tias precisou enxugar uma lágrima.
— Martha e eu decidimos nos casar no inverno — disse ele —, pois sabemos que nosso amor derrete todo o gelo, que os corações de nossos amigos aquecem qualquer local e que o cuidado, orientação e sabedoria de sua... de nossa família será toda a luz de que precisamos para iluminar nosso caminho pela escuridão do inverno. E, é claro, tem também outra razão... — Anders apanhou a taça e se virou para ela, que somente no último momento conseguiu desprender-se do céu noturno para retribuir o sorriso. — Simplesmente não aguentamos esperar até o verão!
Risadas felizes e aplausos preencheram o local.
Anders pegou a mão de Martha. Apertou-a com força e sorriu, seus belos olhos brilhando como o mar, e ela sabia que ele estava ciente da impressão que causava. Em seguida, se inclinou como se estivesse comovido e lhe deu um rápido beijo na boca. A mesa celebrou. Ele ergueu a taça.
— Saúde!
Ele se sentou. Olhou para Martha e deu aquele sorriso particular. O sorriso que contava aos doze convidados à mesa que eles tinham algo especial, algo que era só deles. Mas só porque ele estava fazendo isso para os convidados na galeria, não queria dizer que não fosse verdade. Os dois realmente tinham algo especial, algo só deles. Estavam juntos fazia tanto tempo que era fácil esquecer todos os momentos bons que tiveram. Também tiveram problemas, mas lutaram para superá-los e saíram ainda mais fortes. Ela gostava de Anders, gostava mesmo. Claro que gostava, senão não teria aceitado se casar.
O sorriso dele ficou um pouco mais rígido e dizia que ela bem que poderia mostrar mais entusiasmo e ajudá-lo um pouco nessa ocasião em que tinham convidado suas famílias para anunciar os planos de casamento. Fora ideia de sua sogra, e Martha não tivera forças para protestar. Então a mãe de Anders se levantou e bateu de leve na taça. Foi como se alguém tivesse apertado o botão de silêncio. Não só porque os convidados estavam ansiosos para ouvir o que ela tinha a dizer, mas também porque ninguém queria ser queimado pelo olhar fulminante de uma sogra.
— Também estamos muito felizes porque Martha desejou que a cerimônia fosse realizada na Catedral de São Paulo.
Martha quase não conseguiu segurar a tosse. Como assim, ela desejou?
— Como vocês sabem, nossa família é católica. E, embora em outros países a renda e o nível de instrução dos protestantes sejam superiores, este não é o caso na Noruega. Aqui, os católicos é que são a elite. Bem-vinda ao time vencedor, Martha.
Martha sorriu da piada, que ela na verdade sabia muito bem que não era piada. Continuou a ouvir a voz de sua futura sogra, mas era como se não estivesse mais presente. Precisava escapar. Fugir para aquele outro lugar.
— Em que está pensando, Martha?
Ela sentiu os lábios de Anders no cabelo e no lóbulo da orelha. Conseguiu sorrir porque estava a ponto de começar a rir. Rir da cena que imaginara: que se levantava e contava para ele e para os convidados no que estava pensando, que se via deitada nos braços de um assassino, numa rocha sob o sol, enquanto uma tempestade vinha do fiorde em sua direção. Mas isso não significava que não amasse Anders. Ela dissera sim. Dissera sim porque o amava.